segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Fascismo: uma visão trágica da vida, uma ética heróica

por Michel Schneider


André Malraux disse em uma ocasião que um homem ativo e pessimista ou o é, ou será um fascista. Sem dúvidas, tinha razão. Tomado no que possui de essencial e de concreto, o problema do fascismo se identifica com o problema da angústia. Angústia ante a vida e ante si mesmo: tal é a fonte existencial primeira do homem fascista. Seguindo a Georges Sorel, todo otimismo simboliza uma flexão manifesta da inteligência e do caráter. Ser otimista é estar associado à decadência da civilização humana. O homem fascista, ao contrário, é profundamente pessimista; o sentimento trágico lhe invade por inteiro. Este é um sentimento que nasce, essencialmente, de três fatores diferentes: 1) a consciência das contradições existentes entre a fragilidade de nossos meios, o fato de que ao final das contas seremos vencidos pela morte e o poder que nos confere a possibilidade de historiar nossa vida e, assim, em certa medida, de dominar os tempos em que nos foi possível viver; 2) a propensão natural a aceitar este enfrentamento a todo o instante, o que não supõe um motivo de renúncia, mas uma incitação suplementaria para nossa auto-afirmação; 3) a negativa, não menos natural, de toda perspectiva de consolo na abolição dos dois fatores precedentes.

A reflexão fascista parte, assim, da constatação da inexistência “teórica” do homem em um mundo absurdo. Esta atestação empurra ao homem fascista a uma revolta na qual entreve a possibilidade, pela eleição deliberada de certas regras, de participar em um destino coletivo que lhe permita deixar seus traços na história mediante uma existência realmente autêntica. Para ele, esta eleição é heróica, marcada por uma vontade deliberada de ignorar as religiões consoladoras. Em efeito, como assinala Heidegger, o homem se apresenta ante a fé como o objeto de uma eleição, sendo ele o autor da eleição. Ser, para ele, é ser em situação, ser ante a possibilidade de eleição. “A eleição transcendental do homem trágico, o que lhe constitui especificamente como tal, é o avançar de ato em ato, tendo os olhos abertos” [34]. A revolta deste homem ante “sua” situação, que julga absurda, é “a segurança de um destino esmagador, mas onde não há lugar para a resignação que acompanha o resto do gênero humano ante uma situação similar” [35]. É assim que a ação é assumida como a finalidade profunda da vida, como a maneira de ser original, “essencial”. Isto lhe empurra a aceitar uma causa, a combater por uma idéia, a aceitar a vertigem de sua própria inconsistência, isto é, a assumir sua liberdade. A liberdade, para o fascista, não consiste em “viver” a história, mas em “escreve-la”. Neste horizonte, um ato pode mudar a vida. Esta vida, assim, torna-se então um “jogo”, porque “Quando um homem sabe-se livre e decide utilizar sua liberdade (...) sua atividade será, então, um jogo aonde ele será o jogador principal que tem nele mesmo o valor e as regras de seus atos” [36]. Regras que se resolvem em “uma” regra, que deve orientar nossa atividade política e intelectual de cada dia. Montherlant, em sua obra “O solstício de julho”, se interroga: “O que somos, afinal de contas? Uma inteligência que tem sangue. O sangue nos empurra ao combate; a inteligência nos leva à dúvida e à incredulidade. O combate sem fé é a formula à qual parece que estamos destinados. Todos devemos eleger entre uma fé de herói ou uma fé de cordeiro, e aqui não há caminho do meio”.

A lucidez e a dúvida heróicas do homem fascista levam-lhe a desconfiar dos postulados da Igreja católica. O fascista compartilha da idéia desenvolvida por Renan em sua “História do povo de Israel”, segundo a qual “A religião é uma impostura necessária. Quando a estupidez da raça humana admite a verdade, nunca a admite por meio das boas razões, deixando sempre o caminho acessível aos malvados”. Em sua forma mais original [37], o fascismo é republicano e anticlerical e, se em alguma ocasião, em algum lugar e momento (como ocorreu durante o “ventennio” do entre guerras), se associou com a Igreja e com a monarquia, sempre o fez com certa repugnância e como um mal necessário. Marinetti, o chefe das fileiras do movimento estético e artístico dos “futuristas”, afirmava: “Estamos possuídos do mais intransigente anti-clericalismo. Queremos libertar a Itália dos padres, das freiras, das velas e dos campanários” [38]. Mussolini matizava muito mais: “O fascismo é humilde ante o Deus dos ascetas, dos heróis e dos santos e, sobre tudo, ante o Deus que é adorado nos corações dos simples e generosos do povo” [39]. A Igreja é considerada, enquanto instituição, como um mal menor do qual não é necessário preocupar-se, se não interfere nas ações do Estado Popular [40]. Mas, pelo contrário, a oposição ao clericalismo, ao “partido dos guelfos”, encarnado nos democrata-cristãos e nos católicos “progressistas”, é total. Robert Brasillach, em um artigo escrito com motivo da Guerra da Espanha, declara: “O panorama se divide perfeitamente: de um lado as igrejas queimadas, do outro, imensas provisões de água benta que apagam os incêndios (...) Toda colaboração com o comunismo é um crime contra a nação e contra a fé, e isso deveria incluir aos padres vermelhos” [41].


O fascismo sempre olhou com desconfiança e certo receio para esta parte do cristianismo que repudia a possibilidade de uma espiritualidade viril, que nega a transcendência heróica. “Temos a necessidade de heroísmo, e não dissemos que temos necessidade de guerra, mas desse heroísmo que simboliza a tentativa sublime do homem para fazer frente à natureza e ao destino” [42]. Para o homem fascista, a vida é um destino ao qual não se pode e nem se quer escapar: a liberdade, em sua última expressão, consiste em atravessar os acontecimentos com ou sem honra. A existência não é um fim em si (a vida não é nada se não se dota ela de um valor), senão o meio que nos é brindado para uma realização e uma superação de nós mesmos. Enfrentando às concepções reducionistas e quantitativas associadas à sociedade-massa igualitária, o fascista possui uma concepção ética e estética ligada à sociedade-povo hierárquica. Aprecia a vida em sua intensidade e não em sua duração. Afirmava Nietzsche que o último homem é o que vive mais tempo, e Mussolini costumava dizer com freqüência que “é melhor viver um dia como um leão do que cem anos como um cordeiro” [43]. O fascista, frente ao burguês, se preocupa mais no que pode dar de si à vida do que aquilo que dela pode tirar. O grito de “Viva a morte!”, que em seu sentido literal é um absurdo e uma contradição, é expresso pelo fascista em seu horror ao observar uma vida vazia e sem conteúdos essenciais e existenciais, é a conseqüência do total desprendimento de si. O fascismo transforma a fatalidade mais opressiva em uma eventualidade para a glória.

Hegel dizia que o destino é a consciência do si-mesmo como um inimigo, mas que não há lugar para a tragédia se o homem é o artista de seu próprio devir voluntário. “Ao extremo da corda, o adversário – essa realidade que te devolve o olhar – é a morte” [44]. Mas a morte, ao invés de arruinar tudo, nos oferece a possibilidade de dotar a vida de um destino. Drieu La Rochelle disse em certa ocasião, que o homem fascista deixava de ser ele mesmo se oferecia sua vida pensando que talvez pudesse recuperá-la. Montherlant, em seus “Carnets”, definiu perfeitamente este estado de espírito com as seguintes palavras: “Suicida-se por respeito à vida quando a vida deixou de ser digna de nós mesmos; mas, o que há de mais honrável e digno do que o respeito à vida?... O suicídio é, essencialmente, um desafio. A morte é indestrutível? Bem, mais ou menos depende de mim... é o último ato em que o homem pode demonstrar que domina sua vida ao invés de ser dominado; e não falamos do suicídio precipitado e covarde, egoísta, mas do reflexivo e generoso”. O homem fascista é um apaixonado pela vida, do jogo de azar levado às suas últimas conseqüências, e é este o motivo pelo qual não deve temer a morte.
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[34] J. Monnerot, “Les lois du tragique”, PUF 1969, pág. 110.

[35] A. Camus, citado por E. Wernor, “De la violencia al autoritarismo”, FCE 1972, pág. 49.

[36] J.P. Sartre, “El ser y la nada”, FCE 1972, pág. 669.

[37] Como Estado fascista completo, nos inclinamos a considerar como tal à República Social Italiana, que se estende no tempo de 1943 a 1945 (N. do T.)

[38] Citado por A. Hamilton, “La ilusión fascista”, pág. 39.

[39] Benito Mussolini, “Obras Completas”, tomo IX, pág. 22.

[40] Não em vão, o Estado fascista subscreveu com o Vaticano as concordatas de Latrão (N. do T.)

[41] “Je suis partout”, 24 de setembro de 1937.

[42] O. Mosley, “My life”, pág. 330.

[43] Muito conhecida é a frase de outro verdadeiro revolucionário, Ernesto “Che” Guevara: “Mais vale morrer de pé do que viver de joelhos”. (N. do T.)

[44] Yukio Mishima, “Sol y acero”.

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