segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Estado da Ordem e as SS

por Julius Evola

Consideremos agora algumas iniciativas especialmente interessantes do III Reich em que agiram influências e exigências ligadas em parte às ideias da "revolução conservadora". Trata-se do que se relaciona com o conceito ou ideal do Ordenstaat, isto é, de um Estado dirigido por uma Ordem (em oposição parcial tácita à fórmula do Estado-partido) acima das fórmulas colectivizantes da Volksgemeinschaft, colectividade nacional-racial, e do Führer-Staat de base totalitária, populista e ditatorial.

De certo modo, retomou-se a tradição das origens prussianas. Sabe-se que o nó original da Prússia foi uma Ordem, a Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, chamada em 1226 pelo duque polaco Konrad de Mazovie a defender as fronteiras do Leste. Os territórios conquistados e os dados em feudo formaram um Estado dirigido por essa Ordem e protegido pela Santa-Sé, da qual dependia no plano da disciplina, e pelo Sacro Império Romano. O Estado englobava a Prússia, o Brandeburgo e a Pomerânia. Em 1415, voltou aos Hohenzollern. Em 1525, com a Reforma, o Estado da Ordem "secularizou-se", emancipou-se de Roma, mas, mesmo desaparecido o laço propriamente confessional da Ordem, manteve o seu fundamento ético, ascético e guerreiro. Assim se continuou a tradição que deu forma ao Estado prussiano nos seus aspectos mais característicos. Ao mesmo tempo que a Prússia se constituía em reino, criava-se em 1701 a Ordem da Águia Negra, ligada à nobreza hereditária, que tomou por divisa as origens e o princípio clássico da justiça: Suum cuique. Interessa notar que na formação prussiana do carácter, especialmente entre o corpo de oficiais, se faz referência explícita à retomada do estoicismo no sentido do domínio sobre si mesmo, à firmeza de alma e a um estilo de vida sóbrio e íntegro. Assim, por exemplo, no Corpus Juris Militaris, introduzido no século XVIII nas escolas militares, recomendava-se aos oficiais o estudo das obras de Séneca, de Marco Aurélio, de Cícero e de Epicteto. 

Marco Aurélio foi uma das leituras preferidas de Frederico o Grande. Correlativamente, alimentava-se antipatia pelo intelectualismo e pelo mundo das letras (recorde-se a propósito a atitude sarcástica e drástica de Frederico-Guilherme I, o "rei dos soldados", que queria fazer de Berlim uma "Esparta nórdica". A fidelidade à Coroa (liberdade na obediência) e o princípio de serviço e de honra caracterizavam a classe política que dirigia o Estado prussiano, antigamente um Estado da Ordem, conferindo-lhe forma e poder.

Falta indicar a influência que em período mais recente, durante a república de Weimar, a Bundesgedanke, o pensamento ou ideal do Bund, conducente ao esboço de formas organizativas, exerceu em certos meios. Bund significa geralmente liga ou associação. Neste caso específico, porém, a expressão tem um conteúdo próximo de Ordem e não deixa de ter relação com o que se designou em certas pesquisas etnológicas e sociológicas com o nome de Männerbund, isto é, "sociedade de homens". Pensava-se numa elite definida por uma solidariedade viril e por uma espécie de auto-legitimidade. Na Alemanha, antes do Nacional-Socialismo, apareceram diferentes Bünde que, embora modestos nos seus efectivos, tinham orientações variadas e de um carácter quase sempre exclusivo. Quando os interesses que cultivavam interferiam no domínio político, tornavam-se partidários de um regime de elite, oposto aos regimes de massas.

Em face de tais precedentes, a ideia que podia corrigir o hitlerismo era que o Estado devia ser dirigido, mais que por um partido único, por qualquer coisa semelhante a uma Ordem. Por consequência, uma das tarefas fundamentais do III Reich seria a criação de quadros qualificados mediante a formação sistemática de uma elite concebida como a encarnação típica da ideia do novo Estado e da visão do mundo que lhe correspondia. 

Com essa pequena diferença relativamente à tradição precedente, que não podemos deixar aqui de considerar, além das qualidades de carácter e físicas, o factor raça — com particular referência ao tipo nórdico — eram valorados. Nesse sentido, o III Reich tomou, principalmente, duas iniciativas.

A primeira, foi a constituição pelo Partido de três Ordensburgen, castelos da Ordem. Eram complexos com edifícios cuja arquitectura se inspirava no velho estilo nórdico-germânico, com vastos terrenos anexos, bosques, prados e lagos, onde os jovens eram acolhidos depois de uma selecção prévia. Era-lhes dada formação militar, física, moral e intelectual, ensinada uma certa visão do mundo, e uma parte era especialmente consagrada a tudo o que dizia respeito a coragem e resolução, incluindo provas muito arriscadas. Entre outras coisas, reconstituíam-se pleitos com aspirantes, os Junker, que seguiam o seu desenrolar desempenhando o papel do público. Escolhiam-se processos em que a honra e outros valores éticos tinham especial destaque a fim de experimentar por meio de uma série de discussões a sensibilidade moral e as faculdades naturais de julgamento dos indivíduos. Rosenberg supervisava os Ordensburgen. As suas ideias serviam de base essencial à doutrinação, o que, dadas as reservas que fizemos, insinuava no conjunto um factor problemático. Os jovens saídos dos Ordensburgen, onde viviam uma vida em sociedade de homens sós isolados do resto do mundo, eram escolhidos para entrarem na posse de um título especial que lhes dava preferência no acesso a funções políticas e postos de responsabilidade no III Reich, ou, melhor ainda, no III Reich que havia de vir. 

As SS, porém, tinham muito mais importância. Com a conhecida propaganda do pós-guerra, a simples alusão às SS leva a maioria das pessoas a pensarem automaticamente na Gestapo, em campos de concentração, na missão de certas unidades SS na repressão ou em represálias durante a guerra, propaganda que não é mais que simplificação grosseira e tendenciosa. Não vamos aqui abordar o assunto, uma vez que não pretendemos ocupar-nos de contingências. Neste, como noutros casos, interessa-nos estudar os princípios e as ideias directrizes, independentemente daquilo a que algumas das suas aplicações possam ter dado lugar. Devemos, pois, trazer à luz do dia certos aspectos das SS geralmente ignorados (e que se pretende manter ignorados).

Na origem, as duas letras SS eram as iniciais de Saal-Schutz, designação de uma espécie de guarda pessoal de que Hitler dispunha no primeiro período da sua actividade para a protecção e o serviço de ordem das reuniões políticas. Nessa altura, não passava de um grupo reduzido. Mais tarde, os dois S passaram a significar Schutz-Staffeln (grupo de protecção, literalmente) e foram estilizados com duas linhas em ziguezage, que reproduziam um velho signo nórdico-germânico, as runas da vitória e também da força fulminante. Chegou-se à formação de um verdadeiro corpo, agora para protecção do Estado — o Corpo Negro, diferente dos Camisas Castanhas, ou SA, de que Hitler e Goering se serviram em 30 de Junho de 1934 para pôr fim, como vimos, às veleidades da "segunda revolução" radical no interior do Partido. Pelo seu desempenho nessa acção, as SS adquiriram estatuto e poderes especiais e passaram a ser a "guarda da revolução nacional-socialista". 

O organizador das SS foi Heinrich Himmler, mais tarde nomeado Reichsführer SS, ou seja, chefe das SS em todo o Reich. Himmler era de origem bávara e de educação católica. Ainda estudante de agronomia, fez parte em 1919 dos corpos de voluntários que combateram contra o comunismo. Tinha tendências monárquicas e conservadoras de Direita transmitidas pelo pai, antigo preceptor do príncipe herdeiro Henrique da Baviera. O ideal de uma Ordem exerceu sobre ele um fascínio especial e os seus olhos voltaram-se para a antiga Ordem dos Cavaleiros Teutónicos a que já nos referimos. Queria fazer das SS um corpo capaz de assumir de forma nova a função de nó central do Estado, como tinha sucedido com a nobreza e com a sua lealdade à Coroa. A formação do homem SS visava a combinação do espírito espartano e da disciplina prussiana. Mas também se inspirou na Companhia de Jesus (Hitler dizia a gracejar que Himmler era o seu "Inácio de Loyola") no que se referia a certa despersonalização levada por vezes a limites sobre-humanos. Assim, por exemplo, dizia-se logo no início ao candidato SS que, pela sua fidelidade e obediência absoluta e em caso extremo, devia estar pronto a não poupar os próprios irmãos, que os pedidos de desculpa não se usavam nas SS, que a palavra dada era qualquer coisa de absoluto. Citando um exemplo tirado de um discurso de Himmler, podia pedir-se a um SS para não fumar. Era rejeitado se não prometesse fazê-lo, mas, caso tivesse prometido e fosse surpreendido a fumar, "restava-lhe a pistola", ou seja, o suicídio. Nos regimentos militares estavam previstas provas de coragem física: numa dessas provas, o candidato SS devia aguardar calmamente na posição de sentido a explosão da granada colocada em cima do capacete de aço. 

Outro aspecto particular, era a cláusula racial. Além do sangue ariano (ascendência ariana provada a partir de 1750, pelo menos) e de uma constituição física sã e robusta, dava-se grande importância ao tipo nórdico de estatura alta. Por outro lado, Himmler queria fazer das SS um Sippenorden, isto é, uma Ordem que, à diferença dos antigos cavaleiros, correspondesse no futuro a uma raça, a um sangue, a uma linhagem hereditária (Sippe). Por essa razão, a liberdade de escolha conjugal do SS era fortemente limitada. Não devia desposar uma rapariga qualquer (menos ainda, mulheres de outra raça), e era necessária a aprovação mediante ofício racial especializado. Não estando de acordo, restava-lhe sair da Ordem. No entanto, depois da sua admissão (a seguir a um período probatório), a cláusula era claramente explicada ao aspirante SS. Assim se reafirmava a questão biológica ligada a certa banalização do ideal feminino e o especial relevo dado ao aspecto mãe da mulher.

Hitler desconfiava dos descendentes das velhas casas reinantes alemãs, mas Himmler, que tinha um fraco por eles, afirmava que as SS eram o único corpo do III Reich que convinha a príncipes. Com efeito, vários representantes da nobreza vieram a fazer parte desse corpo. O príncipe Waldeck-Pyrmont alistou-se em 1929 e, em 1933, os príncipes Mecklenburg, Hohenzollern-Sigmaringen, Lippe-Biesterfeld, etc. O príncipe Philippe de Hesse era amigo de longa data de Himmler. Nos últimos anos, a aproximação entre a importante organização do III Reich e a nobreza alemã traduziu-se nas relações cordiais mantidas com o Herrenklub de Berlim e no discurso de Himmler à Deutsche Adelsgenossenschaft (corporação da nobreza alemã). As relações com o exército eram mais frias, menos por divergências de orientação que por questões de prestígio, ao serem criados regimentos armados e militarizados nas SS e, por fim, verdadeiras divisões, que tomaram o nome de Waffen-SS. 

Mas foi Paul Hausser, saído do exército com o posto de tenente-coronel para militar nas fileiras da "revolução conservadora" e do Stahlhelm de Seldte, que reorganizou em 1935 a academia SS e passou a supervisionar a escola de cadetes no Welfenschloss de Brunswick.

Na sua evolução, as SS ramificaram-se em secções múltiplas, algumas das quais, pelo seu carácter específico, puseram em segundo plano os aspectos relativos à Ordem. Abstraiamo-nos aqui da SS Totenkopf, com funções paralelas às da polícia comum e da polícia do Estado (aliás, por decreto do ministério do Interior, Himmler foi nomeado comandante da polícia em 17 de Junho de 1936). Este sector das SS é o que é posto em questão por certos aspectos negativos do corpo, aspectos que viriam a ser largamente utilizados para tornar abominável a totalidade das SS. Pela nossa parte, referiremos somente a Verfügungstruppe SS, a força armada "de reserva", directamente dependente do chefe do Reich. Em Julho de 1940, deu nascimento às Waffen-SS, isto é, a unidades militares de elite, cujas façanhas na II Guerra Mundial (tendo em conta a formação pessoal do homem SS) iriam impor ao inimigo respeito e admiração. A secção Rusha (iniciais de Rasse und Siedlungshauptamt), que se ocupava de questões raciais e da colonização interna, pode também ser posta de lado. Aqui, só terão interesse as iniciativas de ordem cultural das SS.

A realização do ideal de Himmler deparou com uma espécie de handicap, já que, no seu sentido próprio, uma Ordem pressupõe um fundamento espiritual que, neste caso preciso, não podia referir-se ao catolicismo. Com efeito, a orientação anti-cristã, a ideia de que o cristianismo era inaceitável por tudo o que contém de não-ariano e de não-germânico, era muito corrente nas SS e, apesar da existência de tensões entre Himmler e Rosenberg, neste ponto havia uma indiscutível convergência de opiniões. 

Excluídos cristianismo e catolicismo, o problema da visão do mundo reportava-se em tudo ao que ia mais além da disciplina severa e da formação do carácter. As SS ambicionavam ser uma Weltanschauuliche Stosstruppe, isto é, uma força de choque no domínio, precisamente, da visão do mundo. No seio das SS tinha-se constituído há muito o S.D. (Sicherheitsdienst, serviço de segurança) que, em princípio, devia ter actividades culturais e o controle cultural (declaração de Himmler de 1937). Apesar do S.D. ter evoluído depois noutras direcções, na contra-espionagem, poe exemplo, o VII Gabinete manteve o seu carácter cultural e fizeram parte do mesmo notáveis cientistas e professores. Aliás, o S.D. podia tornar-se um SS ad honorem (Ehrendienst, serviço honorífico), possibilidade que contemplava as personalidades da cultura que haviam contribuído favoravelmente no sentido indicado. Pode citar-se, por exemplo, o Prof. Franz Altheim da Universidade de Halle, reconhecido historiador da Antiguidade e de Roma, e o Prof. Menghin da Universidade de Viena, eminente especialista da pré-história. A Ahnenerbe, instituição especial das SS, tinha por tarefa levar a cabo as investigações sobre a herança das origens, desde o domínio dos símbolos e das tradições ao domínio arqueológico.

Com efeito, a atenção voltara-se para o que se podia retirar dessa herança em matéria de cosmogonia e, nesse campo, superou-se o exclusivismo nacionalista de certos meios. Assim, por exemplo, Himmler subvencionou o holandês Herman Wirth, autor de A Aurora da Humanidade, volumosa obra sobre as origens nórdico-atlânticas, e convidou como conferencista um autor italiano que, mantendo a maior reserva relativamente ao catolicismo e ao cristianismo e evitando certos desvios de Rosenberg e de outros autores, tinha também pesquisado nessa área e no mundo da tradição em geral. 

De tudo isto se deduz que as SS se inseriam num quadro mais complexo e muito diferente do que geralmente se supõe. Apesar de muitas das suas iniciativas terem ficado apenas no projecto, a circunstância de terem sido concebidas tem muitíssimo sentido. Por princípio e segundo o parecer da Direita, o ideal de um Estado da Ordem, oposto ao Estado totalitário de massas e ao Estado-partido, só pode ser julgado positivamente. Aliás, já exprimimos a mesma opinião na crítica que fizemos à noção fascista do partido único. No caso específico da Alemanha, tudo dependia da integração dos elementos da Direita e da rectificação de alguns aspectos do III Reich que, para alguns representantes da "revolução conservadora" e do espírito prussiano, era uma contrafacção usurpadora das suas ideias.

Progressivamente, as SS ganharam importância política e chegou a falar-se de um "Estado dentro do Estado" ou, mais abertamente, de um "Estado SS". De facto, havia células SS em numerosos postos-chave do Reich, na administração, na diplomacia, etc. O conceito de um Estado da Ordem implicava realmente que os homens da Ordem fossem designados para os seus postos, como foi o caso da nobreza no passado.

Finalmente, uma alusão às Waffen-SS. A partir de Julho de 1940, as formações SS que, originalmente e em tempo de paz, foram concebidas como "força de reserva", passaram a unidades militares e a divisões blindadas e, não obstante a sua grande autonomia, bateram-se ao lado da Wehrmacht. É das Waffen-SS que nasce nos finais da II Guerra Mundial o que veio a chamar-se "o primeiro exército europeu". Himmler aprovou a ideia de Paul Hausser, mais tarde retomada por Gottlob Berger, de constituir divisões das Waffen-SS com voluntários de todas as nações para lutar contra a Rússia comunista e defender a Europa e a sua civilização.  

Na prática, retomava-se a missão da Ordem dos Cavaleiros Teutónicos como guarda do Leste e, simultaneamente, o espírito que tinha animado os Freikorps, voluntários que, por iniciativa própria, combateram os bolchevistas nas regiões orientais e nos países bálticos depois do fim da I Guerra Mundial. No total, mais de dezassete nações estavam representadas nas Waffen-SS com verdadeiras divisões: franceses, belgas, holandeses, escandinavos, ucranianos, espanhóis, suiços, etc. No conjunto, cerca de 800.000 homens, dos quais só uma parte procedia da zona germânica. Os voluntários não se preocuparam em serem acusados de traidores e colaboradores, mas, terminada a guerra, os sobreviventes foram ferozmente perseguidos nas suas pátrias.

Num discurso pronunciado em Poznan em 4 de Outubro de 1943, Himmler falou abertamente das SS como uma Ordem armada que no futuro, eliminada a União Soviética, seria a guarda da Europa nos Urais contra "as hordas asiáticas". Foi uma mudança importante de perspectiva, na medida em que o arianismo deixou de se identificar exclusivamente com o germanismo. Combatia-se, não por um Nacional-Socialismo eventualmente expansionista e racialmente unilateral, não pelo pangermanismo, mas por uma ideia superior, pela Europa e por uma Ordem Nova europeia. A orientação ganhou terreno nas SS e exprimiu-se na declaração de Charlottenburg publicada pelo Gabinete Central das SS já perto do fim da guerra. O texto era a resposta à declaração de S. Francisco feita pelos Aliados sobre os objectivos da guerra, a "cruzada da democracia". A declaração de Charlottenburg tratava da concepção do homem e da vida própria ao III Reich e, sobretudo, da ideia da Ordem Nova, que não devia ser hegemónica, mas federalista e orgânica.
Recordemos que se deve a Himmler uma tentativa de salvação in extremis (em que Hitler viu uma traição). 

Por mediação do conde Bernadotte, Himmler transmitiu aos Aliados ocidentais uma proposta de paz separada para poder continuar a guerra apenas contra a União Soviética e contra o comunismo. Sabe-se que a proposta — que, a ser aceite, teria garantido outro destino à Europa, evitaria a "guerra fria" e a passagem para o comunismo da Europa situada na "cortina de ferro" — foi brutalmente rejeitada em nome de um cego extremismo ideológico, exactamente como, pelas mesmas razões, foi rejeitada a oferta de paz que Hitler fez à Inglaterra em termos mais que razoáveis num discurso do verão de 1940 e num momento em que os alemães eram vencedores em todas as frentes.

Traidores

"Uma Nação pode sobreviver a seus tolos, e até mesmo aos ambiciosos. Mas ela não pode sobreviver à traição vinda do interior. Um inimigo nos portões é menos formidável, pois ele é conhecido e carrega seu estandarte abertamente. Mas o traidor se move entre aqueles que se encontram dentro dos portões livremente, seus sussurros maliciosos se esgueirando por todos os becos, escutados mesmo nos próprios salões do governo. Pois o traidor não parece ser um traidor; ele fala com um sotaque familiar para suas vítimas, e ele veste sua face e seus argumentos, ele apela à mediocridade que se encontra arraigada profundamente nos corações de todos os homens. Ele apodrece a alma de uma nação, ele trabalha secretamente e ocultamente na noite para sabotar os pilares da cidade, ele infecta o corpo político de modo que ele não possa mais resistir. Um assassino é menos temível. O traidor é a praga."
(Cícero)

domingo, 30 de janeiro de 2011

O Tempo das Vítimas

por Daniel Gerber

Vários são os caminhos de fuga que surgem para este coitado homem que faliu as suas próprias idéias. Dois, no entanto, são os ora escolhidos: o infantilismo e a vitimização.

O infantilismo, como o próprio nome denomina, é o regresso do homem aos recônditos infantis da sua alma, especialmente a busca incessante pelo prazer imediato.

Vivemos, sem dúvida, numa época que não aceita a dor como elemento normal do ser humano. Pelo contrário, “dor” passa a ser algum tipo de indecência a ser suprida, imediatamente, com alguma dose maciça de lazer, entretenimento.

Sexo, drogas, presentismo, falta de preocupação para com o futuro, seja lá como for, a frustração passa a ser obscena e, em ponto inverso, a satisfação imediata das vontades transforma-se em regra.

Tal anseio de prazer pleno e atemporal, quando unido ao tipo de publicidade que temos hoje e, também, ao acesso a várias formas de crédito até então desconhecidas, acaba por gerar um verdadeiro curto-circuito temporal, fazendo desaparecer o intervalo que tradicionalmente existia entre desejo e satisfação (Pascal Bruckner).

É, sem dúvida, a quebra do interdito, a pulsão em seu estado bruto, brutalizando, também, a própria existência. Não sofra, drogue-se. Não perca tempo, viaje com o crédito que lhe é oferecido, eis que “Veneza afunda um centímetro por ano e a vida é agora”. Enfim, satisfaça os seus anseios sem se preocupar com nada além dessa própria satisfação.

Essa necessidade de satisfação imediata traz consigo um sentimento de “urgência” que passa a permear a própria forma pela qual o Indivíduo interpreta o mundo. Se, voltando novamente à Boaventura dos Santos, os olhos do observador é que criam a realidade, tem-se que os olhos de um ser que deseja esticar a linha temporal ao máximo não suportam encontrar, em sua leitura do mundo, aspectos de lentidão, principalmente se o vagar surge de uma promessa natimorta, qual seja o controle da resposta e seus efeitos. 

Desta maneira, o ser moderno busca, às custas de eliminar a reflexão, uma resposta imediata para qualquer espécie de problema que passe a enfrentar.

A vitimização, por sua vez, é o retrato de uma sociedade cristã que, quando contestada, o foi pela doutrina marxista, ou seja, teoria de igual pregação.

Explica-se: tanto as doutrinas cristãs quanto as doutrinas marxistas colocam a vítima como centro do sistema, entendendo o sofrimento como algo bom e valoroso, a ser recompensado em alguma instância, em algum dia. Nesta senda, Pascal Bruckner atesta que “o Cristianismo colocou o pária, o fraco, a vítima, no centro da sociedade. As grandes ideologias que o quiseram suplantar não puseram este princípio em causa. O Marxismo, em particular, a única coisa que fez foi secularizar a mensagem principal do Cristianismo: os últimos serão os primeiros”.

O discurso da vitimização é, no mínimo, pernicioso, pois passa a difundir a idéia de que a existência de um Direito somente se comprova através da agressão ao mesmo. Como consequência, as próprias elites de um Estado, para se sentirem acobertadas pelo Direito, primeiro apontam para onde houve a quebra do mesmo. Em outras palavras, até a elite se declara “vítima”.

Tal atitude, por sua vez, inicia uma perigosa corrente. Vejamos bem: a elite, ao se proclamar vítima, inicia, com tal atitude, uma cadeia indissolúvel de desresponsabilização, e, novamente com Bruckner, quando a linguagem vitimária é utilizada pelas elites de um país, a própria noção de responsabilidade é posta em causa. Pertencer a uma elite implica, com efeito, que devemos assumir as consequências dos nossos actos. É a primeira coisa que se espera de um dirigente. A partir do momento em que as elites negam sistematicamente as suas responsabilidades, rompem o pacto democrático e dão início a uma longa cadeia de desresponsabilização. 

Vivemos, pois, numa sociedade de pobres vítimas que buscam prazeres infantis e imediatos para solucionar as suas crises sem, por óbvio, assumirem o preço dos confortos que o Modernidade lhes trouxe.

Esta era a metapromessa da “ordem e progresso”?

Fé Superior

"A nossa fé é a submissão ao divino no seu sentido de vida e fecundidade. Mas eles não viram e não vêm o divino senão no absurdo. A nossa fé é a inserção do ser na comunidade fraternal do princípio vivente. Mas eles pregaram e continuam a pregar a solidão da morte não resgatada. A nossa fé é a vitória da vida sobre todas as empresas da morte. Mas eles conservam e cultivam o vale de lágrimas das decomposições. A nossa fé não nos leva a batalhar com outros, a nossa fé é vivida por nós no cumprimento do dever. Mas eles… é necessário que eles discutam e disputem, é necessário que ataquem e se digam atacados, é necessário que se refugiem no delírio da perseguição. Fazem um dogma daquilo a que chamam amor, enquanto nós fazemos um dogma da acção. Foi-lhes necessário esperar e continuar a esperar uma ordem imperativa do seu céu; a nós, cada dia que passa, cada novo dia, com as suas tarefas, religa-nos ao eterno. Não temos necessidade de leis nem de códigos, não temos outra necessidade além dos deveres da nossa vida."
(Jean Mabire e Pierre Vial, História e Actualidade)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Liberais: o Inimigo dentro dos portões

por C.J. Carnacchio

A guerra filosófica entre os conservadores e os liberais começou há duzentos anos quando a primeira cabeça de um aristocrata francês foi colocada numa estaca como declaração de guerra à sociedade prescritiva. Os liberais são discípulos do iluminismo e ferozes apoiantes da Revolução Francesa. São os filhos bastardos de Jean-Jacques Rousseau e Thomas Payne.

Os conservadores, por outro lado, são os discípulos do estadista britânico do século XVIII, Edmundo Burke. Foi a sua ardente diatribe contra a Revolução Francesa, na obra “Reflections on the Revolution in France”, que deu aos conservadores a sua substância filosófica para os próximos dois séculos. Burke falou contra as atrocidades dos revolucionários jacobinos bem como contra filósofos do iluminismo como Rousseau, que ele viu como responsáveis pela revolução.

Infelizmente a maioria dos conservadores e liberais de hoje ignoram esta querela de 200 anos. A maioria acredita que a aliança baseada em interesses comuns superficiais constitui uma prática política sólida. Mas o pacto dos conservadores com os liberais tem sido muito prejudicial para a causa do verdadeiro conservadorismo, tal como exposto por Burke. Demasiado frequentemente ouvimos pretensos conservadores a cantarem constantes loas ao livre-mercado e ao individualismo em vez de falarem de tradição e espírito comunitário. Os liberais poluíram de tal modo as águas intelectuais do verdadeiro conservadorismo com o seu lixo ideológico que muitos conservadores têm agora dificuldade em distinguirem entre as duas coisas. À luz disto, queria aproveitar esta oportunidade para lembrar aos conservadores como eu os extremos abismos filosóficos que sempre separaram o homem conservador da besta liberal. 

A mais fundamental diferença entre o conservadorismo e o liberalismo é de ideologia. O liberalismo é uma ideologia baseada em ideias e doutrinas abstractas como o livre-mercado, liberdade absoluta, e individualismo radical. O liberal acredita tolamente que se os seus ingredientes abstractos forem apropriadamente misturados no caldeirão social, uma utopia terrestre brotará.

O conservadorismo, como H.Stuart Hughes declarou, é a negação da ideologia. A ideologia é fundada sobre ideias abstractas que não possuem qualquer relação com a realidade, enquanto o conservadorismo é fundado sobre a história, a tradição, o costume, a convenção e a prescrição. Como Russel Kirk afirmou:”o conservadorismo …é um estado de espírito, um tipo de carácter, uma maneira de olhar para a ordem social civil. A atitude a que chamamos conservadorismo é sustentada por um conjunto de sentimentos, em vez de um sistema de dogmas ideológicos.” O conservador põe a sua fé na sapiência dos seus antepassados e na virtude da experiência, em vez de no jargão abstracto dos “sofistas, calculadores e economistas”. Ele sabe que não existem fórmulas políticas simples aplicáveis a todos os problemas do mundo.

Depois, os conservadores e os liberais divergem sobre o que une a sociedade civil. Os liberais vêem a sociedade civil como algo artificial – um acordo dissolúvel feito para fomentar os interesses próprios individuais. Na sua visão repugnante, a sociedade é “uma parceria de coisas apenas subserviente à grosseira existência animal de natureza temporária e perecedoura”. A sociedade é apenas uma máquina com partes inter-permutáveis e separáveis, diz o liberal. 

Em contraste, o conservador declara que a sociedade não é um mísero acordo económico ou um funcionamento mecânico, é uma entidade espiritual e orgânica. O conservador, imbuído com o espírito de Burke vê a sociedade como uma parceria entre os vivos, os mortos e os que estão ainda por nascer – uma comunidade de almas. Cada contrato social, em cada Estado particular “ não é senão uma cláusula no grande contrato primevo de eterna sociedade, ligando as baixas e altas naturezas…”.

Não é verdade que a legitimidade do Estado seja dependente apenas do consentimento tácito, como os liberais querem que acreditemos. A legitimidade do contrato social é fruto da história e das tradições que vão muito para além de qualquer simples geração. O presente não é livre, como os racionalistas nos dizem, de redesenhar a sociedade em função de doutrinas abstractas ou dogmas teóricos. Como Russel Kirk disse:” a sociedade é muito mais do que um mecanismo político…se a sociedade for tratada como um simples mecanismo para ser gerido com preceitos matemáticos, então o homem será degradado em algo muito mais baixo do que um parceiro no contrato imortal que une os mortos, os vivos e os ainda por nascer, o laço entre Deus e o homem”.

O próximo ponto filosófico em que os conservadores e os liberais cruzam espadas é no conceito de liberdade. Os liberais acreditam que a liberdade é a primeira prioridade de qualquer sociedade. Mas a liberdade que eles tanto valorizam é solitária, desligada, individual e egoísta. A sua é uma liberdade abstracta divorciada da ordem e da virtude. O liberal vê a liberdade como algo bom em si e de si e procura constantemente maximizá-la, seja qual for o custo. 

O conservador acredita que a ordem é a primeira prioridade da sociedade, pois é apenas no quadro de uma ordem social duradoura que uma verdadeira e estável liberdade pode ser alcançada. Para o conservador, a única liberdade é “uma liberdade ligada à ordem: que existe não apenas a par da ordem e da virtude mas que não pode existir de todo sem elas”. Quando considera os efeitos da liberdade, o conservador ouve as palavras de Burke a ecoarem:” O efeito da liberdade para o indivíduo é que eles podem fazer o que quiserem: devíamos ver o que eles querem fazer, antes de arriscarmos congratulações, que podem rapidamente ser transformadas em lamentações.”

O individualismo é o próximo campo de batalha onde os conservadores e os liberais soltam os cães de guerra. Os liberais possuem uma ideologia de individualismo que nega que a vida tenha algum significado para além da gratificação do ego. Eles imaginam uma utopia de individualismo onde o homem existe para o seu próprio fim e os seres humanos são reduzidos a átomos sociais. O egoísmo é uma virtude, diz o liberal.

Os conservadores reconhecem que a unidade social básica não é o individuo mas o grupo – grupos autónomos como a família, a igreja, a comunidade local, a vizinhança, a escola, o sindicato, a guilda, etc. Estes grupos intermedeiam entre o indivíduo e o Estado e ajudam a preservar a ordem social. Como Robert Nisbet assinalou:” Libertem o homem do contexto da comunidade e não terão liberdade e direitos mas intolerável solidão e sujeição a demoníacos medos e paixões”. O conservador valoriza o espírito de comunidade e concorda com Marco Aurélio que dizia que “nós somos feitos para a cooperação, como as mãos, como os pés”. 

Tanto os liberais como os conservadores apoiam a economia de mercado, mas diferem no grau da sua devoção. Muitos liberais idolatram o mercado como se fosse uma religião – de facto muitos não têm qualquer problema em substituir a cruz pelo símbolo do dólar. Mas os liberais não confinam o seu zelo pelo mercado à arena económica. Eles acreditam que o mercado é uma doutrina abstracta aplicável a todas as facetas da vida e dos problemas sociais. Na verdade os liberais são apenas marxistas invertidos, que substituem o livre-mercado ao socialismo não só como o sistema económico dominante mas também como a influência social e politica determinante.

Os Conservadores sabem que a sociedade é demasiado complexa para ser reconstruída de acordo com doutrinas económicas abstractas. Têm o homem e a sociedade em demasiada consideração para rebaixar toda a existência à produção e consumo de bens materiais – o nexo dos fluxos de caixa é de facto um fraco elo social. As leis do comércio não são substitutas para as leis da convenção.

Em conclusão, o liberalismo é tanto um anátema para o verdadeiro conservadorismo burkeano quanto o marxismo e deve ser enfrentado com a mesma ferocidade. Como Russel Kirke uma vez disse:” A adversidade une por vezes estranhos amantes, mas os actuais feitos dos conservadores, desaconselham a que se deitem, quais carneiros, com os leões liberais”

O Povo Eleito

"Eu me limitei a dar os nomes das pessoas que dirigiam então os destinos do Gulag, dos chefes da NKVD, dos diretores da Construção do Canal do Mar Báltico: Frenkel, Finn, Uspensky, Aaron Solts, Jacobo Rappoport, Matvei Berman, Lazar Kaganovich, Genrikh Yagoda. Eu não tenho a culpa de todos eles serem de procedência judaica. Não se trata de uma seleção artificial realizada por mim. A separação foi feita pela história."
(Aleksandr Solzhenitsyn, Prêmio Nobel de Literatura)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A Arte de Peter Nicolai Arbo

Desdenhar o elemento bárbaro

"Seria coisa de imprudentes ou de distraídos não sentir medo ao ver tantos homens jovens, de educação distinta à nossa e com costumes próprios, ocupados nos afazeres da guerra dentro de nosso território (...)

Mas não preparar as forças necessárias para fazer-lhes frente, conceder a extensão do serviço militar a todos os que a solicitam, na idéia de que aqueles são já nossas forças militares, e permitir aos de nosso país que se dediquem a outras coisas, tudo isso não é a conduta de homens que correm para sua perdição? É preciso, ao invés de tolerar que sejam uns citas os que aqui portam as armas, pedir aos homens de nosso campo que sejam eles os que lutem para defendê-lo, e efetuar um alistamento tão massivo como para tirar o filósofo de seu lugar de meditação, o artesão de sua oficina e de seu comércio aquele que dele cuida. E toda essa massa de preguiçosos, que por seu muito ócio consomem sua vida nos teatros, também deveremos persuadi-los de a levarem a sério, antes de que passem do riso ao pranto, sem que piores ou melhores escrúpulos sejam um obstáculo para o nascimento de uma força armada própria de romanos. Pois bem, antes de chegar até onde já nos vamos encaminhando, devemos recuperar aqueles altos sentimentos dos romanos e nos acostumar a conseguir por nós mesmos as vitórias, sem nos contentar em ser meros partícipes, mas sim desdenhando do elemento bárbaro onde quer que ele se encontre."
(Sinésio, bispo de Cirene, Carta ao Imperador Arcádio)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Principal Inimigo És Tu

por Gabriele Adinolfi

O maior inimigo és tu.

Por teu amor por ti mesmo e por essa indulgência excessiva que olha somente por ti. Por tua docilidade fanfarrã frente à lisonja e à adulação. Por teu desejo de reconhecimento. Por teu gosto pela competição e pela excelência. Por teu egoísmo, pelas dúvidas que te despertam ter que dividir teu pão, "cortar um dobrado", arriscar o calor do lar, ou pôr em perigo a segurança artificial de tua aparente estabilidade: essa segurança de morto-vivo que não se apercebe de que já não vive.

O primeiro inimigo és tu. Pelo temor de se aturdir, pelo medo de ser marginalizado, pela baba que te sai dos lábios ante a mínima possibilidade de ser acolhido e reconhecido pelo consenso das múmias falantes.

Com tua adesão a todos os clichês do pensamento débil e da crítica cortês, da política escorregadia e da linguagem banal. Tu és a globalização. Tu és o assassino da Europa e do Terceiro Mundo, tu és a renúncia. E mais o és quanto mais pretendes convencer-te do contrário; sem se aprofundar demasiado, nem autoexaminar-te para conhecer a verdade.

A oposição real não é somente política ou ideológica, é acima de tudo um modo de ser.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mito e Comunidade

por Giorgio Locchi

Com um bom século de avanço, Friedrich Nietzsche havia previsto todos, ou quase todos, os fenómenos que caracterizam a nossa época, como a ascensão do niilismo anarquista, a epidemia das neuroses, o extraordinário desenvolvimento de uma arte do espectáculo rebaixada ao nível do “circense” quotidiano, o comércio da luxúria. A verificação das profecias nietzschianas deveria afectar os espíritos, convidá-los à reflexão. Não é assim. Mas isso é fatal. Nietzsche havia estabelecido para as sociedades ocidentais um diagnóstico de decadência e não fazia mais do que prever o decurso normal da doença. Ora, o que é próprio desta doença das sociedades que é a decadência é a cegueira que afecta o doente sobre o seu estado. Quanto mais está doente, mais acredita estar de boa saúde. Uma sociedade decadente é tanto mais progressista quanto mais se aproxima da conclusão fatal da sua doença.

Olhemos em torno a nós. Todos, do liberal mais ou menos avançado ao comunista mais ou menos atrasado, acreditam visceralmente no progresso, estão intimamente convencidos de viver uma era de progresso e mesmo de progresso último. Vêem toda a espécie de fenómenos sociais que na longa história dos povos sempre caracterizaram as agonias dos povos e das culturas. Do feminismo à ascensão social fulgurante dos histriões e das gentes do espectáculo, da desagregação das células sociais tradicionais (para nós a família) às tentativas efémeras e sempre renovadas de as substituir por não se sabe que “comunas”, do universalismo masoquista ao abatimento de toda a norma social restritiva para o indivíduo. Mas tornaram-se perfeitamente incapazes de tirar lições da história, o que os leva por vezes a dizer que a história não tem sentido.

Um outro traço é característico da decadência avançada: a mediocridade dos sentimentos. Discutimos agressivamente, mas toleramo-nos. Ainda fazemos a guerra, fria se possível, mas fazemo-la em nome do amor, para libertar o outro.

Aquilo que nos obrigamos a odiar é uma abstracção do Outro, nunca o Outro na sua realidade. Odiamos consoante o campo em que nos encontramos, o detestável capitalismo ocidental ou o horrível regime comunista, mas amamos o povo russo, amamos o grande povo americano. As sociedades decadentes já não sabem amar ou odiar, já estão tépidas, pois a vida está em vias de as abandonar, a sua força vital está já quase toda dissipada. Essa força vital que dá vida às sociedades, as organiza e as lança sobre os perigosos caminhos da história, essa força pode receber diversos nomes. Dostoievski chamava-lhe Deus e dizia que quando um povo deixa de ter o seu Deus não pode mais que agonizar e morrer. Friedrich Nietzsche, por sua vez, anunciou às sociedades ocidentais que o seu Deus estava morto e que elas também iriam, portanto, morrer. Paul Valéry, à sua maneira, sentiu a mesma verdade. Para mim, “Deus” é uma definição demasiado estreita, demasiado “ocidental”, daquilo que é a força vital de uma sociedade. O Divino não é mais que um elemento, que um aspecto dessa força vital que eu chamaria antes, em toda a sua complexidade, MITO.

O que é próprio do Mito, tal como o entendo, é entrar na história criando-se a si mesmo, isto é, criando e organizando os seus próprios elementos. O Mito é essa força histórica que dá vida a uma comunidade, organiza-a, lança-a rumo ao seu destino. O Mito é, antes de tudo, um sentimento do mundo, mas um sentimento do mundo partilhado e, enquanto tal, é e cria objectivamente o laço social e, ao mesmo tempo, a norma comunitária. Estrutura a comunidade, dá-lhe o seu estilo de vida, e estrutura também as personalidades individuais. Este sentimento do mundo está, por outro lado, na origem de uma visão do mundo, portanto de expressões coerentes de pensamento. A história ensina-nos que cada povo, cada civilização, teve o seu Mito. Na perspectiva que se abre a partir do nosso presente social, temos a impressão que os Mitos estão sempre ligados a uma fase primordial, já superada, do devir humano.

Que o Mito seja, por assim dizer, a manifestação própria da infância da humanidade, é um lugar-comum da reflexão histórica moderna. É o ponto de vista, inevitável, de um pensamento que é o reflexo da velhice de uma civilização. Quando um Mito morre, quando o olhamos de fora, um Mito surge-nos como um conjunto de crenças mais ou menos fantasiosas, como uma colecção de narrativas imaginárias, estranhamente confusas, sempre contraditórias. Se tentamos, pela imaginação posterior, transportá-lo para a vida e a história, o Mito parece mover-se contra o sentido do tempo, o que leva Mircea Eliade a dizer que o Mito é nostalgia das origens. Mas sucede que não podemos estudar a vida num cadáver. Um Mito vivo reconhece-se pelo facto de ser harmonia, fusão e unidade dos contrários. Isso significa, muito simplesmente, que os homens que vivem no campo do Mito e que são organizados por ele, não sentem como contraditório tudo que parecerá contraditória aos que estão de fora. O Mito é força criativa viva e demonstra-o justamente por essa criação que infatigavelmente reduz e harmoniza os contrários. Tivemos um nome para esta virtude redutora das contradições, chamámos-lhe a fé. Racionalmente estamos aqui num círculo vicioso, outra forma de contradição: o Mito apenas é verdadeiro pela fé, mas a fé apenas vive pelo Mito – a fé não é criada senão pelo Mito.

Para quem está no Mito, sabemo-lo bem, esse círculo vicioso, essa contradição, não o é, porque o Mito está em todos os que dele são tributários e não cessa de se criar entre eles e por eles. Porque o Mito, com efeito, é criação incessante se si mesmo, ele é – sob todos os aspectos – auto-criação. Isso é verdade, desde logo, ao nível da linguagem, que é o nível no qual o humano se constitui enquanto ser social. Ilustres estruturalistas dizem-nos hoje que nós não falamos, que “somos falados”. Falam evidentemente deles mesmos e para eles mesmos, enquanto representantes privilegiados das sociedades actuais.

Têm razão; pois toda a língua, desligada do Mito – isto é, do sentimento do mundo – que a criou, apenas pode ser falada, no sentido em que aqueles que a utilizam já não falam verdadeiramente, antes são falados. Enquanto a língua está ainda vivamente ligada à sua raiz mítica está também ainda a criar-se e aqueles que a utilizam ainda falam e se falam, longe de toda a Torre de Babel.

A língua do Mito estrutura símbolos, ainda cria as coisas com as palavras. A partir do momento em que o Mito deixa de falar, e passa a ser, no máximo, falado, à harmonia do símbolo sucede a discórdia de duas ideias opostas, inconciliáveis. Isso significa também, tautologicamente, que à época do Mito sucede a época das ideologias, de ideologias saídas de uma mesma fonte e contudo sempre opostas, que se esforçam em vão para atingir a sua síntese impossível através de uma “ciência última” e de reencontrar dessa forma esse paraíso perdido que era assegurado pela harmonia do Mito.

Por ser harmonia dos contrários, o Mito é também o laço social por excelência e, desse ponto de vista, é legítimo falar, a seu respeito, de religião. Enquanto laço social, o Mito organiza a sociedade, assegura-lhe a coerência no espaço e através do tempo. O Mito é bem mais que uma Weltanschauung, é um sentimento do mundo e também, ao mesmo tempo – melhor: por isso mesmo – um sentimento de valor, uma métrica operante. Ele é a chave que explica, que sugere a acção e a norma da acção. Queria relembrar-vos aqui como um Mito pode organizar uma sociedade, ditar a conduta dos homens, no caso os helenos, confrontados frequentemente com um problema que lhes era desconhecido. Os helenos eram indo-europeus, o seu Mito era o Mito indo-europeu, que constituía a base sobre a qual estavam organizados em descendência patrilinear fundada sobre o que podemos chamar o valor heróico. Quando imigraram para a península grega viram-se confrontados com uma sociedade de descendência matrilinear. Por razões que foram talvez contingentes, não destruíram esta sociedade estrangeira.

Houve mistura de povos, de civilizações. Isto colocava um grave problema: o da oposição inconciliável entre duas concepções da sociedade e do direito. Na sociedade matriarcal, não são as mulheres que fazem a guerra e detêm o poder, são também os homens. Mas a legitimidade do poder vem da mulher, apenas se é rei porque se desposa a mulher que por direito de descendência matrilinear é herdeira do poder. Nestas sociedades o poder é assim sempre detido por homens que são escolhidos pelas mulheres. Ora, se podemos legitimamente pensar que os helenos, no início da mistura, adquiriram frequentemente o poder graças ao casamento, deviam ainda assim legitimá-lo do ponto de vista do seu Mito, do ponto de vista do direito patrilinear. Existe toda uma miríade de narrativas míticas que nos contam estes conflitos e as mil vias pelas quais os helenos sempre fizeram triunfar o seu sistema de valores. A aventura de Édipo, a Oresteia, os mitos de Teseu, de Jasão, de Belerofonte, mesmo o mito do rapto da Europa são penas exemplos entre tantos outros. E a supremacia do direito paternal é simbolizada, num Panteão que é tributário, é certo, de duas religiões míticas, pela presença de Atena, a deusa virgem, deusa guerreira mas também deusa do pensamento reflectido. Atena não tem mãe, ela proclama “apenas ser de seu pai”, Zeus, e é ela que está lá para absolver todos os Orestes, que para vingar o seu pai, foram constrangidos a assinar a sua mãe.

Esta ligação íntima entre Mito fundador, sociedade, sistema de valores, norma social, permite-nos falar da sociedade como de um organismo, de falar de sociedade orgânica. De resto, o termo sociedade é impróprio, como o demonstra o facto de sermos obrigados a adjectivá-lo. Falarei então, doravante, de comunidade, para significar sociedade orgânica, e ademais, oporei comunidade a sociedade, a toda a linha, um pouco da maneira como opomos um conceito-limite a outro.

Esta oposição entre comunidade e sociedade não é nova, foi estabelecida por sociólogos alemães e notoriamente por Ferdinand Tönnies. A intuição destes sociólogos era justa, mas sempre conduziu a conclusões erradas ou a teorias assaz confusas, porque a definição de comunidade em relação a sociedade nunca foi dada senão de maneira implícita.

Um Mito é sempre nostalgia das origens, como afirma Mircea Eliade, mas também é sempre visão cosmológica do futuro, anuncia um fim do mundo, que também pode ser por vezes começo de uma repetição do mundo e, num caso que conhecemos bem, regeneração do mundo.

O Mito, também o dizemos, não tem tempo. Não o tem porque ele é o tempo, o tempo da história. Assim, a comunidade que ele organiza é um organismo histórico que ocupa a todo o momento as três dimensões do tempo histórico. Uma comunidade é um organismo vivente, que está à vez no passado, no presente e no futuro. Uma comunidade tem uma consciência comunitária, que é, ao mesmo tempo, memória, acção e projecto. Uma tal comunidade, chamamo-la povo. Quando um povo já não tem a memória das suas origens e, como diz Richard Wagner, quando deixa de ser movida por uma paixão e um sofrimento comum, deixa de ser povo: torna-se massa. E a comunidade torna-se sociedade. Afirmei que comunidade e sociedade são conceitos-limite. Há sempre um pouco de massa nos melhores povos e há sempre uma réstia de povo na massa mais vil e mais rebaixada. Não há dúvida, e de resto enchem-nos com isso os ouvidos, de que vivemos na época das massas, de que vivemos em sociedades massificadas. O indivíduo, não importa qual, é divinizado em nome da igualdade. Todo o individuo social tem o mesmo valor, a personalidade nunca é tomada em consideração – e com causa, pois já não há sistema referencial de valor social. Numa comunidade, pelo contrário, o valor humano, que é sempre personalidade social, é medido pelo seu grau de adequação aos exemplos ideais propostos pelo Mito, e que cada membro da comunidade traz em si como uma espécie de superego.

Quando o mito se esteriliza, quando esses arquétipos ideais não são mais sentidos como tal, deixa de haver laço comunitário, de modo que, no limite, todo o indivíduo é considerado como ideal em si, pelo simples facto de ser um indivíduo. O que resta para manter unido aquilo que se tornou uma sociedade, é o laço sempre precário e contingente criado pela aliança dos interesses egoístas de grupos de indivíduos, de classes, de partidos, de capelas, de seitas. A verdadeira dimensão humana, que é dimensão histórica, está perdida; a sociedade de massa já não se preocupa, verdadeiramente, nem com o passado nem com o futuro, apenas vive no presente e para o presente. Assim, ela já não faz política, apenas faz economia, e economia da pior espécie, condicionando todos os reflexos sociais. Sintomaticamente, a preocupação do futuro, os horizontes do século XXI, não são invocados senão para justificar e avalizar o insucesso económico do presente. Perceberam bem, estamos em vias de falar das nossas sociedades ocidentais. Estas sociedades, no seio das quais nascemos e vivemos, saíram da grande ecúmena cristã, que havia sido formada e conformada pelo Mito judaico-cristão. Este Mito morreu há muito tempo, com o seu Deus. Mesmo a religião, tal como é veiculada pelo que resta das Igrejas, é ideologizada, tornou-se ideologia que se opõe a outras ideologias brotadas da mesma fonte mítica, entretanto exaurida. Ali, onde o Mito havia organizado, harmonizado, unido, e assim dado um significado e um conteúdo espiritual, isto é, humano, à vida dos homens, as ideologias opõem, desunem, desagregam. A ideologia rejeita o Mito como sendo irracional e pretende, ela, ser racional, ser racionalmente fundada. No fundo, de maneira implícita ou explícita, toda a ideologia pretende ser ciência e ciência do homem também. E lançada sobre a sua busca de racionalismo, toda a ideologia acaba por se transformar em anti-ideologia.

Com efeito, uma vez que uma ideologia é sempre acompanhada por uma ideologia contrária, esta constatação leva à procura de uma síntese, numa espécie de neutralidade ideológica aparente, sustentada pela convicção absurda de que em último caso tudo, mesmo o homem, é quantificável, que tudo pode ser calculado, que a vida de uma sociedade reduz-se a um problema de gestão administrativa.

As sociedades ocidentais, por exemplo, têm a ilusão de reencontrar a harmonia perdida, a fusão íntima dos contrários, graças às virtudes da tolerância: mas tornam-se assim esquizofrénicas e tornam esquizofrénicos os indivíduos mais sensíveis ao clima social. O indivíduo ocidental acaba sempre por ter uma má consciência, sobretudo ao nível do poder, porque é atormentado por duas exigências opostas, que não saberia satisfazer conjuntamente, que dizemos ser, para simplificar: a exigência de liberdade individual e a exigência de justiça social. A cisão que está no seio das sociedades está também sempre no coração dos indivíduos e isso leva por vezes a consequências cómicas, como no caso dos liberais avançados que queriam também ser ao mesmo tempo socialistas e no dos comunistas e socialistas que queriam também ser liberais. E note-se que se desconsideramos o Mito, rejeitado como sendo irracional, instintivamente pretendemos recuperar os seus benefícios sociais, propondo Anti-Mitos, com um ideal correspondente que seria o do anti-herói, ideal tão bem representado ao nível da consumação quotidiana de pseudo-valores sociais, pelo artista desleixado, cabeludo e se possível um pouco sujo.

As sociedades comunistas, também elas saídas do Mito judaico-cristão, tentaram uma outra solução. Escolheram a intolerância, em benefício de uma só ideologia, convocada a tomar a lugar do Mito. Mas porque a ideologia não é um Mito, e portanto não pode ser operante na alma dos indivíduos, estes nunca se conformam à norma ideológica. A consequência bem conhecida é que a sociedade comunista é uma sociedade restritiva.

Para ser exacto: há na sociedade comunista, a todos os níveis, uma obrigação de restrição, de forma que o depurador acaba sempre, ele próprio, depurado, enquanto na sociedade liberal-democrática chegamos a uma obrigação de tolerância, da qual mesmo os delinquentes acabam por beneficiar. Além do mais, também as sociedades comunistas, apesar de certas aparências “anti-económicas”, apenas vivem no presente. A demonstração é-nos oferecida, de maneira periódica mas marcante, pela condenação de todo o “presente encerrado”, assumindo o aspecto de uma celebração ritual. O presente é sempre divinizado – de Lenine a Estaline, até Mao – para ser infalivelmente condenado e desprezado a partir do momento em que cede lugar a outro presente. Assim, tudo somado, podemos dizer que a equação social da sociedade comunista tem como resultado o mesmo valor da equação democrático-liberal. Microscopicamente, ao nível dos indivíduos, a sociedade liberal é mais atraente, daí os fenómenos de dissidência no seio dos regimes comunistas, as fugas, e por reacção o muro de Berlim. Mas note-se também que ao nível macroscópico, da massa enquanto tal, a fuga produz-se sobretudo em sentido inverso e que portanto, no pós-guerra, as sociedades socialistas multiplicaram-se.

O que fazer então? O que esperar? Permitam-me regressar uma vez mais a Nietzsche. Nietzsche foi dos primeiros a dizer-nos que a civilização ocidental tinha entrado em agonia, uma agonia de duração imprevisível, e que iria morrer. As nações europeias estão condenadas ou a sair da história à maneira dos Bororos, tão caros ao senhor Levy-Strauss, ou a morrerem historicamente e verem dissolvida a sua substância biológica em nações e povos que estão para vir. No fundo, todos na Europa estão mais ou menos conscientes e é por causa disso que há, desde há algum tempo, um discurso sobre a Europa.

Mas essa Europa é concebida como um prolongamento das actuais realidades sociais, como o último meio para salvar o que está em agonia, o que está condenado à morte, ou seja, a civilização judaico-cristã. Mas se uma Europa vir a luz do dia num futuro mais ou menos distante, ela não terá sentido, historicamente, se não for tal como Friedrich Nietzsche a auspiciava, conduzida e organizada por um Mito novo, fundamentalmente estranho a tudo o que existe hoje. Acreditamos que este novo Mito já existe, que já apareceu. Disso há sinais e sinais por detrás dos sinais. Nos seus inícios um Mito é sempre extremamente frágil, a sua vida depende sempre de alguns punhados de homens que já o falam. Num estudo sobre aquilo que chamo a música europeia, de Johann Sebastian Bach a Richard Wagner, tentei mostrar como este Novo Mito e a nova consciência histórica que o transporta nasceram, e mostrar também por que via este Novo Mito se dirigiu ao nosso presente. Se ele vive ainda, não pode sobreviver senão em virtude da total fidelidade ao seu jovem passado daqueles que o transportam. É certo, ele ainda não disse tudo, talvez não tenha feito mais que balbuciar. O mito, quando vivente, está sempre em vias de se expressar.

Guerra

"A Guerra é inalienável ao homem. Dela não se evade, nem se evadirá. Existe desde que o mundo é mundo, e existirá. É um elemento de progresso. É absolutamente necessária!

Quando a mulher intervenha no governo do Estado, tu não crês que ela defenderá seus filhos contra a guerra, evitando que o arrebatem e destruam o que há de mais precioso em seu labor e sua vida? A educação dos filhos no ódio da guerra, os tornaria apenas covardes.

Os homens necessitam da guerra. Se você a crê um mal, é porque necessita do mal. Da batalha eterna contra o mal sai o triunfo do bem, diz São Francisco. A guerra é absolutamente necessária e inevitável. O homem a sente como um império intuitivo, atávico, e será no porvir o que foi no passado..."
(José Antonio Primo de Rivera)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Death-Bed

por Rudyard Kipling

'This is the State above the Law.
   The State exists for the State alone.'
[This is a gland at the back of the jaw,
   And an answering lump by the collarbone.]

 
Some die shouting in gas or fire;
   Some die silent, by shell and shot.
Some die desperate, caught on the wire;
   Some die suddenly. This will not.

 
'Regis suprema voluntas lex'
   [It will follow the regular course of --- throats.]
Some die pinned by the broken decks,
   Some die sobbing between the boats.

 
Some die eloquent, pressed to death
   By the sliding trench as their friends can hear.
Some die wholly in half a breath,
   Some --- give trouble for half a year.

 
'There is neither Evil nor Good in life
   Except as the needs of the State ordain.'
[Since it is rather too late for the knife,
   All we can do is mask the pain.]

 
Some die saintly in faith and hope ---
   One died thus in a prison-yard ---
Some die broken by rape or the rope;
   Some die easily. This dies hard.

 
'I will dash to pieces who bar my way.
   Woe to the traitor! Woe to the weak!'
[Let him write what he wishes to say.
   It tires him out if he tries to speak.]

 
Some die quietly. Some abound
   In loud self-pity. Others spread
Bad morale through the cots around...
   This is a type that is better dead.

 
'The war was forced on me by my foes.
   All that I sought was the right to live.'
[Don't be afraid of a triple dose;
   The pain will neutralize half we give.

 
Here are the needles. See that he dies
   While the effects of the drug endure...
What is the question he asks with his eyes? ---
   Yes, All-Highest, to God, be sure.]

Simplicidade Voluntária

"O consumo excessivo tem efeitos sobre as nossas próprias vidas. Para consumir tal como fazemos precisamos de dinheiro; logo, em consequência, a maioria das pessoas trabalha desalmadamente. No Canadá, por exemplo, cerca de 20% da população ativa trabalha mais de 50 horas por semana. Esgotamo-nos a trabalhar, dando o melhor do nosso tempo e das nossas vidas para o trabalho; enquanto isso, outras vertentes da nossa existência ( a família, a vida amorosa, a participação cívica e a vida comunitária, a saúde,…) sofrem com essa quase exclusividade que o trabalho exige. Acaba-se de chegar a um paradoxo: quanto mais satisfeitos formos na vida material, menos felizes nos sentimos. E há cada vez mais pessoas que acham que isso não tem sentido, e que há que fazer algo para mudar esta situação. Mas o quê? Os governos e os partidos não dão respostas alternativas, empenham-se antes em seguir a mesma direção tal como têm feito até agora. Ora há que ultrapassar este bloqueio E é isso justamente o que propõe a Simplicidade Voluntária: empreender as mudanças necessárias nas nossas vidas.
Não confundir a Simplicidade Voluntária com a pobreza; esta é imposta por força de circunstâncias penosas. Mas quando se opta voluntariamente por viver sobriamente, tudo funciona de modo diferente. É que não nos sentimos frustrados porque nos privamos de um bem, mas antes sentimos que vale a pena substitui-lo por algo que tenha mais sentido. Este desprendimento alarga o espaço para a nossa consciência operar de outra forma: trata-se de um estado de espírito que nos convida a apreciar, a saborear e procurar o elemento qualitativo da vida. No fundo, renunciamos aos objetos que estorvam, travam e impedem irmos até ao fim das nossas possibilidades. "Não é a riqueza, mas o apego à riqueza que é um obstáculo à emancipação; e não é o prazer da busca por coisas agradáveis que está em causa, mas sim o desejo ardente de as adquirir", escreve Schumcher (1911-1997), autor do livro Small is Beautiful.
A Simplicidade Voluntária leva-nos ao não-uso e à não-posse de algo, implica uma escolha: não comprar certo objeto ou não seguir determinado procedimento implica uma escolha por um outro motivo de satisfação, nem que seja ser fiel aos nossos princípios ou aos nossos compromissos sociais.
Escolher não utilizar certo bem ou serviço, não seguir a moda, consumir de outra maneira, tudo isso releva de atos de consciência e de lucidez, e não de fatalidade. Na verdade, quem faça voluntariamente este tipo de opções sabe que podia não o fazer, e acaba por ser o próprio a dominar a situação em vez de ser um ser dominado por esta. Claro está que não se trata de decisões irrevogáveis que arrastam consigo um radicalismo sem concessões, nem sequer de uma regra de aço que dificilmente poderíamos desvincularmo-nos. A Simplicidade Voluntária é uma opção que é tomada mediante pequenos passos, uma via que se segue por decisão própria e porque nos sentimos satisfeitos por seguir."
(Serge Mongeau)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Julius Evola - O que é Tradição?

por Julius Evola


Há duas razões pelo qual hoje é oportuno precisar o conceito de Tradição em sua acepção particular, pelo qual se converteu muito corrente usar tal termo com letra maiúscula.

A primeira razão é o interesse crescente que a ideia de Tradição como ponto de referência suscitou e continua suscitando nos ambientes de cultura e contestação de direita, em especial entre os pertencentes à nova geração.

A segunda razão se refere ao facto que, ao mesmo tempo, e se pode dizer que justamente por haver se constatado tal interesse, se formularam intentos de sustentar uma interpretação caduca e tíbia do conceito de Tradição, quase para suplantar o originário e integral e substituí-lo com um conteúdo menos comprometido e mais acomodado, de modo tal de permitir a continuidade das routines de uma mentalidade em grande medida conformista. Se poderia falar, a tal respeito, usando um termo francês, de uma escamotage.

E é assim como aconteceu, por exemplo, o distanciamento de certas pessoas, que atraídas em um primeiro momento pelo conceito de Tradição, terminarão aderindo a um “tradicionalismo católico”. Acerca do sentido interno de tal distanciamento são bastante significativas as palavras expressadas por um escritor expoente desta direcção, em uma entrevista concedida por ele a Gianfranco de Turris. O escritor em questão reconheceu que da mesma maneira que outros de sua geração e das sucessivas, em um primeiro momento se interessou pela ideia tradicional, especialmente pelas suas aplicações políticas, mas logo distanciou-se sentindo que as coisas aconteciam como em uma “sã cura de helioterapia”, havia que “retirar-se do sol antes de ser queimado”.

Evidentemente este não é senão um modo elegante para dizer que não se suportava a força de certas ideias formuladas sem atenuações, daí então o distanciamento e a adesão ao “tradicionalismo católico”. Um caso importante é o constituído por um livro, editado por Bompinani que se intitula: “O que é a Tradição?” 

Aparte do facto de que não se trata de uma exposição sistemática, senão de um grupo de ensaios que muitas vezes tem pouco que ver com o tema, o autor dá novamente uma versão tíbia da Tradição, com visíveis preocupações de carácter religioso e moralizante, o alarde expressado através de citações múltiplas de uma cultura variada vale mais para confundir que para esclarecer, dada a falta de um rigoroso quadro sistemático. É bastante visível que este livro foi justamente escrito em relação ao mencionado crescente interesse pela ideia de Tradição. Há um aspecto que merece ser assinalado, o autor do livro em questão, que pretende dizer o que é ou que seria a Tradição, por certo não sonhou jamais de aproximar-se a tal ordem de ideias até não faz muito tempo quando andava junto com Moravia e com outros expoentes da intelectualidade esquerdista italiana. Ele ignora que o conceito integral de Tradição havia sido já formulado nos anos 20 por René Guénon e seu grupo, e depois em nossa obra Revolta contra o Mundo Moderno, editada em 1934 na Itália e em 1935 na Alemanha, a primeira parte desta obra se intitula justamente “O mundo da Tradição”. O autor aludido cita apenas um par de vezes a contribuição da corrente guenoniana, entretanto ignora sistematicamente a nossa. Lamentavelmente ele dispõe de um círculo bastante vasto de leitores, pelo qual sua tíbia apresentação do que seria a Tradição resulta sumamente perniciosa.

O autor em questão se perde em uma discussão quase teológico-escolástica quando afirma que a “tradição por excelência é a transmissão do conhecimento do objecto óptimo e máximo, o conhecimento do ser perfeitíssimo”. 

Isto poderá valer no campo contemplativo-religioso, e só com referência ao mesmo se pode dizer que a Tradição “se concreta em um conjunto de meios: sacramentos, símbolos, ritos, definições discursivas cujo fim é o de desenvolver no homem aquela parte, faculdade, potência ou vocação, que lhe coloca em contacto com o máximo do ser que lhe seja consentido, colocando-o por cima de suas constituições corpórea ou psíquica, o espírito ou intuição intelectual”. Se nestes termos é reconhecida a definição de uma hierarquia “entre os seres relativos e históricos, fundada em seu grau de distanciamento a respeito da ideia do puro ser”, é evidente que aqui se fixa em esfera abstracta, e isso se confirma pelo fato que o autor em tela alimenta uma espécie de rechaço pelas formas de realidade política, por tanto também por tudo o que é Estado, hierarquia política e imperium, em conformidade com certas concepções espiritualistas cristãs (co mo aparece claro também no “tradicionalista” Leopold Ziegler). É um fato que a Tradição se manifesta em sua plena potência formativa e animadora justamente no domínio da organização político-social, para conferir à mesma um significado e uma legitimação superior. Como um exemplo importante que persistiu até à época moderna se pode indicar o Japão.

Podem-se distinguir dois aspectos da Tradição, um referido à metafísica da história e a uma morfologia das civilizações, o segundo a uma interpretação “esotérica”, ou seja, de acordo com a dimensão em profundidade do diferente material tradicional.

Sabe-se que o termo tradição vem do latim tradere, ou seja, transmitir. Assim o mesmo tem um conteúdo indeterminado, pelo qual se observa seu uso nos contextos mais variados e profanos. 

“Tradicionalismo” pode significar conformismo, e acerca disso Cherterton disse que a tradição é a “democracia dos mortos”, assim como na democracia a maioria se conforma à opinião de uma maioria de contemporâneos, do mesmo modo acontece no tradicionalismo conformista o qual segue a da maioria daqueles que viveram antes de nós. Quiçá poucos saibam que o termo Kabbala tem literalmente o sentido de tradição, mas aqui é em relação com a transmissão de um conhecimento metafísico e da interpretação “esotérica” da correspondente tradição, pelo qual nos aproximamos acerca daquilo do que é a Tradição.

No que se refere ao domínio histórico, a Tradição vincula-se àquilo que poderia denominar-se como uma transcendência imanente. Trata-se de uma ideia recorrente de que uma força do alto actuou em uma ou outra área ou em um ou outro ciclo histórico, de modo que valores espirituais e supraindividuais constituíram o eixo e o supremo ponto de referência para a organização geral, a formação e a justificação de toda realidade e actividade subordinada e simplesmente humana. Esta força do alto é uma presença que se transmite, e esta transmissão de dita força, que se encontra por cima das meras contingências históricas, constituía justamente a Tradição. Normalmente a Tradição tomada neste sentido é levada por quem se encontra no vértice das correspondentes hierarquias, ou por uma elite, e em suas formas mais originárias e completas não há um separação entre o poder temporal e autoridade espiritual, sendo a segunda, em matéria de princípios, o fundamento, a legitimação e o crisma da primeira. Como exemplo característico se pode citar a concepção extremo-oriental do soberano como “terceira força entre o céu e a terra”, concepção que se reencontra na realeza nipónica cuja tradição persiste até hoje. 

No aspecto aqui indicado de uma “transcendência imanente”, o tradere, a transmissão se refere não a algo abstracto e contemplativo, mas a uma energia que por ser invisível não é menos real. Aos chefes e a uma elite cabe a tarefa de transmissão dentro de determinados marcos institucionais, variáveis, mas homologáveis em sua finalidade. É bastante evidente que a mesma está mais garantida se pode ser paralela a uma continuidade de estirpe ou sangue tutelada por normas rigorosas. De facto, quando a cadeia de transmissão se interrompe, é sumamente difícil restabelecê-la. Nesta perspectiva a Tradição é a antítese de tudo o que é democracia, igualitarismo, primazia da sociedade sobre o Estado, poder que vem de baixo e coisas similares.

Para o segundo aspecto da Tradição, é necessário remeter-se ao plano doutrinário, e aqui o ponto de referência e o que pode denominar-se a unidade transcendente e oculta das diferenças tradições. Pode tratar-se de tradições de tipo religioso, mas também de outro género, tais como sapiênciais ou de mistérios. Aquilo que foi chamado de “método tradicional” consiste em descobrir uma unidade ou correspondência essencial de símbolos, de formas, de mitos, de dogmas, de disciplinas, mais além das expressões múltiplas que os correspondentes conteúdos de significado podem assumir nas diferentes tradições históricas. Tal unidade pode resultar a partir de uma penetração em profundidade do diferente material tradicional: indagação — isto deve ser destacado — que deve ser distinta das investigações da denominada ciência comparada das religiões universais, a qual se atém à superfície e tem um carácter empírico e não metafísico. A faculdade requerida, é aquela que se pode denominar como “intuição intelectual ou espiritual”, intuitio intellectualis. Só a possessão desta rara capacidade intelectual pode dar o sentido da medida e prevenir o que se poderia denominar a “superstição da Tradição”. 

Com efeito, há pessoas que se entregam à fantasia e que descobrem em tudo conteúdos tradicionais, ainda quando os mesmos são imaginários ou se trata de contextos espúrios e primitivos. É o análogo do chamado “delírio interpretativo” dos freudianos, os quais querem ver em tudo a acção dos complexos sexuais.

A origem das formas tradicionais é um problema complexo. No que diz respeito ao primeiro dos aspectos aqui aludido, ou seja, o aspecto histórico é muitas vezes formulada a ideia de uma tradição primordial, da qual derivaram as sucessivas e particulares tradições. Mas se permanecemos no plano histórico, este conceito deve ser articulado. A hipótese de uma tradição primordial hiperbórea e nórdico-ocidental no que se refere ao grupo de civilizações tradicionais da área indo-europeia, não se pode fazer demasiado uso no que concerne, por exemplo, às formas tradicionais extremo-orientais, as quais devem remeter-se a um diferente tronco de origem. Mas aqui pode impor-se o ponto de vista a seguir para o segundo aspecto do problema, que é a explicação de concordâncias e de correspondências essenciais de conteúdos tradicionais. É simplista e em parte supersticiosa a ideia de personagens “iniciados” e similares, que nos vários casos operaram conscientemente na origem de toda tradição. Ainda se a ideia quiçá não pode ser aceita por todos sem dificuldade, igualmente muitas vezes se deve pensar em influências por assim dizer, que intervêm na história e nos desenvolvimentos das tradições por detrás dos bastidores, sem que os representantes das mesmas se dêem conta.

Há casos também de um “voltar a brotar” de uma única influência com notáveis distâncias de espaço e tempo, portanto, sem uma transmissão materialmente relevante, quase como um redemoinho que desaparece em um determinado ponto da corrente de um rio para voltar a formar-se em outro ponto. 

É o que se deve pensar em muitos casos de correspondências tradicionais, em elementos particulares, mas também nas estruturas de conjunto de determinadas civilizações, as linhas de vinculação com a superfície são inexistentes, algo imponderável entra em jogo servindo-se ao máximo de elementos de sustentação. Por exemplo, a génese da antiga romanidade, em tudo aquilo onde esta reproduz formas variadas da tradição primordial indo-europeia, pode ser visto sob este aspecto. Enfim, se deve considerar o caso de que a influência em questão actue sucessivamente, ou seja, no desenvolvimento posterior como tradição de uma matéria originária, transformando-a, enriquecendo-a e também a rectificando. Em certa medida, isto parece ter acontecido na formação da tradição católica a partir da matéria proporcionada pelo cristianismo primitivo.

A introdução da ideia de tradição vale para libertar toda tradição particular de seu isolamento, remetendo o princípio gerador da mesma e de seus conteúdos essenciais a um contexto mais vasto, em termos que são de uma efectiva integração. Para desdenhá-la se encontram tão só eventuais pretensões de exclusivismo sectário( e de privilégio. Reconhecemos que isto pode molestar e criar certa desorientação em quem se sentia muito seguro em uma determinada área restringida. Entretanto, para outros, a concepção tradicional abrirá horizontes, infundindo uma superior segurança, com a condição de não confundir o jogo, como no caso daqueles “tradicionalistas” que colocaram a mão na Tradição só por uma espécie de condimento para a própria tradição particular reafirmada em todas suas limitações e em todo seu exclusivismo.

A Essência do Heroísmo

"O curso da vida e do labor me lembram de uma longa jornada que eu fiz de trem uma vez. Subitamente, houve um problema na frente, e os passageiros reagiram a esse evento de modos variados. Alguns deles sentaram parados, resignadamente, e não proferiram palavra alguma. Outros, resolveram dormir. Mas alguns de nós saltamos daquele trem e corremos para a frente, para limpar os trilhos de todas as obstruções."
(Michael Collins)