segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sérgio Fritz Roa - Lovecraft Contra a Modernidade

por Sérgio Fritz Roa



Falar sobre H.P. Lovecraft (1890-1937) não somente é referir-se ao terror cósmico, mitos vindos de tempos perdidos para a memória do homem, cultos espantosos de inconcebível significação, livros proibidos e a uma demonologia bastante pessoal. Se assim fosse, simplesmente Lovecraft não ocuparia o posto que hoje reconhece-lhe-se nas letras (e escrevo isto considerando exclusivamente aos leitores; os críticos ainda travam debates em torno a quem é ademais um personagem controvertido). Lovecraft é ademais um visionário, um psicólogo de nossos medos e aquilo que ninguém parece dar-se conta: um crítico da modernidade e de sua filha, a ilusão pós-moderna. E é justamente este o aspecto - metapolítico - da obra lovecraftiana que aqui desejamos tratar, não sem antes fazer uma assaz sintética biografia.

Nascido em Providence, Nova Inglaterra, Estados Unidos, Lovecraft foi educado exclusivamente por sua mãe e tias. De maneira autodidata devorará todo tipo de saber; submergindo-se em tenra idade nos cálidos mananciais da letra impressa e começando o lento caminho de escrever. Sua primeira história "The Noble Eavesdropper", segundo o estudioso lovecraftiano S.T. Joshi, dataria de 1896. Lovecraft criou suas próprias revistas, que distribuirá entre amigos, desde os nove ou dez anos. Posteriormente publicará artigos de astronomia em revistas como "The Pawtuxet Valley Gleamer" e "The Providence Sunday Journal". Não obstante, será no fanzine "Weird Tales" (1923-1954) onde editar-se-á a obra que torna-lo-á eterno.

Ainda que segundo muitos sua vida foi a de um recluso, não pode-se dizer que esteve "desconectado" do mundo. Sabia muito bem o que ali ocorria. A informação recebida em seus passeios por Providence e nas viagens a outras cidades (Nova Iorque, Boston, Flórida, etc.) era complementada por livros, diários, revistas, e pelo meio de comunicação que mais venerava: as cartas. Ademias teve a sorte de contar com excelentes amigos, que frequentemente convidavam-o a suas casas.

Lovecraft amava sua mágica Providence, e também àquela nação que deixou seus filhos ali: a Inglaterra dos puritanos. Não a Inglaterra do século XX, senão aquela dona de valores próprios, totalmente contrários ao que engloba o "moderno". Igual admiração recairia na legendária Roma Imperial. O profundo conhecimento que teve da história desta última não deixa de causar-nos admiração. Basta ler, por exemplo, a carta escrita a seu amigo, o escritor de ficção científica, Donald Wandrei, em 2 de novembro de 1927, para perceber o estudo que dedicou a estas matérias.

De todas as críticas ao mundo moderno - Nietzsche, Guénon, Evola, Heidegger, Jünger, Benoist, etc - possivelmente a mais original, junto com a de Céline, seja a de Lovecraft. Esta não é a postura do filósofo ou do político, senão a do poeta. Critica-se a modernidade não tanto por sua injustiça, por seu sistema econômico baseado na "moral" do mercador, por sua devoção ao consumismo - ainda que ninguém poderia negar que isto importa - senão por sua feiúra intrínseca. Feiúra na arquitetura, feiúra na linguagem, feiúra na forma de conceber a vida...feiúra nos olhares. Esta visão, a visão crítica do poeta, encontramos também em outros homens de letra, como Pound ou Mishima, porém em Lovecraft adquire um caráter único, menos polêmico e mais pessimista. Ou seria melhor dizer realista?

Se bem Lovecraft definia-se como uma pessoa das ciências, materialista mecanicista e "conservador quanto ao método e à perspectiva geral", a verdade é que em sua obra nada ou muito pouco há daquilo. A crítica feita em seus relatos à estreiteza da ciência e do racionalismo, aproxima-o a um autor admirado pelo próprio Lovecraft (e com ele a dupla Bergier-Pauwels): Charles Fort. Para ambos, a ciência é o que serve para esconder a realidade primordial, o que espreita em nossa mente e que habita em todo éon e em todo espaço; enfim, aquilo que constitui o mistério da vida.

Mais que racionalismo encontramos em Lovecraft gnosticismo. Já Serge Hutin em seu livro "Os Gnósticos" notava-o.

Um problema com que topamos ao tentar entender a vida (ou deveríamos dizer as vidas?) de Lovecraft e que relaciona-se sobremaneira com o que estamos tratando, é a postura frente à democracia norteamericana e sua suposta simpatia pelo fascismo.

Este é um tema difícil, onde a especulação chegou ao mais atrevido. Não deixa de ser chamativo que haja-se escrito um texto dedicado especialmente a este assunto: "O Livro de Lovecraft", de Richard Lupoff (Valdemar Editores, España, 1992). Fazer preponderantes as idéias políticas em autores não políticos, é algo não muito original nestes tempos. Pense-se no inquisidor Victor Farías e sua condenação ao filósofo Heidegger, para citar apenas um recente caso.

Cremos, não obstante, que a postura "política" lovecraftiana, a que não deixa de ser mais que isso, uma posição ideológica e não prática, é demasiado pessoal para ser classificada nos totalitarismos de signo fascista. Em verdade, corresponde ao ideal do nobre inglês dos séculos XVIII e XIX o do aristocrata romano. Precisamente o paradigma contrário ao representado no "American Way of Life" que hoje é universal. 

Lovecraft, como alguns escritores (Robert E. Howard, A. Machen e C.A. Smith, são outros casos paradigmáticos), faz da fantasia uma arma para arremeter contra o mundo moderno. A fantasia (que não é o mesmo que evasão) é um dos grandes poderes e possibilidades da literatura, que tem como nota característica a faculdade de criar ou reviver o mundo que desejamos. De imediato surge a pergunta acerca de qual é o mundo desejado por Lovecraft. De todo, certo é que não é o mundo descrito em "O Chamado de Cthulhu" (1926) ou em "O Modelo de Pickman" (1926) - ainda que não obstante, estes escritos aportem-nos elementos da crítica lovecraftiana: o primeiro é um ataque à frágil segurança em que vive a sociedade atual; e o segundo à idéia de que somente "existe o que vemos".

O mundo sonhado pelo escritor de Providence é o que descreve em suas obras "dunsanianas" (o neologismo faz referência à influência que deixou em Lovecraft o 18º Barão Dunsany, escritor de uma poética fantasia) como "Os Outros Deuses", "A Árvore", etc, e naqueles contos mais propriamente "lovecraftianos" como "A Poesia dos Deuses" e o mágico relato "A Chave de Prata". Neste último, Lovecraft escreve: "Porém quando começou a estudar os filósofos que haviam derrubados os velhos mitos, encontrou-os ainda mais detestáveis do que aqueles que os haviam respeitado. Não sabiam esses filósofos que a beleza reside na harmonia, e que o encanto da vida não obedece a regra alguma neste cosmos sem objetivo, senão unicamente a sua consonância com os sonhos e os sentimentos que modelaram cegamente nossas pequenas esferas a partir do caos".

Onde a visão antimoderna alcança maior intensidade é no relato, quase desconhecido, chamado "A Rua", que trata das etapas na vida de uma rua determinada, a que finalmente toma vingança contra os homens pelo esquecimento das tradições. O amor pelos costumes coloniais e a tristeza pelo que impôs o vertiginoso devir, é descrito de forma que não deixa dúvidas sobre o pensar de Lovecraft. Também em "Ele" a visão do futuro é apocalíptica. O que Lovecraft trata em "A Rua" transforma-se em "Ele" na história crepuscular de uma cidade: Nova Iorque. Anotemos de passo que a decomposição de entidades coletivas - uma rua, uma cidade - recorda "A Queda da Casa de Usher" de Edgar Allan Poe.

Lovecraft será um outsider (como o personagem do conto lovecraftiano de mesmo nome, escrito em 1921). Quiçá isto fará ele perceber processos políticos, econômicos, e acima de tudo, espirituais, que os demais não puderam vislumbrar. E isto expressa-lo-á com uma terrível força: "Todos os ideais da moderna América - baseados na velocidade, o luxo mecâmico, os logros materiais e a ostentação econômica - parecem-me inefavelmente pueris e não merecem séria atenção".

Como outros dois colossos da literatura fantástica, Poe e Machen, Lovecraft sofrerá o desconhecimento de seus compatriotas e de seu tempo. Assim como os escritores assinalados somente será reconhecido décadas depois de sua morte e na distante França, berço de outro mago: o poeta Baudelaira.

Lovecraft, lúcido como sempre, havia dito em "Ele": "Pois ainda que me tenha acalmado, não posso olvidar que sou um intruso; um forasteiro neste século e entre os que ainda são homens".

domingo, 30 de outubro de 2011

O Mito e a Vanguarda

Por Adriano Scianca


O problema da linguagem

Todo movimento autenticamente revolucionário – isto é, portador de projetos radicalmente inovadores e originais a tudo aquilo que se experimentou e em tudo e por tudo heterogêneo e alternativo com respeito ao mundo sócio-político no qual irrompe – inevitavelmente se choca com o problema da linguagem.

Isto acontece porque todo movimento “novo” deve necessariamente fazer uso de uma linguagem “velha”, impregnada da sensibilidade e da lógica própria do mundo ao qual se queria subverter. Além disso, não poderia acontecer de outra forma: a linguagem é sempre a linguagem recebida. Observa com lucidez um filósofo contemporâneo – embora muito distante de nossa perspectiva – que “um sujeito que fosse a origem absoluta do próprio discurso e o construísse “em todas as suas peças”, seria o criador do verbo, o Verbo em pessoa” [1], seria, portanto, o Deus da Bíblia que cria ex nihilo, sendo o “totalmente outro” a respeito do mundo, estando então fora da história e da linguagem. O homem, em troca, encontra-se sempre na linguagem; uma obra de engenharia lingüística lhe resulta completamente impossível, já que sempre deve atuar com os “instrumentos” que encontra em seu lugar. Mas atuar com “instrumentos” pensados para finalidades completamente distintas a respeito das quais se propôs nem sempre é cômodo.

Pensemos em Heidegger – mas problemas análogos já se apresentam em Nietzsche –, que deixa inacabada sua obra prima, Ser e Tempo, porque carece de uma linguagem apropriada; em certo momento ao pensador alemão “lhe faltavam as palavras”, já que todas aquelas disponíveis estão irremediavelmente empapadas da visão de mundo dominante no Ocidente. Mas para que o problema aqui abordado não resulte excessivamente abstrato e individualista, pensemos também em todos aqueles movimentos políticos e culturais que passaram à história com o nome de Konservative Revolution: observando aos slogans, aos lemas, aos títulos dos livros, aos nomes dos distintos grupos, não se pode mais do que perceber certo gosto pelo oximoro, pelo paradoxo, pela violação aberta dos cânones e dos esquemas comuns; pensar em um socialismo que seja também nacional, em uma aristocracia que funda suas raízes no povo, em uma democracia desvinculada da tutela do liberalismo plutocrático, em um cristianismo que afirme valores germânicos (isto é, pagãos) – tudo isto possui origens de muitíssima maior profundidade do que uma simples ânsia por originalidade.

Por detrás de tudo isso se encontra melhor exposta a incapacidade de definir-se a si mesmo de maneira adequada através da linguagem dominante e há, portanto, uma vontade de síntese, uma tentativa de pensar de forma simultânea o que sempre se concebeu como distinto. Um exemplo a mais, porém desta vez mais concreto: pensemos em nós mesmos; ponhamo-nos em relação aos grandes temas da atualidade e tratemos de tomar parte no debata tal e como nos vem apresentado pelos meios de comunicação.

E bem, estamos com a retórica angelical, enjoativa, igualitária e hipócrita dos pacifistas, ou com a cruzada feita a base de bible & business de George W. Bush? Estamos contra os bárbaros imigrantes islâmicos em nome do Ocidente cristão ou somos filo-imigracionistas intransigentes, seguidores do cosmopolitismo e da mestiçagem étno-cultural? Estamos na corrida desenfreada de “desenvolvimento” neoliberal, ou a favor do “retorno” a uma civilização neopastoral, fora da história, ao estilo das últimas tribos africanas? De maneira mais banal: somos de direita ou de esquerda? Estas são as alternativas que nos propõe o mundo contemporâneo. Nosso desconforto ante estas é evidente, já que a posição que deve ser tomada nos parece sempre uma terceira a respeito das quais nos são dadas. Isto acontece na medida em que somos realmente revolucionários, utilizamos uma linguagem diferente. A linguagem do mito.

O mito

Segundo Giorgio Locchi [2], todo movimento que encarne uma tendência histórica nova se apresenta sob uma forma mítica. O mito, precisamente pelo fato de ser “novo” não pode falar uma linguagem totalmente in-formada por valores a ele antiéticos e, todavia, não possui outras formas expressivas a sua disposição; por isso, nasce sob o signo da ambigüidade, sua expressão é o paradoxo.

A respeito dos códigos lingüísticos dominantes, a expressão mítica aparece como heresia, como transgressão, como unidade dos opostos. Isto acontece precisamente em virtude da violação – mais ou menos consciente – da dialética da linguagem utilizada. A linguagem que se parasita se desenvolve e articula-se, de fato, mediante a instituição de pares de opostos e de contrários – que, no caso do igualitarismo são, entre outras, cristianismo/ateísmo, comunismo/capitalismo, nacionalismo/internacionalismo, direita/esquerda, individualismo/coletivismo, reação/progresso, etc. – que refletem a auto-reflexão ideológica do universo político-cultural imperante. A expressão mítica faz um curto-circuito nesta dialética ao não pensar nos contrários como tais. As palavras fundamentais são, por tanto, “falsificadas”. Significados novos são derramados em significantes velhos. Têm-se assim um uso instrumental da linguagem, que não deve mais “explicar” analiticamente, mas deve agora evocar, tocar uma sensibilidade profunda que vai mais além da simples razão. A unidade dos contrários, própria do mito, é dada pelos Leitbilder (imagens condutoras) das quais fala Armin Mohler [3].

Os Leitbilder são os mitemas, as unidade primárias da estrutura mítica, do Weltbild, isto é, da imagem do mundo. São símbolos evocativos, imagens condutoras de uma idéia do mundo. A criação e a difusão dos mitemas instaura um fluxo comunicativo, isto é, a rede das relações humanas mediante a qual o próprio mito se diz e fala. Comunicar é, de fato, instaurar relações, vincular-se aos outros, descobrir afinidades ou idiossincrasias. Os indivíduos estão necessariamente abertos ao próprio contexto comunicacional; se comunicando, tendem também a reconhecerem-se, tendem a tomar posição junto aos quais sentem-se afins. A disposição mítica de quem profere o discurso mítico, na prática, tende a “excitar” a disponibilidade mítica de quem acolhe ao discurso. Quem consiga situar-se como centro da estrutura dos signos lingüísticos do discurso mítico – para utilizar a linguagem “estruturalista” própria – logra dominar (embora somente parcialmente: a linguagem não se domina nunca como uma coisa) o fluxo comunicativo, logra impor-se na produção dos símbolos e se situa como vanguarda metapolítica.

A vanguarda

Portanto, dominar a linguagem. Impor uma nova lógica que desconstrua os paradigmas dominantes, que dissolva e volte a plasmar as formações. A vanguarda deve distinguir-se por “uma ação sistemática e culturalmente subversiva, que trate de introduzir no circuito de idéias “envenenadas”, que trate não tanto de influenciar, demonstrar, convencer, organizar burocraticamente, como de chocar, fascinar, criar dúvidas, gerar necessidades, fazer com que cresçam consciências, produzam atitudes e condutas desestabilizadoras. Deve, em uma palavra, falar e saber falar a linguagem do mito, criar a partir de si mesma seu próprio público, atrair plenamente a atenção tanto das tendências espontâneas de refutação política da realidade do Sistema em suas variadas articulações, como dos arquétipos romântico-faustianos que ainda circulam no inconsciente coletivo europeu”[4].

Chocar e seduzir. Mas, para isto, é preciso de outro estilo, que saia definitivamente da ritualística vazia da nostalgia, dos slogans banais e idiotas, do conformismo sectário. Superar os estereótipos, falar uma linguagem nova, repudiar as lógicas do Sistema para impor outras novas, enfrentar-se ao presente e projetar o futuro – aqui está o nosso objetivo. Devemos praticar – como já o fez brilhantemente a Nouvelle Droite em seu período de ouro – a lógica do terceiro incluso: se participa no debate sustentando sempre uma terceira opinião (logicamente utilizando a cabeça: inovar apenas por inovar é um exercício estéril) em comparação às oposições opostas em que se dividem os seguidores do Sistema.

Deste modo, eles são colocados diante de um discurso novo, para o qual não estão preparados, obrigando-os a tomar um posicionamento e a redefinir os alinhamentos. Os indivíduos habituados, por convicção ou costume ao discurso dominante, nos consideram algo já previsível, nos atribuem de ofício uma identidade composta de ignorância e prepotência, de nostalgia e intolerância, de preconceito e arrogância. Nossa missão é surpreender-lhes, fazer com que se explodam pelos ares as lógicas e os ritmos impostos, escapar às classificações e às etiquetas. O que importa é estar no mundo contemporâneo sempre dispostos a enfrentar-nos com este e a aceitar seus desafios sem ser deste mundo, pertencendo a outra raça, a outro estilo, ligados a outros mitos e a outros valores. Somente assim pode-se escapar de dois comportamentos especulares, mas igualmente perigosos: a ânsia de tomar posição, de participar, de ser recuperados pelo Sistema e admitidos na discussão entre as “pessoas civis”, e a oposta retirada para debates esotéricos e insignificantes, todos internos a um micro-ambiente isolado do mundo.

Depois de tudo, a mesma Nouvelle Droite, embora aqui se tenha tomado ela como exemplo positivo, não aplicou esta estratégia senão de forma parcial, limitando-se ao discurso cultural e filosófico, quase como se uma idéia por si mesma inovadora se tornasse revolucionária pelo simples fato de ser dita. A elaboração ideológica em sentido estrito, contudo, deve integrar-se a uma ação global e diversificada, mais ambiciosa e de maior alcance embora, ao mesmo tempo, mais humilde e concreta.

O mito se afirma com qualquer linguagem possível, embora e sobre tudo, com a do exemplo e da ação, afirmando cotidianamente uma presença ativa na sociedade e sobre seu território; presença que, por sua vez, não sirva para reclamar suborno ou uma cadeira, mas que seja, ao contrário, a demonstração concreta de que a alternativa é possível. Somente amadurecendo a capacidade de manter e afirmar tal presença no coração da sociedade, poderemos arrancar das indignas mãos da caravana new-global o monopólio do pensamento alternativo, atraindo por conseguinte para o nosso campo, todas os instintos de rebelião e as tentativas de revolta, tratando assim de “dar forma” e de mobilizar conscientemente tais sentimentos expressados até agora somente em estado bruto. Somente este esforço constante em direção a uma abertura ao mundo contemporâneo pode permitir-nos falar a verdadeira linguagem do mito, que por sua natureza, é sempre provocadora (pro-vocar, isto é, etimologicamente, “chamar para fora”, ou seja, convidar, desafiar, tentar, excitar, incitar; em uma palavra: mobilizar).

A alternativa é o fechamento orgulhoso em um gueto que se crê comunidade, em uma seita que se crê aristocrática, fora do mundo e dos desafios da contemporaneidade, eternamente tarde na história, por todos desconhecida e ignorados mesmo antes de condenados e proscritos.

Cabe a nós a escolha.
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Fonte: Centro Studi La Runa

Extraído de Orion n° 228, setembro 2003.

[1] Jacques Derrida, La struttura, il segno e il gioco nel discorso delle scienze umane, in La Escrittura e la diferenza, Einaudi, Turín 2002.

[2] Cfr Giorgio Locchi, Wagner, Nietzsche e il mito sovrumanista, Akropolis, Roma 1982.

[3] Cfr. Armin Mohler, La Rivoluzione Conservatrice in Germania 1918-1932. Una guida, Akropolis/La Roccia di Erec, Florencia 1990.

[4] Stefano vaj, Introduzione alla prima edizione de Il Sistema per uccidere i popoli di Guillaume Faye (SEB, Milano 1997).

sábado, 29 de outubro de 2011

A Arte de Léon Bazile Perrault













Eduard Alcántara - A Luta Interior

por Eduard Alcántara


Muitas vezes, quando pretendemos oferecer uma alternativa ao mundo decrépito no qual coube-nos viver, apresentamos as soluções econômico-político-sociais que acabariam com o trambolho que oprime-nos exteriormente e esquecemo-nos de que também existe outro gênero de opressão, muito mais profunda, que impede-nos de sermos livres no sentido menos formal e mais existencial deste termo. E é que ao longo de séculos de decadência de nossa civilização o homem tem, paulatinamente, embrutecido-se, por um lado, e, por outro, submetendo-se aos influxos caóticos do submundo emocional que irrompe desde os estratos mais abismais de nossa mente.

Se queremos apresentar uma alternativa integral aos tempos corrosivos que denigrem-nos e escravizam-nos temos que começar por travar a grande batalha: a batalha interna que conduza à vitória do imutável, do fixo, do imóvel e do eterno frente ao variável, frente ao marasmo que flui sem rumo fixo, frente ao perecedouro e frente ao mutável e mutante. Que faça vencer ao impassível e estável frente ao instável e contraditório. Que consiga o triunfo do Espírito, da Alma, da Shakti do hinduísmo, do Nous dos gregos, do Alto frente aos baixos impulsos e instintos, frente ao emocional, o passional, os sentimentos descontrolados e cegadores, frente ao baixo.

Temos que conseguir poder utilizar todo o embragador e sugestivo que oferece-nos maliciosamente o ruinosos mundo que rodeia-nos como se tratasse-se de provas a superar que robusteçam-nos interiormente. Temos que trilhar nossa via, nosso Do, nosso caminho iniciático enfrentando-nos aos monstros e titãs, medos e fraquezas que habitam em nosso interior e que são despertados, sublevados, açulados e esporeados por este falso mundo de Maya, segundo, novamente, o hinduísmo, que chega-nos através dos sentidos. Temos de converter o veneno em remédio. Que o que não destrua-nos, torne-nos, cada vez, mais fortes! Que o herói solar derrote à besta, ao animal primário que levamos dentro! Cavalguemos o tigre de nossas debilidades! Dominemo-lo! Que ele não submeta-nos! Que não despedace-nos com suas terríveis garras! Que não destrua-nos! Cavalguemo-lo até que morra de cansaço e desista em seus propósitos! Até que caia submisso diante de nós; diante e sob nossos pés! Destruamos em nosso foro interno o que ele simboliza e, assim, nosso Espírito assenhorar-se-á de nós! Deste modo nossa alma será um espelho do Espírito e não um receptáculo do imundo que subjuga-nos e converte-nos em míseros anões que arrastam-se ao longo de uma pútrida existência. Sejamos cavaleiros invencíveis e heróis indômitos! Façamos guarda perpétua! Sejamos guerreiros de ademã impassível! Que nada consiga alterar-nos! Tenhamos robustez marmórea! Renasçamos para o Suprassensível através de uma vontade granítica! A luta encarniçada contra o tigre existe somente para os homens combativos que querem alcançar a Imortalidade; ainda em vida. Eterno combate metafísico!

O do Bem contra o Mal. O do Solar contra o Lunar. O do Espírito contra a Matéria. O do Vertical contra o Horizontal. O do Urânico contra o Telúrico, contra o Pelásgico, contra o Ctônico. O do Olímpico e Heróico contra o Titânico. O dos Aesir contrao os Gigantes. O do Aristocrático contra o Demônico. O do Viril contra o Afeminado. O do Diferenciado contra o Igualitário. O do Orgânico contra o Inorgânico. O do Hierárquico contra o Anárquico. O da Qualidade frente à Quantidade. O do que tem forma frente ao informe, amorfo, indiferenciado. O do Homem frente a Massa. O da medida, do equilíbrio e da proporção frente à desmesura, o desequilíbrio e o desproporcional. O do lacônico frente ao ostentoso e enfastiante. O da sensatez frente à insensatez. O da constância frente à inconstância. O do vigor frente a abulia. O do valor frente à covardia. O do inacessível ao desalento frente ao derrotista e à moleza. O da firmeza frente à pusilanimidade. O da cordura frente ao impulsivo. O da temperança frente à concupiscência e ao desenfreio. O da serenidade frente à voluptuosidade. O da linha frente à curva. O do reto frente ao torto. O da sobriedde frente à ebriedade. O do impertérrito frente ao volúvel. O da ética, do estilo e da retidão frente à imoralidade e a corrupção. O da Virtude frente ao vício. O do senhorial frente ao grosseiro. O da franqueza e da sinceridade frente ao velhaco e ao engano. O da nobreza frente à ruindade. O da austeridade frente ao luxo. O de Esparta frente a Sodoma. O da Idéia frente ao capricho. O do patriarcal frente ao matriarcal. O do Imperium frente ao tribal. O do guibelino frente ao guelfo. O do Acima frente ao abaixo. O do Suprassensível frente ao sensível ou sensitivo. O do Metafísico frente ao físico. O da Consciência frente ao inconsciente e ante o subconsciente. O do Super-Homem contra o homenzinho moderno. O da Luz do Norte contra a luz do sul.

Em definitiva: Nosso Combate! Nossa Luta!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Irmin Vinson - Nacionalismo Racial e os Arianos

por Irmin Vinson


Quem eram os Arianos?

Os Arianos eram brancos nórdicos semi-nômades, talvez originalmente localizados nas estepes do sul da Rússia e Ásia Central, que falavam a língua paterna das várias línguas indoeuropeias.

Latim, grego, hitita, sânscrito, russo, alemão, inglês, letão, francês, italiano, espanhol, português, etc. são todas línguas indoeuropeias. Indoeuropeu, ou mais apropriadamente proto-indoeuropeu (PIE), é a língua ancestral perdida da qual todas essas línguas essencialmente derivam. O "proto" indica que a gramática e vocabulário dessa língua há muito extinta, provavelmente falada até 3.000 a.C., são uma reconstrução hipotética por filólogos modernos. Assim como as línguas romance como o francês, italiano, espanhol e português derivam do latim, também o latim deriva do PIE.

A filologia indoeuropeia tradicionalmente usava "ariano" tanto para denotar um povo, compreendido racialmente ou etnicamente, e o próprio grupo linguístico ("fala ariana"), independentemente da raça ou etnia do povo falando seus vários ramos. Após a derrota da Alemanha Nacional-Socialista, o termo saiu de uso no meio acadêmico em ambos sentidos, e "indoeuropeu" (IE) tornou-se a designação preferida do grupo linguístico, e "indoeuropeus" tanto o povo que ocupou o lar ariano original e seus descendentes, que gradualmente espalharam-se pela Europa, pela maior parte do subcontinente indiano, e por partes do Oriente Médio. Nacionalistas raciais não estão, é claro, obrigados a adotar o léxico politicamente correto tímido do academicismo contemporâneo, mas nós devemos ter consciência da imprecisão de "ariano" como classificação racial ou étnica.

Arya, significando "nobre", aparece em várias línguas indoeuropeias. Sua forma plural (Aryas = "nobres") foi provavelmente o nome que os arianos usaram para descrever-se antes de sua dispersão, e pode ter sobrevivido em Eire (Irlanda) e certamente sobrevive no Irã (Airyanem Vaejah = "reino dos Arianos"). A descoberta de milhares de tais palavras cognatas em línguas amplamente separadas, junto com estruturas gramaticais sem similares, levaram os filólogos a concluir, no início do século XIX, que a maioria das línguas europeias havia evoluído de um proto-idioma comum falado há milênios por um povo distinto que gradualmente deixou seu lar original em uma série de migrações, carregando sua língua consigo.

Tradicionalmente o grego, o latim e o sânscrito eram consideradas as línguas mais próximas ao PIE, e muito da proto-língua ariana é baseado nelas. O lituano moderno, porém, é a língua mais arcaica viva, mais próxima do idioma ariano original do que qualquer outra. Há até mesmo uma língua indoeuropeia, o tochariano, atestado no Turquestão chinês, que indica que os arianos devem ter penetrado no Extremo Oriente, uma já antiga peça de evidência linguística que foi recentemente confirmada pela descoberta de restos físicos de uma população loira na China.

Talvez a mais famosa prova para a existência pré-histórica do proto-indoeuropeu é a palavra para rei: rex em latim, raja em sânscrito, ri em irlandês antigo, junto com uma hoste de outros cognatos. Todas essas obviamente variantes de uma palavra comum para rei. Já que nenhum desses povos falando essas várias línguas esteve em contato físico um com os outros durante o período histórico - ou seja em um tempo para o qual registros escritos existem - filólogos comparativos inferem que suas respectivas línguas devem ter evoluído de uma única proto-língua, que é a única maneira de explicar a presença da mesma palavra para "rei" entre povos tão dispersos. Os romanos claramente não pegaram rex dos irlandeses ou dos indoarianos; cada um, ao invés, herdou sua própria palavra para "rei" de uma língua ancestral comum.

Os filólogos podem também, ademais, concluir seguramente que os arianos devem ter tido reis antes de emigrarem de seu lar original no sul da Rússia. Em verdade um corpo de evidências bastante detalhado sobre a organização política, práticas matrimoniais e crenças religiosas pré-históricas arianas pode ser reconstruída com base na sobrevivência de um vocabulário comum nas várias línguas indoeuropeias existentes: Eles adoravam um deus celestial, eles traçavam a descendência pela linha paterna, eles criavam gado, eles bebiam hidromel, eles usavam carroças puxadas por cavalos (que eles provavelmente inventaram) como armas de guerra, etc. Até mesmo o vermelho, branco e azul/verde que aparece em tantas bandeiras modernas possui um pedigree ariano. É provavelmente uma sobrevivência da divisão social tripartite de suas comunidades em sacerdotes (branco), guerreiros (vermelho), e pastores e agricultores (azul/verde).

Os arianos, ou mais especificamente indo-arianos, fazem seu primeiro aparecimento notável na história por volta de 2000 - 1500 a.C., como invasores do Norte da Índia. O Rig Veda sânscrito, uma coletânea de textos religiosos ainda reverenciados pelos hindus modernos, registra (muitas vezes enigmaticamente) a gradual subjugação dos habitantes escuros, os Dasyus: por exemplo:

"Indra [equivalente ao Thor nórdico, Taranis celta] pôs em descoberto as fortalezas dos Dasyus, em cujos úteros escondiam-se o povo escuro. Ele criou terra e água para Manú""mais baixo do que todos ademais, tu, ó Indra, derrubastes os Dasyus, tribos abjetas de Dasas""após matar os Dasyus, deixai Indra com seus brancos amigos ganhar terra, deixai-o ganhar o sol e a água"; "Indra subjugou a cor Dasyu (escura) e fê-la esconder-se".

Os arianos eram notavelmente expansionistas, e em quase todos os lugares para os quais iam eles conquistavam e subjugavam os povos indígenas, impondo suas línguas e (em diferentes graus) suas crenças religiosas sobre os nativos, e recebendo por sua vez contribuições dos povos conquistados. Invasões arianas - ou mais precisamente, uma longa sequência de diferentes invasões por falantes das línguas indoeuropeias - varreu toda a Velha Europa a partir do quarto milênio antes de Cristo, e ao longo do tempo conquistadores e conquistados fundiram-se em povos específicos com distintas línguas. A maioria dos habitantes contemporâneos da Europa, junto com suas respectivas culturas nacionais, são o resultado da interação entre ondas sucessivas de invasores arianos e a cultura do povo caucasiano particular que eles conquistaram e com o qual posteriormente casaram-se, e como resultado quase todas as línguas europeias modernas são membros do ramo ocidental da árvore familiar indoeuropeia.

O nascimento de uma cultura europeia, porém, predata a chegada dos indoeuropeus: a arte de Lascaux, que alguns identificaram como o primeiro florescimento do gênio criativo do homem ocidental, foi a obra de Europeus Antigos, bem como o Stonehenge no Norte e a cultura palaciana minóica de Creta no Sul. Um simbolismo religioso pan-europeu já havia evoluído, muito do qual foi depois incorporado nas mitologias indoeuropeias, incluindo várias adaptações regionais da onipresente reverência dos antigos europeus pela Deusa Mãe. Muitas das principais figuras na mitologia grega predatam a chegada dos arianos, e durante o curso da história antiga as crenças e práticas religiosas dos europeus antigos continuamente reafirmaram-se.

A Europa é europeia porque os conquistadores e conquistados eram membros da mesma raça branca, diferentes ramos da mesma árvore; a Índia é um pântano de misérie porque a massa dos conquistados, com quem os indo-arianos eventualmente casaram-se, eram Veddoides/Australoides. A lição é óbvia. Mesmo hoje hindus das castas superiores ainda podem ser identificados pelos traços caucasoides e pele mais clara, enquanto as partes mais pobres e atrasadas da Índia são geralmente as mais escuras.

Como um adendo, estudos genéticos recentes indicaram que os bascos da Aquitânia e dos Pirineus são provavelmente a forma mais pura dos Europeus antigos como eles existiam antes da chegada dos invasores indoeuropeus. Eles evidentemente emergiram das invasões da Europa sem terem sido conquistados, e eles permaneceram suficientemente isolados para manter sua língua única e não indoeuropeia.

Do que deveríamos chamar-nos?

A história dos arianos, da qual o precedente é um sumário necessariamente simplista, não é meramente uma curiosidade interessante; ela possui implicações importantes para como definimo-nos. Um alemão, por exemplo, é ariano apenas na medida em que os habitantes originais da antiga Alemanha foram conquistados por invasores que falavam uma língua indoeuropeia. Em nenhum sentido genético significativo ele poderia ser chamado de um ariano puro. Mesmo na época das invasões indoeuropéias da Velha Europa, o termo havia perdido muito do seu sentido original como nome de um grupo étnico distinto. Durante suas migrações sucessivas do lar original, os arianos absorveram outras populações brancas e adquiriram fisionomias muitas vezes distintivas, junto com línguas mutualmente incompreensíveis (porém aparentadas).

A escrita racialista é quase sempre contaminada por um nordicismo divisivo e uma idolatria quase mística do ariano, e o próprio Hitler muitas vezes utilizava "ariano" e "nórdico" de modo intercambiável. Mas contrariamente à crença popular, os teóricos raciais nacional-socialistas nunca afirmaram que os alemães fossem arianos, e nem que a maior parte da bagagem genética germânica fosse ariana. Eles afirmavam, ao invés, que os nórdicos eram geneticamente mais arianos do que, por exemplo, os italianos mediterrâneos - uma afirmação muito mais modesta que possui a virtude adicional de ser verdadeira. O Norte da Europa era escassamente povoado antes das migrações indoeuropeias, enquanto o Sul da Europa já possuía uma civilização e uma população bem maior. Um nórdico alemão ou sueco pode, então, corretamente afirmar que ele é mais ariano do que um grego ou um italiano do sul, mas ele não deveria incomodar-se em fazê-lo, já que a distinção é atualmente tão imaterial que apenas serve para dividir brancos.

Para o termo ariano ter qualquer validade em um contexto contemporâneo, ele apenas pode denotar membros das culturas europeias que surgiram da interação dos invasores falantes de línguas indoeuropeias ("arianos") e os brancos europeus que precederam-o. Ele não pode significar arianos em sentido estrito, já que esse povo não existe há pelo menos dois mil anos.

Uma outra dificuldade com "ariano", mesmo se utilizado nesse sentido menos estrito, é que ele ainda excluiu um bom número de pessoas que a maioria consideraria branca. Além dos bascos, o finlandês e o húngaro também não são línguas indoeuropeias, e nem finlandeses ou húngaros são descendentes de um povo que falava PIE. Ambos, porém, são obviamente brancos.

"Branca" é então preferível a "ariana" como um nome para a raça cuja existência devemos assegurar, mas esta terminologia também é imperfeita. Nós nunca devemos fetichizar diferenças raciais minúsculas transformando gradações insignificantes de "brancura" em uma hierarquia de graus relativos de pureza racial. A maioria dos italianos, gregos e espanhóis são membros do ramo mediterrâneo da raça branca, e eles são geralmente mais escuros do que nórdicos. A maioria dos judeus ashkenazi é, por outro lado, fisicamente mais "branca" que o grego médio. Porém esses judeus "brancos" são os principais subversores da civilização ocidental, enquanto gregos, italianos e espanhóis estão entre seus principais criadores.

O que realmente necessitamos é de um termo classificatório que indica "pessoas não-judaicas de ascendência europeia". Infelizmente esse termo não existe. "Branco" e "Ariano" são substitutos aceitáveis apenas se compreendemos suas deficiências.

O nacionalismo racial euroamericano difere marcadamente dos nacionalismos mais étnicos da Europa. Na Europa, distinções étnicas entre brancos são um instrumento político válido para preservar uma "Europa de Nações" contra as forças da globalização capitalista e da imigração terceiromundista. Mas, nesse continente, nós somos - para o bem ou para o mal, e eu penso que para o bem - um amálgama de diferentes etnias europeias, apesar de nosso núcleo cultural indubitavelmente anglo-celta. É inevitável, ainda que infeliz, que sob tais circunstâncias os racialistas ainda briguem entre si sobre os contornos exatos da categoria "branco", isto é, quais grupos étnicos são parte de nós e quais não são. O que não pode ser disputado, ao menos por qualquer um que queira ser construtivo a respeito do movimento racialista nesse continente, é que nós todos devemos definirmo-nos como euroamericanos ou perecer. De outro modo nós somos simplesmente uma série de grupos étnicos desconexos, indefesos contra uma "coalizão arco-íris" conscientemente anti-branca que quer enterrar todos nós.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Da "Ordem Natural" à "Auto-Organização" ou a Vigência da Idéia Orgânica

por José Agustín Vásquez

O organicismo, um fantasma?

"A idéia orgânica", à primeira vista, aparece como um vasto e pouco definido campo de exploração ideológica. Onde escuta-se hoje mencionar a idéia orgânica? Na imensa estepe democrática e igualitária, onde já nada nem ninguém tem sentido enquanto célula de um organismo social, senão somente em sua qualidade de número, igual a outros, haveria lugar para uma concepção orgânica da sociedade?

Hoje por hoje, os politólogos e cientistas políticos, que assistem deslumbrados à decadência do socialismo no oceano da democracia liberal e do capitalismo, somente poderiam conceber ao organicismo como a fórmula ideológica própria do fascismo de entreguerras, esmagado e rechaçado pela história, ou bem certa forma de organização social reacionária própria da Idade Média (por tanto, retrógrada, obscurantista) e contra a qual alçou-se o Terceiro Estado em 1789 para proclamar os sagrados e eternos príncipes da Liberdade, da Igualdade, e da Fraternidade, ao tempo que, com a lei Le Chapelier, arrasava com as potestades sociais e corporativas, em nome da liberdade de associação. Mais além dessas interpretações reducionistas não encontramos nenhuma tentativa de uma releitura objetiva da concepção orgânica, nem de uma renovação do discurso corporativista entre os que poderiam considerar-se seus "herdeiros", salvo notáveis exceções (que já encarregar-nos-emos de assinalar); a partir do tronco neofascista na Europa, as chamadas "direitas nacionais", que desenvolvem uma tática entrista no sistema parlamentar, ou o interessante fenômeno intelectual que resolveu chamar-se a "Nova Direita", que tenta criar um projeto de influência metapolítica sobre a sociedade.

Por sua parte, o tradicionalismo católico, preferencialmente o hispano, produtor de uma multitude de pensadores no passado, encontra-se hoje atrofiado no conservadorismo ou desnaturalizado em suas essências doutrinárias. Em definitiva, o discurso orgânico ou corporativo pareceria ter passado à história das idéias políticas. Enquanto presença nas estruturas políticas contemporâneas, é inegável que este pura e simplesmente, não existe, ou bem aparece, como o musgo entre as pedras, como uma excrecência parasitária de estruturas alheias por inteiro à cosmovisão na qual o organicismo insere-se. O ponto está, então, em verificar sua vigência, sua realidade sociológica e sua capacidade de assumir, como método de análise e como concepção capaz de guiar o caminho das comunidades humanas, a complexidade dos processos sociais e do devir histórico.

Porém, antes de verificar tal hipótese, é necessário orientar o leitor em relação ao significado da idéia orgânica, de seu desenvolvimento histórico e das concepções teóricas que desde essa perspectiva formularam-se.

Origens Teóricas

Podemos encontrar as primeiras concepções teóricas guiadas pela idéia orgânica já em Platão e Aristóteles. O primeiro, na República, afirma que "a cidade bem constituída pode comparar-se a um corpo que participa do prazer e da dor de seus membros. E suas três classes - os governantes, os guerreiros e os artesãos - são como órgãos que cumprem funções diversas do organismo estatal". Por sua parte, Aristóteles compara a cidade com o ser vivo, composto de elementos. Ambos filósofos, como indica-o Gonzalo Fernández de la Mora, não "afirmam o organicismo em sentido estrito e real; porém entranham uma imagem antropomórfica do Estado que inicia um milenar paralelismo doutrinário dos organismos biológicos com os sociais" (G. Fernández de la Mora. Os teóricos esquerdistas da democracia orgânica).

Esta origem teórica milenar não aparece como uma formulação "ideológica", no sentido de uma preconcepção que tenta ser imposta ao ente social senão que constitui o reconhecimento de uma ordem que, por essas épocas, era muito fácil distinguir; uma ordem que, baseada na harmonia das partes que conformam a sociedade, reconhece as naturais hierarquias entre os homens e entre as instituições. Uma cosmovisão muito distinta à moderna, permite a subsistência milenar desta ordem alheia às idéias lineares de desenvolvimento ou progresso. Esta ordem milenar da tradição persistirá, surgindo já na escuridão do paleolítico, para prolongar-se ao longo de grandes ciclos históricos e de culturas muito diversas. Assim, encontramo-a presente na Antiguidade grecolatina, nos povos germânicos e celtas como também nas altas culturas americanas precolombianas, e estender-se-á sem maiores variações ao longo do período histórico ocidental chamado "Idade Média", já dominado pela mensagem cristã, porém que assumiu os valores externos das civilizações tradicionais. Encontramos no mundo medieval um dos momentos de ápice da concepção orgânica, manifestada tanto nas formas que assume a comunidade como em suas manifestações físicas. Assim, "na cidade medieval experimenta-se um sentimento de biologia perfeita, de harmoniosa correspondência entre a forma - soma de esforços convergentes a um mesmo fim - e a comunidade urbana em si mesma. Vemos uma incorporação sutil de elementos diversos, unificados desde o interior pela unidade espiritual que vincula à Comunidade. Estamos em um dos ápices da arte urbana: a da arquitetura orgânica, e do ser urbano: a da comunhão". (Ciudad de los Cesares Nº2: "O urbanismo, desde uma perspectiva orgânica"). A sua vez as teorias medievais da sociedade assumem formas decididamente orgânicas: "Uma construção orgânica da sociedade humana era tão familiar ao Medievo como era-lhe alheia uma construção mecânica e atomista" (O. Giercke: Das deutsche Genossenschafsrecht). Tomás de Aquino, Tolomeu de Lucca, e outros teólogos, assentam as bases de uma concepção organicista a partir de seus postulados teológicos. A sua vez, os doutrinadores políticos extraem as consequências práticas destes postulados. Entre eles Marsilio de Pádua, que refere-se aos estamentos, associações e grêmios (agricultores, artesãos e comerciantes), ou Nicolás de Cusa, que propõe um esquema quase parlamentar, no qual "os distritos eleitorais são membros orgânicos e corporativos de um povo articulado" (Nicolás de Cusa: De concordantia Catholica).

A comunidade política medieval construía-se através de âmbitos espaciais (família, paróquia, município, feudo, reino e império) que integravam-se sucessivamente; e âmbitos funcionais (grêmios, estamentos, confissões, culturas e Estados) articulados de modo recíproco e, com frequência, escalonado, ninguém era igual a outro, cad um era ele mesmo com sua determinada circunstância. Esta magna construção histórica sofrerá o embate de duas ofensivas: a Reforma e a Revolução. Entre os teólogos espanhóis da Contrarreforma, aparecem alguns, como Francisco Suárez adeptos à concepção orgânica do Estado: "A comunidade humana é como um organismo que não pode subsistir sem diversos ministros e categorias de pessoas que são como vários membros" (F. Suárez, Defensor Fidei).

A Reforma e o protestantismo entranham a dissolução da religiosidade orgânica, na qual o crente religa-se a Deus e às Escrituras através do magistério e da tradição. O livre exame luterano deixa-o sozinho diante dos textos, proclamando um absoluto individualismo intelectual, ao qual agrega-se um individualismo moral (a justificação pela fé), e um individualismo político, na qual o sacerdote já não é um supervisor carismático, senão um igual, encontrando-se o crente sozinho diante de Deus.

Com a revolução francesa, a investida contra a antiga sociedade orgânica alcança sua máxima intensidade. A Comunidade política, segundo os postulados de Locke e Rousseau, nasce de um pacto entre iguais que partilham a soberania. O cidadão, sem corpos intermediários entre ele e o Estado, exerce mediante o sufrágio universal inorgânico sua mínima fração de poder. É o atomismo abstrato frente ao organicismo concreto. Este último, despojado de seu caráter de cosmovisão "consensual", começa a percorrer diversos caminhos. Na Alemanha encontramo-nos, paralelamente com o chamado "romantismo político", com o organicismo restauracionista, representado por figuras como Herder, Fichte, Novalis, Schlegel e Savigny, entre outros. Rechaçam o individualismo, o pactismo social, o racionalismo e a democracia inorgânica, afirmando ao invés, os grêmios, o naturalismo social, as minorias, os sentimentos, a representação estamental e corporativa. A extensa obra destes autores e sua programa institucional foram derrotados pelos princípios revolucionários; razão pela qual não são suficientemente conhecidos ou valorizados.

Hegel, por sua parte, deve ser considerado um organicista metafísico, e sua teoria da sociedade e do Estado é manifestamente organicista: "A sociedade civil deve designar a seus representantes não dispersa em individualidades atômicas que somente reúnem-se para um ato isolado e ocasional, senão em associações (Genossenschaften), prefeituras (Gemeinden) e Corporações (Korporationen)" (G.W.F. Hegel, Grundlinien der Philosophie des Rechtes). A idéia de representação em Hegel, ainda que tendencialmente corporativa, mantém as grandes linhas do estamentalismo tradicional.

Do organicismo social que vai-se perfilando surgirão duas versões posteriores, a sociológica e a corporativa. A primeira mantém-se em um plano acadêmico, sendo seus representantes mais destacados Spencer, Fouillé, Lilienfeld e Kjellen, entre outros. Potencializada pela influência do darwinismo, a sociologia organicista verá sua época de ouro na segunda metade do século XIX, e chegará até o período de entreguerras, em que o organicismo social entrará em sua nova etapa: o corporativismo, representado por figuras como Renán, Giercke, Oliveira Martins, Durkheim, Mosca, Duguit e Spann, que enlaçou com os medievais e românticos e conectou com as tradições nacionais. Em Portugal (1923 - 1973), Itália (1922 - 1945) e Espanha (1936 - 1976) fez-se teoria e prática, em diversas circunstâncias históricas e sociais, e com resultados desiguais. A história destes regimes e do desenvolvimento dentre deles das concepções orgânicas e corporativas permite um desenvolvimento muito mais amplo que não é o objetivo desse trabalho.


Paralelamente a este desenvolvimento histórico, as tendências organicistas católicas lograram um importante com pensadores como Brañas, Vásquez de Mella, Donoso Cortés, Aparisi Guijarro, etc. Vásquez de Mella, por exemplo, destaca a existência da soberania social que é "um conjunto de direitos naturais que projetam-se perante o Estado (soberania política) para ser respeitado e cumpridos, desta maneira as sociedades intermediárias entre a família e o Estado, vem a ser as manifestações orgânicas da soberania social e portanto constituem poder por si mesmas" (Citado em Osvaldo Lira, Nostalgia de Vásquez de Mella). Na Espanha, igualmente cativaram as teorias políticas de Enrique Ahrens, catedrático e político alemão (1808 - 1879), discípulo de Carlos Cristian Krauss (1781 - 1822). Sua obra Curso de Direito Natural gera na Espanha uma escola de pensamento organicista de tendência laica e esquerdista, cujos representantes mais destacados foram Sanz del Rio, Salmerón, Giner de los Ríos, Pérez Pujol, Posada, etc. O chamado "Krausismo", ou escola de Krauss, constitui a raiz da linha sóciopolítica que deriva nos corporativismos do segundo terço do século XX na Europa. A sociedade é, para Ahrens, "um grande organismo que compreende um conjunto de sistemas e de organismos particulares, sendo esses organismos particulares ou esferas sociais de dois tipos: os territoriais (família, município, região, nação, etc.) e os funcionais, (ordem jurídica, religiosa, moral, científica, artística, educativa e econômica)".

Já no século XX encontramo-nos com um amplo desenvolvimento teórico e prático: as construções institucionais do fascismo na Itália,  do integralismo português ou do nacional-sindicalismo na Espanha recolheram as diversas teorias que circulam. Filósofos e pensadores de grande relevância aprofundaram-se na teoria organicista do Estado.

Os italianos Gentile, Spirito e Bottai, o romeno Manoilesco, o austríaco Spann, e muitos outros interessam-se e desenvolve as teorias orgânicas corporativas do Estado. Gentile e Spirito, com sua concepção do "Estado Ético", ou a "societas in interiore homini"; Manoilesco caracterizando o corporativismo como aquela forma de organização social cuja essência é a solidariedade nacional; Oliveira Salazar tentando realizá-lo na prática em Portugal; no Chile, Guillermo Izquierdo Araya em sua Racionalização da Democracia, tentando precisar aquele conceito de "democracia funcional" que implique "uma transformação integral no econômico e no social que trará logicamente uma morfologia nova do Estado".

A Perspectiva Tradicional

Esta concepção do organicismo, que poderíamos chamar sociopolítica, não contrapõe-se fundamentalmente com a perspectiva que chamaremos "tradicional" (para diferencia-lo daquela "tradicionalista", que tem seu discurso próprio e autônomo). Para Julius Evola, a idéia orgânica pertence a essa ordem de idéias que, em uma civilização "normal" (entendamos por isso uma civilização tradicional) tem um caráter real-constitutivo, enquanto que nas civilizações em crise somente tem um caráter ideal-normativo ("o que é" frente a "o que deve ser"). Para Evola, esta idéia tem uma orientação "desde e para o alto". Esta tensão "garante o caráter normativo e suprahistórico que confere à idéia tradicional uma perene atualidade". A idéia orgânica não é, pois, produto de uma especulação filosófica, e teve vigência na realidade histórica de uma série de grandes civilizações e sociedades, o que não obsta que a idéia possa ser permanentemente separada de suas encarnações contingentes para preservar sua permanência como modelo de novas estruturas existenciais, "diversas porém homólogas" às anteriores.

Para Evola, em todo Estado tradicional à idéia central une-se um correspondente princípio positivo de soberania e de autoridade. Pois a idéia orgânica não abarca somente a relação das partes entre si, senão também a das partes com o todo. A concepção hierárquica e estamental vai associada ao núcleo da idéia orgânica, e não deve entender-se nela uma concepção classista ou uma estrutura de dominação, senão o normal ordenamento que assumem os homens e os corpos sociais em ordem ao correto exercício da função própria de cada um. Nesta ordem a unidade está produzida pelo consenso em torno a um princípio ordenador superior e não em torno aos mecanismos subalternos ou burocráticos, pelo que "um relativo pluralismo é um traço essencial de todo sistema orgânico". Não é a organização do externo o essencial, nem a regulamentação ou a centralização; ao contrário, também é característica de tais sistemas uma ampla descentralização, de onde toda tentativa de estruturação da sociedade que tente impor-se através dos mecanismos das burocracias institucionais não é mais que um desvio totalitário na qual "deve-se ver a inversão e a contrarrealização de um sistema orgânico". Como também sustenta-o Fernández de la Mora "a sociedade hierárquica..., é um fato biológico, fundado genéticamente e anterior em milhões de anos ao aparecimento dos hominídios; é pois, uma realidade dada não já para cada indivíduo concreto, senão para a espécie humana. A sociobiologia refuta apoditicamente a hipótese do pacto social". Segundo constata-o a etologia, "a hierarqua aporta mais de uma contribuição à próspera organização de seres desiguais, ao enfrentar-se às necessidades comuns. Assim mesmo, reduz a luta. Uma vez estabelecida a ordem de domínio, raraz vezes produz-se a séria agressão, havido conta de que cada membro conhece muito bem suas capacidades em relação com os demais. A ordem hierárquica, mediante a competição, esclarece aos desiguais, colocando em postos de influência os principais valores de todo o grupo".

Porém a perspectiva tradicional é também a perspectiva da decadência e da dissolução cíclica das civilizações, das sociedades e dos Estados tradicionais. Este ciclo de dissolução parte da perda do vínculo espiritual, do centro unificante e transcendente, em primeiro lugar pela crise do princípio central, e logo pela progressiva regressão, nos indivíduos, de toda sensibilidade e interesse superior. Através de sucessivas quedas, a sociedade vai perdendo esse caráter tradicional e orgânico que fazia-a harmônica e ordenada a um fim superior. Na base desta dissolução encontramos também o individualismo, que conduz ao atomismo social, ao reino da Quantidade, que, por um processo lógico, conduz ao subpessoal, ao coletivo, ao subracional. Em tal circunstância, aponta Evola, a tarefa de levar à humanidade a uma nova manifestação da idéia orgânica e tradicional deve declarar-se hoje como impossível. Hoje somente pode conceber-se uma ação, não sobre a base dos resíduos do mundo da Tradição que ainda circulem no que sobrevive do mundo da burguesia, senão a partir de um determinado tipo humano que, sobre a base da vontade pura e sem apoios, tenha a capacidade de uma autotranscendência ascendente, em relação à escolha de uma idéia em estado puro. Uma contribuição válida à definição de tal tipo humano foi feita por Ernst Jünger através das figuras arquetípicas do Trabalhador, do Anarca e do Emboscado.

Portanto, hoje não é tanto a simples arquitetura política o essencial. Não é a construção do Estado corporativo a "idéia em estado puro" sobre a qual deve-se articular uma ação política. Já apontava-o José Antonio Primo de Rivera em 1934: "Quê importa-nos o Estado corporativo, que importa-nos que suprima-se o Parlamento, se isto é para seguir produzindo com outros órgãos a mesma juventude cauta, pálida, escorregadia, e sorridente, incapaz de inflamar-se pelo entusiasmo da Pátira e nem se quer, digam o que digam, pelo da religião?" E continuava, "muito cuidado com isso do Estado corporativo, muito cuidado com todas essas coisas frias que dirão muitos procurando que convertamo-nos em mais um partido...nós não satisfazemos nossas aspirações configurando de outra maneira o Estado". Entre parênteses, há que assinalar que Primo de Rivera e a Falange Espanhola devem algumas de suas características, não tanto ao fascismo italiano ou ao nacional-socialismo alemão, como ao tradicionalismo católico e no caso específico de José Antonio, a seu professor Adolfo González Posada, da mais pura cepa do organicismo de esquerda, procedente de Ahrens e Krause. O seguinte princípio falangista: "Que volte a irmanar-se o indivíduo em seu contorno pela reconstrução desses valores orgânicos, livres e eternos, que chamam-se o indivíduo portador de uma alma; a família, o sindicato, o município, unidades naturais de convivência", está mais próximo da linguagem krausista do que da mussoliniana, segundo aponta acertadamente Fernández de la Mora. Do mesmo modo, constatamos em Primo de Rivera um claro rechaço das tentativas de reconstruir a ordem tradicional e orgânica através de iniciativas totalitárias (ainda quando a Falange explicitamente refere-se em sentido positivo ao totalitarismo). No discurso de clausura do 2º Congresso Nacional da Falange (Madri, 17 de novembro de 1935), critica por igual o anarquismo e o totalitarismo, o primeiro, por resolver a desarmonia entre o homem e a coletividade dissolvendo esta nos indivíduos; a segunda, por resolver o problema absorvendo os indivíduos na coletividade. Ao anarquismo cataloga de "dissolvente e funesto". Mais benévolo com o totalitarismo (não esqueçamos que, apesar de suas objeções, olhava com simpatia o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão), considera-o uma solução "não definitiva", somente sustentável "pela tensão genial de uns quantos homens". A longo prazo, afirma, chegar-se-á a formas mais maduras.


Em relação às formas totalitárias do organicismo, que levaram-se à prática na Europa do entreguerras e que na Espanha e Portugal prolongaram-se até a década de 70, revestiram diversas formas e estiveram regidas por muitos princípios ordenadores diversos, pelo que é muito difícil referir-se genericamente a elas. O fascismo italiano recolhe em sua idéia de Estado a noção do "Estado Ético" e da "societas in interiore homine", desenvolvida pelo mais importante filósofo italiano da primeira metade do século passado, Giovanni Gentile. Este Estado, esta sociedade não "entre homens", senão "no interior dos homens", na qual o trabalho (no mais amplo sentido da palavra) nega o particularismo e o individualismo liberal e situa o homem em sua dimensão universal, traduz-se no Estado corporativo fascista, desenvolvido em sua versão mais depurada na fase republicana do fascismo (1943 - 1945). Porém já em 1921, o fascismo define a Nação e o Estado desde uma perspectiva orgânica: "A Nação não é somente uma soma de habitantes do território, nem um instrumento que cada partido possa empregar para o logro de seus objetivos, senão um organismo que abraça uma série ilimitada de gerações, e dentro do qual cada indivíduo é somente um membro contingente e transitório; a Nação é a síntese suprema de todas as energias materiais e morais da Raça. O Estado é a expressão da Nação". O Estado é para o fascismo a única exteriorização do conteúdo inteiro da Nação. Desde logo, proscreve o fascismo toda forma de vida social ou coletiva alheia ao Estado: "Tudo no Estado, nada contra o Estado; nada fora do Estado" (Mussolini). Segundo a expressão de Rocco, "o indivíduo é tão somente um elemento transitório e infinitamente pequeno dentro de um todo orgânico".

As materializações institucionais dos regimes antes expostos, de um ou de outro modo, sob diversos prismas ideológicos ou filosóficos, tentaram reconstruir a ordem orgânica corporativa. Não obstante, todas elas naufragaram mais por razões externas que por causa da dinâmica mesma dos sistemas. O fenômeno histórico fascista, em geral, cometeu os erros do totalitarismo, da burocratização e da transação com formas institucionais antitéticas, porém não foi o corporativismo ou a idéia orgânica que fracassaram. A guerra sepultou estas experiências, ou, no caso da Espanha e Portugal, mumificou os regimes, retirando-lhes toda substância de índole transcendente ou revolucionária, transformando-as em sonolentas burocracias que sobreviveram a si mesmas, apoiadas na inércia histórica e política ou no mando carismático da figura superior (Franco e Oliveira Salazar).


O Organicismo no Pós-Guerra

As fórmulas posteriores nacional-populistas que surgem no pós-guerra (Argentina, Egito, Indonésia), de algum modo, menos explícito, buscam também interpretar a idéia da Nação como organismo. Perón e os trabalhadores; Nasser e o Exército mais a idéia do pan-arabismo como unidade histórica, étnica e religiosa; Sukarno e a união da idéia nacional, a questão social e a religião (o Nasakom). Porém o corporativismo e a concepção orgânica, como formulações ideológicas, ficarão marcados com o estigma do fascismo. Na atualidade volta-se a escutar falar delas, desde um plano sociológico, ideologicamente neutro. E é que a sociedade, não obstante que as fórmulas demo-liberais tendam a impor-se mundialmente como uma espécie de uniforme, continua estando estruturada como um organismo. Ao qual a abstração individualista ou coletivista não serve-lhe como meio de representar sua natural estrutura. Daí os "pactos sociais", os Conselhos Econômicos e Sociais, os "lobbies" de pressão, que aparecem como estruturas paralelas às estruturas parlamentares formais. Daí a força que assumem as grandes confederações sindicais. A democracia liberal, para sobreviver, deve gerar válvulas de escape à pressão da comunidade. Os partidos políticos buscam então transformar-se em leitos para que os corpos sociais, ou suas inquietudes, canalizem-se. Em um recente artigo de Robert Steuckers (Vouloir, Bruxelas, nº56 - 57 - 58, Outubro - Novembro 1989), expõem-se as mais recentes idéias sobre o tema, desde uma perspectiva cognitivo-biológica. Apresenta-se, em primeiro lugar, um problema de caráter semântico: "Quando fala-se de organização, dever-se-ia em seguida pensar em 'orgânico' e não simplesmente pensar em um modo estático qualquer de regulação estrutural. Na acepção semântica do termo 'organização' as tradições filosóficas grega e alemã perceberão em conjunto a dimensão orgânica/somática/cognitivo-biológica enquanto que o grosso da tradição sociológica norteamericana - que vai com vento em popa desde 1945 - não vê detrás do vocábulo 'organização' mais que um simples fato de gestão mecânica, ou um procedimento de regulação sem recursos íntimos profundos". Portanto, a partir da concepção baseada na tradição européia, a lógica última da organização alimentar-se-á de uma fonte interior, não impulsionada desde o exterior; na tradição empírica e mecanicista anglo-saxã, a organização será a ação de um diretor de orquestra exterior.

Porém, seguindo a tradição européia, a organização é um "organon", não uma instituição. Um sistema organizado segundo leis interiores próprias possuirá as seguintes qualidades: complexidade unitária dinâmica e processual, não determinada e autônoma, interativa e fazendo referência a si mesma. Tal sistema poderá ser uma planta, um bosque, um processo mineral ou físico-químico, uma agrupação animal como um formigueiro, uma manada de cervos, um rebanho de búfalos, uma tribo de símios ou uma soicedade humana. A organização não é jamais uma hierarquia pela hierarquia, nem uma ordem pela ordem. Não tem uma dimensão construtivista, é um fenômeno processual e não institucional.

Na atualidade, o enfoque orgânico aponta a compreender a dinâmica dos sistemas, de modo a lograr que eles sejam entendidos não como processos retroativos estabilizantes, senão como "auto-organizações inovadoras". Prévia a esta etapa, o organicismo sociológico teve um matiz conservador. Contra a crescente opressão e a quebra do expansionismo economicista e racionalista, o pensamento organicista conservador dos anos 20 e 30 põe o acento na estabilidade das ordens naturais orgânicas em sua adaptabilidade constante. O principal foco intelectual do conservadorismo organicista é indubitavelmente o austríaco Othmar Spann (1878 - 1950). Um de seus biógrafos recentes, Walter Becker, resume sucintamente os ataques que Spann faz ao liberalismo de Smith, Mandeville ou Hayek. Sua crítica dirige-se especialmente a Hayek e influenciou todas as escolas organicistas solidaristas, pertencentes ao movimento cristão-corporativista do pré-guerra e, mais parcialmente, ao movimento democrata-cristão personalista do pós-guerra.

Para Spann e os organicistas, o mercado não é um "bilhar neutro" em que as bolas-mercadorias e as bolas-serviços entrechocam-se, senão um terreno preciso, que varia segundo as circunstâncias geográficas e históricas. As circunstâncias determinam as variáveis de toda ação econômica: Não há pois ação econômica padrão, realizada por indivíduos padrão, senão ações econômicas variáveis realizadas por indivíduos diferentes, quer dizer, diferenciados pelas circunstâncias espaço-temporais. Contrariamente às afirnações da escola neoliberal, para Spann e seus discípulos o agente econômico não atua somente frente ao absoluto, sem um programa social (familiar, regional, nacional, corporativo, etc.) senão como representante de uma rede de interesses coletivos, de sentimentos compartilhados, de móveis determinados pela história, etc. Na ótica de Hayek, para fazer prosperar a ordem econômica é necessário atuar fazendo abstração de todo contato e sentimento social e solidário e não fazer senão aquilo que vai no sentido dos interesses da própria individualidade. Para Spann, não existe o ato econômico descontextualizado, desprendido de um tecido social preciso, que tenha sua história e sua circunstância. Pensar como Hayek é favorecer o deslocamento da economia e preparar o terreno para as tentativas de tipo marxista. A planificação surge necessariamente do enfoque organicista.

Porém não é o enfoque sociológico o que queremos destacar. Este enfoque mostra a multiplicidade de perspectiva que uma cosmovisão orgânica pode entregar. O problema na atualidade é, fundamentalmente, representar a complexidade da sociedade. O princípio de representação, que condenava como ingênua e utópica toda pretensão de participação direta dos indivíduos na coisa pública, caiu vítima dos mesmos argumentos que evocou contra seus adversários, em primeiro lugar a incapacidade em dar conta das dimensões (não geográfico-espaciais, senão funcionais) assumida pelos portadores de demandas frente ao sistema político. As políticas de tipo neocorporativo, adotadas pela socialdemocracia e pelos governos liberais - progressistas europeus, enfrentam esta essencial problemática. Com o termo neocorporativo, neste caso, indica-se um sistema de regulamentação das relações sociais baseado na concertação entre governos, empresários privados e grandes sindicatos, com o objetivo de incluir a parte social na esfera de ação política estatal. Este modelo conheceu uma grande aceitação a partir dos primeiros anos 70 e, partindo da Suécia, experimentou diversas traduções em diversos países de Europa (Ex.: o pacto da Moncloa, em Espanha). Depois dos primeiros êxitos, atolou-se em suas contradições de origem, pois em definitiva deixa fora à maioria ou a um grande número de atores sociais, reduzindo-se aos grandes "cartéis" empresariais e às grandes confederações sindicais (Marco Tarchi: La política dell'identitá. Crisi della democrazia e "nuovi movimenti").

Em nosso país, após o fracasso político da experiência militar, as concepções neocorporativistas que surgiram na primeira etapa do regime e que materializaram-se nos Conselhos de Desenvolvimento Comunal (CODECOS), nos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (COREDES) e, a nível nacional, no Conselho Econômico e Social (CES), todos eles, na prática, mais caixas de ressonância das autoridades locais, regionais ou nacionais que leitos de participação orgânica, hoje encontram-se ameaçados de rápida extinção. Não obstante isso, subsistem as tendências neocorporativistas ao interior de alguns setores do governo, em especial do chamado "socialismo renovado". Assim, o Subsecretário de Desenvolvimento Regional, Gonzalo Martner, ao anunciar que o Governo apresentaria nos próximos dias um projeto de reforma municipal, com o objetivo de realizar eleições diretas de prefeitos durante 1991, anunciou também que os CODECOS seriam substituídos por um Conselho Econômico e Social a nível Comunal, para que junto ao Conselho Municipal preste assessoria aos prefeitos. Afirmou que "parece pertinente que permaneça um Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de caráter local, no qual estejam representadas de modo corporativo as distintas organizações vivas da Comunidade". Precisou que este organismo e o Conselho Municipal permitirão que o Prefeito tenha "a possibilidade de estabelecer uma estreita relação de consulta e trabalho comum com as forças vivas da Comunidade", e acrescentou que "o que queremos é reunir a diversidade das organizações territoriais e a capacidade de ação dos vizinhos".

Conclusão

Em definitivo, não é resolver um problema de maior ou menor representação de interesses sociais ou econômicos o objetivo final da idéia orgânica. Despojada de seu significado superior ou transcendente pode facilmente converter-se em uma escola sociológica ou em uma ideologia neutra, mais ou menos eficaz como sistema para enfrentar a complexidade dos grupos humanos. Porém uma sociedade que perdeu todo princípio ordenador e normativo, e que entrou em uma etapa de involução acelerada, não pode retomar um caminho de ascensão e de recuperação por obra de uma técnica sociológica ou ideológica. Resta então, para os que não sentem-se comprometidos com o atual processo de dissolução e em geral, com os pressupostos do mundo moderno, reter os princípios ordenadores que inspirar a idéia orgânica. Com Evola, podemos dizer que, "em particular, podemos admitir um sistema de competências técnicas e de representações corporativas para substituir o parlamentarismo dos partidos; porém deve ter-se presente que as hierarquias técnicas em seu conjunto, não podem significar nada mais que um grau da hierarquia integra: estas referem-se à ordem dos meios, que hão de subordinar-se à ordem dos fins, à qual, portanto, corresponde a parte propriamente política e espiritual do Estado. Falar pois em um 'Estado do Trabalho' ou da produção equivale a fazer da parte um todo, equivale a reduzir um organismo humano a suas funções simplesmente físicas, vitais. Nem uma coisa tal, obscura e obtusa, pode ser nossa bandeira, nem a mesma idéia social. A antítese verdadeira tanto frente ao 'Ocidente' como ao 'Oriente' não é o 'Ideal Social'. É, ao invés, a idéia hierárquica integral. Em relação a isso, nenhuma incerteza é tolerável."

domingo, 23 de outubro de 2011

Líbia: Contrainformação de Combate

por Xosé Currás/Rafael Fernandes Veiga

Antes de começar, nos gostaria informar aos leitores que as coisas que logo serão ditas, poucas vezes serão vistas ou lidas sobre o conflito líbio. Desde a verdade sobre os “bombardeios à população civil” em fevereiro, até a conformação das filas “rebeldes”. Ou, como chama Al Jazeera, “pro-democracy fighters”. Digo, se quiserem seguir notícias objetivas de verdade sobre Líbia, podem ler http://leonorenlibia.blogspot.com/ e terão a melhor informação, não somente pelo blog, mas por todas as ligações e comentários que ajudam Leonor Massanet a pôr algo de luz nesse assunto.

É que, afinal, os rebeldes são como Josep Conrad disse em sua novela “El Corazón de lãs Tinieblas”: “Rebeldes, que qualificação me dava por ouvir? Os chamaram inimigos, criminosos, trabalhadores e, a estes, rebeldes(...)”, e embora seu discurso chega por outro motivo, a comparação vem à tona.

Se especulado muito sobre as verdadeiras razões da intervenção imperialista nas arenas líbias. E muitos se hão acordados das armas de destruição massiva que “possuía” Sadam Hussein, armas que ainda estão buscando, para ver se aparecem. E no fundo, sim que coincidem os motivos, os incofessáveis motivos: não render fidelidade ao Dólar nas transações comerciais, posto que Hussei e Gaddafi coincidiam nisto: o passo pelo euro frente a independência econômica e, no caso africano, a criação do dinar de ouro como moeda pan-africana, baseada no velho e abandonado padrão-ouro nas valorações das divisas. O do petróleo é secundário: Líbia só vende uns 2% do comércio mundial de bruto!



Como todas as coisas têm um princípio, o da revolta da Gran Jamahiryia se perde na noite da descolonização. Na existência de dezenas de tribos naquele território, de sua união em torno a Muammar Gaddafi, que inclusive se casou com uma mulher de Bangazi, de outra tribo que não a dele, que é a Gaddafa. E teve filhos e sobrinhos casados em outras tribos, ao estilo das uniões medievais européias. A fonte do conflito se perde na existência do Sultanato de Darna, ao leste, na Cirenaica, que Anuar Al Sadat tentou ressucitar invadindo o território, para pôr abaixo o império de Egito (e, aliás, dos Estados Unidos). E vem a coisa de longe, faz uns 35 anos: não recorda, leitor?

Na Cirenaica as revoltas são/eram cíclicas. A última, pacífica, foi em Fevereiro. Dias depois de terminada apareceram os “rebeldes” com armas nas mãos.

O bombardeio de civis – uma das mentiras mais extendidas é que tudo isto se deve a que a aviação governamental bombardeou os pacíficos protestos do leste, incluindo Trípoli e outras cidades. Não apareceu, até hoje, três meses depois do acontecido, nem uma só imagem, documento sonoro ou prova física qualquer da existência desses bombardeios sobre a população civil e correspondentes mortos. Nem uma só foto. Nada de nada. Sim que aconteceram bombardeios sobre pólvoras que os mercenários e membros da Al Qaeda tentavam assaltar. Porque isso é assim e tem sido reconhecido pela própria CIA: as armas que roubaram e que entregaram aos “lutadores pela democracia” estão, em parte, em poder da Al Qaeda do Magreb Islâmico.

Talvez a melhor testemunha seja o governo russo, que assinala que seus satélites não registraram nenhum bombardeio de aviões líbios sobre seu território. Mas a mentira, entretanto, se mantém hoje e é o mesmo que há provas do contrário e nenhuma dos bombardeios.



Portanto, o motivo para a adoção da resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU é falso. Mas Líbia teria a esperança posta na China, Rússia, para que não permitissem o nascimento do que está acontecendo. Porém quanto pior o futuro social, melhor eles vão.

As mentiras na televisão. São tantas e tantas as mentiras e falsidades plantadas nos Media, das que principalmente Al Jazeera foi responsável de sua edição, incluindo vídeos manipulados, que não é suficiente este pequeno artigo para que se conheça. Desde vídeos “de protesto”, com feridos, que foram cortados para aparecer a bandeira líbia (verde) na mão dos manifestantes para dizer que o ferido era de outra bandeira, até contar que sucessos que ocorriam em Yemen se passavam na Líbia, ou assinalar que os soldados assassinados nos primeiros dias haviam sido pelas tropas leais ao Povo Líbio, quando haviam sido pelos terroristas rebeldes: uma e outra vez contaram mentiras, ocultaram as barbaridades dos “rebeldes” com a povoação defensora da legalidade em Bengazi ou Tubruc...que terminaram com a renúncia do diretor da cadeia, farto de tanta manipulação (http://www.rebelion.org/noticia.php?id=127135). Sobram vídeos em www.youtube.com a respeito desses assuntos, incluindo a tortura de um menino de 9 anos, mais ou menos, por gritar “Viva Gaddafi!” e andar com a bandeira verde.

Lockerbie: Voltaram a pôr tornar atual esse assunto. Mas desde a demolição por aviões da OTAN em 27/jun/1980 de um avião DC-9-15 de ITAVIA (filial de ALITALIA) ao confundi-lo com outro igual, em que supuseram viajar Muammar Al Gaddafi e que morreram 81 pessoas, a perseguição ao líder da revolução líbia parece não ter fim. O assassinato de seu filho Saif Al Arab de três netos é outro algo a mais.

O assunto de Lockerbie, em 21/dez/1988, ainda é mais complicado (vid: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=58308). Dos acusados, Abdelbaset Ali Mohmed Al Megrahi, um agente da inteligência líbia e chefe de segurança das Aerolinhas Árabes Líbias (LAA), e Khalifa Fhimah, diretor da estação das LAA no aeroporto de Malta, só foi condenado o primeiro (depois de atender as 15.000 testemunhas) pela “memória” de um alfaiate de Malta como única prova e que, surpreendentemente, a Frente Popular para a Liberação da Palestina negou toda relação com a bomba como vingança pela derrubada de um Airbus iraniano em junho de 1988 por disparos yankees no Golfo Pérsico: os autores foram condecorados!

A maioria das vozes que seguiram os assuntos a fora dos canais oficiais assinala como culpáveis os palestinos traidores, ao serviço do Mossad, e ao comerciante de armas Al Kassad, relacionado com o narcotráfico. O pagamento de indenizações por parte da ONG de Saif Al Islam Gaddafi serviu para liberar a imensa quantidade de dinheiro que a ONU retinha em Suiza no Estado Líbio e assim poder desenvolver o país. Mas embora andam com isso a voltas a opinião pública não tem nem idéia da verdade.



A resolução 1973 da ONU. A famosa resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU graças ao que dizem que estão a atuar na Líbia, viola todas as normas, incluída a Carta Fundacional das Nações Unidas.

Assim, seu artigo 2.7 estabelece que “nenhuma disposição desta carta autorizará a ONU a intervir nos assuntos que são essencialmente da jurisdição interna dos Estados”. Reprimir uma insurreição armada é a responsabilidade de um Estado e se bombardear rebeldes armados é um crime, o quê dizer do que fizeram os USA no Iraque e Afeganistão.

O artigo 39 da Carta que se cita limita os casos em que a atuação militar está permitida: “A ameaça para a paz, quebra da paz ou ato de agressão contra outro país”, casos que não se dão na Líbia. E não digamos nada do artigo 1 do Tratado da OTAN: “As partes se comprometem, tal como está estabelecido na Carta da ONU, a resolver por meios pacíficos qualquer controvérsia internacional nas que puderam ver-se implicadas”. Tanto faz, dá na mesma para eles.

Portanto, é necessário ressaltar que a resolução 1973 não autoriza bombardeios sobre território líbio e muito menos sobre a população civil, que é o que está fazendo a OTAN, com o Estado espanhol incluído. E muito menos tomar partido na rebelião, defendendo os terroristas que querem trocar o governo líbio e as condições econômicas.

Bombas de fragmentação. Em uma dessas imagens “reveladoras” que estamos acostumados por causa de muitas histórias, apareceu uma foto com restos de bombas de fragmentação sobre uma mão anônima dizendo a informação que haviam sido jogadas sobre Misurata pelas tropas de Gaddafi. Essas bombas tem de ser lançadas de aviões, e não se reportou, em nenhum momento, informação de vôo de aviões governamentais que as arremessassem. Se não há avião, não há bombas! Por cima, só era isso: umas fotos de mãos com uns troços de bombas, que poderia ser feito em Misurata ou em Faluyia ou no Paquistão.


O assunto das testemunhas é algo que deveria fazer corar aos Meio de Comunicação: com freqüência se dá a audiência a qualquer que chama e diz que está em determinado lugar e que denuncia...qualquer coisa: os escritórios das agências destes três meses estão cheios de “testemunhas” dessa qualidade, com notícias que nunca foram contrastadas nem serão nunca.

Enquanto isso, a repressão que está a causar dezenas de mortes de leais em Bengazi ou de Shias em Bahrein está escondida.

As causas econômicas. Ler o seguinte link: http://elproyectomatriz.wordpress.com/2011/04/21/libia-%C2%BFpetroleo-o-bancos-centrales/ (em espanhol) e conhecer as verdadeiras razões do ataque ao Estado líbio disfarçado de proteção ao povo, um povo que teria uma qualidade de vida que queríamos em Galiza! Só ao lembrar-nos de 1951, a data oficial da independência tinha apenas 16 graduados universitários, compreenderemos o gigantesco trabalho na Líbia.

Seria conveniente perguntar sobre o Banco de Compensações Internacionais, sistema a que Líbia não está aderida, já que com suas reservas de ouro não necessita. Quiçá por isso a primeira medida de importância (já na primeira semana da revolta) que adotaram os “rebeldes” foi a criação do Banco de Bengazi como novo Banco Nacional da Líbia e, por suposto, integrar-lo na estrutura do BIC, que estabelece como ponto fundamental que os bancos centrais não podem outorgar créditos aos seus próprios governos.

E passa o mesmo que no Iraque: a razão última da agressão está em não querer cobrar o petróleo em dólares, uma moeda que só tem, basicamente, vida financeira internacional e que quando a necessita o governo dos Estados Unidos, simplesmente lhes dão a fotocopiadora e já está, dito seja de forma muito popular e simples.

Os países progressistas da América Latina que estão no caminho de criar uma moeda comum (o sucre) deveria estar precavidas...mesmo que já estejam.

Os rebeldes. Recentemente, os “lutadores pela democracia” se viram na obrigação de abrir as portas da prisão de Darna, colocar uma arma na mão dos presos e enviar à Misurata. Não acreditam? Pois é certo, já que os “rebeldes” estão divididos entre eles (os Al Qaeda, os financiados pela OTAN diretamente e os que acreditaram de verdade que aquilo era uma revolução). Hoje, domingo, primeira de Maio, se disse por Trípoli que os líderes dos “rebeldes” fugiu de Bangazi para Tubruc. A anistia que ofertou Gaddafi, legítimo representante do Estado líbio, ficará aquém e cair sob a ira do povo que, com as armas na mão, está marchando até Misurata, de cujo porto foram eliminados os “terroristas”, que se concentram ao redor do aeroporto.

Egípcios, sudaneses, etíopes...conformam as filas dos golpistas. Se no exército regular líbio há alguns não-líbios seria ridículos chama-los mercenários: só há que ver os exércitos da Europa conformados por “profissionais” de muitos países. Os latinoamericanos das tropas espanholas são um exemplo que não necessita explicação.

Ao final, aparte da base econômico-financeira da agressão imperialista, subjace um desejo de dizer que o quê não tem que fazer Muammar Gaddafi é convocar eleições livres, permitir a existência de partidos e aplicar as receitas européias ao seu país. Não existe nada mais além de Montesquieu e da democracia liberal!

Fonte: http://yrminsul.blogspot.com/2011/10/libia-contrainformacao-de-combate.html

Declínio e Queda de Muammar el-Qaddafi

por Greg Johnson

O Coronel Muammar el-Qaddafi governou a Líbia por 42 anos. Ele chegou ao poder em um golpe militar contra o rei líbio Idris, que era basicamente o sátrapa do capital internacional, garantindo que a exploração dos recursos petrolíferos do país beneficiasse companhias estrangeiras e a si mesmo, mas não o povo líbio.

Qaddafi obrigou as companhias de petróleo a partilhar sua riqueza com o povo líbio. Ele financiou escolas, clínicas e infraestrutura. Alfabetização, saúde e expectativa de vida dispararam. Mas ele não queria que os líbios tornassem-se preguiçosos e corruptos como os cidadãos dos ricos Estados do Golfo Persa. Ele constantemente lembrou os líbios de que o petróleo acabaria um dia e que eles teriam que trabalhar para tornarem-se autosuficientes.



Qaddafi parece doido para a maioria dos ocidentais, mas sua filosofia e prática políticas foram, na verdade, bastante consistentes: ele rejeitava a modernidade homogeneizadora. Ele via tanto o capitalismo e o comunismo como essencialmente a mesma coisa em seu materialismo, globalismo, e nivelamento. Ele advocava uma terceira via na qual formas tradicionais de vida, que são inerradicavelmente plurais e particulares, poderiam seletivamente abraçar a modernidade. Ele financiou grupos de liberação nacional tais como o PLO e o IRA. Ele apoiava movimentos antiglobalização e líderes como Hugo Chavez. Ele gostava de botar o dedo na cara dos Estados Unidos. Após a queda da URSS, ele fez tudo que podia para frustrar a emergência de uma pax Americana completamente unipolar. Ele era tão nacionalista quanto qualquer líder poderia ser quando amarrado a uma religião universalista.

Qaddafi cometeu muitos crimes. Ele permitiu-se muitas tolices. Ele tinha péssimo gosto.

Mas talvez a Líbia estivesse em paz e não em ruínas, e talvez Qaddafi estivesse vivo e liderando hoje, se ele não tivesse cometido um único erro fatal: ele decidiu brincar de adoletá com os EUA. Após 11 de Setembro, ele partilhou informações sobre a Al Qaeda com os Estados Unidos. Ele concordou em abandonar as pesquisas de armas nucleares, apesar de uma dissuasão nuclear ser o único modo de um país manter sua independência no mundo de hoje. Ele torturou muçulmanos no lugar dos Estados Unidos e do Reino Unido para que eles pudessem, com típica hipocrisia anglo-talmúdica, manter suas pretensões de legalidade.



Ele referia-se a Condoleeza Rice como "Leeza, Leeza, Leeza", e jurou que "amava-a" como se ele fosse um cabelereiro deslumbrado, e não um Chefe de Estado sério. Talvez ele estivesse ensaiando para o Inside Edition. Até onde eu sei, ele nunca foi apresentador do Saturday Night Live ou apareceu na Oprah.

Ao longo da maior parte de seu governo, Qaddafi foi tanto amado quanto temido. Ele foi amado porque ele melhorou o bem-estar de seu povo e por causa de seu carisma cada vez mais excêntrico. Ele foi temido porque ele era duro com seus inimigos. Mas pode-se continuar no poder enquanto temido. Na verdade, isso ajuda. Não pode-se, porém, governar quando é-se desprezado. E ao curvar-se à América, Qaddafi fez de si mesmo desprezível aos olhos do povo.

Tornar-se uma prostituta dos EUA poderia ter compensando Qaddafi pela perda da estima de seu povo se tivesse garantido-lhe um amigo fiel e estável aliado. Mas a América é incapaz desse tipo de amizade. Todas as alianças são, obviamente, condicionais em servir ao interesse de todas as partes. Mas a América é dada a crises infantis de entusiasmo moralista que ignoram considerações dos interesses nacionais. Os líderes americanos realmente acreditam nas próprias baboseiras.



Então quando o mundo árabe estava todo em polvorosa a respeito de "democracia" e "mudança" e derrubar "ditadores", todos os cálculos de interesse nacional, todo realismo sobre perspectivas de democracia nos países árabes, até mesmo o supremo bem (ou seja, os interesses de Israel) foram arremessados pela janela. Qaddafi tinha que ir, sob uma barragem de pietismos liberais e bombas.

Eu não sei se Qaddafi chegou a arrepender-se de sua abertura ao "Ocidente", mas seu desafio até o fim quase redimiu-o aos meus olhos.

As lições devem ser claras para os outros governantes árabes que estão sendo alvejados pelas mesmas forças: pode-se ser temido e odiado, mas não pode-se nunca arriscar a tornar-se desprezível aos olhos do próprio povo buscando a amizado dos Estados Unidos. Os Estados Unidos, ademais, são um amigo volúvel e inútil, indigno de trair o próprio povo para ser cortejado. O único caminho para a segurança no mundo é o da Coréia do Norte e do Irã. Uma dissuasão nuclear é a única garantia de soberania que resta nesse planeta.

Fonte: http://www.counter-currents.com/2011/10/the-decline-and-fall-of-muammar-el-qaddafi/