domingo, 1 de maio de 2011

Debate Olavo de Carvalho X Aleksandr Dugin: 3ª Réplica, de Aleksandr Dugin

O Ocidente e seu duplo
 
por Aleksandr Dugin

Algumas precisões


Para dizer a verdade, estou um pouco desapontado com esse debate com o Sr. Olavo de Carvalho. Pensei que encontraria nele um representante dos filósofos brasileiros tradicionalistas na linha de Guénon e Évola, mas ele acabou por se mostrar algo muito diferente e muito esdrúxulo de fato. 

Também estou triste com seus ataques agressivos e histéricos contra meu país, minha tradição e contra mim pessoalmente. É algo que eu não estava preparado para encontrar. Se eu soubesse de seus modos de conduta antes, eu não teria concordado em participar deste debate – eu não gosto desse tipo de acusações vazias e de insultos diretos, de forma que continuarei somente devido à obrigação diante dos gentis jovens tradicionalistas que me convidaram a entrar neste desagradável tipo de diálogo – que em outras circunstâncias eu preferiria evitar.

Para começar, há algumas observações curtas a respeito de algumas afirmações do Sr.Carvalho:

« A ciência política, como já afirmei, nasceu no instante em que Platão e Aristóteles distinguiram entre o discurso dos agentes políticos em conflito e o discurso do observador científico que tenta compreender o que se passa entre eles. É certo que com o tempo os agentes políticos podem aprender a usar certos instrumentos do discurso científico para seus próprios fins; é certo também que o observador científico pode ter preferências pela política deste ou daquele agente. Mas isso não muda em nada a validade da distinção inicial: o discurso do agente político visa a produzir certas ações que favoreçam a sua vitória, o do observador científico, a obter uma visão clara do que está em jogo, compreendendo os objetivos e meios de ação de cada um dos agentes, a situação geral onde a competição se desenrola, quais seus desenvolvimentos mais prováveis e qual o sentido dos acontecimentos no quadro mais amplo da existência humana.

Essa tese é derrubada por Marx em sua análise da ideologia como a base implícita da ciência como tal[1]. Não sendo eu um marxista, estou, no entanto, seguro de que essa observação é correta.

« A função do observador científico torna-se ainda mais distinta da dos agentes quando ele não quer nem pode tomar partido de nenhum deles e se mantém à distância necessária para descrever o quadro com o máximo de realismo ao seu alcance.»

Eu objeto que isso é simplesmente impossível. Não há nenhum lugar dentro da esfera do pensamento que pode ser completamente neutro em termos políticos. Todo pensamento humano é motivado e orientado politicamente. O desejo de poder permeia a natureza humana até suas profundezas. A distância evocada pelo Sr. Carvalho é ontologicamente impossível. Platão e Aristóteles eram ambos politicamente engajados não só na prática, mas também na teoria.

«As fotografias que, a título de condensação humorística, anexei à minha primeira mensagem, documentam toda a diferença entre o agente político investido de planos globais e meios de ação em escala imperial e o observador científico não só desprovido de uma coisa e da outra, mas firmemente decidido a rejeitá-las e a viver sem elas até o fim dos seus dias, já que são desnecessárias e inconvenientes à missão de vida que ele escolheu e que é, para ele, a única justificativa razoável da sua existência.»

O ultraje demonstrado um pouco antes contra o pólo “Russo-Chinês” e a identificação completamente ridícula entre eurasianismo e comunismo é um testemunho brilhante da extrema parcialidade do Sr. Carvalho. A avaliação das grandes forças globais é baseada no pressuposto de uma escala que poderia ser tomada como medida – a quantidade de seres humanos mortos. Isso não é tão evidente e é, na verdade, antes um exemplo de anticomunismo político e de propaganda anti-russa que o resultado de uma “análise científica”. Sim, eu sou um agente político do Weltanschauung eurasiano. E ao mesmo tempo sou um analista político e um cientista. Os dois aspectos não são completamente correspondentes. Em meus cursos na Faculdade de Sociologia da Universidade Estatal de Moscou[2], onde eu presido a cadeira do departamento de Sociologia das Relações Internacionais, eu nunca professo minhas próprias visões políticas e sempre forneço o espectro completo das possíveis interpretações políticas dos fatos, mas não insisto em um ponto de vista concreto, sempre ressalto que há uma escolha. Ao mesmo tempo, essa escolha é, não apenas uma liberdade, mas também uma obrigação. Você é livre para escolher, mas você não é livre para não escolher. Não há nunca algo como “neutralidade” política ou ideológica. Portanto, é um tanto incorreto apresentar o Sr. Carvalho como “neutro” ou “imparcial” ao passo que eu sou “engajado” ou “ideologicamente motivado”. Somos ambos ideologicamente engajados e cientificamente envolvidos. Assim, eu continuo a considerar nossas fotos, não como “Professor x Guerreiro” mas sim como “dois professores/guerreiros um contra o outro”.  Finalmente, nos braços do Sr. Carvalho há uma arma. Não uma cruz, por exemplo.  E, a propósito,  há algumas fotos minhas segurando uma grande cruz durante cerimônias religiosas. Assim, isso nada ilustraria. Nossas religiões são diferentes como nossas civilizações são.

Tanto eu quanto o prof. Duguin estamos desempenhando nossas tarefas respectivas com o máximo de dedicação, seriedade e honestidade. Mas essas tarefas não são a mesma. A dele é recrutar soldados para a luta contra o Ocidente e a instauração do Império Eurasiano universal. A minha é tentar compreender a situação política do mundo para que eu e meus leitores não sejamos reduzidos à condição de cegos em tiroteio no meio do combate global; para que não sejamos arrastados pela voragem da História como folhas na tempestade, sem saber de onde viemos nem para onde somos levados.

Concordo aqui com um ponto. É verdade que “recrutar soldados para a luta contra o Ocidente e a instauração do Império Eurasiano universal.” é minha meta. Mas isso é possível somente após ter obtido a visão correta da situação global do mundo baseando-me numa precisa análise do equilíbrio de suas forças e de seus atores principais. Portanto, até o momento o Sr. Carvalho e eu temos estritamente a mesma tarefa. Se nossa compreensão das forças  dominantes do mundo e de sua identificação é diferente isso não significa automaticamente que eu sou motivado exclusivamente pela escolha política e geopolítica e que ele é motivado pelo raciocínio puramente “neutro” ou “científico”. Estamos ambos tentando entender o mundo no qual vivemos, e presumo que estamos ambos fazendo-o honestamente. Mas nossas conclusões não batem. Me questiono o porquê disso e tento encontrar razões mais profundas que o simples e óbvio fato do meu envolvimento politico e ideológico.  Nós dois queremos fazer nosso mundo melhor e não pior. Mas temos diferentes visões sobre o que é Bom e o que é Mal. Eu me questiono onde se assenta a diferença.

Creio que isso é um tanto resultado da divergência de nossas civilizações; temos respectivamente diferentes ontologias, antropologias e sociologias. Assim, a culpabilização e a demonização de um ao outro é o resultado de posições “etnocêntricas” necessárias e não argumentos finais para a escolha de um mal menor.

Ele emprega todos os instrumentos usuais da propaganda política: a simplificação maniqueísta, a rotulação infamante, as insinuações pérfidas, a indignação fingida do culpado que se faz de santo e, last not least, a construção do grande mito soreliano – ou profecia auto-realizável –, que, simulando descrever a realidade, ergue no ar um símbolo aglutinador na esperança de que, pela adesão da platéia em massa, o falso venha a se tornar verdadeiro.

Ressaltando o pressuposto fato do “genocídio” comunista russo-chinês o Sr. Carvalho joga exatamente o mesmo jogo da propaganda política pura, ou seja, joga com a falsa sensibilidade humanitária do público ocidental, sem reparar, a propósito, no genocídio planejado, real e existente aqui e agora, que está sendo conduzido no Afeganistão, no Iraque ou na Líbia ou pelos assassinos sangrentos americanos (estou imitando aqui o estilo muito “científico” de política imposto pelo Sr. Carvalho).

« Não digo, é claro, que o prof. Duguin seja desonesto. Mas ele está se devotando honestamente a um tipo de combate que, por definição e desde que o mundo é mundo, é a encarnação da desonestidade por excelência. »

Eu acho essa tese realmente estúpida. Eu não digo que o Sr. Carvalho é estúpido, de forma alguma. Mas eu sinto sinceramente que a usurpação do direito de julgamento moral global em tais casos, dizendo o que é «honesto» ou «desonesto» cabe perfeitamente na antiga tradição da estupidez extrema. Assim, ao ser  astuto e sagaz, o Sr. Carvalho conscientemente fornece um argumento muito estúpido com o fim de ficar mais próximo do público da direita americana «cristã» que ele tenta influenciar.

E um ponto filosófico:

No entanto, a técnica filosófica milenar, que aquelas pessoas desconhecem por completo, ensina que as definições de termos expressam apenas essências gerais abstratas, possibilidades lógicas e não realidades.

A questão sobre o que é a realidade e como ela corresponde a “definições” ou “idéias” varia consideravelmente nas várias escolas filosóficas. O termo “realidade” em si mesmo é baseado na palavra latina “res”, “re”, “coisa”. Mas a palavra falha no grego. Em Aristóteles não encontramos tal palavra – ele fala sobre pragma (ação), energia, , mas principalmente sobre “on”, o ser. Portanto a «realidade» como algo independente da mente (ou parcialmente dependente – em Berkeley[3], por exemplo) é um conceito ocidental e pós-medieval e não algo universal.  Diferentes culturas não sabem o que “a realidade” significa. É um conceito, nada mais. Um conceito entre tantos outros. Portanto, sua imposição como algo universal e ostensivo é um tipo de «racismo» intelectual. Antes de falar em “realidade” precisamos estudar cuidadosamente uma determinada cultura, civilização, “ethnos” e linguagem. A regra Sapir-Whorf, a tradição da antropologia cultural de F. Boaz e a antropologia estrutural de C.Levy-Strauss nos ensina a ser muito cuidadosos com palavras que tem um significado completo e evidente somente num contexto concreto. A cultura russa ou chinesa tem diferentes entendimentos do que seja «realidade», «fatos», «natureza», «objeto». As palavras correspondentes tem seu próprio significado. O dualismo sujeito/objeto é um característica um tanto específica do Ocidente. A «essência lógica» é outro conceito puramente occidental. Há outras filosofias com diferentes estruturas conceituais – islâmica, hindu, chinesa.  

De uma definição não se pode jamais deduzir que a coisa definida existe.

Provar a existência não é uma tarefa fácil. A filosofia de Heidegger e antes dele a fenomenologia husserliana tentaram abordar, como sucesso problemático, a “existência” como tal.

 “Para isso é preciso quebrar a casca da definição e analisar as condições requeridas para a existência da coisa. Caso essas condições não se revelem autocontraditórias, excluindo in limine a possibilidade da existência, ainda assim essa existência não estará provada. Será preciso, para chegar a tanto, colher no mundo da experiência dados factuais que não somente a comprovem, mas que confirmem sua plena concordância com a essência definida, excluindo a possibilidade de que se trate de outra coisa bem diversa, coincidente com aquela tão-somente em aparência.”

Esse é um tipo de abordagem positivista completamente descartada pelo estruturalismo e pelo Wittgenstein tardio[4]. É  uma afirmação filosoficamente ridícula e muito ingênua. Mas todas essas considerações são detalhes de pouca importância. Todo o texto de Carvalho é tão cheio de afirmações pretensiosas e incorretas (ou completamente arbitrárias) que não eu não posso mais seguir. É um tanto maçante. Prefiro ir direto ao ponto essencial:

O que é que o Sr. Carvalho odeia?

O texto do Sr. Carvalho transpira um ódio profundo. É um tipo de ressentimento [5] (no sentido nietszcheano) que lhe dá uma aparência peculiar. O ódio é em si mesmo completamente legítimo. Se não podemos odiar, não podemos amar. A indiferença é muito pior. Assim, o ódio que dilacera o Sr. Carvalho é algo a se elogiar.  Busquemos então o que é que ele odeia e por que ele o faz. Ao ponderar sobre suas palavras eu chego à conclusão de que ele odeia o Oriente como tal.

Isso explica a estrutura de seu ressentimento.  Ele ataca a Rússia e a sua cultura holística (que ele descarta com um gesto de indignação), o Cristianismo Ortodoxo (que ele considera “mórbido”, “nacionalista” e “totalitário”),  a China (com seu padrão coletivista), o Islam (que para ele é equivalente à “agressão” e “brutalidade”),  o Socialismo e o Comunismo (no tempo da Guerra Fria eram sinônimos e Oriente), a Geopolítica (a qual ele arrogantemente nega o status de ciência), a hierarquia e a ordem tradicional vertical, os valores militares... em seu ódio histérico contra tudo isso ele encontra seu alvo em minha pessoa.  Portanto, ele me odeia e faz com que isso seja sentido. Estará ele correto em ver em mim e no Eurasismo a representação consciente de tudo isso? Serei eu o Oriente e o defensor dos valores orientais? Sim, isso é exato. Portanto, o seu ódio está corretamente direcionado porque tudo o que ele odeia eu amo e estou pronto para defender e afirmar. Para mim é um tanto difícil insistir na grandeza de meus valores. Muitos outros pensadores descreveram metodicamente os aspectos positivos do Oriente: ordem, holismo, hierarquia e a essência negativa do Ocidente e sua degradação. Por exemplo, Guénon  [6]. Certamente ele não tinha muito entusiasmo a respeito do comunismo e o coletivismo, mas a origem da degradação da civilização ele via exclusivamente no Ocidente e na cultura ocidental, precisamente no individualismo ocidental (ver «A Crise do Mundo Moderno»[7] ou «O Oriente e o Ocidente»[8]). É óbvio que as sociedades orientais modernas têm muitos aspectos negativos. Mas eles são em sua maioria resultados da modernização, ocidentalização e a perversão das tradições ancestrais.

Em minha juventude (no começo da década de 80) eu fui anticomunista no sentido guenoniano/evoliano. Mas, após ter conhecido a civilização moderna do Ocidente e especialmente depois do fim do comunismo eu mudei minha mente e revisei esse tradicionalismo descobrindo o outro lado da sociedade socialista, que é uma paródia da verdadeira Tradição, mas  ainda assim é muito melhor que a absoluta ausência de Tradição no mundo Moderno e Pós-Moderno.

De maneira que eu amo o Oriente em geral e culpo o Ocidente. O Ocidente agora está se expandindo pelo planeta e a globalização é ocidentalização e americanização. Portanto, eu convido todo o resto a entrar em campo e lutar o Globalismo, a Modernidade/Hipermodernidade[9], O Imperialismo Yankee, o Liberalismo, a religião do Livre Mercado e o Mundo Unipolar[10]. Estes fenômenos são o último ponto do caminho do Ocidente em direção ao abismo, a ultima estação do mal e a imagem quase transparente do anticristo/ad-dadjal/erev rav. O Ocidente é o centro da Kali-Yuga, seu motor e seu coração.

O Sr. Carvalho culpa o Oriente e ama o Ocidente. Mas começa aqui uma certa assimetria. Eu amo o Oriente como um todo, incluindo seus lados obscuros. O amor é forte, um sentimento muito forte. Você não ama somente os aspectos puros do ser amado, você o ama completamente.  Somente tal amor é amor real. O Sr. Carvalho ama o Ocidente, mas não todo o Ocidente, só uma parte. Ele rejeita a outra parte. Para explicar muito de sua atitude diante do Oriente ele apela a uma Teoria da Conspiração. Cientificamente isso é inadmissível e desacredita  imediatamente a tese do Sr. Carvalho nesse debate, mas nesse debate eu não acho que a correção científica signifique muito. Eu não tento agradar ou convencer alguém. Eu estou interessado somente na verdade (vincit omnia veritas). Se o Sr. Carvalho prefere fazer uso de Teoria da Conspiração. Deixemo-lo fazer.

A Conspirologia – Versão Olavo de Carvalho

A Teoria da Conspiração exposta pelo Sr. Carvalho é, no entanto, banal e rasa. Existem muitas outras teorias de tipos mais extravagantes e brilhantes em seu idiotismo. Eu escrevi um volume grosso sobre a Sociologia da Teoria da Conspiração[11] descrevendo versões muito mais estéticas[12] como por exemplo as que estão reunidas nos livros de Adam Parfrey [13]: “Extraterrestres dominando o mundo” ou então o “governo reptiliano" de  David Icke’s[14] ou ainda os seres subterrâneos ou «Deros»  de R.Sh.Shaver[15] que foram evocados de forma impressionante no filme japonês «Marebito» de Takashi Shimitsu. Mas temos o que temos. Tentemos encontrar uma razão para que um professor brasileiro-americano sério aceite o risco de parecer um tanto lunático ao apelar para teorias da conspiração.

Parece que eu sei a resposta. O lado sério desse argumentação não tão séria consiste na necessidade de o Sr. Carvalho diferenciar o Ocidente que ele ama, daquele que ele não ama. Portanto, Sr. Carvalho demonstra ser idiossincrático. Ele não somente detesta o Oriente (e consequentemente o Eurasianismo e a mim mesmo), mas também odeia parte do Ocidente. Para delimitar a fronteira no Ocidente ele usa a conspiração e o termo «Consórcio» ele poderia usar também «Sinarquia», «Governo Global» e assim por diante.  Aceitemo-lo  por enquanto, de maneira que concordaremos sobre o “Consórcio”.

A descrição do «Consórcio» é surpreendemente correta. Pode ser que o sentimento de correção de minha parte, no que concerne à análise pode ser explicado pelo fato de que desse vez eu compartilho com o Sr. Carvalho de seu ódio. do Sr. Carvalho. Assim, eu concordo com a descrição caricata da elite globalista e com todas as furiosas imagens a ela aplicadas. Aqui nosso ódio coincide. O Sr. Carvalho afirma que o Consórcio tem o controle do mundo contra a vontade e o interesse de todos os povos, suas culturas e tradições. Concordo com isso.  Talvez os mitos Fabiano e de Rothschild sejam muito simplistas e ridículos, mas a essência é verdadeira. Existe de fato algo como uma elite global e ela está agindo.  

Essa elite, no entanto, trabalha com uma infraestrutura ideológica, econômica e geopolítica concreta. Em outras palavras, essa elite é historicamente e geograficamente identificada e ligada a um conjunto especial de valores e instrumentos. Todos esses valores e instrumentos são absolutamente ocidentais. A raízes dessa elite remontam à Modernidade Européia, ao Iluminismo e ao surgimento da burguesia (see W.Sombart[16]). A ideologia dessa elite é baseeada no individualismo e no hiper-individualismo (G.Lipovetsky[17], L.Dumont[18]). A base econômica dessa elite é o Capitalismo e o Liberalismo. O “Ethos” dessa elite é a Livre Competição. O suporte militar e estratégico dessa elite é, desde o primeiro quarto do século XX, os EUA, e depois do fim da Segunda Guerra Mundial – a Aliança do Atlântico. Assim, a elite global, ainda que seja chamada de “Consórcio", é Ocidental e concretamente Norte Americana.

A guerra eurasiana contra o Consórcio

Vendo isso claramente, eu, como representante consciente do Oriente, faço um apelo à humanidade para a consolidação de todos os tipos de alternativas e para resistir à Globalização e à Ocidentalização a ela relacionada.  Faço esse apelo primeiramente aos russos, meus compatriotas, convidando-os à rejeitar à corrupta elite pró-globalista, pró-ocidental que agora domina meu país e a retornar à Tradição espiritual da Rússia (Cristianismo Ortodoxo e Império multi-étnico). Ao mesmo tempo eu convido os povos muçulmanos e sua comunidade, bem como todas as outras sociedades tradicionais: chinesa, hindu, japonesa, etc. a unir-se a nós nessa batalha contra a Globalização, Ocidentalização e contra a Elite Global. O inimigo está lutando com novos meios – com armas informacionais pós-modernas, com instrumentos financeiros e com um rede global. Deveríamos ser capazes de combatê-los na mesma base e de apropriar-nos da arte da ofensiva em rede. Espero sinceramente que os latinoamericanos e também alguns norte-americanos honestos entrem na mesma luta contra essa elite, contra a pós-modernidade e contra a unipolaridade, pela Tradição, pela solidariedade social e pela justiça social.   S.Huntington[19] costumava usar a frase «o Ocidente contra o Resto». Identifico-me com o Resto e o incito a manter-se de pé contra o Ocidente.  Exatamente como os primeiros eurasianistas fizeram (N.S.Trubetskoy, P.N.Savitsky e outros).

Creio que para ser concreta e operacional a posição do Sr. Carvalho deveria ser ou conosco (o Oriente e a Tradição) ou com eles (o Ocidente e a Modernidade, com a modernização). Ele obviamente recusa tal escolha fingindo que há uma “terceira posição”. Ele prefere odiar e não lutar. Odiar o Oriente e odiar a Elite Globalista. Essa é sua decisão pessoal ou talvez a decisão de um certa direita cristã norte americana, que é, no entanto, muito marginal ou sem interesse para mim.

Perdendo o restante de sua coerência, o Sr. Carvalho tenta fundir tudo o que ele odeia e um objeto. Então, ele indica que a Elite Globalista e o Oriente (eurasianismo) são vinculados.  É uma teoria da conspiração nova e puramente pessoal. Ele podia ampliar a panóplia com outra extravagâncias que poderiam soar algo como: “a Elite Globalista mesma é dirigida por um diabólico centro no Oriente” ou então “O Oriente (e o socialismo) é um ventríloquo nas mãos de diabólicos banqueiros e de fanáticos da CFR, da Comissão Trilateral, e assim por diante”. Parabéns. É muito criativo. A livre fantasia operando.

O que é que o Sr. Carvalho ama?

Nesse ponto eu preferiria encerrar o debate. Mas acho que é possível prestar um pouco mais de atenção às forças «positivas» descritas por Carvalho como sendo vítimas da Elite Global. Elas representam o que o Sr.Carvalho ama. Isso é importante.

Ele lhes dá nomes: Cristianismo Ocidental (do tipo ecumenista – vide sua descrição de sua visita à Igreja Metodista, sendo ele um católico romano), o Estado Judeu Sionista e os and Direitistas nacionalistas americanos (presumo que ele exclua os neocons da lista acima, uma vez que estes evidentemente pertencem à elite global). Ele também admira os singelos americanos do campo (que eu pessoalmente também acho bem simpáticos).

Esse conjunto de exemplos positivos é eloqüente. É a trivia do direitismo americano. Poderíamos considerá-lo como o lado direito do Ocidente moderno, ou melhor, o lado “paleoconservativo” do Ocidente moderno. Historicamente eles são perdedores em todos os sentidos. Eles perderam (como o demonstra P. Buchanan[20] ) a batalha pelos EUA, e inclusive pelo Partido Republicano, onde as principais posições foram tomadas pelos neoconservadores com clara visão globalista e imperialista[21] (vide também PNAC[22]). Eles são perdedores diante da elite globalista que controla atualmente  ambos os partidos políticos nos EUA. Eles estão vivendo num passado que imediatamente precede o real momento pós-moderno e globalista. Ao mesmo tempo eles não têm a força interna para aderir a uma Revolução Conservadora[23] – seja no estilo evoliano ou no sentido europeu mais amplo. [24]
O ontem do Ocidente preparou o hoje do Ocidente como um Ocidente Global. Os valores ocidentais de ontem, incluindo o cristianismo ocidental, prepararam os valores hipermodernos de hoje.  Pode-se rejeitar esse ultimo passo, mas o passo precedente que vai  na mesma direção não pode ser considerado uma alternativa séria.

O cristianismo occidental enfatizou o individuo como o centro da religião e fez da salvação uma assunto estritamente individual.  O Protestantismo levou essa tendência ao seu fim lógico.  Negando cada vez mais a ontologia holística da sociedade orgânica do cristianismo ocidental, desembocou-se, na Modernidade, na auto-negação (deísmo, ateísmo, materialismo, economicismo). O  sociólogo francês Luis Dumont em seus excelente livros: «Essai sur l'Individualism»[25] e «Homo Aequalis»[26] demonstra que o individualismo metodológico é o resultado do esquecimento e da expurgação direta por parte dos escolásticos ocidentais da tradição teológica greco-romana inicial e original que foi conservada intacta em Bizâncio e na Igreja Oriental como um todo. Essa visão social da Igreja como o corpo de Cristo no catolicismo é mais desenvolvida que no Protestantismo, e no Catolicismo da América Latina mais que em outros lugares. O Catolicismo foi imposto pela força no tempo da colonização, mas o espírito das cultura aborígines e a atitude sincrética das elites espanholas e portuguesas deu origem a uma forma religiosa especial de Catolicismo – mais holístico que o da Europa e muito mais tradicional que o Protestantismo que é extremamente individualista. O Sr. Carvalho prefere o tipo Ocidental de cristianismo que era, de acordo com L.Dumont e W.Sombart (assim como também M.Weber[27]), o precursor do secularismo moderno.  

Algumas palavras sobre o Estado Judeu. Do ponto de vista da quantidade de violência o terno amor do Sr. Carvalho ao Sionismo é bem tocante.  A inconsistência de sua visão encontra aqui seu apogeu. Eu não tenho nada contra Israel, mas a crueldade na repressão aos palestinos é evidente. Em Israel há tradicionalistas e modernistas, forças antiglobalistas e representantes da elite global. O fronte antiglobalista é formado  pelos grupos religiosos anti-americanos, anti-liberais e anti-unipolar e pelas círculos da esquerda anti-capitalista e anti-imperialista. Eles podem ser bons, quer dizer, “Eurasianos” e “Orientais”[28]. Mas o Estado Judeu em si mesmo não é algo «tradicional». Como um todo é uma entidade capitalista moderna e atlantista e um aliado do imperialismo americano.  Israel já foi diferente em outros tempos e poderá ser diferente no futuro. Mas no presente está bem do outro lado da batalha. Além disso, as teorias da conspiração (consórcio e tal) incluem quase sempre banqueiros judeus no coração da elite globalista ou da conspiração mundial. Permanece um mistério o porquê de Sr. Carvalho modernizar a teoria da conspiração excluindo os judeus da versão principal.

Minha opinião: os paleoconservadores americanos estão condenados. O discursos deles é incoerente, fraco e muito idiossincrático.

Se alguns bravos e honestos norte americanos quiserem lutar contra a elite globalista como o ultimo estágio da História Ocidental, como fim da história, por favor se unam às nossas tropas eurasianas. Nossa luta é, em certo sentido, universal, assim como é universal o desafio globalista. Temos diferentes tradições, mas ao defendê-las confrontamos o inimigo comum de qualquer tradição. Assim, exploraremos nossas respectivas zonas de influência no mundo multipolar somente depois da nossa vitória comum sobre a Besta. A Besta americana-atlantista-liberal-globalista-capitalista-pós-moderna.

Houve um tempo em que o Ocidente teve sua própria Tradição. Perdeu-a parcialmente. Foi contaminada parcialmente por germes venenosos. O Ocidente deveria fazer uma busca em suas profundas raízes ancestrais, mas essas raízes levam ao mesmo passado indo-europeu eurasiano[29], o glorioso passado dos citas, dos celtas, dos sármatas, dos alemães, eslavos, hindus, persas, romanos e suas sociedades holísticas, sua cultura guerreira e hierárquica e aos seus valores místicos e espirituais que nada tinham em comum com a atual e degenerada civilização mercantil e capitalista. 

Para retornar à Tradição precisamos levar à cabo à revolta contra o mundo moderno e contra o Ocidente moderno --  revolta absoluta – espiritual (tradicionalista) e social (socialista). O Ocidente está em agonia. Precisamos salvar o mundo dessa agonia e talvez salvar o próprio Ocidente. O Ocidente Moderno e Pós-Moderno tem que morrer. Se houver valores tradicionais reais em seus fundamentos (e eles certamente existem) salvá-los-emos somente no processo da destruição global da Modernidade/Hiper-modernidade.

Então, os melhores representantes do Ocidente, do Ocidente profundo e nobre deveria ficar com o Resto[30] (ou seja, conosco, eurasianos) e não contra o Resto


É claro que o Sr. Carvalho escolheu o outro campo fingindo que não escolheu nenhum. É uma pena, porque precisamos de amigos. Mas cabe a ele decidir. Aceitaremos qualquer solução – encontrar seu próprio caminho na História, na Política, na Religião e na Sociedade é a dignidade íntima de um homem. 


 
[1] Marx K. the German Ideology.
[2] More than 5 000 students receive the sociological, political science, geopolitical and IR education in our faculty.
[3] Berkeley's Philosophical Writings, New York: Collier, 1974
[4] Wittgenstein L. Philosophische Untersuchungen. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1984.
[5] Scheler, M. Ressentiment im Aufbau der Moralen. Frankfurt am Mein: Vittorio Klostermann, 1978
[6] Guenon Rene. Orient et Occident, Paris, 1924.
[7] Guenon Rene. La crise du monde moderne, Paris, 1927.
[8] Guenon Rene. Orient et Occident, Paris, 1924.
[9] Lipovetsky Gilles. Les temps hypermodernes, Paris, Grasset, 2004.
[10] Krauthammer Charles. Universal Dominion: Toward a Unipolar World// National Interest, Winter 1989/90.
[11] Dugin A. Konspirologiya. M.2005.
[12] See also Barkun, Michael, A Culture of Conspiracy: Apocalyptic Visions in Contemporary America; University of California Press Berkeley, Los Angeles, 2003.
[13] Apocalypse Culture edited by Adam Parfrey Amok Press, 1988; Cult Rapture: Revelations of the Apocalyptic Mind by Adam Parfrey. Feral House, 1995; End Is Near!: Visions of Apocalypse, Millennium and Utopia by Stephen Jay Gould, Roger Manley, Adam Parfrey, Dalai Lama, foreword by Rebecca Hoffberger. Dilettante Press, 1998
[14] Icke D.The Biggest Secret: The Book That Will Change the World. Bridge of Love Publications, 1999.
[15] Mott, Wm. Michael, This Tragic Earth: The Art and World of Richard Sharpe Shaver, TGS/Hidden Mysteries Publishing, 2007
[16] Sombart W. Handler und Helden: Patriotische Besinnungen. Munich, 1915.
[17] Lipovetsky Gilles. L'ère du vide. Essais sur l'individualisme contemporain, Paris, Gallimard, 1983.
[18] Dumont Louis. Essais sur l' individualisme.Paris, Le Seuil, 2002.
[19] Huntington, Samuel P. The clash of civilizations? //Foreign Affairs; Summer 1993.
[20] Buchanan P.The Death of the West: How Dying Populations and Immigrant Invasions Imperil Our Country and Civilization (2002
[21] Buchanan P. Where the Right Went Wrong: How Neoconservatives Subverted the Reagan Revolution and Hijacked the Bush Presidency, 2004.
[22] http://www.newamericancentury.org/statementofprinciples.htm
[23] Evola J. Rivolta contro il mondo moderno, Roma, Edizioni Mediterranee, 1969.
[24] Mohler Armin. Die Konservative Revolution in Deutschland 1918–1932. Ein Handbuch. Graz, 2005
[25] Dumont Louis. Essais sur l' individualisme.Paris, Le Seuil, 2002.
[26] Dumont L. Homo Æqualis I: genèse et épanouissement de l'idéologie économique. Paris: Gallimard/BSH, 1977:Dumont L.  Homo Æqualis II: l'Idéologie allemande. Paris: Gallimard/BSH, 1978.
[27] Weber M. The Protestant ethic and the spirit of capitalism. Translated by Talcott Parson. New York: Charles Scribner's Sons, 1930.
[28] Bromberg Yakob. Evrei y Evraziya. Moskva, Agraf, 2002.
[29] Benoist Alain de. Indo-Européens : à la recherche du foyer d'origine// Nouvelle École, 1997
[30] Benoist Alain de. Europe, Tiers monde, même combat, Robert Laffont, 1986.

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