sábado, 5 de novembro de 2011

Origens Gnósticas do Pensamento de Alfred Rosenberg

por James Whisker

Já foi dito que o oponente cristão do judaísmo tem apenas duas alternativas: desudaizar Cristo, ou negá-lo. Houston Stewart Chamberlain, seguindo muitos teólogos da Europa central no século XIX, tentou provar que Jesus era um ariano vivendo em uma área isolada da Galiléia, e racialmente separado do resto dos povos da região. O autor de Fundações do Século XIX tentou mostrar que um grupo isolado de nórdicos havia separado-se da parte principal da nação, e que Cristo era descendente de tal povo. O Marechal Ludendorff e outros meramente negavam a relevância de Jesus e eram anti-cristãos tanto quanto anti-hebreus. Essas duas tradições aceitavam em comum a idéia de que a Bíblia, o Velho e Novo Testamentos eram história literal.

Uma terceira possibilidade subjaz o pensamento de Rosenberg. As origens estão enraizadas nas idéias e práticas pré-cristãs comumente conhecidas no Ocidente como gnosticismo. Como muitos outros termos genéricos, gnosticismo é usado por muitos para cobrir uma ampla variedade de idéias teológico-filosóficas. Por causa do sucesso da igreja ocidental, incluindo suas formas protestantes mais recentes, os sistemas que foram conquistados na longa luta por supremacia religiosa na Cristandade são considerados em um contexto totalmente negativo. Nomes como marcionita, gnóstico, maniqueu, e bogomil, são pejorativos. Muito do que foi sabido sobre eles era ou secretamente guardado ou foi aprendido pela leitura das refutações de oponentes ou dos relatos de uma ou outra Inquisição, incluindo as interrogações (geralmente de membros incultos sob tortura) daqueles que eram acusados de heresia.

No século XX houve dois grandes desenvolvimentos que mudaram o que sabemos sobre as várias "heresias". Um foi a descoberta de importantes documentos e tratados escritos ou por gnósticos importantes ou por seus discípulos e seguidores próximos. O outro desenvolvimento é o interesse demonstrado por líderes do Terceiro Reich nesses movimentos, e o estudo subsequente da ideologia em termos de tal pensamento. Entre as obras mais importantes a aparecer reinterpretando o movimento nacional-socialista em tais termos estão The Morning of the Magician de Pauwels e Bergiers, The Spear of Destiny  e The Cup of Destiny de Ravencroft, e The Occult and the Third Reich de Angebert.

A maioria dos autores que redescobriram os gnósticos e sua influência sobre o Terceiro Reich tem assumido que os líderes mantinham as bases do conhecimento secretas, usualmente nos altares e rituais da SS, e que esse conhecimento especial jamais foi dirigido à distribuição em massa. Apenas alguns poucos tipos especialmente selecionados da SS podiam ser confiados com segredos antigos. Mesmo no Estado pré-Terceiro Reich, Rosenberg havia distribuído seu ensaio sobre as origens da ideologia nacional-socialista (em verdade escrito antes da formação do NSDAP). Seu Mito do Século XX discutia uma seita gnóstica particular, os Cátaros (Purificados), em grande detalhe, faltando apenas oferecer uma versão simplificada da religião-filosofia cátara como a nova religião da Alemanha.

É minha alegação aqui que o Mito do Século XX de Rosenberg é quintessencialmente uma obra gnóstica que tentou estabelecer a base para obras subsequentes que teriam levado a Alemanha de volta no tempo a uma fase na qual uma religião simples e anti-judaica era a prática comum no Ocidente entre as pessoas comuns. Ele foi estruturado não como uma afirmação final sobre a Nova Religião Nórdica, mas deeria servir como um teste, um precursor do que estaria por vir. No início da década de 20 Rosenberg não estava ainda preparado para oferecer uma declaração final de sua filosofia. A pesquisa necessária para a criação completa não havia sido ainda termianda. Era uma promessa de coisas vindouras. Era uma missão que poderia, em seus termos, ser comparada com o envio dos Cavaleiros da Távola Redonda por Rei Arthur na busca pelo Santo Graal.

A Lenda do Graal

Toda criança alemã conhece o grande conto folclórico do Graal de cabeça. O Parzival de Wolfram von Eschenbach foi uma das maiores obras literárias em alemão (ou qualquer outra língua). Superficialmente é um conto familiar sobre a busca de um cavaleiro de coração puro pelo amor perfeito e por redenção. Ele foi popularizado no final do século XIX pelo compositor Richard Wagner, em forma operática. Poucas obras de literatura heróica teve impacto maior sobre a consciência nacional dos alemães do que Parzival.

A ópera de Wagner abre com o idoso cavaleiro, Gurnemanz, lembrando a lenda do Graal. Titurel havia enfrentando os pagãos sem sucesso quando, subitamente, ele foi visitado por um bando de anjos. Eles colocaram sob sua guarda o Santo Graal, do qual Cristo bebeu na Última Ceia; e a Lança de Longino, a lança usada pelo centurião romano para perfurar o flanco de Jesus enquanto ele agonizava na cruz. Titurel havia construído uma grande fortaleza em Montsalvat para guardar esses tesouros, e havia reunido a seu redor aqueles cavaleiros que eram puros de coração para que guardassem esses grandes talismãs de poder celestial. Esses cavaleiros cavalgaram para combater a injustiça e a tirania ao redor do mundo.



 Klingsor era um candidato, mas ele não conseguia conquistar a luxúria e a paixão em seu coração, e assim foi rejeitado como membro. Ele então construiu um grande jardim de maldade no qual, através de tentações da carna providenciadas por uma variedade de belas mulheres, ele atraiu os puros para fora de sua fortaleza, e escravizou-os a seu maligno serviço. Amfortas foi enviado por Titurel para levar a lança sagrada ao local maligno e por um fim a suas tentações. Klingsor enviou a amável Kundry para tentar Amfortas. Ela seduziu-o e entregou a lança sagrada a Klingsor. O feiticeiro maligno feriu Amfortas com ela, e apesar de Amfortas ter escapado, sua ferida não sarava. Amfortas acreditava que estava condenado por seu pecado da carne.

Até que o Tolo Inocente, Parsifal, aparece na cena, buscando sua identidade e destino. Após uma breve cena na qual o Santo Graal é desvelado, ele vai ao castelo de Klingsor. Kundry é enviada para seduzi-lo, mas, subitamente, Parsifal tem uma visão e fica fascinado. É dito-lhe que caso ele renda-se à sedução de Kundry não haverá cura para a ferida de Amfortas nem salvação para ele ou para os Cavaleiros do Graal. Ele rejeita Kundry e sai. Klingsor tenta matá-lo com a lança, mas ela passa sobre a cabeça do jovem. O paraíso sensual desmorona e Klingsor desaparece.

Após muitos anos Parsifal retorna de suas viagens pelo mundo. Ele descobre que Kundry tomou as vestes de uma penitente e que Gurnemanz tornou-se ermitão. É a Sexta-Feira Santa. É dito-lhe que Titurel morreu e que Amfortas ainda encontra-se ferido e incapaz de abençoar a Sagrada Comunhão. Parsifal vai a Montsalvat, toca a ferida de Amfortas com a lança sagrada e revive o cavaleiro. A lança e o Graal são recolocados no santuário.

A lenda do Graal é interpretada de duas maneiras. Geralmente, ela é vista como uma história de amor cristão e de redenção da humanidade. A segunda é a interpretação mítica. Diz-se que o Graal contém uma mensagem codificada conhecida apenas por uns poucos, e compreendida por um número minúsculo. É essa interpretação que é aceita por Ravenscroft em The Cup of Destiny e por Angebert em The Occult and the Third Reich.



Lúcifer era um Príncipe do Céu antes de seu pecado levar Deus a lançá-lo no Inferno. Em sua descida ao Submundo sua coroa caiu sobre a terra, e dela separou-se uma enorme esmeralda. Esta foi usada pelos homens da Antiguidade para fazer uma taça a ser usada em rituais ocultos. Aqui encontramos a mais antiga relíquia aceita tanto por cristãos como por gnósticos. A taça estava marcada com signos especiais, símbolos, runas e similares, todas representando a ascensão do homem através de vários estágios a um estado final de Graça. O Graal havia tornado-se o receptáculo sagrado do Conhecimento Iniciátivo. Ele continua em seu exterior o grande tesouro do conhecimento e tradição primordiais que ligavam o passado ao futuro. Esse conhecimento primordial pode trazer o homem de volta à única condição natural e verdadeira para ele, o estado primordial de consciência.

Dentro da Alemanha muitos consideravam o Graal como o livro perdido e secreto da raça ariana. Ele havia sido confiado a eles em eras passadas, e era perdido e recuperado ocasionalmente. Qual seria precisamente seu conteúdo era algo não sabido, e como ele estava escrito em símbolos, a interpretação dada a essas runas poderia diferir de era para era. Era o maior tesouro de todos os arianos, de todas as eras. De era a era ele havia sido o fator unificador, o único artefato que dava uma razão para a existência da raça.

O filme Excalibur deu uma interpretação similar altamente secularizada do mito do Graal. O Graal é apresentado como sendo uma espécie de intermediário entre governante e governados, um transmissor mágico que garante que o rei e a terra são apenas um, e que cada um servirá ao próximo em uma relação completamente natural. Porém, é a dimensão espiritual do Graal que permite essa união mítica.

O Graal antecede o Cristianismo. Este é um absoluto cuja aceitação é necessária para compreender a importância dele como um artefato para o NSDAP e seus líderes, notavelmente para a SS. No Mito do Século XX de Rosenberg, o Graal pode ser visto como a causa da objeção dos alemães a alguns aspectos do Cristianismo, notavelmente ao Catolicismo Romano. Ele pode ser visto como tendo garantido direção ao povo alemão, ou pelo menos a uma porção significativa dele, quando o povo foi confrontado pelos ensinamentos ortodoxos da igreja ocidental que eram estranhos a ele.

Enquanto os autores dos estudos recentes, notavelmente Angebert e Ravenscroft, e em menor medida Pauwels e Bergier, notaram a importância dos cátaros ao longo do século XIV, eles não foram suficientemente longe em suas pesquisas. É verdade, como veremos abaixo, que os "Purificados" preservaram, por um tempo, o Graal e outros artefatos relacionatos, mas eles chegaram relativamente atrasados, tanto doutrinariamente e em termos de interesse e preservação do Graal.

A Heresia Marcionita

Devemos retornar ao século II d.C., a Marcião de Sinope em Pontus, para ver o desenvolvimento de todo o corpo literário cercando o Graal. Boa parte do que ficou em contradistinção tanto ao Catolicismo Ocidental e ao cisma ortodoxo posterior daquela igreja, pode ser visto ao menos germinalmente em Marcião. Ele, como muitos, lutou com o grande problema do mal. A igreja ainda não havia decidido naquele momento sua própria explicação para o mal no mundo. A questão estava longe de ser pacificada quando Marcião estava escrevendo.

Os marcionitas acreditavam que o mal era uma força efetivamente real, e não meramente a privação de algum bem. Pode-se, como simplificação, considerar tal poder maligno como o diabo, Satã, ou o Senhor das Moscas. Ele é um poder a ser reconhecido. O mundo seria a fonte de pecado e corrupção, e deveria ser evitado. Ele havia sido criado exatamente como o Velho Testamento havia dito, mas não por Deus. Havia um ser menor, ou seres, como os "artífices do mundo" da Grécia clássica. Algumas vezes conhecido como um Demiurgo, aquele criador possuía uma fagulha de divindade, pois ele era um filho de Deus, uma emanação do Altíssimo. O homem naturalmente anseia por seu verdadeiro lar, mas este é desconhecido a ele. Ele está preso em um mundo de corrupção e ruína: na matéria, no mundo material, que não é criação de Deus.



Para Marcião, o Velho Testamento era uma mentira porque ele era a história de um falso deus, um enganador: Jeová. Ele e a maioria, senão todos, de seus vários personagens eram uma mentira, e deveriam ser rejeitados. Os judeus ele considerava como sendo o povo de Jeová, ou seja, uma raça dedicada ao falso deus. Ele concordava com os judeus em um ponto: seu Messias ainda não havia vindo. Jesus Cristo não era seu redentro; ele havia vindo liberar os homens da falsa religião de Jeová. Em seu dualismo anti-cósmico, Marcião colocou o Deus desconhecido em oposição ao inferior deus-criador, Jeová. A salvação da humanidade significava, em uma palavra, liberação em relação a Jeová.

O contraste entre ambos os mundos e seus respectivos deuses é muito grande. Jeová é apresentado por Marcião como um guerreiro-vingador, interessado em perpetuar um mundo de retribuição. O gentil Jesus é o agente do Deus desconhecido, e ele é misericordioso e repleto de amor. Não pode-se conhecer o Deus desconhecido diretamente, e ainda que ele tenha sido intuído pelos homens, ele não foi revelado como existente até Jesus vir ao mundo. Jeová estava em casa no mundo material porque ele era sua imagem reflexa, feito a sua imagem e semelhança. O verdadeiro Deus não poderia existir nesse mundo, pois ele é puro Espírito e está em oposição direta ao conflito e desordem que é inerente na matéria.

Os marcionistas rejeitavam toda e qualquer coisa que ligava o homem ao mundo material, ou que parecia ligar o homem a ele, ou que parecia sugerir redenção física ou conversão das coisas materiais. Assim eles rejeitavam o batismo, exceto como uma manifestação de seu desdém pelo mundo material. A Santa Comunhão era uma grande contradição, pois tinha como seu conteúdo primário a transfiguração de coisas materiais ao reino do espírito e do Deus desconhecido. Todos os prazeres terrenos deviam ser evitados como distrações que ligam o homem ao mundo temporal. O contato sexual era outro laço sério ao mundo visível. A procriação de crianças significava que mais fagulhas do Espírito seriam aprisionadas no mundo das lágrimas e mentiras.

Porque ele é pura bondade e misericórdia, o Deus desconhecido adotou a humanidade, ou pelo menos aquela porção que era sua própria e para a qual ele podia vir, e que aceitaria e amaria a ele. Deus deu-nos Graça livremente para ajudar em nossa salvação, não porque nós como seres inferiores não poderíamos merecê-la, mas porque ele amava-nos apesar de não conhecer-nos. Essa é a doutrina da "Pura Graça", uma parte quintessencial da teologia marcionita. Essa, em certo sentido, é a totalidade da religião. Deus amava o mundo de tal forma que, ainda que desconhecidos a ele, ele escolheu trazer os homens para viver com ele de modo que ele e os homens pudessem vir a conhecer um ao outro em um mundo completamente removido da corrupção do mundo presente.

A moralidade não era considerada como conformidade a alguma lei da Natureza; a natureza era física, e assim corrupta. Deus não estava no mundo. As leis naturais eram a personificação do Demiurgo, Satanás, não do Deus Desconhecido. Dever-se-ia evitar o contato com a natureza em todas as suas formas visíveis, pois ela leva para longe do verdadeiro Deus.

Conquanto seja a fé, e não o conhecimento, que leva a Deus, nós devemos ter acesso e conhecer o conhecimento especial de que muito do que passa por religião é falso. Nós devemos saber, no esquema de Marcião, que o Deus Desconhecido é Deus, e que o criador do mundo é apenas um eon, uma emanação maligna de Deus. Cristo, o Filho de Deus veio para dar-nos a conhecer aquilo que não podemos conhecer diretamente, por conta própria. Que nós estamos presos na matéria sem esperança de redenção a não ser que nós conheçamos a fé correta é uma questão de revelação especial, gnóstica. Que Deus convida a nós, estranhos, para sua casa sem qualquer conhecimento de nós, ou nós dele, é um cânon de fé que pode ser conhecido apenas através desse conhecimento especial.



Marcião descartou elementos do Novo Testamento dos quais ele não gostava. O que restou foram porções expurgadas dos Evangelhos (principalmente Lucas), algumas das cartas de Paulo, e pedaços dos Atos dos Apóstolos. É notável que a Igreja ocidental não havia, àquela época, codificado o Novo Testamento. Marcião foi mais restritivo do que a maioria dos sacerdotes da época em sua escolha dos ma teriais aceitáveis para os serviços. Ele rejeitava o Velho Testamento completamente, ainda que uma deviação da época, possivelmente não marcionita, desenvolveu-se em uma adoração da serpente, baseada no conto do Velho Testamento da tentação de Eva pela serpente. Presumivelmente, a serpente era um símbolo positivo pois estava em contradistinção àqueles que Marcião havia considerado personagens malignos. Acreditava-se que a serpente trazia certo conhecimento de Satanás, o criador de Adão e Eva.

Ao censurar o Novo Testamento, Marcião retirou aquelas referências feitas à infância de Cristo. Como Jesus era o mensageiro do Altíssimo, o Deus Desconhecido, ele não poderia estar imerso na matéria. Sem ter que materializar, Jesus parecia ter um corpo e apenas em Cafarnaum. Ele veio para salvar aqueles que rejeitassem o Judaísmo e Jeová. O que seu precioso sangue comprou, em um sentido metafórico, foi a liberdade em relação ao falso deus, Jeová. Ele ofereceu um batismo que rejeitaria o mundo e todos os seus males materiais. Dever-se-ia "casar" apenas com Cristo de modo que a procriação fosse evitada e o homem pudesse escapar do mundo material. Ainda que o mundo material continuasse existindo, Cristo havia vindo para destruir, como idéia, o mundo de Jeová.

A Heresia Maniquéia

Poucas deviações religiosas na igreja ocidental tiveram maior impacto ou efeitos mais duradouros do que o Maniqueísmo. Fundado por Mani na Mesopotâmia por volta de 242 d.C., ele foi um dos principais rivais do cristianismo ortodoxo. Mani foi martirizado pela igreja ocidental em 276 d.C. Entre os primeiros adeptos esteve o grande apologista da Igreja Católica, Santo Agostinho, que praticou seus dogmas de 373 a 382. Sua Cidade de Deus possui fortes tendências maniquéias em sua dicotomia absoluta entre bem e mal, e entre cidado do homem (mundo visível) e Cidade de Deus (reino do espírito).

Mani refletia o background gnóstico da região e dos tempos. A origem do mal está na natureza da própria matéria. Sua multiplicidade é radicalmente oposta à espiritualidade de Deus. A matéria é um mal que nunca pode ser redimido; é eternamente má. A alma é divina, ou similar ao divino, pois é imaterial e simples. O corpo do homem não é mais que uma prisão na qual a alma está presa. A redenção pode ser encontrada apenas na morte.

O Demiurgo, ou criador menor, criou o mundo visível a partir de partículas que pertenciam aos poderes das trevas. Esses poderes são opostos a Deus e a todo o reino do espírito. Eles estão perpetuamente presos no mundo da matéria. Eles enfeitiçam o homem a usar seus poderes sexuais para continuamente procriar de modo que partes do Espírito sejam aprisionadas nos corpos dos homens. De outro modo os corpos permaneceriam sem vida, cascas vazias, e não haveria ninguém para que os poderes das trevas controlassem.

A dicotomia é chamada dualismo anti-cósmico. Ele subjaz todas as obras principais do gnosticismo, mas especialmente do maniqueísmo. O pecado é concomitante com a própria vida no mundo material. Apenas a fagulha da vida, o espírito humano, é apto para a ação e pensamento divinos, e para a redenção. Necessariamente esse dualismo concluiu que tudo que seja finito (logo limitado no tempo) é maligno; tudo que seja eterno é bom, e o espírito do homem é uma fagulha do fogo eterno de Deus.

O maniqueísmo possuía uma rígida ética. A humanidade estava proibida de matar animais ou de derramar sangue. O sexo era condenado pelas razões indicadas acima. Dever-se-ia rejeitar Satanás, o mundo, todas as coisas materiais, e toda felicidade baseada no prazer dos bens materais. O eleito ou perfeito viajava pedindo comida. Eles ignoravam leis seculares que fossem de qualquer maneira antitéticas com sua religião, e abertamente buscavam martírio por suas crenças. Uma porção significativa da comunidade estava devotada a orações e jejuns, e era dependente de alojamento e hospitalidade dos crentes comuns.

Em um sentido estrito, os maniqueus não eram cristãos. Eles aceitavam Cristo como tendo sido um ser divino, ou, pelo menos, um ser guiado pelo Espírito Santo. Mas eles também aceitavam como tal todos os principais líderes de religiões: Buda, Lao-Tsé e outros. Eles rejeitavam a idéia de encarnação que é fundamental na Cristandade. Jesus apenas parecia ser um homem. Ele não foi crucificado; ele foi, em todos os momentos, onipresente. Alguns dos críticos do maniqueísmo acusavam o culto de panteísmo. É verdade que os maniqueis não viam utilidade para a maioria das crenças cristãs. Eles rejeitavam a Sagrada Comunhão por esta ser inútil devido a onipresença de Jesus. Eles rejeitavam as relíquias, tal como a cruz, parcialmente porque os artefatos eram materiais e parcialmente porque eles não tinham maior relevância que qualquer outro item físico, já que Deus está em todo lugar.

O termo maniqueísmo veio a representar qualquer e toda variedade de dualismo na qual matéria e espírito são necessariamente e essencialmente opostos. O movimento desapareceu provavelmente por duas razões. Era extremamente antissocial em sua rejeição do sexo e por sua exclusividade. Ia longe demais rejeitando guerra, violência e derramamento de sangue em uma era que estava tentada demais em guerrear tanto por conquista como em defesa. Mas o termo e muitas das idéias perduraram, sua fagulha vital sendo carregada por outros.

Agápio (c. 450 d.C.) tentou uma fusão de maniqueísmo e cristianismo. Ele continuou a crença em um deus maligno, uma força auto-subsistente que é tanto eterna como oposta a Deus. Ele clamou pela rejeição da totalidade do Antigo Testamento afirmando que este seria repleto de mentiras e enganação. Ele, também, condenou os prazeres terrenos, inclusive o sexo. Porém ele acreditava na doutrina da Trindade, na Encarnação, no batismo para remissão dos pecados, na Crucificação, na Ressurreição e no Juízo Final, e na ressurreição do corpo material glorificado. Sua fusão, ainda que intrigante, teve apenas o papel de elo na cadeia temporal.

Os paulicianos são outra coisa, já que eles serviram como elo entre o maniqueísmo e os cátaros, de 668 d.C., quando o culto foi organizado, até depois de 1200. Em 869, Pedro da Sicília escreveu um ataque contra os paulicianos em sua Historia Manichaeorum.

As origens do paulicianismo são obscuras. Os ensinamentos são traçados por algumas autoridades a Paulo e João de Samosata. O nome pode ter sido derivado deste Paulo, ou pode referir-se a devoção da seita pelas dez cartas de São Paulo (Saulo). Outros indicam que seria uma tentativa de diminuir o movimento como os "pequenos discípulos de Paulo".

Publicamente, os paulicianos rejeitavam o maniqueísmo, mas privadamente eles adotaram o dualismo gnóstico e muitos outros de seus ensinamentos. Eles rejeitavam o Velho Testamento como uma obra de enganação. Eles afirmavam que ele havia sido escrito por uma raça de ladrões e mentirosos, e era inspirado pela adoração do falso deus, um demiurgo, Jeová. Eles odiavam os judeus por um segundo motivo, como juízes e condenadores de Cristo. Eles somente não condenavam-os como assassinos de Cristo porque eles viam a Crucificação como uma ilusão. Eles viam Pedro como o típico judeu que, sob pressão e em perigo, traiu Cristo e negou-o.



Eles atacavam a igreja tradicional por diversos motivos. Eles viam o traje sacerdotal como a fantasia de Satanás. Eles desprezavam a ênfase colocada na Paixão e Crucificação por estas serem ilusões ou mentiras deliberadas. Cristo não possuía corpo físico feito da matéria corrupta desse mundo. Seu "corpo" era uma ilusão oferecida aos homens como um ponto de referência conveniente. A comunhão era uma oferta de coisas materiais, água ou vinho e pão, e assim não podia ser sagrada. A verdadeira Eucaristia, eles ensinavam, estava nas palavras e pensamentos de Cristo.

Superficialmente eles pareciam cristãos ortodoxos, pois eles faziam uma distinção entre coisas feitas superficialmente sem significado e aquelas feitas privadamente com significado especial. A Bíblia, até mesmo o odiado Velho Testamento, era aceito para usos exotéricos, enquanto os Iniciados usavam ritos esotéricos em privado. Eles acreditavam que a fé era o grande fator de orientação para alcançar a salvação (daí seu amor por Paulo). Mas eles também acreditavam que havia certos significados ocultos e palavras reveladas que os Iniciados deviam conhecer de modo a escapar do mundo material. Estas eles mantinham em segredo, em seus serviços clandestinos.

Em uma área eles diferiam do maniqueísmo. Eles estavam dispostos a lutar e morrer. Muito de seu sucesso veio em oposição aos exércitos de Bizâncio e, depois, dos impérios búlgaros. Eles espalavam a palavra com a espada bem como com a Bíblia. Talvez seu impacto na história seja maior por causa de sua habilidade de combate do que por suas idéias. Ainda que eles usualmente não impusessem a conversão, a mera visão de seus poderosos exércitos em campo deve ter tido impacto significativo sobre a população local. Seu poder alcançou o ápico sob Tíquico, por volta de 801 a 835 d.C., ainda que remanescentes tenham permanecido ativos até pelo menos 1200.

Idéias paulicianas e maniquéias fundiram-se em um movimento bastante original que apareceu na Bulgária por volta de 950 d.C. Nosso único ponto de referência autêntico é uma notação de que eles foram primeiro estudados enquanto o Tzar Pedro reinava na Bulgária. Pedro morreu em 969. Os bogomilos eram um grupo de iniciados possuidores de idéias e escritos secretos, cujo nome indicam "Deus tenha Misericórdia" ou "Misericórdia de Deus" ou "Amados de Deus".

Sua posição altamente original na teologia começa com o dualismo gnóstico da matéria como maligna e do espírito como bom. Na história do Filho Pródigo (Lucas 15:11-32) eles encontram uma alegoria. Cristo é o bom filho que permanecem com o pai e o diabo é o filho que parte para fazer o mal. O diabo (Satanel como os bogomilos chamavam) era o filho de Deus e irmão de Cristo. Uma história posterior que conta-nos dos bogomilos é como segue. O diabo fez o corpo de Adão. Ele tentou anima-lo com uma fagulha do eterno (alma) que ele havia roubado de Deus, mas a alma não ficava no lugar. A alma continuamente saía pelo ânus. Eventualmente o diabo foi capaz de prendê-la e a alma era suficiente para animar o corpo. O diabo fez o corpo da água e da terra.

Em uma segunda versão da história a água fluía do dedão de Adão e formava uma corrente d'água que apareceu a Adão como uma serpente. A serpente tentou alertar Adão para a mentira de Satanel e foi assim amaldiçoada por ele. Eventualmente, Deus e seu filho pródigo chegaram a um acordo: cada um governaria uma parte do homem. Deus governaria aquilo que havia sido roubado dele, o Espírito do homem; o diabo governaria o corpo.

Para impedir o fim da humanidade, e assim por fim ao controle de Satanel sobre o homem através de seu corpo, o diabo deve continuar a raça humana. Ele poderia realizar isso apenas continuamente aprisionando o Espírito na matéria. Ele assim usa o sexo como instrumento primário de controle. Sem sexo e procriação não haveria sujeitos futuros ao controle de Satanel. Assim, o casamento deveria ser rejeitado pelo verdadeiro crente.

A porção esotérico do culto bogomil ensinava que mensagens estavam escondidas nos evangelhos, atos dos apóstolos e cartas de Paulo. Tinha-se que ter uma certa chave para revelar os segredos. Por razões que não estão claras, mas talvez por medo dos judeus, as mensagens estavam presentes em charadas, alegorias e metáforas. A interpretação correta desses materiais era vital para a salvação.

Os bogomilos rejeitavam a cruz - ela era um símbolo do mal. Nela os judeus haviam realmente ou simbolicamente crucificado Cristo. Mesmo que tente-se reconciliar o dualismo que impede Cristo de ter tido um corpo com o ódio pelos judeus como "assassinos de Cristo" fica-se com a idéia no bogomilimo de que eles condenaram Cristo e seu ensinamento. A Cruz pode simbolicamente ser interpretada como representando essa condenação e rejeição.

Os bogomilos não faziam distinção entre sacerdotes e leigos. Era uma organização governada democraticamente sem hierarquia até aproximadamente 1200. Eles eram mais contemplativos que os paulicianos, menos dados a ação, e aparentemente não-violentos. Caso eles tivessem sido mais ativos militarmente sua estrutura organizacional poderia ter sido maior. Eles não tentaram criar um regime temporal.

A rejeição usual dos sacramentos marcava o bogomilismo. O casamento leva à criação continuada de corpos materiais. A comunhão é uma tentativa de fazer o impossível: santificar a matéria que é maligna e não pode ser abençoada. Relíquas são rejeitadas, e igrejas formais pela mesma razão.

Os fundagiagitas podem ser considerados como uma forma ou aplicação do bogomilismo e, em certa medida, do paulicianismo. Eles foram provavelmente fundados por João Tzurillas na Bulgária por volta de 1050, e espalhou-se pela Bulgária e Bizâncio. Era uma seita mais disposta que os bogomilos a fingir adesão aos dogmas da Cristandade Ortodoxa organizada. Era difícil descobrir seus aderentes durante as muitas perseguições de cristãos não-ortodoxos na Bulgária e Bizâncio.



Os fundagiagitas foram acusados de adorar o demônio, e de terem uma satanologia desenvolvida. A acusação vem de uma leitura equivocada de seu interesse em Satanel como um filho de Deus e como o criador desse mundo. Deus criou seis céus, e Satanel o céu restante. Satanel enganou os outros demônios em rebelarem-se contra Deus; percebendo que haviam sido enganados, esses outros anjos caídos resolveram criar uma raça de ajudantes para a humanidade. Isso eles fizeram gerando uma raça de gigantes com as filhas dos homens.

Moisés havia levado os judeus ao erro, os fundagiagitas afirmavam, ao adorar apenas Satanel, e em oferecer aos homens a lei que foi escrita por Satanel, não por Deus. Outros homens rebelaram-se, incitados pelos gigantes que haviam sido instruídos por seus pais. Em retaliação, Satanel causou o dilúvio universal que matou a todos menos Noé que havia permanecido fiel a ele. Nesse culto, muito poucas das figuras do Velho Testamento eram dignas de algo além da eterna danação.

Satanel havia roubado a fagulha de Deus que tornou-se o espírito do homem. Isso era representado metaforicamente como a luz do Sol disposta contra a escuridão eterna do reino de Satanel. O espírito do homem clamava por redenção, assim Deus enviou seu filho Jesus Cristo para resgatá-lo. Após salvar os homens, ou aquela porção para a qual ele veio e que recebeu-o, Jesus retornou ao céu. Na ascensão ele aprisionou Satanel, e removeu dele sua divindade, apóso que o diabo tornou-se Satã, o "el" tendo sido apropriadamente abandonado (O "el" indicava "de Deus"). Os ensinamentos de Jesus foram estruturados exclusivamente para liberar os homens de Satanel e de seus servos na Terra, os judeus, seguidores de Moisés e Noé.

Os Puros
No Mito do Século XX, Alfred Rosenberg passa muito tempo discutindo os cátaros, também conhecidos como os albigenses ou puros. Ele claramente preferia seu tipo de cristianismo à versão católica romana. Eles foram os portadores da tradição maniquéia, como influenciada pelos bogomilos, paulicianos, e outros, para dentro da Europa Central, nos anos anteriores à Reforma. Tivessem os cátaros sido mais militarmente ativos teriam sido eles, não Lutero e Calvino, que poderiam ter ganho um lugar na história como os reformadores do cristianismo e rebeldes bem sucedidos contra a igreja. Do modo como as coisas ocorreram, eles foram contidos com sucesso pela Igreja Católica e príncipes aliados.

Nós encontramos os cátaros emergindo por volta de 1025 d.C., na Alemanha, Itália e França, também espalhando-se para a Inglaterra e Flanders. Originalmente eles eram simplesmente "os novos maniqueus", e foram assim categorizados por aqueles que a Igreja enviou para eliminar a heresia recorrente. Há muitas lendas sobre os fundadores da heresia cátara, mas nenhuma figura singular ou pequeno grupo identificável pode receber crédito. Gerbert de Aurillac, Arcebispo de Reims, por exemplo, em 991 fez uma declaração de princípios que era decididamente gnóstica e manquéia, mas não pode-se dizer que foi ele que liderou ou encorajou a difusão da religião cátara. Em 1028 Guilherme V, Duque da Aquitânia, convocou um concílio de bispos para lider com a heresia, e lá sustentou-se que ela havia espalhado-se do Norte a partir da Itália. Ademar de Chabannes acreditava que uma mulher e outro camponês haviam levado a doutrina para a França, talvez da Itália. Os estudiosos modernos sugerem que uma porção dela, pelo menos, veio da Bulgária, Armênia, e/ou Império Bizantino, com outra porção vindo do Império Muçulmano, onde havia uma tolerância incomum por seitas gnósticas estranhas.

Suas doutrinas podem ser conhecidas principalmente a paritr de fontes católicas romanas, majoritariamente de registros mantidos de interrogatório de prisioneiros. Nenhum livro similar à Chave da Verdade foi encontrado, traduzido e disseminado até agora para explicar o lado cátaro da controvérsia sobre sua doutrina. A maior parte dos estudos modernos começam com um alerta de que os registors da Inquisição, mesmo se precisos, foram conseguidos daqueles sob tortura, e assim aqueles questionados estavam predispostos a dizer o que seu torturador queria ouvir. Também, os registros foram obtidos de camponeses ignorantes cujas idéias de teologia contradizem umas as outras, e pode ser que nenhuma seja correta e sua explicação da teologia. Por último, nós devemos notar que a heresia cátara existiu claramente por mais de dois séculos e não possuía qualquer autoridade central similar ao papado para determinar universalmente uma doutrina.
Os cátaros eram claramente dualistas no sentido maniqueísta clássico. As primeiras referências a eles afirmam que havia uma nova epidemia do velho nêmesis da Igreja, o maniqueísmo. Intermitentemente día em diante os cátaros foram chamados maniqueus. As autoridades ainda não decidiram, com base nos testemunhos disponíveis, se o dualismo cátaro era de deus eternos tradicionalmente opostos, ou se era do tipo monárquico. Pode ter havido graus de cada heresia existindo simultaneamente. O dualismo monárquico sugere que a potência do mal é um ser em todas as maneiras inferior a Deus, e que a força do mal desaparecerá quando o mundo material cessar. O dualismo tradicional, baseado em certa medida nos ensinamentos do sábio persa Zoroastro sugere que há dois igualmente eternos e poderesos seres, um bom e um mal.



Os cátaros aceitavam um número limitado de escritos bíblicos, e excluíam a maioria do Velho Testamento. Vários livros, aos quais o Novo Testamento recorria costumeiramente, foram mantidos, notavelmente os Salmos. O Jeová dos judeus era descartado como sendo ou uma encarnação ou forma de Satã, ou como sendo meramente um artífice do mundo e não Deus. Eles davam interpretações esotéricas à Escritura, incluindo a proscrição de comer carne. As porções do Novo Testamento que não encaixavam-se em seus propósitos foram removidas, usualmente com a justificativa de que essas haviam sido acrescentadas pelos judeus para confundir os fiéis.

Havia uma distinção significativa feita entre os Perfeitos e os leigos dentro do Catarismo. Os leigos eram aqueles que estavam aprendendo o verdadeiro Cristianismo. Eles podiam casar-se, ou continuar a viver casados, se quisessem. Os iniciados que haviam assumido os votos finais do culto não podiam ter intercurso sexual ou viver em ambiente familiar. O período de treinamento costumava durar vários anos ou mesmo uma década ou mais. Muitos cátaros adiavam fazer os votos até estarem próximos da morte, para que eles não fossem obrigados a seguir o código moral muito mais rígido requerido dos Perfeitos.

O grande sacramento da religião cátara era o Consolamentum. Ele era feito no lar de um Perfeito ou de um simpatizante. Começava com uma confissão comunal de pecados e falhas chamada o Servitium. Todos aqueles presentes, Perfeitos ou seguidores, participavam. Um Perfeito sênior mantinha erguida uma cópia das Escrituras. As transcrições do que a cerimônia consistia que vieram a nós, não contem nada que seja chocante, ou antitético ao cristianismo ortodoxo. O mais perto que chega de heresia é na ênfase colocada nos pecados de tipo material, notavelmente nos pecados da carne.

A iniciação do candidato no rito final dos Perfeitos era razoavelmente simples. Ela era repleta com escritos dos pais da Igreja aceitos e das Escrituras expurgadas, mas consistia principalmente na rejeição de coisas que eram ofensivas aos cátaros. O candidato jurava não comer carne, não engajar em vaidades mundanas, não mentir, enganar, blasfemar, e coisas similares. A Igreja Católica Romana alega que foi nesse ponto que a rejeição de todas as coisas católicas ocorria. O catecúmeno era lembrado que aqui, diante de Deus, ele jurava fidelidade eterna a sua religião. Indubitavelmente, era pedido a ele que renunciasse aos Sacramentos, já que estes estavam ligados ao mundo material, e a diversos cânones da fé.

Os cátaros não bebiam vinho, e eles faziam objeção à Sagrada Comunhão por considerarem que nada material poderia ser tornado santo ou purificado aos olhos de Deus. Isso, como nós já vimos, é padrão no dualismo anti-cósmico e gnóstico. A confissão era algo aberto, e não algo feito ao sacerdócio. A cruz era bastante objetável, sob a justificativa de que ela era o símbolo da paixão, ainda que eles geralmente acreditassem que Cristo não possuía corpo e apenas parecia sofrer. O fato de que os judeus haviam buscado crucificar e condenar Jesus era razão suficiente para odiar a cruz, mesmo se Cristo não tivesse realmente sido crucificado.

Alguns cátaros pareciam ser adocionistas. Aqui, eles acreditavam que um homem como qualquer um de nós - porém não judeu - havia nascido, a partir da carne de Maria, provavelmente filho de José, mas não nascido de uma virgem, e não nascido de alguém eternamente isento de pecado (Imaculada Concepção). À época do batismo por João, quando Deus disse as palavras "Este é meu Filho amado, em quem me comprazo", Jesus foi mesmerizado ou possuído por Deus. A "adoção" permanecem ao longo da crucificação, e possivelmente Deus removeu a si mesmo do homem ou no Jardim de Gethsemane ou na cruz ("Meu Deus, meu deus, por que me abandonaste?"). A maioria daqueles que aceitam o adocionismo acreditam que o homem, e não o homem-Deus, foi crucificado.

Provavelmente a corrente principal dos cátaros acreditava que Deus não havia, e não podia, tornado-se carne, porque a carne é material e portanto corrupta. Ele apenas parecia aos homens ter um corpo, como uma conveniência para os homens poderem vê-lo. Esse ponto-de-vista possui um benefício secundário: ele precluía ter que importar-se se Crista era ou não judeu. Este era um problema de preocupação considerável para um grupo que havia rejeitado completamente o judaísmo e seus escritos, profetas, pensamentos, e leis do Velho Testamento.

A doutrina tradicional sobre céu, inferno e purgatório eram inaceitáveis para os cátaros. A Terra, como o mundo material do diabo e da corrupção, era o Inferno. Apenas aqueles que renunciavam a carne e Satã poderiam ser aceitos no Céu. O Consolamentum era a purgação do mal e da corrupção do homem. Assim, não havia necessidade de um segundo lugar no qual essa limpeza poderia ocorrer. Similarmente, não havia necessidade de orar pelos mortos. Alguns dos mortes haviam alcançado o Céu acima da corrupção do mundo material, e portanto não precisavam de ajuda. Outros continuavam a ter seus espíritos aprisionados no mundo.

Nenhuma das obras consultadas a respeito do Catarismo abordou a questão da reencarnação, mas ela parece ser uma consequência lógica da religião. Se uma alma não era capaz de escapar da matéria, não seria ela forçada a retornar para tentar novamente? Ou seria que uma alma que falhasse em erguer-se do mundo material em uma única tentativa da vida passada aqui estava eternamente aprisionada na matéria de alguma maneira? As fontes que temos mantem silêncio nessa questão importante.

Poder-se-ia perguntar também se era necessário para os cátaros que todos os homens tivessem essa fagulha do Deus Eterno. Isso não é abordado nas fontes existentes tampouco. Uma lenda sugere que Satã invadiu o lar celestial suficientemente bem para capturar um terço dos espíritos e estes ele aprisionou em corpos terrenos. Porém, a lenda não afirma claramente que esse número era suficiente para responder por toda a humanidade. Esse, precisamente, é o problema principal nas doutrinas cátaras: elas falam em mitos, parábolas e lendas, e não infrequentemente contradizem-se.

Exceto em um sentido altamente simbólico, Maria não possui papel nos ensinamentos cátaros. Alguns mantinham que ela era, como uma virgem, um símbolo para a Igreja em sua forma mais abastrata. Um aparte sustentava que Maria foi um veículo através do qual um éon passou em seu caminho para a Terra; e uma variante sustentava ter Cristo passado através dela, mas através da orelha, não através da rota usual.



A Inquisição acusou os cátaros de serem panteístas. Em um sentido espiritual, algo de Deus pode ser dito como estando em todas as coisas. Contrariamente, nada material poderia abrigar Deus, como na rejeição cátara da Comunhão, porque Deus era a antítese da diversidade e multiplicidade materialistas. Os cátaros geralmente respondiam a perguntas sobre a presença de Deus na Igreja ou na Comunhão dizendo que Deus não estava mais presente aqui do que lá. Alguns cátaros evidentemente acreditavam que Deus, sendo onipotente, poderia entrar na matéria, ou assumir a aparência da matéria, à vontade, para enganar o Diabo e resgatar os Homens da Luz de sua prisão material. Assim, em qualquer dado momento, Deus podia estar presente em qualquer coisa aparentemente material, ou aparecer a todos, inclusive ao Diabo, como um ente material.

A lista de figuras invertidas em seu status moral é tão longa quanto intrigante. Jeová, como nós vimos, era o Deus Judeu, tão maligno quanto falso, uma forma de Satã (ou Satã encarnado). Abraão e Moisés eram ditos como sendo inspirados pelo Diabo. João Batista era maligno porque ele batizava na água (ou seja, em um ente material) ao invés de batizar no Espírito. Os vários personagens que destruíam, ou que tinham participação em destruir outros - como no roubo dos canaanitas para obter a "terra do leite e do mel" - eram condenados.

Rosenberg e Gnosticismo

Os cátaros serviam como um ponto de partida extremamente conveniente para o ataque de Alfred Rosenberg tanto contra a Igreja Católica como contra o Judaísmo. É impossível mostrar seu desenvolvimento intelectual, para dizer se seu desdém por essas duas instituições poderosas brotava de um desprezo geral por ambas, ou se sua análise de sua doutrina e sua história. Porém, há muitas referências ao longo do Mito do Século XX a ambos os grupos como os corruptores do Cristianismo e da verdadeira mensagem de Deus, e a essas organizações como perseguidoras dos cátaros.

Pode-se assumir que a referência favorável constante de Rosenberg aos cátaros sugere que ele acreditava que eles possuíam a chave para o Cristianismo verdadeiro. Rosenberg insistia ao longo de seus escritos e discursos que ele era cristão. Ele criticava a Igreja Romana pelas razões usuais que encontra-se na Europa pós-Reforma. Mas havia muito mais do que isso. A Reforma não havia ido longo o bastante. Lutero e Calvino, e outros, haviam começado na direção correta, mas haviam falhado.

Pode-se comparar os protestantes aos waldenses que foram contemporâneos dos cátaros. Os waldenses não eram de modo algum dogmáticos e eles gastavam pouco tempo com questões de doutrina esotérica. Eles meramente queriam purificar a Igreja, simplificar os serviços, e pôr fim à corrupção entre o clero. Em resumo, eles queriam reformar a Igreja para conformá-la mais à Igreja "simples" que eles acreditavam ter existido durante os Atos dos Apóstolos. Esses, basicamente, eram os objetivos e resultados do Protestantismo. Ao "simplificar" eles queriam reduzir o número e a complexidade dos sacramentos e o domínio da autoridade central sobre questões de fé, moralidade e buroracia. As disputas doutrinárias eram mínimas, e em geral não mais compreensíveis do que a diferença entre a transubstanciação católica e a consubstanciação luterana. As diferenças doutrinárias eram de importância mínima para a maior parte dos fiéis.

Assim, Lutera deu grande importância à interpretação literal da totalidade da Bíblia, e rejeitou tendências a expurgar o Velho Testamento. A questão de uma Bíblia vernacular era mais importante do que qualquer processo de "purificar" o conteúdo. Os calvinistas davam ainda maior atenção ao Velho Testamento do que a Igreja Católica. A forma puritana até mesmo tentou reinstituir o Governo dos Juízes e a teocracia do Velho Testamento quando eles chegaram ao poder na Nova Inglaterra, e muitos dos Diggers tentaram fazer o mesmo na Inglaterra.

Lutero tinha a maior das reverências pela palavra literal de Paulo. Os cátaros e outros gnósticos fizeram muito uso de Paulo, mas de modo tão elevadamente simbólico que uma afirmação justa sobre a situação poderia ser a de que eles meramente usaram Paulo como ponto-de-partido para suas idéias esotéricas. É com Paulo, especialmente em uma interpretação literal de Paulo, que Rosenberg tinha seu principal problema com o Cristianismo. Rosenberg via em Paulo uma hipocrisia conclusiva, na medida em que Paulo negou a Lei, porém deu grande atenção ao desenvolvimento da mesma Lei. Ele rejeitou o Código Mosaico sob aquele nome como rigoroso demais, mas tantou codificar uma Lei para os cristãos que, Rosenberg disse, era meramente o Código Mosaico sob um novo nome.

Para Rosenberg, Paulo foi o grande conspirador. Vendo que a nova religião de Cristo não podia ser derrotada, que ela ameaçava o judaísmo, os judeus enviaram Paulo para transformá-la. Porque o Novo Testamento culpava os judeus pela morte de Cristo ("Seu sangue caia sobre nós...") ele assumiria ou ao menos poderia assumir um caráter anti-judaico. Então os judeus decidiram, segundo Rosenberg, enviar um dos seus, em efeito sacrificando-o, para redirecionar o Cristianismo. Era simples assim: Cristo havia vindo para os seus, e os seus não receberam-no. Os judeus foram então excomungados. Mas ao redirecionar o cristianismo, Paulo fez parecer que os judeus não eram párias.

Se não fosse por Paulo, Rosenberg dizia, o Cristianismo teria sido como os "hereges" como os bogomilos, maniqueus, paulicianos, ou cátaros. Ele teria rejeitado o Velho Testamento, removido os judeus e seu Jeová, e fundado uma religião anti-judaica.

Nós consideramos incomumente difícil descobrir precisamente quanto da teologia dualista anti-cósmica Rosenberg dominou. Nós não sabemos precisamente que livros ele leu ou descobriu. Nem nós sabemos precisamente o que o "Departamento Oculto" da SS encontrou.



Após a queda da última fortaleza cátara, em outubro de 1244 d.C., em Montségur, um pequeno grupo conseguiu atravessar as linhas católicas e levou embora os tesouros. Entre esses diz-se que estava o Santo Graal, e nele o conhecimento iniciático que o gnosticismo cátaro demandava para a salvação. Esse é o tema principal tanto os livros de Ravenscroft, e de Angebert. A Cruzada contra o Graal de Otto Rahn, publicado durante os anos pré-guerra, sugere que a localização do maior tesouro dos cátaros era conhecido. Possivelmente, também, a SS havia localizado livros há muito perdidos de teologia cátara, ou livros mostrando a interpretação cátara esotérica dos livros do Novo Testamento que eles aceitavam. Também, a SS pode ter localizado os comentários cátaros sobre livros há muito usados pelas seitas maniquéias, incluindo livros apócrifos como O Livro de Enoque, O Livro de Adão e Eva, O Evangelho de Tomé, ou A Infância de Jesus.
Ravenscroft acreditava que a Lança de Longino havia há muito sido localizada, em Viena, na tesouraria dos reis hereditários austríacos. A lança, como ele chama-a em seu livro A Lança do Destino era para Ravenscroft um talismã de poder em si mesmo. Ele sugeria, mas não afirmava claramente, que podia ser muito mais.

Nós podemos ficar intrigados, como um adendo, pelo filme Os Caçadoras da Arca Perdida. Em certo sentido, ele sugere que um pequeno grupo sabia que os Nacional-Socialistas estavam caçando certos símbolos, tais como o Santo Graal e a Lança de Longino. Em outro sentido, porque a Arca da Aliança foi escolhida naquele filme? Nada que eu já li sobre Rosenber ou os gnósticos sugere que a Arca tivesse qualquer interesse.

Ademais dos escritos miscelâneos que nós sugerismo aqui, e do Graal, em que consistia o tesouro cátaro? Mais para o tema dessa seção do ensaio, o que Rosenberg acreditaria que ele consistia? E o que sobre isso Rosenberg estudou e considerou? Presumidamente, Ravenscroft e Angebert, pesquisando para seus livros, gastaram muito tempo em considerar respostas para essas perguntas. Ambos concordam que Hitler e os Nacional-Socialistas possuíam a Lança. Nenhum autor afirma de modo evidente que eles possuíam qualquer outro objeto específico ou escrito. Poder-se-ia até mesmo perguntar se, de fato, os cátaros possuíam um tesouro, e, se eles possuíam, se algo dele sobreviveu.

Eu suspeito fortemente que em algum lugar há, ou houve ao fim da guerra, uma quantidade substancial de pesquisas muito importantes sobre o movimento cátaro e o suposto tesouro retirado de Montségur. Elas teriam sido realizadas para o propósito expresso de serem incluídas na base do Cristianismo Nórdico que preocupava tanto Rosenberg quanto Hitler.

Angebert em The Occult and the Third Reich sugere que uma porção substancial do que a SS pesquisou em termos de religião foi colocado em uso pela SS sob Heinrich Himmler e que uma fortalieza especial havia sido garantida por Himmler para o propósito expresso de doutrinar os líderes seletos da SS em um novo culto. Pauwels e Bergier, cuja obra é mais notável por suas afirmações fantásticas desprovidas de qualquer documentação, dizem em Morning of the Magician que todo um ritual negro devotado a adoração de Satã era realizado por oficiais da SS. A Ordem Negra seria devotada à magia negra, demonologia, e todos os tipos de coisas malignas. Ravenscroft acreditava que Hitler era um mago negro, e um mestre de muitas das ciências ocultas.

Poder-se-ia indicar que acusações similares foram feitas contra os cátaros. Eles haviam oferecido toda uma nova interpretação do Cristianismo e haviam sido queimados em fogueiras e sofrido outros dolorosos martírios. Até que os documentos que ainda possam existir sejam revelados, nós podemos apenas dizer que está dentro do contexto das obras publicadas de Rosenberg que ele estudou tudo que estava disponível sobre os cátaros, e talvez sobre outros maniqueus medievais (em uma definição ampla do maniqueísmo), e que as idéias como ele as compreendia seriam a base para um Cristianismo reconstituído.

É notável que a Igreja Católica Romana agiu rapidamente, e pela primeira vez em muitos séculos atacou uma obra específica, O Mito do Século XX de Rosenberg, em uma encíclica entitulada Mit Brennender Sorge. A emissão de uma encíclica no vernacular era em si mesma algo mais do que levemente irregular e notável. A Igreja Católica Romana também assumiu a posição de exonerar os judeus de qualquer culpa especial pela morte de Cristo, colocando a culpa mais universalmente sobre todos os homens. Essa ação ocorreu depois de O Mito do Século XX ter sido escrito, e em alguma medida, a encíclica pode ser vista como uma reação a Rosenberg e à posição Nacional-Socialista.

Certamente, nada encaixava-se melhor com o pensamento prevalecente no Terceiro Reich do que a posição maniquéia sobre os judeus e o Velho Testamento. Que era bastante possível ser anti-judeu e bom cristão ao mesmo tempo era uma pedra angular da abordagem nórdica da doutrina cristã. Também era importante que os maniqueus medievais podiam assumir que havia uma raça de homens cósmicas que eram corruptos e materialistas e governados por um deus falso e materialista que estavam em oposição a uma raça de homens puros, fundados na rejeição do mundo material e profundamente imersos no reino da fagulha do Criador. A aformação dos maniqueus medievais sobre a raça e a antirraça parece uma passagem retirada de um manual nacional-socialista.

Um comentário:

  1. Muito bom esse artigo é muito esclarecedor. Eu realmente estava carente de material para minhas pesquisas sobre o movimento gnóstico completo . Este artigo me ajudou bastante.
    grata

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