quinta-feira, 31 de março de 2011

A Arte de Peter Paul Rubens

















Humanidade

"A Humanidade não é um conceito político (...). A Humanidade das doutrinas fundadas sobre o direito natural, liberais e individualistas, é uma construção social ideal de carácter universal, ou seja, englobando todos os homens da terra (...). Esta sociedade universal não conhecerá mais os povos (...). O conceito de Humanidade é um instrumento ideológico particularmente útil às expansões imperialistas e, sob a sua forma ética e humanitária, é o veículo específico do imperialismo económico (...) Tendo dado um nome tão sublime comporta certas consequências para aquele que o assume, o facto de se atribuir o nome de Humanidade, de o invocar e de o monopolizar, é manifestar uma pretensão assustadora para fazer o seu inimigo recusar a sua condição de ser humano, para o declarar fora-da-lei e fora da Humanidade e partindo a provocar a guerra até aos limites extremos do humano."
(Carl Schmitt)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Arno Breker - O Michelangelo do Século XX

fonte: Revista Humanus



Arno Breker?

Quem é Arno Breker?

Embora seja um dos representantes mais importantes das artes plásticas do século XX, é um desconhecido tanto para as academias de arte como para o público em geral. Tendo vivido numa época de profundas mudanças políticas, revoluções e guerras (1900 - 1991) na Alemanha, teve que assistir à destruição quase completa de sua obra, composta de centenas de esculturas (em grande parte de dimensão colossal), e sofrer perseguição política até a sua morte.

Um artista inato

Arno Breker nasceu na Alemanha, na cidade de Elberfeld, no dia 19 de julho de 1900. Nasce junto com o século XX um artista dotado de sensibilidade e habilidade técnica capazes de transformar a pedra, a argila, a cera, a plasticina e o bronze em expressivas figuras humanas que nos transportam a uma dimensão elevada da arte e que conseguem nos emocionar, pois representam estados de espírito que foram magistralmente registrados na matéria pura.

Era o filho mais velho de um escultor de pedras e de monumentos funerários, Arnold Breker e de sua mulher, Luise. Aos 15 anos de idade, ao conhecer os trabalhos de Rodin, sente o chamado da arte e decide ser escultor. Começa então a familiarizar-se com os instrumentos da escultura no atelier de seu pai e a produzir obras admiráveis. Encontrou sua melhor expressão na linha da escultura clássica iniciada pelos gregos e também representada por Michelangelo e Rodin.
 
 
 

Em 1925 termina seus estudos na Academia de Arte de Dusseldorf, onde produz suas primeiras obras. Um de seus professores chegou a lhe dizer: “Você sabe mais do que eu; não tenho mais nada a lhe ensinar”. Estudou também arquitetura e chegou a ganhar, nessa área, prêmios significativos em concursos internacionais, mas acabou se dedicando mais à escultura. Aos 27 anos muda-se para Paris, cidade que veio a se tornar o seu segundo lar, onde compra um estúdio e trabalha em contato com inúmeros artistas e escritores que admiram a sua obra. Aos 30 anos já começa a receber encargos oficiais do governo alemão, entrando num período de crescente produtividade e influência.

Até 1945 ele já tinha produzido esculturas monumentais, algumas com mais de três metros de altura, como Aurora (1925), Torso de David (1927), São Mateo (1927), A imploradora (1929), Moça ajoelhada (1929), Heinrich Heine (1932), Atleta do Decatlo (1936), Dionysos (1937), Prometeu (1935), A Vitória (1936), A Graça (1939), O Heraldo (1939), O Ferido (1940), O Portador de Antorcha (1940), Eos (1942), Flora (1943), A fidelidade (1943) e outras. Produziu, além disso, majestosos e extensos relevos como Combate e A mensageira da Vitória (que decoraram o Arco do Triunfo em Berlin (1940), Domadores de Cavalos (1940), O Porta-Estandarte (1942), O Sacrifício (1940), A Vingança (1940), Os Camaradas (1941), Appolo e Dafne (1940), Eurídice e Orfeu (1944) e outros; retratos dos principais artistas europeus contemporâneos, que admiravam a sua obra, como os dos escultores Maillot e Despiau, os dos pintores Salvador Dali, Derain e Vlaminck, o do poeta Jean Cocteau, o do escultor Ernst Fuchs e, ainda, os dos compositores Wagner e Lizst, dentre várias outras esculturas e obras arquitetônicas.
 
 

Preconceito e perseguição
Porém, nesse mesmo ano de 1945, as tropas aliadas transformam em montanhas de estátuas quebradas oitenta por cento do trabalho tanto escultural como arquitetônico de Arno Breker, alegando que muitas de suas obras haviam sido encomendadas pelo governo nacional socialista alemão. Imperturbável, o artista nunca negou nem o que ele viveu nem o que criou, não parando de proclamar seu ideal artístico: “Eu sempre celebrei o homem, jamais uma ideologia. Sou o escultor do homem, da tripla criação: corpo, mente e espírito”. E, com efeito, basta contemplar a sua obra para constatar a verdade de suas palavras: o apelo à vida, à beleza, à pureza e à espiritualidade presente em cada trabalho seu provoca em qualquer pessoa o sentimento da vergonha pela existência da guerra e da violência.

O escultor começou então, a partir de 1945, a viver uma etapa difícil, de preconceito e perseguição. Até 1959 ele se dedica mais à arquitetura, participando da reconstrução das cidades de Munique, Colônia, Hagen, Essen e Düsseldorf, voltando a viver, durante esse período, na Alemanha. Também produz algumas esculturas abstratas. Em 1958 casa-se com Charlotte Kluge, com quem tem duas filhas. Em 1960 instala-se de novo em Paris e se dedica uma vez mais à escultura, retornando ao brilho social de antes da guerra. Mas só a partir de 1975, após trinta anos de rejeição, é que ele começa a ser reconhecido novamente por algumas mentes mais lúcidas, que perceberam a injustiça cometida. Contribuiu para isso um certo enfado sentido pelo público e pela comunidade artística em relação à chamada “arte abstrata”, que carece de imagens definidas e representativas da força e da beleza do homem.



Durante esses trinta anos marcados pelo esquecimento e pelo preconceito, que acabaram privando o artista de obter recursos para produzir obras de grande porte, tal como anteriormente fizera, ele continuou trabalhando em retratos e esculturas que demandassem um investimento pequeno de material, e assim prosseguiu até o final de sua vida, em 1991, quando já havia um crescente reconhecimento internacional pela sua extensa e admirável obra.

O estilo imortal

Toda a produção artística de Breker é consagrada à beleza, valor supremo para Nietzsche, seguindo nesse sentido o caminho traçado pelos mestres da arte européia, os gregos Phídias e Praxísteles, o florentino Michelangelo, os franceses Daumier e Carpeaux (que exerceu uma profunda influência sobre ele) e Rodin. À imagem dos mestres das letras da Renascença, ele reivindica a herança grega, cadinho onde se forjou a estética européia. A Grécia e suas lendas serão os temas mais recorrentes em sua obra.

Enquanto centenas de artistas no mundo inteiro estavam presos a condicionamentos econômicos e modas passageiras, cultivando uma arte abstrata, geralmente vazia ou resultante das tendências mais obscuras do ser humano, Arno Breker conseguiu quebrar essas cadeias e transmitir o seu conceito idealista e poético do mundo através de suas esculturas. “A revelação da essência humana”, afirmou ele, “razão de ser do retrato, não e realizável se não for por intermédio do artista executante... É na penetração espiritual recíproca entre o escultor e o seu modelo que se encontra o verdadeiro impulso criador, o que anima as autênticas mensagens”.


Se o corpo humano é uma densificação moldada por nossos pensamentos, obras e convicções mais íntimas; se ele é uma extensão do próprio espírito, a parte materializada de nós mesmos, então Breker conseguiu captar essa essência nas suas obras, imprimindo-lhes a beleza do eterno e do verdadeiro, que, embora não seja propriamente visível, pode, através dos olhos, atingir diretamente o que há de eterno e verdadeiro em nós, deleitando-nos. É a arte na sua mais pura realização, conectando-nos a esferas de amor, harmonia, sensibilidade e equilíbrio e nos aproximando de nossa condição de homens. É a procura do belo, que marcou indelevelmente a vida do artista desde que foi tocado pela mágica mensagem da consciência ante a contemplação do David de Michelangelo nas ruas de Florença: “Permaneci ali, como ferido por um raio... Era como uma chamada mística, como uma ordem. Sim, essa noite compreendi que terminava ali a minha fase de trabalhar para o comércio e a gente rica, de esculpir objetos para serem passados banalmente de mão em mão, de trabalhar para zelosos colecionadores, e que a minha vocação seria, custasse o que custasse, trabalhar para a Arte, para as praças públicas, para todo mundo”.

Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade que observe a obra de Breker poderá perceber nela o divino toque de beleza de que só a verdadeira arte é possuidora. Com o estilo dos gregos da era clássica, o escultor concretizou o sentido do trágico e o harmonizou com um suave romantismo germânico. Se Rodin imortalizou O Pensador, Arno Breker eternizou sua obra com O Guerreiro Ferido. Ele projetou novas dimensões na figuração plástica do homem e, a partir daí, tornou sua criação artística um padrão incomparável.


O artista francês Charles Despiau assim define a arte de Breker: “A arte não é para ele assunto de capela; deve responder a um ideal novo, falar às massas uma linguagem elevada, mas simples e inteligível... Essa arte, que aspira a resgatar ao indivíduo a beleza, a nobreza, a força, a saúde física e moral, essa arte será viril, será simples, será nua... Expressar-se-á mediante o corpo humano que retorna ao ar livre, à sua nobreza original, animado de um gesto puro, enobrecido pelo pensamento”.

As obras

As esculturas de Breker evidenciam, inevitavelmente, os valores, ideais e aspirações do artista. Podemos assim ilustrar os fatos de sua vida (e também das nossas) através de suas esculturas. O Prometeu, que representa o deus que trouxe cultura e o fogo divino à humanidade, nos faz pensar na contribuição de Breker, que soube trazer fogo e luz à arte humana, e, à semelhança do deus grego, teve que viver o sofrimento frente à ignorância, quando as tropas aliadas destruíram quase completamente as suas obras em 1945, fato que evidenciou um improcedente preconceito. Já a obra Os Camaradas é uma homenagem a esse nobre e raro sentimento chamado “amizade”, prezado e cultivado por Breker em toda a sua vida, haja vista ao número grande de artistas que o procuravam freqüentemente, alguns dos quais foram retratados em suas esculturas.



A Força, por sua vez, nos lembra o estado de espírito que o levou a superar, no pós-guerra, as inúmeras demonstrações de perseguição contra ele, enfrentando uma campanha de pretenso esquecimento. A Mensageira da Vitória lembra o triunfo da Arte que representa a verdade e a liberdade e que, por isso mesmo, resiste às modas e êxitos passageiros, fato que vem acontecendo, no que respeita à sua obra, com o progressivo reconhecimento do valor do seu trabalho. E A Graça pode representar a recompensa da vida por essa luta em nome do belo através da delicadeza e compreensão das suas amadas esposa e filhas.

Alphonse Darville, que promoveu, em 1972, a primeira exposição de Breker em Paris depois dos seus trinta anos de “morte artística”, afirma no texto que anuncia a mostra: “A arte de Arno Breker é uma recusa à queda na não-arte ou na sombra masoquista do não-ser pelo não-saber. Para isso, é preciso estar munido de uma grande coragem. É preciso ser forte para emergir de uma terrível solidão. Os belos nus que se erguem para o céu por entre as árvores de um jardim florido são como cânticos cheios de fervor e de alegria, felizes vitórias sobre a dúvida. Tais são as criações que Arno Breker nos entrega como uma mensagem de confiança e de esperança num mundo que se vê assolado pela negação.”



E Roger Peyrefitte, em 1974, afirma: “Arno Breker não é somente um grande escultor entre os grandes escultores e o maior dos que vivem hoje; ele é O escultor. Possui o privilégio que têm um ou dois artistas por século de imortalizar a vida como se apresenta perante os nossos olhos e de alcançar a perfeição como esta reside nas leis inatingíveis que concedem a cada um sua originalidade.”

Breker foi o artista mais influente da Europa de seu tempo, tendo recebido elogios dos mais renomados mestres das artes plásticas, que admiravam o seu trabalho e reconheciam sua superioridade na representação do ideal de beleza humana. O escultor catalão Maillol, normalmente citado pelos críticos de arte como um dos quatro maiores do século XX, ao lado de Rodin, Despiau e Breker, afirmava: "Eu não seria capaz de modelar o corpo humano como Breker o faz". E Despiau declarou: "A escultura arquitetônica de Breker não se manifestou apenas nas obras realizadas e conhecidas do público. O que ele prepara é algo tão grandioso que qualquer um se sente emocionado diante de tantas concepções; não há como não se curvar e tirar o chapéu perante quem é capaz de realizar tais iniciativas." (Infiesta, 1976)



Porém, apesar de toda a sua genialidade, ele foi, a partir de 1945, considerado "morto", inexistente, tendo seu nome sido absolutamente banido do mundo artístico e das escolas de Artes Plásticas. A destruição de quase todas a suas obras pelos americanos após o término da guerra, o silêncio imposto por todos os meios de informação pública e o boicote realizado contra o seu trabalho fizeram dele uma sombra do passado. Talvez seja este o primeiro caso na História de destruição sistemática e brutal de uma obra gigantesca, cujo autor cometeu o único suposto crime de ter vivido num momento histórico que alguns querem desesperadamente esquecer.

Podem porventura ser considerados condenáveis os jovens esculturados com corpos de atleta e olhar firme que compõem a maior parte de seu trabalho? Em nome de que estranha justiça se pode arrasar as obras de arte dos autores que caem em desgraça perante a política? Há acaso alguma razão que justifique o ódio contra a obra de um artista? São questões que o próprio tempo deverá responder, trazendo à tona a verdade que foi ocultada, por vingança, pelos chamados vencedores da guerra de 1939 - 1945.



Parábola da Vaca

"Eu me sinto como a vaca que corre pelo campo gritando: 'Ei, você sabe aquele caminhão que leva alguns de nossos amigos todo mês? Bem eles não os levam para um outro campo como nós pensávamos. Eles atiram na cabeça deles, os sangram, os picam, e colocam os pedaços em pacotes. Então aqueles humanos os compram e os comem!' Imagine qual seria a reação do resto do rebanho: 'Você está louco cara. Eles nunca fariam isto. De qualquer maneira, eu tenho participações naquela companhia de transporte e eu tenho um bom retorno. Cale a boca, você está criando tumulto'".
(David Icke)


terça-feira, 29 de março de 2011

Meditação no Cume de uma Montanha

por Julius Evola

Está verdadeiramente desperto meu Espírito?
Quando olho para o alto, em meio ao céu azul,
O voto do existente se me apresenta como uma evidência;
E eu não temo a doutrina da realidade das coisas.
Quando volto meu olhar para o Sol e a Lua.
A iluminação se manifesta distintamente à minha consciência;
E eu não temo o embotamento, nem a torpeza.
Quando volto o olhar para o cume das montanhas,
O imutável da contemplação se apresenta distintamente à minha consciência;
E eu não temo a cessante inconstância do vão teorizar.
Quando olho para baixo, em meio aos rios,
A idéia da continuidade se apresenta distintamente à minha consciência,
E eu não temo a imprevisibilidade dos acontecimentos;
Quando vejo a imagem do arco-íris,
O vazio dos fenômenos fica experimentado no ponto central de meu ser interior;
E eu já não temo mais, nem aquilo que perdura, nem aquilo que fenece.
Quando vejo a imagem da Lua refletida na água,
A auto-liberação, desligada de todos os interesses, se apresenta diáfana à consciência.
E nenhum interesse tem já poder sobre mim.
Quando olho dentro de minha alma,
A Luz do interior do recipiente se apresenta clara à consciência:
E não temo a torpeza, nem a estupidez...



Guerra Justa

"A guerra é uma coisa feia, mas não é a mais feia das coisas: O decadente e degradado estado de sentimento moral e patriótico que acha que nada vale uma guerra é pior. Quando um povo é usado como mero instrumento humano para disparar canhões ou usar baionetas, ao serviço e para os propósitos egoístas de um dono, tal guerra degrada um povo. Uma guerra para proteger outros homens contra a injustiça tirânica, uma guerra para alcançar a vitória das suas próprias ideias de certo e bom, e que portanto é a sua própria guerra, travada de livre vontade por um propósito honesto, é frequentemente o meio de regeneração. Um homem que não tem nada pelo qual esteja disposto a lutar, nada que lhe importe mais do que o seu conforto pessoal é uma criatura miserável que não tem qualquer possibilidade de ser livre, a não ser pelos esforços de homens melhores do que ele."
(John Stuart Mill)


segunda-feira, 28 de março de 2011

Mística da Ação

"Fazer, fazer não importa o quê, não importa como, ser revoltoso por princípio, expressar a própria energia por todos os meios, por todas as audácias: o sangue jamais corre em vão."
(Ernst von Salomon)

domingo, 27 de março de 2011

20 Teses

por George Ivanovich Gurdjieff

1) Faça pausas de dez minutos a cada duas horas de trabalho, no máximo. Repita essas pausas na vida diária e pense em si, analisando suas atitudes.

2) Aprenda a dizer não, sem se sentir culpado ou achar que magoou. Querer agradar a todos é um desgaste enorme.

3) Planeie seu dia, mas deixe sempre um bom espaço para o improviso, consciente de que nem tudo depende de si.

4) Concentre-se em apenas uma tarefa de cada vez. Por mais ágeis que sejam os seus quadros mentais, você fatiga-se.

5) Esqueça, de uma vez por todas, que você é imprescindível. No trabalho, casa, no grupo habitual. Por mais que isso lhe desagrade, tudo continua sem si, excepto você mesmo.

6) Deixe de ser o responsável pelo prazer de todos. Não é você a fonte dos desejos, o eterno mestre de cerimónias.

7) Peça ajuda sempre que necessário, tendo o bom senso de pedir às pessoas certas.

8) Diferencie problemas reais de problemas imaginários e elimine-os porque são pura perda de tempo e ocupam um espaço mental precioso para coisas mais importantes.

9) Tente descobrir o prazer de actos quotidianos como dormir, comer e tomar banho, sem também achar que é o máximo que se consegue na vida.

10) Evite envolver-se na ansiedade e tensão alheias enquanto há ansiedade e tensão. Espere um pouco e depois retome o diálogo, a acção.

11) A família não é você, está junto de si, compõe o seu mundo, mas não é a sua própria identidade.

12) Entenda que princípios e convicções fechadas podem ser um grande peso, a trave do movimento e da busca.

13) É preciso ter sempre alguém em que se possa confiar e falar abertamente ao menos num raio de cem quilómetros. Não adianta estar mais longe.

14) Saiba a hora certa de sair de cena, de retirar-se do palco, de deixar a roda. Nunca perca o sentido da importância subtil de uma saída discreta.

15) Não queira saber se falaram mal de si e nem se atormente com esse lixo mental; escute o que disseram bem, com reserva analítica, sem qualquer convencimento.

16) Competir no lazer, no trabalho, na vida a dois, é óptimo ... para quem quer ficar esgotado e perder o melhor.

17) A rigidez é boa na pedra, não no homem. A ele cabe firmeza, o que é muito diferente.

18) Uma hora de intenso prazer substitui com folga 3 horas de sono perdido. O prazer recompõe mais que o sono. Logo, não perca uma oportunidade de divertir-se.

19) Não abandone as suas 3 grandes e inabaláveis amigas: a intuição, a inocência e a fé!

20) E entenda de uma vez por todas, definitiva e conclusivamente: Você é o que se fizer ser!

O Primado do Conhecimento

"Uma nação só vive porque pensa. Cogitat ergo est. A força e a riqueza não bastam para provar que uma nação vive duma vida que mereça ser glorificada na História - como rijos músculos num corpo e ouro farto numa bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino de África, com guerreiros incontáveis nas suas aringas e incontáveis diamantes nas suas colinas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civilização, os civilizados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rês bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egipto ou Tunis formassem resplandescentes centros de ciências, de literaturas e de artes, e, através de uma serena legião de homens geniais, incessantemente educassem o mundo - nenhuma nação mesmo nesta idade do ferro e de força, ousaria ocupar como um campo maninho e sem dono esses solos augustos donde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das ideias e das formas.
(...) Se uma nação, portanto, só tem a superioridade porque tem pensamento, todo aquele que venha revelar na nossa pátria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe aumentar a única grandeza que a tornará respeitada, a única beleza que a tornará amada; - e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrário ou sobre as suas muralhas erguesse mais um castelo."
(Eça de Queirós)

sábado, 26 de março de 2011

A Queda das Nações Unidas.

Direita Liberal: o pior dos inimigos

"A direita não é hoje mais do que a esquerda no culminar da sua fase senil. A guerra ao sagrado, nunca finalizada pela esquerda, é mais eficazmente conduzida pela direita ocidentalista, e não com a construção racional da ciência, mas com as bandeiras da liberdade e da democracia, duas ilusões que não têm sequer necessidade de alimentar utopias mas apenas de formal enunciação. Onde o materialismo científico falhou, o Pentágono triunfa, com o chapéu de ideias da direita liberal que impõe o modelo único do indivíduo constrangido a um único destino: o consumo. E a consumir-se a si."
(Pietrangelo Buttafuoco)

sexta-feira, 25 de março de 2011

Sonho de Marx Renasce

por Janer Cristaldo


No século XIX, um fantasma rondava a Europa. Era um fantasma etéreo, teórico e vago, e de início só denotava o ódio de um alemão ao conceito de Europa. Ocorre que o fantasma, brandindo o cetro das utopias, catalizou os ressentidos do mundo todo e tomou corpo, dominando um terço do planeta. Como geralmente ocorre com fantasmas, está sumindo do imaginário das gentes. Não sem antes fazer cem milhões de mortos. Fantasmas, ainda que feitos de pura névoa, podem ser letais. 

Milhões de fantasmas rondam a Europa do século XXI. Não são mais aqueles fantasmas antigos, ectoplasmáticos, sem consistência física. Mas fantasmas de carne e osso, mais osso do que carne. Estão cercando o velho continente por todos os lados, não se importam em morrer na tentativa de aportar em suas praias, e se multiplicam como cogumelos após a chuva. São os pobres diabos da África, Índia, China, América Latina, massacrados pela fome, pela miséria, salários infames, por guerras tribais, genocídios e ditaduras, impelidos pelo humano desejo de encontrar um lugar ao sol. São seres diferenciados de seus compatriotas. Têm a coragem de largar tudo, família, filhos, eventuais posses e arriscam a vida em barcaças caindo aos pedaços, containeres sem ventilação, tentando atravessar rios, mares e desertos.

Não poucos morrem. Entre os que não morrem, boa parte vai para cárceres temporários para depois serem deportados. Uma minoria privilegiada encontra alguma fórmula de permanecer no país desejado e depois de muitas peripécias, encontram – ou não encontram – seu lugar ao sol.

Por muitas décadas, foi conveniente aos europeus receber estes “deserdados da terra”, para usarmos uma expressão tão cara às esquerdas. Todas as nações exigem milhares de trabalhadores braçais, e quem pode dar-se ao luxo de um trabalho intelectual é que não vai aceitar o braçal. Países como Suécia, Inglaterra, Alemanha, França estimularam efusivamente a vinda de mão-de-obra do Terceiro Mundo. Era barata e não muito exigente. Os migrantes buscavam uma só coisa: trabalho. Uma relação simbiótica se estabelecia então entre o Ocidente desenvolvido e o Terceiro Mundo faminto. Os ocidentais pagavam barato pela execução de trabalhos que lhes repugnava executar e os famintos recebiam salários de sonho, se comparados aos vinténs – ou aos nenhuns vinténs – que recebiam em seus países de origem. E os governos ocidentais cuidavam de controlar o fluxo migratório, para não provocar desequilíbrio no mercado de trabalho.

Assim foi, pelo menos até meados do século passado. Ao mesmo tempo em que a miséria decorrente do descontrole da natalidade se expandia no Terceiro Mundo, notícias das maravilhas do Ocidente inundavam o universo dos famintos. Não víamos, nos anos 60 ou 70, manchetes sobre migrantes morrendo em pateras no Estreito de Gibraltar nem naufragando em barcaças caindo aos pedaços no Mediterrâneo, nem morrendo sufocados em furgões tentando entrar na Europa. Hoje, é manchete quase todo mês. Uma imprensa que foi dominada pelos marxistas o século todo, criou uma singular mentalidade, a de que todos os “damnés de la terre” – como disse Frantz Fanon – têm direito à Europa ou aos Estados Unidos. E que europeus e americanos têm o sagrado dever de dar casa, roupa, comida, salário, educação, saúde e bom futuro a essa multidão de infelizes, cujos governos, em geral corruptos e ditatoriais, se negam a dar. Curioso observar que, para o mundo socialista – que se jactava de ser solidário com todos os povos do mundo – para lá ninguém queria migrar.

Criou-se então um novo tipo de migrante. Se o migrante dos anos 60 ou 70 vinha em busca de trabalho, o atual migrante chega exigindo seus direitos. Mais ainda: exige o direito de ficar no país escolhido sem cumprir as mínimas exigências legais para nele ficar. Surgiu um novo tipo de personagem na imprensa internacional, os sem-papéis. Ignorando os sistemas jurídicos dos países em que aportam, insistem em neles permanecer, ao arrepio das leis locais. Curiosamente, estas legiões de pessoas em situação ilegal, logo encontraram grupos de apoio nos países que invadem. São em geral católicos e viúvas do marxismo, abrigados sob a nobre designação de defensores dos Direitos Humanos. Defendem abertamente a ilegalidade e posam como humanistas ao defendê-la. Este desvairio teve sua expressão máxima no último Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre (Brasil), quando um de seus organizadores, Luiz Bassegio – ligado à Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) – pregou a migração livre no mundo todo.

Para Bassegio, as pessoas de todo o mundo poderiam migrar para onde quisessem e ter os mesmos direitos. “O neoliberalismo exige dos pobres a retirada de qualquer tipo de empecilho para o livre fluxo de capitais. Mas impõe barreiras terríveis para a migração de pessoas”. O neo-utópico esqueceu que capitais não precisam ser alimentados, vestidos, tratados medicamente, dispensam residência e não ocupam território. Os capitais, quando se reproduzem, só trazem benefícios aos países por onde passam.

O que está longe de ser o caso dos migrantes que, conscientes de que o baixo-ventre é uma poderosa arma de fixação de território, se reproduzem como coelhos. Com taxas de natalidade próximas de um filho por casal, a população autóctone de cada país europeu reduz-se à metade a cada geração. Os muçulmanos sabem disso e cada árabe que reproduz de cinco a dez filhos é uma poderosa quinta-coluna infiltrada em solo europeu. Se a adaga, a alfanje e a lança se revelaram impotentes para conquistar a Europa em séculos passados, o ventre e a defesa das diversidades culturais estão se revelando armas imbatíveis para a reconquista do continente.

Além do mais, os capitais não trazem nas costas crendices religiosas obsoletas que, em nome do tal de respeito às diferenças culturais, entram em conflito direto com as legislações locais. Aceita pelas nações a proposta de Basssegio, a África toda se mudaria, do dia para a noite, para a Europa. Isso sem falar das populações mais pobres da Índia, China, Leste europeu e mesmo América Latina. A Europa toda, que ainda tenta controlar a imigração, está lutando hoje contra costumes bárbaros que os africanos, negros ou árabes, portam em suas mochilas: o crime de honra, a infibulação e ablação do clitóris, o rosto escondido por véus, a submissão da mulher ao macho. Imagine o leitor o nível de barbárie a que retornaria a Europa, se cada imigrante nela pudesse ingressar, sem passaporte nem visto de entrada, e com suas práticas criminosas a tiracolo.

Esta idéia de uma tolerância universal inclusive a práticas tidas como criminosas pelos sistemas de direito de cada país nada tem de novo. No século XVI, chamava-se irenismo, definido então como uma atitude pacificadora entre os cristãos de diversas confissões. No século XVII, Leibniz foi um de seus grandes defensores. Mas se a Europa, que nasce sob o signo da cruz, conseguiu entender-se e unir-se, qualquer entendimento é inviável com os sistemas teocráticos erigidos sob o signo do crescente.

A Europa está assediada por migrantes de todos azimutes. Mas a ameaça maior são as legiões árabes. Cidadãos oriundos de sociedades teocráticas, não conseguem conceber uma sociedade regida senão por preceitos divinos. Bons fiéis de Alá, não aceitam deixar o entulho islâmico em casa e querem impô-lo ao novo lar. Trazem nas costas práticas que as leis locais proíbem? As leis dos infiéis não importam. Só importa o Islã.

Com os recentes atentados em Londres e ameaças a Roma e demais capitais européias, criou-se uma nova mentalidade: a Europa será destruída pelo terror. Ora, terror mata, provoca barulho e sofrimentos, cria um clima de medo, mas terror não consegue destruir um Estado organizado. Bin Laden fez desmoronar duas torres em Nova York. E daí? Os Estados Unidos continuam existindo, os novaiorquinos retomaram seu trem de vida. Quanto a bin Laden, provavelmente já está morto. Mas não interesse de ninguém, nem dos americanos, nem dos árabes, em anunciar sua morte. Seu fantasma rende mais para ambos os lados que sua morte.

O que afundará a Europa será a lei do baixo-ventre, a natalidade como arma. Se Marx um dia sonhou com uma Europa socialista, este morreu. O que está para realizar-se é o sonho manifesto no ódio de Marx à Europa, na primeira frase do Manifesto, a destruição de uma cultura.

Você ainda não conhece a Europa? Vá antes que seja tarde.

Juventude Inconformista

"No domingo pela manhã, ao redor das sete, podia-se ver habitualmente um par de policiais caminhando pelas ruas do bairro de Steglitz, os entregadores de leite, mulheres tremendo de frio vendendo o pão de porta em porta, e inclusive a donzelas que, após uma noite de farra, retornavam acompanhadas a suas casas por cavaleiros de pálida tez. Todos, enquanto isso, seguiam dormindo apesar das badaladas dos sinos da igreja.

Todos, menos... à distância se advertem uns passos através das ruas silenciosas, se ouve um assobio e outro mais... alguns gorros coloridos, um gorro marrom e deformado, um jovem com um lenço de cor vermelha no pescoço... mais tarde alguns jovens de aspecto tímido com suas mochilas e os olhos ainda sonolentos. Outro chega de improviso, e saúda.

Quase todos eles acabam de discutir com suas mães e foram ameaçados de que não haveria uma próxima vez."
(Hans Blüher)

quinta-feira, 24 de março de 2011

A Arte de Karl Wilhelm Diefenbach















Razões de uma Fé Revolucionária

"Porque nos dizíamos fascistas? Porque tínhamos criado horror à democracia parlamentar, à sua hipocrisia, à sua imperícia, às suas vilezas. Porque éramos novos, porque o fascismo representava o movimento, a revolução, o futuro sobre o qual reinava, desde antes da guerra sobre dois terços da Europa. Porque eram precisos regimes fortes para lutar contra o comunismo, esse fascismo vermelho, e que se aliassem contra a III Internacional. Nós queríamos o partido único, abolindo as seitas políticas, o controlo rigoroso ou a estatização dos bancos, a defesa dos trabalhadores e dos empregados contra a inumana rapacidade do capitalismo. Não via a necessidade das controvérsias doutorais, das apreciações dos moralistas, dos palpites históricos, económicos e sociológicos para expor em princípios simples, esse programa de acção. Não éramos movidos pelo oportunismo. Tínhamos escolhido as nossas cores dez anos antes."
(Lucien Rebatet, "Memórias de um Fascista")

quarta-feira, 23 de março de 2011

Debate Olavo de Carvalho x Aleksandr Dugin: Primeira Réplica de Dugin

por Aleksandr Dugin

Em resposta ao interessante e relevante texto do Professor Carvalho, eu gostaria aqui de enfatizar alguns pontos importantes:

O individualismo e o holismo

Em primeiro lugar, parece claro para mim que nossa discussão (se o termo “debate” não cabe aqui – como exatamente o apontou o Professor Carvalho) é algo mais que a troca de opiniões de indivíduos isolados. Há algo muito simbólico na ênfase de certa assimetria em nossas mútuas posições, apontada pelo Prof. Carvalho no início de seu texto introdutório. Descrevendo essa assimetria, ele se define como uma individualidade pura que pode falar somente em seu nome, expressando seu ponto de vista pessoal. Ele não fala em nome de nada mais além de si mesmo: ele quer salientar esse ponto desde o princípio. Ao mesmo tempo ,ele tenta construir a imagem oposta da minha pessoa, sublinhando o fato da minha participação em círculos políticos, públicos e científicos e meu envolvimento na política concreta, em processos decisórios e na luta ideológica. Parece uma observação correta, mas ela tem uma dimensão menos evidente. Ao falar assim, o Prof. Olavo de Carvalho dirige nossa atenção às diferenças existentes entre as civilizações ocidental e russa (eurasiana). A base metafísica do Ocidente é o individualismo. O sociólogo francês Louis Dumont, em suas obras – «Essai sur l'individualism»[1], «Homo Aequalis I»[2] e «Homo Aequalis II»[3] -- descreveu com uma clareza suficiente a natureza individualista da sociedade ocidental e da Civilização Ocidental da Idade Média até o presente. Portanto, acentuando posições puramente pessoais em nosso debate, o Prof. Olavo de Carvalho está agindo de acordo com o modo mais geral e «coletivista», refletindo a particularidade social da cultura ocidental e seu sistema de valores. Para o homem ocidental uma declaração de individualismo é algo natural (socialmente definido), e, sendo uma coisa «natural», é social e, portanto, mais do que individualista. Em outras palavras, o individualismo é uma característica comum do Ocidente. Há, portanto, pouco de «individual» no individualismo, é deveras um estereótipo.

O mesmo estereótipo é claramente visto na projeção da identidade oposta nos representantes da sociedade russa (eurasiana). Essa identidade deveria ser coletivista a priori, manifestando características holísticas ou totalitárias (no caso de atitudes pejorativas). E o Prof. Carvalho facilmente encontra confirmação de tal projeção nos detalhes biográficos de seu opositor. Portanto, o contexto está bem definido e a foto dos dois lados dá a isso uma expressão mais visual. O “caçador” vs “soldado”. “homem solitário” vs “homem coletivo”. “Ocidente” contra o “Resto”.

Eu aceito isso completamente e concordo em reconhecer o fato de que a individuação russa (eurasiana) consiste no desejo de manifestar algo mais geral que nossas características individuais. Portanto, ser uma entidade coletiva (o termo russo «sobornost'» caberia melhor aqui) para mim é deveras uma honra. Quanto mais holística for minha posição, melhor.

Isso é precisamente a dimensão simbólica que foi mencionada anteriormente. No debate entre duas personalidades há duas estruturas massivas de diferentes civilizações, de diferentes sistemas de valores que afrontam um ao outro através de nós. O individualismo ocidental confronta o holismo russo (eurasiano).

É necessário aqui precisar algo: segundo entendo, a sociedade brasileira e sua cultura não é completamente ocidental ou individualista. Há nela várias características coletivistas e holísticas. Portanto, a América Latina e o Brasil em particular, têm algumas diferenças sociais e culturais em relação às sociedades e culturas européias ou norte-americanas. No caso do Prof. Carvalho, o fato de que ele viva nos EUA, tem um papel importante. Não digo sua residência geográfica, mas sua identificação cultural. Isso é confirmado pelos textos do Prof. Carvalho que consegui ler. Eles testemunham sua adesão à tradição norte americana (em sua versão “tradicionalista” ou de “direita) e sua distância das principais características da atitude cultural crítica brasileira para com os Estados Unidos. Estando politicamente à direita, eu suponho que o Prof. Carvalho repreenda o “esquerdismo” latino e brasileiro. Minha simpatia nesse caso está do lado da América Latina. Sendo eu um crítico dos EUA e da Civilização Ocidental como um todo, eu encontro características (eurasianas) nas sociedades da América Central e do Sul. Portanto, de certa forma, eu sou muito mais pró-Brasil do que o “brazileiro puro” Prof. Carvalho que defende certos aspectos (conservadores) dos EUA e o Ocidente como um todo.

Tendo enfatizado esse ponto, podemos seguir aos outros argumentos do Prof. Carvalho.

Três projetos globais

Consideremos primeiramente os três projetos de dominação global descritos por ele. Ainda que eu não esteja convencido de que eles dêem uma visão correta das principais tendências do mundo contemporâneo, posso reconhecer algumas características realistas nesse quadro. O Prof. Carvalho descreve-os explicitamente assim:

Os agentes que hoje os personificam são respectivamente:

1. A elite governante da Rússia e da China, especialmente os serviços secretos desses dois países.

2. A elite financeira ocidental, tal como representada especialmente no Clube Bilderberg, no Council on Foreign Relations e na Comissão Trilateral.

3. A Fraternidade Islâmica, as lideranças religiosas de vários países islâmicos e também alguns governos de países muçulmanos.

Adiante em sua exposição o Sr. Carvalho indica que cada um dos três projetos globais refletem três armas globais – o poder militar, a economia de mercado, e o forte credo religioso (fundamentalismo). Podemos facilmente notar que essa estrutura hipotética, consistindo de três poderes principais, representa as três funções clássicas da sociedade tradicional: Os sacerdotes religiosos (brahmans), os guerreiros (kshatryas) e os comerciantes (vayshyas). Aceitando essa visão, poderíamos avaliar os três poderes de diferentes maneiras. Para os materialistas e pacifistas seria preferível a sociedade do capitalismo de mercado ocidental (dos EUA e seus aliados). Mas esse não é o caso para aqueles que defendem outro conjunto de valores – espirituais ou imateriais. A “ordem do Dinheiro” (Segundo a visão de Jaques Attali’s[4]) pode ser confrontada pela “ordem da Força” ou pela “ordem do Espírito”. A globalização atual é essencialmente baseada na ordem econômica, e ela representa o mundo futuro como o mercado global onde “a história chegou ao fim” (F.Fukuyama[5]). Portanto, a luta entre o “militarismo russo-chinês” e a “Irmandade Muçulmana” contra o Ocidente, os EUA e a globalização é um caso justo e bom, que deveria ser apoiado por todos os cidadãos do mundo. Isso rejeita o império supermaterialista, o consumo frenético e a hegemonia norte Americana. A ordem dos guerreiros e dos sacerdotes, para mim pessoalmente (e implicitamente para a maioria dos povos eurasianos) é muito melhor que a ordem dos comerciantes. Mais do que isso, eu sugeriria a aliança entre o “militarismo russo-chinês” e a “Irmandade Muçulmana” na luta comum para a derrocada da Ordem Mundial Americana e para encerrar a globalização e o “modo de vida americano”.

Assim, nos termos do Prof. Olavo de Carvalho, todo tradicionalista conseqüente deveria estar do lado dos eurasianos e dos muçulmanos contra o declínio materialista e capitalista das castas. O Prof. Olavo de Carvalho reconheceu o fato de que a elite financeira está concentrada em algumas organizações globais, tais quais o Clube Bildenberg, o Conselho das Relações Exteriores e a Comissão Trilateral, que servem de quartel general do capitalismo e do imperialismo norte americano. Portanto, temos um inimigo real diante de nós que deveria ser atacado.

Se considerarmos que a circunstância do processo de globalização é muito mais poderosa agora que as duas outras forças e que o poder dos EUA é quase imbatível, chegamos precisamente à conclusão de que o projeto globalista é muito mais perigoso e realista do que os dois outros projetos. Então, estamos lidando não com três tendências mais ou menos equivalentes, mas apenas com uma, que prevalece e domina absolutamente em relação às outras duas que tentam desafiá-la (de forma bem-sucedida ou não). Em tal situação a questão é colocada da seguinte forma: deveríamos aceitar o domínio da elite financeira e global como algo inevitável e resignar-nos de lutar por qualquer alternativa somente porque não gostamos dos projetos eurasiano e islâmico? Se pudéssemos imaginar alguma outra doutrina como alternativa seria algo bom, mas não é fácil.

Então, temos o curso principal das coisas (a criação do Mundo Uno, do Governo Mundial e a oligarquia financeira global dominante) e temos a possível oposição, mais impressionante e mais articulada versão do que são o militarismo nacional russo-chinês e o fundamentalismo islâmico. A escolha é clara para todo aquele que for convidado a fazê-la por si mesmo.

Parece que a América Latina está inclinada a escolher a alternativa que se aproxima cada vez mais do campo eurasiano e árabe. O prof. Olavo de Carvalho não reconhece o neo-socialismo com fortes características étnicas explicitamente presente na América Latina como uma tendência central em si mesma e essa é a diferença entre nossas abordagens, mas isso não é crucial. Poderíamos incluir, de forma aproximada, essa tendência neo-socialista latino-americana no campo do militarismo eurasiano e no fundamentalismo islâmico. Chegamos, então ao ponto do Choque de Civilizações que se tornou famoso com S.Huntington[6]. O Ocidente contra o Resto. Isso é (nos termos do Prof. Olavo de Carvalho) a elite financeira ocidental contra os eurasianos e islamistas assim como contra qualquer outra instância que rejeite a hegemonia Americana e a absoluta predominância do livre mercado, dos direitos humanos, do liberalismo, do individualismo e dos padrões da democracia parlamentar.

Portanto, operando com o mapa mundi proposto pelo Prof. Olavo de Carvalho, reconheço que eu preferiria, tomar uma posição conscientemente no campo do “militarismo eurasiano ou russo-chinês” acompanhado com grande simpatia pelo mundo do movimento islâmico anti-ocidental ( ainda que eu seja um cristão ortodoxo e não compartilhe de seus pontos de vista teológicos). A descrição crítica e pejorativa do Prof. Olavo de Carvalho sobre o projeto russo-chinês e o islâmico me faz sugerir que a escolha dele é muito diferente e oposta à minha. Se permanecermos nos limites do mapa mundi proposto por ele, a única solução lógica é a escolha de Ocidente Global e a hegemonia da elite financeira ocidental.

Se há somente três forças (E é o Prof. Olavo de Carvalho que o afirma, não eu) a escolha realista deveria ser feita, aceitando-se uma delas como uma posição. Mas esse ponto não é claramente afirmado pelo texto do Prof. Olavo de Carvalho. Vemos que ele odeia o estatismo russo-chinês e o fundamentalismo islâmico. É explícito. Diante desse ponto de vista, aguardaremos o seu próximo passo – a defesa do Ocidente. Mas algumas afirmações do Prof. Olavo de Carvalho provam que não é assim. Ele trata a globalização ocidental também nos mesmos termos críticos. Então, ficamos perplexos e esperamos que ele deixe esse ponto claro no futuro.

Poderíamos sugerir, teoricamente, que ele é contra todo tipo de projeto global sob qualquer forma, odiando todos os cenários de visão e práxis globalista. Se for o caso, ele deveria atacar primeiramente o mais pesado, sério e impressionante deles – a hegemonia americana, o mundo unipolar e o domínio da elite financeira. É a primeira e mais poderosa tendência – muito mais efetiva que as duas outras. Mas o Prof. Carvalho vive nos EUA e seu texto introdutório ataca ferozmente o eurasianismo e o fundamentalismo islâmico antes de tudo mais. Então, sua posição permanece intrigante e enigmática. Pela maneira que ele discute, parece um claro passo estilístico – de maneira que, ficando intrigados como eu, os observadores seguiriam o discurso com mais atenção. Os pecados da KGB, do Partido Comunista e da Al-Qaeda são suficientemente expostos pelo Professor, mas e a CIA, Bilderberg, o Pentágono, os neocons, a PNAC (Projeto para um Novo Século Americano), a infantaria imperial, Hiroshima e Nagasaki, a ocupação do Iraque e do Afeganistão e o bombardeio da Sérvia?

A validez da geopolítica clássica

Segundo ponto: o Prof. Carvalho afirma:

“Embora nas discussões correntes esses três blocos sejam quase que invariavelmente designados pelos nomes de nações, Estados e governos, descrever a relação entre eles em termos de uma disputa entre nações ou interesses nacionais é um hábito residual da antiga geopolítica que não ajuda em nada a compreender a situação de hoje.”

Eu não posso concordar com a seguinte afirmação “é um hábito residual da antiga geopolítica que não ajuda em nada a compreender a situação de hoje.” Estou convencido que a análise geopolítica clássica ainda é relevante e de fato nos ajuda a “entender a situação presente”. Tanto o poder global americano moderno (e pós-moderno também) quanto seus aliados na Europa e alhures manifestaram-se desde os últimos séculos até os dias de hoje como a encarnação direta do Poder Marítimo tal qual exposto por Halford Mackinder[7], Nicholas J. Spykmen[8], K.Haushofer[9] e todos os outros pensadores e analistas geopolíticos. A hegemonia global americana geográfica, estratégica e (o que é mais importante) sociologicamente é pura “talassocracia”, a manifestação clássica da Cartago eterna, que se tornou um fenômeno mundial. A localização Atlântica do Cerne do mundo global (o Norte rico), a essência capitalista de seu domínio, a inovadora tecnologia material como base da conquista das colônias, o controle estratégico dos mares e oceanos com as forças da armada (NAVY) Americana – todas essas características da unipolaridade e da globalização nos dias atuais (algumas vezes apresentada em versão suave, ou seja, multilateralismo) são características clássicas do Poder Marítimo. E o Poder Marítimo está em permanente diligência contra a Zona Cardial (Heartland), estando no seu caminho direto para a dominação mundial.

Por isso é que a velha análise geopolítica é altamente relevante. Ela reflete perfeitamente as metas de implementação do sistema talassocrático mundial.

Se observarmos os mais importantes projetos opostos à globalização (descritos pelo Prof. Olavo de Carvalho) veremos a outra metade do mapa geopolítico clássico de Mackinder. O que são a Rússia e a China geopoliticamente? Juntas, elas formam a Eurasia em sua completude: a Região Cardial (Heartland), os dois maiores espaços continentais. Estamos então lidando com a “telurocracia” em sua essência. A geopolítica permite a visualização tanto da esfera politico-geográfica como da esfera sociológica. Faz uma síntese dos poderes políticos, fronteiras e “les dispositifs” por um lado, e por outro lado nos traz um sistema de valores, cultural e social. Portanto, a telurocracia, o paradigma da Roma, é, tomando-se simultaneamente, tanto uma estratégia de tipo continental e uma civilização. Portanto, a hostilidade entre “EUA-unipolaridade-globalização-finaceira-oligarqui-modernização-capitalismo” e “Rússia-China-militarismo-soberania-da-sociedade-tradicional-de-estado-(cripto-socialismo)” é perfeitamente geopolítica.

Qual é o lugar do Islã na visão geopolítica clássica? Ela corresponde à chamada Zona Marginal (Rimland), ou mais precisamente à grande extensão da Marginal Crescente (Rimland) que vai do Magreb até o Oriente Médio, à Ásia Central e se estende ás sociedade islâmicas do Pacífico. A natureza geopolítica do islã dá abertura para duas opções: Poder Marítimo ou Poder Terrestre, talassocracia ou telurocrassia. O islã radical rejeita o Ocidente, os Eua, a globalização e consequentemente a talassocracia é logicamente inclinada a se aliar com o Poder Terrestre. Mas essa zona como um todo pode opcionalmente tomar outra decisão, preferindo a aliança com Ocidente (como alguns regimes árabes)

O equilíbrio entre talassocracia e telurocrassia atualmente está a favor do primeiro. Portanto, a situação presente pode ser corretamente avaliada nos clássicos (antigos) termos geopolíticos. O Poder Marítimo lutando pelo controle da Zona Cardinal (Heartland) para dominar o Mundo (impondo em todos os lugares seus padrões e valores individualistas, de mercado e de direitos humanos) está em confronto com as forças eurasianas (Rússia-China) e seus aliados temporários (islamistas, anti-colonialistas latino-americanos, neo-socialistas e «independentistas» e assim por diante).

A heresia da «sociedade aberta» e os crimes americanos

Adiante, no próximo ponto, o Prof. Olavo de Carvalho aponta que a análise eurasiana da sociedade americana está errada, no que diz respeito à identificação de sua essência com o conceito de «sociedade aberta» de Karl Popper[10]. Pelo que sei, na década de 90 os conceitos de Popper foram muito relevantes na análise dos principais valores da civilização européia, ocidental. Ademais, eu li centenas de sociólogos e filósofos ocidentais que deram uma descrição diferente dos valores ocidentais básicos, mas o fato é que o profundo individualismo é a sua principal característica (especialmente na Modernidade). Essa é a opinião de Max Weber ou do excelente sociólogo francês Louis Dumont, já mencionado. Eu poderia aceitar o fato de que Popper como tal só é estimado pelo Senhor Soros e pelas pessoas da CFR, mas isso não é pouco. A elite, que compreende a essência dos valores, não pode ser muito grande. Mas eu não insisto no Popper. O momento mais importante no Ocidente é individualista. O Oriente, ao contrário, é holístico. A sociedade eurasiana é uma sociedade holística. Se houver quaisquer outros movimentos holísticos ou culturais, eles deveriam ser logicamente aliados do Eurasianismo. Os tradicionalistas ocidentais (R.Guenon[11], por exemplo) estavam do lado do Oriente. J. Evola foi partidário da Tradição Ocidental, mas esteve em oposição absoluta à Modernidade e aos EUA[12].

Talvez haja uma outra América, mas, em geral, isso não muda nada. Uma outra América, que não seja aquela do CFR, dos neocons e da “Cartago Mundial” é virtual. A América real todos conhecemos bem.

A outra tese do Prof. Carvalho que soa para mim um pouco estranha:

“A elite globalista não é inimiga da Rússia, da China ou dos países islâmicos virtualmente associados ao projeto eurasiano, mas, ao contrário, sua colaboradora e cúmplice no empenho de destruir a soberania, o poderio politico-militar e a economia dos EUA.”

O que é que isso pode significar? A globalização do mundo e a instalação em todos os cantos do controle Americano, incluindo a intrusão direta de países nominalmente soberanos, a promoção do modo americano de vida e a uniformização das diferentes sociedades humanas, realizada pelos EUA, é considerada pelo Professor como “nada”, sendo ignorada e esquecida. A contaminação da sociedade russa pelos padrões decadentes do consumismo, o apoio a regimes anti-russos no espaço pós-sovietico é nada. Os EUA são uma praga absoluta para a humanidade. E a elite globalista é a quintessência dos EUA, ela domina os EUA e através disso, o resto do mundo. A elite globalista dos EUA é o inimigo absoluto da Rússia, da China e dos países islâmicos, ela corrompe nossa elite política, a sociedade, o país. Para nós isso é óbvio “A soberania, o poder político-militar e a economia do dos EUA” nada mais são que instrumentos na mão dessa elite, seus cúmplices, voluntários ou não.

Há muitos outros pontos importantes no texto do Prof. Olavo de Carvalho que gostaríamos de discutir em detalhe, mas teremos que parar por aqui e retornar ao tema na próxima rodada.

Tradução por G. Morais

Dois lados da mesma moeda

“Quando vi na Checoslováquia as primeiras habitações sociais, julguei estar a ver a própria manifestação do horror comunista. Só mais tarde compreendi que o comunismo me mostrava, numa versão hiperbolizada ou caricatural, os traços comuns do mundo moderno. A mesma burocratização omnipresente. A luta de classes substituída pela arrogância das instituições com os utentes. A degradação do saber artesanal. A imbecil juvenofilia do discurso oficial. As férias organizadas em manadas. A fealdade do campo donde desaparecem as marcas da mão camponesa. A uniformização. E, entre todos esses denominadores comuns, o pior de todos: a falta de respeito pelo indivíduo e pela sua vida privada…
A experiência do comunismo afigura-se-me uma excelente introdução ao mundo moderno em geral; tornou-me mais sensível aos fenómenos absurdos que estamos prontos a ver aqui como sendo de uma inocente banalidade ou como um atributo necessário da Santa Democracia.”
(Milan Kundera)

terça-feira, 22 de março de 2011

Dulce et Decorum est

por Wilfred Owen

Bent double, like old beggars under sacks,
Knock-kneed, coughing like hags, we cursed through sludge,
Till on the haunting flares we turned our backs
And towards our distant rest began to trudge.
Men marched asleep. Many had lost their boots
But limped on, blood-shod. All went lame; all blind;
Drunk with fatigue; deaf even to the hoots 
Of tired, outstripped Five-Nines that dropped behind.
Gas! Gas! Quick, boys! – An ecstasy of fumbling,
Fitting the clumsy helmets just in time;
But someone still was yelling out and stumbling,
And flound'ring like a man in fire or lime . . .
Dim, through the misty panes and thick green light,
As under a green sea, I saw him drowning.
In all my dreams, before my helpless sight,
He plunges at me, guttering, choking, drowning.
If in some smothering dreams you too could pace
Behind the wagon that we flung him in,
And watch the white eyes writhing in his face,
His hanging face, like a devil's sick of sin;
If you could hear, at every jolt, the blood
Come gargling from the froth-corrupted lungs,
Obscene as cancer, bitter as the cud 
Of vile, incurable sores on innocent tongues,
My friend, you would not tell with such high zest
To children ardent for some desperate glory,
The old Lie; Dulce et Decorum est
Pro patria mori.

Milícia

"A milícia não é uma expressão caprichosa e mimética. Nem um pueril 'brincar de soldado'. Nem uma manifestação esportiva, de alcance puramente ginástico.

A milícia é uma exigência, uma necessidade inevitável dos homens e dos povos que querem salvar-se, um ditado irresistível para os que sentem que sua Pátria e a continuidade de seu destino histórico pedem em jorros dessangrados de gritos, em ondas de vozes imperais e imperiosas, seu enquadramento em uma força hierárquica e disciplinada de uma doutrina, na ação de uma só tática generosa e heróica.

A milícia iça sua bandeira de recrutamento em todas as esquinas da consciência nacional. Para os que ainda conservam sua dignidade de homens, de patriotas. Para os que em seus pulsos percebem todavia o pulsar do sangue espanhol e escutam na alma a voz de seus antepassados, enterrados no pátrio solar e lhes ressoa no coração o eco familiar das glórias dos homens de sua nação e de sua raça que clamam por sua perpetuidade.

É a Pátria quem necessita de nosso esforço e de nossos braços; ela é quem nos manda vestir uniformes, formar todos como um..."
(José Antonio Primo de Rivera)

segunda-feira, 21 de março de 2011

O Homem, Animal Selvagem

"Se a pessoa deixar de olhar para os manuais de biologia e começar a olhar para os animais e para os homens, chegará à espantosa conclusão (no caso de ter sentido de humor e imaginação, bem como uma certa dose de frenesim e de farsa), não de que o homem se parece imenso com os animais, mas de que se parece muito pouco com eles. Aquilo que tem de ser explicado não é a semelhança, é a monstruosa escala da dissemelhança. Que o homem é parecido com os animais é, em certo sentido, um truísmo; mas que, sendo tão parecidos, eles sejam tão inconcebivelmente diferentes, isso é que é um choque e um enigma. O facto de o macaco ter mãos é muito menos interessante para o filósofo do que o facto de, apesar de ter mãos, ele quase nada fazer com elas: não joga ás pedrinhas nem toca violino, não esculpe o mármore nem trincha um peru. As pessoas falam da falta de gosto na arquitectura e da arte degenerada. O certo, porém, é que os elefantes não constroem templos colossais em marfim, nem sequer em estilo rococó; e que os camelos não pintam, nem sequer quadros de má qualidade, embora disponham de material que lhes permite produzir uma enorme quantidade de pincéis de pêlo de camelo. Há certos sonhadores modernos que afirmam que as formigas e as abelhas constituem sociedades superiores às nossas. Não há dúvida de que esses animais têm uma civilização; mas essa verdade apenas nos recorda que se trata de uma civilização inferior. Já alguém viu a sala de estar de uma formiga decorada com bustos de formigas famosas? Já alguém viu uma colmeia decorada com imagens de esplendorosas abelhas-mestras de antanho? Não; o abismo que existe entre o homem e as restantes criaturas poderá ter uma explicação natural; mas lá que se trata de um abismo, disso não há qualquer dúvida. Falamos dos animais selvagens; mas a verdade é que o homem é o único animal selvagem da criação. O homem foi o único animal que fugiu. Os outros animais são todos domésticos; todos eles acatam a inflexível respeitabilidade da tribo e da espécie. os outros animais são todos domesticados; o homem é o único animal que permanece por domesticar, que pode ser um devasso ou um monge."
(G.K. Chesterton, em "Ortodoxia")

Os Celtas do Xinjiang

Um professor Girassol¹

A Cena se passou há bons quinze anos. Eu estava apoiado no bar (sim) do Salão de Ciências-Fronteiras em Cavaillon; como o seu nome talvez não indique suficientemente, este salão reunia todos os anos no mês de janeiro escritores e cientistas que, dispondo de bela notoriedade, se situavam às margens das convenções habituais e não hesitavam em flertar com conceitos extravagantes como este, por exemplo, de acreditar na idéia de que poderiam existir outros mundos vivos no espaço ou, sobre a nossa Terra, civilizações desaparecidas, que superariam bem a nossa. Nós sabemos atualmente, visto o seu estado de degradação (da nossa), que isso não seria muito difícil. Eu, portanto, encontrei na época Rémy Chauvin, Marie-Thérèse de Brosses, Didier Van Cauwelaert, Martine Castello, e vários pesquisadores de renome. 

Eu estava, pois, apoiado no bar, bebericando um xarope de romã, quando vi avançar na minha direção um homenzinho calvo com alguns fios longos ao redor das orelhas; visivelmente ele tinha vontade de debater, pouco importando o assunto; nós bebemos e ele falou; ou o contrário; ele tinha um velho sobretudo negro, cujas manchas eram muito grandes, óculos que eram verdadeiros binóculos e se exprimia com um sotaque curioso, que enrolava os “r”, vindo talvez de qualquer parte do leste. Uma mistura de professor Girassol com Bergier. Ele me contou uma história engraçada sobre múmias que foram descobertas na China em um deserto, múmias de “gigantes loiros”, dizia. Ele desapareceu no momento em que eu pagava a conta; eu me perguntei se ele não era uma aparição, de um ou de outro dos personagens anteriormente citados; sim, eu sei que o professor Girassol não existe que sob o lápis de Hergé, mas sabe-se lá. Paul-Georges Sansonetti deve saber. Eu havia esquecido esta história até os dias de hoje, quando eu fiz algumas pesquisas. Somente para saber que o homenzinho não brincava.

Mesmo escorpiões não conseguem viver nesse deserto

Situemos primeiro o local, um deserto árido, de areia, o maior depois do Saara, 337.000 km², o Taklamakan; nele corre, entretanto, um rio, o Tarim, que permite a vida em uma depressão chamada “bacia do Tarim”. Não muito longe – mas tudo é relativo nessas terras imensas – a noroeste, o Tajiquistão, o Uzbequistão, o Turcomenistão, o Quirguistão, um pouco mais baixo a oeste, o Afeganistão e o Paquistão, ao norte, a Mongólia. Nós estamos na província chinesa do Xinjiang; a Rota da Seda passava por esta região, contornando o deserto. Esta região é habitada pela etnia dos Uigures, muçulmanos desde o século XIV, data na qual encontramos ainda um bispo nestoriano.

Foi em 1978 que foram encontradas as primeiras múmias; serão contadas mais de quatrocentas ao todo. O clima extremamente seco da região as conservou. Elas teriam entre dois e quatro mil anos de idade. Os chineses temem que estas descobertas sejam um pretexto para os Uigures relançarem seu movimento independentista, reivindicando uma descendência original, visto que testes de DNA provaram a origem indo-européia das múmias. Assim, os chineses fazem todo o possível para minimizar a importância desta descoberta, desde que um professor de literatura chinesa da Pensilvânia, George Mair, descobriu alguns exemplares destas múmias em um pequeno museu da região no fim dos anos oitenta. Convém também dizer que isto aborreceria muitos chineses, que teriam, sob o seu sol, brancos suficientemente evoluídos para transmitir a eles alguns conhecimentos. É desta maneira que, verdadeiramente, técnicas de trabalho baseadas em conhecimentos gauleses são encontradas, mesmo na China, da mesma maneira que o invasor romano se apropriou delas, conquistando a Gália.

Quem são os Tokarianos?

É o turcólogo alemão F.W. K. Muller quem deu, em 1907, o nome de tokariana a uma língua que nós podemos decifrar facilmente nos manuscritos, pois eles estavam anotados de maneira bilíngüe tokariano – sânscrito. Os lingüistas teriam em seguida estabelecido os vínculos entre esta língua e as línguas indo-européias, essencialmente o celta e o germânico. Nós reencontraremos alguma sonoridade similar nestes exemplos, respectivamente em português², francês, latim, irlandês e tokariano: mãe, mère, mater, mathir, macer. Irmão, frère, frater, brathir, prócer (próximo do inglês “brother”), três, trois, tres, tri, tre (segundo Giovanni Monastra).

O povo tokariano realmente existiu; sabemos com qual facilidade utiliza-se o pretexto lingüístico para fazer com que se considere os povos como uma realidade virtual, ou mesmo inexistente, de acordo com o que interessa a alguns. Como temos aqui uma prova tangível – corpos – é difícil de refugiar-se nesse não dito. Ainda mais que esses corpos são acompanhados de indícios também bem conservados: suas roupas. Além disso, os documentos que foram descobertos são muito ricos em detalhes e nos dão uma visão muito precisa da sociedade tokariana. Nós nos reportamos com interesse ao trabalho minuncioso de Serge Papillon, La civilization tokharienne, na internet.

Podemos nos perguntar o que faziam lá celtas, tão longe de suas terras de origem? Lembremos que a sua terra de origem não é a Escócia ou a Irlanda, que são os últimos receptáculos desta brilhante civilização e onde encontramos ainda um grande número de falantes das línguas celtas originais. Seu lar de origem é localizado mais a leste e mais ao norte.

Além disso, os tokarianos não são os únicos, nesta região, cuja origem indo-européia é comprovada. Resta ainda nos nossos dias – mas por quanto tempo – os resíduos de um povo muito antigo que os exércitos de Alexandre ficaram surpresos de descobrir – já - no vale do Hindu Kush, a cavalo sobre o Paquistão e o Afeganistão, europeus que possuíam reais aptidões para o combate, pois as tropas de Alexandre não avançaram nesta zona a não ser muito lentamente. Os nuristaneses e os kalashes, pois é deles que se trata, estão implantados nesta região desde o segundo milênio antes da nossa era, portanto, ao mesmo tempo em que contamos os primeiros tokarianos do Tarim. Estes povos são atualmente alvos das perseguições islâmicas dos seus dogmáticos vizinhos, pois eles conservaram a religião pagã de seus ancestrais e estão verdadeiramente condenados a desaparecer, últimos vestígios vivos desta vanguarda européia na Ásia. Foi à procura de outro vestígio vivo, o Barmanu, o homem das neves, o Yéti, que Jordi Magrener perdeu a vida em 2002 nesta região, assassinado pelos talibãs.

As múmias

Elas são bem melhor conservadas do que as múmias egípcias, sem dúvida em função da por causa da baixíssima taxa de umidade do deserto e da sua salinidade, que impediram a proliferação de bactérias. Os corpos são grandes, e mesmo bem maiores que talhe médio atual, beirando para alguns os dois metros; as mulheres são quase tão grande quanto os homens.

Nós os veríamos passeando por Gstaadt, ou não importa qual estação de esqui luxuosa, estes personagens não fariam feio e não chamariam a atenção vestidos de belos casacos de pele, de sapatos bem feitos, de chapéus de pele do tipo tirolês com o detalhe elegante de uma pena fixada ao lado. Estas múmias estão frequentemente vestidas por “tartans”, com tecidos fabricados como kilts escoceses. Sabemos que suas cores provêm da maceração de plantas cuidadosamente escolhidas e colhidas no próprio local de utilização, o que permitia a cada um reconhecer o pertencimento a um clã, segundo o tipo de plantas que cresciam aqui e não lá. A reconstituição de seus rostos faz aparecer delgados e belos rostos de tipo europeu nórdico; eles são loiros ou castanhos, o nariz é íntegro e longo, os lábios bem desenhados, os olhos são azuis ou verdes. “Os chineses me diziam que estes corpos possuíam três mil anos, mas pareciam ter sido enterrados ontem”, dizia Victor Mair.

“O homem de Cherchen” ou “a bela de Loula” chamados assim segundo o local onde eles foram descobertos, e as outras múmias, dispunham de alguns objetos pessoais perto deles, pequenos sacos contendo facas e ervas medicinais, e espelhos, para as mulheres. Para os homens, freios em madeira, rédeas em couro, uma sela de couro cuidadosamente fabricada. Encontrou-se perto do corpo de uma criança em tenra idade (cujos olhos estavam cobertos por seixos azuis) uma espécie de mamadeira confeccionada com os pés de uma cabra.

Do tirolês Otzi aos tiroleses da China

Não se pode evitar, com esta descrição, de se pensar em Otzi, o corpo mumificado muito bem conservado também, descoberto em um glaciar do Tirol em 1991. Entretanto, Otzi é muito menor, 1,60 metro, suas vestimentas são quase idênticas às das múmias de Tarim; ele é mais antigo – salvo nova datação – que as múmias da China; mas um detalhe não deixa de intrigar, e parece estarmos bem embasados para fazer referência. Eis que nós contribuímos com a nossa pequena peça à montagem deste grande quebra-cabeça do qual nós falamos no editorial.

Otzi possui marcas em vários locais do corpo, como tatuagens, espécies de pequenos bastões cavados geometricamente na carne e sublinhados em negro com carvão; marcas tribais, cultuais? Que nada... Os especialistas vão fazer uma descoberta importante: estas marcas são destinadas a curar; mais precisamente, coincidentemente elas estão localizadas exatamente sobre pontos de acupuntura. Em número de uma quinzena, a maior parte destes pontos é destinada a curar a dor nas costas, tão conhecida nos nossos dias. Alguns outros permitem aliviar as dores intestinais. Acreditava-se que eram os chineses que haviam inventado esta terapia tradicional, cujas primeiras manifestações (entre os chineses) estão datadas em torno de mil anos mais tarde, dois mil anos antes da cristã... Eis o que poderia nos fazer pensar que os celtas teriam chegado à Ásia e teriam deixado alguns traços do seu eminente saber.

O homem será chamado de Otzi, o homem do gelo. Ele ainda faria com que falassem dele, pois se pretende que uma maldição semelhante àquela dos faraós está ligada a ele. As provas seriam as inúmeras mortes de pessoas ligadas à descoberta do seu corpo.

¹Nota do tradutor: professor Girassol é um cientista atrapalhado, personagem secundário nas histórias em quadrinho de Tintin, do genial artista belga Hergé.

²As palavras em português não constam do texto original. Foram acrescentadas pelo tradutor.

Artigo de Pierre-Émile Blairon, originalmente publicado na revista Hyperborée (www.hyperboreemagazine.fr), número duplo (10 e 11), do outono (europeu) de 2010, traduzido por Alexandre de Oliveira Villacian. Hyperborée é uma revista francesa destinada a divulgar a Sabedoria Hiperbórea e as fontes originais da cultura européia.

domingo, 20 de março de 2011

A Independência do Masculino

"O fato de que ao pensar no homem se destaque primeiramente seu afã pela mulher, revela, sem mais, que nessa época predominam os valores da feminilidade. Somente quando a mulher é o que mais se estima e encanta tem sentido apreciar ao varão pelo serviço e culto que a ela renda. Não há sintoma mais evidente de que o masculino, como tal, é preterido e desestimado. Porque assim como a mulher não pode em nenhum caso ser definida sem referi-la ao varão, tem este o privilégio de que a maior e melhor porção de si mesmo é independente por completo de que a mulher exista ou não. Ciência, técnica, guerra, política, esporte, etc., são coisas que o homem se ocupa com o centro vital de sua pessoa, sem que a mulher tenha intervenção substantiva. [...] É uma realidade de primeira magnituda com que a natureza, inexorável em suas vontades, nos obriga a contar.

A veracidade, pois, me força a dizer que todas as épocas masculinas da história se caracterizam pela falta de interesse pela mulher. Esta fica relegada ao fundo da vida."
(José Ortega y Gasset)

sábado, 19 de março de 2011

Europa antes e agora

Lobo da Estepe

"Não se trata aqui do homem conhecido das escolas, da economia política ou da estatística, nem do homem que aos milhões anda pela rua e não tem mais importância do que a areia ou a espuma dos mares: pouco adiantam alguns milhões a mais ou a menos; são material e nada mais. Não, nós falamos aqui do homem no sentido elevado do termo, do largo caminho da encarnação humana, do homem verdadeiramente real, dos imortais. O génio não é tão raro como em geral nos parece, nem tão frequente como pretendem as histórias literárias, a história universal e até mesmo os jornais.(…) É tão estranho e entristecedor que homens de tais possibilidades surjam como lobos da estepe e com “duas almas, ai!” e que mostrem tamanha afeição cobarde ao burguês. Um homem capaz de compreender Buda, um homem que tem noção dos céus e dos abismos da natureza humana, não deveria viver num meio em que domina o senso comum, a democracia e a educação burguesa. Só por cobardia continua a viver nele, e quando as suas dimensões o oprimem, quando a estreita cela do burguês se torna demasiado apertada, ele atribui tudo isto ao ‘ ‘lobo” e não quer aperceber-se de que, às vezes, o lobo é a sua parte melhor. Tudo o que há de feroz dentro de si ele atribui-o ao lobo e tem-no por mau, perigoso, o terror dos burgueses; mas ele que, no entanto, crê-se um artista e supõe ter sensibilidade, não é capaz de ver que fora do lobo, atrás do lobo, vivem no seu interior muitas outras coisas: que nem tudo o que morde é lobo; que dentro de si habitam também a raposa, o dragão, o tigre, o macaco e a ave-do-paraíso, e que todo este mundo é um éden cheio de milhares de seres, formosos e terríveis, grandes e pequenos, fortes e delicados, mundo asfixiado e cercado pelo mito do lobo — tanto como o verdadeiro homem que nele há é asfixiado e preso apenas pela sua aparência de homem, pelo burguês."
(Hermann Hesse, O Lobo da Estepe)