segunda-feira, 4 de julho de 2011

Mundo do Ruído e Virtude do Silêncio

por Ernesto Milà

Nenhuma civilização tem sido tão ruidosa como esta. Nem o barulho dos subúrbios da Roma Imperial, nem o barulho incômodo produzido por pedreiros, caldeireiros e ferreiros medievais pode comparar-se ao fragor de nossas atuais cidades; certamente, o ulular das sirenes e o repicar das máquinas nascidas com a primeira revolução industrial, começaram a causar danos nos aparelhos auditivos de muitos operários, porém não foi senão até meados deste século quando a poluição acústica converteu-se em um problema generalizado e sempre crescente. Em outro tempo o silêncio - isto é, a ausência de ruído - foi condição necessária para alcançar o que foi considerado como o mais alto grau da condição humana: a experiência mística. A conclusão é simples: se o silêncio nos eleva, o ruído nos subjuga no infernal. E hoje os estrondos já afogaram qualquer silêncio.

Do Sussurro ao Umbral da Dor

Considera-se que o ruído é uma sensação acústica incômoda. A intensidade do ruído mede-se em decibéis. Cinquenta decibéis situar-nos-iam no umbral da conversação, menos suporia um sussurro; a audição repetida de sons superiores a 85 decibéis pode causar danos físicos e psicológicos; níveis superiores a 132 ocasionam inclusive sensação de dor e a partir de 140 o perigo de ruptura de tímpanos ou alterações psicomotoras pode ser inclusive imediato. No conhecido cruzamento madrilenho do Passeio das Delícias com a rua de Méndez Alvaro, até as 16 horas, o nível de ruído flutuava entre 74 e 90 decibéis, quer dizer, suficiente para causar um deterioramento físico do aparelho auditivo dos vizinhos.

O pior é que as administrações renunciaram a combater o que veio a ser chamado "poluição acústica". O governo da Vestfália dizia em seu programa de 1975: 'Não é cabível a possibilidade de reduzir o ruído provocado pelos veículos, nem tempouco dos reatores na proximidade dos aeroportos, pois o número de voos diários crescerá nos anos seguintes. Em relação às fábricas e indústrias, os ruídos são inevitáveis, dado que as máquinas preparam-se de forma que sua produtividade seja maior e ao aumentar as revoluções de seus mecanismos, o problema acústico das oficinas torna-se mais agudo". O pior não é isso, mas sim que, longe de diminuir, a poluição acústica aumenta dia após dia.

Ruído nos Novos Hábitos Sociais

Fenômenos tão aparentemente banais como a mudança de hábitos alimentares tiveram uma incidência direta na poluição acústica, quando ao meio-dia e pelas noites centenas de motoristas cruzam as ruas em todas as direções transportando pizzas e outros alimentos entregues a domicílio em ciclomotores petardeantes, dotados de escapamento livre ou com silenciadores truncados ou simplesmente em mal estado.

Por outra parte, equipamentos de hi-fi, cada vez mais potentes, colocados em automóveis os convertem em discotecas ambulantes capazes de furtar um sono tranquilo aos vizinhos. Os auriculares dos "walkman" que, teoricamente deveriam individualizar a audição de música, utilizados em seu volume máximo por jovens consumidores de música mecanizada, são ouvidos pelos passageiros dos transportes coletivos. No metrô de Londres podem ver-se dezenas de cartazes alusivos a este transtorno: "Somente para seus ouvidos, por favor"; não parecem ter muito êxito. Finalmente nas discotecas e bares musicais os decibéis aumentaram até  produzir em jovens menores de 20 anos empanturrados de rock e derivados, cefaléias, zumbidos nos ouvidos, irritação nervosa, falta de auto-controle, diminuição da atividade, debilidade, dores de estômago, esgotamento físico e mental, etc.

É evidente, pelo demais, que todas estas músicas de qualidade mais que duvidosa tem outras repercussões sociológicas não desdenháveis: quem utiliza automóveis com equipamentos hi-fi a todo volume ou auriculares individuais, ou frequentam discotecas e bares musicais estão isolados em si mesmos: o volume do ruído é de tal calibre que impede qualquer tipo de comunicação com os demais, atordoa os sentidos e impede qualquer atividade discursiva, interior ou exterior; sofrem os efeitos de tais ruídos inclusive quando o foco emissor já está fechado.

O Deus do Silêncio

O mundo clássico conheceu uma divindade alegórica representada por um jovem que tapa a boca com o dedo ou com uma venda e ostenta um ramo de albérdigo - cuja folha tem forma de língua - como atributo; era Silêncio, aquele "que não tem nenhum defeito" e que estava presente na celebração de todos os mistérios; seu rito implicava necessariamente a concentração e ausência de qualquer ruído.

Em Roma celebrava-se em 18 de fevereiro a festividade de Muta, uma deusa menor à qual sacrificava-se para impedir os murmúrios. Mãe dos lares, estava relacionada aos espíritos dos mortos, que habitavam no mundo do silêncio. Ovídio conta-nos em que consistia o rito sacrificial: uma anciã rodeada de 12 virgens sacrificava à deusa, colocava três grãos de incenso em um buraco diante do altar, enquanto guardava sete favas negras na cova. Logo a anciã pegava a cabeça da estátua e a grudava com peixes, a atravessava com agulhas de latão e a lançava ao fogo que logo cobria com hortelã. Finalmente escançava vinho sobre ela e dava de beber às virgens, bebendo ela também até embebedar-se. O ritual terminava quando a anciã despedia às donzelas dizendo que havia aprisionado as línguas maledicentes.

No mesmo âmbito romano o deus Mutino era invocado para guardar segredos e reter os pensamentos ocultos e Lara, outra deusa, foi chamada a "charlatã" porque comunicou a Juno os amores que manteve com seu esposo Júpiter.

O Silêncio da Humanidade Medieval

A admiração do mundo clássico pelo silêncio prolongou-se na humanidade medieval. Nas grandes cidades os ofícios ruidosos foram situados ali onde menos podiam escutar-se: os ferreiros e caldeireiros, os moinhos e pisões, estiveram situados, geralmente nos arrabaldes ou lugares extremos.

A quietude instaurou-se nos mosteiros e algumas ordens ascéticas assumiram entre seus votos o do silêncio, junto ao de castidade e obediência. Os claustros construídos em todos os recintos monacais estavam estudados para atenuar toda sonoridade, quaso ao modo das câmaras de isolamento sensorial atuais. Tudo devia facilitar o recolhimento e a meditação para os quais o ruído era a principal ameaça.

Existiu naquele tempo um silêncio negativo, o que Satã impunha aos seus fiéis quando deviam afrontar os interrogatórios da Inquisição. Aos torturadores chamava muito sua atenção comprovar que, inexplicavelmente, alguns dos hereges ou bruxos interrogados não abriam a boca nem se quer para gritar sua dor; atribuíram dito comportamento a um pacto diabólico: Satanás havia-lhes paralisado as cordas vocais e a língua. Dito pacto seria selado por um amuleto que os interrogados esconderiam entre seus cabelos; daí que, a partir do famoso "Tratado Sobre as Bruxas" de Henri Bouguet, hereges e bruxas foram raspados antes do interrogatório. Consta que, efetivamente, entre os cabelos de alguns encontraram-se estranhos e sacrílegos amuletos...

A Civilização do Ruído

Dir-se-ia que a partir do Renascimento inicia-se um lento avanço do ruído e dos espaços de silêncio vão fazendo-se progressivamente mais reduzidos. Para isso contribui fundamentalmente o aumento do comércio e a proliferação de caravanas cujas rodas golpeiam agressivamente umas ruas que, cada vez mais, começam a ser pavimentadas. O aumento da população urbana e as subsequentes construções necessárias para abrigá-la fazem que cada esquina converta-se em um canteiro de obras. Porém apesar de tudo, as casas são de pedra e o som transmite-se dificilmente. Deverão passar ainda quatro séculos para que prolifere a utilização do cimento e muito especialmente do ferro, condutor excepcional do som; quase ao mesmo tempo as paredes afinar-se-ão e a vida familiar perderá intimidade. A revolução industrial, a era do maquinismo, primeiro, logo a aparição de novos inventos, a proliferação do trem, do automóvel e da navegação aérea, os sistemas de reprodução do som, tudo isso irá em detrimento do deus do Silêncio que ficará encurralado em espaços cada vez mais distantes e reduzidos e, desde logo, nunca nas grandes aglomerações urbanas.

A mudança é tão vertiginosa que afeta mais diretamente às novas gerações. No início dos anos 80 um estúdio da Universidade de Tennessee realizada com 4.500 estudantes demonstrou que tinham em média um ouvido tão ruim como o de uma pessoa de 65 anos. Nos Estados Unidos quase dois milhões de trabalhadores sofrem de problemas auditivos, em outros países industriais as cifras são idênticas; em Madri 25% da população infantil e adulta, sofria de uma minoração em sua capacidade auditiva. Não pode-se estranhar que diante de tudo isso o Conselho Internacional de Música em um simpósio organizado pela UNESCO proclamara em 1968 que "todo homem tem direito ao silêncio"...porém nas décadas seguintes este direito tem sido brutalmente lacerado pela marcha dos acontecimentos.

Da Vibração Acústica aos Infrassons

O ruído pode provocar - e de fato frequentemente provoca - transtornos orgânicos graves: diminuição dos movimentos estomacais, dilatação das pupilas, aumento da pressão sanguínea, alterações de impulsos cardíacos, agressividade, diminuição do pulso, produção excessiva de hormônios, redução na produção de sucos gástricos e saliva e predisposição ao infarto.

Em geral estas anomalias produzem-se por saturação de ruídos, porém a vibração produzida pelo som tem efeitos igualmente dramáticos. Em 1953 e 1954 espatifaram-se vários aviões "Comet" em todo o mundo. Tratava-se de um dos primeiros reatores comerciais e seu problema consistiu em que os engenheiros desconheciam os efeitos do que chamou-se "fadiga de material" produzido pela vibração dos gigantescos motores Rolls-Royce.

Os chamados infrasons, inaudíveis, porém que afetam nosso organismo mais que o ruído propriamente dito. Quando a frequência dos infrasons alcança os 7 Herz, a mesma das ondas cerebrais, produz-se um acoplamento causador de dor de cabeça, visão borrada, fadiga e incapacidade para desenvolver trabalhos intelectuais.

Os infrasons, são sem dúvida mais discretos que os ruídos, mas ainda assim utilizam-se cada vez mais em atividades industriais: limpeza de roupas e jóias, tratamentos médicos, soldas, ligas, laminação de metais, polimerizações, etc. Tem-se a convicção de que podem produzir mutações mais fortes que a radioatividade.

Ataque ao mais Íntimo do Ser Humano

Hoje poucos duvidam que medicinas tradicionais como a acupuntura chinesa tem um efeito benéfico sobre o ser humano. Porém os mesmos médicos que aprovam o tratamento a base de acupuntura, ignoram os fundamentos desta prática ancestral. A teoria médica chinesa baseia-se na existência de uma fisiologia oculta do ser humano, composta por 750 centros de energia e "meridianos"; a enfermidade consistiria em uma circulação anômala energética por esses pontos que as agulhas reconduziriam por seus canais normais.

A medicina chinesa, como a hindú ou tibetana, inclusive como as concepções que estiveram em voga no Ocidente, implicavam o conhecimento de "centros" de energia no corpo humano, sutis e imperceptíveis a simples vista, porém que o "iniciado" podia identificar e sanar. Cada um destes centros estaria - sempre segundo esta doutrina médica - conectado a uma determinada função orgânica ou a algum sentido físico.

Estas tradições negava que estes "centros" fossem imateriais, sustentavam, ainda assim, que tratava-se de matéria mais sutil que a ordinária, quer dizer que vibrava em uma frequência menor. Hoje os acupuntores sustentam que boa parte das enfermidades próprias da humanidade civilizada nasceram da deterioração que sofrem estes centros sutis agredidos por ruídos e vibrações e põem como exemplo a vibração do som que sente-se à altura do esterno quando estamos submetidos ao estrondo de uma discoteca. Ali fica o "Anahata-Chakra", um centro de energia identificado com o coração e cuja deterioração implica uma perda da sensibilidade e da intuição.

A Mística do Silêncio

Seja como for, mais além da linguagem própria de cada tradição ou de uma ou outra escola médica concreta, todas coincidem em que a vibração sonora a partir de certos níveis supõe um perigo, ainda que uns limitem-se aos riscos do corpo físico e outros falem de males situados em esferas mais profundas da personalidade.

Por que, efetivamente, as velhas tradições ancestrais coincidem em afirmar que as enfermidades do corpo tem sua causa em camadas mais profundas e evidenciariam, afinal, enfermidades da alma. Dado que o mais importante para a humanidade tradicional foi deslocar o eixo da personalidade, do corpo físico e da mente, para a alma, evitava-se tudo aquilo que pudesse causar danos a essa "fisiologia oculta" que seria uma espécie de corpo sutil situado entre o corpo físico e a alma e ao mesmo tempo primava-se tudo o que podia beneficiá-lo. E no terreno que nos ocupa fugia-se do ruído e aconselhava-se o silêncio.

"Ninguém pode dialogar com Deus a não ser através do silêncio" havia predicado o grande místico alemão Dietrich Eckhart. O silêncio considerava-se que era um prelúdio à revelação divina e não era possível experimentar a presença divina entre algazarra e bramidos. Algumas escolas de meditação budistas são extremamente radicais nesse sentido: "se algo molesta tua meditação e mancha teu silêncio, destrua-o."

A mística católica e muçulmana preocupa-se em distinguir entre silêncio e mutismo: o silêncio, dá grandeza aos acontecimentos, o mutismo os esconde e degrada, implica um fechamento à revelação divina. Deus somente chega à alma que faz reinar nela o silêncio porém abandona à que dissipa-se no palavrio vão e estéril.

Uma das práticas comuns a todos os sistemas de meditação tradicionais consiste na observação do silêncio. Trata-se de que o praticante situe-se em um lugar silencioso, colocando-se em uma postura cômoda, frequentemente com a coluna vertebral erguida. Nesse instante e após uns exercícios prévios de relaxamento, deverá advertir o silêncio de sua própria interioridade, "ouvir o silêncio".

Um livro tibetano tem precisamente por título "A Voz do Silêncio": "Aquele que pretenda ouvir a voz do Nada, o 'Som insonoro' e compreendê-la tem que inteirar-se da natureza do Dharana", assim começa o tratado, e termina "Mira, tu chegaste a ser a Luz, tu te converteste no Som; tu és teu mestre, és tu mesmo o objeto de tuas investigações, a incessante voz que ressoa através das eternidades, livre de mudanças, isenta de pecado, os sete sons em um, a voz do silêncio". O taoísmo chinês fazia do silêncio uma escola de vida: "O silêncio é a melhor escola dos humanos", "se queres viver em paz, olha, ouça e cale", "o homem quanto mais sofreu mais é silencioso", "mais ameaça quem guarda silêncio do que quem grita desordenadamente", "unicamente o silêncio é grande, o resto é debilidade", todos estes provérbios taoístas confirmam a virtude do silêncio e implícitamente condenam a proliferação de sons: tanto a "logomaquia" (o falar vão e a charlatanice) como os ruídos que perturbam a quietude estável e silenciosa de uma busca interior.

Também na Mística Cristã

Alguns mestres de meditação advertem ao sujeito sobre o risco da meditação sobre o silêncio; sabem que há gente que recolhe-se em um ambiente de total insonoridade. Bernanos fazendo-se eco dessa sabedoria escreveu: "Existem coisas que não amamos, porém que nos fascinam. Uma delas é o silêncio." O próprio Escribá de Balaguer, fundador do Opus Dei outorga uma grande importância ao silêncio e entroncando com a mística cristã escreve na citação 281 de "Caminho": "O silêncio é como o porteiro da vida interior" e na 304 acrescenta: "Procura lograr diariamente uns minutos dessa bendita solidão que tanta falta faz para ter em marcha a vida interior". Monsenhor Escribá havia tomado como referência os textos de Meister Eckhart, porém também de Miguel de Molinos e seu "Guia Espiritual" e, particularmente a "Imitação de Cristo" de Thomas de Kempis: "Não esteja tua paz na boca dos homens, pois se pensarem de ti bem ou mal não serás por isso outro homem".

***

Todos estes textos falam-nos claramente de um mundo feito de silêncios no qual tinha-se por possível o entrar em contato com camadas mais profundas da personalidade. Assim como nos templos gregos presididos pela estátua de Harpócrates, deus do silêncio, no átrio de nosso mundo interior, a ausência de ruído e a quietude são as companhias necessárias para sua visita e redescobrimento. Plutarco, um dos mais ativos propagadores do culto ao Silêncio, escreveu esta frase lapidar: "Dos homens aprendemos a falar. A calar somente dos Deuses."

Como o homem que o destino situou nas portas do terceiro milênio poderá conhecer essa parcela interior em um mundo feito de ruídos, estridências e vibrações acústicas, em um mundo que é puro ruído?

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