segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Imigração: O Exército de Reserva do Capital

por Alain de Benoist



Em 1973, pouco antes de sua morte, o presidente francês Georges Pompidou admitiu ter aberto os portões da imigração, a pedido de um certo número de grandes empresários, tais como Francis Bouygues, que estava ávido por tirar vantagem do trabalho dócil e barato desprovido de consciência de classe e de qualquer tradição de luta social. Essa medida foi tomada para exercer pressão sobre os salários dos trabalhadores franceses, reduzir o seu zelo combativo, e ademais, romper a unidade do movimento sindical. Grandes chefes, ele disse, "sempre querem mais".

Quarenta anos depois nada mudou. Em uma época em que nenhum partido político ousaria pedir uma aceleração do ritmo da imigração, apenas grandes empresários parecem estar a favor - simplesmente porque é de seu interesse. A única diferençe é que os setores econômicos afetados são agora mais numerosos, indo além do setor industrial e dos setores de serviços de hotelaria e bufê - agora para incluir profissões outrora "protegidas", tais como engenheiros e cientistas de computação.

A França, como sabemos, começando no século XIX, buscou massivamente imigrantes estrangeiros. A população imigrante já era de 800.000 em 1876, para alcançar 1,2 milhões em 1911. A indústria francesa era o principal centro de atração pra imigrantes italianos e belgas, seguidos por poloneses, espanhóis e portugueses. "Tal imigração, não especializada e não sindicalizada, permitiu aos empregadores evadirem exigências cada vez maiores relaivas à legislação trabalhista". (François-Laurent Balssa, "Um choix salarial pour les grandes enterprises", Le Spectacle du monde, outubro, 2010).

Em 1924, pela iniciativa do Comitê de Mineração de Carvão e de latifundiários do nordeste da França, uma "agência geral para a imigração" (Société générale d'immigration) foi fundada. Ela abriu departamentos de emprego na Europa, que operavam como bombas de sucção. Em 1931 havia 2,7 milhões de estrangeiros na França, ou seja, 6,6% da população total. Naquela época a França tinha o mais alto nível de imigração no mundo (515 pessoas por 100.000 habitantes). "Essa foi uma maneira prática para um grande número de grandes empresários de exercerem pressão salarial...Daí em diante o capitalismo entrou na competição da força de trabalho apelando aos exércitos de reserva dos assalariados".

No pós-Segunda Guerra, imigrantes começaram a chegar mais e mais frequentemente de países magrebinos; primeiro da Argélia, então do Marrocos. Caminhões alugados por grandes companhias (especialmente das indústrias automobilística e de construção) vinham às centenas recrutar imigrantes no local. De 1962 a 1974, quase 2 milhões de imigrantes adicionais chegaram à França dos quais 550.000 foram recrutados pelo Serviço Nacional de Imigração (SNI), uma agência estatal, porém controlado por baixo dos panos pelo grande capital. Desde então, a onda continuou a crescer. François-Laurent Balssa nota que:

"quando uma falta de mão-de-obra em um setor ocorre, das duas escolhas possíveis deve-se ou aumentar o salário, ou deve-se buscar mão-de-obra estrangeira. Usualmente é a segunda opção que é favorecida pelo Conselho Nacional de Empregadores Franceses (CNEF) e desde 1998 por seu sucessor, o Movimento de Empresas. Essa escolha, que dá testemunho do desejo por benefícios a curto prazo, avanço retardado de ferramentas de produção e inovação industrial. Durante o mesmo período, porém, como o exemplo do Japão demonstra, a rejeição da imigração estrangeira e o favorecimento da força de trabalho doméstica permitiu ao Japão alcançar sua revolução tecnológica, bem a frente da maioria dos seus competidores ocidentais".

Grande Capital e a Esquerda; Uma Santa Aliança

Inicialmente, a imigração era um fenômeno ligado às grandes empresas. Ela continua sendo assim. Aqueles que sempre clamam por mais imigração são as grandes corporações. Essa imigração está em concordância com o próprio espírito do capitalismo, que objetiva extinguir as fronteiras ("laissez faire, laissez passer"). "Ao mesmo tempo em que obedece a lógica do dumping social, Balssa continua, um mercado de trabalho de 'baixo custo' foi assim criado com os 'não registrados' e os 'não especializados', funcionando como um 'faz-tudo' temporário". Assim, o grande capital estendeu sua mão para a extrema-esquerda, aquela objetivando desmantelar o welfare state, considerado muito custoso, esta destruindo o Estado-Nação considerado muito arcaico". Essa é a razão pela qual o Partido Comunista Francês (PCF), e Central Sindical Francesa (CSF) (que mudou radicalmente desde então), haviam, até 1981, batalhado contra o princípio liberal das fronteiras abertas, em nome da defesa dos interesses do proletariado.

Ao menos agora um liberal-conservador católico bem inspirado, Philippe Nemo, apenas confirma essas observações:

"Na Europa há pessoas responsáveis pela economia que sonham em trazer mão-de-obra barata para a Europa. Primeiramente, para ocuparem cargos para os quais há baixa oferta de mão-de-obra nativa; em segundo lugar, para exercer pressão considerável sobre os salários de outros trabalhadores na Europa. Estes lobbies, que possuem todos os meios necessários para serem ouvidos tanto pelos governos ou pela Comissão em Bruxelas, são, geralmente falando, tanto em favor da imigração como do alargamento da Europa - que facilitaria consideravelmente migrações de mão-de-obra. Eles estão certos sob esse ponto de vista - uma opinião que atende exclusivamente a uma lógica econômica (...) O problema, porém, é que não pode-se discutir sobre essa questão apenas em termos econômicas, dado que o influxo dessas populações extra-europeias também possui consequências sociológicas severas. Se esses capitalistas dão pouca atenção a esse problema, talvez seja porque eles aproveitam-se amplamente de benefícios econômicas da imigração sem, porém, sofrerem eles próprios dos reveses sociais. Com o dinheiro ganho por suas empresas, cuja lucratividade é garantido dessa maneira, eles podem residir em belas vizinhanças, deixando seus compatriotas menos afortunados para lidarem por conta própria com populações estrangeiras em áreas suburbanas pobres". (Philippe Nemo, Le Temps d'y penser, 2010)

Segundo dados oficiais, imigrantes vivendo em famílias regulares representam 5 milhões de pessoas, ou seja 8% da população francesa em 2008. Filhos de imigrantes, que são descendentes diretos de um ou dois imigrantes, representam 6,5 milhões de pessoas, ou seja 11% da população. O número de ilegais estima-se ser entre 300.000 e 550.000. (A expulsão de imigrantes ilegais custa 232 milhões anualmente, ou seja, 12.000 euros por caso). De sua parte, Jean-Paul Gourevitch, estima que a população de origem estrangeira vivendo na França em 2009 seja de 7,7 milhões (das quais 3,4 milhões são do Maghreb e 2,4 milhões da África Sub-Saariana), isto é, 12,2% da população metropolitana. Em 2006, a população imigrante foi responsável por 17% dos nascimentos na França.

A França hoje está experimentando assentamentos migrantes, que é uma consequência direta da política de reunificação familiar. Porém, mais do que nunca antes os imigrantes representam o exército de reserva do capital.

Nesse sentido é incrível observar como as redes favoráveis aos "ilegais", lideradas pela extrema-esquerda (que parece ter descoberto nos imigrantes seu "proletariado substituto") serve aos interesses do grande capital. Redes criminosas, traficantes de pessoas e bens, grandes empresas, ativistas de "direitos humanos", e empregadores corruptos - todos eles, por virtude do livre-mercado global, tornaram-se apologistas da abolição de fronteiras.

Por exemplo, é um fato revelador que Michael Hardt e Antonio Negri em seus livros Império e Multidão endossam "cidadania mundial" quando eles clamam pela remoção de fronteiras, que deve ter como um primeiro objetivo nos países desenvolvidos o assentamento acelerado de massas de trabalhadores pobres do terceiro mundo. O fato de que a maioria dos migrantes hoje deve seu deslocamento ao outsourcing, causado pela lógica sem fim do mercado global, e que seu deslocamento é precisamente algo que o capitalismo deseja de modo a encaixar todos no mercado, e finalmente, que cada ligação territorial possa ser parte de motivações humanas - não incomoda esses dois autores de modo algum. Ao contrário, eles notam com satisfação que "até o capital requer uma mobilidade de trabalho cada vez maior bem como a migração contínua através de fronteiras nacionais". O mercado global deveria constituir, sob seu ponto de vista, uma moldura natural para a "cidadania global". O mercado "necessita de um espaço suave de fluxo desterritorializado e não-codificado", destinado a servir aos interesses das "massas", porque a "mobilidade porta uma etiqueta do capital, que significa o desejo ampliado por liberdade".

O problema com tal apologia do deslocamento humano, visto como uma condição primeira do "nomadismo liberador", é que ele apoia-se em uma perspectiva completamente irreal da situação específica dos migrantes e dos povos deslocados. Como Jacques Guigou e Jacques Wajnsztejn escrevem, "Hardt e Negri iludem-se com a capacidade dos fluxos de imigração, pensado como sendo uma fonte de novas oportunidades para valoração do capital, bem como a base para oportunidade de melhoramento para as massas. Porém, os migrantes não significam nada além de um processo de competição universal, enquanto migrar não possui mais valor emancipatório do que ficar em casa. Uma pessoa 'nômade' não é mais inclinada à crítica ou à revolta que uma pessoa sedentária". (L'évanescence de la valeur. Une présentation critique du groupe Krisis, 2004).

"Enquanto as pessoas continuem abandonando suas famílias, acrescenta Robert Kurz, e buscando trabalho em outro lugar, até pondo em risco suas próprias vidas - apenas para serem finalmente despedaçadas pela esteira do capitalsimo - elas serão menos arautas da emancipação e mais os agentes auto-congratulatórios do Ocidente pós-moderno. Na verdade, eles representam apenas sua versão miserável". (Robert Kurz, "L'Empire et ses théoriciens", 2003).

Quem quer que critique o capitalismo, ao mesmo tempo em que aprova a imigração, da qual o proletariado é a primeira vítima, deve silenciar-se. Quem quer que critique a imigração, enquanto permanece em silêncio a respeito do capitalismo, deve fazer o mesmo.

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