sexta-feira, 30 de setembro de 2011

R. G. Fowler - Uma Mulher Contra o Tempo: Relembrando o Centenário de Savitri Devi

por R. G. Fowler


Savitri Devi foi uma filosofa, uma pensadora religiosa e uma ativista incansável em nome do Nacional Socialismo, do paganismo indo-europeu, vegetarianismo, proteção dos animais e ecologia. Ela também era inclinada para escritos de ficção e espionagem. Em 1958, com a publicação de sua obra máxima, The Lightning and the Sun, ela emergiu como uma das mais originais e influentes pensadoras nacional-socialistas do pós-guerra.

Nasceu como Maximine Portaz, em 30 de Setembro de 1905, em Lyons, França, às 08h45min da manhã. Faleceu logo após a meianoite, em 22 de Outubro de 1982, em Sible Hedingham, Essex, na Inglaterra. De ancestralidade inglesa, grega e italiana, descrevia sua nacionalidade como "Indo-Européia".

As circunstâncias do nascimento de Savitri Devi não eram auspiciosas. Ela nasceu prematura, dois meses e meio antes do previsto, tendo sido concebida na noite de 13 a 14 de Março de 1905. Sua vinda foi dificultosa; ela pesava somente 930 gramas. O doutor disse aos seus pais que ela poderia não viver; tinha, portanto, tudo para ser uma criança debilitada. Sua mãe, Julia Portaz (Nash) tinha quarenta anos e seu pai Maxim Portaz, quarenta e quatro. Temendo as dificuldades de uma nova gravidez, eles nunca mais fizeram amor. Chamaram sua criança de Maximine Julia Portaz. E então, esperaram por ela para que pudessem morrer.

Mas a Força Vital foi forte nela. Havia em si algo de grandioso. Savitri Devi logo cedo demonstrou ser dona de uma inteligência inigualável. Ainda quando criança, aprendera francês e inglês com seus pais, e então, por si só, estudou grego moderno e antigo. Com tempo, tornou-se fluente em oito idiomas (inglês, francês, grego moderno, italiano, alemão, islândico, hindi e bengali) e tinha conhecimento em outras vinte (por exemplo, grego antigo, urdo e outras línguas indianas).

Ela também era Mestre em Filosofia e Química e Ph.D. em Filosofia pela Universidade de Lyons. Seus dois primeiros livros foram suas dissertações de doutorado: Essai-critique sur Théophile Kaïris(Ensaio crítico em Teófilo Kaiiris) e La simplicité mathématique (A simplicidade matemática).

Savitri Devi também tinha um vasto conhecimento de religião e história, particularmente em história antiga, bem como uma memória incrível, especialmente para datas e nomes. Ela era também uma brilhante e memorável professora, a qual podia falar claramente sobre tópicos incontáveis, sem referências a notas.

Descrevendo-se como "nacionalista em cada nação" e pagã indo-européia nostálgica, ela abraçou o Nacional Socialismo em 1929, enquanto estava na Palestina. Em 1935, viajou para a Índia para experienciar o hinduismo como um último remanescente das religiões pagãs indo-européias tradicionais. Fixando-se eventualmente em Calcutta, lutou pelo movimento hindu nacionalista, o qual defendia sua tradição de ideologias universalistas e igualitárias como o cristianismo, islamismo, comunismo e a democracia liberal. Em 1939, casou-se com o brâmane bengali e publicitário Pró-Eixo Asit Krishna Mukherji. Durante a Segunda Guerra Mundial, ambos trabalharam como espiões para os japoneses.

Em 1935, enquanto estudava na Rabindranath Tagore’s Shantiniketan Ashram de Bangalore, como sugestão de alguns alunos ela adotou o nome Savitri Devi. "Savitri" é um dos nomes no sânscrito para sol, e "Devi" significa divindade. Foi um nome perfeito, visto que Savitri era uma devota daquilo que considerava como primordial na religião ariana: a adoração da vida e luz.

Enquanto estava na Índia, Savitri escreveu vários livros: em 1937, completou L’Etang aux lotus (O lago de Lótus), recordando suas primeiras impressões sobre a Índia. Este livro combina as vívidas travessias suas com reflexões sobre a cultura e tradição indiana. Seu próximo livro, A Warning to the Hindus (Um aviso aos hindus), é o seu manifesto do nacionalismo hindu. O hinduísmo é uma religião tolerante radicalmente pluralista e isso cegou seus adeptos para os perigos provindos das religiões bíblicas e seus ramos seculares: democracia liberal e comunismo. Savitri procura acordá-los para esse perigo, demonstrando a necessidade de se cultivar uma consciência nacional hindu unida, que não apenas protege, mas preserva a miríade da Índia e demonstra a necessidade de distinções. Ela também claramente acredita que nessa consciência nacional hindu, existe uma necessidade para a condição de independência indiana. A Warning to the Hindus foi traduzido em seis línguas indianas e ainda é impresso nos dias de hoje. Um terceiro livro, The Non-Hindu Indians and Indian Unity (Os indianos não-hindus e a unidade indiana), trabalha com a questão da integração de minorias não-hindus em uma nação hindu, ambas em luta pela independência da Índia. Argumenta-se pelos indianos muçulmanos, cristãos e outros não-hindus para reconhecer que antes de tudo eles são indianos e, portanto, produtos de uma cultura hindu, ainda que não professem a mesma religião.

Outro foco do seu interesse enquanto estava na Índia foi o adorador do sol, o antigo e herético faraó Akhenaton (Séc. 14 d.C.) o qual foi certamente uma das figuras mais enigmáticas e marcantes na história. Ele procurou substituir o politeísmo egípcio por uma religião monoteísta que honrava a Força Vital sob a imagem do disco solar que vertia seus raios de vida. E ainda que o monoteísmo de Akhenaton fosse tão intolerante quanto o monoteísmo bíblico que Savitri tanto desprezava, ela ficou fascinada pela vida e caráter de Akhenaton, fortemente atraída por sua religião em questões filosóficas, espirituais e estéticas. Certamente, acreditava que a religião de Akhenaton havia sido essencialmente idêntica à religião primordial ariana de vida e luz, e sugeriu que as reformas de Akhenaton haviam sido influenciadas pelos Mitani, um povo ariano que se situava na Babilônia superior. Ele mesmo era descendente desse povo, através de sua avó paterna Mutemwiya e talvez também através de sua avó materna Yuya. Também haviam outros Mitannis presentes na corte egípcia.

A primeira publicação de Savitri sobre Akhenaton foi um panfleto entitulado Akhnaton’s Eternal Message: A Scientific Religion 3,300 Years Old (A eterna mensagem de Akhenaton: uma religião científica há mais de 3.300 anos). Mais depois, seguiu-se por uma novela infantil, Joy of the Sun (Alegria do sol), ilustrado com seus próprios desenhos e pinturas, os quais eram crus e pareciam feitos por uma criança, mas bastante apropriados.

Sua maior obra sobre Akhenaton é A Son of God: The Life and Philosophy of Akhnaton, King of Egypt (Um filho de Deus: A vida e a filosofia de Akhenaton, rei do Egito). Originalmente publicado pela Sociedade Teosófica, o livro foi reeditado pela Ordem Rosacruz como Son of the Sun (Filho do sol). Savitri considerava ambas as organizações como subversivas, mas certamente estava grata por tê-los visto publicar seu livro. Son of the Sun só recentemente parou de ser reeditado, tendo sido traduzido para o francês, holandês e português.

E 60 anos após sua publicação, Son of the Sun é ainda um dos melhores livros sobre Akhenaton. É magnificamente bem escrito, com o olhar de novelista para detalhes concretos e coloridos. É rigorosamente pesquisado, conciliado com desenhos e uma literatura que é relevante o tempo todo. E o mais importante, é filosófico. Seus sobre os hinos ao sol de Akhenaton e outros escritos, a iconografia associada com seu culto, e os documentos contemporâneos como as cartas de Amarna, produzem a mais plausível e compreensível reconstrução da cosmovisão que Akhenaton já ofereceu.

Em 1948, ela publicou A Play (Um jogo), que se situa na destruição do culto de Akhenaton e a perseguição de seus seguidores após a sua morte. Trata-se de uma obra estratégica, disfarçada em alegorias, para expressar para aquilo que estava acontecendo na Alemanha em determinada época.

Savitri ficou devastada com a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Em Junho de 1945, próxima de Varkala na Costa Malabar, resolve suicidar-se, andando no oceano. No entanto, quando a água estava sobre os seus ombros, de repente a Força Vital tocou-lhe o coração. Tal como um raio, pensamentos vieram ao seu encontro. Um comando lhe era ditado: “Viva! Viva para abraçar as testemunhas da verdade. Viva para ver o dia da vingança, quando os vitoriosos de 1945 forem lançados em covas! Viva para dizer, ‘Eu estava certa!’”. Ela ilustra sua situação em uma carta a George Lincoln Rockwell datada de 28 de Agosto de 1965, "Eu caminhei para fora do mar pela causa desse possível prazer futuro, apenas por isso, e passei a viver sem esperança, somente pela vingança".

Desse dia em diante, ela embarcou sobre uma vida itinerante e ascética. Seus dois grandes chefes eram incansáveis testemunhas em nome do Nacional Socialismo; também davam abrigos a mendigos e animais, especialmente gatos.

Reverenciou a Alemanha nacional-socialista como a terra sagrada de todos os arianos. Mas Savitri não a viu em seus dias de glória. Sua primeira visita foi em 1948, encontrando-a em ruínas. Gold in the Furnace (Ouro nas fornalhas) é o um obscuro e poderoso relato de suas experiências na Alemanha ocupada em 1948 e 1949. Mas ela não considerava a destruição do Terceiro Reich como o fim do Nacional Socialismo, e sim uma purificação – como uma tentativa pelo fogo que poderia separar a base metal do ouro – como o prelúdio para um novo começo. Assim, seu livro também contém capítulos com fundos filosóficos e um programa positivo de política nacional-socialista. Em 1949 é presa pelas autoridades da Ocupação Britânica por distribuir cartazes de propaganda nacional-socialista. Ela descreve sua experiência em Defiance (Desafio). Em 1953, faz uma peregrinação aos lugares sagrados do Nacional Socialismo na Áustria e Alemanha, descrevendo-os em seu livro Pilgrimage (Peregrinação).

A grande obra de Savitri é The Lightning and the Sun (1958), a qual sintetiza o Nacional Socialismo, a teoria cíclica ariana de história com a reivindicação de Adolf Hitler como um avatar – uma encarnação humana – do deus hindu Vishnu, sustentador da ordem. De acordo com a tradição ariana, a história se move em ciclos, começando na Era Dourada da verdade e declinando para o ponto onde encontra a Era Obscura ou Kali Yuga, na qual o mal e a falsidade imperam. Nesse ponto, as forças da decadência expiram sua própria corrupção e uma nova Era Dourada ascende. De acordo com a tradição hindu, o presente Kali Yuga será terminado e a próxima Era Dourada inaugurará o décimo avatar de Vishnu, Kalki – o vingador – que é retratado como um guerreiro em um cavalo branco. Quando a estrela de Hitler estava se elevando, Savitri Devi e muitos indianos pensaram que ele era Kalki. Mas, com sua derrota, ela concluiu que Hitler não era o décimo avatar, mas somente seu precursor, e que Kalki ainda virá.

Nesta obra ela faz a distinção entre três tipos de homem em termos de suas relações com sua trajetória histórica: Homens no Tempo, Homens além do Tempo e Homens contra o Tempo. Os primeiros são aqueles que seguem o tempo e contribuem para a sua tendência à desintegração. Os segundos, aqueles que tentam elevar-se para além da trajetória da história corrente e se separam da sujeira do mundo. Os terceiros, aqueles que lutam contra a degeneração e procuram restaurar a Era Dourada. Seu objetivo, é claro, não é impossível. Contudo, não podem voltar os ponteiros atrás. Homens contra o Tempo nascem guerreiros. Resistir à decadência é o seu dever, seu destino. Não importa se eles vençam. Mas mesmo se falham em tentar voltar os ponteiros, deverão acelerá-lo, ou seja, deverão acelerar a destruição da Era Obscura e ajudar a vinda de uma Era Dourada. O objetivo de The Lightning and the Sun é devotado à ilustração desses três tipos de homem através de três mini-biografias: Genghis Khan, como pragmático Homem no Tempo; Akhenaton, Homem além do Tempo; e Adolf Hitler, Homem contra o tempo.

Uma das muitas formas na qual The Lightning and the Sun é um livro extraordinário refere-se ao fato de ser absolutamente inacreditável e compelido ao mesmo tempo. Provavelmente ninguém que o tenha lido levou-o de forma literal. A própria Savitri Devi provavelmente não o faria. Mas sua visão era dotada de uma beleza poética e poder explanatório. The Lightning and the Sun traz o reinado de um mito. Pessoalmente, acredito que seu objetivo foi criar os fundamentos do mito de uma nova religião. Ela era fascinada por Paulo de Tarso, o qual fundou uma religião por ter falhado como revolucionário político, transformando-se em uma encarnação de deus que havia vindo para salvar o mundo. E em menos de três séculos, a religião que Paulo criou triunfou sobre o Império Romano. Savitri também se considerava uma frustrada revolucionária política e transformou-o em uma encarnação de deus que viria para salvar o mundo. Ela acreditou assim fundar uma religião que poderia servir como veículo para o ultimato triunfante de seus ideais.

Ela também foi apaixonadamente uma defensora do vegetarianismo, da proteção animal e ecologia. Ela concentrou suas visões sobre esses pontos em Impeachment of Man (Denúncia do homem). Em 1970, muito antes de PETA e Animal Liberation Front, uma anciã e extravagante Savitri Devi, junto de seu servo indiano, derrubaram a lei que liberava gatos e cachorros destinados a experimentos médicos no Instituto Indiano de Ciências Médicas, de Nova Delhi. Seu outro livro sobre animais é Long-Whiskers and the Two-Legged Goddess (Longos bigodes e a deusa bípede) Trata-se de uma autobiografia fictícia, tendo como foco a relação com seus gatos favoritos. Caracteriza-se como o mais bem escrito e excêntrico livro de Savitri.

Seus outros escritos incluem Souvenirs et réflexions d’une Aryenne (Memórias e reflexões de uma ariana), que vem a ser a mais compreensível apresentação de sua filosofia; e And Time Rolls On: The Savitri Devi Interviews (E o tempo avança: as entrevistas de Savitri Devi), com transcrições editadas de dez horas de entrevistas dadas em Nova Delhi, em 1978, trazendo uma breve introdução à vida e ao pensamento de Savitri.

Seu aniversário de 100 anos será honrado hoje. Contudo, sê-lo-á de modo quieto. Poucos de seus amigos sobreviventes irão chamar uns aos outros e relembrá-la; aqueles cujas vidas ela tocou e se espalhou pelo mundo. Eles não podem dobrar-se juntos para elevar uma torrada, então irão elevá-las sozinhos. Na Alemanha, a Editora Verlag está publicando um número especial da revista Junges Forum em sua honra. Eles também estão publicando The Lotus Pond e Impeachment of Man traduzidos para o alemão. Na Inglaterra, a Editora Historical Review publicou uma nova edição de Gold in the Furnace. Nos Estados Unidos, a Black Sun Productions está disponibilizando And Time Rolls On: The Savitri Devi Interviews. Na Internet, eu próprio ouso pensar que pessoas de todo o mundo leram suas obras. E também espero que o meu site, o Arquivo de Savitri Devi logo esteja no ar, apesar da demora. Quando o estiver, cópias de And Times Rolls On estarão disponíveis à venda.

Como honrar Savitri hoje, se você carrega por ela uma inclinação especial? Em uma carta a um jovem americano, camarada seu, datada de 13 de Abril de 1975, ela discutia como celebrava a vinda do aniversário de Adolf Hitler:

“Esse é apenas um recado que envio para dizer-lhe como tenho pensado em você (e em todos os nossos camaradas e superiores, longe e perto) no grande aniversário que acontecerá na próxima semana. Será em um domingo esse ano, então - por sorte, não terei de ir ao meu trabalho triste; terei a chance de estar inteiramente sozinha e... Poder pensar. Eu me pergunto onde nosso Führer estaria agora - no tempo de uma semana - com 86 anos, se estivesse vivo. E me pergunto se nós, os poucos de seus discípulos em cujas vidas ele ocupa o primeiro lugar, somos tão numerosos e fervorosos quanto os primeiros cristãos em 86 d.C., o que é dizer, sob o Imperador Domitian. Houve uma perseguição espetacular aos cristãos em 64 d.C., sob o comando de Nero. Mas certamente alguém poderia rir explosivamente se ouvisse que "um dia" o desprezado e então perseguido secto iria ditar os dogmas seus a todo o Oeste e mesmo forçá-los para dentro de continentes desconhecidos e terras. Quem imaginaria a personalidade e o poder de Felipe II da Espanha em seus últimos dias? E quem poderia dizer agora, independente se haverá ou não, em 1500 anos, a possibilidade de que um poder ariano racialista por igual se eleve, um adorador de nosso Führer, o nosso equivalente de Felipe II? De certa forma, há algo de bom em pensar que nosso futuro, mesmo que já exista, seja tão bom quanto o passado - é totalmente imprescindível às mentes finitas”.

É bom que nós não possamos prever o futuro, porque isso nos fornece esperança. Então, honre Savitri Devi em seu aniversário de 100 anos, através do pensamento e da esperança.

Seu aniversário de 100 anos não será celebrado como de outros dois filósofos que também nasceram em 1905: Jean-Paul Sartre e Ayn Rand. Não haverá simpósios escolas internacionais, artigos em jornal, lembranças em camisetas ou canecas de café. Mas isso era de se esperar. Depois de tudo, ambos – um comunista, outro libertário individualista – estão unidos em sua oposição ao nacionalismo racial, exceto o judaico (Rand nasceu judeu; Sartre, por sua vez, gostaria de ter sido um). Em outras palavras, ambos foram Homens no Tempo. Suas filosofias são celebradas precisamente porque eles não enfrentaram as forças da decadência, mas não só defenderam-nas como as promoveram.

Em contraste, Savitri Devi foi uma Mulher contra o Tempo. Ela não encontrará fama nesta Era Obscura, mas na vindoura. Era Dourada.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Em direção a uma Frente Nacional Comunista? – entrevista com Alain Soral.


Há já alguns meses, este sociólogo e escritor de combate empenhou-se no combate político com a firme vontade de se exprimir livremente sobre os temas que leva a peito. Uma coisa é clara, Alain Soral não é consensual. O seu empenhamento pela Frente Nacional fez correr muita tinta e agitou o pequeno mundo da net. Mesmo sendo bastante cépticos sobre a vontade do partido de Jean Marie Le Pen em contribuir para o nascimento de uma alternativa credível ao sistema capitalista, quisemos oferecer-lhe a ocasião de apresentar as suas idéias e as suas propostas. Isto porque uma vez que para lá das polêmicas vãs, dos anátemas ideológicos e dos slogans ocos, queríamos dar-lhe a ocasião de expor claramente nas nossas colunas, as razões e os objectivos da sua adesão. Pensamos que as pessoas que nos lêem, terão o espírito suficientemente aberto e livre para elaborarem a sua própria opinião sobre a escolha sincera de um homem que queimou os seus barcos.

Rébellion : O seu percurso político é dos mais atípicos. Como é que se passa em alguns anos do PC à FN? Quais são as etapas por onde passou o seu empenhamento [político]?

Alain Soral : O meu percurso não é assim tão atípico quanto isso. É a história oficial que se encarniça em fazer crer que é o caso, quando sempre houve pessoas de esquerda que se encontraram no campo nacionalista; é uma longa tradição francesa inspirando-se em Proudhon, Sorel, no sindicalismo revolucionário. Como para eles, trata-se, para mim, de continuar fiel a uma luta de insubmissão e de resistência. E desde a altura em que o PC renunciou a ele mesmo para se tornar num auxiliar do PS liberal, a partir do momento em que abandonou a resistência à mundialização por um discurso pró sem-papeis, passei logicamente do PC a Chevènement, depois deste à FN, numa linha antiliberal e antimundialista. Basta debruçarmo-nos sobre os arquivos do INA para descobrir que o discurso de Marchais no fim dos anos 70, é o discurso da FN de hoje: «produzamos francês», «alto à imigração». As pessoas modestas aperceberam-se disso imediatamente, elas que passaram do voto PC ao voto FN a partir de meados dos anos 90.

Qual é a sua situação no seio da FN? Que impressão tem do interior do partido? Dos seus quadros como dos seus militantes?


Alain Soral: A de um conselheiro especial, exterior, uma vez que não ocupo nenhum lugar na FN, um companheiro de caminho que se empenhou na altura da campanha presidencial. Quanto às minhas impressões, elas são diversas e mitigadas. A FN parece-se com aquilo que é: uma reunião de desiludidos de direita e de desiludidos de esquerda. É, pois, difícil de lá encontrar uma linha política clara e única, uma coerência doutrinal para a qual o trabalho [de elaboração] nunca foi efectuado, uma vez que se tratava de uma estratégia de ajuntamento. Um cálculo que foi ganhador durante anos, mas que a FN acabou por pagar aquando da campanha de Sarkozy. É preciso compreender que para além dos marginais e de alguns extremistas, há essencialmente dois tipos de eleitores na FN, pequenos burgueses liberais e assalariados antiliberais. A questão crucial é, pois, a de saber o que se entende por liberalismo. Um trabalho que se reenvia à questão do populismo, desse liberalismo anti neoliberal que analisa muito bem Michea, sociólogo também ele surgido da esquerda e que poderia ser o pensador da FN de amanhã se não tivesse medo de se “queimar” no meio universitário! Nas últimas presidenciais constata-se que são globalmente os desiludidos da direita – ou seja, o eleitorado médio e pequeno burguês – que votou Sarkozy, e que é o eleitorado popular, mais à esquerda, que permaneceu fiel. Na era Sarkozy, a saúde desse movimento patriótico e popular passa, pois, necessariamente por uma forte ancoragem à esquerda – no sentido de esquerda econômica e social. Uma visão que infelizmente não partilham os paladinos da união das direitas, uma corrente dominante no seio do aparelho actual da FN, mas minoritário no seu eleitorado, uma vez que é constituído por sobreviventes das antigas elites sucessivamente relegadas e tornadas obsoletas pela evolução do liberalismo mercantilista…

Entre os detritos da velha Extrema Direita (nostálgicos de Vichy e da Argélia Francesa) e a nova geração modernista de quadros sem linha precisa, pensa ter os meios para influenciar a linha política da FN? Não se arrisca a ser absorvido pela força da inércia de um movimento coagulado no seu discurso bem como na sua organização?

Alain Soral: Como bom marxista responder-lhe-ei que a única resposta é a acção. Cepticismo e fatalismo são posturas de direita, e enquanto homem de esquerda, não vejo outra solução que não seja tentar a aventura. É evidentemente arriscado. Mas face à realidade das forças em presença, não vejo outra possibilidade a tentar a não ser esta experiência heróica.

Como explica a evolução de pessoas surgidas dos movimentos contestatários, como Dieudonné, em direcção ao que os jornalistas do sistema qualificam de «esquerdo-lepenismo»? Existe um embrião de «Esquerda Nacional» no seio ou na margem da FN?

Alain Soral: A evolução de Dieudonné ancora-se nas suas posições em relação à Palestina. Por um percurso de sofrimento, de perseguições, ele descobriu a verdadeira clivagem esquerda – direita actual, que passa sistematicamente pela adesão ou pela recusa da dominação atlântico-sionista. Podemos verificá-lo plenamente hoje em dia pela governação Sarkozy que, a coberto de uma abertura à esquerda, está na realidade prestes a operar a união sagrada dos atlântico-sionistas franceses. De facto, é de direita, hoje, quem quer que seja que adira a essa linha ou participe nessa dominação, é de esquerda quem se lhe opõe. Essa descoberta, para Dieudonné, passou pela experiência, pela prática, e todas as pessoas de esquerda, das quais faço parte,que viveram essa experiência e da qual retiraram as conclusões que se impõem, encontram-se de facto nessa esfera esquerdo-lepenista. Quanto, a saber, se o futuro dessa tendência de esquerda nacional antiliberal antimundialista se situa na FN ou à margem da FN, isso dependerá da vontade da direcção da FN em se situar na vanguarda ou na rectaguarda da História!


No momento em que se fala tanto de Identidade Nacional, qual é a sua concepção deste termo tão vaporoso?

Alain Soral: Uma concepção à francesa que não é nem a germânica (racialista) nem a anglo-saxônica (comunitarista) e que mistura subtilmente direito do sangue e direito do solo no conceito de assimilação, projecto hoje em dia depreciado à vez pela esquerda integracionista – na realidade comunitarista – e a extrema direita racialista, também ela comunitarista, mas sob uma forma mais belicosa que fatalista. Comunitarismo de esquerda ou de direita, muito anti-francês – mesmo quando se julga patriota – que demonstra que o modelo que está em vias de nos ser imposto é o modelo anglo-saxão. Supremacia verificada, mais uma vez, pela governação Sarkozy que adiciona nas suas escolhas: submissão à dominação atlântico-sionista e clientelismo comunitarista. Tendo em conta a mentalidade francesa, a história da França e o seu passado colonial, parece-me, todavia, que o nosso modelo assimilacionista continua a ser o melhor para nós, e constato que é ainda a FN que melhor o defende. Constato também que a mídia mente sobre esta realidade assimilando sistemática, e voluntariamente, a preferência nacional à preferência racial para desqualificar a FN, e isto desprezando as bases fundamentais deste movimento, encarnados desde a sua fundação pela presença de um Roger Holeindre. Uma reductio ad hitlerum praticada sistematicamente pelo sistema, e difundida pela estupidez esquerdista, a fim de fazer passar um movimento patriota por um movimento colabo, quando os verdadeiros colabos são todos esses agentes coligados do Império, de de Villiers a Besancenot.

Que pensa do comunitarismo? Que modelo podemos opor a esse sistema americanizado, de controle das populações?

Alain Soral: Como devem estar a pensar, o pior possível; com o comunitarismo não se obtêm a paz das comunidades, mas a rivalidade victimária, a culpabilização sistemática do cidadão médio que, ele sim, joga o jogo da República una e indivisível. Quanto à solução, é sem dúvida o modelo assimilacionista francês que deu bons resultados até à aparição do reagrupamento familiar, época aquela em que o Estado Francês decidiu ele mesmo destruir a França aumentando massivamente a imigração não cristã e não europeia, destruindo um processo de assimilação que se tornava contudo cada vez mais necessário…

Navegando entre nacional liberalismo e paternalismo social, a linha da FN sobre estes assuntos é das mais obscuras. O discurso social e econômico da FN evoluiu desde a época em que Jean Marie Le Pen se proclamava o «Reagan Francês»? Como é que sendo marxista, como é, se pode reconhecer nestas questões cruciais?

Alain Soral: O discurso da FN, que partiu de um liberalismo declarativo e abstracto – digamos Tocquevilleano – ignorando tudo das evoluções e mutações do liberalismo real, começou, nestes últimos tempos, a enquadrar melhor o problema, a diferenciar, desde logo, liberdade de empreendimento e neoliberalismo mundializado – que é o seu oposto exacto. Tal foi visível no esforço de produzir um programa económico coerente aquando das últimas presidenciais. A posição actual da FN, embora não esteja ainda plenamente expressa, é a do populismo económico, tal como o define Michéa, ou seja a aliança dos pequenos produtores com os pequenos assalariados – vítimas do mesmo predador euro mundialista – sob o governo de um Estado Colbertista adepto do Plano e da economia mista. Infelizmente, aquando destas últimas eleições,os pequenos produtores deixaram-se seduzir pelo discurso hábil e mentiroso de um Sarkozy que não pode deixar de traí-los, ele que é o homem da grande finança mundializada. Este projecto de união sagrada entre camadas populares e classe média, está pois por realizar-se. E a tarefa da FN será, por uma critica da governação de Sarkozy e um grande trabalho doutrinal, ajudar a que coincidam interesse de classe e sensibilidade de classe na cabeça dos eleitores de direita onde perdura plenamente esta confusão entre liberdade e liberalismo…

Afirma-se que é o autor do «Discurso de Valmy» e auto designa-se também como «republicano»? Para si o que é a «República»?

Alain Soral: Digamos que sou o co-autor do discurso de Valmy, dado que em política tudo é colectivo. Um discurso símbolo cujo objectivo era insuflar uma linha nacional republicana a esta campanha! Quando se conhece a história da França e se compreende a origem sempre histórica das idéias políticas, somos obrigados a concluir que os dois termos Nação e República, no nosso País, são indissociáveis. Na França, fala-se sempre em República francesa, desse modelo que inventámos e que me permite precisar hoje em dia, enquanto Francês,de que maneira sou nacionalista. Não somente sou um nacionalista francês, mas pretendo que na realidade política francesa tal como ela é,só este objectivo é eleitoralmente atingível. O resto, o regresso à Cidade dos Gregos, à idade de ouro do Cristianismo medieval ou dos Hiperbóreos…é poesia.

Participou numa viagem de apoio à resistência libanesa nos dias que se seguiram à agressão israelita do verão de 2006. Qual é a sua opinião sobre a legitimidade da política belicosa israelita e sobre o apoio que ela recebe da parte dos estados Unidos?

Alain Soral: A opinião que deve ter toda a testemunha e todo o intelectual honesto: a condenação total de uma agressão injustificável e contrária a todas as regras de direito internacional. Um testemunho e uma opinião conforme aos «direitos do homem» e contudo muito difícil de fazer passar nos medias franceses, nos quais a linha se pode resumir à declaração nada menos que lapidar de Sarkozy sobre o assunto:«Israel tem direito à sua segurança». Quem quer que seja que tenha um pouco de perspectiva de recuo sobre os acontecimentos vê, todavia, que assistimos ao desenrolar, implacável e sistemático, do projecto de re-desmembramento do Médio oriente. Um projecto belicoso e delirante querido pelos neoconservadores americanos que dominam actualmente o Congresso nessa coalizão, dita, de cristãos -sionistas. Um projecto que põe Israel no centro do mundo e que explica à vez a agressão do Líbano, a destruição do Iraque e a criminalização mediática do Irã…

No momento em que novas convergências se operam entre os opositores à mundialização e ao sistema capitalista sobre o conjunto do planeta, que forma poderia ter em França uma real alternativa popular e socialista?


Alain Soral: Isso poderia fazer-se em torno de um movimento que realizasse a união sagrada dos antimundialistas. Uma espécie de chavismo à francesa no qual se reconheceriam tanto nacionalistas de origem reaccionária como progressistas ideologicamente próximos do Partido dos Trabalhadores. Uma grande união sagrada antiliberal patriota e popular, socialmente de esquerda e socialitariamente de direita – ou seja exactamente o contrário do actual sistema liberal-libertário -, saudando o trabalho político de Chavez, mas também o de Putin… Pois quem pretender resistir ao Império deve saudar a determinação destes dois líderes, sob pena de ficar nessa incoerência de rapazinhos que desqualifica a LCR.Lembremos que esse tipo de união sagrada já foi tentado em França no passado pela aproximação Sorel/Maurras, na época do círculo Proudhon, e que a essa tentativa de união sagrada antiburguesa, a burguesia, desde logo, respondeu com outra união sagrada bem menos respeitável: a da guerra de 14 contra os malvados boches… Com a eleição de Sarkozy, a propaganda incessante contra a ameaça terrorista islamita e a criminalização do Irão, receio bem que o sistema tenha em mente o mesmo gênero de solução abjecta, mas desta vez com os bougnoules [termo pejorativo para os magrebinos já nascidos em França e ou aí residentes] no lugar dos boches!Quem viver verá.

Fonte: Revista Rébellion, Nº 25 – Julho/Agosto 2007

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Pequeno Léxico do Militante Europeu

por Centro de Estudos Euroasiáticos


1 – AMERICANISMO

Forma dominante da desculturação ocidental, encarnada em seu principal centro irradiador:a sociedade – nação dos Estados Unidos.  O Americanismo constitui aquilo que de mais ocidental existe na cultura de massas da civilização assim denominada, pelo fato da posição central dos Estado Unidos enquanto sociedade mercantil, enquanto representantes privilegiados do igualitarismo, do biblismo e, finalmente, enquanto potência exportadora de alguns hábitos que podemos qualificar como neo-primitivos. O Americanismo não significa modernidade, entendida como futurismo. Entre seus numerosos elementos constitutivos, podemos destacar: o domínio lingüístico anglo-americano, a difusão homogeneizante, moda, etc. – de origem e, sobretudo, de “estilo” americano (americanomorfos mais que americanos) – ; o alinhamento dos sistemas educativos, as técnicas de meios de imprensa, de gestão e de comunicação, assim como do imaginário e dos mitos sociais sobre a sociedade americana. A progressão do Americanismo realiza-se, sobretudo, mediante um sistema no qual entram as modas culturais e o consumo de produtos ou a adoção de hábitos unidos à essas modas (complexo econômico-cultural). A crítica da americanização das culturas  americanização que implica para os povos a perda de sua independência econômica e política – é um vetor ideológico particularmente frutífero – um dos temas sobre o qual podem atuar uma Nova Direita ou uma Nova Esquerda.

2 – ARISTOCRACIA 

Governo de um povo exercido pelos seus melhores elementos, ou categoria de um povo – que de modo algum deve-se confundir com uma classe econômica – que manifesta, no mais alto grau, as qualidades éticas, espirituais, antropológicas, psicológicas e intelectuais, próprias desse povo; a Aristocracia é, de fato, a essência de um povo.

Toda sociedade possui uma Elite. A Elite só designa aqueles que estão em posição dominante, sem fazer referência aos valores – ou fazendo referência a valores que para nós são negativos. Assim, hoje, os critérios de seleção das elites estão determinados por valores do Burguesismo – interesse, posição econômica, poder financeiro, capacidades demagógicas – ou da tecnocracia – saber puramente técnico, manipulação dos aparatos institucionais. Inversamente, os valores aristocráticos que, por outra parte, integram o saber técnico e as hierarquias econômicas, insistem, antes de tudo, sobre o caráter, a exemplaridade e o mando entendido como serviço. A Aristocracia não é uma “nobreza” em forma de casta, senão que é parte integrante da comunidade popular que a anima e inspira, suas obrigações são a medida de seus privilégios. A civilização igualitária não matou as aristocracias, elas são virtuais, já que um povo as cria biologicamente. À nós corresponde criar as condições para a realização desse potencial. Nossa comunidade deve constituir, por si mesma, o embrião de uma futura Aristocracia popular. Daqui as grandes exigências que devemos impor à nós mesmos. Há que se ter em conta que o maior risco que corre toda Aristocracia é o de degenerar em casta nobiliária. Isso tem ocorrido freqüentemente no curso da História (República Romana e Ancient Regime agonizante, por exemplo).

3 – AUTARQUIA

Regime econômico no qual os intercâmbios de um espaço econômico com o exterior estão limitados, sobretudo a importação, de forma que lhe confira uma independência política e permita proteger o desenvolvimento da Indústria própria. Sabiamente regulada, a Autarquia tem sido praticada por todas as potências industriais nascentes, sobretudo sob a forma de Autarquia setorial, necessária para promover o impulso de um setor industrial preciso. Hoje, ante o completo fracasso do Liberalismo Econômico e do Sistema Monetário Internacional, cada vez maior número de economistas, com os quais estamos plenamente de acordo, preconizam a construção de regiões econômicas de desenvolvimento autocentrado ou, o que é o mesmo, “Autarquia de Expansão”, organizada sobre grandes espaços politica e culturalmente homogêneos; essa é uma resposta à desculturação e à crise econômica do sistema ocidental. Alguns sub-continentes do Terceiro Mundo, assim como a Europa, poderiam adotar esse sistema, por outra parte cada vez mais compatível com o estado atual das técnicas energéticas (energias auto-produzidas, renováveis); por outra parte, está demonstrado que só a solução de desenvolvimento auto-centrado poderia combater o colonialismo da economia de livre comércio. A Autarquia de Expansão é um instrumento privilegiado na construção de um equilíbrio dos grandes blocos geopolíticos. É a única forma de questionar, seriamente, o domínio atual do mundo criado em Yalta pelas superpotências e variado pelos recentes acontecimentos à raiz da queda do bloco do leste.

4 – BEM-ESTAR

Versão laicizada, pelas ideologias ocidentais, do ideal cristão de beatitude, entendido como felicidade passiva; o Bem-estar é uma das finalidades principais da sociedade mercantil. Descansa sobre a definição universalista das necessidades econômicas e sociais que seriam comuns à todos os humanos. Ainda como legítimo, como fim secundário do político, o “Bem-estar econômico individual” converteu-se, dentro de uma perspectiva reducionista, na finalidade central dos “Estados Providência” contemporâneos, em detrimento das dimensões históricas, políticas e culturais da vida dos povos. Contribui para domesticar tais povos no consumismo e transformá-los, conforme as doutrinas do progresso e do desenvolvimento, em massas de indivíduos-consumidores cuja única aspiração deve ser a satisfação de necessidades materiais definidas a priori e apresentadas como direitos (os direitos humanos). Há que se considerar seriamente se o Bem-estar, à causa de sua indiferença mortal, não é o maior perigo que ameaça aos povos, ao incitar-lhes a renúncia de seus papéis históricos; o Bem-estar é o “perigo suíço”.

5 – BIOLOGIA

Conjunto de ciências da vida e de seus mecanismos microcelulares de transmissão da informação e da evolução. A Biologia vem contradizendo muitos dos axiomas da concepção de mundo igualitária. A Biologia tem corroborado a idéia intuitiva que as cosmogonias indo-europeias tinham da vida (vitalismo trágico contraposto às concepções surgidas do judaico-cristianismo). A vida é conflito já que a seleção intra e inter específica funda o Devir das espécies assim como o destino dos potenciais genéticos; a vida é hierarquizante, tendente à complexidade (neguentrópica) inversamente à convergência entrópica – retorno ao caos – que caracteriza a matéria inanimada em constante perda de energia, justo o contrário da teleonomia judaico-cristã. A vida é evolutiva segundo um esquema não-linear; seus fenômenos estão marcados pelo aleatório, pelo esquema desafio/resposta e pela polaridade herança/mutação que corresponde ao binômio tradição/inovação, quer dizer, conservação seletiva de informações e tentativa de introduzir novas informações. Resumindo, a visão da natureza aleatória, não racional, evolutiva e ao mesmo tempo esférica (esfera em expansão) e não linear/segmentária, corrobora a tradição indo-europeia do devir.

Ademais, a Biologia pode, não obstante, ser associada à Sociologia e à História, assim como às ciências Políticas e Econômicas, o que, por outra parte, rechaçam sempre as ideologias dominantes, excessivamente mecanicistas. Com efeito, a evolução das culturas, assim como o funcionamento das sociedades ou o desenvolvimento da história, seguem processos metabólicos (ver Orgânico e Cultura). É por isso que devemos integrar a Biologia adotando uma percepção globalizante (holística) do feito humano na análise social e política (bio-política). Por exemplo, a sociedade mercantil pode ser denunciada como uma patologia da domesticação biológica, e a civilização ocidental como uma patologia da homogeneização biológica da humanidade. A divergência cultural pode ser descrita como um imperativo biológico (um fato biocultural). A vontade de incluir a dimensão biológica em nossas análises dos fenômenos e nossa visão de mundo, acompanha-se, evidentemente, de um claro rechaço à todo reducionismo biológico.

6 – BURGUESISMO

Mentalidade característica da burguesia, estendida ao conjunto da sociedade moderna independentemente das classes sociais. O Burguesismo desenha os traços (desde nosso ponto de vista negativos) do espírito burguês, desde o momento em que se fazem universais, sem vincular-se àqueles outros traços positivos da “burguesia empreendedora”; que se opõe tanto ao espírito popular quanto ao aristocrático, domina a sociedade mercantil e a civilização ocidental; é a moral do interesse, a busca individualista de bem-estar imediato , redução da linhagem à herança material, espírito de cálculo, concepção da existência como negócio, preservação parcimoniosa da vida, rechaço ao risco e ao azar, espírito empreendedor limitado unicamente ao acúmulo de riquezas, desejo de segurança, tendências cosmopolitas, indiferença à respeito dos vínculos e enraizamentos e à solidariedade com seu próprio povo, desvinculação à respeito de todo sentimento religioso de natureza coletiva, completa ignorância do sagrado. O Burguesismo caracteriza, hoje – mais além das etiquetas de “direita” e “esquerda” – ,a maior parte da sociedade do oeste europeu. 

7 – CRISTIANISMO

Produto da concepção do mundo judaico-cristã. O Cristianismo, sob suas diferentes formas, é uma religião que se tem laicizado, em primeiro lugar, em ideologias e, posteriormente, em comportamentos sociais antes de retornar hoje à sua matriz judaico-cristã e atuar sob forma secular. O Cristianismo religioso já não é mais dominante. Por outra parte, em razão de seu dualismo original (criador separado das criaturas e desprezo do real e da natureza), o Cristianismo era uma expressão imperfeita do sagrado e portava o germe do niilismo e do ateísmo. O Cristianismo que se expressou historicamente na Europa, na fé popular, na Teologia e nas Artes, não era “cristão” mas sim o resultado da mistura com o Paganismo. Paradoxalmente, é, este último, o o responsável por aquilo que há de “mais religioso” na expressão mística ou cultural da fé. O Catolicismo, sobretudo em seus ritos, em seu panteão, em sua arte, em sua ideologia social – por exemplo na Europa Medieval – expressa mais um psiquismo pagão que cristão. A Europa, nesse sentido, só foi cristianizada tardiamente, sobretudo no momento da Reforma e Contra-Reforma (séculos XVI e XVII) e após a laicização do Cristianismo em moral evangélica secular dentro das ideologias igualitárias. Atualmente em decadência como ritual ortopráxico e sistema de crenças, o Cristianismo distingui-se pouco do judaico-cristianismo. Cristãos, liberais, marxistas e outros herdeiros da Mofra cristã (nota: espécie de movimento espírita cristão) se reagrupam ao redor do evangelho laico da filosofia dos direitos humanos, expressão sintética da ideologia ocidental e legitimação do individualismo mercantil, para designar o inimigo comum: o renascimento pagão no mundo moderno. 

8 – CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL 

Civilização mundial fundada sob a desculturação de todos os povos e a eliminação da noção de comunidade popular (etnocídio), que aspira estabelecer um modo de vida e uma ideologia planetária, universalizando o modelo de sociedade mercantil ocidental, de seu igualitarismo, de seu reducionismo economicista e da filosofia dos direitos humanos e do homem. Em outros tempos prolongação natural da Europa; a Civilização Ocidental volta-se contra si mesma e pode ser-lhe funesta. Convertida em sistema, tem seu centro impulsionador nos Estados Unidos, substituídos, cada vez mais, por outros países industriais que veiculam o Americanismo (ou outra cultura “americanomorfa”) cultural e/ou econômico. Unida ao desenvolvimento de um mercado mundial é igualmente sustentada tanto pelos regimes liberais quanto pelos socialdemocratas, compatíveis com os estados providências e a social-estatização, inscreve-se no desenvolvimento de um novo capitalismo transnacional, tecnocrático e não-patrimonial. A oposição entre o leste e o oeste, entre o Ocidente e o sistema soviético, corresponde, parcialmente, à uma conivência geopolítica, um conflito-cooperação destinado a impedir a emergência das vontades nacionais e, sobretudo, da potência européia compreendida como uma ameaça contra os blocos. Fator de fim da História, a Civilização Ocidental deve deixar de ser defendida pelas consciências européias evoluídas. Deve, inclusive, aparecer como principal obstáculo para tomada de consciência que deverá permitir aos povos europeus reencontrar sua identidade e assumir seu destino. 

9 – COMUNIDADE

Grupo humano cujos veículos internos, de caráter global e humano, estão estruturados pelo sentimento de uma pertinência comum, de uma herança e de um desejo de vida coletiva por oposição aos vínculos contratuais, individuais e interessados que regem a “sociedade”. A Comunidade é etologicamente o modo de agrupamento humano mais natural e também aquele que permite, da melhor forma possível, a expressão de uma cultura. Por ser homogênea, sobre o plano etno-cultural, a comunidade preexiste à suas próprias formas de organização, ao contrário da sociedade, mas não existe jamais em estado puro e, por isso mesmo, inclui relações societárias. Fala-se, pois, de um modelo (e não de uma utopia) de comunidade. Esse modelo, que pode ir da nação (comunidade do povo) à família, passando pela confraria (comunidade de fé), o exército (comunidade de combate), a empresa (comunidade de trabalho), opõe-se radicalmente aos modelos sociais das ideologias dominantes, marcados pelo individualismo e o igualitarismo unilaterais, próprios da doutrina do contrato social. No modelo comunitário as relações humanas são pluridimensionais e organizadas segundo uma estrutura holística, a comunidade é, por sua vez, afetiva, racional, hierarquizada, plurifuncional; possui uma história e um destino e não se limita ao presente. Seu Ser transcende as existências individuais e lhes dá um sentido. A noção de serviço comunitário, que as doutrinas de esquerda menos dogmáticas sempre exaltam, constitui uma resposta apropriada ao niilismo crescente da sociedade mercantil. 

10 – CONCEPÇÃO DO MUNDO

Conjunto de valores, idéias, ideais e interpretações do real, federadas e organizadas por um sentido, implícito ou explícito, afetivo ou intelectual, próprios de uma comunidade, de um povo, de um sistema ideológico ou religioso. Mais além do vocábulo de visão de mundo, que designa melhor o aspecto afetivo e intuitivo, a visão de mundo forma, desde nosso ponto de vista, a base das culturas e das formas de civilização. Como lugar onde atua o inconsciente coletivo, a Concepção do Mundo está diretamente influenciada pela Biologia e Antropologia do grupo que a possui e constitui, para nós, a verdadeira infra-estrutura das instituições, da política e da economia, etc, (e não o inverso como ocorre nos esquemas marxistas ou liberais onde é percebida apenas como uma superestrutura). Uma mesma Concepção do Mundo pode dar lugar à diferentes ideologias que podem se opor, mas que são a expressão do mesmo projeto histórico e social. A Concepção do Mundo permite, pois, fazer luz sobre o parentesco fundamental das ideologias ocidentais, cujas aparências antagônicas disfarçam os postulados comuns (ver Individualismo e Igualitarismo). Duas Concepções do Mundo parece-nos enfrentarem se em nosso mundo há dois mil anos: uma morfologicamente cristã, quer dizer, centrada nos ensinamentos do judaico-cristianismo, que deu origem a todas as ideologias igualitárias hoje dominantes; e a outra, de origem indo-europeia e de sensibilidade pagã, ainda quando política e historicamente censurada, expressou-se constantemente na cultura, na filosofia e na arte europeia. Com Nietzsche ela ascendeu à possuir uma formulação consciente. Nós somos hoje seus representantes, ainda quando não podemos pretender possuir seu monopólio já que ela está presente no inconsciente coletivo. Agora nosso papel é o de ser a “encarnação modelo” e extrair, dela, ideologias (que, eventualmente, poderão um dia oporem-se ou completarem-se) e formas de cultura. Neste fim de século a força e a sorte dessa Concepção do Mundo é sua adaptação à modernidade e ao espírito científico que, por outra parte, contribuiu poderosamente a forjar.

11 – CULTURA

Específica do humano, a Cultura, parte integrante da natureza fisiológica do homem, é a chave através da qual podemos interpretar o mundo liberados de todo comportamento programado (neotenia). Cada grupo, cada povo, tem construído, desse modo, uma Cultura específica em função de sua herança e de seu meio.

O homem está biologicamente programado para acrescentar a seus comportamentos inatos outros comportamentos culturais. A Cultura é, pois, assim como o potencial genético, susceptível de seleção e evolução. A História caracteriza precisamente o movimento evolutivo de uma Cultura. O termo Civilização designa o aspecto exterior, material, de uma Cultura, esta última refere-se, pois, tanto à linguagem quanto à artes e à ideologia cada vez mais complexa. A Humanidade tem, biologicamente, necessidade de Culturas diferentes e divergentes. Por outra parte, cada grupo étnico está adaptado, conformado, por e para sua própria Cultura, inclusive para caso ela evolua. Daqui, o perigo da aculturação (adoção do conjunto de uma cultura estrangeira), e a evidência do erro igualmente grave de opor Cultura (adquirida) e natureza biológica (inata); a biologia herdeira de um grupo e sua Cultura recebida, estão, efetivamente, em constante interação. As Culturas podem influenciar-se mutuamente continuando fieis à si mesmas. Mas fundindo-se numa mesma Cultura única, como hoje, a humanidade está ameaçada de regressão até o nível de um novo primitivismo, quer dizer, involução. Para nós, defender e promover uma Cultura europeia específica não é reivindicar algo “supérfluo” ou “ornamental”, mas sim, o contrário, é conservar o essencial de nossa identidade. Subtraído de sua própria Cultura, um homem não é o mesmo, pior ainda, perde uma parte de sua humanidade. É precisamente sobre o terreno do cultural onde se joga hoje o futuro dos povos da Europa. Essa é a razão pela qual temos decidido combater nesse campo de batalha.

12 – DEMOCRACIA

Modelo de organização política e social fundada sobre a representação igualitária e individual dos membros de uma população e sobre a definição de soberania como o serviço às necessidades das massas. As Democracias modernas, aparecidas no século XVIII sob o impulso da ideologia das Luzes e das doutrinas do Contrato Social, operam, por sua vez, uma secularização do individualismo igualitário próprio do judaico-cristianismo e uma aplicação sobre o conjunto da sociedade do modelo do homo economicus racional e calculador. Nesse sentido, atomizam as sociedades (ver a esse respeito os pontos correspondentes aos direitos do homem, sociedade mercantil e liberalismo). As Democracias atuais, cujo modelo é representado pelos Estados Unidos, não têm nada a ver com o modelo de Democracia original escandinavo, germânico, helênico ou romano, que estava fundado sobre a participação dos clãs (demoi) no poder. O democratismo atual estende-se à todas as esferas da sociedade, por exemplo: o feminismo, a “Democracia sexual” – que impõe à todos um dever higienista de orgasmo que é também um “direito universal” – , etc; são todos avatares da mentalidade democrática. Apesar de que o regime jurídico da Democracia seja um dos princípios universais do Direito Internacional atual – e à esse respeito, desculturador e etnocêntrico (ver Civilização Ocidental) – , a Democracia está hoje em crise: perde lugar para a Tecnocracia, perde sua legitimidade moral e não está isenta de totalitarismo. Essa é a razão pela qual o opor-se à Democracia Ocidental será percebido, cada vez menos, como uma cínica apologia à tiranias; é necessário realizar uma crítica da Democracia principalmente sob a forma de uma denúncia sobre a “opressão democrática” à Democracia Orgânica (oposta à Democracia individualista e massificante) que supõe e inclui o princípio de hierarquia funcional ; só poderá existir numa comunidade, um povo que haja reencontrado o sentido de seu destino histórico.

13 – DESINSTALAÇÃO

Capacidade – fundada sobre a curiosidade, o espírito de aventura e de conquista – de sair do próprio marco de vida, sendo, por sua vez, fiel à si mesmo e à sua própria herança. O espírito burguês é cosmopolita e, ao mesmo tempo, instalado, o espírito aristocrático, pelo contrário, é enraizado e desinstalado. Os negros da África estão, por sua vez, instalados e enraizados. A Desinstalação tem sido a marca fáustica das culturas históricas europeias. Conquistas, descobrimentos científicos, avanços técnicos sobre a natureza, grandes aventuras individuais e coletivas dos descobridores e conquistadores, procedem da desinstalação. Sem ela, o enraizamento converte-se em auto-marginação e fim da História ( o espírito do petenismo de Vichy – o retorno à “terra que não mente”, “somente a França” – muito influenciado por uma direita cristã e reacionária, é uma boa ilustração da ideologia da renúncia e do masoquismo culpabilizador justificado pelo enraizamento). Ver a respeito as epígrafes referentes à Enraizamento, Comunidade e Natureza, entre outros. Relacionados também com isso temos também Tripartição, Povo, Nação e Organicismo.

14 – ECONOMICISMO

Redução à economia das finalidades sociais e dos fins políticos, característica das ideologias ocidentais. O Economicismo, que em seus origens provem do liberalismo clássico (séculos XVII e XVIII), tem sido retomado por todas as doutrinas socialistas. Na óptica economicista, a história é explicada, antes de tudo, através do regime econômico considerado como infra-estrutura das civilizações. As funções sociais desaparecem em proveito das classes econômicas. Um “bom” sistema econômico deve entranhar o progresso em todos os demais âmbitos (ver Reducionismo).

Individualista, o Economicismo define o homem como homo economicus em busca da maximização calculada de seu bem-estar econômico. Verdadeiro monoteísmo da economia com acentos totalitários, o Economicismo é compatível, também, com uma economia estatizada (estatismo e social-estatismo), no qual o Estado onipresente converte-se em gestor da soberania em detrimento de suas outras funções (ver Soberania); assim como com as doutrinas liberais puras do “anti-Estado”, nas quais só subsiste uma sociedade reduzida ao papel de mero mercado. A Civilização Ocidental, igualmente à filosofia dos direitos do homem, nutre um projeto economicista visível na doutrina progressista do desenvolvimento. Mas como vemos hoje, o Economicismo não desenvolve uma “boa” economia nem o desenvolvimento desejado. A resposta ao Economicismo não é a anti-economia, mas sim a concepção funcional e orgânica da economia, considerada como um instrumento de poder e de prosperidade à serviço dos valores não econômicos, e não como uma finalidade em si mesma (ver Autarquia).

15 – IGUALITARISMO

Posição de princípio de tipo axiomático, característico de todas as ideologias ocidentais, herdada da moral judaico-cristã e considerada, hoje, como projeto de sociedade segundo a qual todos os homens seriam, por essência, iguais dentro de uma equivalência absoluta. O Igualitarismo é um derivado do igualitarismo cristão. O judaico-cristianismo planteia, de partida, a igualdade dos homens ante Deus, como iguais “são os grãos de areia insignificantes ante a lei divina”. Diferenças e pertinências são relegadas à classe de realidades provisionais, elementos efêmeros e depreciáveis. A partir dos séculos XVII e XVIII as doutrinas sociais vão secularizar essa igualdade teológica e converte-la em igualdade de direitos frente a um estado nivelador; a partir do século XIX se exigirá a igualdade dos resultados. O Igualitarismo social desemboca, hoje, no anonimato das sociedades de massas e legitima de fato as desigualdades econômicas. Como falsa justiça, o Igualitarismo contradiz, de fato, a igualdade de oportunidades, nivela e homogeniza o meio social, sem mudar absolutamente nada da natureza desigual da condição humana. A noção de igualdade, pelo contrário, parece-nos admissível, em plural, como valor situado sobre uma escala hierárquica de outros valores dependentes das circunstâncias. A eqüidade social não passa pelo igualitarismo, que nivela (endurece e robotiza) aos homens, senão pela organização de igualdades e desigualdades conformes com a realidade. Desse modo, no âmbito da educação, o estado deve assegurar uma real igualdade de oportunidades para permitir uma frutífera desigualdade dos resultados finais.

16 – ELITE

Categoria social “dirigente” no sentido mais amplo da palavra, sem prejulgar sua legitimidade. O Elitismo designa toda doutrina que reserva a uma Elite o monopólio de uma posse, de uma consumação, de uma produção, de uma situação, etc...

Elite e Elitismo são dois termos neutros. Todo grupo humano, seja qual for, está provisto de uma Elite e aplica, a qualquer nível – parcialmente ou não, conscientemente ou não, explicitamente ou não – , o Elitismo. O problema que se planteia é o da legitimação da Elite. A Etologia humana nos ensina que a hierarquização das sociedades gera uma Elite. As sociedades igualitárias aplicam o elitismo rechaçando-o sobre o plano teórico, daqui as esquizofrenias sociais. Por outra parte, influenciadas pelo economicismo liberal e marxista, reduzem as Elites às classes sócio econômicas (ver Burguesismo). A sociedade contemporânea manifesta, por outro lado, uma certa reticência à uma indispensável circulação das Elites, pelo fato não só desse economicismo, mas também de uma maior racionalização dos processos de seleção social. A democratização lentifica a promoção social, do mesmo modo que a cultura de massas resultante impede o recrutamento das elites populares virtuais. Nós nos pronunciamos por uma igualdade de oportunidades e uma meritocracia, e por um reagrupamento da Elite com a Aristocracia, uma Aristocracia popular, baseada na noção de deveres (e não de direitos) e, portanto, de serviço comunitário. As Elites atuais não nos parece que correspondam a uma hierarquia funcional desejável (ver Função).

17 – IMPÉRIO

Concepção de organização da política e da soberania conforme princípios orgânicos, conciliando, por sua vez, o poder unificante da função soberana e a diversidade vivente da sociedade, da cultura, da economia e do espaço. O Império transcende e garante as diversidades. O Império é, para nós, um mito a regenerar e a aplicar à Europa, pelos exemplos macedônico, romano e germânico, e à uma filosofia política e geopolítica. Agora bem, não desejamos fazer uma utopia reduzindo-a a uma descrição institucional ou a um programa. Nossa visão imperial comporta três eixos:

1 – O Império unifica ao redor da primeira função de toda sociedade equilibrada – a função soberana –, tudo aquilo que surge da essência do político e da consciência histórica, portanto, do destino. Por demais, preserva a diversidade de todas as outras funções institucionais, que não têm incidência direta nesses âmbitos. O Império federa, mas não homogeniza, ao contrário da nação. 

2 – Em segundo lugar, sua existência justifica-se pela busca do poder e da grandeza cultural e histórica, dos povos que reúne em sua comunidade política. Pelo contrário, aquilo que se deriva do bem-estar e do social é próprio das instituições dos povos mas não da função imperial.

3 – Em terceiro lugar, já que, por natureza, está aberto ao mundo – prestes a exercer um papel à medida de seu potencial, e não exclusivo das outras entidades políticas ou culturais – , o Império é universal mas não universalista, pois os povos que o constituem, pelo menos em nossa concepção, não têm vocação de estender-se à toda terra, nem territorial nem etnicamente. Nesse sentido, o Império não é republicano (no sentido francês ou americano) e distingui-se do sistema ocidental atual que, pelo contrário, inclui e homogeniza todos os povos. O Império, segundo nossa concepção, só inclui e só assume o destino daqueles que podem, histórica, étnica e culturalmente, dizer-se e sentir-se parte da mesma comunidade. Pensemos que tal sentimento está historicamente destinado a surgir na Europa … leste e oeste unidos e reunificados. Uma Europa (a atual) na qual as nações-estados, no sentido da ideologias dominantes, não nos parece legítima. Com efeito, à nossos olhos, só uma Europa imperial, estruturada sobre a trama das regiões étnicas, nos parece viável e, portanto, legítima. Historicamente, a noção de Império tem sempre tido como inimigo, por uma parte, o poder teocrático e o poder mercantil (ambos completamente cosmopolitas), e, por outra parte, o princípio do estado-nação, cuja lógica é fundamentalmente separatista, centralizadora, homogeneizante e redutora, e cujo espírito excessivamente “providencial” gera o chauvinismo mais ridículo. Essa idéia imperial queremos hoje assumi-la, dando-lhe o sentido de movimento definido por Moeller Van der Bruck.

18 – ENRAIZAMENTO

Como qualidades de homens e de grupos fieis à seus vínculos e heranças territoriais, culturais e históricas, o Enraizamento opõe-se ao cosmopolitismo da civilização ocidental. Este cosmopolitismo provem do universalismo cristão que desembocou historicamente sobre o reino conjunto do indivíduo e da massa, em detrimento de toda pertinência. Desde nosso ponto de vista, o dinamismo criador e as obras culturais de caráter mundial só podem estar enraizadas. Numa época em que o mundialismo arrasa com as especificidades, unindo-as em um sistema planetário, o Enraizamento constitui uma resposta global às patologias – sociais, econômicas, fisiológicas, culturais, etc. – de uma civilização mundial paralisada e enferma. Nos dias atuais é preciso desconfiar das recuperações do Enraizamento, como imobilismo de museu, como folclore ou como fim da história, operadas pelas ideologias ocidentais. A história europeia funda-se, efetivamente, sobre um mundo de Enraizamento que supõe conquista e Desinstalação. O Enraizamento, por outra parte, não deve considerar-se como algo próprio do passado, sua modernidade lhe é conferida, sobretudo, pelas novas tecnologias e pelos novos modelos econômicos que insistem sobre o desenvolvimento autocentrado e as autarquias territoriais. O Enraizamento é, pois, antes de tudo, Enraizamento em uma cultura. É uma noção dinâmica em relação direta com a necessidade de atualização de uma herança. 

19 – ETNOPLURALISMO 

Reconhecimento da diversidade étnica da espécie humana, da necessidade biológica e cultural de preservar grupos étnicos diferentes dando-lhes a cada um deles seu valor próprio e específico. Fundado sobre um ponto de vista anti-totalitário, anti-universalista e nominalista, o Etnopluralismo opõe-se à indiferenciação da civilização ocidental. Ao contrário de toda tradição monoteísta, supõe que não exista nenhum critério de comparação universal entre as culturas e os substratos antropológicos das populações e que a assimilação e a aculturação, em um modelo cultural homogêneo e único, constituem fatores de um etnocídio, prejudiciais tanto para os grupos como para a espécie inteira. O Etnopluralismo é a resposta tanto ao racismo de superioridade quanto ao racismo de assimilação. É a melhor resposta ao projeto de nivelamento mundial que protagoniza a sociedade mercantil.

20 – ETOLOGIA

Ciência comparativa dos comportamentos animais e humanos que integram sua dimensão biológica e a explica através da evolução (filogêneses). Fundada no começo do século por Jacob Von Uexchüll e representada entre outros por Konrad Lorenz e Y. Eibl-Ebelsfeldt, a Etologia veio para arruinar as concepções cristãs, igualitárias e ambientalistas da antropologia. Entre seus principais ensinamentos devemos destacar: o homem é um primata predador dotado de uma parte integramente animal e de uma capacidade de superação da mesma, dotado de uma pulsão agressiva, de um sentido territorial, de uma especialização hierárquica herdadas do mundo animal e mais desenvolvido ainda na espécie humana que no resto da espécie animal. Por outra parte, essas disposições são inatas e não adquiridas; o instinto está constituído por uma pulsão inata executada através de um indispensável programa de comportamento no qual a cultura é encarregada de fixar os esquemas (ver Homem).

Nossa concepção científica e moderna das “ciências humanas” nos leva a relacionar a Etologia com a política e a sociologia, diferente das tendências acadêmicas atuais, repletas de marxismo, que rechaçam toda reflexão verdadeiramente interdisciplinar.

21 – EUROPA

Terra sobre a qual habita nosso povo; a Europa é nossa pátria, quer dizer, nosso solo, o espaço de nosso Enraizamento, a entidade da qual fazemos um sujeito da História e a cultura que nós defendemos e perseguimos. Europa é o valor central de nossa concepção de mundo. Hoje, num mundo globalizado, a Europa pode tomar consciência de sua unidade; o cosmopolitismo ocidental, assim como a evolução atual do Cristianismo, liberam-na do “ocidente cristão” e a permitem reconhecer-se em uma cultura indo europeia comum, sua memória fundadora mais profunda. As divisões políticas e econômicas da Europa não são um impedimento, mas sim uma dificuldade, uma ameaça e um desafio que é preciso utilizar para essa tomada de consciência e identidade. Uma regeneração, uma “nova fundação” da Europa como acontecimento histórico começa pela definição de uma concepção de mundo comum, coisa na qual nos achamos empenhados mais além do que toda empresa política (ver Metapolítica). A Europa tem, hoje, um interesse comum com os povos do Sul pertencentes também à civilização ocidental. O inimigo da Europa é o sistema que realiza seu jogo (o jogo dos EUA), colonizando-a e dividindo-a para debilitar o poder que a constitui virtualmente. Toda empresa que permita a constituição da Europa num bloco auto-centrado tem nosso favor. Nesse sentido, formulamos quatro proposições susceptíveis de guiar uma reflexão sobre o problema europeu:

1 – O estado-nação mata toda evolução até uma unidade europeia de tipo imperial. Não se pode construir nossa unidade senão opondo-se, de forma clara e radical, à estruturas liberal-jacobinas. O estado-nação favorece nossa divisão e, portanto, nossa posição de inferioridade. Frente à superpotência é indispensável realizar nossa unidade, garantia de nossa independência.

2 – A Europa será imperial ou não será. O Império é a forma e a essência de nosso devir histórico. Esse conceito é por sua vez espiritual e orgânico. Assegura a necessária coesão para nossa defesa; representa uma frente unida em nossas relações internacionais. Como conceito orgânico, o Império respeita as identidades nas quais se compõe a Europa, simbolizando sua especificidade universal.

3 – O Império é um composto de “regiões étnicas” que, em seu nível, são elementos essenciais de sua existência. Nessa óptica, os “jovens nacionalismos” europeus são movimentos positivos, já que dão à cada povo da Europa o sentido de seu Enraizamento, de suas raízes culturais. Essas lutas, tal como são levadas à cabo por irlandeses, vascos, corsos, bretões, croatas, etc, são tentativas históricas de destruição dos tecidos do sistema ocidental. Conjugados com uma ideologia imperial europeia são as vanguardas de nossa unidade. 

4 – O Império europeu será o marco histórico dos povos ou regiões étnicas cujos contornos se desenham hoje. Convêm que os partidários desse projeto, altamente tradicional, sejam conscientes da estratégia a seguir.

22 – EVOLUÇÃO

A Evolução, ou filogêneses, designa, segundo os descobrimentos do Darwinismo, a metamorfose completa das espécies e a aparição de outras novas, provocadas pela dupla pressão dasmutações genéticas e da seleção. A Evolução não é linear nem teleonômica (ou seja, os seres não têm um projeto armazenado geneticamente dentro de si), quer dizer, orientada até um finalidade concreta. Pode comparar-se a uma esfera em expansão em todas as direções, segundo os azares e as fusões dos patrimônios genéticos com o meio. Parece obedecer a uma cooperação de princípios dionisíacos – cintilar das mutações e dos nascimentos de formas novas – e apolíneas – seleção e organização das formas. O Evolucionismo corrobora as cosmologias indo-europeias que são uma tradução imaginada, poética e mítica. A Evolução não deixa aparecer nenhuma razão, é perigosa, esbanjadora, dionisíaca, não conhece nem a fadiga nem a desesperança, não se suicida jamais, tendo sempre uma resposta para cada pergunta. A Evolução Cultural, assim como a Evolução Filogenética, procede por acumulação de informações e, portanto, de “programas de ação” possíveis; é a neguentropia, princípio inverso à perda de energia e da homogenização da informação que rege a matéria inanimada (entropia). À acumulação de informações que herdamos da Evolução, a cultura acrescenta um patrimônio adquirido mas que pode perder-se (domesticação). A Evolução é a chave da vida; esta constatação está na base de nossa visão de mundo.

23 – FUNÇÃO

Gênero e tipo de atividade necessária para a vida de um grupo, presente em todos os níveis de um hierarquia, e organicamente inserida no “todo” formado pelas outras funções. A tripartição indo-europeia , como as instituições de uma sociedade orgânica, como os modelos sociais que rechaçam à sociedade mercantil e às filosofias mecanicistas e economicistas do liberalismo ou do marxismo; refere-se às funções mais que às classes ou às categorias econômicas. Os conjuntos humanos são considerados como conjuntos viventes (ver Holismo) pluri-funcionais; por uma parte, cada função se encontra representada no seio de cada “especialidade”, existe, por exemplo, segundo as circunstâncias, uma função política ou uma função mercantil, das industrias ou das exportações; a função soberana pode estar presente tanto por cima do Estado quanto em seus corpos intermediários. Em segundo lugar, pensamos que a função soberana deve dominar as outras e insuflar-lhes seus valores. Em conseqüência, a Função não deve confundir-se com as instituições nem com as classes; o ponto de vista funcionalista não nega de modo algum as realidades e a importância destas últimas, mas subordina todos esses elementos racionais, econômicos ou profissionais da sociedade e da idéia de função. O indivíduo encontra a justificação de sua vida em razão da Função que ocupa no seio da comunidade. 

24 – GEOPOLÍTICA 

Enquanto teoria, a Geopolítica constitui o ramo da ciência política que estuda as complexas relações existentes entre as categorias dos fenômenos derivados do político e a multiplicidade das configurações espaciais da superfície terrestre. Em outras palavras, é um método que busca a parte ativa que ocupa a geografia na determinação dos acontecimentos políticos e históricos mundiais. Enquanto prática, inspira a estratégia política das potências, aplicada ao domínio do espaço continental e oceânico.

Condenada e difamada após a II Guerra Mundial, por haver justificado as empresas militares do III Reich, a Geopolítica volta a ocupar, hoje em dia com força, seu lugar no âmbito da reflexão política. Jamais havia deixado de ser uma ciência atual. Ainda mais quando foram seus próprios princípios que permitiram às super-potências construir sua hegemonia e triunfar em 1945. O mais fundamental desses princípios planteia a estreita relação existente entre espaço e poder. Do mesmo modo, o último grande conflito opôs, de fato, povos pobres em espaço – as potências do Eixo – à imensos impérios territoriais e marítimos – a URSS e os EUA, este último tomado o relevo de uma Inglaterra em decadência –, que velavam pelo controle de vastos espaços e reforçavam uma hegemonia contestada por seus adversários. Deste modo, desde o início do século XIX a união das treze colônias rebeladas contra o império britânico se afirma claramente como fim do completo domínio do continente americano = – ao preço do extermínio dos pele-vermelhas e de uma política de conquista contra ingleses, franceses, espanhois, mexicanos, etc, que culmina na Guerra de Secessão – afim de construir um bastião inexpugnável, uma talassocracia mundial cujo máximo expoente teórico foi Alfred Mahan: a Doutrina Monroe (“ a América para os americanos”, 1823: um modelo de análise geopolítica. Para quando uma Europa para os europeus?) foi, antes de tudo, uma declaração de guerra contra a Europa, guerra cujo último ato decisivo realiza-se com a invasão de 1944, premeditada a muito tempo; enquanto ao império russo sua expansão secular resume-se a duas séries fechadas. Até 1667 a fronteira com a Europa (Polônia) se encontrava a 220 quilômetros de Moscou, em 1945 o exército vermelho acha-se a menos de 600 quilômetros de Paris. Em 278 anos a maré russa reduziu em mais de três quartas partes a distância Moscou-Paris (2500 quilômetros). Agora, desde 1462, o império moscovita ampliou-se numa média de mais de 130 quilômetros quadrados por dia. Portanto, para questionar os ensinamentos da Geopolítica e, em primeiro lugar, a importância primordial da dimensão espacial, há que se estar cego ou ter muita má fé – como no caso das oligarquias empresariais e profissionais que pretendem nos governar, recebendo suas ordens desde Washington e que obedecem a uma lógica ocidental, mostrando-se sempre prestes ao abandono quando se trata de defender posses ou interesses europeus no mundo. No momento presente, aos olhos do observador desperto, os cansados e defasados slogans das ideologias ocidentais, tais como o “internacionalismo proletário” ou o catecismo dos “direitos humanos”, ocultam, cada vez mais, esses onipresentes espinhos da política mundial, que são o desejo de hegemonia e a vontade de controlar posições estratégicas. Pois sejam quais forem os pretextos invocados, a política das potências inclui sempre a luta pelo espaço que têm de conquistar, conservar, explorar e, se isso é possível, não ceder jamais. A razão evidente é que o espaço constitui o suporte, o teatro de todas as ações humanas, que condiciona o destino dos povos – por suas dimensões, seus recursos, sua conformação e situação – e que, para dizer de outro modo, é a base própria da vida. Sem esquecer que sendo a história o lugar do inesperado por excelência, conclui-se que o espaço constitui a única grandeza fixa e previsível na equação da política mundial. Não obstante, e chegados a esse ponto, impõe-se uma observação. Efetivamente, se bem que o importante papel do fator espacial merece ser esclarecido, não há, por isso, razão para cair na armadilha reducionista do determinismo geográfico ao modo de um certo dogmatismo freqüente entre os primeiros geopolíticos. Na matéria em que nos ocupamos não pode haver absolutos: o mesmo termo Geopolítica nos conduz à uma idéia de combinação ativa de fatores geográficos e políticos – quer dizer, humanos – em permanente interação. Agora bem, a diversidade, o número, a grandeza dos fenômenos de ordem geográfica são infinitos e suas configurações espaciais, que variam com o tempo, superpõem-se sem coincidir jamais. Por outra parte, o homem, pelo fato de seu “programa aberto” de comportamento e de sua variabilidade cultural, acomoda-se aos parâmetros da geografia de diferentes maneiras: as eleições dependem da cultura, da ideologia e do nível tecnológico dos grupos humanos; os agentes climáticos, físicos, geológicos, etc, não bastam para explicar o desenvolvimento da História, mas sim, que tão só impõem um marco mais ou menos restringido. A realidade é muito mais complexa, e um idêntico contexto geográfico pode induzir soluções geopolíticas muito diferentes, inclusive inversas. Exemplo: Europa. Na atualidade sua posição, no centro do hemisfério mais rico em terras emergidas, implica ao menos duas possibilidades:

1 – Dividida e débil, converte-se num peão dos impérios periféricos; é o caso presente.

2 – Unida e forte, poderia afirmar-se como primeira potência mundial. Ser ou não ser: a diferença radica no grau de consciência e de vontade dos europeus aos quais devemos convencer. Em uma palavra, o espírito ordena e dispõe ali onde a natureza propõe, de tal forma que a Geopolítica invita a uma visão possibilista da História mais que determinista. E é justamente por tal razão que o combate das idéias guarda, hoje, toda sua importância, pois toda política que compreenda aos homens e ao espaço que estes queiram ocupar (geo-estratégia e psicoestratégia), são só aspectos de uma mesma realidade. Concebida e desenvolvida desde o último fim de século, por homens como Ratzel, Reclus, Kjellen, McKinder e Haushofer (ainda quando tantos gregos quanto romanos não ignoraram algumas de suas premissas), a Geopolítica conhece, hoje, um novo hálito de vitalidade, e isto em contradição com as ideologias mundialistas e universalistas. Efetivamente, fazer Geopolítica é admitir implicitamente que os povos lutam pela posse do espaço (imperativo territorial). Atualmente, assiste-se a uma amplificação deste conflito: luta pelo controle das matérias-primas, pelo controle das vias marítimas, pelos espaços econômicos fechados, etc. A prática geopolítica dos estados, assim como o recente êxito dessa disciplina, cujos pressupostos confirmam nossa visão de mundo e das relações internacionais, atestam um fracasso do projeto  liberal de pacificação e homogenização da Terra. As grandes tendências dos movimentos geopolíticos contemporâneos são: consciência de solidariedade continental no Terceiro Mundo, oposição crescente leste-oeste e divergência de interesses entre a “solidariedade atlântica” e a homogeneidade ocidental. A Geopolítica permite repensar os conjuntos humanos como “blocos étnico-políticos territoriais”. A unidade geopolítica da Europa opõe-se diretamente ao condomínio entre soviéticos e americanos, ao qual está submetida até data recente. As chaves geopolíticas são as decisivas na história das sociedades.

25 – HISTÓRIA 

Conseqüência aparecida no seio da cultura europeia, da emergência do destino de um povo no tempo.A dimensão histórica é especificamente humana, ela é a consciência do tempo e do espaço. A historicidade e a consciência humana são o primeiro lugar de enfrentamento entre a concepção de mundo cristã e a concepção de mundo indo europeia. É pelo fato de que ambas concordam em dar à História um alto valor e porque lhe dão sentidos diametralmente opostos, que essas duas concepções de mundo se combatem em uma “guerra dos deuses”, da qual nossos contemporâneos são inconscientes, mas da qual tem dependido, desde muito tempo, a continuação – ou detenção – do destino histórico dos povos europeus. Os antigos tinham uma concepção cíclica da História, nem auto-superação nem fim da História. O judaico-cristianismo introduziu, por sua vez, uma concepção dinâmica da História (dialética da inovação) e teleonômica: a História é segmentária e concorre, ela mesma, com seu próprio fim já que ela é considerada uma maldição provisoriamente necessária. As ideologias ocidentais, a partir, sobretudo, da razão histórica Hegeliana, retomaram esse esquema escatológico (finalista). Só é necessário se ver até que ponto o sistema ocidental aspira, em nossos dias, a fixar a História numa cultura planetária estável. No que se refere a nós, propomos uma nova filosofia da História “sobrehumanística” e “fáustica”; pós-cristã enquanto que responde ao desafio do cristianismo e das ideologias modernas, dando à História uma dinâmica, fundada não sobre o retorno cíclico, mas sim sobre a noção Nietzscheniana do eterno retorno do idêntico (e não do igual): o passado pode ser reapropriado no presente em função de projetos sempre renovados e, portanto, pode ser transfigurado (ver Mito). O presente é o ponto de reencontro do passado tradicional, imemorial e recriado sem sessar, e do futuro. O futuro permanece em aberto (ver Modernidade) diferente das concepções arqueo-pagãs cíclicas ou judaico-cristãs. Tradição e Futurismo explodem conjuntamente na mesma energia. Por isso uma segunda definição da História se faz necessária.

A História é o que deve ser conservado e regenerado para que os povos europeus escapem do desaparecimento, e, a este respeito, constitui o núcleo e o foco central da guerra entre as concepções do mundo, guerra que opõe, desde muitas gerações, a concepção judaico-cristã à concepção pagã. É essa a razão pela qual nossa ação situa-se voluntariamente, à escala da História, por cima das peripécias qualificadas tradicionalmente de “políticas”.

26 – HOMEM

É humano tudo aquilo que, em propriedade, pertence ao Homem; o que supera sua animalidade, ou seja, o fato cultural e a consciência auto-reflexiva (consciência de ter consciência e de ter um destino). Para o judaico-cristianismo e as ideologias dominantes, a Humanidade é um conjunto homogêneo no qual as divergências étnicas e culturais são provisórias e secundárias. Para nós, isso é unir o feito humano ao feito animal, ou, o que é o mesmo e paradoxalmente, biologismo (ver Reducionismo). A hominidade (ou melhor, a especificidade biológica dos homens), pelo contrário, faz com que tornem-se dessemelhantes culturalmente, difiram antropologicamente e não possuam consciência de espécie. A humanidade do Homem, para nós – quer dizer, o que define como “humano” – não se encontra nas similitudes e elementos parecidos entre os homens, diferentes tanto entre grupos quanto entre indivíduos, mas sim no fato de que todos os homens escapam à inconsciência da animalidade e aos determinismos biológicos mediante as respostas culturais, profundamente diferenciadas e desiguais, que eles elaboram para sobreviver. Nesse sentido, a Humanidade não é uma condição, mas sim um estado progressivo que se conquista, uma situação. O Homem tende até o mais que humano, quer dizer, até o sobre-humano, e, portanto, até o aumento de sua liberdade frente aos condicionamentos biológicos. A consciência histórica tanto como a técnica moderna são fatores do sobre-humano. O humanismo igualitário, que desemboca na sociedade mercantil, e sobre um sistema universalista, relega o Homem a uma classe de ser abstrato, fazendo-lhe, paradoxalmente, involuir.

Compreender o Homem de maneira total, anti-reducionista, supõe observa-lo, por sua vez, como um produto da evolução, como um “animal” completo limitado por sua herança – cujas possibilidades são imensas –, que não pode ser atualizada mais do que sua abertura ao mundo. Este último autoriza ao Homem a receber a disciplina de uma cultura que multiplica, deste modo, suas possibilidades inatas mediante informações adquiridas. O Homem fica investido, então, da qualidade de um “ser de ação”, que atua sobre um meio, enquanto que o animal contenta-se em sobreviver e adaptar-se. A Vontade de Poder pertence, pois, biológica e culturalmente, àquilo que de mais humano há no Homem. Corresponde a essa “chama divina” que tantos pensadores europeus já falaram e que converte o Homem num ser em contante devir. 

27 – IDEOLOGIAS (OCIDENTAIS) 

São herdeiras da laicização do judaico-cristianismo, compartilhando sua finalidade e seus postulados de realização racional, determinada por uma razão universal de felicidade individualista e, portanto, predicam o igualitarismo e a construção de uma civilização mundial ocidental. O axioma das Ideologias Ocidentais organiza-se ao redor de três conceitos chave: indivíduo, razão e felicidade. Esta é a tríade da Ideologia Ocidental, compartilhada por todos, desde os conservadores extremos até os neo-marxistas. Ainda que rivais, as Ideologias Ocidentais compartilham o mesmo projeto e a mesma concepção de mundo. Neste fim de século XX consagram sua conjunção em torno da filosofia dos direitos do homem, entrando numa espécie de terceira idade por causa do freio de seu progresso e de sua estratificação teórica e intelectual. A primeira, religiosa, confunde-se com o Cristianismo; a segunda, do século XVII ao século XX, confunde-se com a ascensão do progresso das doutrinas igualitárias. Hoje vivemos a aplicação prática e sociológica dos postulados das Ideologias Ocidentais , que acaba por confundir-se com os fatos sociais e que se interioriza nas mentalidades. Triunfantes nas formas, mas desprovidas de sentido; instaladas, mas envelhecidas; as Ideologias Ocidentais perdem seu relevo. Os tempos estão maduros para o surgimento de uma ideologia europeia que descanse sobre uma visão do mundo a qual podemos qualificar – por fazer referência a uma antiga tradição – Hiperbórea.
 
28 – INDIVIDUALISMO
 
Mentalidade introduzida na civilização ocidental pelo judaico-cristianismo, segundo a qual o homem individual abstrato vale mais que suas qualidades e constitui o elemento de base da espécie, antes, inclusive, que a comunidade. O indivíduo cristão está fora do mundo, isolado frente ao Deus Pai que o desvaloriza e quem está capacitado, exclusivamente, para conceder-lhe a salvação. Daqui, precisamente, deriva-se o igualitarismo. As Ideologias Ocidentais transpuseram, no social e no histórico (laicização), esta individualização da humanidade. Daqui a destruição dos organicismos, a atomização das sociedades pelo Estado e a constituição de massas que são a contrapartida do Individualismo. O homo-economicus liberal, o proletário dos marxistas, o “ser humano” das ideologias dos direitos do homem, são conseqüências deste Individualismo, que caracteriza, do mesmo modo que o igualitarismo e o racionalismo, a sociedade e a concepção do mundo dominantes. Ao indivíduo faz falta a oposição do Holismo no qual a personalidade é valorizada por sua comunidade e seu povo e escapa tanto ao narcisismo quanto ao isolamento. Na perspectiva holista, o homem realiza-se plenamente e encontra seu desenvolvimento pelo e para o serviço a sua comunidade.

29 – JUDAICO-CRISTIANISMO 

Conjunto de concepção de mundo própria do Judaísmo e do Cristianismo, que tem tido um maior desenvolvimento atuando, primeiro, sobre a forma de religião e , posteriormente, a partir dos tempos modernos, como ideologia. O Judaico-Cristianismo constitui, para nós, uma contribuição alógena para a consciência europeia, que se encontra, desde dois mil anos, partida, esquizofrênica e em processo de constante aculturação. Consciência cristã, de um lado, moldada pelo Judaico-cristianismo, consciência pagã, do outro; é a “Guerra dos Deuses”. A concepção do mundo Judaico-cristã, que conseguiu, depois de séculos, instalar-se profundamente na Europa até converter-se na marca principal da Civilização Ocidental, está na origem do universalismo, do individualismo e igualitarismo. A mentalidade científica desenvolve-se contra esta concepção, devido a sua filosofia utópica e sua propensão em desvalorizar o real em proveito de uma metafísica (mundo das essências ou dos princípios absolutos revelados) e de uma teleonomia de final de história. O Biblismo é um outro nome do Judaico-Cristianismo, na medida que a Bíblia constitui uma referência comum aos herdeiros do Judaísmo, do Catolicismo e do Protestantismo. No ocidente de hoje em dia, a concepção judaico-cristã do mundo é professada com máximo vigor pelos Estados Unidos, pátria da concepção atual dos direitos do homem. Desprovido, hoje em dia, do valor religioso, o Judaico-cristianismo converteu-se no transfundo mental de uma civilização em crise, passando, de fato, do estado de consciência ao estado de inconsciência e sendo, por isso, mais vulnerável que no passado ante o assalto de uma nova consciência. Devemos, através da ofensiva de nossa visão de mundo, fazer retroceder o Judaico-Cristianismo a uma posição defensiva.

30 – LIBERALISMO

Conjunto de doutrinas aparecidas desde os séculos XVII até o século XIX no Ocidente, e que fundam sobre a “liberdade do indivíduo” e sobre a liberdade dos agentes econômicos em relação a política, seu projeto de organização social, entendendo liberdade como ausência de pressão. Matriz do marxismo, o Liberalismo, através de suas múltiplas versões (e até mesmo o neoliberalismo atual, novos economistas), funda-se sobre os seguintes postulados: individualismo, assimilação de uma sociedade a um mercado (sociedade mercantil), desconfiança com relação aos poderes de natureza política, crença na transparência e na espontaneidade das relações sociais desde o momento em que são mercantis e igualitárias, redução das finalidades culturais à obtenção do bem-estar, crença em um fim possível das ideologias em proveito da gestão técnica e neutra da sociedade, etc. O Liberalismo desemboca na Tecnocracia e no Estatalismo; sobre o mercantilismo e a opacidade das relações sociais, cria uma visão do homem como um ser assimilado a uma “coisa” dotada de valor quantificável, cria, então, uma entidade abstrata: o homo economicus. Vangloriando-se de organizar a livre troca econômica e a livre comunicação cultural, o Liberalismo alimenta o domínio do modelo ocidental, da civilização de um sistema econômico transnacional (ver Americanismo). Por outra parte, é preciso combater a idéia de que o Liberalismo, contestado hoje em sua eficácia econômica (ver Economicismo), detém o monopólio da concorrência e da economia privada do mercado (ver Autarquia). De todas as ideologias ocidentais, o Liberalismo é a que mais ameaça nossa especificidade cultural: funciona como uma droga que impede reações de defesa contra as ameaças militares. O Liberalismo é, para nós, de forma muito clara, o principal inimigo.
 
31 – LIBERDADE
 
Faculdade de aumentar o poder, de multiplicar as capacidades de ações sobre o real e conquistar, portanto, uma autonomia sobre os determinismos, sejam eles genéticos ou sociais. Esta definição opõe-se à concepção individualista e igualitária da Liberdade, que a considera como uma licença passiva, como uma ausência de norma. Esta última concepção da Liberdade é exatamente a contrária à nossa. Para liberar-se dos determinismos, o homem, pelo contrário, tem necessidade da disciplina de uma cultura, quer dizer, o exercício de uma norma, começando por aquela que exerce sobre si mesmo através de sua vontade. A concepção liberal da Liberdade é regressiva, produz um homem doméstico, involuído, o qual conhecemos, que abdica de sua autonomia em proveito de um sistema social paternalista. A Liberdade não é só um “direito”, como o quer a filosofia dos direitos do homem, mas sim, é uma conquista. Por esse fato, a Liberdade como absoluto é um conceito bastante totalitário, além de irreal. A Liberdade é plural (por exemplo, falamos de liberdade política, como direitos conquistados, garantidos pela força e, por suposto, com contrapartidas). Geneticamente, o homem nasce num estado de grande dependência, mas sua desprogramação, sua abertura ao mundo, fazem-no um ser virtualmente “liberável”, ou virtualmente ainda mais escravo que um animal. Quanto maior é a Liberdade – quer dizer, o acúmulo dos atos realizáveis por um homem após sua aprendizagem cultural disciplinada – mais importante é a sujeição à normas. A Liberdade passa, antes de tudo, pelo domínio de si mesmo. É, pois, tanto no que concerne os indivíduos como no relativos aos povos, o privilégio dos fortes. “A Liberdade é o poder”, dizia Hobbes.

32 – METAPOLÍTICA
 
Difusão, na mentalidade coletiva e na sociedade civil, de valores e de idéias (ou ideologias) que excluem todo meio político, assim como toda etiqueta política, mas segundo uma visão de “grande política”, quer dizer, da busca de impacto histórico.

A Metapolítica situa-se fora e por cima da política como hoje em dia é entendida, a qual converteu-se em teatro e já não constitui o lugar da política. A estratégia metapolítica aspira à difundir uma concepção de mundo de forma que os valores desta última adquiram, na História, potência e poder a longo prazo. Esta estratégia é incompatível com as ambições burguesas de possuir todo poder, de estar no poder a curto prazo. Polivalente, a Metapolítica deve dirigir-se às pessoas com capacidade de decisão, aos mediadores, aos difusores de todas as correntes de pensamento, a quem, por outra parte, não revele o conjunto de seu discurso. A Metapolítica difunde mais uma sensibilidade que uma doutrina, faz-se cultural ou ideológica segundo as circunstâncias. Sua característica primeira e primordial, devendo conta da sociologia atual do poder cultural, é a de “golpear na cabeça”, rechaçando neutralizar-se no vulgar e no mass media. Altura de visão, eficácia prática, flexibilidade e dureza do discurso interno – que se distingui do externo sem contradizê-lo, mas que tampouco o diz completo e adapta sua formulação às exigências externas –, são as quatro qualidades da estratégia metapolítica ; esta estratégia constitui, no plano do método, nossa eleição fundamental. Esta é a base de nossa atuação.
 
33 – MODERNIDADE
 
Tendência cultural, surgida de forma progressiva na Europa durante a Idade Média, que aspira à renovar as tradições atualizando-as, superando (auto-superando) as formas de civilização, as idéias, as técnicas em vigor, mediante um chamado à regeneração, unida a uma intensa consciência da historicidade do tempo. Noção ambígua, negativa e positiva ao mesmo tempo. A Modernidade se confundiu no século XVI com o progresso, ao espírito de oposição aos antigos regimes e às tradições, unindo este à filosofia teleonômica e segmentária da história próprias do Judaico-cristianismo e, portanto, de todas as ideologias totalitárias. Nessa concepção prometaica da Modernidade, a ambigüidade reside no fato de que uma inegável energia de auto-renovação põe-se à serviço de um projeto de fim da história. Frente à isso, nós mantemos uma concepção fáustica da Modernidade, na qual o passado não está desvalorizado, mas sim, que inspira um futuro constante e no qual a Vontade de Poder, sobre a forma de enfrentamento desejado com o futuro, transforma o homem em criador de si mesmo na História, quer dizer, demiurgo. A técnica moderna pode, assim, reintegrar-se com o elemento mobilizador que dá sentido a uma ascensão coletiva. As desilusões do progresso que obscurecem o presente, deixam o campo livre a uma “segunda modernidade do mundo”. A Modernidade é um dos nossos valores prioritários de referência.
 
34 – MONOTEÍSMO
 
Crença na existência de um deus único, própria das religiões reveladas, sobretudo do Judaicocristianismo. Afirmação da unidade homogênea do divino, o qual está radicalmente separado de uma natureza plural e diversa. O Monoteísmo aparece, geralmente, como dualista. Ao contrário do enoteísmo, que professa a unidade do divino e a multiplicidade de suas aparências – e que une, pois, o divino à natureza heterogênea –, o Monoteísmo desvaloriza o real, o mundo e a natureza, criados pelo único deus, mas chamados, ao final dos tempos, a fundir-se com o Uno. O Monoteísmo é, por tal fato, entrópico. Tem dado lugar ao universalismo filosófico e sócio-político das ideologias ocidentais. Assim como o Cosmos só tem um criador, a História não tem mais do que um único sentido e fim possíveis, o homem não responde mais que a uma só definição, e uma só forma de sociedade aparece como válida (ver Reducionismo). O igualitarismo, o racionalismo, a democracia, etc, herdam do Monoteísmo a afirmação de valores absolutos, universais, únicos e revelados. Estes ameaçam converterem-se em leis totalitárias. De uma maneira geral, a mentalidade monoteísta aspira à homogeneizar o real e a vida segundo a ordem universal de um princípio abstrato que escapa à experiência. O Monoteísmo é, pois, a exata antítese de nossa visão de mundo.

35 – MITO

Conjunto de imagens organizadas sobre a forma de relatos da natureza poética, épica, lendária, lírica, etc, que reúnem na tradição de um povo, de uma comunidade, de uma cultura, representações fundadoras, próprias para estabelecer a existência ou a historicidade do grupo de que se trata. “Um país que não tem lendas, diz um poeta, está condenado a morrer de frio. É muito possível. E para um povo que não tenha mitos, pode-se considerar morto. A função da classe particular de relato, que são os mitos, é, efetivamente, a de expressar dramaticamente a ideologia da qual vive a sociedade, manter, ante sua consciência, não só os valores que reconhece e os ideais que persegue de geração em geração, mas sim, precisamente, seu ser e sua estrutura própria, os elementos, os vínculos, os equilíbrios e as tensões que a constituem; justificar as regras e as práticas tradicionais, sem que tudo nelas se disperse. Todos estes relatos têm uma função, uma mesma função vital.”(G. Dumezil). Aspirando não à convencer, mas sim à seduzir, o Mito é resumo mobilizador da personalidade de uma comunidade, entendido este como um relato fundador; os Heróis e Deuses representados pelos Mitos, cristalizam e desenvolvem, por exemplo, os tipos humanos e as personalidades criadoras próprias a uma cultura, ou erigem, em uma situação-tipo, acontecimentos precisos susceptíveis de reproduzir-se. A dimensão religiosa e sagrada do Mito o faz propício à reativação a todo momento da história. É esse o motivo pelo qual os Deuses e Heróis do Paganismo constituem mitemas (elementos significantes dos mitos), sempre capazes de encontrar uma nova significação, uma regeneração, uma atualidade e um retorno. A idade dos Mitos não é nada caduca nem própria de outros tempos, não há primitividade do Mito permanecido, sempre tido de veracidade inclusive quanto toma vias distorcidas do saber racional. A idéia do Império, as cosmogonias helênicas, célticas, eslavas ou germânicas, são, por exemplo, portadoras de Mitos perfeitamente reativáveis. Da Tetralogia de Wagner à ciência atual, os tempos modernos produzem uma infinidade de Mitos. Nossa concepção de mundo, nossa cosmovisão, que não reduz o homem a um papel de animal racional, toma consciência de sua dimensão mítica (ver Anti-reducionismo), dedicando-se a instalar na modernidade que se prepara, um novo discurso mítico voltado até o chamado do futuro e o retorno do imemorial. O Mito é, sem dúvida, o âmbito “da mais larga memória” por excelência.

36 – NAÇÃO

Em sentido clássico, este conceito, de origem tipicamente europeia, da conta da plasmação política de um povo, quer dizer, da tomada de consciência de sua identidade e de seus interesses próprios, a qual lhe insufla a vontade de assegurar seu destino particular no universal. Em estado acabado, a Nação é um povo, uma parte de um povo ou um conjunto de povos, que historicamente chegaram à constituição de um Estado próprio. A Nação, hoje inseparável do princípio Estado-Nação, é, para nós, um fenômeno essencialmente negativo. E isto por várias razões. Primeiro, porque as Nações foram criadas sobre as ruínas do Império e se mantiveram opositoras da idéia imperial. Este é um ponto sobre o qual nunca é pouco insistir: o Império precede as Nações e, portanto, a legitimidade suprema lhe pertence. Esta legitimidade transcende as legalidades transitórias dos Estados Nações, pois só o Império tem o poder necessário para garantir o futuro da comunidade de povos que organiza. As Nações, precisamente porque criam estados ou intentam criá-los em detrimento do Império, constituem um princípio de dissolução e organizam a separação permanente. O processo desatou-se após o enfrentamento do Império Romano e dos povos cultural e politicamente atrasados do norte. A grande sorte da Europa pode ter sido a fecunda integração desses povos no organismo imperial. Mas, surpresa! Não houve qualquer integração! O fracasso da conquista romana em direção ao Báltico, impressionante por sua amplitude e suas consequências incalculáveis, implicou um “cara à cara” secular que, como sabemos, acabou com a ruptura do equilíbrio no sentido mais desfavorável: norte – sul. Ocorreu, então, a barbarização do Império, e não a romanização dos bárbaros (sul – norte). Enquanto isso, um fenômeno capital estava se produzindo: rebeldes à integração, os bárbaros, especialmente os germanos, nunca haviam conhecido o resplendor cultural do Império, constituindo, assim, essas influências, a origem de um tipo de organização mais desenvolvida e mais eficaz, dos povos germânicos, em sua desgraçada luta – para a Europa e seus próprios descendentes – contra o Império. Deste modo, as grandes invasões foram um fato, não de clãs e tribos mal organizadas, mas sim, de poderosas confederações que eram, senão, a adaptação cultural, em menor escala, do modelo da vasta federação imperial. Insistamos bem sobre este fato. Não houve uma, senão várias confederações (alemães, saxões, francos, godos, etc), mas nunca os germanos nem os celtas ascenderam à clara consciência de sua identidade étnica e, menos ainda, imaginaram uma unidade nacional. De forma mais tardia, quando os invasores instalaram-se como vencedores sobre o solo imperial, transplantaram sua consciência étnica e sua organização política, fazendo desaparecer inclusive o nome das províncias que ocupavam para substituí-los pelos seus. Deste modo, as Espanhas converteram-se em Espanha visigoda; a Bretanhã, em Inglaterra, e a própria Itália ia se transformar em Lombardia. Enquanto as Gálias deixaram de ser o viveiro das terras imperiais para converterem-se nesse algo irrisório e bárbaro que se chama França. Desde então o maior problema da Europa é o do “império explodido”, efeito nefasto desse germanismo político que foi bastante forte para contribuir para o ocaso do Império Romano (“a mais grandiosa forma de organização jamais alcançada em tão difíceis condições”, Nietzsche), mas que resulta incapaz, mesmo com a muito honrosa tentativa carolíngia, de restaurar a unidade perdida num mundo mimado pelo Cristianismo e dedicado à balcanização “nacionalista” e à guerra civil permanente. Se evocarmos, em ocasiões, o caso do Império Chinês, que constitui outro grande pólo histórico do mundo antigo, a comparação revela-se totalmente desfavorável à Europa. Efetivamente – ainda quando conheceu peripécias muito semelhantes com invasões e partições – a China soube preservar ou restaurar sempre sua unidade, e isso frente a uma diversidade e politeísmo muito semelhantes à Europa. Este jogo, junto a uma natalidade dinâmica, assegura à China perspectivas mais que encantadoras para os séculos vindouros, o que não é o caso de uma Europa demograficamente em declive, ocupada e dividida, ao mesmo tempo que mentalmente balcanizada por sua estrutura multinacional. Na atualidade, o Estado-Nação, concebido como uma mônada irredutível, é uma forma obsoleta. Suas reduzidas dimensões lhe fazem incapaz de assegurar a independência e o futuro dos povos que contem; mas lhe faz capaz, todavia, de atuar como força centrifuga no interior de uma formação tal como a Europa política. Enquanto que abundantes reivindicações inflamam os povos por todo mundo, a solução imperial aparece como a única susceptível de preservar o poderio e, portanto, a capacidade de atuar sobre o destino. E isto é tanto mais necessário quanto mais as ideologias dominantes têm concebido, também a Nação, como elo de uma sociedade mundial, como “departamento” de um planeta politicamente racionalizado. Hoje, o sistema ocidental está fundado sobre esta ideologia das nações, que se opõe à do Império e que neutraliza os povos homogenizando-os em nações iguais que não são, realmente, mais do que cascas vazias, marcos desprovidos de sentido histórico.

37 – NATUREZA

Desde o ponto de vista do homem, é tudo o que não participa da cultura e não constitui seu pedestal. Mas a Natureza, noção complexa, significa também em Biologia o conjunto dos organismos e seus meios; portanto, biologicamente, a cultura, “natureza do homem”, forma parte e, por sua vez, surge da Natureza. Natureza e Cultura são complementares e inseparáveis. Em Filosofia, a Natureza, em sentido grego de phisis,designa o reino vegetal e animal, mas também o cosmos. Na cosmologia pagã a Natureza é divina e sagrada. No Judaico-cristianismo um dualismo distingue o Criador da Natureza, e esta se acha implicitamente desvalorizada e destinada a desaparecer num Apocalipse em que só Deus subsistirá. Na perspectiva fáustica e neo-pagã o sagrado não está na Natureza, mas sim que tem sua origem na mutua interpenetração do humano na Natureza, onde a esta lhe é conferido um sentido: o do cumprimento da vontade humana. A Natureza é, pois, o material da cultura, sua forma; deriva da ordem dionisíaca enquanto a cultura deriva da apolínea. Tanto biológica, quanto histórica e politicamente, a Natureza leva e produz a cultura que atua sobre ela e, por esta razão, dá um sentido e uma aspiração. Desde outro ponto de vista podemos dizer que nossa ação é naturalista, ou vitalista. Por exemplo, à sociedade atual, que gera patologias sociais pelo fato de seu desconhecimento da natureza humana (ver Etologia), nós opomos concepções naturais que respeitam o real e o humano tal como o são (ver Reducionismo), com suas dimensões plurais (ver Politeísmo). A técnica moderna nos aparece, deste modo, muito “natural”, como pode ter sido, por exemplo, a revolução do neolítico. Dito de outra maneira, está na natureza do homem o superar a Natureza apoiando-se nela e respeitando-a.

38 – NIILISMO

Privação de sentido dos valores e desaparecimento do sagrado em proveito de um estado no qual ditos valores são indiferenciados, sem escala e sem origem, onde a perspectiva da existência individual, assim como do destino coletivo, desaparece.

O Niilismo caracteriza nossa época, onde nada tem valor porque tudo se equivale, situação que se agrava desde o último século, onde os ideais metafísicos do Cristianismo, progressivamente esvaziados de seu substrato religioso, foram laicizados em morais ou ideologias. O Niilismo, unido ao espírito burguês e calculador, movidos por interesses individuais, estão no centro no Judaico-Cristianismo, por uma parte porque antepõe à salvação individual obrigações cívicas e comunitárias; por outra, porque intenta vincular o indivíduo a conceitos universais situados fora do mundo e, por isso, susceptíveis de degenerar em leis abstratas, desenraizadas e impróprias para mobilizarem-se. O Niilismo é o destino do Judaico-cristianismo ocidental ao término de sua história.

Hoje em dia, onde vemos o apogeu do Niilismo, este desenha concretamente a implosão de sentido das ideologias ocidentais: atualidade da psicologia social, narcisismo da psicologia individual, ausência de fim de um mundo absurdo, apesar da multiplicidade das finalidades técnicas (mundo sem finalidade). Admissão da felicidade intimista e promessa de um fim da História, o Niilismo é produto de um gigantesco paradoxo histórico (heterotelia); enquanto que o ateísmo radical e o afundamento de toda consciência histórica, além da negação de todo valor referencial que transcenda a dimensão individual, são, portanto, os produtos de uma concepção de mundo que pretende fundar sobre absolutos o sentimento religioso e a visão da História. O Niilismo é a conseqüência lógica, inevitável, da desvalorização do mundo trazida pelo Cristianismo.

39 – NOMINALISMO

Posição filosófica elaborada na Idade Média contra a Escolástica cristã e que, rechaçando o universalismo e propondo uma visão relativista do mundo e dos seus valores, renova, com o politeísmo, as cosmogonias pagãs.

Para o Nominalismo os universais não são mais do que palavras, e os nomes que nos damos às coisas não portam nenhuma verdade em si, são conceitos relativos, chaves interpretativas que temos necessidade para viver no mundo. Desde esse ponto de vista, a perspectiva politeísta, tanto em filosofia quanto em ciências sociais, vincula-se ao Nominalismo. Por outro lado, o Nominalismo postula um rechaço às “essências”: o ponto de vista nominalista tende a privilegiar os seres com relação ao “ser”, o devir com relação ao finalismo histórico (fim da história pela realização de sua própria essência), o mundo real com relação as utopias, os valores particulares com relação aos valores absolutos e às normas reveladas, etc. Sem embargo, o Nominalismo não poderia ser sistematizado, isso levaria – o que de fato já se observa – ao individualismo, ou niilismo, por um relativismo sistemático. É necessário adotar um Nominalismo mínimo que considere os valores como relativos “no absoluto” e como absolutos no relativo; cada povo, por exemplo, pode situar por cima de todos os seus próprios valores, considerando-os como relativos, o seu próprio bem e não o da humanidade.

O neo-paganismo e a epistemologia moderna conjugam-se muito bem para irem nesse sentido: anti-universalista. O primeiro afirma a vocação ao universal, quer dizer, à expansão, governado pela vontade de poder de seus próprios valores no espírito, não a conversão do outro, mas sim de dominação (perceba como aleatória e provisório), a segunda não reconhece no universo nenhuma lei universal nem a possibilidade de nenhum conhecimento perfeito das leis da natureza, mas valida, não obstante, a vontade do homem de dominar o cosmos, de reconhecê-lo sem limite de ambição, mas sabendo que o domínio total é impossível. O nominalista pagão deseja a ascensão de seus valores, seu “movimento ascendente”, mas não os deseja instalados, triunfantes para sempre (ver Trágico), o que, por outra parte, é impossível por ser contrário às leis da vida. É preciso fazer as coisas sabendo que são provisórias, frágeis, mortais. É necessário escolher valores, sabendo que nossa eleição é que faz deles o que são: valores.

40 – ORGÂNICO

Aquilo que se dispõe segundo estruturas e disposições semelhantes à vida, quer dizer, caracterizadas pela interação, pela complexidade inovadora, a hierarquia e o devir. Oposto, portanto, ao que é mecânico, quer dizer, causal, estritamente racional, unidimensional e historicamente fechado.

Por exemplo, o modelo comunitário é orgânico enquanto a sociedade mercantil funcione como um mecanismo. Os modelos orgânicos de nações ou de sociedades, assim como as ideologias do “organicismo”, põem o acento sobre o politeísmo social, as diversidades das funções, o holismo, a preeminência da soberania, o anti-individualismo dos corpos intermediários; opõem-se ao mecanismo igualitário das ideologias dominantes e das tecnoestruturas, que colocam a economia como infra-estrutura de toda sociedade, reduzindo, esta última, à um agregado matemático de indivíduos. Hoje em dia as idéias orgânicas e as visões orgânicas do mundo são corroboradas pela biologia e pela cibernética.

41 – PAGANISMO

Atitude religiosa que escapa ao sistema das três grandes religiões monoteístas, e mais precisamente, no emprego que lhe damos, designa a religião tradicional da Europa, sempre viva, seja sob a forma de ritos, seja de sensibilidades culturais ou, o que nos diz respeito, como concepção do mundo devidamente consciente.

O caráter comum de todos os Paganismos é o vínculo da religião com a vida, uma dimensão prioritária atribui-se à vida do grupo, à vida social. Natural e Sobrenatural interpenetram-se, o sagrado é imanente. O dualismo caracteriza os sistemas monoteístas (divino fora do mundo, criador separado das criaturas, alma independente do corpo, não interpretação do sagrado e do profano). O Paganismo europeu – o das religiões pré-cristãs tanto como aquele outro que subsistirá nos ritos populares e na cultura, através de uma aparente cristianização – acrescenta à esses elementos o sentimento trágico da vida e uma divinização do homem pelo domínio de seu destino. Hoje em dia é possível uma regeneração do Paganismo sob a forma “pós-cristã” de um neopaganismo: o divino pode confundir-se com o humano, sobretudo com sua vontade de poder demiúrgico. “Os Deuses estão em nós”, tal é a nova figura de seu retorno (ver Modernidade). Como elemento fáustico, o Neo-paganismo deve saber, como os antigos, alternar sensualidade e asceses (ver Dionisismo e Apolinismo). O esgotamento dos dogmas cristãos e o Niilismo contemporâneo despejam um terreno para o retorno ao Paganismo, que, para nós, não poderá cumprir-se senão sob a forma soberana, e não só social, artística, sexual, desportiva, etc. O Renascimento Pagão – surgimento de uma nova consciência trazida também pela ciência e as técnicas modernas – é o único evento susceptível de reconciliar a alma europeia consigo mesma, de acabar com a esquizofrenia provocada pela visão do mundo e civilização cristã. Pode marcar, igualmente, o fim da alienação cristã, o início da reapropriação de nossa cultura por si mesma. O Paganismo é, pois, para os povos europeus, uma libertação. É a revolução do século XXI.

42 – POVO

Entidade orgânica que une, numa comunidade, os ancestrais, os viventes e os futuros herdeiros de um grupo humano, caracterizando-se por uma convergência de traços culturais, históricos, étnicos, antropológicos, psicológicos e geográficos.

Podemos dizer, sem dúvida, que pertinência à um povo é o que um homem tem em primeiro lugar de específico e o que o constitui como humano. Diferentemente do “povo” das doutrinas liberais e marxistas, que fazem dele uma massa sócio-econômica ou uma “população” agregativa, nossa concepção faz dele constituinte primário da espécie humana. Aqui ele encontra sua principal riqueza e a condição de sua sobrevivência biológica e histórica. O dinamismo divergente da humanidade em povos, está hoje ameaçada por uma civilização mundial (ver Civilização Ocidental), surgida das ideologias individualistas, mundialistas e universalistas (ver Direitos Humanos). Nesta medida, os conflitos esquerda-direita, leste-oeste, ocultam um verdadeiro antagonismo que opõe os povos, em sua totalidade, frente a um sistema que abole sua independência e suas especificidades.

Voltar a ser sujeitos da História: é aqui nossa proposta necessária aos povos europeus. Nós reconhecemos e devemos fazer com que todos tomem consciência da existência de uma comunidade de povos europeus que pode reconhecer-se num passado comum indo-europeu e dar-se, portanto, em razão disso, um destino histórico.

Esta nova unidade de destino dos europeus, que, mediante uma “nova aliança” através de uma metamorfose e mediante uma transfiguração histórica, pode fundi-lo em um povo, vem exigida pela realidade geopolíticas, econômicas e culturais desse fim de século. Reivindicando o direito à identidade pela comunidade dos povos europeus, estamos lutando pela alma dos povos, pela causa dos povos, de todos os povos.

43 – POLÍTICA

Atividade (a Política), ou função (o Político) públicas, cujo objetivo é a busca do consenso interior e a designação do amigo e do inimigo de um conjunto coletivo (povo, por exemplo), além da busca pela aplicação prática do destino histórico de tal conjunto coletivo, em sentido prático, técnico e estratégico.

Desde nosso ponto de vista, a Política, como substância ou “atividade funcional”, é um dos atributos da soberania, que pode, por exemplo, encarnar-se no Estado – alternando assim a instância do político. No seio da função soberana, a Política tem, não obstante, o dever de estar submetida à ordem espiritual ou religiosa, portadora esta do verdadeiro sentido (ver Sentido e Tripartição). As ideologias da sociedade mercantil seguem a definição liberal da Política que, segundo as doutrinas individualistas do contrato social, reduzem-na à gestão e à administração das coisas, entendendo-a como uma série de mercados de transação resultantes da comparação das necessidades e das demandas de agentes sociais calculadores, subordinando-os, por este fato, a um programa de natureza economicista (técnico-econômico), instaurando o reino dos políticos cuja função, longe de toda “Grande Política”, é apenas espetáculo (submetida ao mass media). A sociedade fica assim despolitizada.

O Estado, como função soberana, perde o monopólio do político que passa às mãos dos “partisãos”, onde se refugia provisoriamente entre aqueles que fazem Metapolítica. A degeneração do político conduz o Estado à burocracia desmensurada e ao desaparecimento do princípio da soberania.

44 – POLITEÍSMO

Caracterizado por um panteão onde coexistem várias divindades hierarquizadas, imagem da diversidade vivente. O Politeísmo é um dos grandes traços dominantes da concepção de mundo pagã e não igualitária, significa o reconhecimento da multiplicidade ordenada do real. O Politeísmo supõe, portanto, uma ordem superior integradora (holismo), no interior da qual coexistem, inclusive em mútua contradição, Deuses, valores e funções extremamente diversas. A atomização individualista da sociedade atual, indiferenciada, não é Politeísmo nem mesmo diferencialismo. Este pluralismo igualitário aparece, pelo contrário, como massificante, e tem sua origem no Monoteísmo, já que tudo é medido com a mesma base e posto no mesmo nível. O Politeísmo supõe, pelo contrário, a hierarquia de valores, de idéias, de funções, de divindades, etc … a ordem politeísta está dominada por uma unidade que não tem nada de totalitária, mas que é a de um sentido superior, dos Deuses Soberanos, da soberania. O Politeísmo político, por exemplo, não é o pluralismo democrático que atomiza os indivíduos e as facções, ele diversifica hierarquicamente os valores. O Politeísmo social, por exemplo, supõe que a função soberana permite à sociedade, à “terceira função”, diversificar-se em sua formas (reconhecimento das marginalidades), mas reúne o povo ao redor de uma concepção de mundo comum. Ou seja, o oposto do estatalismo igualitário, que dissolve os valores comuns e homogeniza os hábitos e as formas sociais.

Podemos ter uma concepção politeísta das culturas dizendo que estas são não comparáveis e incomensuráveis (aqui se acha o verdadeiro direito à diferença). A percepção politeísta do real, como ordem descontínua e contraditória, é, não obstante, a mesma das ciências modernas. Numerosos são os autores em diversas disciplinas que definem seu pensamento em termos politeístas.

45 – RACISMO

Atitude de exclusão de um grupo humano em razão de suas pertinências biológicas e/ou culturais, seja para assimilá-lo a um modelo antropológico e cultural reputado como normativo, seja para inferiorizá-lo.

O Racismo é um produto do igualitarismo e está legitimado pelo anti-racismo das doutrinas dos direitos humanos. Ao predicar uma mescla étnica universal, querendo conformar todas as culturas ao modelo ocidental, nega-se implicitamente ao homens e aos povos sua especificidade biológica e cultural. Negando o fato racial, despreza-se a raça dos outros e rebaixa-se o feito humano a um feito individual. É necessário compreender que Racismo de assimilação e Racismo de exclusão são as duas faces de uma mesma moeda, já que tanto um como o outro reduzem a diversidade humana – o que constitui a riqueza da espécie – a um modelo único. É preciso assinalar que a Bíblia é um texto fortemente impregnado de Racismo e os exemplos que encontramos nela são os piores que existem.

46 – RAZÃO

A idéia judaico-cristã de Razão universal e absoluta, pensada como atributo de Deus, considerando uma teleonomia racional e uma escatologia razoável, quer dizer, absolutamente necessária no mundo, deu lugar aos racionalismos das ideologias ocidentais.

Estas entendem, efetivamente, “realizar racionalmente a felicidade individual”, considerada como objetivo de absoluta necessidade. A moral, a história, a sociedade estão submetidos ao determinismo da Razão objetiva, herdada da lei judaico-cristã. A Razão instrumental, ou Razão subjetiva, é, por sua vez, o produto da Razão objetiva e do “logos “ grego unidos ao espírito científico. O estado igualitário, o marxismo, o liberalismo, as tecnocracias, etc, procedem uma racionalização do social que homogeniza as culturas e destrói as comunidades orgânicas. Nossa civilização racionalista – inorgânica – é o resultado de tudo isto.

Nós oferecemos uma mudança na noção da Razão segundo uma perspectiva Neo-pagã e fáustica: não existe a Razão objetiva universal nem na História nem no cérebro de cada indivíduo. Pelo contrário, existe uma Razão como método (Razão subjetiva); isto deve admitir-se, sobretudo, no domínio técnico-científico do meio. Se esta Razão subjetiva é governada exclusivamente pelos cânones esclerosados (ideais petrificados) da Razão objetiva, a cultura e a sociedade passam, como ocorre hoje em dia: mundo absurdo de finalidades sem fim. Ao contrário, submetida a um fim não racional, dependente, por exemplo, da vontade (projeto político arriscado, aposta científica, etc), a Razão subjetiva deixa de ser alienante fazendo-se, deste modo, instrumento de poder. Hoje em dia, desde a biologia até a antropologia, desde as ciências políticas até a economia, o racionalismo é uma pura ruína. Não obstante, continua atuando nas ideologias e nas utopias sociais. A destruição desse racionalismo e a relativização da idéia de Razão é, pois, uma tarefa prioritária.

47 – REDUCIONISMO

Processo intelectual que atua por redução de um todo a uma só de suas partes, de um fenômeno a uma só de suas causas, de um fato social a uma só de suas dimensões, isoladas desse modo estas últimas erigem-se em absolutos ou universais.

O Reducionismo fundamenta-se, em primeiro lugar, numa atitude behaviorista e ambientalista, que reduz o comportamento orgânico e pluridimensional do homem a um esquema estímulo-resposta ou a um mecanismo psico-químico. Por extensão, o Reducionismo aplica-se a um tipo de raciocínio comum às doutrinas igualitárias. Ao reduzir a história social à economia (mercado ou luta de classes), o psiquismo à razão, ou à alma imortal ou, inclusive, à libido sexual, as necessidades ao bem-estar consumista, etc, o esquema é sempre o mesmo: o real se declara provisório em vistas de um critério universal supostamente igual para todos, mas ao qual a opressão ou injustiça impede triunfar. Racionalismo, freudismo, marxismo, liberalismo, todos estes atuam por mecanismo reducionista, reconduzindo os processos metafísicos do Cristianismo através do rechaço à complexidade do real e da vida e construindo uma utopia inalcançável.

O reducionismo é também mecanicista e individualista: o Todo é sempre considerado como um agregado de átomos os quais alguém sempre poderá isolar. Por exemplo: a sociedade não seria mais do que uma soma de seres humanos abstratos. Reativo à toda visão politeísta do mundo, o Reducionismo está arruinado pela epistemologia moderna que demonstra que um fenômeno é sempre plural e que seu dinamismo provem de uma interação complexa entre suas partes, que podem ser contraditórias e que se ajustam em níveis hierarquizados (ver Holismo e Orgânico). Por exemplo: a Etologia demonstra que o comportamento agressivo é a contrapartida ao comportamento amistoso e que, por sua vez, está unido à ele. O homem é por sua vez guerreiro e pacífico, está geneticamente determinado e é culturalmente livre. Sua experiência toma sentido somente por aquilo que lhe é inato e atualiza-se através do adquirido. O anti-reducionismo, assim como nossa concepção de mundo e a atitude científica moderna, caracteriza-se por uma aceitação de todo um real e o conjunto de seus níveis de interação (microfísico, macrofísico, biológico, filogenético – evolução –, psico-sociológico, histórico, etc) leva-nos a aceitar a polifonia do mundo.

48 – REGIÃO

Subconjunto espacial cuja individualização e permanência tem sua origem na interação de fatores geográficos e históricos, quer dizer, é o resultado da confrontação e da interação de uma cultura de determinado grupo humano com um meio natural dado. A Região constitui, segundo uma visão organicista do mundo, a projeção no espaço de um nível específico de organização de uma comunidade política.

Uma individualidade geográfica não é o resultado de simples considerações geológicas e climáticas, não é algo surgido do nada na natureza. É preciso partir da idéia de que uma Região é uma reserva onde dormem energias que a natureza depositou num núcleo, mas cujo emprego depende do homem. É ele que, submetendo-a, lança uma luz sobre sua individualidade. Ele estabelece uma conexão entre traços dispersos e substitui os traços incoerentes, das circunstâncias locais, por um concurso sistemático de forças. É, então, quando uma Região se desenha e se diferencia, convertendo-se numa grande medalha construída com a personificação de um povo (Vital de la Blanche).

Os grandes espaços estruturados pela rede regional são características das mais antigas civilizações sedentárias. Efetivamente, com a emergência destas civilizações, conseqüência direta da “revolução neolítica”, começou verdadeiramente o processo de enraizamento do homem em seu solo. As inovações culturais decisivas que foram as técnicas agrícolas primeiro e metalúrgicas depois, permitiram a ação engrandecedora de diversos grupos humanos sobre seu meio ambiente. É, então, a partir dos primeiros núcleos desenvolvidos convertidos em celeiros e oficinas, que se pôde por em marcha a grande empresa humana de conquistar o mundo, levada, mais tarde, ao paroxismo pelos povos europeus.

Trata-se, aqui, de um fenômeno muito complexo, marcado desde seu início por um duplo movimento, evoluindo sobre um ritmo pendular: processo de homogenização por uma parte, e diferenciação por outra. Efetivamente, integração e assimilação (aculturação) têm sido traços permanentes da dinâmica de expansão das grandes civilizações. Mas, por outro lado, esta lógica tem sofrido sempre a tripla coação dos fatores tempo, espaço e variabilidade cultural – este último fator remetendo o elemento especificamente humano, o mais decisivo – que constituem, de fato, as três dimensões fundamentais próprias da História. É o jogo combinado desses três fatores que está na origem do caráter tão variável e móvel dos fatos humanos, partindo de sua diversidade. Não insistiremos em demasia no fator tempo; condicionado aos outros dois, introduz imediatamente as noções de evolução e mutação. A variabilidade cultural derivaria, pois, da natureza geneticamente aberta, mas não inteiramente determinada, do comportamento humano. Frente a um meio cambiante existe adaptação livre: a natureza propõe, o homem dispõe. Enfim, relembremos o papel capital da dimensão espacial, freqüentemente esquecido. Este é o teatro da ação humana. Agora bem, seu caráter não é indiferenciado; a superfície terrestre, e por conseqüência as condições que nela reinam, não são uniformes, por esta razão a localização de um fenômeno num ponto particular do espaço não é de todo indiferente (ver Geopolítica). As grandes civilizações históricas não se desenvolveram ao azar, mas sim que, pelo contrário, fizeram-no em zonas geográficas bem determinadas. Sua eclosão realizou-se quando deu-se um certo número de condições geográficas vantajosas. Do mesmo modo, no interior destas áreas de civilização, o habitat estabeleceu-se preferentemente nas regiões mais propícias às necessidades dos homens. A população humana não esteve nunca uniformemente repartida. Na origem, várias zonas desérticas, quase vazias da presença humana – bosques, planícies, montanhas, estepes, etc –, rodeavam os núcleos habitados. Com o progresso técnico e demográfico, estes “desertos” reduziram-se pouco a pouco, sem que por isso a distância entre os grupos humanos, enquanto que expressão da dimensão espacial, tenha chegado a ser anulada.

O fato regional nasce em tal contexto: é o resultado de uma confrontação secular, e inclusive milenar, entre as bases geográficas particulares de um solo e a cultura especifica de uma população. É preciso assinalar que visto o confinamento sempre relativo da população, as influências exteriores que sofre, as quais contribuem, por outra parte, para a maturação de sua identidade – mediante uma estimulação e uma assimilação ativa –, ela (a população) depende igualmente da situação geográfica do território considerado.

Historicamente, duas grandes zonas de civilização constituíram os pólos culturais e geopolíticos do mundo antigo – que durante muito tempo foi o mundo seco –: Europa por um lado e China pelo outro. Em ambos os casos observamos conjuntos cuja diversificação interna e antiga estruturação regional, oferecem um paralelismo certamente surpreendente. No caso da Europa, a qual nós nos vinculamos, a História ensina que sua estrutura regionalizada constitui um de seus traços distintivos fundamentais. É tal caráter que a distingue de sua prolongação russo-siberiana, pois a Europa – indevidamente elevada à classe de continente pelo chauvinismo dos geógrafos europeus – não passa, na realidade, mais do que uma ponta ocidental da Eurásia, e nenhum limite geográfico preciso chega a separá-la das profundidades do espaço euro-asiático, a não ser precisamente a estrutura compartimentada de sua paisagem e a múltipla articulação de sua conformação, penetrada em todas as partes por mares ou cortadas por cadeias montanhosas, configuração esta que lhe opõe no Levante à massividade indiferenciada das planícies russas. Aqui, entre o Báltico e o Mar Negro, ao leste da linha Königsberg – Odessa, jamais nenhuma região histórica pôde verdadeiramente tomar corpo, o observador só distingui governos, distritos, khanatos, varridos pelos ventos das estepes ou cruzados por bosques infinitos. Como uma exceção notável temos os países bálticos. Seu exemplo ilustra bem o caráter cultural e político do regionalismo europeu. De fato, sobre um marco o qual a geografia não mostrava nenhum traço destacado, as etnias européias adaptaram-se tanto para modelar a paisagem, segundo seu gênio, como para preservar ou impor suas instituições frente a um meio hostil. Tal foi o caso dos alemães entre o Oder e o Niemem, ou o caso do Báltico, que é também o caso dos povos hispânicos após a reconquista.

Deste modo, a estrutura regional da Europa constitui sua profunda armação modelada pelos séculos, apesar de contínuas oscilações locais estabilizadas há algum tempo – em grande parte após a alta Idade Média e mais tardiamente nas zonas periféricas. Dito de outro modo, as Regiões representam as peças constitutivas da Europa, seus elementos permanentes com os quais construíram-se e desfizeram-se diversos impérios, nações e estados que marcaram sua história; trata-se aqui de uma manifestação da essência “politeísta” de uma cultura comum dos povos europeus. Toda construção de um autêntico Império europeu deverá não só ter em conta o fato regional, mas sim fazer dele o fundamento próprio de sua criação para assegurar sua duração e continuidade.

Nesta perspectiva, a Região é percebida não só como um fato referencial claro, mas sim como um componente orgânico essencial de um estado comunitário, e o regionalismo como uma arma estratégica e tática, em vistas à instalação de uma Europa politicamente unificada.

49 – RELIGIÃO

Vínculo criado entre os homens – e entre os homens e o universo – pelo sentido do sagrado, adequado para soldar uma comunidade e para desenvolver espiritualmente (o que implica a convicção de que há algo por cima e mais além de si mesmo) um ideal, um projeto; indispensável para a ordem interna de uma cultura e para a estruturação de instituições.

Os Politeísmos Pagãos constituíam, desde nosso ponto de vista, religiões mais autênticas do que o judaico-cristianismo, porque a comunidade política, a pátria ou a cidade, eram os centros dos cultos e encarnavam-se nos Deuses. O judaico-cristianismo é, em sua essência, mais ideologia e moral do que Religião, já que é, antes de tudo, obediência a uma lei e promessa de salvação para os indivíduos. O caráter “religioso” do cristianismo lhe foi concedido pelo seu sincretismo com a Religião pagã. A Religião, efetivamente, procede de uma ortopraxia (rito conforme o espírito de uma comunidade) mais do que de uma ortodoxia; a Religião é forma e imagem (estética) – noções que rechaça a Bíblia –, mobilização pelo rito, único capaz de criar o mito. O ateísmo e o niilismo contemporâneos têm sua origem na laicização dos ideais evangélicos na sociedade. Hoje o retorno dos Deuses deve ser entendido como a regeneração, não de crenças arqueo-pagãs em divindades existentes, mas sim de valores comunitários e históricos, que unem e guiam a comunidade popular.

50 – SAGRADO

Atributo de um fenômeno ou de um movimento de consciência cuja natureza possui, por sua vez, a característica de dar um sentido poderosamente mobilizador, criar um vínculo religioso e espiritual e engendrar um valor tal que incite à distância, e/ou ao mistério, e/ou à intensidade compreendida como fulguração, como iluminação interior.

Noção essencialmente pagã – e denunciada como tal hoje em dia por certos autores judaico-cristãos (B.H. Levy) –, o Sagrado diferencia-se da santificação do Cristianismo que só reflete, por sua vez, obediência a uma lei maniqueísta. O povo, a guerra, a morte, o eros, a soberania, podem converter-se, em circunstâncias precisas, em portadores de sacralidade. Assim como cada função tinha seu deus no Politeísmo, igualmente em nossa visão de mundo não dualista, toda atividade humana, ao ser polimorfa, é portadora do Sagrado e do profano (ver Anti-reducionismo); por outro lado, é o Cristianismo o que historicamente introduziu a distinção entre o Sagrado e o profano nas sociedades européias. No paganismo tradicional, a natureza é produtora do Sagrado e o homem reúne essa produção; no paganismo moderno, caracterizado pela consciência fáustica na qual o homem produz-se Demiurgo, este como tal, passa a ser senhor do Sagrado e não somente seu intérprete (ver Sentido). Por exemplo, o risco e a aventura experimentados por um povo, que escolhe enfrentar um determinado desafio, constituem elementos desta imanência e deste domínio do Sagrado. Isto é certo para cada um de nós, pois o Sagrado está em nosso interior se realmente assim o queiramos.

51 – SELEÇÃO

Processo que acompanha a evolução natural e o movimento histórico das culturas, ou os fenômenos sociais; pela qual desaparecem formas por causa da inadaptação a um meio cambiante – ao término de uma competição – enquanto que outras formas aparecem mediante a vitória e a adaptação.

Na Seleção Natural as mutações mais favoráveis com relação ao meio são selecionadas com vistas à sobrevivência do mais apto. A Seleção pode ou não tomar o aspecto de um combate direto entre os congêneres. A Seleção é um dos elementos estruturais chaves da vida biológica ou cultural. A pressão seletiva se exerce também na cultura, onde as instituições estão em perpétua competição umas contra as outras. Uma Tradição é o resultado de uma Seleção. Na sociedade, a circulação das elites obedece ao mesmo processo, na sociedade mercantil a Seleção toma o aspecto de “luta de classes”, já que, reduzida a sua dimensão econômica tal como define o liberalismo, passa a ser incompatível com o sentido comunitário e rompe o consenso; daqui o rechaço atual à Seleção social – rechaço que não tem efeitos práticos, mas agravam as iniqüidades – compreendida como uma discriminação, algo que se sucedeu várias vezes. Não obstante, o rechaço a todo tipo de Seleção é fixa da mentalidade entrópica própria do conceito de mundo judaico-cristão, para qual o combate e o conflito – fenômenos vitais – são rechaçados. Enquanto a nós, aceitamos a Seleção natural até o ponto em que as tradições adaptadas não são suprimidas, e aceitamos igualmente a Seleção social se ela estiver fundada na meritocracia, se obedece à princípios aristocráticos, se não rompe a solidariedade comunitária, se respeite a igualdade de oportunidades e se não se apresenta como uma seleção de classes. Acrescentamos, por outra parte, que entre os povos se manifesta igualmente uma Seleção ainda quando seus resultados não são nunca decisivos. Não existe o “povo eleito”.

52 – SENTIDO

Objetivo supremo pelo qual os homens mobilizam toda sua existência. O Sentido não deve ser confundido com valores, pois ele os organiza, ordena-os, hierarquiza-os e os põe em perspectiva. Para a ética pagã, o homem é criador de um Sentido; numa perspectiva orgânica a soberania dá um Sentido globalizador ao destino de um povo, no qual se inscrevem os destinos individuais. No judaico-cristianismo o Sentido pertence a Deus, situado fora do mundo, ficando o homem despossuído de Sentido. O mundo está predeterminado a um fim do qual não pode escapar, é a teleonomia. O “pecado original” no Gênesis consiste no gesto do homem que contra a proibição do Criador, colhe o fruto da árvore da ciência, e ao fazê-lo, institui-se como doador de Sentido. A criatura ascende, assim, através deste gesto desafiante, ao status de criador. As ideologias ocidentais laicizaram este esquema: sentido da história, do marxismo; ideologia do progresso, do liberalismo, etc. Na sociedade mercantil, o racionalismo econômico priva o homem e as culturas da possibilidade de escolher um sentido para a existência (destino): o indivíduo torna-se heterônomo e a sociedade absurda, postura de “implosão de Sentido” (Baudrilard). O niilismo das ideologias surgidas com o judaico-cristianismo provem daquilo que precisamente despossuíram do homem: a criação de Sentido. Na ética pagã, o não-sentido do mundo e a liberdade arriscada e aleatória do homem, não são geradoras de angústias ou de pecados, como é o caso da moral bíblica, mas sim, pelo contrário, de mobilização religiosa (consciência trágica). A ciência moderna, que reconhece o Universo como alógico e desprovido de razão suprema, permite inaugurar uma modalidade fáustica de ação humana, atualizável mediante os meios e possibilidades que a técnica ponha a nosso alcance (ver Vontade de Poder e Modernidade).

53 – SOCIEDADE MERCANTIL

Sociedade na qual as ações e a mentalidade estão governadas pelo espírito mercantil, onde “tudo” tem um preço mas nada tem valor, inclusive o que não é econômico ou comercial – funções e relações sociais –; tudo é considerado como mercadoria.

A sociedade Mercantil – termo preferível à sociedade capitalista – domina a sociedade ocidental, transcendendo os regimes políticos e, mesmo tendo sua origem nas doutrinas do liberalismo, acomoda-se perfeitamente à gestão do estado-providência, não estando, por isso, necessariamente vinculada à economia de mercado nem ao mercantilismo econômico. Dominada pelo espírito de calculo, característico do burguesismo, a Sociedade Mercantil reduz a diversidade das funções sociais e a pluralidade das relações sociais ao modelo economicista do câmbio, como se a sociedade não fosse mais do que um mercado, e o bem comum a soma das transações entre as preferências interessadas de atores sociais individuais (o que por outra parte forma o postulado básico dos “novos economicistas” que intentam dar um “segundo hálito” ao liberalismo).

54 – SOBERANIA

Função que encarna os valores superiores e fundadores, unidos na História, na concepção de mundo indo-européia.

A Soberania, em nossa óptica, pertençe ao âmbito do religioso e do político, estando este subordinado àquele.

Assegura o destino de um povo ao longo de sua existência. Presente em uma instituição suprema, cujas formas podem variar, os valores soberanos podem expressar-se do alto ao baixo da escala social, em diversas instâncias (holismo), relativizando, hierarquizando, submetendo outros valores, e por tal fato, e tornando-os perfeitamente legítimos (ver Organicismo e Orgânico). A Soberania não pode ser confundida de modo algum com um Estado central, unificador, individualizador e igualitário, pelo contrário, a Soberania é de toda oposta ao estatalismo e ao centralismo contemporâneo, que tornam impossível toda autoridade soberana (ver Sociedade Mercantil).

Um comunidade que esqueça ou ignore o sentido da Soberania está, a curto prazo, condenada à morte.

55 – TOTALITARISMO

Redução das normas culturais, projetos coletivos, formas e finalidades sociais a uma totalidade fechada e unilateral, resultante da imposição à sociedade de uma moral e de uma ideologia unidimensional, fundada sobre absolutos geralmente vinculados ao Igualitarismo.

Durante mais de mil anos o judaico-cristianismo intentou impôr à Europa uma sociedade totalitária com o nome de “cristandade”. Laicizado, o Cristianismo fundou os totalitarismos modernos que pretendem impor uma definição do homem, do político, do social, em forma de verdade revelada. Podemos dizer, sem dúvida alguma, que o Totalitarismo é um tipo de Monoteísmo: unifica os projetos da sociedade e as visões históricas ao redor de um valor dominante de conotação igualitária; o economicismo das ideologias ocidentais é, por exemplo, portador de um totalitarismo. O Totalitarismo é o fruto do igualitarismo, já que este último exige uma homogenização do social segundo leis de equivalência.

Se o comunismo marxista mostra um Totalitarismo autoritário, o liberalismo e a socialdemocracia (social estatalismo) funcionam mediante um Totalitarismo latente e “suave” (ver Estado Providência), que por ser menos evidente não é menos perigoso. Este último manifesta-se pela inflação regulamentada, o paternalismo social e a previsão anônima das burocracias: os indivíduos tornam-se heterônomos dentro da sociedade, governados desde o exterior por instâncias cada vez mais fortes que se legitimam através de um discurso libertário e hiper-democrático, apoiados assim sobre conceitos singulares – Liberdade, Igualdade, etc – que intentam impôr pela força sua aplicação no social. Encerram a vida numa totalidade fechada na qual a economia, a cultura de massas, o ensino, etc, atuam na fabricação de um homem unidimensional. Deste modo, o Totalitarismo pode estar latente em uma sociedade permissiva que se auto-considere tolerante. Todos aqueles que se rebelem contra este Totalitarismo brando, serão considerados nossos aliados objetivos.

56 – TRADIÇÃO

Traço cultural específico de um povo, particularmente carregado de valor e sempre conservado por uma seleção cultural em razão de sua constante adaptação e de sua intemporalidade. A Tradição é necessária para um comunidade que queira definir-se e tomar uma consciência histórica.

Para nós a Tradição é um eterno recurso que não se opõe ao futuro ou ao moderno, mas pelo contrário, que os funda. Por outro lado, a modernidade forma parte de nossas Tradições. Em nossa visão da História, os projetos e as aspirações do futuro são postas em perspectiva das Tradições. A Tradição faz referência tanto a atitudes mentais (visão de mundo pagã, mito imperial) quanto aos ritos (solstícios, natal, etc), que devem permanecer imutáveis a fim de que a dinâmica da chegada do futuro seja equilibrada por um enraizamento. Hoje em dia as Tradições são destruídas (aculturação, americanismo, cosmopolitismo) ou neutralizadas no folclore. As tradições podem ser regeneradas ou “reinventadas”, inclusive após um período de interrupção.

Um dos maiores objetivos do Paganismo é de reativar uma Tradição que não seja parte da tradição oficial (ensinamento de um ocidente cristão primeiro e progressista depois); esta liberdade a respeito de sua próprias Tradições está em antítese com uma visão determinista da história. Podemos escolher Tradições entre várias possíveis, pois assim como o futuro, o passado também está aberto. Neste sentido não somos tradicionalistas. Outra particularidade: nossa eleição de uma sociedade tradicional não tem a ver com o gosto pelo passado.

Uma “sociedade tradicional” escapa ao presente contemporâneo; ao contrário, voltada à modernidade, respeita suas tradições e as constitui em memória viva. Um povo sem memória é um povo sem alma e, portanto, sem futuro. Sobre este ponto Cícero resumiu a opinião dos antigos ao escrever: “o mesmo espírito que vê o futuro é amigo do passado”, e Nietzsche conclui com uma célebre frase: “o homem do futuro é aquele que terá a maior memória”.

57 – TRÁGICO

Sentimento característico da concepção de mundo pagã, que assume a vida como aleatória, arriscada, ameaçada pela morte e desprovida de outra finalidade que não seja a que lhe imprima, mediante combate, desafios à vontade humana.

O sentimento Trágico do mundo não é pessimismo. O Trágico não é só o dramático ou, ao modo cristão, a percepção do mundo desgraçado, pelo contrário, do trágico procede a alegria, porque calca-se a experiência na vida tal como ela é.

Em todo momento da existência é necessário que hajam eleições e, portanto, sacrifícios. A Vontade de Poder supõe neste sentido uma asceses: sacrificar um possível para obter – ainda que não se tenha certeza – outro possível maior ainda. Ao reconhecer que o destino dos povos, assim como o destino individual, estão constituídos deste modo, o sentimento trágico impulsiona à ação e à audácia. Isto é o oposto das mentalidades atuais, herdeiras do finalismo judaico-cristão, no qual a vida não é, e não deve ser, arriscada, e onde reina um espírito determinista tentado pela segurança, a “garantia”, a preservação de uma vida sem intensidade (porque espera uma “salvação” e uma felicidade final prometida)e uma prudência passiva. Tudo contrário ao espírito vital e criador próprios da mentalidade trágica (ver Trabalho), que encontramos no mito de Fausto. Podemos observar esse contrário no espírito de cálculo burguês e na psicologia tecnocrata. Em nossa época de convergência de desafios planetários, um renascimento histórico europeu requer uma renovação do “ativismo trágico”.

58 – TRABALHO

O Trabalho representa a transformação que opera o homem sobre seu meio, concebido como manifestação de sua Vontade de Poder e atividade privilegiada, onde o humano manifesta-se como tal, quer dizer, como criador de formas, iniciador de cultura.

Na concepção bíblica do Trabalho, este é desvalorizado como castigo por causa do pecado original. No Cristianismo o Trabalho é uma asceses, um instrumento de salvação, se o ama-se em si mesmo (como expressão da Vontade de Poder), isto se converte em pecado de orgulho, um desafio a Deus. Como anatematizadores deste sentido do Trabalho, o puritanismo primeiro e a sociedade mercantil depois, reduzem-no a um meio de aquisição de riquezas e bem-estar. A despeito dessas ideologias, e em contradição com elas, a cultura européia desenvolve uma força de Trabalho transformadora do mundo, o que, por outro lado, permite-lhe, antes, dominar e transformar o meio terrestre, amanhã, o cósmico. Nossa visão do Trabalho tem valor por si mesma, primeiro como vínculo comunitário de um povo, segundo como materialização de projetos históricos de ação sobre o mundo. A essência do Trabalho não é, pois, “econômica”, e o proletário não constitui sua única figura. O trabalhador que se opõe radicalmente ao burguês como figura histórica, simboliza um tipo de homem criador, cuja personalidade constitui-se pela participação no Trabalho enquanto que Vontade de Poder coletiva, que dá, assim, um sentido à sua existência. Na sociedade contemporânea, invadida pela cultura do ócio e do não trabalho, este está moralmente desvalorizado, pelo fato de sua organização individualista e mercantil e pela banalidade de suas finalidades (bem-estar e conforto). Trata-se, para nós, de voltar à dar ao Trabalho seu verdadeiro sentido, insistindo sobre o fato de que através de seu Trabalho o trabalhador transforma-se, modela-se, constrói à si mesmo.

59 – TRIPARTIÇÃO

Denominação de uma estrutura da sociedade em três funções, e de um concepção de mundo (ou de uma cosmogonia) onde a própria sociedade encontra sua legitimidade; própria dos povos indoeuropeus onde se individualizam uma função religiosa e soberana, uma função guerreira e uma função produtiva, seja biológica ou econômica.

Característica de uma visão não igualitária do mundo (ver Igualitarismo), que traduz uma percepção holista da sociedade (organizada como um todo hierárquico com níveis de integração diferentes, valores dominantes e valores subordinados), a Tripartição ideológica atesta a aceitação pelos indo-europeus da divisão da sociedade realizada no momento da revolução neolítica.

Da Índia à Escandinávia, de Roma à Europa Medieval, a Tripartição tem funcionado como sendo verdadeiramente a concepção social dos povos indo-europeus. Opõe-se ao monofuncionalismo social herdado do Monoteísmo judaico-cristão o qual atribuí à toda sociedade a mesma função. Esse monoteísmo social materializou-se, nos tempos modernos – após a laicização contemporânea do Cristianismo – , nas ideologias igualitárias e mercantilistas; as funções aqui são substituídas pelas classes sócio-econômicas; a pluralidade dos valores sociais, federada por um mesmo sentido, é substituída pela unidade do valor mercantil (ver sociedade Mercantil), que penetra todas as atividades e converte-se em finalidade monopolista.

Inventar para o mundo moderno uma nova ideologia tripartida é, por exemplo, defender o retorno de uma soberania frente ao estatalismo, advogar pela subordinação da economia ao político, ou acabar com a servidão do âmbito militar às considerações pressupostas à curto termo; também supõe dar à função produtora seu lugar legítimo: todo seu lugar, mas nada mais que isso.

60 – UNIVERSALISMO

Propensão filosófica, característica do judaico-cristianismo e suas ideologias derivadas (ver Ideologias Ocidentais), de generalizar, na natureza e no gênero humano, idéias ou atributos particulares, reais ou imaginários, erigindo-os em universais de caráter absoluto (ver Reducionismo).

Universalizando, por exemplo, os traços culturais ocidentais ou projetos igualitários de sociedade e inclusive noções como razão, direito individual, etc, o Universalismo, que se opõe ao nominalismo, traduz uma vontade totalitária de unificar, de homogenizar as formas de civilização. A democracia, a libido, o mercado ou as lutas de classes foram erigidos em universais. Portanto, a epistemologia contemporânea podemos dizer que invalida o Universalismo fazendo luz sobre a vaidade consistente em pretender separar natureza física das leis universais – a natureza é polisegmentária –, enquanto que o modelo de nossa sociedade e de alguns hábitos universalizados mostra hoje em dia o conjunto de suas conseqüências negativas.

O Universalismo é uma ameaça mortal à especificidade dos povos. É uma arma ideológica tipicamente totalitária.

61 – VALOR

Atitude de vida ou idéia concretizável, que na concepção de mundo própria de uma cultura ou de uma religião, cristaliza, num apego particular, um modo de estar no mundo, simbolizando e significando tal modo de estar.

As idéias só têm legitimidade para nós, se se recobrem da Valores. A Metapolítica aspira a acreditar em tais “idéias portadoras de Valores”.

Cada concepção do mundo compreende uma escala de Valores hierarquizados. Estimamos que os Valores contrários em aparência podem coabitar, à condição de que cada um tenha sua função e sua classe hierárquica, isto só é possível nas concepções de mundo e nas culturas orgânicas. Por exemplo, os Valores de soberania não podem coabitar com os valores mercantilistas do cálculo e da ostentação social, a não ser que estes estejam submetidos àqueles. A sociedade mercantil e o liberalismo caracterizam-se pela unidimensionalidade dos valores: os valores mercantis produzem todas as funções sociais, e isto não é mais do que uma herança do monoteísmo.

Com o agravamento do niilismo podemos observar atualmente um renascimento desordenado, mais positivo, de centros de Valores; apesar de desordenados pelo menos não são controlados pelas ideologias dominantes e pelo judaico-cristianismo, entretanto, podem servir de disfarce, para a juventude, a novos modos de vida dionisíacos, liberações sexuais, etc. Assinalemos também a persistência de certos Valores fortes do psiquismo europeu no trabalho, na técnica, na guerra, etc; por isto, nós não cremos na “crise de valores” denunciada pela velha direita; nossa sociedade caracteriza-se, contrariamente, pelo nascimento de uma grande nuvem anárquica de Valores positivos, e pela persistência de Valores pagãos aos quais nenhum “sentido” nem qualquer “proveito”, realizam nem harmonizam. É nossa função, numa era de ossificação dos Valores cristãos convertidos em tabus, formular esse projeto: propor ao nosso povo um sistema de Valores que lhe permita encontrar um sentido e tomar consciência de seu destino.

62 – VONTADE DE PODER

Tendência imperiosa ao acrescentamento da vida e da empresa humana sobre o mundo, cujas raízes são, por sua vez, biológicas e culturais, individuais e coletivas.

A Vontade de Poder é uma tradução humana consciente, do impulso vital das formas vegetais e animais, que as lança na contracorrente da entropia da matéria inanimada. Energia complexa que supõe, para um povo, a eleição de um destino; para uma linhagem, a transmissão de uma herança dominante; e para um indivíduo, a vontade de deixar sua marca. Perfeitamente natural, a Vontade de Poder tem sido desqualificada, pelo judaico-cristianismo e seus sucessores, como manifestação de orgulho. É preciso distingui-la do vulgar desejo de domínio individualista, de essência mercantil e politiqueira. A Vontade de Poder supõe asceses, é o sacrifício do presente para o futuro, do interesse individual ao de uma comunidade. Enquanto as concepções igualitárias e burguesas são vendidas como vias de acesso à felicidade, nossa concepção do mundo lhe opõe a Vontade de Poder como meio de mobilizar psiquismos individuais. A técnica moderna deu à Vontade de Poder a possibilidade de atualizar-se pela primeira vez na história como forma, não tão somente como sentido. Daqui a contradição entre o hedonismo ideológico de nossa civilização e essa Vontade de Poder em ato, que não está verdadeiramente assumida e que se vê degradada em pulsões materialistas (domínio através do dinheiro, etc)(ver Modernidade).