sexta-feira, 15 de julho de 2011

Arnolt Bronnen: Entre o Comunismo e o Nacional-Socialismo

por Werner Olles

Arnolt Bronnen nasceu em 19 de agosto de 1895 em Viena. Desde muito jovem decidiu mudar seu nome verdadeiro (Arnold Bronner) pelo que anos mais tarde conhecerá a celebridade no mundo das letras. Esta tendência a maquiar a realidade acompanhar-lhe-á ao longo de sua existência. Assim é como converteu-se de judeu vienense em ário-germânico; de cidadão alemão em cidadão austríaco, para voltar à cidadania alemã; de comunista a nacional-revolucionário, mais tarde nacional-socialista, para regressar anos mais tarde ao comunismo.

Após a Grande Guerra, na qual participou como Kaiserjäger (Caçador Imperial) no front do Tirol, onde foi ferido gravemente no pescoço, iniciou sua carreira literária em 1922 com a publicação de uma obra teatral entitulada Vatermord (Parricida), que havia começado a escrever sendo prisioneiro dos italianos. Naquela época Bronnen pertencia a um grupo de dramaturgos, escritores e atores vanguardistas comprometidos com o expressionismo e vinculados a Bertold Brecht, com quem mantinha estreitos laços de amizade. Brecht havia encarregado-se da montagem de dita obra porém, desgraçadamente, abandonou esta iniciativa depois de haver escrito inclusive os arranjos para a encenação.

Após sua estréia em Frankfurt, representou-se em Berlim pela primeira vez em 14 de maio de 1922, a cargo da companhia "Deutscher Theater", convertendo-se em um autêntico escândalo. Sua segunda obra, Anarchie in Sillian (Anarquia em Sillian), levou à maioria dos críticos a considerar que o dramaturgo do futuro não era Brecht, senão Bronnen.

Em 1924 estreou-se sua obra Katalaunische Schlacht (A batalha dos Campos Catalaúnicos) no Grande Teatro de Frankfurt. Um ano mais tarde, Bronnen escreveu Die Rheinischen Rebellen (Os rebeldes renanos), obra que suscitou profundas polêmicas entre a crítica: o autor, conhecido até esse momento com um simpatizante das correntes marxistas, havia passado ao campo do nacionalismo. Bronnen, porém, todavia não havia dado esse passo.

Mais tarde escreveu Ostpolzug (Campanha ao Polo Leste), drama no qual explorava a personalidade de Alexandre o Grande. Em 1925 estreou Exzesse (Excesso) obra com a qual, uma vez mais, provocou um grande alvoroço como consequência de suas cenas e diálogos eróticos Um ano mais tarde estreou Reparationen (Reparações), obra dedicada à resistência nacional contra a ocupação francesa da Renânia e contra o pagamento de reparações de guerra.

Do marxismo ao nacionalismo-revolucionário

Em 1929, Bronnen publicou um romance sobra a Alta Silésia entitulado O.S., onde recria a luta dos Freikorps contra os insurgentes polacos antes de iniciar-se a Primeira Guerra Mundial e do significativo e sangrento assalto dos voluntários alemães contra Annaberg. Tucholsky repreende-o por ter feito um "biscate insensato" e de propagar "mentiras próprias de fascistas de salão". Pelo contrário, Joseph Goebbels, escreveu: "O.S. de Bronnen é o livro que todos gostaríamos de ter escrito." Ernst Jünger considerou este romance como "um primeiro sinal, que indica que nos ambientes de Bronnen, cabe a responsabilidade". Em Der Tag e no Münchener Neueste Nachrichten podia ler-se: "É algo mais que um romance, é uma profissão de fé política de altos voos", enquanto que Alfred Rosenberg, no Völkischer Beobachter chama a atenção sobre Bronnen, porém isso sim, sem deixar de considerá-lo um "bon vivant" e um autor "perigoso".

Politicamente, Bronnen já havia convertido-se em um nacional-revolucionário, próximo ao grupo de intelectuais que expressavam-se em revistas como Die Standarte, Deutsches Volkstum, Arminius, Deutsche Front, Das Dritte Reich, Gewissen, Die Kommanden, Nationalsozialistische Briefe, Der Vormarsch, Der Wehrwolf e Widerstand, as quais pertenciam os irmãos Ernst e Friedrich-Georg Jünger, Friedrich Hielscher, Franz Schauwecker, Ernst von Salomon, Herbert Blank, Otto Strasser, Ernst Niekisch e A.Paul Weber. Como antigo intelectual da esquerda marxista, partidário de uma sorte de socialismo popular e combativo, Bronnen sentiu-se atraído por tais círculos.

No plano profissional, Bronnen começou sua carreira na UFA e na Reichsrundfunkgesellschaft (Sociedade Radiofônica do Reich), ao tempo que rompe os laços que ainda o uniam com os extremistas de esquerda. Após um congresso sob o título "Literatura e Rádio", produz-se uma azeda polêmica com seus colegas, os escritores Alfred Döblin, Walter von Molo, Börries von Münchhausen, Alfons Paquet, Ludwig Fulda, Herbert Euleberg e Arnold Zweig, na medida em que ele era partidário de pôr a rádio "a serviço do povo", "não estava ali para servir aos literatos, senão ao povo", e, em qualquer caso, não devia converter-se em "uma instituição beneficente para escritores aposentados". Para Bronnen, o escritor é tão somente "o instrumento da expressão das idéias da nação".

Em janeiro de 1930 organiza um debate que, com os anos, converter-se-á em emblemático frente aos microfones da Radio Berlim, com Kurt Hiller, dirigende do Grupo de Pacifistas Revolucionários, e Franz Schauwecker, conhecido escritor nacional-revolucionário. Bronnen escreve uma biografia de Von Rossbach, chefe dos Freikorps, e pouco depois, conhece Goebbels, com cuja personalidade fica fascinado. Bronnen converte-se desta maneira no provocador número um da Alemanha. Quando Thomas Mann sustenta em um ato público que a burguesia alemã defende, lado a lado com os social-democratas, as instituições da República de Weimar, Bronnen abandona a sala flanqueado por vinte SA pedindo a dissolução da reunião. Por ocasião da estréia do filme Nada de novo no front, baseada no romance do mesmo nome de Erich Maria Remarque, Bronnen, com sua mulher Olga, uma amiga de Goebbels - que dar-lhe-á uma filha em 1938, Bárbara, que, anos mais tarde, como seu pai, converter-se-á em escritora - e vários camaradas, provocarão um grande alvoroço soltando ratos brancos na sala. Goebbels conhecia a ascendência judia de Bronnen, razão pela qual o responsável da propaganda nazi dar-lhe-á seu apoio diante das denúncias de alguns colegaso que desprezavam-no e de não poucos artigos publicados na imprensa.

A partir da tomada de poder pelos nacional-socialistas em 1933, Bronnen conheceu algumas dificuldades como consequência de sua origem racial. Em um princípio, disse ser filho natural, depois fez-se um estudo antropométrico do crânio para provar seu caráter "ariano". Não participava das idéias de resistência antinazi de alguns de seus antigos amigos nacional-revolucionários e nacional-bolcheviques. Antes de 1933, por exemplo, Bronnen havia protegido Ernst Niekisch contra as injúrias lançadas por Goebbels, porém quando os nazis subiram ao poder Bronnen cuidou-se muito de dar a conhecer sua posição contra o anti-hitlerismo de Niekisch.

Stalingrad: a estrela de Bronnen apaga-se

Bronnen teve muito poder através daso ndas da Radio Berlim. Depurou os profissionais de esquerda, liberais e judeus. Escreveu um romance sobre o ambiente radiofônico, Der Kampf in Äther (Combate pelas ondas), que Alfred Rosenberg chegou inclusive a censurar, por entender que criticava subliminalmente a política cultural nacional-socialista. Meses mais tarde, Bronnen converter-se-á em um pioneiro da televisão, à cabeça de uma pequena equipe que filma os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936.

A estrela de Bronnen, não obstante, começa a apagar-se após a tragédia de Stalingrad. Alfred Rosenberg, inimigo das vanguardas nas artes e na literatura, a quem nunca havia gostado o dandy Bronnen e a quem, definitivamente, considerava um produto da boêmia literária, começa a maquinar. Em uma conversação entre Hitler e aquele, Rosenberg ataca aos literatos "bolcheviques culturais" entocados na retaguarda, enquanto que os jovens soldados alemães regavam com seu sangue o front russo ou congelavam no inverno das estepes. Rosenberg cita dois nomes: Erich Kästner e Arnolt Bronnen. Depois de um processo de intenções e da proibição de toda atividade literária, Bronnen é expulso da Câmara de Escritores do Reich. Quando Bronnen pede explicações por esta sanção, é-lhe respondido que é como consequência de suas antigas atividades e "escandalosas" atividades vanguardistas. Meses mais tarde, por conta de escutas por parte da Gestapo, Bronnen é inclusive detido, como anos mais tarde explicará em sua autobiografia.

Em 1944 Bronnen saiu da Alemanha e instalou-se em Goisern im Salzkammergut, onde reúne-se com um grupo da resistência antinazi, não sem antes vestir o uniforme da Wehrmacht, chegando à Áustra em 8 de maio de 1945. Até 1959, trabalhou como jornalista do diário Neue Zeit de Linz.

Na República Democrática Alemã

A princípios da década de 50 Bronnen traslada-se a Berlim Oriental. Afilia-se ao SED social-comunista e escreve sua autobiografia em 1954, Arnolt Bronnen gibt zu Protokoll, que embelezará a seu gosto. Mais tarde aparecem Deutschland Kein Wintermärchen (Alemanha, não és um pequeno conto de inverno), em 1956, e Tage mit Bert Brecht (Dias junto a Bert Brecht), em 1959. Em 1957, reeditou um de seus velhos livros, o romance Film und Leben der Barbara La Marr (Filme e vida de Bárbara La Marr). A imprensa da República Democrática ataca-o duramente acusando-o de "antissemitismo e pornografia". Fala-se inclusive de "atitude fundamentalmente anti-humana de sua consciência", faz-se alusão a "seus vícios desagradáveis de juventude", de seu "estilo amaneirado", e suas "posturas cínicas e insolentes" nos "baixos estádios da pirâmide literária da época". A nova edição de dito romance foi proibida, o que supôs o imprevisto final da carreira como dramaturgo de Bronnen. Brecht interveio apelando à bondade intrínseca de Bronnen e em memória de sua velha amizade. Brecht oferece a Bronnen a possibilidade de converter-se em crítico teatral, o que permite ao inconformista visceral escapar do muro de silêncio que a exclusão definitiva do mundo cultural representa. Bronnen, não obstante, já não poderá jogar papel político nenhum na República Democrática comunista.

Em 12 de outubro de 1959, Bronnen morreu à idade de 64 anos em Berlim. Durante toda sua vida foi um personagem controvertido: de dramaturgo esquerdista a romancista nacional-revolucionário e nacional-socialista. Arnolt Bronnen encarnou essa mistura de inconformismo, oportunismo e dandismo. Jamais foi um renegado, senão um eterno convertido, responsabilidade, sem dúvida alguma, de sua vocação e seu secreto talento.


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