quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Entrevista de Alain de Benoist ao Jornal " IL FEDERALISMO " - 2005



1 – A França é um estado jacobino por excelência. Como você interpreta a reflexão federalista?

A.B : A França possui de fato uma tradição secular jacobina, que não começa, também, com a Revolução: a tendência de centralização das autoridades locais estava bem encaminhada no Antigo Regime, a Revolução que radicalizou tal fato. Esta tradição está relacionada ao modo de formação da nação francesa, que surgiu com a expansão gradual de um núcleo central, combinado com o estabelecimento de um mercado nacional e um espaço legal unificado. No entanto, deve-se lembrar que sempre houve, também, resistência à centralização, especialmente por parte da nobreza, mas também nas massas. Todos os tipos de pensadores, que vão de Henry de Boulainvilliers à Tocqueville, denunciaram fortemente os jacobinos. Nas províncias periféricas, a personalidade do forte regionalismo e autonomismo têm permanecido até hoje. No Século 19, esquerdistas como Proudhon, homens de direita como Maurras, ou, especialmente, jovens como Barres afirmam de forma explícita o federalismo.
Pessoalmente, eu vim para o federalismo por uma simpatia espontânea pelos movimentos regionalistas ( Bretão, Normando, Flamengo, Alsáciano, Basco, Córsego, etc ) comprovada desde a minha juventude, e por uma reflexão relevante da filosofia política. O Federalismo apareceu-me como o único sistema político capaz de conciliar a individualidade e a multiciplidade, isto é, as exigências aparementemente contraditórias da unidade, necessária para a decisão, e para a liberdade, de manutenção da diversidade. Mas também tenho sido influênciado por uma série de autores como Paul Sérant e Thierry Maulnier, que escreveram no século 20 ( o século federalista ), como, também, Robert Aron, que faz parte dos "não-conformistas dos anos 30", que continuou a defender as idéias de Sorel, do Socialismo Associativo, do Mutualismo Francês, além de Alexander Marc, diretor do L' Europe en formation e teórico do "federalismo integral", etc.


2 – A democracia representativa contemporânea tem em si o risco de não representar ninguém, muito menos o povo. Existe, segundo a lei, o problema da soberania?


A. B: A crise da representação agora é que afeta todas as democracias liberais. O enfraquecimento do Estado – Nação que, como tem sido dito muitas vezes, tornou-se muito grande para atender às expectativas das pessoas comuns, e muitos pequenos problemas estão se desenrolando em todo o mundo, resultando o afastamento social ( o Estado já não é mais um produtor social ) e uma pausa, sempre acentuada, entre políticos e cidadãos. Eles , então, tendem a refugiar-se na abstenção, ou votar em partidos puramente manifestantes, que não são forças construtivas. Podemos remediar essa crise, pondo em prática a democracia participativa em todos os níveis, desde a base, permitindo à todos a participação nos assuntos públicos.

O problema da soberania é outro problema. À partir da perspectiva jacobina do Estado – Nação, a soberania é definida, de acordo com Jean Bodin, como um conceito de indivisibilidade : a autoridade soberana é uma autoridade à qual, por definição, não podem ser atribuídos limites. Como uma autoridade soberana, sobre todos, tende naturalmente ao despotismo. Federalismo não rejeita o conceito de soberania, mas dá uma definição diferente. Soberania não é indivisível, mas compartilhada ou distribuída de acordo com o princípio da subsidiariedade ou competência suficiente. O poder soberano não é poder absoluto, ele representa apenas o poder localizado no mais alto nível e cujo campo de decisão é o maior, o que ocorre quando as autoridades locais nos níveis mais baixos, não são capazes para resolver os problemas.


3 – Parafraseando Johannes Althusius, acredita que é possível que o laço social pode ser reconstruído à partir da primeira forma de associação, ou seja, a família, então, transformando-se em municípios, províncias e regiões?

A.B: A revitalização das famílias é, certamente, uma das condições da re-criação de laços sociais, porque a família é um dos lugares de socialização da aprendizagem. Mas eu acho que é um erro grave considerar a sociedade global como um sistema de "matryoshkas" onde se pode passar sem qualquer ruptura real da família para os municípios e regiões. Este erro tem sido constantemente cometido pelos autores, geralmente de direita, que compararam a sociedade global com uma grande família ( muitas vezes com o objetivo de assimilar o soberano de uma família, onde os sujeitos seriam os "filhos") . A familía revela a dimensão privada da existência, os municípios e regiões, a dimensão pública. O tipo de relação, cuja família é o lugar, entre pais e filhos, é fundamentalmente diferente do que existe no seio da sociedade política. Ignorando a diferença de natureza entre a dimensão privada e a dimensão pública da existência humana, pode-se levar tanto a submeter-se à um totalitarismo político em todos os aspectos da vida privada, ou, inversamente, à um liberalismo que procura uma "privatização" generalizada de assuntos públicos.


4 – A sociedade atual é composta por individuos atomizados, separados uns dos outros, você vê a possibilidade do nascimento de um novo modelo antropologico?
A.B : Nós vivemos de fato em uma época em que o individualismo alcançou os seus maiores picos, mas ao mesmo tempo, e talvez em compensação, vemos o desenvolvimento espontâneo de novas formas de associação voluntária, tais quais as "tribos", comunidades, redes, etc. O verdadeiro problema é a colonização dos espíritos pelo imaginário economico e mercantil.

O modelo antropológico dominante é de um homem preocupado apenas com a maximização dos seus principais interesses, isto é, em geral, para chegar à uma quantidade cada vez mais de objetos consumidos. A mensagem implícita da mídia é a idéia de que a felicidade é sinônimo do consumo. Este modelo é igualmente descritivo e normativo: ela legitima tanto ao materialismo prático e à idéia de que o comportamento egoísta é o mais comum possível.

Neste contexto, o laço social invariavelmente derrotado, porque o outro aparece pela primeira vez como um rival em um campo transformado em um espaço social de concorrência generalizada. Portanto, de fato, é necessário trabalhar para a vinda de um novo modelo antropológico. Isto requer a capacidade de retornar ao imaginário simbólico, redefinir o homem como um ser fundamentalmente social e político, e remeter os valores de mercado para ele, necessariamente de forma subordinada.

5 – Existe na Europa um problema cultural para seus mútiplos povos?
A.B: Poderíamos repetir aqui a antiga distinção entre cultura e civilização, que também corta a distinção entre comunidade e sociedade, teorizada por Ferninand Tönnies. A civilização tende a ser única, enquanto as culturas sempre serão plurais. A diversidade cultural dos povos europeus – a diversidade em relação à medida em que essas pessoas têm uma herança em comum - é agora ameaçada pela homogeneização dos estilos de vida, induzidos pela globalização liderada pela superportência norte-americana, mas que se define, principalmente, como uma expansão global do capital de forma totalmente desterritorializada. Mias uma vez, acho que podemos combater esse processo, retornando à base, ao nativo, às comunidades. Isto é, atuação local para opor-se ao global, dando à globalização um conteúdo diferente, multipolar e diferenciado.

6 – O desaparecimento das línguas locais é, na sua opnião, um fato significativo?
A.B: O desaparecimento das línguas locais é, claramente, um aspecto do desaparecimento das culturas e redução da diversidade. Na época da Revolução, os jacobinos já haviam tentado remover de forma autoritária os "patois" ( dialetos não oficiais ) e as línguas locais. A III República continuou nessa direção ao tentar miminizar o uso das línguas regionais ao nível privado. Hoje as línguas locais são mais aceitas, e até protegidas, mas é todo o modo de vida caracteristico da sociedade global que lhes são desfavoráveis. O sistema mediático, e sobretudo a televisão, desempenha neste contexto um papel central: as crianças não falam mais como os seus pais, eles falam como se fala na televisão. Ao mesmo tempo, o inglês americano se impõe cada vez mais como a língua do novo koiné mundial. Contudo, a situação é bem diferente regionalmente. Algumas línguas são, obviamente, condenadas à desaparecer, outras têm uma boa chance de sobrevivência quando usadas diariamente em áreas que estão preservando a sua identidade.

7 – Quais são os cenários que estão previstos para os povos da Europa?
A.B: A construção política da Europa é agora totalmente bloqueada, tanto pela lógica persistência do Estado – Nação, quanto pela completa falta de vontade dos homens políticos, e pela burocracia. Ao invés de aprofundar suas estruturas institucionais, a Europa preferiu expandir rapidamente à países que não possuem outra ambição além de alcançar um vasto mercado transatlântico. A UE pretende agora adotar uma constituição, mesmo sem ter criado um poder constituinte, e pretende aderir à Turquia, mostrando que não há mesmo um acordo entre europeus sobre os limites da Europa.

O grande equívoco é que a grande maioria não está de acordo com as finalidades da integração europeia.
Este é o problema das finalidades que deve ser esclarecido. A alternativa é clara: ou a Europa dá prioridade à liberalização, a esposa da dinâmica de um grande mercado que se expandirá o máximo possível, e neste caso, a influência norte-americana irá se tornar predominante, ou se baseia em uma lógica de estruturas mais profundas de integração política através do federalismo e da subsidiariedade, tendo em vista, principalmente, a intenção continental de neutralizar o peso dos Estados Unidos.

8 – Qual Europa você anseia?
A. B: Vasta questão, mas penso que já respondi. Eu quero que a Europa se torne um poder independente em que possa desempenhar um papel regulador na globalização de um mundo multipolar, mas também uma Europa que não se limite à lógica exclusiva de poder, mas que possa ser novamente um projeto de civilização.


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