quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Bumerangue das Malvinas

por Marcos Ghio



Em uma nota anterior a essa, em relação ao tema das Malvinas, manifestamos que era extremamente importante a revelação do informe Rattenbach sobre os acontecimentos da guerra de 1982. Não obstante nosso ponto de vista, e o ratificamos uma vez mais, é totalmente discrepante com o que tem sustentado o atual governo ao promover tal medida com a finalidade de impulsionar o pacifismo em relação a tal tema e a sua luta inveterada contra o elemento guerreiro que ainda possa existir em nossa sociedade.

Nós consideramos que a decisão de ocupar as ilhas em 2 de abril de 1982 foi justa e oportuna na medida em que nesse momento isso podia ser feito graças ao elemento surpresa já que o governo inglês havia deixado absolutamente descuidada a defesa das Malvinas com uma pequena guarnição facilmente controlável, tal como finalmente ocorreu. Por sua vez, em uma conversa que tivemos pouco antes de seu falecimento, o próprio general Galtieri nos ratificou que seu par norteamericano dessa época lhe havia expressado até por um telegrama que mantinha em seu poder que o seu governo se manteria à parte diante da eventualidade de um futuro conflito. É de destacar que tal não-intervenção posterior implicaria algo que foi logo fundamental na invasão inglesa que sobreveio, o ter proporcionado o uso da base da ilha de Ascensión para o reaprovisionamento da frota marítima.

Quer dizer, tal como ocorreu diversas vezes, o presidente argentino dessa época foi enganado em sua boa fé, ainda que possivelmente tenha tido sua cota de ingenuidade, parecida com a que também tiveram em seu momento outros governantes como Saddam Hussein do Iraque quando invadiu o Kuwait e mais recentemente o georgiano Shakashvili quando fez o mesmo com a província autônoma da Ossétia do Sul. Em ambos os casos os governantes norteamericanos, também como nas Malvinas, pertencentes ao partido republicano, prometeram uma não-intervenção ou apoio que logo em nenhum caso ocorreu.

Porém o problema surge na segunda parte da guerra, quer dizer no momento no qual, após algumas manifestações populares de apoio, os EUA decidem respaldar abertamente o governo britânica e já não era mais possível voltar atrás uma vez que a guerra já havia se desencadeado. É nesse segundo aspecto que o informe pode revelar certos elementos muito oportunos e necessários, inclusive para chegar a compreender a situação atual e, aprofundando-se na mesma, este poderia chegar a atuar como um bumerante para os atuais governantes que promoveram sua difusão.

Formado na antiga tradição militar prussiana, inclusive por sua própria origem, o tenente general Rattenbach, que teve a seu cargo dirigir a investigação do que aconteceu na guerra, foi um ativo participante da Revolução Libertadora que derrubou o regime do fundador do partido que hoje nos governa. Tinha portanto presente, por sua rígida formação, que ao ser a função essencial de um militar fazer a guerra, quando é convocado à mesma não existem desculpes nem limitações em sua execução. Para um guerreiro render-se é sinônimo de desonra, especialmente se ele o faz sem ter esgotado todas as vias necessárias do combate. E na contenda das Malvinas, assim como houve verdadeiros atos de heroísmo, especialmente por parte de membros da aviação, se presenciaram também vergonhosas rendições inclusive sem combate como no caso do capitão Astiz que entregou as ilhas Georgias sem disparar um tiro ou o próprio general Menéndez, governador militar nessa época, que aceitou a humilhação de entregar a totalidade de seus oficiais desarmados para que desfilassem diante das câmeras da televisão inglesa, tendo ele próprio esquecido seu quepe após a capitulação. Sem eximir disso, certamente, aos próprios oficiais que aceitaram participar de dito desfile da derrota. E poderíamos abundar em detalhes vergonhosos. Porém o mais grave, tal como disséramos na nota anterior, foi a outra entrega que a nível político se fez da causa das Malvinas promovendo um afeminado pacifismo nos momentos culminantes da contenda, através da vinda de um papa que já se havia manifestado contra nossa guerra. Do mesmo modo que se deixou funcionar livremente às empresas de capital britânica em plena contenda e até se chegou ao absurdo de que a empresa Shell com sede em nosso país vendesse combustível aos barcos que nos estavam combatendo. É muito bom, então, que todas essas coisas se façam públicas e que isso sirva de uma vez por todas para erradicar de nossas forças armadas esse espírito de rendição que se fez manifesto de forma contundente na guerra das Malvinas e que foi sem dúvidas a grande causa do estado de prostração que hoje vivem elas próprias e por extensão a nação toda.


Rattenbach não pôde ver, por sua morte prematura, as sequelas posteriores da guerra. Vários daqueles oficiais que se renderam, seguindo quiçá o dito burguês de que o soldado que se rende serve para outra guerra, seguiram em atividade e em alguns casos intervindo em conflitos com o mesmo estilo que vimos nas Malvinas. Assim pois um tristemente célebre movimento "carapintada" efetuou entre 1987 1 991 uma série de rebeliões contra os presidentes Alfonsín e Menem, todas elas condluídas em ressonantes rendições, em alguns casos após ter-se mantido em tal situação por apenas poucas horas e tendo a seu favor uma contundente superioridade militar, após comprovar que seriam reprimidos, como por outro lado era de esperar. Ao aludido não seria de surpreender o fato de que esses militares sublevados e rendidos de maneira extremamente humilhante e sucessiva acabaram fazendo político e, oh surpresa, envolvidos no "movimento majoritário". Poderia lembrar com segurança, já que o vivi de perta, que o fundador do mesmo também se rendeu quase sem lutar e tendo a seu alcance uma superioridade militar esmagadora. Também nesse então o aludido alegou que se rendia "para evitar derramamentos de sangue", da mesma maneira que os pacifistas que lograram sabotar a causa das Malvinas consideraram que era conveniente render-se "para evitar uma matança e uma guerra nuclear". Durante a Revolução Libertadora se cunhou uma frase muito famosa e atual de que "o medo não é tolo". Hoje esse mesmo espírito de rendição tão duramente criticado por Rattenbach é o que segue primando em nossa política internacional em relação às Malvinas. Logo após a assinatura dos vergonhosos tratados de Madri por parte do governo peronista de Menem, a presidente que hoje nos governa afirma muito alegremente que pensa em recuperar as Malvinas pacificamente já que "a assistem direitos". A respeito teria que recordar a ela que a única coisa que verdadeiramente outorga direitos é a vitória. E isso deveria sabê-lo pois viveu na própria carne. Os militares alemães na Segunda Guerra foram julgados como criminosos não porque necessariamente o foram, mas apenas porque foram vencidos. Do mesmo modo que sucedeu também em um grau menor com os de nosso país que hoje estão presos em juízos impulsionados por nosso próprio governo justamente por terem sido derrotados nas Malvinas e terem assim sido obrigados a entregar o poder àqueles contra quem haviam lutado em uma guerra civil. Nem Bush, nem Obama, nem Sharon, assassinos e torturadores serieis com mais delitos que os militares argentinos presos, hoje foram julgados por terem violado algum direito, e isso mesm otendo se dado o luxo de difundir que torturavam e que careciam de escrúpulos em violar o direito internacional assassinando às pessoas que qualificam como "terroristas". Somente estarão presos no dia em que percam uma guerra e caiam em desgraça. Cristina poderá prender a Videla e a Bignone porque perderam, porém não poderá fazer com que Cameron, primeiro-ministro de um país que ganhou uma guerra, se retire das Malvinas. Do mesmo modo nos perguntamos, de que vale sentar-se para dialogar sobre soberania com quem nos venceu? E mais todavia se a Inglaterra pode alegar que os habitantes das ilhas não somente querem seguir sendo ingleses, senão que também estão dispostos a defender-se de uma invasão argentina. E agreguemos ademais que se sabe que há ali mais petróleo do que nos mares britânicos. Sobre o que então que se pensa dialogar?

Somente a guerra é o caminho para recuperar as Malivnas, estas não devem ser restituídas, senão reconquistadas. Porém para isso é necessário ter umas Forças Armadas e uma classe política que não se rendam, que estejam preparadas e atentas para que em algum momento, em razão de um enfraquecimento interno da situação europeia e "ocidental" possam se repetir as condições de 1982.

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