sábado, 21 de abril de 2012

A Idade Sombria


Por René Guénon

A doutrina hindu ensina que a duração de um ciclo humano, ao qual dá o nome de Manvantara, divide-se em quatro Idades, que correspondem a fases de um obscurecimento gradual da espiritualidade primordial; são esses mesmos períodos que as tradições da Antiguidade ocidental, por seu lado, designavam como as Idades de Ouro, de Prata, de Bronze e de Ferro. Estamos presentemente na quarta Idade, “Kali-Yuga” ou “Idade Sombria”, e estamos nela, afirma-se, há mais de seis mil anos, ou seja, desde uma época bastante anterior a todas aquelas que são conhecidas da História “clássica”. Desde então, as verdades que eram outrora acessíveis a todos os homens tornaram-se cada vez mais dissimuladas e difíceis de atingir; aqueles que as possuem são cada vez menos numerosos e, se o tesouro da sabedoria “não humana”, anterior a todas as idades, nunca se pode perder, ele se envolve no entanto em véus cada vez mais impenetráveis, que o escondem aos olhares e sob os quais é extremamente difícil descobri-lo. É por isso que por toda a parte se faz alusão, sob diversos símbolos, a qualquer coisa que se perdeu, pelo menos aparentemente e em relação ao mundo exterior, e que devem encontrar aqueles que aspiram ao verdadeiro conhecimento; mas também se afirma que aquilo que está assim escondido voltará a ser visível no fim deste ciclo, que será ao mesmo tempo, em virtude da continuidade que liga todas as coisas, o começo de um ciclo novo.

Mas, perguntarão, sem dúvida, porque é que o desenvolvimento cíclico se deve cumprir assim num sentido descendente, indo do superior para o inferior – o que, como é fácil de ver, é a própria negação da idéia de “progresso”, tal como os modernos a entendem? É que o desenvolvimento de toda a manifestação implica necessariamente um afastamento cada vez maior do princípio do qual ela procede; partindo do ponto mais alto, ela tende forçosamente para baixo, e, como os corpos pesados, tende para esse sentido com uma velocidade sem cessar crescente, até que encontra finalmente um ponto de paragem. Esta queda poderia ser caracterizada como uma materialização progressiva, porque a expressão do princípio é pura espiritualidade; dizemos a expressão, e não o próprio princípio, porque este não pode ser designado por qualquer dos termos que parecem indicar uma oposição, estando além de todas as oposições. Aliás, expressões como “espírito” e “matéria”, que, por maior comodidade, pedimos aqui de empréstimo à linguagem ocidental, não têm para nós mais do que valor simbólico; em todo o caso, elas só podem convir verdadeiramente ao assunto sob condição de afastarmos delas as interpretações especiais que lhes são dadas pela Filosofia moderna, das quais “espiritualismo” e “materialismo” são, aos meus olhos, apenas duas formas complementares que se implicam uma à outra e que são igualmente desprezíveis para quem quer elevar-se acima desses pontos de vista contingentes. Mas, aliás, não é de Metafísica pura que me propus tratar aqui, e é por isso que, sem nunca perder de vista os princípios essenciais, e tomando precauções especiais para evitar qualquer equívoco, posso permitir-me usar termos que, embora inadequados, parecem capazes de tornar as coisas mais facilmente compreensíveis, na medida em que é possível fazer isso sem as desnaturar.

O que acabei de dizer acerca do desenvolvimento da manifestação apresenta uma visão que, embora exata no seu conjunto, é todavia demasiado simplificada e esquemática, e com isso pode fazer pensar que esse desenvolvimento se efetua em linha reta, segundo um sentido único e sem oscilação de qualquer espécie; enquanto a realidade é bem diferente e complexa. Com efeito, podemos encarar em todas as coisas, tal como eu disse antes, duas tendências opostas, uma descendente e outra ascendente, ou, se quisermos utilizar outro modo de representação, uma centrífuga e outra centrípeta; e da predominância de uma ou de outra procedem duas fases complementares da manifestação, uma de afastamento do princípio outra de retorno ao princípio, que são muitas vezes simbolicamente comparadas aos movimentos do coração ou às duas fases da respiração. Ainda que essas duas fases sejam vulgarmente descritas como sucessivas, devemos conceber que, na realidade, as duas tendências às quais elas correspondem agem sempre simultaneamente, embora em proporções diversas. Por vezes acontece, em certos momentos críticos em que a tendência descendente parece estar no ponto de se tornar definitiva na marcha geral do Mundo, que uma ação especial intervém para reforçar a tendência contrária, de modo a restabelecer um certo equilíbrio pelo menos relativo, tal como o podem comportar as condições do momento, e a operar, assim, uma ratificação parcial, pela qual o movimento da queda pode parecer detido ou temporariamente neutralizado.1

É fácil compreender que estes dados tradicionais, dos quais vou me limitar a esboçar um resumo muito sumário, tornam possíveis concepções muito diferentes das de todos os ensaios de “filosofia da História” aos quais se entregam os modernos, e bem mais vastas e profundas. Mas não pretendo remontar, neste momento, às origens do ciclo atual, nem mesmo mais simplesmente aos começos da “Kali-Yuga”; minhas intenções referem-se apenas, de uma maneira direta pelo menos, a um domínio muito mais limitado: as últimas fases desta mesma “Kali-Yuga”. Efetivamente, é possível distinguir, no interior de cada um dos grandes períodos de que falei, diferentes fases secundárias que constituem outras tantas divisões; e sendo cada uma das partes de qualquer modo análoga ao todo, essas subdivisões reproduzem, por assim dizer, numa escala mais reduzida, a marcha geral do grande ciclo no qual se integram. Mas, ainda aí, uma pesquisa completa das modalidades de aplicação desta lei aos diversos casos particulares levar-me-ia muito além do quadro que tracei para este estudo. Mencionarei apenas, para terminar estas considerações preliminares, algumas das últimas épocas particularmente críticas que a humanidade atravessou, aquelas que entram no período que se costuma chamar “histórico” porque é efetivamente o único verdadeiramente acessível à História vulgar ou “profana”; e isso nos conduzirá naturalmente ao que deve constituir o objeto próprio do nosso estudo, visto que a última destas épocas críticas constitui justamente o que chamamos de tempos modernos.

Há um fato bastante estranho, que parece nunca ter sido notado como merece: é que o período propriamente “histórico”, no sentido que acabamos de indicar, remonta exatamente ao século VI antes da era cristã, como se houvesse aí uma barreira, no tempo, que não é possível transpor com a ajuda dos meios de investigação de que dispõem os investigadores comuns. A partir dessa época, com efeito, possui-se por toda a parte uma cronologia bastante precisa e bem estabelecida; para tudo o que é anterior, pelo contrário, só se obtém geralmente uma aproximação muito vaga, e as datas propostas para os mesmos acontecimentos diferem muitas vezes de diversos séculos. Mesmo para os países onde há mais do que simples vestígios dispersos, como por exemplo o Egito, isso surpreendentemente ocorre; e o que é talvez ainda mais espantoso é que, num caso excepcional e privilegiado como o da China, que possui, para épocas bem mais afastadas, anais datados por meio de observações astronômicas que não deveriam deixar lugar para qualquer dúvida, os historiadores modernos ainda assim qualificam essas épocas de “legendárias”, como se houvesse aí um domínio em que eles não reconhecem o direito a qualquer certeza e em que eles próprios se proíbem de obtê-la. A Antiguidade dita “clássica” é então, para dizer a verdade, uma antiguidade muito relativa e mesmo muito mais próxima dos tempos modernos do que a verdadeira Antiguidade, visto que ela não remonta sequer à metade da “Kali-Yuga”, cuja duração é apenas, segundo a doutrina hindu, a décima parte da duração do Manvantara. Por aí se poderá suficientemente avaliar até que ponto os homens modernos têm razão de se sentirem orgulhosos com a extensão dos seus conhecimentos históricos! Eles responderiam, sem dúvida, para se justificar, que esses nada mais são do que períodos “legendários” e por isso crêem não ter que os levar em conta; mas esta resposta é precisamente a confissão da sua ignorância e de uma incompreensão que por si só pode explicar o seu desdém pela Tradição. O espírito especificamente moderno nada mais é, efetivamente, como demonstrarei adiante, do que o espírito anti-tradicional.

No século VI antes da era cristã produziram-se, qualquer que tenha sido a sua causa, mudanças consideráveis em quase todos os povos. Essas mudanças apresentaram características diferentes conforme os países; em certos casos, foi uma readaptação da Tradição a condições diferentes das que tinham existido anteriormente, readaptação que se efetuou num sentido rigorosamente ortodoxo. Foi isso o que aconteceu notadamente na China, onde a doutrina, primitivamente constituída num único conjunto, foi então dividida em duas partes nitidamente distintas: o Taoísmo, reservado a uma elite e compreendendo a Metafísica pura e as ciências tradicionais de ordem propriamente especulativa, e o Confucionismo, comum a todos sem distinção, e tendo por domínio as aplicações práticas e principalmente sociais. Entre os persas parece que teria havido igualmente uma readaptação do Mazdeísmo, porque essa época foi a do último Zoroastro2. Na Índia viu-se nascer então o Budismo, que, qualquer que tenha sido, o seu caráter original 3, devia conduzir, aliás, pelo menos em certos dos seus ramos, a uma revolta contra o espírito tradicional, indo até à negação de toda a autoridade, até uma verdadeira anarquia no sentido etimológico de “ausência de princípio”, na ordem intelectual e na ordem social. O que é bastante curioso é que não se encontra na Índia nenhum monumento remontando além dessa época; e os orientalistas, que pretendem fazer começar tudo no Budismo, cuja importância exageram singularmente, tentam tirar partido dessa constatação a favor da sua tese. A explicação do fato, no entanto, é bem simples: é que todas as construções anteriores eram de madeira, pelo que desapareceram naturalmente sem deixar traços 4; mas o que é verdade é que uma tal mudança no modo de construção corresponde necessariamente a uma modificação profunda das condições gerais de existência do povo no qual se produziu. 

Aproximando-nos do Ocidente, vemos que a mesma época marcou, para os judeus, o cativeiro da Babilônia; e o que é talvez um dos fatos mais espantosos que se podem constatar é que um curto período de setenta anos foi suficiente para lhes fazer perder até a própria escrita, visto que depois tiveram que reconstituir os Livros sagrados com caracteres diferentes dos que tinham sido utilizados até essa altura. Eu poderia citar ainda muitos outros acontecimentos que se referem mais ou menos à mesma data, mas farei apenas notar que ela foi para Roma o começo do período propriamente “histórico”, sucedendo à época “legendária” dos reis, e que se sabe também, embora de modo um pouco vago, que houve então importantes movimentos nos povos célticos; mas sem insistir demasiado nisso, chegaremos ao que se refere à Grécia. Igualmente aí o século VI foi o ponto de partida da civilização dita “clássica”, a única à qual os historiadores modernos reconhecem caráter “histórico”; e tudo o que a precede é bastante mal conhecido para poder ser tratado como “legendário”, embora as recentes descobertas arqueológicas já não permitam duvidar que houve aí uma civilização muito real. Tenho mesmo algumas razões para pensar que esta primeira civilização helênica foi muito mais interessante intelectualmente do que aquela que se lhe seguiu, e que as relações entre elas guardam analogia com as que existem entre a Europa da Idade Média e a Europa moderna. No entanto, convém notar que a cisão não foi tão radical como neste último caso, porque houve na Grécia, pelo menos parcialmente, uma readaptação efetuada na ordem tradicional, principalmente no domínio dos “mistérios”; e que é preciso ligá-la com o Pitagorismo, que foi sobretudo, sob uma nova forma, uma restauração do Orfismo anterior, e cujos laços evidentes com o culto délfico do Apolo hiperbóreo permitem mesmo encarar uma filiação contínua e regular com uma das mais antigas tradições da humanidade. Mas, por outro lado, apareceu em breve alguma coisa da qual não se tinha ainda tido nenhum exemplo e que deveria desde então exercer uma influência nefasta sobre todo o mundo ocidental: referimo-nos a esse modo especial de pensamento que tomou e conservou o nome de “filosofia”; e este ponto é bastante importante para que nos detenhamos nele alguns instantes.

A palavra “filosofia”, em si mesma, pode seguramente ser tomada num sentido muito legítimo, que foi sem dúvida o seu sentido primitivo, sobretudo se é verdade, como se pretende, que foi Pitágoras o primeiro a utilizá-la. Etimologicamente, significa “amor à sabedoria”; designa portanto, primeiramente, uma disposição prévia requerida para alcançar a sabedoria, e pode designar também, por uma natural extensão, a procura que, nascendo dessa disposição, deve conduzir ao conhecimento. É então apenas um estágio preliminar e preparatório, um caminhar para a sabedoria, um grau correspondente a um estado inferior a esta. 5 O desvio que se produziu depois consistiu em tomar este grau transitório pelo próprio fim, em pretender substituir a sabedoria pela “filosofia”, o que implica o esquecimento ou o desconhecimento da verdadeira natureza desta última.

Foi assim que nasceu o que nós podemos chamar de Filosofia “profana”, ou seja, uma pretensa sabedoria puramente humana, portanto de ordem simplesmente racional, tomando o lugar da verdadeira sabedoria tradicional, supra-racional e “não humana”. No entanto, subsistiu ainda alguma coisa desta através de toda a Antiguidade; o que o prova é primeiramente a persistência dos “mistérios”, cujo caráter essencialmente “iniciático” não pode ser contestado, e também o fato de que o ensino dos próprios filósofos tinha simultaneamente, na maior parte dos casos, um lado “exotérico” e um lado “esotérico”, este último permitindo a ligação a um ponto de vista superior, que se manifesta de maneira muito nítida, embora talvez incompleta em certos aspectos, alguns séculos mais tarde, entre os Alexandrinos. Para que a Filosofia “profana” fosse definitivamente constituída como tal, foi preciso que só o “exoterismo” permanecesse e que se fosse até à negação pura e simples de todo o “esoterismo”; foi precisamente a isso que conduziu, entre os modernos, o movimento começado pelos gregos. As tendências que se tinham afirmado entre estes foram levadas até às suas conseqüências mais extremas, e a importância excessiva que eles tinham atribuído ao pensamento racional acentuou-se ainda, para chegar ao “racionalismo”, atitude especialmente moderna que consiste não apenas em ignorar, mas em negar expressamente tudo o que é de ordem supra-racional. Mas não anteciparei demasiado, porque devo voltar a falar destas conseqüências e a ver o desenvolvimento delas numa ou outra parte da minha exposição.

Do que acaba de ser dito, uma coisa se deve reter particularmente: é que convém procurar na Antiguidade “clássica” algumas das origens do Mundo Moderno; este não está, portanto, inteiramente errado quando se reclama herdeiro da civilização grecolatina e pretende ser seu continuador. No entanto, devo sublinhar que se trata apenas de uma continuação longínqua e um pouco infiel, porque, apesar de tudo, havia nessa Antiguidade muitas coisas de ordem intelectual e espiritual cujos equivalentes não podemos encontrar entre os modernos; trata-se de dois graus bastante diferentes de obscurecimento progressivo do verdadeiro conhecimento. Poder-se-ia, aliás, conceber que a decadência da civilização antiga tenha conduzido, de modo gradual e sem solução de continuidade, a um estado mais ou menos semelhante ao que vemos hoje; mas não foi efetivamente assim. Houve, nesse intervalo, uma outra época crítica, que foi ao mesmo tempo uma dessas épocas de recuperação às quais aludi há pouco.

Essa época é a do começo e da expansão do Cristianismo, que coincidiu, por um lado, com a dispersão do povo judeu e, por outro lado, com a última fase da civilização greco-latina. Podemos passar mais rapidamente por cima destes acontecimentos, apesar da sua importância, porque eles são geralmente mais conhecidos do que aqueles de que falei até agora, e porque o seu sincronismo foi mais notado, mesmo pelos historiadores de visão mais superficial. Também foram assinalados, muitas vezes, certos traços comuns à decadência antiga e à época atual; e, sem querer levar demasiado longe o paralelismo, deve-se reconhecer que há realmente algumas semelhanças bastante surpreendentes. A Filosofia puramente “profana” tinha ganhado terreno: a aparição do ceticismo, por um lado, e o sucesso do “moralismo” estóico e epicuriano, por outro lado, mostram bem a que ponto a intelectualidade se tinha reduzido. Ao mesmo tempo, as antigas doutrinas sagradas, que já quase ninguém compreendia, tinham degenerado, por causa dessa incompreensão, em “paganismo”, no verdadeiro sentido dessa palavra – quer dizer que elas não eram mais do que “superstições”, coisas que, tendo perdido a sua significação profunda, sobreviviam a si mesmas através de manifestações totalmente exteriores. Houve também tentativas de reação contra essa decadência: o próprio Helenismo tentou revivificar-se com a ajuda de elementos pedidos de empréstimo às doutrinas orientais com as quais podia se manter em contato. Mas isso já não era suficiente, a civilização greco-latina devia terminar e a correção devia vir de outro lado e operar-se sob outra forma; foi o Cristianismo quem efetuou essa transformação. Aliás, podemos notar, de passagem, que a comparação que se pode estabelecer entre esse tempo e o nosso é talvez um dos elementos determinantes do “messianismo” desordenado que aparece atualmente à luz do dia. Depois do conturbado período das invasões bárbaras, necessário para concluir a destruição do antigo estado de coisas, uma ordem normal foi restaurada para durar alguns séculos; foi a Idade Média, tão desconhecida dos modernos, que são incapazes de compreender a sua intelectualidade e para quem essa época parece certamente muito mais estranha e distante do que a Antiguidade “clássica”.

A verdadeira Idade Média, para mim, estende-se do reinado de Carlos Magno até o começo do século XIV; nesta última data começa uma nova decadência que, através de diversas etapas, foi se acentuando até nós. É aí que se situa o verdadeiro ponto de partida da crise moderna; é o começo da desagregação da “Cristandade”, à qual a civilização ocidental da Idade Média se identificava essencialmente. Essa data marca, ao mesmo tempo, o fim do regime feudal, estreitamente solidário com essa mesma “Cristandade”, e a origem da constituição das “nacionalidades”. Será então necessário fazer remontar a época moderna a cerca de dois séculos mais cedo do que se considera habitualmente. A Renascença e a Reforma são sobretudo resultantes e só foram possíveis pela decadência prévia; mas, bem longe de serem uma reparação, elas marcavam uma queda muito mais profunda, visto que consumaram a ruptura definitiva com o espírito tradicional, uma delas no domínio das ciências e das artes, a outra no próprio domínio religioso, que era, no entanto, aquele onde tal ruptura pareceria mais difícil de conceber.

O que se designa por Renascimento foi, na realidade, como eu já disse noutras ocasiões, a morte de muitas coisas; sob pretexto de voltar à civilização greco-romana, só se tomou o que esta tinha de mais exterior, porque apenas isso se tinha podido exprimir claramente nos textos escritos; e essa incompleta restituição apenas poderia ter um caráter muito artificial, visto que se tratava de formas que desde há séculos tinham cessado de viver a sua vida autêntica. Quanto às ciências tradicionais da Idade Média, após algumas derradeiras manifestações nessa época, desapareceram totalmente, tal como as das longínquas civilizações que foram outrora aniquiladas por algum cataclismo; e dessa vez nada viria substituí-las. A partir daí, só houve a Filosofia e a ciência “profanas”, ou seja, a negação da verdadeira intelectualidade, a limitação do conhecimento à ordem mais inferior, o estudo empírico e analítico de fatos que não se encontram ligados a qualquer princípio, a dispersão numa multiplicidade indefinida de detalhes insignificantes, a acumulação de hipóteses sem fundamento, que se destroem incessantemente umas às outras, e de visões fragmentárias que a nada podem conduzir, salvo a aplicações práticas que constituem a única superioridade efetiva da civilização moderna; superioridade, aliás, pouco invejável, e que, desenvolvendo-se até abafar qualquer outra preocupação, deu a esta civilização o caráter puramente material que faz dela uma verdadeira monstruosidade O que é de fato extraordinário é a rapidez com que a civilização da Idade Média caiu no mais completo esquecimento; os homens do século XVII já não tinham dela a menor noção, e os monumentos dessa época que subsistiam já nada representavam aos seus olhos, nem na ordem intelectual, nem mesmo na ordem estética. Por aí se pode calcular quanto a mentalidade tinha mudado nesse intervalo. Não tentaremos aqui encontrar os fatores certamente muito complexos que concorreram para essa mudança radical, tão radical que parece difícil admitir que ela se tenha operado espontaneamente e sem a intervenção de uma vontade diretora, cuja natureza exata permanece forçosamente bastante enigmática. A esse respeito, há circunstâncias bem estranhas, como a vulgarização e apresentação como descobertas novas, num certo momento, de coisas que na realidade eram conhecidas desde há muito tempo, mas cujo conhecimento não tinha sido espalhado até então no domínio público, em virtude de certos inconvenientes que se arriscavam a ultrapassar as vantagens, 6. Também é bastante inverossímil que a legenda que fez da Idade Média uma época de “trevas”, de ignorância e de barbárie, tenha nascido e se estabelecido por si mesma, e que a autêntica falsificação da história à qual os modernos se entregaram tenha sido empreendida sem qualquer idéia preconcebida. Mas não iremos muito mais longe no exame dessa questão porque, seja qual for a maneira como esse trabalho tenha sido feito, neste momento o que nos importa mais, em resumo, é a verificação do resultado.

Há uma palavra que recebeu honrarias no Renascimento e que resumia, já nessa altura, todo o programa da civilização moderna: é a palavra “humanismo”. Tratava-se, com efeito, de reduzir tudo a proporções puramente humanas, de fazer abstração de todo o princípio de ordem superior, e, poderíamos dizer simbolicamente, de se afastar do céu sob pretexto de conquistar a terra. Os gregos, de quem se pretendia seguir o exemplo, nunca tinham ido tão longe nesse sentido, mesmo na época da sua maior decadência intelectual, e pelo menos as preocupações utilitárias nunca tinham, entre eles, passado para primeiro plano, tal como em breve se iria produzir entre os modernos. O “humanismo” era já uma primeira forma do que se tornou o “laicismo” contemporâneo; e, querendo tudo remeter à medida do homem, tomado como um fim em si próprio, acabou por descer, de degrau em degrau, ao nível do que há neste de mais inferior, procurando apenas a satisfação das necessidades inerentes ao lado material da sua natureza – procura bem ilusória, de resto, porque cria sempre mais necessidades artificiais do que aquelas que pode satisfazer.

Irá o Mundo Moderno até ao fundo desse declive fatal ou, como aconteceu na decadência do mundo greco-romano, uma nova recuperação se produzirá ainda desta vez, antes que ele atinja o fundo do abismo para onde foi arrastado? Parece que uma paragem a meio do caminho já não será possível e que, segundo todas as indicações fornecidas pelas doutrinas tradicionais, entramos realmente na fase final de “Kali-Yuga”, no período mais sombrio desta “Idade Sombria”, neste estado de dissolução do qual não é mais possível sair senão por um cataclismo, porque não é já necessária apenas uma simples recuperação, mas antes uma renovação total. A desordem e a confusão reinam em todos os domínios; foram levadas a tal ponto, que ultrapassam de longe tudo o que se tinha visto anteriormente e, partindo do Ocidente, ameaçam agora invadir o Mundo inteiro. Sabemos bem que o seu triunfo nunca pode ser mais do que aparente e passageiro, mas um tal grau parece ser o sinal da mais grave de todas as crises que a Humanidade atravessou no decurso do seu ciclo atual. Não teremos nós chegado a essa época temível, anunciada pelos Livros sagrados da Índia, “em que as castas serão misturadas, em que a própria família não existirá”? Basta olharmos à nossa volta para nos convencermos que esse estado é realmente o do Mundo atual, e para verificar por toda a parte essa profunda queda que o Evangelho chama “a abominação da desolação”. Não devemos esconder a gravidade da situação; convém encará-la tal como ela é, sem nenhum “otimismo” mas também sem qualquer “pessimismo”, visto que, tal como eu disse anteriormente, o fim do Mundo antigo será igualmente o começo de um Mundo novo.

Neste momento, uma questão se põe: qual a razão de ser de um período como aquele que vivemos? Efetivamente, por anormais que sejam as atuais condições consideradas em si mesmas, elas devem, no entanto, entrar na ordem geral das coisas – nessa ordem que, segundo uma fórmula do Extremo Oriente, é feita da soma de todas as desordens. Esta época, por muito penosa e conturbada que seja, deve igualmente ter, como todas as outras, o seu lugar marcado no conjunto do desenvolvimento humano. Aliás, o próprio fato de que ela tenha sido prevista pelas doutrinas tradicionais é indicação suficiente nesse aspecto. O que foi dito quanto à marcha geral de um ciclo de manifestação, que caminha no sentido de uma materialização progressiva, dá imediatamente a explicação de um tal estado e mostra bem que o que é anormal e desordenado segundo um certo ponto de vista particular é, no entanto, apenas a conseqüência de uma lei que se reporta a um ponto de vista superior ou mais amplo. Acrescentarei ainda que, como em toda mudança de estado, a Passagem de um ciclo para outro só se pode efetuar na obscuridade; há aí uma lei muito importante e cujas aplicações são múltiplas, mas cuja exposição mais detalhada, por isso mesmo, nos levaria demasiado longe 7.

E não é tudo: a época moderna deve necessariamente corresponder ao desenvolvimento de certas possibilidades que, desde a origem, estavam incluídas na potencialidade do ciclo atual. Por inferior que seja o lugar ocupado por essas possibilidades na hierarquia do conjunto, elas devem, tal como as outras, ser chamadas à manifestação, de acordo com a ordem que lhes estava destinada. Neste aspecto, eu poderia dizer que o que caracteriza a última fase do ciclo, segundo a Tradição, é a exploração de tudo o que foi desprezado ou rejeitado no decurso das fases anteriores; e, efetivamente, é isso mesmo que podemos verificar na civilização moderna, que, de certo modo, vive apenas daquilo que as civilizações anteriores tinham rejeitado. Para nos darmos conta disso basta ver como os representantes daquelas civilizações orientais que se mantiveram até hoje no Mundo oriental apreciam as ciências ocidentais e as suas aplicações industriais.

Esses conhecimentos inferiores, tão pueris para quem possui um conhecimento de outra ordem, deviam, no entanto, ser “realizados”; e só o podiam ser num estágio em que a verdadeira intelectualidade tivesse desaparecido. Essas pesquisas de alcance exclusivamente prático, no sentido mais estreito da palavra, deviam ser efetuadas, mas só o podiam ser no extremo oposto da espiritualidade primordial, por homens mergulhados na matéria a ponto de nada mais poderem conceber para além dela, tornando-se tanto mais escravos dessa matéria quanto mais se servissem dela, o que os conduz a uma agitação sempre crescente, sem regra e sem objetivo, à dispersão na multiplicidade pura, até à dissolução final.

Esta é a verdadeira explicação do Mundo Moderno, esboçada nos seus grandes traços e reduzida ao essencial; mas, declaro com nitidez, esta explicação não pode ser tomada como justificação. Uma desgraça, mesmo se inevitável, não deixa de ser uma desgraça; e mesmo se do mal deve sair um bem, esse fato não tira ao mal o seu caráter. Claro está que utilizo aqui estes termos de “bem” e “mal” para me fazer entender melhor, e fora de qualquer intenção especificamente “moral”. As desordens parciais não podem deixar de o ser pelo fato de constituírem elementos necessários da ordem total. Uma época de desordem é, em si mesma, qualquer coisa de comparável a uma monstruosidade que, embora sendo conseqüência de certas leis naturais, não deixa de representar um desvio e uma espécie de erro; assim como um cataclismo que resulta do curso normal das coisas é, se o encararmos isoladamente, uma desordem e uma anomalia.

A civilização moderna, como todas as coisas, tem forçosamente a sua razão de ser, e se ela é realmente aquela que termina um ciclo, pode-se dizer que ela é o que deve ser, que vem no seu tempo e no seu lugar; mas nem por isso deixará de ser julgada segundo as palavras do Evangelho, tantas vezes mal compreendidas: “É preciso que haja escândalo; mas ai daquele por quem o escândalo vier!”.

1 Isto diz respeito à função de "conservação divina" que na tradição hindu é representada por Víshnu, e mais particularmente à doutrina dos Avatares ou "descidas" do princípio divino no mundo manifestado, que, naturalmente, não é possível desenvolver aqui.

2 E preciso notar que o nome de Zoroastro designa, na realidade, não um personagem particular, mas uma função, simultaneamente profética e legisladora; houve vários Zoroastros, que viveram em épocas muito diferentes; e é mesmo verossímil que esta função tenha tido caráter coletivo, tal como a de Vyasa na Índia, e também como no Egito, onde a obra a que foi atribuída a Thoth ou Hermes representa a obra de toda a casta sacerdotal.

3 A questão do Budismo está, na realidade, longe de ser tão simples como este breve resumo pode fazer pensar; e é interessante notar que, se os hindus, do ponto de vista da sua própria tradição, sempre condenaram os budistas, muitos deles professam um grande respeito pelo próprio Buda, alguns chegando mesmo a ponto de ver nele o nono Avatara, enquanto outros identificam este como o Cristo. Por outro lado, no que diz respeito ao Budismo tal como é hoje conhecido, é preciso ter muito cuidado de distinguir entre as suas duas formas do Mahayana e do Hinayana, ou do “:Grande Veículo” e do “Pequeno Veiculo”; de modo geral, pode-se dizer que o Budismo fora da Índia difere notavelmente da sua forma indiana original, que começou a perder rapidamente terreno após a morte de Ashoka e desapareceu completamente alguns séculos mais tarde.

4 Este caso não é exclusivo da Índia e encontra-se igualmente no Ocidente; é exatamente pela mesma razão que não se encontra nenhum vestígio das cidades gaulesas, cuja existência é, no entanto, incontestável, sendo atestada por testemunhos de povos contemporâneos; e ai, igualmente, os historiadores modernos aproveitaram essa ausência de monumentos para descrever os gauleses como selvagens vivendo nas florestas.

5 A relação é aqui mais ou menos a mesma que aquela existente, na doutrina taoista, entre o estado do “homem perfeito” e o do “homem transcendente".

6 Citaremos apenas dois exemplos entre os fatos desse tipo que deviam ter as mais graves conseqüências: a pretensa invenção da Imprensa, que os chineses já conheciam antes da era cristã, e a “descoberta” oficial da América, com a qual tinham existido comunicações muito mais constantes do que se pensa, durante toda a Idade Média.

7 Esta lei era representada nos mistérios de Elêusis pelo simbolismo do grão de trigo; os alquimistas figuravam-na pela “putrefação” e pela cor negra que marca o começo da Grande Obra; o que os místicos cristãos chamam a “noite obscura da alma” é apenas a sua aplicação ao desenvolvimento espiritual do ser que se eleva a estados superiores; e seria fácil assinalar ainda outras concordâncias. 

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