quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Sobre o Popularismo ou Populismo

por Alberto Buela



A politologia, uma cisão relativamente recente da filosofia, tem considerado historicamento o populismo de forma pejorativa. Quer seja outorgando-lhe uma conotação negativa, caracterizando-o como uma patologia política na opinião de Leo Strauss ou como o enfant perdu da ciência política. Ele tem sido estudado vergonhosamente por aqueles que o fizeram. A mais renomada estudiosa do tema, a inglesa Margaret Canovan sustenta que: "o termo populismo se usa comumente a modo de diagnóstico de uma enfermidade".

 O termo populismo encerra uma polissemia de difícil acesso para os politólogos que por formação e disciplina carecem dos meios suficientes para elucidá-la. De modo tal que a maioria do tratadistas se ocupam de descrições mais ou menos sutis segundo usa capacidade pessoal. Porém tudo isso não vai mais além de um somatório de características que não chegam à essência do fenômeno. Conta muito em cada um deles sua experiência pessoal e sua conformação ideológica. Assim, por exemplo, o dicionário de política mais recente editado no Brasil o define: Designação que se dá à política posta em prática em sentido demagógico especialmente por presidentes e líderes políticos da América do Sul, os quais com uma aura carismática se apresentam como defensores do povo. Cumpre destacar como exemplo típico Perón na Argentina, vinculando aos interesses populares reivindicações nacionalitas. Definir o populismo através da demagogia é, não somente um erro de método, senão uma posição política vinculada ao universo liberal-socialista clássico.

Os tratados de história da ciência política, multiplicados ao maior nas últimas décadas anunciam nesse item, acriticamente, uma e outra vez uma série de regimes aos quais atribuem o caráter de populistas, havendo entre eles, diferenças substanciais. Assim vão juntos, os movimentos do século XIX, tanto o agrário radical dos EUA como o intelectual dos narodnichevsto da Rússia. A democracia direta da Suíça. Getúlio Vargas (1895-1974) e seu Estado Novo no Brasil. Perón (1895-1974) e sua Comunidade Organizada para a Argentina. Gamal Nasser no Egito. O general Boulanger e logo o mouvement Poujade na França. Mais proximamente George Wallace nos EUA e o Solidarnosc na Polônia. Nos perguntamos: Tudo isso junto, involucrado em um só conceito, não seria um sabá...não se parece bastante?
Porém o que tem acontecido ultimamente para que a grande maioria das revistas sobre ciência política se ocupem assiduamente do populismo? Em nossa opinião, este deixou de ser um fenômeno próprio das nações periféricas como o foi nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial para transformar-se em um fenômeno europeu. Assim a Lega Nord de Humberto Bossi na Itália; o Partido Rural de Veikko Vennamo na Finlândia; o Front National de Jean Marie Le Pen na França; na Bélgica o movimento flamengo do Vlaams Blok; o sucesso de Heider na Áustria; o Fremskirttsparti na Dinamarca, Suécia e na Noruega; a Deutsche Volksunion na Alemanha; o movimento socialista pan-helênico na Grécia, e a União Democrática na Suíça são alguns dos movimentos caracterizados como "populistas" pelos analistas políticos, seguindo os acadêmicos da vez.

A instalação política do populismo na Europa nestes últimos anos obrigou os teóricos a repensar a categoria de populismo com a intenção de liberá-la da conotação pejorativa que lhe outorgaram eles mesmos outrora quando o fenômeno do populismo se manifestava nos países periféricos ou do terceiro mundo, como foram os casos de Perón, Vargas ou Nasser.

É muito difícil levantar a demonização de uma categoria política logo de cinquenta anos de ser utilizada em um sentido denigrente e pejorativo. É por isso que propomos utilizar um neologismo como popularismo para caracterizar os fenômenos políticos populares.

Traços do Popularismo

Estes movimentos consideram o povo como: a) fonte principal de inspiração; b) termo constante de referência e c) depositário exclusivo de valores positivos.

O povo como força regeneradora é o mito mais funcional para a luta pelo poder político.

O popularismo exclui a luta de classes e é fortemente conciliador. Para ele a divisão não se dá entre burgueses contra proletários senão entre povo e antipovo. (ex. descamisados contra oligarquia na Argentina).

Seu discurso é, então, antielitista e canaliza o protesto no seio da opinião pública na forma de interpelação aos poderes públicos e ao discurso dominante.

Sua prática política radica na mobilização de grandes massas que expressam mais que um discurso reflexivo, um estado de ânimo. As multitudinárias concentrações são o locus do discurso popularista. Os muros e paredes das cidades ainda não foram substituídos pela mídia de massa como veículo de expressão escrita do discurso interpelativo do popularismo.

Finalmente sua vinculação emocional em torno a um líder carismático que em uma espécie de democracia direta interpreta o sentir desse povo.

Conciliação de classes, discurso interpelativo, mobilização popular e líder carismático são os traços essenciais do popularismo.

Existe uma diferença substancial entre os movimentos populares periféricos e os dos países centrais. Estes últimos tem uma tendência racista ostensível para expulsar de si a tudo aquilo que não é verdadeiro povo enquanto que nos países subdesenvolvidos ou dependentes existe neles uma tendência à fusão étnica dos elementos marginais. Aqui o povo é um modo de ser aberto enquanto que nos países centrais é fechado. Hoje, o horror ao imigrante é o exemplo mais evidente.

Os popularismos tem uma exigência fundamental de enraizamento ou pertença a uma nação ou região determinada, isso faz que por sua própria natureza se oponham sempre a todo internacionalismo, manifestado hoje sob o nome de globalização.

O exerício político do plebiscito através de essa espécie de democracia direta que é a mobilização popular convocada por um líder carismático com um discurso de protesto ao discurso oficial elaborado a partir do politicamente correto, coloca em contradição aos politólogos democratas que perante a crise de representatividade política buscam novas fórmulas para o abatimento da democracia liberal. Pois isso teóricos bem intencionados compreendem, a olhos vistos, que são os movimentos populares os que exercem a verdadeira democracia: aquela em que o governo faz o que o povo quer e não tem outro interesse mais que o do povo mesmo.

Esta contradição não se pode resolver com livros nem artigos eruditos, se soluciona legalizando o que legitimamente os povos vem fazendo em busca de sua mais genuína representação. E isso supõe uma "revolução legal" que nenhum governo ocidental, hoje, está disposto a realizar.

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