sábado, 14 de abril de 2012

Eduard Alcántara - Os Ciclos Heróicos

por Eduard Alcántara


A doutrina das quatro idades, da regressão das castas e a concepção da liberdade de Evola

Dentre os autores que podem ser considerados sem dificuldade como Tradicionalistas pensamos que é Julius Evola que melhor soube captar a quintessência ou espírito de muitos dos ensinamentos basilares dessa corrente existencial e de pensamento. Afirmamos isso pois somos da opinião de que muitos entre os Tradicionalistas nos legaram determinadas doutrinas apresentando-as de forma um tanto estática e rígida. Penetrar no espírito da letra da Tradição não consideramos como sendo uma tarefa simples. Sem dúvida se mais acessível se chegaram a experimentar e vivenciar algumas das metas que a curto ou longo prazo expõe a Tradição como possíveis de conquistar para determinado Homem com certas potencialidades descondicionadoras. Sem dúvida, também, determinadas qualidades de certas pessoas lhes facilitam a possibilidade de descobrir que modos e atitudes são os mais propícios para empreender determinadas vias de transformação interior.

Pensamos, continuando com essas percepções nossas, que a adesão que Evola - por vocação consubstancial a sua própria natureza - demonstrou sempre pela via da ação lhe facilitou muito o entender quais são os caminhos e os métodos idôneos para empreender, com certas garantias de êxito, os percursos que passam pelo descondicionamento do homem em relação a tudo aquilo que o mediatiza e pelas etapas que podem levá-lo para ao Conhecimento do Transcendente incondicionado e para a identificação ontológica com dita Transcendência.

É ação interior o que se precisa a longo prazo de todos estes processos conhecidos com o nome de Iniciação. A ascese não é outra coisa que exercício interior. A necessária e imprescindível prática interior é, definitivamente, ação. E é por tudo isso que a via mais apropriada para completar o árduo e metódico processo iniciático é aquela conhecida como "via da ação" ou via do guerreiro ou "kshatriya".

Evola tinha a certeza de que, apesar dos tempos pelos quais se transita, sempre é viável a total Restauração da Unidade Primordial gozada pelo Homem em suas origens (durante a Idade de Ouro ou Satya Yuga) e de que igualmente é viável o retorno dos agrupamentos humanos e instituições à ordem Tradicional.

Resulta, pois, lógico, que nosso autor defendesse a ideia de que a casta guerreira é a mais apta para aspirar a estes processos restauradores.

O mestre italiano mostrou essa especial dose de "sensibilidade" e de poder de interpretação que lhe possibilitou o não estancar-se em uma visão rígida dos diferentes textos sapienciais e sagrados do mundo da Tradição quando estes nos falam da doutrina das Quatro Idades, pois o processo de decadência que está nos expõe não é irreversível nem - tal como diversos autores tradicionalistas entenderam - está impregnado de um fatalismo contra o qual nada possa opor o Homem.

Evola deu uma especial relevância à ideia de que a involução - em relação ao espiritual e imperecedouro - podia ser freada e inclusive eliminada antes do final de um ciclo cósmico, humanidade ou manvantara; isso é, antes do ocaso do Kali Yuga. E sustentou firme e criativamente essa ideia porque acreditava na liberdade absoluta do Homem. Porque acreditava que o Homem, assim mesmo em maiúsculo, a parte de ter a clara potestade necessária para conseguir sua total transubstanciação ou metanoia também tinha em suas mãos a possibilidade de devolver a suas comunidades cindidas e dessacralizadas os atributos e a essência que sempre foram próprias do Mundo Tradicional. Porque Evola acreditava, em definitiva, no Homem Superior ou Absoluto, Senhor de si mesmo.

Quiçá sua adesão e identificação com a via da ação se encontra na origem dessa sua convicção na possibilidade restauradora da sacralidade perdida. A ação abre as portas à essa possibilidade. Ou quiçá devemos apresentar a direcionalidade dessa causa-efeito em sentido inverso e pensar, assim, que pudesse ser que seu convencimento na viabilidade dessa possibilidade reintegradora da unidade perdida seja a razão pela qual optou pela via da ação frente à via contemplativa e que dita escolha a exercera ao convencer-se de que essa era a única via possível para aspirar ao retorno da Tradição.

Parece que a primeira proposição é a correta, já que em sua autobibliografia (mais que autobiografia) intitulada "O Caminho do Cinábrio" o grande intérprete italiano da Tradição afirmava que desde tenra idade a identificação com a ação (junto a sua vocação pelo Transcendente) constituiu parte de sua "equação pessoal".

Sem dúvida é essa tendência quase, diríamos, inata pela via do kshatriya a que outorga a Evola esse plus que lhe coloca acima da maioria dos autores Tradicionalistas à hora de mostrar essa clarividência pelo convencimento de que é possível, ainda em períodos de máxima involução, recuperar a sacralidade perdida. Ninguém como nosso autor romano acreditou nos Ciclos Heróicos.

Ninguém como o grande Tradicionalista romano defendeu o princípio da Liberdade do Homem. O Homem Reintegrado não é escravo diante de nada. Não é escravo de si mesmo: não é um títere manejado caprichosamente por suas paixões, pulsões, instintos inferiores ou por seus sentimentos engordados. Não está sujeito irremediavelmente a suas circunstâncias. Não se encontra determinado nem por supostas dinâmicas históricas (o determinismo característico do historicismo, baseado no materialismo dialético, que postula que a história se faz por si mesma: tese + antítese = tese; ou, o que é o mesmo, igual a mudanças históricas) nem se encontra mediatizado por condicionanetes sociais nem por qualquer tipo de deus onipotente que faça e desfaça por capricho sem a possibilidade de que se possa traçar seu próprio rumo e sem que o ser humano possa chegar a ser tratado como algo mais do que uma simples criaturazinha que não possa albergar em seu seio a semente da eternidade senão que tenha que resignar-se bovinamente a se prostrar de modo devocional perante seu "criador". O Homem Superior não se encontra tampouco cerceado em suas potencialidades por nenhuma espécie de determinismo ambiental-educativo. Nem tampouco por outros de ordem cósmica na forma de um "Destino" cuja fatalidade o tenha irremissivelmente programado de antemão.

A este Homem que o budismo denominaria O Desperto ou O Iluminado se chega, em épocas deletérias, através da "via heroica" que teve suas mais claras e arquetípicas plasmações nos conhecidos como Ciclos Heróicos, concretizados em algumas das mais conhecidas sagas do mundo antigo e do alto medievo.

Para deixar bem diáfana a ideia de quão adversas, desde o ponto de vista existencial, eram as etapas do devir histórico da humanidade nas quais irromperam alguns dos mais exemplares e patentes Ciclos Heróicos é mais que recomendável recordar quais são a essência e a dinâmica da doutrina Tradicional das Quatro Idades e que estreita relação guarda está com a também doutrina Tradicional da Regressão das Castas.

E desse jeito começaríamos a recordar como nas origens da atual humanidade, ciclo cósmico ou manvantara os diferentes textos Tradicionais nos falam de como o Homem vivia em uma Idade de Ouro (Hesíodo), Satya Yuga ou Krta Yuga (textos sapienciais do hinduísmo), em que a Realidade Transcendente - e portanto a Eternidade - lhe era consubstancial. Estes textos nos falam também de como se produziu uma primeira queda que se traduziu na perda dessa imortalidade e de como algumas pessoas possuidoras de uma especial potencialidade interior e de uma firme vontade puderam recobrar o Imortal e Imperecedouro e identificar-se ontologicamente com Ele graças a terem sabido despertar a semente aletargada do Absoluto que habita no interior do homem. Essas pessoas - essa elite - como Homens Superiores que eram, se erigiram em guias e em Luz para os outros e acabaram não somente por deter a autoridade espiritual senão por exercer a autoridade temporal. Ambos princípios, pois, o espiritual e o temporal se encontraram unidos nos mesmos representantes, pelo que as atividades humanas se encontraram em todo momento impregnadas pelo Sagrado. Assim encontramos, pois, à realeza sagrada e à aristocracia sagrada na cúspide da pirâmide social nessa segunda etapa - após a primeira queda assinalada - da Idade de Ouro.

Porém, desgraçadamente, sucedeu uma segunda queda ou involução e houve - paralela e emblematicamente - de abandonar-se a morada geográfica da Idade de Ouro. Aquela morada que as diferentes Tradições sapienciais situam nas imediações e mais ao norte do círculo polar ártico e a que dão nomes como Thule, Hiperbórea, Ilha Branca ou Monte Meru. Há textos que nos dizem que o traslado se fazia em direção a uma ilha-continente situada em meio ao oceano que poderia coincidir com a Atlântida de Platão.

Essa segunda queda ou involução espiritual supôs um maior distanciamento do homem em relação ao Transcendente e veio acompanhada da separação entre os princípios espiritual e temporal e, consequentemente, entre a autoridade espiritual e a temporal ou política. Desapareceram, pois, a realiza e a aristocracia sagradas e da separação dos atributos espirituais e temporais apareceram duas castas autônomas: a sacerdotal e a régio-aristocrático-guerreira. Essa aristocrático-guerreira ficou dessacralizada e a sacerdotal, por sua vez, renunciou à via ativa própria do guerreiro e perdeu, dessa maneira, não somente a vocação pela ação exterior senão também a vocação por uma ação interna que é a única capaz de tornar possível qualquer propósito de transubstanciação interior. Renunciou, pois, a casta sacerdotal à Iniciação e, consequentemente, à Visão e Conhecimento do Absoluto.

A casta sacerdotal ou bramânica passou a ocupar o cume da pirâmide social e o poder político ficou delegado em uma casta aristocrático-guerreira dessacralizada que ficou subordinada àquela. Estamos falando já da Idade de Prata ou Treta Yuga, falando, pois, da Segunda Idade.

Na Primeira Idade - a de Ouro - o metal que a representava rememorava o Sol como astro com luz própria, pois luz ou espiritualidade própria é o que havia desenvolvido em seu interior o Homem Reencontrado próprio daquelas elites ou aristocracias sagradas que se erigiram em diretoras em relação ao resto dos homens das comunidades das quais formavam parte.

Agora, a Idade de Prata reivindica a prateada Lua que não possui luz própria e cuja luz - "espiritualidade" - tão somente é um reflexo da autêntica Luz que emana do Sol. É por isso que o homem, ao não poder possuir essa Luz em seu interior, tem que se conformar em crer nela, em ter fé nela, em erigir-se em mero e pio devoto da mesma. Isso é o máximo a que, no terreno "espiritual", pode aspirar o brâmane ou sacerdote e é, ao mesmo tempo, a que condena o guerreiro (ou à aristocracia-guerreira): a que ignore a possibilidade de empreender uma ação transmutadora interior e a que, ato seguido, se submeta à visão devocional que o sacerdócio tem do divino e renda fidelidade a dito sacerdote, reconhecendo-o ao mesmo tempo uma superior autoridade "moral".

No seio dessa Idade de Prata se pode observar como com o tempo se produz um gradual deslizamento desde esse tipo de cosmovisão lunar para outra de natureza bastante similar como o é a demetérica ou pelásgica - também de corte sacerdotal - na qual a Mãe Terra se converte no principal objeto de adoração. Se sacraliza, assim, ao que não contém em sua essência divindade. Se venera à Terra como a uma deusa, caindo-se, portanto, no panteísmo. As únicas forças às quais os ritos religiosos tentam fazer operar são aquelas que percorrem as entranhas da Terra, são aquelas de natureza ctônica ou telúrica que em lugar de ajudar no processo de descondicionamento e liberação do homem o atam ainda mais ao inferior: ao instintivo, ao impulsivo, ao pulsional, ao sensual, ao concupiscente, ao libidinoso...

E do libidinoso, o desenfreio, o luxurioso e do ensenhoreamento do erotismo emergem os chamados cultos afrodisíacos ou dionisíacos que supõem mais um passo nestes processos involutivos próprios da Idade de Prata.

Se na Idade de Ouro a diferença ontológica que existia entre a aristocracia Iniciada e o resto dos membros da comunidade obrigava a considerar a existência de uma verdadeira hierarquia, agora na Idade de Prata a inexistência, no seio de qualquer grupo social, de seres Superiores ou Renascidos para a Essência divina provoca uma tal nivelação interior entre os indivíduos que se deve falar de sociedades igualitaristas, e niveladas por baixo, nas quais já não impera uma autêntica e legítima hierarquia. Já desapareceu a diferença essencial que existia, na Idade de Ouro, entre aquela minoria composta pelos que eram capaz de governar a si mesmos (de - utilizando uma expressão taoísta - ser "senhores de si mesmos") e a maioria dos que eram incapazes de autogovernar-se (incapazes de não ser marionetes de suas convulsões emocionais e de não ser mais do que homenzinhos limitados por suas mediatizações).

A Terra, com a consideração pela qual é investida como mãe de suas criaturas, os homens, valorará a estes como iguais entre si, tal como uma mãe faz com seus filhos. Todos saíram de seu seio e todos voltarão, após a morte, a suas entranhas e por este motivo não existem para ela diferenças substanciais entre seus descendentes. Não há patentes, categorias ou hierarquias. Se impõe, por um motivo mais, o caráter homogeneizador e anti-hierárquico desses cultos lunares, demetéricos e telúricos. A Idade de Prata esmaga as diferenças e converte o homem em indivíduo-átomo indiferenciado.

Imerso na voragem de degradação o homem acabará, inclusive, dando as costas a todos estes cultos decadantes próprios da Idade de Prata. Qualquer tipo de forma religiosa (lunar, demetérica, telúrica, afrodisíaca,...), própria de tal Idade, ficará relegada praticamente ao esquecimento. A casta sacerdotal perderá todo o peso social que ostentava e, por essa razão, qualquer indício de hegemonia. Assim verá como deverá se prostrar diante de uma casta régio-guerreira que, tal como acontecia na Idade de Prata, estava desprovida de qualquer atributo e aspiração espiritual; se encontrava totalmente dessacralizada. Somente lhe interessava o exercício do poder e o executava pela aplicação da força e não por qualquer tipo de Superioridade ontológica que lhe outorgasse prestígio aos olhos do resto das castas.

O homem avançava, assim, em seu processo de materialização e embrutecimento e entrava de pleno já na Terceira Idade: a de Bronze ou Dvapara Yuga. A doutrina da Regressão das Castas nos recorda como agora é a casta guerreira e não a sacerdotal a que ocupou o cume da pirâmide social.

O fim da Idade de Prata se associa com a inundação e desaparecimento, sob as águas, da quase mítica Atlântida e com a fuga de seus sobreviventes para o Ocidente e para o Oriente. A mitologia grega nos fala, de maneira mais ou menos simbólica, de como os titãs (como símbolo da casta guerreira) e outros seres monstruosos se enfrentam aos deuses com o afã de destroná-los. O fazem contra as divindades preponderantes na anterior Idade de Prata (de corte matriarcal) e também contra as que, relegadas durante a Segunda Idade, haviam sido hegemônicas na Idade de Ouro (de signo patriarcal e solar). A mitologia nórdico-germânica nos explica como acontece finalmente o Götterdämmerung ou "ocaso dos deuses", posto que estes são derrotados pelos gigantes e pelos monstros e a força bruta se torna hegemônica.

Parece que as dinâmicas cósmicas marcam fatal e inexoravelmente o destino dos homens sem que estes possam fazer nada para frear ou inverter o processo de decadência que tão diafanamente nos explica a doutrina das Quatro Idades e a da Regressão das Castas. Parece que o homem não é livre para decidir seu destino. Parece que a via iniciática que conduz à Grande Libertação ficou há muito extinta. Parece que já resulta quimérica qualquer tentativa de restauração da Tradição. Porém nos parece aqui que os diferentes mitos nos narram como uns seres de natureza bastante similar à dos titãs ou gigantes (com um progenitor divino e outro humano) se empenham em superar sua natureza perecedoura (que tem sua origem em sua parte de sangue humano) e em conquistar a imortalidade. Nisso se afanam, no mito, por meio de todo tipo de gestas e provas e finalmente conquistam a eternidade e acabarão sendo admitidos nas moradas divinas. Estamos falando dos heróis dos Ciclos Heróicos dos que com tanta relevância nos falam mitologias como a grega (Héracles, Aquiles, Ulisses, Perseu,...). Estamos, definitivamente, falando de como membros da casta guerreira se enfrentam a sua natureza materializada e cindida e em um ato prolongado de heroísmo se liberam de seus condicionamentos, cadeias e ataduras e acabam transmutando-se no Homem Integral e Restaurado. Acabam demonstrando como em última instância o homem pode chegar a erigir-se em amo, dono e senhor de seu destino. Acabam demonstrando como o homem pode chegar a ser autenticamente Livre. Como a Liberdade pode conquistar-se após uma longa, árdua e metódica travessia que conhecemos com o nome de Iniciação. Acabam demonstrando como o homem pode superar - se nisso ele se empenha e assim possui determinadas aptidões inatas - qualquer condicionamento, qualquer determinismo, qualquer fatalismo e qualquer corrente cósmica contrária.

Estamos falando de como alguns desses heróis (casta guerreira) restauram em seus respectivos domínios (Teseu como rei sagrado de Atenas, Ulisses como rei sagrado de Ítaca,...) a Ordem Tradicional perdida. E o conseguem em uma época tão pouco propícia como esta da Idade de Bronze em estado já muito avançado. O guerreiro, pois, sacralizou-se e voltou a unificar em sua pessoa os princípios sagrado e político. A Autoridade espiritual e a temporal são exercidas pela mesma pessoa e pela mesma elite, tal como sucedia na Idade de Ouro. Este guerreiro se reconverteu em realeza sagrada e em aristocracia sagrada e, assim, se posicionou acima e fora do sistema de castas.

Sem dúvida estes ciclos heroicos que fizeram possível restaurar a Tradição tiveram como seus realizadores e protagonistas triunfantes os guerreiros porque estes são os que levam intrinsecamente associada a "via da ação". E esta pode revestir-se de uma vertente externa (combate material, luta territorial ou física) e/ou também - se assim alguns se proponham fortemente a isso - de uma vertente interna que é a que lhes pode conduzir à Gnose do Princípio Supremo que se encontra na origem do mundo manifesto e é, assim mesmo, o que lhes pode, paralelamente, tornar viável sua Identificação, no plano do ser, com dito Princípio Eterno.

Somente a casta guerreira podia protagonizar este logro e está Restauração, pois a casta sacerdotal unicamente conhece da passiva "via da contemplação" e, obviamente, a través dessa se fazem inviáveis os processos internos palingenéticos ou transubstanciadores.

Desgraçadamente estes Ciclos Heroicos não puderam prolongar ad aeternum o tipo de Espiritualidade Solar própria da Tradição e, por isso, sistemas políticos como os que Platão denominou "tiranias" supuseram o retorno hegemônico das castas guerreiras dessacralizadas.

A queda existencial não dava trégua, até o ponto de dar-se por selada a Idade de Bronze e por iniciada a Quarta Idade: a Idade de Ferro, Kali Yuga ou - para a mitologia nórdica - Idade do Lobo.

Ainda que o signo da Idade de Ferro fosse a hegemonia social e política das terceira e quarta castas (viaishas ou comerciantes e sudras ou trabalhadores), ainda de que isso acontecesse por causa, basicamente, dos fatos subversivos próprios da Revolução Francesa, sucederá que o resto das Idades (Ouro, Prata e Bronze) já acabadas se irão manifestando em forma de sub-idades como se de recriações daquelas se tratasse. Isso sempre havia acontecido de similar maneira no transcurso de cada Idade: a anterior periclitada reaparecia como refluxo do que foi e se perdeu.

É por isso que antes que a burguesia e o proletariado galguem o poder o Kali Yuga verá como diversos ciclos heroicos reverberarão, ou tentarão reverberar, as essências da Idade de Ouro. Isso sucede na Antiga Roma durante o período republicano, em que a dirgência senato-patricial é a que ostenta em muitos de seus membros, os cargos que os habilitam para oficiar os ritos operativos correspondentes às principais divindades. Se trata, ademais, de gente que foi iniciada nos mistérios dessas divindades. E de gente que havia passado anteriormente pela milícia. Por isso está elite ou aristocracia guerreira unifica as funções e/ou autoridades espiritual e político-temporal, tal como foi próprio da Idade de Ouro.

Nos prolegômenos do período imperial romano encontramos um Júlio César que também responde a estes mesmos padrões, pois não há que esquecer suas funções como flamen dialis ou oficiante de Júpiter. E já durante a etapa do Império imperadores como Otávio Augusto, Tibério, Marco Aurélio ou Juliano receberam a iniciação em ritos e mistérios diversos: de Elêusis, de Mitra, etc.

Porém não somente na Antiga Roma senão que também posteriormente outros Ciclos Heróicos irrompem ao longo dessa deletérea Idade de Ferro com o firme propósito de reverter os processos de involução. O Ciclo do Graal se erige em fio condutor de vários desses Ciclos Heróicos, como o são o da saga arturiana ou, já em pleno Medievo, o do Sacro Império Romano Germânico. Diversas ordens unem o guerreiro e o espiritual e muitos de seus membros praticam ritos iniciáticos que transmutam suas naturezas internas. Como paradigma dessas ordens se encontra a do Templo. Igualmente algumas dessas ordens acabam, significativamente, convertendo-se na medula vertebral de um Sacro Império Romano Germânico em que o Imperador também se reveste da máxima autoridade espiritual no seio da Cristandade e por cima da própria Igreja.

Como assinalamos alguns parágrafos acima estes que unem em suas pessoas o espiritual (de forma operativa e não devocional) e o político-militar-temporal se encontram por cima, e fora, do sistema de castas.

Novas demonstrações foram estas de que o homem pode fazer valer sua liberdade diante de qualquer contrariedade e determinismo sempre que seja capaz de superar sua condição meramente humana para se converter em um "mais que homem".

Porém como não haveria de ser de outra maneira em um período tão decadente da humanidade, o Kali Yuga assiste a como após estes períodos heroico-solares se sucedem outros nos quais a primeira casta - sacerdotal - escala o cume da pirâmide social.

Em tal ordem de coisas assistimos, durante a Roma Imperial, à assunção do cristianismo como religião oficial do Estado. Isso sucede com Teodósio "o Grande". A figura do imperador já não se reveste de dignidade divina; entre outros motivos porque já não a encarnam Homens Superiores e transfigurados através de determinadas práticas e ritos iniciáticos, senão que se trata tão somente de simples humanos que reconhecem na Igreja uma superior autoridade moral. Assim pois, a casta sacerdotal volta a tornar-se hegemônica.

E também voltará a fazer-se hegemônica quando bem avançada a Idade Média o guelfismo que se organiza ao redor dos Estados Pontifícios derrote ao guibelinismo que se articula ao redor do Sacro Império Romano Germânico. A vitória dos que propugnam a superior autoridade "espiritual" da Igreja sobre aqueles que defendem a da figura do Imperador significará a vitória dos brâmanes sobre o princípio régio-aristocrático-sagrado.

A Idade de Ferro contempla assim mesmo como também a segunda casta - a guerreira - se encarama, em determinados períodos, no mais alto da rede político-social. Certos imperadores romanos são bons exemplos disso, já que provém de suas legiões e impõe seu poder pela força, ademais de carecerem de dignidade sagrada. Seus mandatos coincidem com períodos mais ou menos conturbados da história de Roma nos quais velhos ritos não passam de lembrança ou, no mínimo, se esvaziaram de conteúdo e de operatividade.

Esta casta kshatriya também é a que dirige seus respectivos Estados no período em que as chamadas ciências históricas definiram como "idade moderna" e que se situa, cronologicamente, entre a "idade média" e a "idade contemporânea". É a época das monarquias autoritárias e das absolutistas, nas quais os reis se apoiam, na maioria das vezes, em uma nobreza de origem guerreira que assim como eles não conhece vias interiores que conduzam ao Despertar.

Napoleão Bonaparte poderia, muito bem, ser considerado como um paradigma altamente significativo da transição entre o domínio sócio-político que até o final da "época moderna" vinha exercendo a segunda casta e que desde o início da "idade contemporânea" começará a monopolizar a terceira casta: a dos mercadores ou viaishas. Em Napoleão Bonaparte vemos ao membro da casta guerreira (seu pai pertencia à nobreza córsega) que atua movido pela ideologia do liberalismo triunfante graças à Revolução Francesa e que não é outra que a própria da casta dos mercadores; isso é, da burguesia que vê no liberalismo econômico a possibilidade de realizar suas aspirações comerciais e/ou econômicas.

A partir de então e ao longo dessa "idade contemporânea" a terceira casta se apossará do poder, salvo nos períodos nos quais a quarta casta - a da "mão de obra" - dirija (pelo menos aparentemente) os regimes políticos comunistas e imponha o chamado Quarto Estado. Bem é certo que, após a queda do comunismo na Europa Oriental a fins da década de 80 do século passado, há quem considerou, acertadamente que o clássico mundo do liberal-capitalismo burguês (Terceiro Estado imposto pela terceira casta) foi substituído por um tipo de vida ainda mais coletivista, gregária, amorfa, uniformizada e desenraizada que a imposta pelo marxismo e na qual já qualquer referente ideológico foi enterrado. O único impulso, e referente, que atua é o econômico e as atividades que, avassaladoramente, se impõem são a produção e o consumo desenfreados. Mundo sem referentes é igual ao que ocorria, na Índia Tradicional, com aqueles indivíduos que se encontravam fora e por baixo do sistema de castas (os "sem casta" ou párias) e que haviam dado as costas a qualquer norma formadora e a qualquer tipo de raizame: os "sem tradição" e "sem linhagem". Indivíduos que por suas condutas dissolventes ou desonrosas haviam sido expulsos de suas respectivas castas: "os desterrados". Evola previu de maneira magistral este devir e o tipo de sociedade que do mesmo se derivara a definiu como a da hegemonia do Quinto Estado; e que, sem dúvida, corresponde ao atual modelo planetário de globalização e de homogeneização alienante e desenraizadora.

Porém em meio a tantos processos dissolventes e de tanta corrente contrária, quem nos diria que não seja todavia possível que alguns homens consigam manter-se de pé entre as ruínas, e alcancem uma superior dignidade interior e inaugurem um novo Ciclo Heroico?!

Nenhum comentário:

Postar um comentário