domingo, 31 de julho de 2011

Debate Olavo de Carvalho x Aleksandr Dugin: Conclusão de Aleksandr Dugin

por Aleksandr Dugin

Notas finais: Contra o mundo pós-moderno

Para concluir esse debate com o Sr. Carvalho, eu gostaria de resumir aqui os pontos mais importantes:

Eu vejo agora que ele estava um tanto correto no  começo ao enfatizar que a assimetria das nossas respectivas posições iria, por fim, prejudicar toda a tarefa. E assim ocorreu. Eu não vejo utilidade em continuar essas críticas mútuas porque isso não ajuda a entender nada (tanto em nosso caso como no caso dos leitores). Posso confessar sinceramente que eu acho a posição do Sr. Carvalho muito pessoal, idiossincrática e irrelevante. De maneira que gostaria de me concentrar nos pontos teóricos que a mim parecem ter importância real pela causa da Tradição, do anti-imperialismo e da luta anti-moderna, que e minha preocupação primária e única.

Em primeiro lugar, eu insisto que o mundo atual é unipolar tendo como seu centro o Ocidente Global e tendo os Estados Unidos como seu coração. Os argumentos contraries do Sr. Carvalho não  me convenceram de maneira alguma.

Esse tipo de unipolaridade tem aspectos geopolíticos e ideológicos. Geopoliticamente significa o domínio estratégico do planeta pelo “hiper-poder norte-americano” e o esforço de Washington para organizar o equilíbrio das forces no planeta de tal forma que os permita dominar  o mundo de acordo com seus interesses nacionais e imperialistas. Isso é mau porque priva outros estados e nações de sua real soberania.  

Quando há somente um estância que decide quem é certo e quem é errado e quem deveria ser punido, temos um tipo de ditadura global. Estou convencido de que isso não é aceitável. Portanto, deveríamos lutar contra isso. Se alguém nos priva de nossa liberdade, temos que reagir. E fa-lo-emos.  O Império Americano deveria ser destruído. E será, em algum momento.

Ideologicamente a unipolaridade é baseada em valores doo Modernismo e do Pós-Modernismo, valores esses que são  anti-tradicionais.  Compartilho da visão de René Guénon e Julius Evola que consideravam a Modernidade e sua base ideologica (o individualismo, a democracia liberal, o capitalismo, o “confortismo” e assim por diante) como sendo a causa da future catástrofe da humanidade e o domínio das atitudes ocidentais como a razão da degradação final do planeta. O Ocidente está se aproximando de seu fim e não deveríamos permitir que ele levasse consigo ao abismo todo o resto.

Espiritualmente a globalização é a criação da Grande Paródia, o reino do Anticristo. E os Estados Unidos são o centro de sua expansão. Os valores americanos pretendem ser universais. Essa é a nova forma de agressão ideological contra a multiplicidade de culturas e de tradições ainda existents em outras partes do mundo. Eu sou resolutamente contra os valores ocidentais, essencialmente modernistas e pós-modernistas e que são promulgados pelos Estados Unidos à força ou por invasão (Afeganistão, Iraque, hoje a Líbia, amanhã a Síria e o Irã).

Assim, todos os tradicionalistaas deveriam estar contra o Ocidente e a globalização e também contra as políticas imperialistas dos Estados Unidos. È a única posição conseqüente e lógica. Os tradicionalistas e partidários dos princípios e valores deveria se opor ao Ocidente de defender o  Resto, se esse “Resto” manifesta sinais de conservação da Tradição – em parte ou em sua integridade. 

Pode haver, e há de fato, homens no Ocidente e nos Estados Unidos da América que não concordam com a situação presente das coisas e que não aprovam a Modernidade e a Pós-Modernidade, sendo defensores da tradição spiritual do Ocidente pré-moderno. Eles deveriam estar conosco na nossa luta comum. Eles deveriam participar de nossa revolta contra o mundo moderno e pós-moderno e assim nós lutaríamos juntos contra um inimigo comum. Infelizmente, não é o caso do Sr. Carvalho. Ele se coloca como parcialmente crítico da civilização occidental moderna, mas concorda parcialmente com ele e ataca seu inimigos. É uma espécie de “semi-conformismo”, por assim dizer. Isso é francamente irrelevante e não tem interesse para mim. Há amigos e há inimigos. Somente isso importa. Tudo o mais não tem nenhuma importãncia. O Sr. Carvalho não é nem um dos dois. É a escolha dele. Os seus mitos pejoratives anti-soviéticos e anti-russos, suas teorias da conspiração estúpidas, seu racismo cultural ocidental implícito, o ressentimento para como seu país de nascimento não merecem críticas. Sem comentários.  

Outra qestão é a estrutura de uma possível fronte anti-globalista e anti-imperialista e seus participantes. Eu creio que deveríamos aí todas as forces que luta contra o Ocidente, contra os Estados Unidos, contra a democracia liberal, contra a modernidade e a pós-modernidade.. O inimigo comum é a instância necessária para todo tipo de aliança política. Muçulmanos, cristãos, russo, chineses, esquerdistas ou direitistas, hindus ou judeus que contestam a estado atual das coisas – a globalização e o imperialismo Americano – são virtalmente amigos e aliados.  Que nossos ideais sejam diferentes mas que tenhamos em comum algo muito forte: o ódio que temos  pela presente realidade.  Nossos ideais diferem potencialmente (in potentia). Mas o desafio com o qual estamos lidando é atual (in actu). Então essa é a base para a nova aliança. Todos aqueles que possuem uma análise negativa da globalização, da ocidentalização da pós-modernização deveria coordenar esforços na criação de uma estratégia de resistência ao mal onipresente.  E há dos nossos também nos Estados Unidos, entre aqueles que escolhem a Tradição ao invés da decadência atual.

Uma importante questão poderia ser levantada nesse ponto: que tipo de ideologia deveríamos usar em nossa oposição à globalização e seus princípios liberais, democráticos, capitalistas e pós-modernistas? Eu penso que todas as ideologias anti-liberais como o comunismo, o socialismo e o fascismo não tem mais relevância.  Eles tentaram derrotar o capitalismo-liberal mas falharam. Em parte porque no fim dos tempos o mal prevalece e em parte por conta das suas contradições e limitações internas. Portanto, é tempo de levar a cabo uma profunda revisão das ideologies anti-liberais do passado. Quais são seus aspectos positivos? – O próprio fato de que eles eram anti-capitalistas e anti-liberais, anti-cosmopolitas e anti-individualistas. Portanto, essas características deveriam ser aceitas e integradas na future ideologia. Mas a doutrina comunista é moderna, atéia, materialista e cosmopolita. Isso deveria ser descartado. Entretanto, a solidariedade social, a justiça social, o socialismo e a atitude  holística geral para com a sociedade são boas em si mesmas. Portanto, precisamos destacar o aspecto materialista e modernista e rejeitá-los.

Por outro lado, nas teorias da Terceira Via, estimadas até certo ponto por alguns tradicionalistas como Julius Evola, há alguns elementos inaceitáveis entre os quais, primeiramente,  está o racismo, a xenophobia  e o chauvinismo. Essas não são somente falhas morais mas também attitudes inconsistentes teoricamente e antropologicamente. A diferença entre “ethnos” não implica superioridade ou inferioridade.  A diferença deveria ser aceita e afirmada sem quaisquer apreciações racistas. Não há uma medida comum  a lidar com grupos étnicos diversos. Quando uma sociedade tenta julgar outra ela  aplica seu próprio critério, cometendo assim uma violência intelectual.  Essa mesma atitude é precisamente o crime da globalização e da ocidentalização, assim como do imperialismo americano.

Se livrarmos o socialismo de suas características materialistas, atéias e modernistas, e se rejeitarmos o racismo e os estreitos aspectos do nacionalismo presentes  nas doutrinas da Terceira Via chegaremos a uma ideologia política completamente nova. Chamamo-la “Quarta Teoria Política”, uma vez que a primeira foi o liberalismo, que confrontamos essencialmente, a segunda foi a forma clássica de comunismo e a terceira o nacional-socialismo ou fascismo. A elaboração dessa teoria começa no ponto de intersecção entre as diferentes teorias políticas anti-liberais do passado (O comunismo e as teorias da terceira via). E assim desembocamos no Nacional-Bolshevismo que representa o socialismo sem materialismo, ateísmo, progressismo e Modernismo, assim como uma Terceira Via sem racismo ou nacionalismo. Mas esse é somente o primeiro passo. O acréscimo mecânico de versões profundamente revisadas das ideologies anti-liberais do passado não nos dá o resultado final. É somente uma primeira aproximação, uma abordagem preliminar. Deveríamos seguir adiante e fazer um apelo à Tradição e às fontes pré-modernas de inspiração. Temos aí o estado ideal de Platão, a sociedade hierárquica e teológica da Idade Média (cristã, islâmica, budista, judia ou hindu) e a visão de um sistema político e social normativo. Essa fonte pré-moderna é um desenvolvimento muito importante da síntese Nacional-Bolshevista.  Portanto, temos de encontrar um novo nome para esse tipo de ideologia e “Quarta Teoria Política” é bem apropriado para o caso. Isso não nos diz o que é essa Teoria, mas sim o que ela não é. Portanto, é uma espécie de convite e apelo ao invés de um dogma.

Politicamente temos aqui uma base interessante para a cooperação  consciente dos esquerdistas de direitistas assim como dos religiosos e outros movimentos anti-modernos (os ecologistas, por exemplo). A única coisa na qual insistimos para crier tal cooperação é colocar de lado os preconceitos anti-comunistas e também os anti-fascistas. Estes preconceitos são os instrumentos nas mãos de liberais e globalistas através dos quais eles mantém seus inimigos divididos. Devemos, portanto, rejeitar firmemente o anticomunismo e o antifascismo. Ambos são ferramenta contra-revolucionárias nas mãos do elite global. Ao mesmo tempo deveríamos nos opor a qualquer tipo de confronto entre as religiões – muçulmanos contra cristãos, judeus contra muçulmanos, muçulmanos contra hindus e assim por diante. As guerras entre diferentes confissões é um trabalho de ódio pela causa do reino do Anti-Cristo que tenta divider todas as religiões tradicionais para poder impor sua própria pseudo-religião, a paródia escatológica. O Sr. Carvalho trabalha aqui como um propositor de tal divisão de religiões. Isso é muito lógico pela sua posição.

Precisamos, portanto, unir a diretia, a esquerda e as religiões numa luta comum contra o inimigo. A justiça social, a soberania nacional e os valores tradicionais são três princípios de tal ideologia. Não é fácil reunir tudo isso. Mas devemos tentar se quisermos nos vermos livres do adversário.  

Em francês há o slogan: “la droite des valeurs et la gauche du travail” (Alain Soral). Em italiano temos o: “La Destra sociale e la Sinistra identitaria”. Como isso soaria em ingles exatamente, veremos depois.[1]

Poderíamos avançar ainda mais e tentar definer o sujeito, o ator da Quarta Teoria Política. No caso do comunismo, no centro estava a Classe. No caso dos movimentos da Terceira Posição o centro era a raça ou a nação. No caso das religiões é comunidade dos fiéis. Como é que a Quarta Teoria Política poderia lidar com essa diversidade e divergência de sujeitos? Temos uma sugestão: o sujeito da Quarta Teoria Política pode ser encontrado no conceito Heideggeriano de Dasein (Ser-aí/aqui). Essa é uma instância  concreta mas extremamente profunda que poderia ser o denominador comum para ulterior desenvolvimento ontológico. O que é crucial aqui é a autenticidade o a não-autenticidade da existência do Dasein. A Quarta Teoria Política  insiste na autenticidade de sua existência. Ela é, assim, a antíttese de todo tipo de alienação – social, econômica, nacional, religiosa ou metafísica.

Mas o Dasein é uma instância concreta. Qualquer homem e qualquer cultura possui o seu Dasein. Difere entre si, mas está sempre presente. E aqui eu só posos mencionar um assunto que precisaria de mais explicações, que são dadas em meus livros e artigos.

O ultimo ponto é o lugar do Brasil e da América Latina como um todo na estrutura global real do mundo. Eu vejo o papel do Brasil como algo comparável ao papel da Rússia/Eurásia. É um país muito particular com uma cultura muito específica e na qual elementos ocidentais estão mesclados como componentes indígenas.É baseado na mistura de diferentes blocos de valores.  Exatamente como ocorre com  a cultura russa. Em nosso país, chamamos essa característica “Eurasissmo” enfatizando que estamos lidando com uma síntese original de padrões e atitudes européias e asiáticas.  O Brazil, de certa maneira metafórica é também «eurasiano»; Há uma mistura de ocidental e não-ocidental nas próprias raízes da sociedade. O Brasil assim como outros países da América Latina tem sua própria identidade particular. Mas entre outros países, o Brasil é o que está se desenvolvendo com maior velocidade e está conseguindo afirmar mais e mais sua independência política e econômica. Essa independência Essa independência é considerada primeiramente em comparação com os EUA. Portanto, aqui a afirmação de identidade cultural vai de mão dadas com o crescimento econômico e geopolítico. Precisamos interpretar as simpatias esquerdistas da maior parted a sociedade brasileira como um signo de uma busca de uma identidade social particular que não cabe nos padrões individualistas e liberais da sociedade Norte-Americana.  O socialismo brasileiro e da América Latina como um todo tem muitas características nacionalistas e étnicas em si mesmo. O fator religioso católico e a síntese das crenças religiosas populares são elementos muito importantes no presente despertar da nova identidade soberana no Brasil.  É, em alguns aspectos, comparável com o renascimento geopolítico, cultural e espiritual da Rússia moderna.

Assim, a afinidade nos níveis geopolíticos, culturais e sociais faz com que nossa situação seja similar e nos dê base para mútua cooperação e aliança geopolítica. A Rússia, assim como a América Latina, os países islâmicos ou a China vêem o mundo futuro essencialmente como um mundo multipolar no qual os Estados Unidos e o Ocidente em geral deveriam ser não mais que um dos pólos entre todos os outros. Qualquer clamor de imperialismo, colonialismo ou universalismo de valores deveria ser severamente rejeitado. Estamos, portanto, no mesmo campo. E devemos nos concentrar nisso.  

Aceitar que deveríamos progredir na elaboração de uma estratégia comum no processo de criação do futuro que se adeque as nossas demandas e às nossas visões. Portanto, tais valores, como a justice social, a soberania nacional e a espiritualidade tradicional poe server-nos como indicação.

Acredito sinceramente que a Quarta Teoria Política, o Nacional-Bolshevismo e o Eurasianismo podem ser de grande utilidade para nossos povos, nossos países e nossas civilizações. A palavra chave é “multipolaridade” em todos o sentidos – geopolítico, cultural, axiológico, econômico e assim por diante.

A importante visão do Nous (Intelecto) do filósofo grego Plotino corresponde ao nosso idea. O intelecto é um e múltiplo ao mesmo tempo, porque tem em si todos os tipos de diferença – não uniforme, e misturado, mas tomado como tal em todas as suas particularidades. O mundo futuro deveria ser um mundo noético de alguma forma – a multiplicidade, a diversidade deve ser entendida como riqueza e um tesouro e não uma razão de inevitáveis conflitos: muitas civilizações, muitos pólos, muitos centros, muitos conjuntos de valores e um planeta e em uma humanidade.

Mas há alguns que pensam diferente. Quem estão contra tal projeto? Aqueles que querem impor a uniformidade, o pensamento único, um único modo de vida (o americano), um único mundo. E eles estão fazendo isso por força ou por persuasão. Eles são contra a multipolaridade. Portanto, estão contra nós. O Sr. Carvalho é um desses. De agora em diante o sabemos. O debate está encerrado. Mas nossa luta está só no começo.

Espero  sinceramente que haja no Brasil outros tipos de tradicionalistas, intelectuais e filósofos que estão mais próximos do ponto de vista eurasianista e que sejam mais consistentes e coerentes na sua rejeição da modernidade e da pós-modernidade, bem como na rejeição da globalização, do liberalismo e do imperialismo norte-americano. E que sejam também mais brasileiro…

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