terça-feira, 5 de julho de 2011

Crítica e Utopia: A Democracia contra o Liberalismo

por Jaume Farrerons

O pensamento crítico tem representado, singularmente desde a Ilustração, um dos motores do desenvolvimento social do Ocidente e um componente essencial da democracia. Crítica, diálogo, racionalidade e poder público democrático são noções estreitamente ligadas tanto na teoria acadêmica como na prática quotidiana. A crítica serve-se do conceito como ferramenta para construir, desde os valores de justiça, liberdade e verdade, imagens racionais de futuros possíveis que permitam confrontar o dado com projeto político progressista. Estamos diante de uma vontade que quer modificar a realidade, sim, porém sempre em função de princípios éticos inerentes à idéia mesma de razão. Este labor de construção ideal frutificou em um conjunto de conquistas sociais que formam parte da identidade européia em quanto conquistas históricas da civilização ocidental. Em efeito, não deve-se confundir a crítica com a utopia, articulada esta ao redor dos valores de felicidade, igualdade e fraternidade. A crítica, quando tem sido autêntica, tem demonstrado sua solvência. Por sua vez, a utopia hedonista tem fracassado uma e outra vez gerando dor e devastação ali onde manu militari queria construir seus paraíses delirantes com mares de laranjada. Ainda assim, e apesar da evidência, atualmente pode-se constatar por todo lugar uma paralisia do pensamento crítico. O argumento do liberalismo triunfante é precisamente o fracasso dosp rojetos utópicos e o alto custo humano que estes projetos supuseram para as sociedades que "morderam" o anzol profético. A armadilha dos representantes do pensamento único está na confusão interessada entre crítica e utopia. Ainda assim, em alguma coisa tem razão o bando liberal, a saber: a esquerda tem sido incapaz de olhar de frente seu passado criminoso, de maneira que a crítica, enquanto fator de progresso social, tem sido aprisionada pela opacidade informativa e pela duplicidade ética até afundar na esterilidade mais absoluta.

Se traduzimos o dito à linguagem das categorias políticas, o escândalo é todavia mais evidente. O silêncio daqueles que de forma pedante tem autodenominado-se intelectuais de esquerda, os mesmos que durante décadas monopolizaram o prestígio do pensar - a idéia de um intelectual de direita apresentava-se-lhe uma contradição em termos, ainda que agora tenham tornado-se mais humildes e dedicam-se a fuzilar abertamente as obras completas de Heidegger - teve seus custos em termos estritamente políticos. Estes intelectuais cúmplices do gulag tem-se ido deslizando de forma subreptícia, às vezes inconscientemente, na direção do liberalismo das realidades ali onde o utopismo farisaico das idealidades (por exemplo, os louvores à imigração em nome da solidariedade e do multiculturalismo) resultava mais útil para o sistema capitalista e para as altas finanças. O próprio liberalismo descobriu que os valores de esquerda e a cultura utópica, domesticada pela estética da sociedade de consumo, pode resultar muito eficaz para enquadrar e regimentar as massas no âmbito do mercado. Assim, consolidou-se, desde a matriz social-democrata, o que poderíamos denominar a esquerda laranja, uma maneira de atuar e pensar caracterizada pela gestão administrativa dos valores utópicos ao serviço da bolha financeira, quer dizer, do grande satélite que gira ao redor da Terra controlando os movimentos do formigueiro humano em benefício dos canalhas com gomalina. A sociedade de consumo tornou-se, por fim, utopiap ossível e falar de crítica já não tem sentido. "Foi o liberalismo que realizou a utopia, as questões que agora cabe discutir são meramente técnicas, porque insistir ainda na crítica? Blá blá blá" Esta crítica pertenceria, ao que parece, ao mundo da esquerda radical, quer dizer, de setores políticos anti-democráticos que representam um perigo para a convivência em liberdade...etc.

Desde uma perspectiva de esquerda, o principal problema deveria reduzir-se, em termos estratégicos, a uma reativação do espaço público situado à esquerda da esquerda liberal, quer dizer, a esquerda radical. Porém este enclave segue definindo-se marxista-leninista - ou anarquista - fato que o converte em espaço muito vulnerável às investidas do pensamento único. E não trata-se somente da incapacidade do marxismo, em todas as suas versões e seitas (stalinistas, trotskystas, maoístas, independentistas, etc.) de responder às questões que apresenta a sociedade pós-moderna, mas sim também da impossibilidade axiomática de conciliar o marxismo com os princípios democráticos entendidos em um sentido amplo. Um pequeno problema que o marxismo compartilha com o fascismo. Esta afirmação fica acreditada precisamente ao voltar-se a vista para o passado histórico dos sistemas marxistas. Todavia mais: trata-se da covardia, por parte da esquerda, a olhar de frente este passado sem que sua celebérrima atitude crítica, o pouco que fica dela aos soberbos "intelectuais" com sapatilhas, cigarro e lenço palestino, fique pulverizada diante da espantosa realidade. Se fosse possível medir o grau de criminalidade, a criminalidade do marxismo superaria em muito a do nazismo. Pode afirmar-se que as "travessuras" da esquerda representam o maior genocídio da história humana. Um holocasto, o outro, o dos vencidos, com vítimas previamente etiquetadas como "fascistas", "inimigos do povo", "contrarrevolucionários"... Um genocídio perpretado em prisões, cancos de concentração, hospícios e outras instituições totais sob o controle de carcereiros imbuídos de mitologia revolucionária. Admitir isto e continuar com um projeto de esquerda é muito difícil ainda que somente seja em um plano puramente existencial e humano, porém se deseja-se avançar para a política real, a tarefa parece coisa de titãs. Portanto, a esquerda radical optou ocultar os fatos, empoleirando-se em um antifascismo vegetativo e em propostas ideológicas oitocentistas carentes de todo valor político e intelectual. É o bunker vermelho, labirinto de seitas carentes de valores superiores, encruzilhada de ódios e rancores infinitos, de pequenas mesquinhezas doutrinárias... Neste labor de esquecimento onde sacrificam-se todos os valores da esquerda em nome de uma pseudo-teorização e uma história literalmente putrefatas, contam com a cumplicidade passiva do sistema do capital, o qual não tem interesse em desacreditar valores que tem demonstrado sua capacidade de mobilizar os consumidores onde convenha, ainda que atualmente esse "aonde" reduza-se às políticas de mercado. Por outro lado, há razões e causas ainda mais delicadas - relacionadas com o judaísmo - que permitem compreender e explicar o impasse da esquerda radical e sua sobrevivência em estado de franca decomposição orgânica. De todas estas questões nos ocuparemos mais adiante.

A nova crítica tem assim como finalidade elevar à consciência pública a necessidade de reconstruir o espaço político da contestação social. Nosso projeto detecta de antemão os inimigos que avançam à cabeça das forças do sistema do capital. Em primeiro lugar, a esquerda liberal, o pseudo-socialismo laranja que gere os "valores progressistas" a serviço do dispositivo sionista. Em segundo lugar, a esquerda radical de caráter marxista ou anarquista, coberta de podridão até as orelhas e incapaz de denunciar a traição dos reformistas sem cair no ridículo e na ignomínia: a lembrança oportuna do gulag e das fomes genocidas planificadas pelo Estado socialista. Portanto, em termos estratégticos, o projeto de uma entidade (ens) política (a palavra "partido" pertence ao mundo burguês) somente poderá redundar em benefício dos valores de justiça, liberdade e verdade se redima o espaço da esquerda marxista desde posições críticas. O ataque central vai dirigido contra os valores utópicos e suas consequências genocidas. Depois, contra o marxismo enquanto teoria/práxis irracional e criminosa a serviço da profecia e contra a esquerda radical institucionalizada em forma de pequenas entidades sectárias, a esquerda revolucionária atual, encobertadora ativa de um passado vergonhoso. Finalmente, contra a esquerda liberal, enquanto depositária interessada da mentira profética global, consagrada por Hollywood, que, por fim, todos, vermelhos e laranjas, gerem em conjunto, cada qual desde sua atalia, mais nunca satisfeitos com as correspondentes recompensas: o grupúsculo da esquerda "vermelha" segue sendo a farisaica canteira de jovens com pedigree progressista sempre dispostos a fazer carreira nas instituições da esquerda "laranja".

Ainda assim, nosso labor teria fracassado se somente servisse para desacreditar à esquerda burguesa marxista. Observamos com preocupação como avança, por trás do liberalismo e oculta mutas vezes sob máscaras institucionais democráticas que o poder econômico - a suja verdade da doutrina liberal - criou ou sustentou em benefício próprio, uma mentalidade reacionária que cresce no humus dos discursos cínicos da oligarquia política, alheia a todo princípio ético e somente preocupada por sua perpetuação no exercício do poder. É um pseudo-fascismo dos fatos perfeitamente compatível com o antifascismo das palavras. Mentalidade de ultras sem escrúpulos que tentam aproveitar-se das contradições insolúveis da sociedade de consumo, de sua corrida enlouquecida para o esgotamento dos recursos planetários ou do grave problema da imigração, para ir contra a democracia. Esta ultra-direita de face mais ou menos descoberta existe já em toda a Europa e representa um verdadeiro perigo para as liberdades. Os operários votam Le Pen, somente este dado já deveria fazer refletir à esquerda clássica, porém a esgotada instituição utópica e acrítica não reage, permanece aprisionada entre a colabiração cínica com o Hollywood antifascista e o vício fanático e cego em um totalitarismo que já somente pode gaguejar suas clássicas consignas de´odio desde a cama do geriátrico. Atacar abertamente a mencionada disposição de forças, retirar as consequências últimas da evidente distinção entre liberalismo e democracia com os olhos postos na refundação do sistema democrático, tal deve ser o objeto político da nova crítica que a atual conjuntura histórica está pedindo a gritos.

A política progressista é hoje o impulso democrático radical no marco da tradição filosófico-ilustrada das nações européias e a luta, desde este pensamento crítico irredutível aos valores economicistas, contra a utopia profética judaico-cristã do mercado mundial encarnado pelo liberalismo de esquerdas e direitas.

Atenas versus Jerusalém.


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