domingo, 8 de abril de 2012

Política no Inferno de Dante

Roberto Silva de Oliveira

A representação de uma realidade está condicionada as estruturas de mundo
daquele que a produziu. Por conseqüência, ela é também produto de uma leitura,[1] de uma necessidade individual de conhecimento, de reconstrução de sentido e de comunicação do universo reconstituído.[2] Isto impõem duas questões fundamentais: primeiro, saber o que fundamenta a construção simbólica da realidade; segundo, buscar compreender o que se interpõe entre o universo da representação e o mundo concreto do sujeito,[3] onde toda “verdade”, todo discurso pressupõe uma correlação de forças articuladas em função da edificação de fronteiras de poder.[4] A compreensão desse universo representado impõe o reconhecimento histórico das estruturas do mundo de
seu produtor.

O trabalho que doravante apresentamos tem por objetivo compreender o sentido histórico das lutas políticas e sociais da Itália no final do século XIII e início do XIV. Tal estudo tem como objeto o “Inferno”, primeiro livro da “Divina Comédia”, obra do poeta florentino Dante Alighieri. As imagens aí postas formam um caleidoscópio de horrores cuja força descritiva torna-se chave para a compreensão das lutas na dimensão particular de seu autor.

Historicamente, as lutas verificadas na Itália entre os séculos XIII e XIV, citadas
na Obra do poeta florentino Dante Alighieri, têm suas origens nas transformações políticas, econômicas e sociais do fim da Idade Média; é decorrência da incansável querela entre o poder político e o religioso, entre reis e papas.[5] Tais rivalidades produziram o enfraquecimento tanto do poder real quanto do pontifical e, por sua vez, contribuiu para o fortalecimento das pequenas unidades políticas denominadas cidadesestados.

No vácuo deixado pela ausência de uma força centralizadora, a Itália se transformou em palco de intensas lutas pela posse e controle do poder político. O desenvolvimento e a intensificação das práticas comerciais deram origem à classe média, a “gente nuova” ou “popolo”,[6] e, como conseqüência, o recrudescimento das lutas internas.
No curso dessas transformações surgiu a obra de Dante Alighieri, misto de poeta, pensador, político e, para outros, teólogo.[7] Dante foi um homem de dois mundos: um que se fechava sob os véus diáfanos da Idade Média e um outro que alvorecia sob o signo da modernidade.[8] Sua obra se inscreve no quadro das lutas florentinas e, por sua vez, da cultura ocidental, como uma síntese dos aspectos morais, políticos e sociais da Itália na fronteira entre a Idade Média e a Moderna. Por meio do primeiro livro da Divina Comédia – o “Inferno” –, buscamos compreender as mudanças sociais e políticas da Itália entre os séculos XIII e XIV. Observamos que através dele o poeta buscou conferir sentido a um mundo que se encontrava em desacordo com suas perspectivas.

A “Divina Comédia” foi escrita entre 1306 e 1321 e é composta de três partes: o
“Inferno”, o “Purgatório” e o “Paraíso”. O primeiro deles é composto de 34 cantos, enquanto que os outros dois contém 33 cantos cada um. Nela o Poeta narra sua passagem por esses três locais descrevendo as situações vividas, as penas e as pessoas que neles se encontram. O itinerário construído vai das trevas a luz; começa no “Inferno”, passa pelo “Purgatório” e vai até o “Paraíso”, a morada do Altíssimo.
O “Inferno”, composto por nove círculos concêntricos, é o objeto de nossa pesquisa; o local onde são sentenciados os indivíduos que, segundo Dante, se arrolaram nas torpezas do mundanismo. A narrativa começa com o Poeta descrevendo as condições que o lançaram àquele orbe. Dante, que havia se envolvido nos acontecimentos políticos de sua comuna sentia-se perdido,[9]* ou, segundo suas próprias palavras, havia sido “[…] tolhido de sono e abandonado a verdadeira via”.[10]

Ele tenta retornar, mas, ameaçado pelas feras que dominam aquele ambiente, é levado a trilhar o caminho que a Providência lhe preparou. Florença e sua política, historicamente constituída nas disputas entre “Negros” e “Brancos”,[11] são representadas na figura da “[…]selva selvagem, rude e forte, que em pensar renova o medo” (Inferno I, 5-6).[12] A origem dessas lutas, conforme o Poeta, estava no aumento da riqueza e na degradação dos hábitos morais de sua gente. O mundo representado nesse começo de obra confirma a anarquia política e social que colocou, em campos opostos, nobreza e burguesia. O “tour de force” social, teve, conforme Dante,[13] suas origens na:

“[…] rivalidade semi-histórica e semilendária das famílias Buondelmonte e Uberti […].
Enquanto [essas] duas famílias se exterminavam mutuamente, as guildas, ganhando
lentamente força, obtiveram o auto-governo para a cidade; em 1247 passou a existir
uma constituição republicana e a introdução em 1252 de uma moeda unitária, o florim,
simbolizou a vitória da classe média sobre a nobreza” (HELLER, A. 1992, p. 41).[14]

Nessa outra Florença apresentada por Dante em sua obra, os princípios de fraternidade que regiam a sociedade antiga, obliteravam-se ante o processo de desintegração da ordem comunal. A cidade na qual viveu o Poeta pouco se assemelhava àquela de outrora – a “Antica Fiesole”.[15] Alienado da condição nobremente construída em razão de sua procedência, dos predicativos de “vir litteratus”[16] e de sua posição política,[17] Dante Alighieri buscou encontrar um novo caminho que o permitisse a compreensão e o contorno àquela situação.

A viagem de Dante no “Inferno” começa pelo despertar do sono que o tolhia. O
Poeta adentra uma selva escura (Inferno, I, 2), metáfora de uma realidade confusa, conturbada, imersa no caos e na anarquia. Nesse mundo de sombras “selvagens”, símbolo da desordem política que se abateu sobre Florença, as ameaças reais se lhe afiguram enigmáticas e se configuram em obstáculos que precisam ser vencido. São três os perigos que ameaçam a integridade do Poeta no início de sua jornada: uma onça, um leão e uma loba. As ações aferidas aos animais são reforçadas pelos predicativos que lhes acompanham. A onça aparece “[…] ligeira e desenvolta de pêlo maculado recoberta […]” (Inferno I, 32 e 33); o leão “[…] com a fronte erguida e com fome raivosa […]” (Inferno I, 47); a “[…] loba, de cobiça ansiosa, em sua torpe magreza, carregada […]” (Inferno I, 49 e 50). Essa “bestia”,[18] cujos “[…] impulsos perversos e aberrantes fazem que nada poderia saciá-la […]” (Inferno I, 97 e 98), é o mais perigoso das três feras. “Com animais diversos se acasala […]” (Inferno I, 97 – 100). Este é o caráter da ganância e da avareza simbolizado na fome do leão e da loba. Para Dante estes males eram frutos da sedução que os bens materiais exerciam sobre os homens de sua época. Segundo Dante, à medida que os homens faziam da riqueza o objeto de suas vidas, seu caminho para felicidade, sua natureza original era transformada abrindo espaço para a loucura e a perdição.[19] Os ímpetos que animavam essas feras encontradas nesse início de viagem caracterizam o contexto das lutas entre “Brancos” e “Negros” pela posse de Florença. Seus impulsos estão presentes em toda a Obra como símbolo de malícia, lascívia, fraude, calúnia, intriga, soberba, arrogância, prepotência, cupidez, aviltamento, ganância e avareza. Entretanto, o caráter transitório do mal é confirmado na esperança do Veltro[20] que chegaria para pôr fim às ações desses animais e principalmente as da loba. A respeito da natureza do “Veltro”, Dante definiu da seguinte forma: “Esse não buscará terra ou troféu, mas só sabedoria, amor e virtude” (Inferno I, 103 e 104).[21] Mais à frente, continua o poeta descrevendo as ações desse animal: “Dará a infeliz Itália a plenitude” (Inferno I, 106).[22] E, por fim, indica o lugar
natural do “Veltro”: “[…] Será entre o Feltro e Feltro o berço seu” (Inferno, I, 105).[23]

Todavia, o Poeta deu a esse animal predicativos só factíveis à natureza humana. E, não obstante, indica o lugar de seu nascimento.
Este mesmo discurso reaparece, agora no “Paraíso” em confirmação a mesma
condição descrita no “Inferno”. Por meio de Cacciaguida, seu trisavô, Dante comenta seu exílio, seu primeiro abrigo. Nele o Poeta faz novas observações acerca do “Veltro” e reafirma o local de seu nascimento e domínio: “Teu primeiro asilo e tua prima pousada terás de cortesia o grão Lombardo” (Paraíso XVII, 70 e 71). Cacciaguida confirma a condição do “Veltro”, agora sob forma humana, com as seguintes palavras:

“Verás com ele que impressa ao nascer
lhe foi a marca dessa forte estrela,
para notáveis obras proceder” (Paraíso XVII, 76–78).

E, logo em seguida enuncia: “[…] veremos [antes] que a sua fama ecluda, por
não cuidar de pratas nem de afanos” (Paraíso XVII, 83 e 84). Essas características são as mesmas aferidas ao “Veltro” no início da jornada. Com efeito, consideramos que Dante afirma suas esperanças numa força humana movida pela Providência para impor limites à anarquia social. Destarte, por mais que seja controversa a condição de existência desse herói ou “Veltro”, tudo indica, segundo a ordem de apresentação e a confirmação histórica, que tenha sido o jovem CanGrande Scalla,[24] o depositário das esperanças do Poeta. É certo que essas esperanças também recaíram sobre Uguccione della Fagiolla,[25] capitão da cidade de Lucca e Henrique VII de Luxemburgo por ocasião de sua invasão à Itália em 1310. Este tentava impor seu controle sobre o “Regnum Italicum” quando veio a óbito em 24 de agosto de 1313.[26]

O segundo ponto a ser vencido para que a viagem fosse iniciada era a confirmação da autoridade do Poeta à reprovação aos erros ali representados. Ao mesmo tempo em que condena os penitentes Dante constrói a excelência de sua conduta.[27] A construção dessa alteridade foi configurada por meio da comparação com a saga Enéias.[28] Os marcos característicos de sua identidade são construídos pela homologia entre suas ações no inferno e as do herói enquanto ser predestinado à grandeza;[29] pela aproximação com Virgílio[30] e por meio da moralidade da fé cristã que nasceu naquele “grande Império” conforme aos desígnios da Providência.[31]

Segundo Dante, Roma foi “[…] o vaso de eleição para confortamento àquela fé[32] que era o princípio na via de salvação” (Inferno II, 10–12 e 28–30). O discurso de autoafirmação da conduta do Poeta é reforçado pelo questionamento que ele faz a respeito de sua dignidade para o cumprimento daquela tarefa, ou seja, dar seguimento à viagem que o levaria do Inferno ao Paraíso. Virgílio condena-lhe a hesitação e o convida a trilhar o caminho que a Providência lhe facultou por honra e mérito de suas virtudes.

Ademais, Virgílio o faz sabedor da natureza de sua missão, afirmando que a mesma radicava na realização dos desígnios celestes sob orientação de Beatriz. Beatriz é apresentada na “Divina Comédia” como símbolo de beleza e retidão, isenta da corrupção e, num sentido oposto, dado os predicativos que lhe confere santidade, um símbolo de oposição aos aspectos morais que ora Dante observa na sociedade florentina. Nesse mundo corrompido, segundo o Poeta, nem mesmo os espaços sagrados da Fé encontravam-se incólume às tentações do lucro.

Seguindo o modelo Bíblico escrito no Apocalipse de João, o Poeta qualifica as
ações da Igreja como a de “[…] – uma puta solta, malevolente, insinuante[33]
(Purgatório XXXII, 149) – que, com “[…] olhos cúpido e vagante" (Purgatório
XXXII, 154) caça e fulmina suas vítimas. À imagem dessa Igreja corrompida, Dante impõe a de Beatriz “[…] bela e beata […]” (Inferno II, 53). A ela fora dedicado o livro “Vita Nuova” no qual exalta sua beleza e virtude, assim como os quinze capítulos do Segundo Tratado do livro O “Convívio”. Na “Divina Comédia”, o poeta a descreve como uma “[…] mulher de virtude que em muito superou a espécie humana […]”, “a glória de Deus” (Inferno II, 76–77; 103), “a piedosa” (Ibid. 133). No quarto círculo, local de condenação a riqueza, Dante assevera a presença da Igreja por meio de seu corpo religioso da seguinte forma:

“[…] clérigos foram esses de coroa
pelada e também papas e cardeais,
que os que mais são que a avareza acorçoa” (Inferno VII, 46 – 48).

Em termos históricos, o discurso de condenação às práticas da Igreja no Inferno de Dante começa pela consideração dos efeitos danosos da abdicação de Celestino V[34] ao trono papal. No Inferno, este é acusado de permitir, dado sua covardia e grande recusa (Inferno III, 60),[35] a entrada da corrupção nos auspícios da Santa Fé.
Por esta razão, Celestino V cumpre pena no átrio infernal, rejeitado por Deus e pelos demônios e sendo picado por uma “nuvem de vespas renitentes” (Inferno III, 66).

A corrupção que o poeta assevera nessa passagem de sua obra está personificada na figura de Bonifácio VIII. Sua presença como ordenador da fé contrasta com “[…] su fiebre de poder obsesiva”. [36] Esta, por sua vez, evidencia a crise moral pela qual passava a Igreja Católica e por conseqüência, a sociedade italiana. Em resposta a Bula – “Unam Sancta”, escrita em 1302 –, Dante escreveu A “Monarquia”. Nessa obra, o Poeta rechaçou os arrogos da Igreja às prerrogativas do poder secular.

O combate a Bonifácio VIII está representado em quase toda parte da “Divina
Comédia”, entretanto, é no Inferno que melhor se define a natureza de seus erros. Ele é apresentado como o “[…] pastor sem lei” (Inferno XIX, 83), “[…] o príncipe dos novos fariseus” (Inferno, XXVII 85). Na terceira vala do oitavo giro – o círculo dos simoníacos – seu antecessor, Nicolau III que, segundo o Poeta, havia se arrolado no crime de simonia e nepotismo, aguardava com ansiedade pela chegada do papa para render-lhe no desespero de sua pena.[37] Ao sentir a aproximação, Nicolau confunde Dante com Bonifácio VIII e exclama:

““Já está aí plantado?” foi seu grito,
“Bonifácio, já está aí plantado?
de vários anos enganou-me o escrito!
“Das riquezas estás já tão saciado,
pra que ultrajaste a formosa mulher
após tê-la com dolo conquistado?”
“[…] com mais obra ruim,
do ocidente virá um pastor sem lei
que ao fim vai recobrir a ele e a mim “”. (Inferno XIX, 52 – 57 e 82 – 84).

Com estas palavras o Poeta assevera o dolo e o local da pena do referido papa, reprova suas ações e a informa como este chegou ao trono papal.[38]
Todavia, somente a condenação por simonia não daria conta de exprobrar todos os erros da política de Bonifácio VIII. Desta sorte, no canto XXVII, na vala dos conselheiros fraudulentos, Guido de Montefeltro, “podestà” das cidades de Pisa e de Urbinos, faz severas acusações às imposturas do clérigo. Acusa-o pela sua perdição, pela sua desgraça espiritual e por sua condenação àquele orbe de trevas (Inferno XXVII, 67–129). O envolvimento de Bonifácio VIII com Guido de Montefeltro se deu em virtude da tentativa de reintegração da Romanha ao Patrimônio de Pedro. Esta região era dominada pelos Colonnas, antiga família pertencente à nobreza toscana, que impunham resistência a política de Bonifácio VIII. Este buscou no velho “podestà”, apoio para livrar-se dos seus inimigos. Após a conquista da região pelo Sumo-pontífice, os Colonnas exilaram-se na França e se tornaram obstinados inimigos desse papa aliandose a Felipe IV, o Belo, no episódio da prisão do mesmo em sua residência em Agnani.

Essa história foi posta, por Dante, à boca de Nicolau III (Inferno XIX, 82 – 87) e de Hugo Capeto (Purgatório XX, 82 – 93). Entrementes, não obstante as ações imputadas aos inimigos do papa, a figura eleita a Judas, sobre a qual o Poeta faz descer o malho da Justiça Divina, não foi Felipe IV, o Belo, a quem acusou apenas pela avareza e crueldade para com o “vigário de Cristo” (Purgatório XX, 87), mas, ao próprio Bonifácio VIII. Em oposição a política papal desenvolvida por Bonifácio VIII Dante condena a “Doação de Constantino”, acusando-a de ter dado origem aos desvios da “Santa Fé”.

“De quanto mal foi mãe, ó Constantino
não a tua conversão, mas tua oferenda
que tornou rico o trono papalino!” (Inferno XIX, 115 – 117).

Assim, execrando os vícios que infectaram a Igreja Romana por meio de seus
representantes, Dante exalta, no canto XXXII do Purgatório, a grandeza do cristianismo primitivo representado nas figuras de Pedro, Tiago e João (cf. Purgatório XXXII, 76) e põe, em contraponto, as ações de Nicolau III, Bonifácio VIII e Clemente V.

Todavia, os erros ali condenados têm suas origens nas transformações socioeconômicas pelas quais passavam as cidades italianas mais prósperas. A concentração de riquezas promoveu o surgimento de uma classe média, cujas ambições puseram em desagregação a ordem social tradicional. Para Dante o acúmulo de riqueza era um erro, uma ilusão,[39] pois feria a natureza da paz social e, por conseqüência, os desígnios da Providência.[40] Erigida em deus, afirma o Poeta, a riqueza tornara-se a fonte de todas as maldades do mundo.[41] No oitavo círculo, o maior do “Inferno”, denominado Malebouge,[42] Dante reprova as formas de obtenção da riqueza.

Nas dez valas do Malebouge são punidos os rufiões, os sedutores, os aduladores, os simoníacos, os advinhos, os traficantes, os hipócritas, os ladrões, os falsários e os maus conselheiros – todos símbolos daquela nova realidade econômica, política e social. As personagens apresentadas nesse trato infernal, muitas, inclusive, contemporâneas do Poeta, representam os pecados supracitados. Venedico Caccianemico, por exemplo, segundo os tradutores de Dante, foi líder de uma facção guelfa em Bolonha. Na primeira vala do Malebouge, cumpre pena como rufião.[43] O pecado correspondente a sua sentença foi ter entregado a irmã Ghisola, por dinheiro e vantagens políticas, ao marquês de Obizzo pertencente da família Este de Ferrara. Do fundo de sua vala Caccianemico afirma não ser o único bolonhês ali presente e, por conseqüência, evidencia o alcance social de tal prática. Alessio Interminei, da cidade de Luca, cumpre pena por adulação;[44] Miguel Scoto,[45] Guido Bonati, da cidade de Forti,[46] e Asdente,[47] sapateiro e astrólogo da cidade de Parma – todos cumprem pena por adivinhação. Mais a frente, na quinta vala, estão Anziane, chefe dos magistrados de Luca e Bonturo Dati, traficante da mesma cidade. A peculiaridade dos vícios apontados por Dante no Malebouge faz transparecer uma condição moral que evidencia os primeiros traços de uma economia monetária, de um pré-capitalismo ascendente.[48]

Todavia, é para Florença que o Poeta volta o seu olhar. A cidade com suas lutas, seus vícios, sua ganância, sua cupidez aparece representada no lamaçal, criado pela “eterna chuva, gélida e pesada” (Inferno VI, 8). Nesse trato do “Inferno”, Ciacco domina como interlocutor do Poeta. Esse lendário florentino, de identidade incerta, ficou famoso pelo seu transitar folgadamente pelos festins da cidade de Florença. Seus hábitos de folgazão, segundo o Poeta, fizeram-no profundo conhecedor dos bastidores da política florentina. Por meio dele, Dante reconstrói as linhas de forças que resultaram no banimento dos “Brancos” e, em particular, no seu próprio exílio em 1300.[49] Ao ser inquirido pelo Poeta acerca de sua identidade, Ciacco responde qualificando, em primeira ordem, a cidade de onde veio como o lugar no qual reina a inveja, a usura e a ganância de seus cidadãos. A respeito de Florença afirma o penitente:

“[…] a cidade tua que é plena
De inveja, até transbordar-lhe o saco
Teve-me ao tempo da vida serena” (Inferno VI, 49–51).

Segundo Ciacco, somente “[…] a soberba, a inveja e a avareza os fogos que mantêm o ânimo aceso” (Inferno VI, 74 – 75),[50] são os moventes da ação política em Florença. Mais à frente, quando perguntado, diretamente, sobre os cidadãos e a razão de tanta discórdia acometida, [51] responde Ciacco:

“[…] Após longa dissensão
Irão ao sangue, e a selvagem laia
A outra expulsará sem compaixão” (Ibid. 64–66).

Amiúde, Florença e seus cidadãos são reprovados no “Inferno”. Na oitava vala do Molebouge, o poeta exclama:

“Alegra-te Florença, que é tão grande
Que as asas bate por terra e por mar,
E pelo inferno o teu nome se expande” (Inferno XXVI, 1–3).

O contraponto dessa cidade dominada pela “invidia e avarizia” de uma “gente nuova”,[52] é estabelecido por meio da reconstrução simbólica de uma cidade ideal, calma, pacata e justa,[53] oculta no passado de seu trisavô – Cacciaguida[54] –, Dante canta a imagem dessa Florença de “sãos princípios” da seguinte forma:

“Florença, dentro de sua cerca antiga,
aonde sua terça e nona ainda soa,
estava em paz, da temperança amiga.
Não havia correntinha nem coroa,
nem saia ornada ou cintura ciginda
que mais alçasse olhares que a pessoa” (Paraíso XV, 97 – 102).

Desta maneira, Dante Alighieri pintou a cidade dos tempos de seu trisavô e, a um só tempo, essa outra que, segundo o Poeta, tantas vezes mudou […] lei, moeda, usança e estado (Purgatório, VI, 146) em benefício da tirania. [55] Essa Florença, segundo Dante, ao lembrar-se de seu digno passado, deveria quedar-se, a exemplo do doente que rola na cama a procura do alívio, do afastamento da dor. [56] Ademais, um novo padrão social era gestado e fundamentado em meio àquilo que sobrou do passado da velha Comuna. [57] Um mundo no qual o lucro não imperava sobre as virtudes das pessoas e nem era a medida das relações (Paraíso XV, 104 – 105). A “Antica Fiesole” reconstruída por Dante constitui-se num símbolo de paz, de nostalgia; uma personificação da beatitude de Beatriz, cuja beleza e perfeição dos encantos enalteciam o sentido da paz derradeira. [58]

Para o Poeta, o inferno era o reflexo correspondente do mal que se alastrara sobre a comunidade dos homens. Nesse mundo mergulhado na perfídia, regido pela fraude, a cupidez e a soberba, fora consumada sua perdição. Por todo o “Inferno” Dante destila sua dor em face da injustiça sofrida e, de verso em verso, apontando a trave no olho do seu “próximo”, ergue os marcos determinantes de sua distinção, limpando-se da infâmia incutida por seus detratores e afirmando um ideal de nobreza que não se estabelecia por via da genealogia, da linhagem, mas, pela retidão dos princípios universais edificados à base da ética e da moral cristã.

Com efeito, o “Inferno” foi o instrumento de contestação usado pelo Poeta para submeter à reprovação a ordem vigente na sociedade florentina do início do séc. XIV.

Nele encontramos as evidências das transformações econômicas, políticas e sociais que marcaram o advento do Mundo Moderno. O caráter providencial da Obra de Dante está evidenciado na certeza de uma Razão Divina que ordena e governa o universo preparando-o para o cumprimento de seu fim último, na paz e na justiça Divina. Por essa via, Dante construiu sua identidade cultural e reivindicou a manutenção de sua posição social.[59]

NOTAS:
[1] Cf. CHARTIER, R. Práticas de leitura. 2ª ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2001, p. 23 – 24.

[2] Cf. BOURDIEU, P. O poder simbólico. 4ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

[3] Cf. FOUCAULT, M. A ordem do discurso. 12ª ed. São Paulo: Edições Loyaola, 2005, p. 28 – 29.

[4] Cf. PUTIGNAT, P. & STREIFF-FENART, J. Teorias da etnicidade: seguido de grupos étnicos e suas fronteiras de Fredrik Barth. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998, p. 124 – 125.

[5] Ver SKINNER, Q. As fundações do pensamento político moderno. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1996, p. 35.

[6] Ibid. 1996, p. 45.

[7] Cf. BUCKHARDT, J. A cultura do Renascimento na Itália. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, 116.

[8] Ibid. p. 151.

[9] Ver. ALIGHIERI, D. A divina comedi: inferno.. São Paulo: Ed. 34, 1998, p. 25. Neste trabalho utilizaremos a versão bilíngüe com tradução e notas de Ítalo Eugenio Mauro Apud

[10] Ver Inferno I, 10 – 12.

[11] O surgimento desses dois partidos, ou facções foi o resultado das lutas políticas entre os imperadores alemães, o papado e o desenvolvimento das classes ligadas ao comércio na Itália. Historicamente, o fim da política imperial nas pessoas de Manfredo e Conradino, ambos filhos de Frederico II, permitiu o desenvolvimento desses partidos. Os Brancos eram apoiados pelos popolani ou gente nuova, classe oriunda do desenvolvimento do comércio nas cidades-estados italianas. Os Negros representavam a antiga nobreza que buscavam a manutenção de seus direitos senhoriais impondo limites as ações políticas dos popolani. Ver. SKINNER, Q. Op. cit. p. 35 – 37; 45).

[12] “[…] selva selvaggia e aspra e forte que nel pensier rinova la paura.”.

[13] Ver. Paraíso XVI, 136 – 154.

[14] HELLER, A. O homem do renascimento. Trad. Conceição Jardim e Eduardo Nogueira. Lisboa: Editorial Presença, 1982.

[15] Ver Paraíso XV, 97 – 102.

[16] Designação dada ao homem erudito na Idade Média, conforme Jacques Verger no livro Homens de saber na Idade Média, 1999, p. 16.

[17] Dante fora Prior, cargo máximo na cidade de Florença em 15 de junho de 1300 pelo Conselho dos Cem.

[18] Ver Inferno I, 88.

[19] Ver Inferno VII, 61 – 93.

[20] Não há uma definição precisa para o significado do Veltro. Por ordem do enunciado parece tratar de um inimigo natural do lobo – cão. O tradutor Ítalo Eugenio Mauro o traduziu com o nome de Lebréu cujo significado é o de um cão amestrado para caçar lebres. Em nota, o explicou como uma obscura profecia acerca de um herói humano e não de intervenção divina (ALIGHIERI, D. Op. cit, p. 136).

[21] Questi non ciberà terra né peltro,/ ma sapïenza, amore e virtude.

[22] Di quella umile Itália fia salute.

[23] […]sua nazion sara tra feltro e feltro.

[24] Ver BURCKHARDT, J. A cultura do Renascimento na Itália: um ensaio. Trad. De Sérgio Tallaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 25.

[25] Uguiccione della Faggiola, depois de uma rápida carreira de sucessos militares que lhe rendera o controle de quase toda a Toscana, Arezzo, Pisa e Lucca, viu-se surpreendetemente destituído do poder, tendo de se retirar às pressas para não ser aprisionado. N. T. Cristiano Martins, p. 89.

[26] Ver SKINNER, Q. Op. cit. p. 29; 40.

[27] Segundo Marc Augé é sempre a reflexão acerca da alteridade que precede e permite toda definição alteritária. AUGÉ, M. ap. JODELET, D. Representando a alteridade. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1998, p. 49.

[28] Herói troiano do livro A Eneida do poeta Virgílio.

[29] Enéias fugindo ao cerco e a destruição de sua cidade de Tróia pelos gregos, tornouse pai dos primeiros fundadores de Roma. Essa cidade, segundo Dante, deveria ser a sede de um novo Império Universal. Cf. ALIGHIERI, D. A monarquia. São Paulo: Nova Abril Cultural, 1973, p. 208; 214 e 234 (Col. Os pensadores).

[30] Dante afirma ser Virgílio seu mestre e seu autor. Ver Inferno I, 82 – 85.

[31] Segundo Dante o povo romano foi destinado ao comando pela natureza. Ademais, a Providência legitimou os romanos quando fez do Império o berço e o túmulo de Cristo. ALHIGIERI, D. Op. cit., 1949, p. 42; 53 – 57.

[32] Trata-se do cristianismo.

[33] […] una puttana sciolta

[34] Giovanni Boccaccio, um dos primeiros comentadores da Obra de Dante faz referência a esta história. Segundo ele, Celestino V, cujo nome era Pietro Morone, era um religioso beneditino fundador da Ordem dos Celestinos. Este foi levado ao sólio pontificial por volta de 1294 abdicando, alguns meses depois em nome do Cardeal Benedeto Gaetano – mais tarde Bonifácio VIII. Quando voltava Pietro à vida monástica foi preso por Bonifácio VIII na torre do Castelo Fumone onde morreu dois anos depois. Nota do Tradutor. José Pedro X. Pinheiro, 1949.

[35] […] fece per viltade il gran rifiuto.

[36] ROMERO, J. L. ¿Quién es el burgues? Y otris estudios de historia medieval. Bueno Aires Bibliotecas Universitárias Centro Editor de América Latina, 1984.

[37] Segundo Nicolau III, o tempo daquela pena (ficar plantado de cabeça para baixo tendo os pés em chama) terminaria com a chegada de Bonifácio que tomaria seu lugar fazendo com que ele caísse no fundo do poço (Inferno XI, 76 – 78 e 82 – 84).

[38] Ver nota nº 19.

[39] Ver Inferno VII, 85.

[40] ALIGHIERI, D. Op. cit., 1973, p. 195.

[41] Ver Inferno VII, 86 – 87.

[42] Bolsas más, conforme tradução de Ítalo Eugenio Mauro.

[43] Ver Inferno XVIII, 66.

[44] Ver Inferno XVIII, 122 – 125.

[45] Astrólogo de Frederico II.

[46] Astrólogo de Guido da Montefeltro, podestà das cidades de Pisa e de Urbino na segunda metade do século XIII.

[47] ALIGHIERI, D. Convívio. Lisboa, PT: Guimarães Editores, 1991, p. 191.

[48] Ver LE GOFF, J. A bolsa e a vida: economia e religião na Idade Média. São Paulo: Brasiliense, 1998, p. 10.

[49] Ver Inferno VI, 64 – 66.

[50]. […]superbia, invidia e avarizia sono le ter faville c’hanno icuori accesi.

[51] “[…] per che l’ha tanta discórdia assalita” (Inferno VI, 63).

[52] Ver Inferno XVI, 73 – 75.

[53] Ver Paraíso XV, 130 – 132.

[54] Cacciaguida foi célebre em sua época por ter combatido na segunda Cruzada ao lado do imperador Conrado III. Morreu combatendo os sarracenos em 1147 nos campos da Síria.

[55] Ver Purgatório VI, 124-125.

[56] Cf. Purgatório VI, 148 – 151.

[57] Ver. HELLER, A. Op. cit. p. 43.

[58] Ver. ALIGHIERI, D. Op. cit. 1991, Segundo Tratado, cap. II, VIII, p. 63; 78.

[59] Cf. POUTIGNAT, P. & STREIFF-FENART, J. Op. cit. p. 137 – 138.

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