domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Causa do Povo

por Robert de Herte

Como sensibilizar um povo tão desencantado e anestesiado como o nosso, se não fazendo ficar alerta ante perigos imaginários? Assim escreveu Tocqueville em sua obra "O Antigo Regime e a Revolução". Hoje, esses perigos imaginários são de que a classe política midiática tira de sua cartola para desviar a atenção dos perigos reais e fazer o povo esquecer sua própria impotência. As denúncias de "populismo", a "ameaça populista", a "deriva populista", a "tentação populista" – se realiza fora de toda evidência constatavel. Desde o início dos anos oitenta, este termo, que anteriormente pouco utilizado, fez uma aparição estrondosa no discurso público. Atualmente funciona como uma desqualificação política ao assimilá-los, contraditoriamente, a um nível de categoria de análise.

Certamente que hoje o populismo é, acima de tudo, um estilo ou tendência. Como tal, pode ser combinado com quase qualquer ideologia: o populismo nacional-populismo, ultra-liberal, populismo de esquerda, o trabalho pró-populista, etc. O populismo pode ser democrático ou solidarista reacionária e xenófoba. É um termo “camaleônico”, absolutamente maleável à conveniência, de modo que o discurso da mídia ou o pseudo-intelectual pode satanizá-lo sem qualquer conteúdo verificável, e pode ser aplicado a qualquer situação. Daí a sua "hiper-utilização polêmica" (Pierre-André Taguieff), que em última análise, impede sua decodificação em tipologias e definições.

Como estilo, o populismo é principalmente aplicado em casos do tipo "catch all", que multiplicam as promessas de uma perspectiva essencialmente demagógica. Seus líderes, tribunos de mandíbulas apertadas com sorriso telegênico*, exploram as angústias e ressentimentos, capitalizam os medos, as misérias e as angústias sociais, muitas vezes, desiganando com frequência bodes expiatórios, mas sem jamais colocar em questão a lógica do capital. Sua posição mais corrente consiste em apelar ao povo contra o sistema vigente. Esta "chamada ao povo" é claramente enganosa, talvez porque a noção de "povo" pode ser entendida sob muitos pontos de vista. Este populismo tem também o seu componente "ingênuo", quando limita-se a elogiar as "habilidades inatas" do povo, certamente "espontâneos" de seus juízos, o que torna inútil qualquer mediação. Poderíamos dizer que os populistas não fazem política com relutância. Sempre correm o risco de cair, ou em uma atitude puramente apolítica, ou em em uma prática vociferante de dizer idiotices nos discursos.

Ainda assim, por mais criticável que seja, este populismo tem o valor de um sintoma. Reação dos “de baixo” contra os "de cima", daqueles que confundem cargos de poder com o desfrute de privilégios, representa ante toda a rejeição de uma democracia representativa que já não representa a mais ninguém. Protesta contra as ruínas apodrecidas das grandes instituições suportadas pelo país 'real', revelando um sistema político disfuncional que já não mais atende às expectativas dos cidadãos e que se mostra incapaz de garantir a permanência do vínculo social, testemunha uma rarefação do clima político, um afastamento cada vez maior da "classe política". Ela revela uma crise da democracia, recentemente analisada por Gerard Mendel como "uma tendência de fundo onde sucessivamente se dessacraliza a autoridade, se perde a fé nas ideologias globalistas na convergência “de gestão" dos grandes partidos, e se instala o sentimento difuso de que as forças econômicas são as verdadeiramente poderosas”. Tal fórmula populista surgiu desde que os cidadãos se afastam das urnas pela simples razão de que já não esperam nada de seus resultados.

Nestas condições, a denúncia de "populismo" esconde muitas vezes uma tendência para desarticular o protesto social, tanto por parte de uma direita preocupada com seus próprios interesses, como de uma esquerda já massivamente conservadora e afastada do povo. Isto permite que uma nova classe ociosa e corrompida, cuja principal preocupação é a "deslegitimação de todos aqueles para quem o povo é uma causa a defender o benefício daqueles para quem o povo é um problema a ser resolvido" (Annie Collovald), ver o povo com desprezo. Que o "apelo ao povo" pode por si só ser denunciada como uma patologia política, e mesmo uma ameaça para a democracia, é em si mesmo revelador. Esquecer que na democracia, o povo é o único depositário da soberania. E ainda mais quando esta se encontra confiscada.

Reduzido a mera postura, o populismo se converte em sinônimo de demagogia, ou melhor mistificação. Mas o populismo pode existir sob uma forma política integral, ou seja como um sistema de idéias organizado. Tem até mesmo seus grandes precursores: Ludditas e cartismo inglês, agraristas americanos e populistas russos (narodnitchestvo), sindicalistas revolucionários e representantes do socialismo francês de tipo associativo adesão associativa, sem esquecer de seus grandes teóricos, de Henry George a Bakunin, de Nicolas Tchernychevski a Pierre Leroux, Benoit Malon, Sorel e Proudhon.

Como política, o populismo se manifesta através de um compromisso com as comunidades locais ao invés da "Grande Sociedade". Não é amigo nem do Estado nem o mercado, chegando a rejeitar tanto o individualismo liberal quanto o estatismo. Tem como objetivo a liberdade e a igualdade, mas é inerentemente anti-capitalista, pois observa claramente que a primazia de “todo mercado” liquida com todas as formas de vida em comum às quais está ligado. Aspira a uma política coerente com as aspirações populares, com base na moral popular que possui grande desconfiança para com a "classe política", e pretende criar novos espaços de expressão coletiva, com base em uma política de proximidade. Postula a participação dos cidadãos na vida pública como algo mais importante do que as "regras institucionais" do jogo de poder. Em resumo, da um papel fundamental no conceito de subsidiariedade. É por isso que é explicitamente contra as elites políticas e midiáticas, diretivas e burocráticas.

Na medida em que é anti-elitista, o verdadeiro populismo é, portanto, incompatível com os sistemas autoritários a que temos tendência a assimilar. É também incompatível com os belos discursos dos auto-proclamados líderes que dizem falar em nome do povo, mas têm o cuidado de não lhe dar a palavra. Sempre que seu impulso venha de cima, ou por obra de um tribuno demagógico que se aproveita dos protestos sociais ou do descontentamento popular sem deixar o povo expressar-se, saímos do populismo propriamente dito.

Posto na sua própria perspectiva, o populismo tem mais futuro do que a política institucional, que precisamente tem cada vez menos futuro. Atualmente, é o único capaz de sintetizar o eixo justiça social-segurança que tende a suplantar o eixo esquerda-direita dos conflitos sociais clássicos. É desta forma que oferece uma alternativa à hegemonia neoliberal, nada mais que baseada na política representativa. Ao propor a revalorização da política local graças a uma concepção responsável da democracia participativa, pode desempenhar um papel libertador. Desta maneira se reencontra com seu papel de origem: servir à causa do povo.

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