terça-feira, 22 de novembro de 2011

Castas

por Vijay Prozak



Quando eu era um garotinho, a desigualdade me chocava. Algumas crianças nunca tinham suéteres que eram novos, e eles voltavam para seus apartamentinhos sujos e jantares assistindo TV. Eles não saberiam o que fazer em um restaurante, e a linguagem deles era estranha; eles tropeçariam em palavras irregulares. Quando nós todos íamos à escola no primeiro dia, levávamos uma lista adiantada de materiais que a professora que nos deu, para colocá-los todos numa cesta comunitária, e nunca mais víamos o que nossos pais tinham comprado pra gente. Isso era feito para que os meninos pobres sentissem-se menos pobres.

É claro, isso era horrível pra qualquer um que tinha um pai que o levou meticulosamente a uma loja e selecionou mesmo as opções mais razoáveis, bem como os lápis que não se fragmentam em pedaços de madeira afiada, ou o papel almaço que não tinha uma impressão borrada. Mesmo coisas mais simples como uma aquarela, verdadeira à "liberdade" do capitalismo, poderia ir de tintas que faziam água suja em um certo tom, a tintas de qualidade que uma criança realmente poderia usar. Enquanto isso, os pais bêbados e empobrecidos corriam à loja em liquidação e "economizando dinheiro" compraram cada pedaço de merda da mais baixa qualidade que podiam e mandaram as crianças pra escola com isso.

E tudo isso foi para a cesta, e você pegaria o que quer que fosse de forma aleatória – isso é “ser justo”. Essa idéia vem de uma grande tradição de fazer as pessoas sentirem-se melhores por colocar em evidência as desigualdades das situações. Bote os meninos retardados para tocar junto com a banda de jazz, então cada uma das pessoas da audiência pode desconfortavelmente fingir que eles não estão fazendo um barulho descoordenado. Porque não colocar a garota feia e gorda para ser rainha do baile? Faremos os empobrecidos sentirem-se melhores ao forçar a todos na classe a submeter-se à igualdade, para que o ressentimento aumente.

Sempre foi perturbador, como algum julgamento passou por nós, fazendo de uns normais, alguns pobres e poucos, ricos. Através do colegial e os anos prósperos que se passaram, eu acreditei que o único caminho para acabar com a disparidade entre os ricos e pobres era jogar todos os materiais na cesta, para que os garotos pobres e ricos juntos usassem as mesmas coisas. Eventualmente eu conheci um cara que tinha crescido num vizinhança de trailers, e ele me deu um breve insight: "A maioria das pessoas que estavam naquela vizinhança de trailers, pertenciam àquela vizinhança de trailers".

Ele me falou dos caminhos diferentes para a pobreza. Não ter noção de dinheiro e ser incapaz de se planejar para o futuro. Ser idiota. Usar drogas, ou beber. Ou ser um criminoso, e ter tendência a comportamentos destrutivos, incluindo auto-destrutivos. Ele disse que existem aqueles também que nasceram na pobreza e continuaram nela por que simplesmente não conseguiam reter a energia para melhorias à longo prazo, como consertar o trailer ou ir ao colégio ou comprar alguma outra coisa que não seja para o trailer. Para eles, cada desastre era uma surpresa, e todas as infelicidades eram tão esperadas que tinham pouco impacto psicológico.

Eu não sabia como entender o que aprendi, tanto pelo que ele tinha me dito, quanto pela minha experiência pessoal com pessoas pobres. Eles, os pobres, não estavam prontos para nada a não ser para o tipo de vida que tinham; dê dinheiro extra pra eles, e eles gastariam com jogos e bebida. Se você dissesse para eles que queria ajudar, eles ririam de você ou veriam como conseguiriam levar vantagem num acordo. Não tinha jeito. Eu não via nenhum jeito desses indivíduos existirem numa sociedade que demandava deles as mesmas coisas esperadas de um negociante ou de um doutor. E esse foi o meu erro: eu achava que todas as pessoas deveriam encaixar-se na mesma forma e ser tratadas igualmente.

Para mim, os próximos anos envolveram engolir essa proposição lúdica de várias formas. Em um trabalho, o tabu era que Debbie era, gentilmente falando, uma escrota idiota. Infelizmente, nós não podíamos despedi-la, então nós demos a ela trabalhos não-essenciais e contratamos outra pessoa pra checar os trabalhos dela. O resultado final foi que quando a companhia estava com problemas, e eles contrataram um “consultor administrativo” para ajudar, ele promoveu as pessoas com notas de trabalhos impecáveis. Uma vez que a Debbie nunca teve nenhum projeto importante, todos os seus trabalhos indicaram amplo sucesso, então o consultor olhando os números, concluiu que ela deveria ser a chefa do nosso departamento. Seu primeiro ato, claro, foi de demitir qualquer pessoa mais inteligente que ela. Eu passo por aquele prédio vez e outra e dou risada.

Uma noite quieta aqui em casa, eu estava lendo o Bhagavad-Gita, examinando delirantemente suas várias contorções e metáforas. Como seus primos, a Ilíada, a Eneida e A Canção dos Nibelungos, esse épico Indo-Europeu é escrito em enigmas, descrevendo eventos externos e a reação dos heróis a eles, como meios de mapear a psicologia dos humanos e sugerir um ascendente, em direção beligerante. Não é “literatura” para estudantes de faculdade, viciados em drogas, mães de futebol e hippies ensebados; é literato para aqueles com os pés no chão.

Um aspecto do Gita é um julgamento em diplomacia marcado por sabedoria e tranquilidade, algo como Maquiavel ou Dante, em que um dos temas é o de castas. Me chame de condicionado, mas assim que li aquilo, o velho sentimento assustador – duvide que eu seja honesto e chame de culpa? – se instalou, e eu me peguei pensando nos meninos pobres com sua cesta de barganhas para os materiais escolares. Imagens de tintas apagadas, borrachas sujas, papel almaço borrado e canetas que vazam vieram para mim com o mesmo cheiro daquelas salas de aula: perfumes mistos, cheiros de comida, suor, flatulência e aquele estranho pó de serragem que eles usavam para absorver vômito.

É importante entender que um sistema de castas é fundamentalmente diferente de um sistema de classes sociais. Num sistema de classes, nós somos todos classificados pela quantidade de dinheiro que recebemos, e então investimos, passando o dinheiro para os nossos descendentes. Se você trabalha na cozinha de um grande hotel, trabalhe para ser supervisor e eventualmente seja proprietário do negócio, você pode comprar uma cadeia de hotéis e viver entre os muito ricos. Você foi da baixa a alta classe através de uma determinação singular de riqueza. Na linguagem seletiva natural, isso significa que a pessoa que é mais devotada a ganhar dinheiro forma a base da classe mais alta.

Um sistema de castas é baseado em especialização. Como cada raça é formada por uma série de tratados específicos que refletem certas escolhas tomadas como um grupo, bem como usar tecnologia para se especializar na vida agrária ou tecnológica, cada casta reflete as inclinações e aptidões demonstradas pelas ações passadas. Algumas pessoas são mais especializadas para, e ainda mais saudáveis que, fazendeiros ou encanadores e alguns são advogados; quer que oficializemos isso num sistema de castas ou não, é verdade naturalmente.

O que é triste num sistema de classes é que eles promovem o ridículo entre as pessoas que trabalham, geralmente em alguma base Darwiniana presumida, sobre a ilusão que um advogado tem “mais sucesso” biologicamente do que um encanador. Essa sobre-simplificação repugnante descansa ao assumirmos um único caminho de carreira para todas as pessoas, com um nível alto (mais bem pago) e baixo (trabalho inábil). Permitindo aqueles que fazem dinheiro salvar a sua baixa auto-estima com “Nós todos tivemos o mesmo objetivo e as mesmas oportunidades, então há algo errado com você, não comigo”.

Isso significa que da mesma forma que em uma democracia, um bêbado sem teto tem o mesmo voto que um herói, em um sistema de classes, a “nata” da sociedade são pessoas que fizeram dinheiro de qualquer forma. Pessoas inteligentes e trabalhadoras que criaram negócios decentes em sucesso estão par a par com pornógrafos, traficantes, vendedores internacionais de armas e pessoas com “idéias geniais” como o fastfood, isqueiros descartáveis e seriados enlatados americanos. Você pode imaginar a filha trazendo pra casa dos pais o noivo e dizendo “eu sei que ele é pequeno, feio, estúpido e malvado, mas ele fez um bilhão com pornografia anal!”.

Um sistema de castas, em contraste, nos divide por tarefas e não recompensa ninguém com um preferencial, status de deus individual. Se uma casta está entre os líderes, não há grande valor em deixar de fazer isso para ser um encanador – afinal, não foi apenas sua escolha, mas o produto dos seus ancestrais que você é um líder (e: um teste de sua própria forma, desde que nenhuma sociedade sã aceita pessoas em valor real). Seu trabalho não é mais importante que o do encanador, mas é mais especializado.

Você pode ver isso como num contexto de uma banda de rock. Se qualquer música estiver acontecendo, seu baterista e guitarrista provavelmente não serão capazes de trocar de lugar, mas ambos são essenciais. Mesmo que o seu guitarrista possa provavelmente substituir o baixista, ele não irá fazer isso, se possível, por que ele está acostumado a pensar em um papel diferente e ainda tende a perder as sutilezas de um baixista. Similarmente, todos podem cantar – mas um se especializa como cantor. E todos são vitais; sem eles a banda não existe.

Em eras prévias e medievais, o sistema de castas beneficiou esses individuais agora agrupados na categoria genérica de “trabalhador” (significando que todos que trabalham sem ter propriedade de trabalho). Isso acontecia principalmente porque, libertos da competição monetária, eles têm segurança no emprego e ainda são capazes de se focar nos detalhes de cada trabalho, nuances como essas não seriam apoiadas por um sistema que compete de acordo com “o fim da linha”. Líderes não deveriam disputar para serem eleitos, e encanadores não teriam de gastar menos com materiais para fazer seus preços mais “competitivos”. Todo mundo teve um lugar, e enquanto a competição existia, era na forma da tarefa em si mesma e não o separado, mas relatada tarefa de fazer dinheiro a partir daquela habilidade.

Governo localizaria, como em cada população local você tem alguns líderes e alguns de cada outro tipo. Cada casta teria seu próprio lugar e seu trabalho garantido, com os mais competentes no topo de cada papel, o que seria visto como sendo a par com “profissões” como advogado, médico, líder. A inimizade entre as pessoas sobre quantidade de dinheiro seria amplamente diminuída, como todas as pessoas não estariam mais competindo pela mínima coisa, mas estariam trabalhando para se tornar as melhores nas coisas que elas fazem.

Mais importantemente entretanto, essa atitude seria capaz fazer voltar o amor entre as pessoas que neste tempo estão mais amargas e vingativas umas com as outras. Seus líderes não seriam mais importantes do que seu encanador, mas eles seriam especializados diferentemente. Seu papel como aqueles que são ultimamente responsáveis por guiar a pessoas, não seria um “trabalho” mas mais como um anexo familiar, e eles seriam também capazes de trabalhar diretamente para sua área local e para suas pessoas. Esse tipo de sistema nos deixa tomar papéis diferentes e cada um ser importante neles, sem nos classificar por quanto de dinheiro nós conseguimos juntar, investir, levantar ou então roubar.
Fale sobre esse tipo de idéia numa democracia liberal, é claro, e as pessoas começam a reclamar sobre a perda de “liberdade”. Se você perguntar pra elas o que significa, a melhor definição seria alguma ilusão crente com a cabeça nas nuvens, algo como “cada um de nós pode crescer pra ser presidente, uma estrela do esporte, ou super-herói mágico ou mártir”. ‘Não leve sua “liberdade” embora!’ eles cantariam em uníssono. Obviamente, qualquer coisa que compactue com tal desespero bovino pode não ser flor que se cheire, ou essas pessoas teriam realizado as grandes vantagens da “liberdade”. Ao invés disso eles tem desculpas: eu nasci debaixo de um mal augúrio, meu pai era um bêbado, eu fui sodomizado por lobos quando era mais jovem, e coisas do tipo. Justificativas para não ser “livre”.

Um sistema de classes te dá essa “liberdade” forçando você e todo mundo a pertencer a uma categoria “igual” de trabalhadores, num ponto em que você compete contra os outros por dinheiro. Se você não é fascinado por dinheiro, ou não tem parentes ricos, ou não aparece com uma idéia “brilhante” como pornografia inter-racial entre anões amputados, você vai trabalhar por amendoins e enquanto ninguém aparecer e dizer isso, todo mundo ganhando mais do que você irá sutilmente sentir um aumento de confiança por ser mais rico. Isso explica porque quando essa droga que é a falsa autoconfiança é levada embora, tantas pessoas previamente chamadas de “bem sucedidas”, se auto destroem.

Nos categorizar pela quantidade de dinheiro que ganhamos, e assumir de alguma forma que Darwin gozou Jesus, que essa é uma seleção do “melhor” de nós, é acéfalo. Faz nós nos odiarmos. Não seleciona quem faz o melhor trabalho, mas quem pode enganar a maioria das pessoas a comprar o seu produto por tempo o bastante para fazer dinheiro fora do sistema e se aposentar. E quem pode culpá-los? Eles não têm lugar garantido para eles por taxas, e ainda estão à mercê de qualquer outro idiota que quiser levar o seu pedaço do bolo pra casa.
Dessa forma, eu fui desde temer um sistema de castas à gostar dele. Nós nunca iremos ser iguais em riqueza, e alguns garotos irão conseguir a aquarela de sete dólares enquanto o resto de nós estará usando o tosco de três dólares. Tentar equalizar essa desigualdade tirando a média significa que todos nós sofremos num sistema designado para uma pessoa que não existe, a pessoa “normal” abstrata e mítica, e como resultado disso, nós estamos nas gargantas um dos outros por pequenos pedaços de papel e centavos de metal e números na nossa conta bancária. Isso é tão idiota que até a Debbie gostaria.

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