quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Visão Eurasianista

por Aleksandr Dugin

Princípios básicos da plataforma doutrinária eurasianista

“Segundo 71% dos cidadãos russos pesquisados, a Rússia pertence a uma civilização peculiar – ‘eurasiática’ ou Ortodoxa -, portanto ela não segue o modo ocidental de desenvolvimento. Apenas 13% considera a Rússia como parte da civilização ocidental.”

(Pesquisa pela VCIOM, Centro Panrusso para o Estudo da Opinião Pública, 2-5 de Novembro de 2001)

A amplitude da época

Cada época histórica possui seu próprio peculiar ‘sistema de coordenadas’ – políticas, ideológicas, econômicas e culturais. Por exemplo, o séc.XIX na Rússia passou sob o signo da disputa entre ‘Eslavófilos’ e ‘Pró-ocidentais’[zapadniki]. No séc.XX o divisor de águas passou entre ‘Vermelhos’ e ‘Brancos’. O séc.XXI se tornará o século da oposição entre ‘atlantistas’* (os apoiadores de um ‘globalismo unipolar’ **) e ‘eurasistas’***.

* Atlantismo – termo geopolítico significando:

- sob o ponto de vista histórico e geográfico, o setor ocidental da civilização mundial;

- sob o ponto de vista estratégico-militar, os países membros da OTAN (em primeiro lugar, os EUA);

- sob o ponto de vista cultural, a rede unificada de informações criada pelos impérios midiáticos Ocidentais;

- sob o ponto de vista social, o ‘sistema de mercado’, afirmado como sendo absoluto e negando todas as formas diferentes de organização da vida econômica.

Atlantistas – os estrategistas da civilização ocidental e seus apoiadores conscientes em outras partes do planeta, objetivando colocar todo o mundo sob controle e impondo os estereótipos sociais, econômicos e culturais típicos da civilização ocidental ao resto da humanidade.

Os atlantistas são os construtores da ‘Nova Ordem Mundial’ – o sistema mundial sem precedentes o qual beneficia uma minoria absoluta da população do planeta, o chamado ‘bilhão dourado’.

** Globalismo – o processo de construção da ‘Nova Ordem Mundial’, ao centro do qual estão os grupos oligárquicos político-financeiros do Ocidente, é chamado de globalização. As vítimas desse processo são os Estados soberanos, as culturas nacionais, as doutrinas religiosas, as tradições econômicas, as manifestações de justiça social, o meio-ambiente – cada variedade espiritual, intelectual e material no planeta. O termo ‘globalismo’ no léxico político costumeiro significa apenas ‘globalismo unipolar’, ou seja, não a fusão das diferentes culturas, sistemas econômicos e sócio-políticos em algo novo (como seria com o ‘globalismo multipolar’, ‘globalismo eurasianista’), mas sim a imposição de estereótipos ocidentais sobre a humanidade.

*** Eurasianismo (em seu sentido mais amplo) – termo geopolítico básico indicado:

- sob o ponto de vista histórico e geográfico, o mundo inteiro, excluindo o setor ocidental da civilização mundial:

- sob o ponto de vista estratégico-militar, todos os países que não aprovam as políticas expansionistas dos EUA e seus parceiros da OTAN;

- sob o ponto de vista cultural, a preservação e desenvolvimento de tradições culturais nacionais, étnicas e religiosas orgânicas;

- sob o ponto de vista social, as formas diferentes de vida econômica e a ‘sociedade socialmente justa’.

Eurasianismo (eu seu sentido histórico estrito) é uma corrente filosófica surgida na década de 20 do séc.XX entre os emigrantes russos. Seus autores fundamentais são N.S. Trubetskoy, P.N. Savitsky, N.N. Alekseev, V.G. Vernadsky, V.I. Ilyn, P.P. Suvchinski, E. Khara-Davan, Ya. Bromberg, e outros. Da década de 50 até a década de 80 essa corrente foi mais desenvolvida e aprofundada por L.N. Gumilyov.

Neo-eurasianismo – surgiu aos fins da década de 80 (o fundador sendo o filósofo A.G. Dugin) e ampliou o escopo dos conceitos tradicionais de eurasianismo, combinando-o a novos blocos de idéias e metodologias – tradicionalismo, geopolítica, metafísica, ‘Nova Direita’, ‘Nova Esquerda’, ‘Terceira Via’ na economia, teoria dos ‘direitos dos povos’, ecologia, filosofia ontológica, vetor escatológico, novos entendimentos na missão universal da história russa, perspectiva paradigmática da história da ciência, etc.

Contra o estabelecimento da ordem mundial atlantista e a globalização estão os defensores de um mundo multipolar – os eurasianistas. Os eurasianistas defendem por princípio a necessidade de se preservar a existência de cada povo na Terra, a variedade florescente de culturas e tradições religiosas, o direito inquestionável dos povos de escolher independentemente seu caminho de desenvolvimento histórico. Os eurasianistas saúdam a generalidade de culturas e sistemas de valores, o diálogo aberto entre povos e civilizações, a combinação orgânica entre devoção às tradições e o impulso criativo.

Eurasianistas são não apenas os representantes dos povos vivendo no continente Eurasiático. Ser eurasianistas é uma escolha consciente, o que significa combinar a aspiração de reservar as formas tradicionais de vida com a aspiração ao desenvolvimento cultural livre (pessoal e social).

Desse jeito, eurasianistas são personalidades criativas livres que reconhecem os valores da tradição; entre eles estão também os representantes das regiões que objetivamente formam as bases do atlantismo.

Eurasianistas e atlantistas se opõem um ao outro em tudo. Eles defendem duas imagens diferentes, alternativas, mutuamente excludentes do mundo e de seu futuro. É a oposição entre eurasianistas e atlantistas que define os contornos históricos do século XXI.


A visão eurasianista do mundo futuro

Os eurasianistas consequentemente defendem o princípio da multi-polaridade, se posicionando contra o globalismo unipolar imposto pelos atlantistas.

Como pólos desse novo mundo não estarão os Estados tradicionais, mas sim novas formações civilizacionais integradas (‘grandes espaços’), unidos em ‘cinturões geo-econômicos’ (‘zonas geo-econômicas’).

Segundo o princípio de multi-polaridade, o futuro do mundo é imaginado como uma relação de parceria benevolente e equitativa entre todos os países e povos, organizados – segundo um princípio de proximidade em termos de geografia, cultural, valores e civilização – em quatro cinturões geo-econômicos (cada um consistindo, por sua vez, em alguns ‘grandes espaços’).

- Cinturão Euro-Africano, incluindo 3 ‘grandes espaços’: A União Européia, África Árabe-Islâmica, África sub-tropical;

- Cinturão Pacífico-Asiático, incluindo Japão, os países do Sudeste asiático e Indochina, Austrália e Nova Zelândia;

- Cinturão continental Euroasiático, incluindo 4 ‘grandes espaços’: Rússia e os países da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), os países do Islã continental, Índia e China;

- Cinturão Americano, incluindo 3 ‘grandes espaços’: América do Norte, América Central e América do Sul.

Graças a tal organização do espaço global, conflitos globais, guerras sangrentas e formas extremas de confrontação, ameaçando a própria existência da humanidade, se tornará improvável.

Rússia e seus parceiros no cinturão continental euroasiático estabelecerão relações harmônicas não apenas com os cinturões vizinhos (Euro-africano e Pacífico-asiático), mas também com o cinturão em sua antípoda – o Cinturão americano, que será chamado a desempenhar um papel construtivo no hemisfério ocidental no contexto da estrutura multi-polar.

Tal visão da humanidade futura é o oposto dos planos globalistas dos atlantistas visando criar um mundo unipolar estereotipados sob o controle das estruturas oligárquicas do Ocidente, na perspectiva de criar o ‘Governo Mundial’.

A visão eurasianista da evolução do Estado

Os eurasianistas consideram o Estado-Nação, em suas características presentes, como uma forma obsoleta de organização de espaços e povos, típica do período histórico do séc.XV ao séc.XX. No lugar dos Estados-Nação novas formações políticas devem surgir, combinando em si mesmas a unificação estratégica dos grandes espaços continentais com o complexo sistema multidimensional de autonomias nacionais, culturais e econômicas dentro de si. Algumas características de tal organização dos espaços e povos podem ser observadas tanto nos impérios antigos do passado (por exemplo, o império de Alexandre da Macedônia, o Império Romano, etc.) e nas estruturas políticas mais recentes (União Européia, CEI).

Os Estados contemporâneos encaram hoje as seguintes perspectivas:

1. A auto-liquidação e integração em um único espaço planetário sob dominação americana (atlantismo, globalização);

2. Opor-se à globalização, tentando preservar suas próprias estruturas administrativas (soberania formal) independentemente da globalização;

3. Ingressar em formações supra-estatais de tipo regional (‘grandes espaços’) com base em comunidades históricas, civilizacionais e estratégicas.

A terceira variante é a eurasiana. Sob o ponto de vista da análise eurasiana, esse é o único meio de desenvolvimento capaz de preservar tudo de mais valioso e original que os Estados contemporâneos são chamados a salvaguardar face à globalização. A mera aspiração conservadores de preservar o Estado a qualquer custo está fadada à derrota. A orientação consciente das lideranças políticas dos Estados em se dissolver no projeto globalista é estimada pelos eurasianistas como a renúncia àqueles valores correlatos cuja preservação tem sido o dever dos Estados históricos para com seus súditos.

O séc. XXI será a arena da decisão fatal das elites políticas contemporâneas no que concerne a questão das três perspectivas possíveis. A luta pela terceira variante de desenvolvimento se encontra nas fundações de uma nova e ampla coalizão internacional de forças políticas, em sintonia com a visão-de-mundo eurasianista.

Os eurasianistas consideram a Federação Russa e a CEI como o núcleo de uma formação política vindoura – a ‘União Eurasiática’ (‘Eurásia nuclear’), e ademais de um dos quatro cinturões geo-econômicos básicos (‘bloco continental eurasiático’).

Ao mesmo tempo, os eurasianos são convictos defensores do desenvolvimento de um sistema multidimensional de autonomias*.

*Autonomia (grego antigo: autogoverno) – a forma de organização natural de um coletivo popular unido por qualquer signo orgânico (nacional, religioso, profissional, familiar, etc.). Uma característica distintiva da autonomia é a maior liberdade naquelas esferas não relacionadas aos interesses estratégicos das formações políticas de dimensão continental.

Autonomia está em oposição à Soberania – uma característica das organizações de pessoas e espaços típica dos Estados-Nação em sua forma presente. No caso da Soberania, nós lidamos com o direito prioritário a uma ordenação independente e livre de um território; autonomia pressupõe independência nas questões da organização da vida coletiva de povos e regiões, não ligadas à ordenação do território.

O princípio de autonomia multidimensional é visto como a estrutura de organização ótima da vida dos povos, dos grupos sócio-culturais e étnicos, na Federação Russa como na União Européia, no ‘cinturão continental euroasiático’ como em todos os restantes ‘grandes espaços’ e ‘cinturões geo-econômicos’ (‘zonas’).

Todas as terras (territórios) das novas formações político-estratégicas (‘grandes espaços’) devem se encontrar sob administração direta de um centro de governo estratégico. Dentro da competência da autonomia devem as questões estar ligadas à aspectos não-territoriais do governo das coletividades.

O princípio eurasiano da divisão de poderes

O princípio eurasiano de administração política pressupõe dois níveis diferentes de governo: local e estratégico. Ao nível local, o governo é realizado por meio das autonomias – obviamente sendo composto de associações de diferentes tipos (dos povos com vários milhões às pequenas coletividades de uns poucos trabalhadores). Esse governo atua segundo à absoluta liberdade e não é governado por qualquer instância superior. O modelo para qualquer tipo de autonomia é livremente escolhido, brotando a partir da tradição, das inclinações, como expressão democrática direta da vontade das coletividades orgânicas – sociedades, grupos, organizações religiosas.


Sob a administração das autonomias são encontradas:

1 – questões civis e administrativas,

2 – a esfera social,

3 – os serviços médicos e educacionais,

4 – cada esfera da atividade econômica.

Ou seja, tudo, à parte dos setores estratégicos e daquelas questões relacionadas à segurança e integridade territorial dos ‘grandes espaços’.

O nível de liberdade dos cidadãos, graças à organização da sociedade segundo o princípio eurasiano de autonomia é elevado de um modo sem precedentes. Ao homem são dadas possibilidades de auto-realização e desenvolvimento criativo jamais vistas antes na história da humanidade.

As questões de segurança estratégica, as atividades internacionais para além do quadro do espaço continental singular, as questões macroeconômicas, o controle sobre recursos e comunicações estratégicas – se encontram sob a administração de centro estratégico singular*.

*Centro estratégico singular – definição convencional para todas aquelas instâncias para as quais estão sendo delegados os controles sobre o governo estratégico regional dos ‘grandes espaços’

As esferas de competência dos níveis de poder local e estratégico são estritamente delimitadas. Qualquer tentativa de introduzir a autonomia nas questões encontradas sob a competência do centro estratégico singular deve ser afastada. O reverso também é verdadeiro.

Desse jeito, os princípios eurasianos de governo combinam organicamente em si mesmos a direita tradicional e religiosas, as tradições locais e nacionais, levam em consideração todas as riquezas dos regimes sócio-políticos que se formaram no curso da história, e, portanto oferecem uma garantia sólida de estabilidade, segurança e inviolabilidade territorial.

A visão eurasiana da economia

O atlantista tem por objetivo impor a todos os povos do mundo um único modelo de construção econômica, erguendo a experiência do desenvolvimento econômico da parte ocidental do mundo nos séc. XIX-XX ao status de um standard.

Ao contrário, os eurasianos estão convencidos de que o regime econômico deriva das características históricas e culturais do desenvolvimento de povos e sociedades; consequentemente, na esfera econômica elas se conformam à variedade, pluralidade de regimes, investigação criativa, livre desenvolvimento.

Sujeitos a controle rígido devem estar apenas os campos estratégicos de larga escala, ligados à necessidade de garantir a segurança geral (o complexo militar-industrial, transportes, recursos, energia, comunicações). Todos os setores econômicos remanescentes devem se desenvolver de modo livre e orgânico segundo as condições e as tradições das autonomias concretas onde a atividade econômica naturalmente ocorrer.

Eurasianismo chega à conclusão de que no campo da economia não é verdade última – as receitas de liberalismo* e marxismo** podem ser apenas parcialmente aplicadas, dependendo das condições concretas. Na prática, o que é necessário é combinar de várias maneiras o livre-mercado com o controle sobre áreas estratégicas, e operar a redistribuição de lucros segundo os objetivos nacionais e sociais da sociedade como um todo. Desse jeito, o eurasianismo se conforma ao modelo de ‘terceira via’*** na economia.

*Liberalismo – doutrina econômica que mantêm que apenas a máxima liberdade de mercado e a privatização de todos os instrumentos econômicos criam as condições óptimas para o crescimento econômico. Liberalismo é a doutrina econômica dogmática de atlantistas e globalistas.

**Marxismo – doutrina econômica que mantêm que apenas o controle completo dos processos econômicos por alguma instância social, a lógica da planificação compulsória geral, e a distribuição dos excedentes de produção entre todos os membros da sociedade (coletivismo) podem estabelecer as fundações econômicas de um mundo justo. Marxismo rejeita o mercado e a propriedade privada.

*** Economia de ‘Terceira via’ – conjunto de teorias econômicas, combinando a abordagem de mercado com uma parcela definida de economia regulada tendo como base a certos critérios e princípios supra-econômicos.

A economia do Eurasianismo deve ser erguida sobre os seguintes princípios

1 – subordinação da economia a alguns valores espirituais e civilizacionais superiores;

2 – princípio da integração macroeconômica e da divisão do trabalho na escala dos ‘grandes espaços’ (‘união alfandegária’);

3 – fronteiras econômicas diferenciadas com ‘grandes espaços’ e ‘zonas geo-econômicas’;

4 – controle estratégico do centro nas divisões essenciais do sistema e, paralelamente, máxima liberdade de atividade econômica aos níveis das pequenas e médias empresas;

5 – combinação orgânica das frmas de administração (estrutura de mercad) com as tradições sociais, nacionais e culturais das regiões (ausência de um padrão econômico uniforme nas grandes e médias empresas).


A visão eurasiana das finanças

O centro estratégico singular da União Euroasiática deve considerar como estrategicamente relevante também a questão do controle sobre a circulação monetária. Nenhum meio de pagamento singular deve se pretender o papel universal de moeda de reserva mundial. É necessário criar uma moeda de reserva euroasiática própria, sendo a divisa legal nos territórios pertencentes à União Euroasiática. Nenhuma outra moeda deverá ser usada dentro da União Euroasiática como moeda de reserva.

Por outro lado, devem ser encorajadas de todos os modos a criação de meios locais de pagamento e troca, sendo a divisa legal dentro de uma ou mais autonomias vizinhas. Essa medida previne a acumulação de capital para propósitos especulativos e garante um estímulo para sua circulação. Ademais, aumenta o tamanho dos investimentos no setor real da economia. Portanto, os fundos serão investidos em primeiro lugar onde eles possam ser produtivamente empregados.

No projeto eurasiano, a esfera financeira é vista como um instrumento de produção real e de troca, dirigida para o lado qualitativo do desenvolvimento econômico. Diferentemente do projeto atlantista (globalista), a esfera financeira não deve ter qualquer autonomia (financialismo*)

*Financialismo – o sistema econômico da sociedade capitalista no estágio pós-industrial, sendo a lógica resultado do desenvolvimento ilimitado de princípios liberais na economia. Sua característica distintiva é que o setor real da economia se torna subordinado às operações financeiras virtuais (mercados de ações, papéis do mercado financeiro, investimentos na bolsa de valores, operações com dívidas internacionais, transações futuras, previsões especulativas das tendências financeiras, etc.) Financialismo se apóia em políticas monetaristas, separando a área monetária (reservas mundiais de divisas, moeda eletrônica) da produção.

A visão regional do mundo multi-polar pressupõe níveis diferentes de moeda:

1 – moeda geo-econômica (moeda e papés-moeda, sendo a divisa legal dentro de uma zona geo-econômica, como o instrumento de relações financeiras entre os centros estratégicos de um dado ‘grande espaço’);

2 – moeda dos ‘grandes espaços’ (moeda e papéis-moeda, sendo a divisa legal dentro um dado ‘grande espaço’ – particularmente dentro da União Euroasiática -, como o instrumento de relações financeiras entre as autonomias);

3 – moeda (formas diferentes de equivalências de trocas) ao nível das autonomias.

Em conexão a esse esquema, instituições crédito-financeiras (bancos) e de emissão de moedas – bancos regionais, bancos dos ‘grandes espaços’, bancos (e seus equivalentes) das autonomias – devem ser organizados.

A atitude eurasiana em relação à religião

Na fé da herança espiritual dos profetas, no grande valor da vida religiosa, o eurasianista vê um símbolo da renovação autêntica e o desenvolvimento social harmônico. Os atlantistas em princípio se recusam a ver qualquer coisa além do que é efêmero, do que é temporário, do presente. Para eles essencialmente não há nem passado, nem futuro. A filosofia do eurasianismo, ao contrário, combina a fé profunda e sincera no passado, com uma atitude aberta frente o futuro. Os eurasianos saúdam a fidelidade às fontes como também a livre pesquisa criativa. O desenvolvimento espiritual é para os eurasianos a maior prioridade da vida, cuja ausência não pode encontrar compensação em qualquer bem econômico ou social. Na opinião dos eurasianos, cada tradição religiosa local ou sistema de fé, até mesmo os mais insignificantes, é o patrimônio de toda a humanidade. As religiões tradicionais dos povos, conectadas com diferentes heranças espirituais e culturais, merecem o maior dos cuidados e preocupações. As estruturas representativas da religião tradicional devem receber o apoio dos centros estratégicos. Grupos cismáticos, associações religiosas extremistas, seitas totalitárias, pregadores de doutrinas religiosas não-tradicionais, e qualquer outra força orientada para a destruição devem ser ativamente combatidos.

A visão eurasiana da questão nacional

Os eurasianistas consideram que cada povo no mundo – daqueles que fundaram grandes civilizações aos menores, cuidadosamente preservando suas tradições – são uma riqueza inestimável. A assimilação através da influência externa, a perda da língua ou do modo tradicional de vida, a extinção física de qualquer um dos povos da Terra é uma perda irreparável para toda a humanidade. A profusão de povos, culturas, tradições é chamada pelos eurasianistas de ‘florescente complexidade’ – um sinal do desenvolvimento saudável e harmônico da civilização humana. Os Grandes Russos, nessa conexão, representam um caso único da fusão de três componentes étnicos (Eslavo, Turco e Fino-Úgrico) em um povo, com uma tradição original e uma rica cultura. No mesmo fato da ascensão dos Grandes Russos a partir da síntese de três grupos étnicos, uma potencial integração de valor excepcional está contida. Por essa mesma razão a Rússia mais de uma vez se tornou a núcleo da união de muitos diferentes povos e culturas em um tecido civilizacional. Os eurasianistas acreditam que a Rússia está destinada a desempenhar o mesmo papel também no séc. XXI.

Os eurasianistas não são isolacionistas, à mesma extensão que eles não são apoiadores da assimilação a qualquer custo. A vida e o destino dos povos é um processo orgânico que não tolera qualquer interferência artificial. Questões inter-étnicas e internacionais devem ser decididas segundo sua lógica interna. A cada povo da Terra deve ser concedida a liberdade de fazer independentemente suas próprias escolhas históricas. Ninguém tem o direito de forçar qualquer povo a perder sua singularidade no ‘caldeirão global’, como o atlantista gostaria de fazer.

Os direitos dos povos não são menos significativos para o eurasianista do que os direitos do homem.

Eurásia como um planeta

Eurasianismo é uma visão-de-mundo, uma filosofia, um projeto geopolítico, uma teoria econômica, um movimento espiritual, um núcleo ao redor do qual se deve consolidar um amplo espectro de forças políticas. Eurasianismo está livre de dogmatismo, da submissão cega às autoridades e das ideologias do passado. Eurasianismo é a plataforma ideal do habitante do novo mundo, ao qual disputas, guerras, conflitos e mitos do passado tem apenas um interesse histórico. Eurasianismo como com um princípio é a nova visão-de-mundo para as novas gerações do novo milênio. Eurasianismo deriva sua inspiração de diferentes doutrinas filosóficas, políticas e espirituais, que até agora apareciam como reciprocamente irreconciliáveis e incompatíveis.

Junto a isso, eurasianismo possui um conjunto definido de idéias básicas e fundacionais, das quais não se pode desviar sob quaisquer circunstâncias. Um dos principais objetivos do eurasianismo é a oposição consequente, ativa e ampla ao projeto globalista unipolar. Essa oposição (diferente da simples negação ou conservadorismo) possui um caráter criativo. Nós compreendemos a inevitabilidade de alguns processos históricos definidos: nosso objetivo é estar consciente deles, tomar parte neles, liderá-los naquela direção que corresponde a nossos ideais.

Pode ser dito que o eurasianismo é a filosofia da globalização multi-polar, chamando à união de todas as sociedades e povos na Terra para construir um mundo original e autêntico, cada componente do qual organicamente deriva de tradições históricas e culturas locais.

Historicamente, as primeiras teorias eurasianistas tiveram seu aparecimento entre pensadores russos dos inícios do séc.XX. Mas essas idéias eram consoantes com a busca filosófica e espiritual de todos os povos da Terra – pelo menos, daqueles que perceberam a natureza limitada e inadequada dos dogmas banais, a falha e o beco-sem-saída às quais os clichês intelectuais estavam destinados, a necessidade de escapar dos quadros usuais na direção de novos horizontes. Hoje podemos atribuir ao eurasianismo um significado novo e global; nós podemos perceber como nossa herança eurasiática não é a obra de uma única escola russa, mais ou menos identificada sob esse nome, mas também uma enorme veia cultural e intelectual de todos os povos da Terra, não estritamente pertencendo ao quadro estreito do que até pouco tempo (no séc.XX) era considerada como ortodoxia imutável (liberal, marxista e nacionalista).

Em seus sentidos maiores e mais amplos, o eurasianismo adquire uma nova significância extraordinária. Agora não é apenas a forma da idéia nacional para a nova Rússia pós-comunista (como havia sido considerada pelos pais-fundadores do movimento e pelos neo-eurasianistas contemporâneos na primeira fase), mas como um vasto programa planetário de relevância universal, excedendo em muito as fronteiras da Rússia, do mesmo continente Euroasiático. Do mesmo jeito que o conceito de ‘americanismo’ hoje pode ser aplicado à regiões geográficas encontradas além das fronteiras do mesmo continente americano, ‘eurasianismo’ significa uma escolha civilizacional, cultural, filosófica e estratégica peculiar, que pode ser feita por qualquer representante da espécie humana, qualquer que seja o ponto do planeta em que ele vive, ou a cultura nacional e espiritual a qual ele perteça.

De modo a garantir a esse significado do eurasianismo um conteúdo real, há muito ainda a ser feito. E na medida que novos setores culturais, nacionais, filosóficos e religiosos se unirem em nosso projeto, o mesmo significado global do eurasianismo será ampliado, enriquecido, modificado em suas características...Porém tal evolução do sentido da plataforma eurasianista não deve permanecer simplesmente uma questão teórica – muitos aspectos devem encontrar sua expressão e realização apenas através da prática política concreta.

Na síntese eurasiana, nem palavra pode ser pensada sem ação, nem ação sem palavra.

O campo de batalha espiritual pelo sentido e resultado da história é o mundo inteiro. A escolha do lado pertence a todos pessoalmente. O tempo decidirá o resto. Porém, mais cedo ou mais tarde, através de grandes realizações e à custa de lutar dramáticas, à hora da Eurásia virá.

Nenhum comentário:

Postar um comentário