terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Na Casa de Pound - Entrevista com Gianluca Iannone

por Colin Liddell



Casapound é um movimento político italiano que toma seu nome do poeta e simpatizante fascista americano, Ezra Pound. Ainda que seja inevitavelmente referido como "extremista", "racista", e "neofascista", o movimento, que foi fundado em 2003, é na verdade mais complexo e interessante, especialmente a partir de uma perspectiva alternativa de direita. Ele assume uma abordagem holística e comunitária à política, focando em cultura, comunidade, e uma variedade de atividades para seus membros, tanto quanto em política de rua tradicional. Esta é uma entrevista que fiz por email com Gianluca Iannone, o líder do movimento, no início de 2011 para um artigo que eu estava escrevendo.

A CasaPound ainda não é muito conhecida nos países anglófonos, mesmo para aqueles ativos em política direitista. Tu poderias introduzir seu movimento para nossos leitores e descrevê-lo? Quão grande é CasaPound? Quantos membros e quanto apoio tendes?

Em primeiro lugar, ligar a CasaPound à direita é um pouco restritivo. CasaPound Italia é um movimento político organizado como uma associação de promoção social. Ele começa na direita e passa por todo o panorama político. Direita ou esquerda são duas visões antigas da política, e nós precisamos gerar uma nova síntese. A CPI tem mais de 4000 membros por toda a Itália, mas as ajudas e simpatia que nós recebemos diariamente é muito maior... Basta considerar que o Blocco Studentesco, nossa organização estudantil, conseguiu 11.000 votos em Roma nas eleições estudantis.



Por favor, conte-nos um pouco sobre ti e teu background.

Eu nasci em agosto de 1973 e comecei a fazer ativismo político aos 14 na Fronte della Gioventù em Acca Larenzia, uma das vizinhanças do centro de Roma. Desde então eu nunca parei de ser parte desse mundo. Jornalista desde 1999, eu trabalhei para estações de TV e rádio e também escrevi para jornais nacionais sobre conflitos internacionais, literatura, cinema e música.

Por que tu te tornastes politicamente ativo? Foi algum evento, ação, ou pessoa que impeliu-te ao ativismo político?

Para falar a verdade, não houve uma coisa em particular. Creio que foi simplesmente destino.


Quais são as principais políticas e objetivos da CasaPound, tanto a curto prazo como a longo prazo?

A CPI trabalha com tudo que tenha relação com a vida de nossa nação: do esporte à solidariedade, cultura, e é claro política. Nos esportes, nós temos times de futebol e uma academia, nós praticamos hockey, rugby, skydiving, boxing, brazilian jiu-jitsu, scuba diving, escalada, espeleologia.  A nível de solidariedade, nós temos equipes de auxílio, nós levantamos fundos para o povo Karen, e nós prestamos auxílio a órfãos e mães solteiras. Uma linha telefônica chamada "Dillo to CasaPound" está ativa 24h/dia para dar conselhos gratuitos em questões legais e tributárias. No campo cultural nós, promovemos autores e organizamos apresentações de livros; nós temos um clube de artistas, uma escolha de teatro, aulas gratuitas de guitarra, baixo e bateria, nós criamos uma tendência artística chamada Turbodinamismo, nós temos uma casa editorial, dúzias de livrarias e sites. Politicamente nós propusemos diversas leis como o Mutuo Sociale (Hipoteca Social), o Tempo di essere Madri (Tempo de ser mãe) ou contra a privatização da água e diversas outras. Falar sobre a CPI nunca é fácil porque todas essas coisas são CasaPound. Todas elas representam nossos desafios e projetos para agora e para o milênio. 



Tu tens alguma ligação significativa com grupos ou partidos de fora da Itália?

Não.
A primeira coisa que chama a atenção nos países anglófonos é o nome de teu grupo, que, é claro, faz referência ao famoso poeta americano Ezra Pound. Quão importantes são as idéias de Poundo para teu movimento? Por que resolveu-se incluir seu nome no título de teu movimento?

Ezra Pound foi um poeta, um economista e um artista. Ezra Pound foi um revolucionário e um fascista. Ezra Pound teve que sofrer por suas idéias, ele foi enjaulado para impedi-lo de falar. Nós vemos em Ezra Pound um homem livre que pagou por suas idéias; ele é um símbolo das "visões democráticas" dos vencedores.

Ezra Poundo também é um nome rotineiramente associado com o antissemitismo. Alguns automaticamente verão a invocação de seu nome como uma chamada ao antissemitismo. Poderias esclarecer a posição da CasaPound em relação aos judeus e Israel?

Associar Ezra Pound e antissemitismo é uma falsificação total. É a mesma coisa para a CasaPound, não faz sentido. É verdade que nós somos contra a política israelense em relação aos palestinos, contra o bombardeio de civis, e contra o embargo sobre o auxílio internacional. Dizer isso não significa ser antissemita, significa analisar os fatos.
Tu também és conhecido por uma retórica anti-usurária. A maioria das pessoas racionais opõe-se a usura excessiva, mas tu te opões a toda forma de usura? Se não, onde termina o crédito construtivo e começa a usura destrutiva?

Usura é a pior das coisas. É a cabeça do polvo. É aquilo que deu início às guerras que estão começando no Mar Mediterrâneo, que gera a imigração ilegal e a destruição. É aquilo que cria desemprego, e dívidas. É o que ameaça o futuro de nossas crianças, que as torna fracas e preparadas para o massacre.
Minha impressão da CasaPound é a de que é fundamentalmente uma organização comunitária que opera com sucesso na arena da política de rua, com marchas, paradas, e eventos que fortalecem a identidade e a comunidade, ao invés de através de eleições convencionais. Nos países anglo-saxões a política de rua da direita falhou no passado, permitindo à mídia oficial pintar imagens bastante negativas do National Front na década de 70 e do BNP posteriormente. Por causa disso o BNP agora evita a rua como arena política. O sucesso de teu grupo sugere que a rua é uma arena política muito mais aceitável para a direita na Itália. Por que crês que seja assim? Quais são as diferenças que tornam isso possível?

Em primeiro lugar, a Inglaterra nunca foi um estado fascista. Isso já cria uma grande diferença cultural. Também, como eu disse antes a CPI trabalha em dúzias de projetos e com diversos métodos: de conferências a demonstrações, distribuição de informações, pôsteres, etc. O que é importante é gerar contra-informação e ocupar o território. É fundamental criar uma rede de apoiadores ao invés de focar em eleições. Nas eleições, tu estás competindo com grupos com um forte financiamento e com apenas uma ou duas pessoas eleitas, não podes mudar nada. Política para nós é uma comunidade. É um desafio, é uma afirmação. Para nós, política é tentar ser melhor a cada dia. É por isso que nós dizemos que se não te vemos, é porque tu não estás lá. É por isso que estamos nas ruas, nos computadores, nas livrarias, nas escolas, nas universidades, nos ginásios, no topo das montanhas ou nas bancas de jornal. É por isso que estamos na cultura, no ativismo social e nos esportes. Este é um trabalho constante.


Por causa das diferenças entre Grã-Bretanha e Itália pensas que seja melhor para a direita no Reino Unido evitar a política de rua? Nesse contexto, qual é sua opinião da English Defence League, um grupo que obviamente vê a rua como sua arena ou fórum?

 Eu penso que a EDL está apelando para o discurso do choque de civilizações. Para mim e para a CasaPound, isso provoca um certo desagrado. Se a direita britânica está reduzida a isso, então vamos conversar sobre futebol, que será melhor.



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