terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A Maçonaria na Revolução Francesa

por Ernesto Milá



A revolução americana logo se espalhou na Europa; o primeiro contágio produziu-se na França ao fim do século XVIII. A crise da sociedade francesa e das estruturas feudais foram as causas "objetivas" que favoreceram a eclosão da revolução de 1789 que liquidou o antigo regime; porém provavelmente os acontecimentos não teriam se desenrolado como o fizeram se não fosse pela existência de uma estrutura organizativa que operou ao modo de um detonador dos acontecimentos. Tal detonador, como no caso da revolução americana, foi a maçonaria, verdadeiro responsável intelectual da Revolução Francesa.

Franco-Maçonaria Católica

O contingente de exilados que seguiram James II Stuart, depois dele ser expulso do trono britânico, estava composto fundamentalmente por católicos que imprimiram nas lojas traços de sua confissão religiosa. Assim por exemplo a recém-constituída "Grande Loja da França" dizia em seus estatutos: "A Ordem está aberta somente aos cristãos. É impossível aceitar a qualquer um que não pertença à Igreja de Cristo. Judeus, maometanos e pagãos são excluídos por incrédulo".

Pode entender-se assim porque personagens católicos de primeira linha, que se situaram no bando da contrarrevolução em 1789, como Joseph de Maistre, se sentiam cômodos nos bancos de suas lojas. De Maistre, havia sido iniciado na Loja "Os Três Morteiros" de Chambery e ocupava o cargo de Grande Orador, em sua famosa "Memória ao Duque de Brunswick", explica qual deve ser o papel da maçonaria no século: "o fim da maçonaria é a ciência do homem", quer dizer, "a verdadeira religião". De seus três principais graus, o primeiro deve dedicar-se a perseguir o "bem-estar geral", o segundo, a "unificação das confissões cristãs, a unidade do corpo místico de Cristo mediante o triunfo da Igreja Católica" e o terceiro buscar "a revelação da revelação", quer dizer, a iluminação através da metafísica. O conjunto de tudo isso é o que De Maistre chama "catolicismo transcendente". De Maistre - logo crítico implacável da revolução francesa - considerava às lojas como um espaço de reflexão e iluminação, para católicos laicos, onde se estudava e praticava uma metafísica inspirada nos textos bíblicos e sempre aceitando a disciplina da Igreja Romana.

Como se vê, ao longo do século XVIII, na Europa a maçonaria não tem o aspecto de uma sociedade conspiratória, senão de um clube de pensamento, no qual, a medida em que passa o tempo, os não-católicos - huguenotes, protestantes, etc - vão tendo um peso e uma influência crescentes e dentro da qual coexistiam distintas sensibilidades políticas. Até esse momento, a nenhum maçon europeu havia ocorrido atuar como tal na política. Isto ia mudar nos anos seguintes e para entender a origem dessa mudança há que ter em conta três fatores: 1) o exemplo da Ordem dos Iluminados da Bavária e da maçonaria norteamericana; 2) a mudança cultural que se foi operando na sociedade francesa ao longo do século XVIII e 3) o relaxamento da tensão metafísica nas lojas devido ao crescimento desmesurado e desordenado da maçonaria.

A Ordem dos Iluminados da Bavária

A chamada "conspiração dos Iluminados da Bavária" é para alguns historiadores - como o abade Barruel - um "ensaio geral completo" do que logo seria a revolução francesa.

"Cada homem é seu rei, cada homem é soberano de si mesmo" dizia o juramento do grau 13º (o último) da Ordem dos Iluminados da Bavária e nela se intui já a temática política da qual se apropriaria uma parte dos maçons franceses. A vocação antimonárquica - e mais especificamente, antiabsolutista - dos "iluminados" se complementa com o fim de - comum à maçonaria - promover a fraternidade humana. Adam Weishaupt, fundador e inspirador da Ordem, reconhece a respeito: "E sua finalidade, em resumo qual é? A felicidade da raça humana! Quando vemos como os mesquinhos, que são poderosos e os bons, que são débeis, lutam entre si; quando pensamos que inútil é querer lutar somente contra a forte corrente do vício, nos vem à imaginação a mais elementar idéia: a de que todos devemos trabalhar e lutar juntos, estreitamente unidos para que assim a força esteja do lado dos bons, para que todos unidos já não sejam débeis".

Os graus de iniciação eram três, divididos em sub-graus: Grau de Iniciação (dividido em Preparatório, Noviciado, Minerval e Iluminado Menor), Grau de Maçonaria (duvidido em Iluminado Maior e Iluminado Diligente), Grau dos Mistérios (dividido em Sacerdote, Regente, Mago e Rei). O grau de Iluminado Menor marcava a divisão entre pequenos mistérios, chamados aqui "Edifício Interior" e os "Grandes Mistérios" que dariam acesso à construção do "Edifício Superior", que neste caso suporiam o domínio das capacidades do homem e domínio sobre o mundo, respectivamente. Os "Iluminados da Bavária", quando falavam de "domínio do mundo", incluiam também domínio político. As "constituições" (regramento) da ordem especificavam que quem alcançasse o grau de Sacerdote devia assumir os poderes do Estado. A esta organização em graus que se chamou de "círculos concêntricos".

A ideologia dos "Iluminados" era uma curiosa mistura de idéias políticas, místicas e filosóficas, não isenta de contradições flagrantes: igualitários em seu objetivo final, pretendiam chegar a ele mediante uma rígida estrutura hierárquica, ateus impenitentes, divinizavam, ao invés, a natureza. Ao Grau de Sacerdote devia revelar-se o segredo do "amor universal", porém a ele se chegava através dos patriotismos.

Em 1785 um correio dos "Iluminados" foi fulminado por um raio quando transportava importantes documentos sobre a organização e projetos da ordem. A conspiração urdida laboriosamente por Adam Weishaupt resultou assim desvelada.

Weishaupt, maçom de alto grau, se relacionou com distintos ambientes esotéricos e ocultistas no último terço do século XVIII. Através da maçonaria contatou Adolf von Knigge, sua alma gêmea, e juntos fundaram a "Orden der Illuminaten" na noite de Walpurgis (30 de abril para 1 de maio) de 1776. Seu documento fundamental está inspirado em três correntes: o pseudo-rosacrucianismo, já por então em perda de vigor na Alemanha, as constituições maçônicas de Anderson, inspiradoras da maçonaria moderna, e a regra da Ordem dos Jesuítas.

Os membros da Ordem recebiam um nome místico, geralmente extraído da antiguidade grega. Weishaupt era "Spartakus", Knigge, "Philon", o célebre poeta Goethe, "Abaria", e o filósofo Herder "Damasus". Nos poucos anos em que a Ordem esteve em atividade conseguiu atrair a suas fileiras uma boa parte dos alunos da Universidade de Ingolstadt, porém também enquadrou muitos nobre bávaros. Seus afiliados não foram mais de 600.

Após a proibição da Ordem pelo Eleitor da Bavária, Weishaupt foi condenado à prisão. Fugiu do cárcere de Regensburg, morrendo na mais absoluta miséria em 1830. Tal é a história do que se passou a chamar "a conspiração dos Iluminados", a qual, sustenta o Abade Barruel, inspirou a ação da maçonaria durante a revolução francesa.

Pela primeira vez, na idade moderna, com os "Iluminados", uma sociedade secreta se propõe a diretamente conquistar o poder político com um programa revolucionário, antimonárquico e nacionalista, que efetivamente prefigura os traços que logo encontraremos na revolução francesa.

A conspiração dos "Iluminados" fracassou, não somente por contingências e casualidades humanas, senão também porque a Alemanha carecia nesse momento do substrato cultural sobre o qual poderiam se assentar também os princípios revolucionários na França: a Ilustração, o Enciclopedismo...



Influências Estrangeiras na Revolução

Existe um fio direto, mais além das semelhanças de método e das eventuais coincidências de programa, entre os "Iluminados" e os acontecimentos revolucionários? Há que reconhecer que são tênues, porém existentes, ao fim e a cabo. Certas fontes - e inclusive testemunhos de protagonistas como Marat - insistiram na presença de agitadores estrangeiros que operaram a modo de instigadores nos principais eventos revolucionários: tomada da Bastilha, assalto ao palácio das Tulherias, etc. Marat identificou prussianos entre os agitadores que dirigiam o populacho no episódio da Bastilha; o emissário de Frederico Guilherme II da Prússia, Veitel Ephraim, escreveu a seu monarca uma famosa carta na qual dizia: "O clube dos jacobinos está completamente entregue à Prússia". Rabaut St. Etienne, deputado da Assembléia Constituinte, demitiu-se de seu cargo por perceber que nos incidentes do Campo de Marte (1791) era notória a presença de "sediciosos vindos do estrangeiro".

Enquanto à influência específico dos Iluminados na França existem poucos dados, ainda que significativos. No congresso dos Iluminados celebrado em Frankfurt em 1786 assistiram delegados alemães, porém também franceses e ingleses. Neste congresso se aprovou o programa de destruição das monarquias européias e, seria aqui, onde a assembléia emitiu uma condenação de morte contra o rei da França. O introdutor da Ordem na França, para Alan Stang, foi o conde de Mirabeau que recrutou nas lojas maônicas os que logo seriam líderes revolucionários (Saint-Just, Desmoulins, Hebert, Danton, Marat, Chenier, entre outros). Outro historiador norteamericano, Curtis B. Dall, ex-genro do presidente Roosevelt, maçom, por sua parte, afirma que a Ordem dos Iluminados - reconstruída na clandestinidade após ser proibida em 1786 - teve arte e parte no processo revolucionário. Nenhum dos dois apresentam provas objetivas, porém fazem eco de comentários que circulavam nas lojas.

Não são eco, senão experiência direta, a vivida pelos protagonistas revolucionários, que, como dissemos perceberam a presença de elementos "prussianos" entre os instigadores dos eventos revolucionários. O processo da facção extremista de Hebert e dos seus é prolixa em confissões sobre as influências estrangeiras que levaram ao patíbulo vários agentes, o banqueiro prussiano Koch, o espanhol Guzmán, os austríacos Junius e Emmanuel Frey e vários outros. Porém também as lojas inglesas haviam enviado seus peões. O cavaleiro de La Luzerne, embaixador francês em Londres, acusou, em carta a seu governo, a Danton e Paré de estarem a soldo do governo inglês. Outro autor, Bernard Fay, aporta o nome de um dos agentes ingleses que distribuiram fundos entre os jacobinos, "Miles". Felipe de Orléans, iniciado na Grande Loja Unida da Inglaterra e que chegaria logo a Mestre do Grande Oriente da França, teria sido para essas fontes, outro dos agentes encarregados de transmitir e executar ordens emanadas do governo inglês. Estes dados induzem a pensar em uma colaboração entre lojas iluministas prussianas e a Grande Loja da Inglaterra, unidas aos maçons e iluminados franceses, nos eventos revolucionários. Agora bem, os dados são escassos e fragmentários, é preciso reconhecê-lo.

Pierre Gaxote, historiador francês acerta o parafuso quando explica que "a miséria pode suscitar revoltas, porém não é causa da revoluções. Estas tem causas mais profundas". E Jacques Bordiot abunda nesta linha: "Uma revolta pode ser espontânea, uma revolução jamais o é". Para que se produza um processo revolucionário é preciso que exista uma situação na qual a população peça, exija, uma mudança; porém outros dois fenômenos são necessários, ou do contrário, no máximo se produziriam revoltas ou motins. Estes dois fenômenos são: a existência de um clima cultural entre a "intelligentsia" e a presença de uma organização revolucionária.

O Clima Cultural Pré-Revolucionário

O clima cultural que abre espaço para a revolução se vai cultivando ao longo do século XVIII com o Iluminista e o Enciclopedismo. É útil recordar que o período revolucionário se inicia com a convocatória dos representantes do clero, a nobreza e o povo, nos Estados Gerais; os representantes do "Terceiro Estado", do povo simples, eram 578, dos quais 477 eram "iniciados" nas lojas. Noventa representantes da aristocracia luziam também aventais em seus encontros, assim como um certo número do clero. Este contingente aderiu à maçonaria, em parte, por oportunismo, porém também fazendo eco do clima cultural favorável que impregnou a sociedade civil francesa no curso do século XVIII. Montesquieu e Fenelon foram em boa medida seus inspiradores. Ambos estavam relacionados com a maçonaria.

Montesquieu havia sido iniciado na maçonaria durante sua estadia em Londres. Certa tradição maçônica afirma que Montesquieu foi o primeiro maçom francês. Fenelón, por sua parte, teve Ramsay - um dos artífices da maçonaria moderna - como secretário e logo como executor testamentário. Não consta que Fenelón participasse na maçonaria, porém sua obra "Telêmaco" está repleta de alegorias que induzem a pensar que conhecia bem a temática das lojas. Luís XIV sempre o olhou com desconfiança.

A maçonaria é, nesses tempos, uma "sociedade de pensamento" que, deixando cada vez mais atrás suas origens católicas, se ressente de duas finluências: a inglesa e a alemã. Da primeira procede o racionalismo mecanicista e volteriano, enquanto que pela segunda se verá influenciada pelo misticismo germânico e pelo martinismo.

Não se pode dizer que haja uniformidade ideológica nas lojas, estas se romperão em distintas obediências e ritos. No último período de Louis de Borbón, a influência política da sociedade é notória e isso provoca novas limitações a sua atividade. Pouco a pouco, os maçons católicos, ao estilo de De Maistre, se vão encontrando em minoria e inundados pelo crescimento espetacular da filiação.

A primeira loja havia sido já constituída em França em 1725, se trata da Loja de São Tomé de Paris. Em 1732 é reconhecida pela Grande Loja da Inglaterra. Sua associação se estende rapidamente entre a nobreza. Um dos amigos íntimos de Luís XV, o duque de Villeryo, foi um dos primeiros maçons franceses. O próprio rei se interessou pela vida das lojas. Porém o fato de que subsista em torno à maçonaria uma auréol de secretismo e que a moda das lojas proceda da "pérfida Albión" nesses momentos, fazem que em 1737 a maçonaria seja proibida. Seguirão reunindo-se em um hotel do bairro da Bastilha e em 1738, o duque de Antin, assumirá o cargo de Grão-Mestre; somente ocupará por um ano o cargo, sucedendo-o o primo do rei, Louis de Bourbon Condé que ostentará o cargo até 1771. Sob seu mandato as lojas ganharão peso e influência e se estenderão por toda a França.

Ao assumir o cargo de Grão-Mestre o duque de Chartres auxiliado pelo duque de Montmorency em 1771, se produz uma disputa no interior das lojas a qual tem motivos filosóficos - o Grande Oriente, pouco a pouco, se vai deslizando na direção de posturas indiferentistas religiosas - porém também organizativos; durante anos a maçonaria francesa estará dividida entre o Grande Oriente e o Oriente da França. Pouco antes da revolução existem em toda França 629 lojas, dessas 63 na própria Paris, associadas ao Grande Oriente, enquanto que as lojas do Oriente somam 376 lojas, cifras impressionantes. O número de maçons nesse momento era superior a 75.000 na França.

No curso da revolução as lojas perderam a força que tinham anteriormente: haviam sido dirigidas por nobres, boa aprte dos quais, ou viram assalariados, ou se limitaram a participar nas primeiras fases da revolução, sendo varridos, mais adiante, pelos jacobinos. Enquanto a seus graus mais baixos, ocupados geralmente por burgueses, a virulência dos acontecimentos, os afastou do trabalho nas lojas. O próprio Grão-Mestre do Grande Oriente da França, Felipe "Igualdade", em 1793, após ter votado a favor da execução de seu primo Luís XVI, rechaçava a prática do segredo na maçonaria - "não deve haver nenhum segredo nem mistério em uma república", escrevia - retirando-se da sociedade. A partir desse momento a maçonaria enquanto tal desapareceu do cenário revolucionário; Felipe "Igualdade" foi guilhotinado em 1793, depois de sua espada cerimonial ser quebrada na Assembléia do Grande Oriente da França.

É impossível demosntrar documentalmente que a maçonaria - francesa, inglesa ou alemã - emitiram alguma diretiva concreta para iniciar, dirigir ou canalizar os acontecimentos, o certo é que a quase totalidade dos líderes revolucionários, foram membros das lojas.

A Contribuição das Lojas para a Revolução

As lojas maçônicas foram na França pré-revolucionária, a corrêia de transmissão das novas idéias. É inegável que sua contribuição foi fundamentalmente ideológica e simbólica, mesmo que não haja provas objetivas, de valor para a historiografia, de que organizativamente as lojas prepararam os eventos revolucionários.

A divisa maçônica "Liberdade, Igualdade, Fraternidade", foi incorporada ao acerco revolucionário. As cores da bandeira republicana - azul, branco e vermelho - procedem dos três tipos de lojas, procede da roseta tricolor ideada por Lafayette, maçom e carbonário. O gorro frígio, símbolo da república, é igualmente um símbolo maçônico. O próprio hino da revolução, "A Marselhesa", composto pelo também maçom Leconte de l'Isle foi cantada pela primeira vez na Loja dos Cavaleiros Francos de Estrasburgo. E assim mesmo, todo o simbolismo grego que adotam os revolucionários, assim como o deísmo naturalista de que se gabam, pode encontrar-se sem dificuldade nas lendas e temas maçônicos.

A maçonaria - insistimos - como organização parece ter sido transbordada - como, pelo demais, qualquer outra instituição francesa da época - pelo decorrer revolucionário. Maçons guilhotinam maçons, rompendo o juramento de fraternidade e ajuda mútua: Hebert é guilhotinado com o beneplácito de Danton, este, por sua vez, sobre ao patíbulo por instigação de Saint Just e Robespierre - instaurador do "culto ao ser supremo" - cujas cabeças rodarão ao se produzir a "reação termidoriana" que dará origem ao Diretório constituído por notórios maçons como Fouché. Finalmente, Napoleão Bonaparte, segundo algumas versões iniciado durante a campanha da Itália na Loja Hermes do rito egípcio e segundo outros, muito antes, quando era tenente em Marselha, põe fim a todo esse caos, nomeado Primeiro Cônsul e logo proclamando-se Imperador. Napoleão imporá a seu irmão José Bonaparte - "Pepe Garrafa", um homem muito mais sério e responsável do que este apelido popular deixa pensar- como Grão-Mestre da Maçonaria francesa.

Os princípios da maçonaria triunfam mais que a maçonaria em si. Notórios maçons protagonizaram os eventos revolucionários, levados por seus instintos e seus interesses, mais que seguindo um plano pré-estabelecido e uma planificação orgânica. Se existiu uma "conspiração maônica", o devido respeito à verdade nos obriga a afirmar que não se pode demonstrar. Porém os resultados estão aí: a Revolução Francesa, filha direta da Revolução Americana, abriram a passagem para o que hoje é o mundo moderno. Desse se pode gostar ou não a nível sócio-político, econômico e tecnológico, porém do que não cabe a menor dúvida é que nenhum período histórico anterior esteve tão distante da verdadeira espiritualidade como o nosso. E o responsável, não único, porém sim principal, é a maçonaria nascida em 1717.

domingo, 29 de janeiro de 2012

O Antiglobalismo de Direita

por Marcello Veneziani
 


Se olhares para eles, os anti-G8 são a esquerda em movimento: anarquistas, marxistas, radicais, católicos rebeldes ou progressistas, pacifistas, verdes, revolucionários. Centros sociais, monos blancos, bandeiras vermelhas. Com o complemento iconográfico de Marcos e Che Guevara. Logo se percebe que nenhum deles coloca em discussão o Dogma Global, a interdependência dos povos e das culturas, o melting pot* e a sociedade multirracial, o fim das pátrias. São internacionalistas, humanitários, ecumenistas, globalistas. Além disso: quanto mais extremistas e violentos são, mais internacionalistas e antitradicionais se tornam.

Ou seja, quanto mais se opõe à globalização, mais compartilham seu objetivo final. Além disso, o Manifesto de Marx e Engels é um elogio total da globalização, a cargo da burguesia e do capital, que rompe os vínculos territoriais e religiosos, étnicos e familiares, livre da tradição. E nas cúpulas anteriores, os presidentes dos países mais industrializados eram quase todos de tendência progressista e provinham de 68, desde Clinton a nossos próprios líderes, que sonhavam em transformar o G8 em uma coalizão de esquerda planetária. Todos otimistas a respeito do G8.

Então onde estão os verdadeiros inimigos da globalização? Estão na direita, queridos amigos. Ali, não só desde agora, se combate o mundialismo e o internacionalismo, a morte das identidades locais e nacionais. Se for verdade, tal como sustentam muitos pensadores, que a próxima alternativa será entre o universalismo e o particularismo, entre globalidade e diferenças, entre “cosmópolis” e comunidade, então o antagonista da globalização está na direita. Com os conservadores e os nacionalistas, com os tradicionalistas e os antimodernos, mas também no âmbito da nova direita de Alain de Benoist e de Guillaume Faye, e dos movimentos localistas e populistas.

Existe uma rica literatura de direita que há temposcritica radicalmente a globalização e suas conseqüências: o domínio da técnica e da economia financeira em detrimento da política e da religião. É na direita que se reúne a resposta populista às oligarquias transnacionais. É na direita onde se teme a imposição de um pensamento único e de uma sociedade uniforme, e se denuncia que a globalização não estende seus benefícios econômicos à humanidade, mas somente a alguns poucos. Ou seja, que não se denuncia seu efeito de “desenraizamento” sobre as culturas tradicionais e sobre as identidades, mas somente que não irá unida a globalização dos direitos humanos.

Em Gênova, pois, ocorre um paradoxo: alguns poucos homens de direita, entre agricultores, artesãos e tradicionalistas, se opõe ao G8 de maneira débil e marginal, mas com propósitos fortes e radicais. E muita gente de esquerda se opõe de modo vistoso e radical a uma globalização de cujas idéias, no fundo, compartilham. Em Gênova a maldição de Colombo ocorre ao inverso: ele partiu para as Índias e descobriu a América, estes sonham com um mundo novo mas descobrem as velhas Índias.

*Significa “caldeirão”. É uma metáfora utilizada quando uma sociedade heterogênea vai se tornando homogênea, na qual as diferenças étnicas, biológicas e culturais vão “derretendo” e se transformando em um grande “caldo”.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Isidro Palacios - O Símbolo, o Mito e a Religião no Fantástico

por Isidro Palacios


Apologia da Barbárie

A realidade urbana em que vivemos encolheu e estreitou o mundo. O céu, o inferno, a natureza, o herói e suas provas, os silfos, as fadas... Tudo isso foi retirado e relegado a um mais além da civilização, tachando-o de primitivismo. Aqueles que seguiram acreditando em tais realidades e seus herdeiros não tiveram por menos que aceitar ser os novos bárbaros. Porém eis aqui que esse mundo bárbaro pugna agora por voltar e se levanta arremetendo contra os valores e o estilo da urbe, a qual concebem como o vírus que há que matar ou destruir culturalmente. Nossa época parece ser, por isso, uma nova idade de fronteira: um trânsito para tempos novos, carregado de signos apocalípticos. Vejamos como nos anuncia a literatura fantástica, os movimentos marginais da urbe e as aparições do misterioso. É o tempo da pós-modernidade.

O símbolo, o mito e a religião no fantástico

Se o mundo moderno conseguisse demonstrar que o fantástico é um capricho da mente, desligada da verdade, teria conseguido derrotar a esta literatura. Porém...lograram por acaso vencer os troianos aos aqueus aceitando, dentro dos muros da cidade de Tróia, o Cavalo de madeira imaginado por Ulisses? Aquele engenho, ao contrário, demonstrou ser o portador de uma crua realidade. O "Cavalo de Tróia" levava dentro os gérmens da destruição da cidade. Assim é a literatura fantástica, aparentemente falsa, mas que em seu ventre entesoura a verdade dura e esperada, segundo o bando no qual um indivíduo se encontra. E já é tarde para expulsá-la, é tarde para que prenda na sociedade contemporânea o alarme, pois os habitantes da urbe estão - próxima já a noite - demasiado despreocupados e com escassíssima vigilância, preparando a nova era de ociosidade absoluta, de festa sem entranha, da servidão do prazer indomado: a última etapa da decadência que precede a queda...e à instauração do novo.

A Verdade, a Razão e a Imagem

Partamos reconhecendo que a literatura fantástica é portadora da verdade engenhosamente encoberta. Dito de outra maneira: a astúcia do real frente a um mundo falso. Se os escritores do fantástico perdessem essa noção, sua literatura "languidesceria ou se converteria em tediosa ilusão" (Tolkien). E os leitores teriam deixado de perceber a verdade.

A imagem é o traço elemental que domina este tipo de literatura. Realmente tem muito pouco que ver com o relato especulativo, ainda que o fantástico não exclua à razão. A este respeito, temos uma frase de Tolkien que nos convém citar aqui. Diz assim: "a fantasia é uma atividade natural da mente humana, a qual certamente não destrói, nem menos ofende a razão... - e conclui - : quanto mais aguda e clara é a razão, melhores fantasias produzirá. Não é, portanto, essa literatura, irracional, nem irracionalistas os que creem nela e a seguem. Porém tampouco é racionalista porque sua atividade está inspirada, e deve seu conhecimento à visão de uma realidade extrarracional e suprarracional. Imagem não é alucinação artificial, sonho do pensamento, cobiça do "eu" individual, nem invenção. Nem toda literatura que rende culto à imagem quer dizer "imaginária", senão simplesmente a visualização do escondido e do oculto, do superior e do inferior invisíveis. Estamos, por conseguinte, diante do fato simbólico. E símbolo significa manifestação da realidade completa; expressão até o mais inefável; doutrina da totalidade; entrada a toda a criação, ou caminho certo para o espírito; arma e defesa perante a ignorância e a escravidão.

Dessa concepção da imagem nasce uma das causas de choque com o mundo de nosso tempo, que vive na prisão estreita de seu próprio racionalismo. Sobre cuja base, não somente pretendeu-se fundamentar toda sorte de utopias e erros (racionalização da economia ou capitalismo, urbanização do mundo, igualitarismo, massificação e individualismo...), senão que tentou-se e tenta-se - mediante a parapsicologia - circundar e limitar o infinito, explicar o inexplicável e racionalizar o que não se alcança. Daí que nossa civilização presente tenha condenado os homens a um fechamento no âmbito de suas vidas, a uma limitação em tudo: em sabedoria e em existência, justo o contrário do que, segundo parece, pretendia o racionalismo com sua revolução. A imagem, por sua vez, nos facilita a compreensão de um mundo totalmente aberto. Fantasia, escrevia Michael Ende em sua História Sem Fim, é um Reino Sem Fronteiras. E isto é assim, porque o símbolo é uma maravilha sem peso, um testemunho alado, que se pode elevar e remontar à altura que se queira e pousar ou penetrar em qualquer lugar. Por isso a inteligência pura, com o símbolo, pode acessar ou conseguir a mais alta, certeira e eminente realidade de todas as coisas e torná-las compreensíveis à razão, se esta vive disposta a alçar-se, mediante o símbolo ou a imagem, por cima de si mesma. Temos chegado já, com o que foi exposto até aqui, a uma das principais oposições que tem a literatura fantástica em relação com a sociedade atual: frente a um espaço e tempo fechados, o fantástico defende uma vida aberta e livre. Compreenderemos agora, nesta aproximação, as palavras de Tolkien quando se referia ao fantástico como a fuga do prisioneiro? Tanto Tarzan, Conan, como os antigos bárbaros, nunca renunciaram para sempre aos espaços abertos, à natureza. Os autores dessa literatura nos conduzem a situar de novo, no centro de nossa mente, o Monastério, o Castelo e o Bosque, com todos os seus povoadores: eremitas, magos, cavaleiros, duentes, elfos, fadas, dragões..., e nos recordam que as forças tenebrosas nos assediam e nos escravizam em nossas cidades. O aberto do símbolo ou da imagem frente à limitação e ignorância do exclusivismo racionalista, como resumo.

Mito e Religião: a Idade Média

Estamos de acordo com Alex Voglino quando diz que o fantástico é discurso mítico; não obstante, sua apreciação é incompleta já que também é discurso religioso. Em efeito, a literatura fantástica participar, ao mesmo tempo, de ambos elementos. Por um lado do Mito, que assinala uma presença real do sagrado no mundo, penetrando-o em sentido imanente e transcendendo-o para um mais além. É o espírito em tráfego, cuja visão, empapando-o todo, percebe-se sem interrupção. Dito de outra maneira: o Mito faz de cada lugar um templo, de cada árvore, de cada monte, de cada mar, uma imagem sagrada e, assim mesmo, de cada um dos dias uma festa. É o paraíso do mundo identificado com o Paraíso Terreno; é a aceitação do Cosmo, da Natureza, como Criação divina e onde todo ato humano não se concebe senão como uma continuidade do fato criador, isto é, como uma recriação. É, enfim, a ordem da transparência cristalina entre o visível e o invisível. É a vida que nos entrega a solução antes de que o problema tenha sido, tão somente, apresentado. por isso o Mito é anterior à Filosofia, porque nada tem que ver com a existência da dúvida que se resolve pela via do pensamento. Daí que tenhamos dito mais acima que o fantástico não é uma literatura que especula, senão que nos oferece imagens ou símbolos que afirmam, que não discutem. E sustentamos isto apesar que utilize, como meio de expressão, algo que em palavras de Voglino - não lhe é próprio: o romance. Mas, que outro veículo poderia ser empregado senão este?

Porém de nada serviria esta literatura se não fosse introduzido nela o elemento religioso.

Porque estando hoje o Mito perdido, a Religião o recupera; porque tendo rebelado-se o mundo, os lugares e os dias dessacralizaram-se; porque as cidades e as obras do homem sem alma quebraram a Natureza, a devastaram e a reduziram a um estado idefeso; porque a visão ocultou-se e o saber se ignora. Diante de tais coisas, a Religião surgiu como a reconquista que a misericórdia de Deus envia ao mundo, para penetrar em seu âmbito agora já hostil e desgarrado de sua Unicidade. Que outra coisa significa Religião, senão "religar-se"; voltar à Unidade; voltar a unir o que está separado? Religião é, assim, retorno à normalidade do princípio ou à antiguidade primordial, porém que, em sua instauração, não tem mais remédio que ver-se envolta em um comportamento de violência. Pode ser de outra maneira a intromissão no campo inimigo? Assim, ao menos, são sempre recebidos os profetas e os enviados do céu; por muito pacíficos que estes sejam são sempre rechaçados (Schuon). Cristo disse: Eu vim para atear fogo à terra, e como gostaria que já se tivesse ateado? (Lucas) Não vim trazer a paz, senão a espada (Mateus). E isto quer dizer: "não vim senão para dividir ou distinguir"; "não vim senão para recuperar e rechaçar". Por isso, a Religião, ao entrar na Terra e vagar por suas regiões aéres e profundas separa, por um lado, tempo e espaço profanos, à vez que desiguala aos homens marcando os fiéis dos que não o são. Neste estrondo de guerra metafísica, o Templo e a Fortaleza terão que ser à força como jóias em meio ao barro, onde isoladamente o Cosmos volta a refletir-se reintegrado, onde se recupera o Paraíso perdido.

Fora destes pontos de lealdade e resistência, por outra parte localizados em tempo e espaço outrora já consagrados pelos Mitos, em quase todos os casos, fica a "natureza perdida", fica "o deserto", onde os demônios imperam ou o homem revolucionário estende sua feiúra e destruição. E aonde, em todo momento, sabendo que se dirigia a um campo de batalha aberto, entrava o monge ou o eremita solitário: vanguarda no front da guerra oculta, fiel à doutrina do monacato primitivo. Ou aonde o Cavaleiro andante saía à luta exterior, frente a toda forma de monstruosidade, diabólica ou humana, como expressão de sua própria combatividade interior em aras de purificar-se, contra o medo, a comodidade, e a soberba. E não por terem sido alguma vez, tanto o eremita, como o cavaleiro, desertores, que a literatura fantástica os resgatou como protagonistas centrais em seus relatos. O fantástico é, certamente, uma recuperação do Mito, porém em chave religiosa, pois não poderia ser de outra maneira. Foi dito, até a saciedade, que o exemplo mais claro e estendido, pelo qual o Mito voltou a flutuar sobre as consciências, deve-se a J.R.R. Tolkien: um escritor exemplarmente crente. E, assim, quando alguém chegou a perguntar-lhe sobre a essência de sua obra-mestra - O Senhor dos Anéis - , Tolkien contestou em uma carta: O Senhor dos Anéis é, sem dúvida, uma obra fundamentalmente religiosa e católica. Chama-se assim, Religião, ao caminho de sacrifício traçado na noite. Ele é a senda no Bosque, ele é o Castelo, o Templo, e o Mosteiro; ele é a Caverna, onde se guardam agora as gemas antigas, porém às quais não se pode chegar facilmente, senão através de um inimigo poderoso: o Dragão terrível e devorador, ao qual há que matar ou domesticar. Sem esta Via Brevis não teríamos luz e nos perderíamos; nunca poderíamos saber o que foi o Mito primordial, nem chegar a sua reatualização. Isso entendeu bem a Idade Média, a Alta Idade Média. É casualidade que o fantástico busque, precisamente, nesta etapa histórica da Europa a fonte mais genuína de sua inspiração? Como já aconteceu ao melhor dos autores românticos, como Becquer, Heine, Hoffman, os irmãos Grimm, Andersen...ocorre agora também com os autores como Yeats, Machen, Chesterton, Dunsay, Williams ou Tolkien, porque não podemos esquecer que a literatura fantástica é a fiel herdeira da literatura romântica.

Em efeito, é na Idade Média onde de uma forma veraz confluem, chegando a uma frutífera aliança, os resíduos visíveis da era mítico-pagã com a realidade do Cristo crucificado: não morto, senão invisibilizado pela ação do rechaço do hebraísmo oficial, ajudado pela ignorante indiferença do também oficial paganismo romano. Se o sangue do Cordeiro cai sobre os judeus e sobre o Templo, rasgando o véu e esgotando a Tradição mosaica, também faz arrasar o Império do Ocidente com os bárbaros, e não duvida em aceitar sua união, com eles, tendente a preparar - sempre envolto no fragor do grande combate cósmico - uma nova Idade, enlaçando-se com o Celtismo: a forma mais pura e frequente de paganismo que já existiu entre todos os povos europeus (Yeats). O símbolo definitivamente claro de tal aliança pagano-cristã o temos, acima de tudo na lenda do Graal medieval e artúrico. Lenda céltico-cristão na qual, um misterioso recipiente, custodiado em uma Fortaleza, ora visível, ora invisível - arquétipo do Paraíse Terreno - contem o sangue de Cristo: luminoso e vivificante. Atrás do Graal toda a Cavalaria andante se colocará em busca: Sir Gawain, Sir Lancelot, Parsifal... Igualmente céltico-cristã é a tradição de São Jorge e o Dragão. Graças a este prodígio histórico voltarão a aparecer com frequência os duentes e as fadas, em uma época em que os cristãos respeitam a seus Santos e os cavaleiros combatem inspirados na pureza de Maria Santíssima. É a Idade Média na qual São Columba, o evangelizador da Irlanda, eleva suas pregações ao céu desde os centros sagrados do paganismo celta, na segurança de que suas orações chegarão assim perante Deus. É o Tempo no qual todavía é localizável o Purgatório na terra. É a Época da discrição de espíritos, da viabilidade livre das Aparições e da busca e assinalamento do Diabo, que retrocede...O Celtismo e o Cristianismo, dessa sorte, fizeram nascer a Idade mais genuinamente europeia que já existiu desde os tempos pré-históricos: Média, enquanto centro difícil entre os extremos; Média, enquanto ponto de estreitamento, acopladamente tranquilo entre Oriente e Ocidente. Está é a Europa, definitivamente, centrada em si mesma e que de preferir algum distante acordo dos precedentes escolherá antes a Grécia que Roma.

Esta chamada Alta Idade Média que os tratadistas, como Le Goff, preferirão chamar também, não sem falta de razão, Antiguidade, com o que, entre uma e outra expressão, poderíamos dizer ou rebatizar: Antiguidade Média, em virtude do símbolo que para nós tem esta segunda palavra...esta Alta Idade Média, como dissemos, começa a ser substituída pela Baixa Idade Média, e ainda que nela se conserve todavia muito do antigo espírito, começará então a incubar os gérmens renascentistas e modernos. Para começar, o espírito cavalheiresco decai e, se no século XIII, o Purgatório parte definitivamente ao mais além post-mortem e a partir desse tempo o chamado Purgatório de São Patrício, situado no cume de uma Ilha do Condado de Donegal, na Irlanda celta, decai em um simples foco de atração de peregrinos. Neste mesmo século XIII decresce o interesse pela leitura do Livro do Apocalipse de São João, tudo um sintoma. Se escurece o acesso ao Paraíso terreno e se vai reduzindo sua população a dois personagens: Enoque e Elías, até que pouc odepois quase ninguém sabe onde se encontram estes dois; Dante apenas falará já do Paraíso Terreno na Divina Comédia... E com o Renascimento, o mundo se prepara para uma descristianização e despaganização real. Em verdade, não renasce nada do espírito antigo, senão que com o humanismo o homem começa a dar mais importância a seu "eu" individual e a seu protagonismo no mundo chegando a desdivinizar o trono e o raio (Meyrink). A Cidade, o Comércio e a Corte eclipsam o Monastério, o Castelo e o Bosque. Já o pensamento começa a conceber as modernas utopias científicas do racionalismo. De novo, a natureza das coisas se violenta, surgindo outra era de cegueira ou de invisibilização. A literatura fantástica, depois dos anos, se oporá a este sinal dos tempos, fiel a suas origens fundamentais, míticas e religiosas aqui expostas. Nela predominará a esperança do nascimento de uma nova Idade Média, remontando-se o interesse pelo Apocalipse. E com ele, assumindo, não somente o retorno de Cristo - o Sol Invicto - senão vindo junto a Ele, também, todos os Reis lendários que esperan no Paraíso e Artur, o Líder celta, oculto e imortal...

O Diabólico

Se nobre submissão e fidelidade atraem para a ordem exterior o Espírito invisível e denunciam a presença dos demônios lá onde se encontrem, com o orgulho humanista, a desobediência e a soberba se oculta ao Espírito, enquanto que o demoníaco sai de sua guarida. A rebeldia racionalista pretendeu retirar do mundo, lançar para o mais além, tanto o divino, como o diabólico. Queria ficar livre de qualquer servião, viver independente e com autonomia, em paz e comodamente, longe de sentir as sacudidas do Cosmo que arde em uma batalha universal quase desde o princípio; batalha, da qual fez eco, como ninguém, Tolkien no Silmarillión. Porém não ocorreu assim. É certo que o Espírito não morreu, porém também é verdade que o homem, com sua mentalidade revolucionária, provocou sua retirada ficando, desse modo, entregue a sua sorte e desprotegido. Não obstante, o espírito diabólico, em tal situação, encontrou facilitada sua penetrabilidade, que aproveitou sigilosamente. E justo agora, quando o tenebroso inspira os homens convencidos de sua não existência, os autores do fantástico, salvo raríssima exceção, insistem em denunciar a presença operativa do Diabo e de suas monstruosidades, assinalando-o no ápice de seu apogeu.

De fato, para a literatura fantástica, não é possível subtrair-se à neutralidade dentro dessa grande  guerra oculta e de dimensões cósmicas. Uma vez mais o fantástico nos ensina que o homem desse mundo não pode ficar na fraqueza: ou se diviniza ou se sataniza. Caída a Idade céltico-cristã e inaugurado o Renasciment e com ele as revoluções que todos conhecemos, as coisas humanas vem se satanizando: a política, a ciência, a economia...

É curiosi, e isso sabem todos os leitores dessa literatura, que os romances do fantástico despertam em que se aproxima delas uma clara repugnância pela política moderna, sem ter por que fazer distinção de sistemas ou de partidos. Isso poderia parecer chocante a primeira vista porém toda dúvida se dissipa conhecendo, por exemplo, o que o sociólogo alemão Max Weber afirmava sobre a questão política. Isso nos bastará, Weber, em O Político e o Cientista, dizia que, tarde ou cedo, quem faz política pactua com os poderes diabólicos que espreitam em torno a todo poder...quem busca a salvação de sua alma e a dos demais que não a busque pelo caminho da política...porque...o gênio ou demônio da política vive em tensão com o deus do amor.

Similar consideração depara a literatura fantástica e o tema científico. Em efeito, a atividade científica é uma fonte de poder moderna, ao mesmo tempo que mágica. Ela também foi usada pelo homem como via de usurpação e de autonomia, em relação com o Espírito, e por isso também se diabolizou. Desse modo, a ciência dista muito de ser benéfica para a vida humana, transformando-se em porta favorável que libera à força escura que espreita desde a sombra, desde as estrelas ou do abismo. Assim, por exemplo, Lovecraft, em As Montanhas da Loucura, sustenta como uma atrevida e ignorante expedição científica pode com sua perturbação, desencadear potências infernais primitivas, encadeadas ou distantes. Assim mesmo, também em Robert Bloch, com sua pequena obra: A Sombra que Fugiu do Pináculo, onde o maléfico, com toda sua tenebrosidade, encarna na pessoa de um cientista atrevido e amante da magia. O cientista de Bloch, já diabolizado, conserva uma aparente e ambígua inocência, não dedicando-se a outra coisa que difundir, com febril atividade, seu saber atômico e nuclear, fazendo pensar que o faz para ajudar à humanidade, porém a que conduzirá a sua inexorável e própria destruição. O cientista obscuro sabe e por isso atua. E em igual orientação poderíamos seguir com Gustav Meyrink em A Casa do Último Farol, onde se publica um conto inacabado e no qual Steen, um de seus personagens, será também a encarnação de um diabo que terá por missão - valendo-se da psicanálise - não fazer o bem, antes o contrário, introduzir em suas vítimas uma espécie de despertar invertido para levá-las à confusão espiritual em forma de "complexos", à vez que procurará, mediante hábeis ocultações científicas, demonstrar que os demônios só existem na imaginação dos doentes mentais.

Quanto ao econômico, o industrialismo conduziu à exploração e à devastação da Natureza, além de ter escravizado o homem ao salário e o fechado no gosto pelo consumo, uma sutil armadilha que o presente tecnológico incrementou. Assim é, na obra de Tolkien, Melkor, um Ainur - espécie de Anjo Caído - que se converteu no Supremo Senhor do Escuro por obra da distorsão de sua sede de poder; assim é Sauron, um servidor de Melkor, e Senhor dos Anéis do Poder... Melkor e Sauron são os corruptores da Natureza, abaladores do mar e da Terra. Com seus afãs de riqueza arrebatam a luz do mundo, colocando-la, na maioria das ocasiões, na custódia dos dragões, que fazem murchar tudo o que é verde e agradável, pois estas criações de Melkor foram feitas para perturbar o mundo e partir os bosques. Para Meyrink esta postura de avidez de riqueza malsã, de mesquinharia apegada, como em Tolkien, Lanza de Vasto e em tantos outros "matará" a alma fazendo de nossos contemporâneos seres que não buscam a vida eterna. Meyrink dirá: eles tratam de converter o ouro da imortalidade em gordurosas cédulas de banco.

É a usurpação do Poder o que se considerará diabólico em toda a literatura fantástica. E é neste ponto fundamental sobre o qual Tolkien erguerá toda sua obra. O Hobbit, o Senhor dos Anéis, O Silmarillion, e em cujos relatos os heróis não terão apenas outra missão além da de resistir ao mal, à tentação do Anel e sair em busca para arrebatá-lo das potências infernais e restituí-lo a sua primitiva origem, afetado por sua servidão infiel, de contaminação maléfica. Este é o sentido, excluindo todo anarquismo, que tem em Tolkien a guerra contra o poder, tal como, por exemplo, expressa na balada de Leithian, no Silmarillion.

Este tema da presença dos demônios poderia se ampliar muito, já que cada autor do fantástico o trata com diversas variações. Assim: Bouquet lembrando-nos - em contrapartida com o Espírito - que os espíritos demoníacos são visíveis; a Gogol, que procurará a existência do diabólico na Terra; enquanto que Machen, um celtizante ao extremo, também se aprofundará na essência do terror e influenciará poderosamente Lovecrafr e este, por sua vez, a M.R. James, a August Derleth e a todos os cultivadores dos Mitos de Cthulhu; por sua parte C.S. Lewis, recorrerá a Merlin - o mago inseparável do Rei Artur - para combater e vencer a Satã que reina na Terra; teríamos também que nomear a outros, como: Th. Owen, Nerval, Ewers, Hodgson, Allan Poe, Huysmans, S. Rohmer,... Sem que pudéssemos esquecer a temática fundamental sobre o vampirismo tratado por Claude Seignole, que situa o inferno em nossa terra ou por Alexei Tolstói, um russo que busca o bogatyr, o Graal dos eslavos, para citar dois extremos entre Sheridan Le Fanu, o criador de Carmilla, a mulher vampiro, e Bram Stoker que, com Dráculo, nos dá a conhecer o vampiro por excelência: Drakul, o qual em dialeto local significa "Diabo". Stoker nos mostra o "diabo" que pela primeira vez voa na noite, não com as asas de um anjo, mas com as de um morcego.

O Herói

A condenação do herói na história, reduzindo sua função a nada ou fazendo sua cabeça rolar, rompeu com a idéia aristocrática de equilíbrio, ordem ou harmonia educativa, tão necessária no seio do movimento da vida, violenta desde o princípio da Criação. Assim mesmo, o rechaço do herói, acabou com o espírito desperto, vigilante e defensivo, tão imprescindível para o guarnecimento de uma Comunidade e de cada um dos membros. E por último, esta paixão anti-heróica, refletida tantas vezes, fez tudo o que pôde para secar a vocação de exigência interior, qualidade imprescindível para que cada ser humano possa se completar, na medida de sua personalidade. Estas negações, longe de terem sido benfazejas, favoreceram uma enfermiça e crescente agitação, social e psicológica; permitiram a diabolização do mundo e deram carta de natureza a toda imperfeição, facilitando o crescimento do homem sem qualidades eminentes, do homem-massa do qual falou Ortega. Diante de tudo isso, a literatura fantástica volta a nos propôr uma resposta generalizada: o retorno do herói, e isso na consciência de ser a única esperança.

O herói, para o fantástico, fica claro que é um benfeitor e um servidor dos demais, na dupla vertente de existência exterior e metafísica ou interna. Porém, agora bem, quem pode ser herói e quem deve sê-lo? A resposta a estas duas perguntas, em uma, não deixa de merecer nossa atenção. Vejamos. Se lermos a trilogia de Coum, um dos heróis de Moorcock veremos que um herói pode ser um sobrevivente das raças antigas que se vê forçado a lutar por sua existência frente à extinção. Para Tolkien heróis podem ser heróis: os Ainur - espécie de anjos primordiais do Deus Supremo Ilúvatar -, os elfos - raça bela e superior de seres permanentes -, os homens mortais, os anões - criados por vontade de Aulë, um dos Ainur -, os aprazíveis hobbits e os magos, como Gandalf. E até as crianças podem ser heróis, como na História Sem Fim de Michael Ende. Assim pois, todos sem distinção.

Todos podem ser e todos devem sê-lo também. O heróico deve acompanhar a entranha da alma de cada ser. Não obstante, aqui cabe alguma apreciação, porque, dentre todas as raças que povoa o Reino da Fantasia, somente o homem necessita da assunção heróica para se completar enquanto pessoa. Todos os demais devem ser heróis, em função das circunstâncias, vendo se estas o pedem e dando o exemplo com suas respostas, não fugindo ou desertando jamais. Mas, se tais situações não se apresentam, nem por isso deixarão - estes seres - de ser aquilo que já são.

Somente o homem, sem o heróico, fica inacabado. Diríamos assim, que o ser humano precisa ser herói, não em função de tal ou qual circunstância, senão para completar-se enquanto homem, enquanto pessoa. A tarefa de herói é, por conseguinte, para ele, imprescindível. Sem ela é como se nossa própria escultura ficasse por concluir, imperfeita. Em efeito, um elfo é sempre um elfo, no momento mesmo de sua criação; um hobbit é sempre um hobbit, em idêntica ocasião; porém um homem nasce inacabado, tendo que terminar-se em vida pela ação heróica, quer seja mediante a espada ou sem ela. E eis aqui a razão pela qual o homem tem o maior risco, de sua existência perigosa, entre afirmar-se com humildade na tarefa de sua cooperação com a realidade divina, no altar de sua criação, ou cair vítima do orgulho de crer-se capacitado para criar a si mesmo, emancipando-se dos deuses, dos Ainur, ou de Deus.

Tendo chegado a esta conclusão, nos encontramos com o fato de que a luta heróica adquire todos os traços de uma prova pela qual cada um deve mostrar sua solicitude perante a morte, expressada aqui, não em termos tétricos, senão de desprendimento absoluto. E é precisamente esta predisposição diante da morte, com ânimo resoluto e dominado, o que derrota à potência maléfica. Refletindo sobre a "mitologia" do Silmarillión e sobre a queda luciferina, tiramos algumas idéias valiosas. Se a morte é a expressão da verdadeira submissão dos que são fiéis a seu Deus, posto que somente por ela podem divinizar-se e entrar no silêncio da Unidade divina, Melkor, como Lúcifer, rechaçam a morte, dado que, um e outro, amam o "eu" de sua individualidade ad aeternum, caindo na armadilha de seu próprio reflexo momentâneo, que é a vida à distância do ser supremo. A finalidade de ambos, com relação ao resto dos seres inteligentes que povoam também o Cosmos, será bem clara: tentar que estes rechacem a idéia da morte e exaltem a vida em sua aparência, em sua exterioridade, agora já desligada do íntimo. E para isso, nada melhor que introduzir o relaxamento no mundo, e, ao mesmo tempo - como escreve Tolkien - arrojar a sombra sobre a morte, confundindo-a com as trevas, a fim de torná-la desprezível e infundir pavor. O rechaço à morte e o medo passavam, assim, a configurar o patrimônio demoníaco de Melkor, Sauron e todos os seus seguidores, pelos quais cresciam em apego, em cobiça, em afã de poder e de existência separada de Ilúvatar e dos Ainur fiéis. E este era o patrimônio - não outro - que Melkor e Sauron pretendiam repartir entre elfos, magos, homens e hobbits.

Para os elfos, seres amantes do mar, dos bosques, das estrelas, Filhos de Ilúvatar, criados para permanecerem sobre a terra até o fim dos tempos, que não conheciam o medo e que não morriam, a não ser que fossem assassinados ou fossem consumidos pelo pesar, a prova não consistia senão em serem diligentes diante de qualquer perigo, generosos e valentes diante do combate, onde tinham que demonstrar sempre estarem dispostos a entregar, em sacrifício heróico, guerreiro, uma vida valiosa, pois do contrário, ao não poder abater a Melkor ou a Sauron e ficarem vivos no combate, passariam a engrossar a companhia dos Orcs: antigos elfos escravizados pelo poder das trevas, sem dúvida por terem rechaçado a morte.

Porém, provavelmente, dentre outras, as maiores façanhas heróicas do Reino Fantástico, nesse confronto para livrar-se do mal, nos são oferecidas pelas provas às quais são chamadas as crianças-heróis de Ende (Atreyu e o pequeno leitor Bastián Baltasar Bux); os diminutos seres Jen e Kira, únicos sobreviventes da raça Gelfing, segundo o filme O Cristal Escuro, imaginado e dirigido por Jim Henson; e por último, os famosos hobbits: Frodo, Bilbo, Mestre Gil de Ham...saídos da pena de Tolkien. Todos eles são os seres mais indefesos, e ao mesmo tempo os maiores amantes do cuidado, os menos familiarizados com a heroicidade real, com o som e brilho metálicos; os entregues a uma maior despreocupação e comodidade, e os mais vulneráveis ao medo. E sendo isto assim, a literatura fantástica os chamará à ação heróica mais difícil, porque seus triunfos ferirão ainda mais o orgulho néscio do mal gigantesco, tendo, por isso, seus trabalhos de restauração uma maior eficácia. Sobre suas costas se coloca a responabilidade mais grave: sobre as crianças de Ende, nada menos que a de salvar o Reino de Fantasia; sobre os gelfing Jen e Kira todo um misterioso Apocalipse com seu final e seu princípio integrado e restaurador; e sobre os hobbits Frodo e Bilbo a destruição dos diabólicos Anéis do Poder. A chave do motivo pelo qual isso deve ocorrer nos é dado por Mithrandir (ou Gandalf), o mago bom enviado ao mundo pelos Anjos - Ainur, para combater o Poder da Sombra e para ajudar os habitantes da Terra em que Sauron escolheu sua morada. Foi a humildade que abateu a soberba; foram o esforço, a entrega, o sofrimento, de quem não era herói por natureza, os que abateram o orgulho; foram a simplicidade, o engenho, e a aventura a contragosto que fizeram cair estrepitosamente a vaidade e recobrar inclusive sem sabê-lo, o velho estilo da Cavalaria rural, frente à afetação da Corte (Mestre Gil de Ham). Nos tempos finais, as profecias de Mithrandir não deixavam lugar a dúvidas: a ajuda chegará das mãos dos fracos quando os Sábios tiverem fracassado (Silmarillión).

A Prova no Homem

E, finalmente, falemos da prova no homem. Dentro da ordem que reconhece a fantasia, o homem é o único personagem que para ser aceito no Céu, ou para ser reconhecido digno pelos demais e saber-se ele próprio pessoa, necessita ineludivelmente ter passado pela prova. Nela, o homem conquista sua purificação. É na prova que a pessoa põe para reluzir o que é. E isso é tão fundamental, tão imprescindível a sua vida, que - sem ela -, nem os homens, nem os Anjos, nem Deus podem, em verdade, conhecê-lo e valorizá-lo. O mundo atual, por sua vez, não quer saber nada da prova, por isso tem que se conformar em conhecer o homem e se conhecer, não enquanto é, mas sim quanto a sua aparência.

Por existir, a prova já era uma realidade no Paraíso. Mas no Reino da Fantasia - este perigoso país - cobra o sentido de um novo jogo, não já tranquilo, senão arriscado e perigoso. Perfila-se, desse modo, como uma espécie de Purgatório em vida que, não somente completa a perfeição do homem polindo-o de suas rugosidades, senão que, ademais, introduz na mente humana o elemento de luta aristocrática, de cooperação humana com a divindade para a própria salvação. É curioso que a presença do Purgatório se tenha mudado para longe, para o Céu post-mortem, coincidindo com o triunfo da urbe frente ao campo, na Idade Média final, e com o primeiro albor dos valores e estilo anti-heróicos da burguesia e de outros seres desenraizados. Pois ao se retirar o Purgatório da Terra, se abolia a exigência da prova e se preparava uma ilusória civilização sem moléstias, hedonista, divertida e de falsos humildes, pois o burguês e o plebeu, são justamente o contrário, magistrais exemplos de soberba: por acaso eles, com suas revoluções, não cercearam todo princípio superior, toda Autoridade do alto? Não aboliram a presença de Deus para não ter a quem se dobrar e submeter? Não é a revolução uma rebeldia contra a Obediência, aos Reis, aos Senhores, aos Santos...? Não romperam estes tipos humanos incompletos o Poder que vem de cima, usurpando-o com o poder que brota de baixo? Com isso, o mundo fechava definitivamente o caminho de recuperação do Paraíso, conformando-se com um simulacro de complacência diabólica. Porque ninguém mais satisfeito com a queda da prova do que o Senhor do Escuro.

Para os heróis, a vida era, por conseguinte, um Purgatório na Terra: um atravessar a água da limpeza, fecundidade e transparência simbólicas e rituais, e um atravessar o fogo devorador e purificador ao mesmo tempo. A própria Igreja cristão havia participado dessa Tradição fazendo descer "aos infernos" o próprio Cristo, não porque este o necessitasse, para provar a todos que era Deus, e para reensinar que a viagem aos infernos, de ida e volta, completaria o homem e o transformaria, de simples mortal condicionado a ser imortal e divinizado. "Eu digo: Deuses sois", recordava o Crucificado a seus seguidores. Pois bem, esta Tradição cristã, mantida por São Gregório Magno, chegaria a sua máxima expressão no chamado Purgatório de São Patrício, que tão enorme penetração teve em todos os escritos e tratadistas mais relevantes da era medieval (Santiago de Vitry, Estêvão de Bourbon, Humberto de Romans, Jacobo de Varazze, Gossouin de Metz), passando também, sem dúvida, por Dante e chegando até Calderón de la Barca que lhe dedicou uma peça teatral.

É importante esta referência ao Purgatório de São Patrício porque nele, não de uma forma literária, senão histórica, fica patente o selo céltico-cristão de que antes falamos, e a possibilidade real de uma iniciação heróica e cavalheiresca que, como veremos, chegará a marcar muitos autores dessa literatura do fantástico, inclusive escritores desse gênero que pouco terão que ver com o espírito da Cavalaria como Bloch ou Lovecraft.

Estando Patrício evangelizando à céltica Irlanda e vendo os escassos progressos que realizava pediu ajuda a Jesus Cristo. Este lhe apareceu e lhe mostrou o lugar de um fosso ou um poço redondo e escuro, dentro de uma caverna, e lhe disse: quem movido por um autêntico espírito de penitência e sacrifício, pasar um dia e uma noite naquele buraco, resistindo aos perigosos assédios dos demônios, vencendo as visões do inferno, com suas torturas, e vendo também as alegrias do Paraíso e da Vida Eterna, sairia daquele lugar completamente transformado. Tratava-se, em efeito, de uma ordália ou juízo de Deus tão do gosto pagano-cristão, e mediante o qual se verificava uma iniciação ou prova religiosa. Esta prova conduzia à conquista e à afirmação da vitória do homem sobre o medo, pois as visões demoníacas não tinham por finalidade causar dor física ou moral, senão paralizar infundindo pavor. Um monge, à entrada do recinto, recordava que, com a ajuda de Cristo, invocando seu nome, se poderia resistir e triunfar, porém em caso contrário, o Cavaleiro poderia chegar desaparecer, como a outros visitantes havia sucedido. A Tradição nomeia o primeiro em lograr a glória nessa "descida" restaurada. Chamava-se Owein, jovem guerreiro, que na peça calderoniana toma o nome hispano-gótico de Ludovico Enio.

Contemplamos assim que esta idéia de prova consiste em uma viagem aos infernos, de ida e de volta; uma concepção que não pode identificar-se com uma fuga ou abandono do próprio. Mais exatamente, o contrário: uma viagem que tem que demonstrar se um homem é valente ou se não é. No Silmarillión este princípio de prova, de ida e de volta, é fundada por Beren, um homem para quem o amor por uma donzela élfica está condicionado ao êxito de sua empresa: recuperar o anel-simaril em poder de Melkor. O amor, sob esta ótica, quer dizer prêmio, não uma qualidade que se adquire sem mais nem menos.

Por outro lado, destaca, neste aspecto, o princípio da solidão ou do cavaleiro ou herói solitário, questão, que a literatura fantástica tomará igualmente do medievalismo céltico-cristão. Com isso, primeiramente se sustenta, que os "trabalhos" de salvação e purificação não são tarefas coletivas, senão singulares e, segundo, o homem deve atuar sabendo que se exercita em um mundo no qual teve lugar a invisibilidade do Espírito, pela rebeldia do homem e do diabo e, portanto, tem que se resignar a viver na prova "somente", confiando tudo a suas forças, porém na esperança de intuir que o Espírito não morreu, senão que o acompanha e inclusive o ajuda em silêncio. Dessa solidão trata toda a literatura fantástica, porém também as vitórias que dela se desprendem, tão extraordinárias, tão superiores, tão misteriosas, que não poderiam produzir-se sem o herói, ainda sem dar-se conta, não fora favorecido pela presença do Espírito. Não obstante, esta solidão supõe assim mesmo um perigo, já que o herói crendo-se falsamente isolado no mundo e acompanhado de sua força, beleza e engenho, pode chegar a se precipitar no envaidecimento. Não ocorre isto nem a Conan o Cimério de Howard, nem aos elfos, hobbits e heróis de Tolkien, nem mesmo ao selvagem de Burroughs - Tarzan -, o qual, em um primeiro momento atraído diante da descoberta da idéia do Deus desconhecido, termina finalmente crendo que aquele Ser Supremo existe, ainda que não saiba bem descobri-lo, porém que em todo caso permanece desconhecido, não concebido para seus, até certo ponto, inimigos, os negros. Porém sim cai nessa armadilha Corum, o Cavaleiro de Moorcock, que, ciumento em sua solitária individualidade, protesta contra a instrumentalização da qual pode ser objeto por parte dos deuses da ordem ou dos deuses do caos em suas guerras.

Esta percepção da proximidade ou distância que os heróis solitários tem em relação ao Espírito Invisível nos leva a iniciar a reflexão sobre a qualidade heróica. Em efeito, há camponeses excessivamente brutais, de um barbarismo muito primitivo, que tendem a manifestar ou ensinar que a força sobre-humana que possuem reside em seu "naturalismo" físico ou muscular, que são os casos de Conan e Tarzan. E, por sua vez, temos heróis mais delicados, de uma barbárie mais refinada, cuja força, também sobre-humana, é intangível, sutilmente espiritual. É a potência dos que não tem rostos ferozes ou curtidos, nem braços de aço, senão semblantes iluminados, como os elfos, como Gandalf. A imagem do Dragão se apresente, diante de uns e de outros, de forma bem distinta. Assim podemos ver às monstruosidades com as quais Conan se enfrenta e que são destroçadas pela descomunal espada, ou esmagadas ou afogadas por seus punhos e braços. Enquanto que, por exemplo, os Dragões que nos apresenta Tolkien diante de seus heróis hobbits podem chegar a ser derrotados ou enganados pelo vigor do engenho. É a dupla vertente heróica do "lobo" e da "raposa". Conan terá um pouco de raposa, porém sua peculiaridade de "fora-da-lei" solitário, enfrentando à civilização e saqueando as cidades, será de lobo. E como Huán, o cão-lobo enviado pelos Ainur, ambos saberão vencer derramando o sangue com seus dentes. Por sua vez, Giles, o granjeiro tranquilo do Pequeno Reino, será acima de tudo uma "raposa" que vencerá o Dragão com astúcia, chegando a domesticá-lo e colocá-lo a seu serviço. Vemos, portanto, que o Dragão requer em seu combate, dois tipos de heróis: um exterior e outro interior; um forta para matar ou esmagar à serpente e outro sutil para quebrar suas asas, porque o dragão é isso: Serpente alada. Isto quer dizer que seu aspecto feroz está em relação com sua inteligência envolvente e que somente um herói qeu em si mesmo reúna ambas as dimensões: força e astúcia espiritual, estará em condições de vencê-lo verdadeiramente. Porém a essa vitória do "lobo" e da "raposa", a fim de não ficar em uma sacralidade predominantemente horizontal, se incorpora, ademais, a verticalidade da pura mansidão do "cordeiro", dando a tal vitória uma absoluta transcendentalidade. Por isso, tradicionalmente, é São Jorge o vencedor do Dragão por antonomásia mítica e religiosa, isto é: o herói cristão que, assumindo em si à barbárie da brutalidade sem cortesia e a barbárie do antigo e primitivo paganismo do Bosque, do Mar e da Caverna, funde tudo isso ao espírito doce e delicado, à inteligência pura e à misericórdia. Confluem nele, desse modo, uma vez mais, os elementos célticos e cristãos para propormos a síntese final do Cavaleiro perfeito, ideal da Idade Média, o tempo que foi, como se disse, verdadeira alquimia e ponto de união dos contrários. E é este o ideal que salta até nós, passando pelas novelas do fantástico de maneira noturna, calada, e que nos convida, como faz Tolkien, a ver nosso mundo atual como uma "terra média" e onde, sem quase saber como, podemos voltar a encontrar ao Dragão cultural: aquele que encobriu sua feiúra e ferocidade sob suas envolventes asas. Redescobrir este mundo como prova e não como falso paraíso é um dos principais aportes da literatura fantástica contra esta civilização escura.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Aleksandr Dugin - Fascismo: Sem Fronteiras e Vermelho

por Aleksandr Dugin



Existem, no Século XX, apenas três ideologias que conseguiram demonstrar que os seus princípios são realistas em termos de implementação político-administrativa – Elas são o liberalismo, o comunismo e o fascismo. Por mais que se queira – é impossível nomear outro modelo de sociedade que não esteja nos moldes dessas ideologias e que, ao mesmo tempo, existiu na realidade. Existem países liberais, existem países comunistas, e existem países fascistas (nacionalistas). Outros não existem. São impossíveis. Na Rússia, passamos por dois estágios ideológicos – o comunista e o liberal. Falta o fascismo.

1. Contra o capitalismo nacional

Uma das versões do fascismo, que aparentemente a sociedade Russa de hoje está pronta (ou quase pronta) para abraçar, é o capitalismo nacional. É quase indubitável que o capitalismo nacional ou “fascismo de direita” constitua uma iniciativa ideológica daquela parte da elite da sociedade que está seriamente preocupada com o problema do poder e sente agudamente o poder do tempo [velenie vremeni]. Ainda assim, a variação “nacional-capitalista”, “direitista” do fascismo, de modo algum, esgota a natureza dessa ideologia. Além disso, a união da “burguesia nacional” com os “intelectuais” em que, de acordo com alguns analistas, se baseará o fascismo russo que está por vir, constitui um evidente exemplo do que, na verdade, é inteiramente estrangeiro ao fascismo como visão-de-mundo, como doutrina e como estilo. “A dominação do capital nacional” – essa é uma definição Marxista do fenômeno do fascismo. Absolutamente não leva em conta a auto-reflexão filosófica da ideologia fascista e ignora conscientemente o núcleo-pathos fundamental do fascismo.

O Fascismo – isso é, o nacionalismo, mas não qualquer nacionalismo, mas [uma forma de nacionalismo] revolucionário, rebelde, romântico, idealista, atraente ao grande mito da idéia transcendental, tentando colocar em prática o Sonho Impossível, dar a luz a uma sociedade do herói e do supra-humano, mudar e transformar [preobrazovat` i preobrazit`] o mundo. No aspecto econômico, o fascismo é mais caracterizado pelos métodos socialistas ou moderadamente socialistas, que subordinam os interesses econômicos pessoais e individuais aos princípios do bem-estar nacional, da justiça e da fraternidade. E finalmente, a visão fascista da cultura corresponde a uma rejeição radical da mentalida humanista, “excessivamente humana”, ou seja, o que representa a essência [do pensamento] dos “intelectuais”. O fascista odeia o intelectual como um tipo. Ele [o fascismo], vê nele [intelectual] um burguês mascarado, um filisteu pretensioso, um covarde tagarela e irresponsável. O fascista ama o brutal [zverskoe], o supra-humano e o angelical ao mesmo tempo. Ele ama o frio e a tragédia, ele não gosta do calor e do conforto. Em outras palavras, o fascismo despreza tudo o que faz parte da essência do “nacional capitalismo”. Ele luta pelo “domínio do idealismo nacional” (e não pelo capitalismo nacional) e contra a burguesia e os intelectuais (e não por eles ou com eles). O Pathos fascista é corretamente definido pela famosa frase de Mussolini: “Erga-se Itália fascista e proletária!”. Fascista e proletária – essa é a orientação do fascismo. Ela é uma ideologia do trabalho e heróica, militante e criativa, idealista e futurista, que não tem nada em comum com assegurar mais conforto governamental aos comerciantes [torgasham] (mesmo que mil vezes nacionais) ou sinecuras para os socialmente parasitários intelectuais. As figuras centrais do Estado fascista e do mito fascista são o camponês, o trabalhador e o soldado. No topo, como o símbolo supremo da trágica luta com o destino, entropia cósmica, está o líder-divino, Duce [duche], Führer [fyurer], o homem-superior que que realiza na sua personalidade supra-individual, a extraordinária tensão da vontade nacional para a façanha. Sem dúvidas, em algum lugar na periferia, há também lugar para o mercador-cidadão [grazhdanin-lavochnik] honesto e para o professor universitário. Eles também usam distintivos do partido e participam de reuniões cerimoniais. Mas, na realidade fascista, as suas figuras estão desaparecendo, se perdendo e se colocando em segundo plano [otstupayut na zadnii plan].

Não é por causa deles e nem por eles que a revolução nacional é feita.

Na história, o Fascismo limpo, ideal, não vivenciou um encarnação direta. Na prática, os problemas urgentes da tomada do poder e do estabelecimento da ordem econômica, forçaram os líderes fascistas – incluindo Mussolini, Hitler, Franco, assim como Salazar – a forjar alianças com conservadores, nacional-capitalistas, grandes proprietários e chefes de corporações. Assim, estes compromissos sempre acabaram deploráveis para os regimes fascistas. O anti-comunismo fanático de Hitler, instigado pelos capitalistas alemães, custou a derrota na guerra para a URSS, enquanto que Mussolini – confiando no rei (articulador dos interesses das grandes empresas) – ganhou em troca os renegados Badoglio e Ciano, que colocaram o Duce na prisão e correram para os braços dos americanos.

Franco foi o que se manteve por mais tempo, ainda assim devido às concessões [que ele fez] aos liberal-capitalistas Inglaterra e Estados Unidos e por causa da sua recusa em ajudar os regimes ideologicamente parecidos do Eixo. Ademais, Franco não era um verdadeiro fascista. O nacional-capitalismo é o vírus interior do fascismo, seu inimigo e assegurador [zalog] da sua degeneração e destruição. O nacional-capitalismo não é, de maneira alguma, um característica essencial do fascismo e é o contrário, um elemento acidental e contraditório dentro da sua estrutura interna.

Portanto, no nosso caso, no caso do crescente nacional-capitalismo russo, não se pode falar em fascismo, mas uma tentativa de preliminarmente deturpar o que não pode ser contornado. Tal pseudo-fascismo pode ser chamado de “preventivo” ou [de] “precaução”. Ele se precipita em se fazer conhecido antes que um fascismo autêntico, real, radicalmente revolucionário e consistente, um fascismo fascista, esteja totalmente nascido e [que se torne] forte na Rússia. Nacional-capitalistas – eles são os antigos líderes de partido [comunista] que eram usados para mandar [vlastvovat`] e humilhar o povo e que subsequentemente, por conformismo, se tornaram “democratas liberais” e, agora que este estágio acabou, estão, igualmente zelosos, se aventurando em esconder-se sob vestes nacionais.

Transformando a democracia numa farsa, aparentemente, os partocratas, junto com os intelectuais controlados, estão decididos a envenenar o nacionalismo que avança na sociedade.

A natureza do fascismo é uma nova hierarquia, uma nova aristocracia. A novidade é que a hierarquia se baseia em princípios claros, naturais e orgânicos – dignidade, honra, coragem e heroísmo. A hierarquia dilapidada que esta tentando se arrastar para a era do nacionalismo é, como antes, baseada nas habilidades conformistas: “flexibilidade”, “cautela”, “um gosto por intrigas”, “bajulação”, etc. O conflito óbvio entre dois estilos, dois tipos humanos, dois sistemas normativos é inevitável.

2. Socialismo russo

É absolutamente injustificado chamar o fascismo de ideologia da “extrema direita”. Este fenômeno é muito mais precisamente caracterizado pela formula paradoxal da “Revolução Conservadora”. É uma combinação da um orientação cultura-política “direitista” – tradicionalismo, fidelidade ao solo, raízes, ética nacional – com um programa econômico “esquerdista” – justiça social, limitação das forças de mercado, libertação de “escravidão dos juros [protsentnogo]”, proibição da especulação no mercado de ações, monopólios e trustes, e primazia do trabalho honesto. Em analogia ao Nacional-Socialismo, que foi por vezes simplesmente chamado de “socialismo alemão”, pode-se falar do fascismo russo como “socialismo russo”. A especificação étnica do termo “socialismo” tem, nesse contexto, um significado especial. O que se entende é a formulação de uma doutrina socio-econômica desde o começo, não com base em dogmas abstratos e leis racionalistas, mas com base nos princípios espirituais-éticos e culturais, que têm formado organicamente a nação como tal. Socialismo russo – isso não quer dizer Russos para o socialismo, mas socialismo para os Russos. Diferente dos rígidos dogmas Marxistas-Leninistas, o Nacional Socialismo Russo prossegue de um entendimento da justiça social que é caracterizada exatamente pelo nossa nação, pela nossa tradição histórica, pelas nossas éticas econômicas.

Tal socialismo será mais rural do que proletário, mais comunal e cooperativo do que administrativo [gosudarstvennyi], mais regionalista do que centralista – todas essas são necessidades da especifidade nacional russa, que achará sua expressão na doutrina e não apenas na prática.

3. Novo povo

Tal socialismo russo deve ser construído por um novo povo, um novo tipo de povo, uma nova classe. Uma classe de heróis e revolucionários. Os restos da nomenclatura do partido e da sua ordem moribunda devem ser vítimas da revolução socialista. A revolução nacional russa. Os russos estão suspirando por novidade, por modernidade [sovremennosti], pelo romantismo não fingido, por uma participação viva em alguma grande causa. Tudo o que é oferecido a eles hoje ou é arcaico (os patriotas nacionais) ou tedioso e cínico (os liberais). A dança e o ataque, o hábito e a agressão, excessividade e disciplina, vontade e gesto, fanatismo e ironia irão arder nos nacional revolucionários – jovens, maliciosos [zlykh], agradáveis, destemidos, apaixonados e sem conhecer limites. Eles construirão e destruirão, governarão e cumprirão ordens, conduzirão expurgos dos inimigos da nação e carinhosamente tomarão conta dos idosos e das crianças russas. Furiosamente e alegremente se aproximarão da cidadela do sistema podre e moribundo. Sim, eles têm sede profunda [krovno] de poder. Eles sabem como usa-la. Eles respirarão Vida para a sociedade, eles impulsionarão [vvergnut] o povo para o doce processo da criação da História. Um novo povo, finalmente inteligente e guerreiro. Do jeito que é necessário. Que tomam o mundo exterior como um ataque (NdT: nas palavras de Evgenii Golovin [um místico russo e professor de Dugin])

Imediatamente antes de sua morte, o escritor fascista francês Robert Brasillach proferiu uma estranha profecia: “Eu vejo como no leste, na Rússia, o fascismo está crescendo – um fascismo sem fronteiras e vermelho.”

Nota: Não um desbotado nacional-capitalismo, marrom-rosado, mas o amanhecer cegante de um nova Revolução Russa, Fascismo – sem fronteiras como as nossas terras e vermelho como o nosso sangue.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Quem Financia o Fórum Social de Porto Alegre

Por La haine – 22 de Fevereiro de 2005



O Fórum Social Mundial (FSM) é o evento central do movimento antiglobalização (que agora prefere ser chamado alterglobalizador). Na teoria reúne pessoas e organizações que lutam contra o predomínio das multinacionais, a favor dos desfavorecidos e por “outro mundo possível”. Mas de onde vêm os fundos que financiam este evento?

Segundo os organizadores do V FSM, o orçamento total do Fórum Social Mundial é de 38.856.090 de dólares (29.935.354 €), dos quais somente 6,4% provêm das inscrições dos participantes. Isso significa que 93,6% dos fundos para o FSM originam-se de doações de outras fontes.

A fundação Ford financia totalmente a preparação do FSM com 2.269.000 de dólares.

Em relação ao financiamento do evento em si, a grande maioria das doações vêm de organizações não governamentais.

2.432.538 de dólares (6,2% do financiamento total) originam-se de ONG’s religiosas (católicas e protestantes).

12.006.821 de dólares (30,7%) vêm de doações de outras ONG’s (das quais 4.398.800 de Oxfam, fortemente vinculada à igreja: na Espanha chama-se Intermon-Oxfam).

É preciso ter em mente que se rastrearmos a origem dos fundos destas ONG’s veremos que em grande dos governos. A maioria dos fundos de Oxfam, do governo da Grã-Bretanha e os da outra grande patrocinadora, HIVOS (que coloca 3.645,502 de dólares) do governo holandês. Ambos os governos devem considerar-se pouco “antiglobalizadores”: possuem tropas estacionadas no Iraque a serviço dos EUA. Deve-se destacar que estas duas ONG’s financiaram conjuntamente 60% do IV Fórum Social Mundial, realizado em Mumbai (Índia).

14.323962 de dólares (36%) vêm das instituições governamentais do Brasil (7.916.550 do governo federal, 1.602.000 do Estado do Rio Grande do Sul e 4.805.412 da Prefeitura de Porto Alegre). Acontece que tanto o Estado do Rio Grande do Sul quanto o município de Porto Alegre estão sendo governados pela direita, enquanto o governo federal tem feito o pagamento da dívida externa que estrangula a prioridade econômica e política do Brasil (algo bem pouco “antiglobalizador”). Para isso é necessário adicionar 2.136.000 de dólares (5,8%) fornecidos pelos Correios e pela Caixa Econômica Federal, empresas públicas. 

A Fundação Irmãos Rockefeller (Rockefeller Brothers Foundation) contribui com 356.445 dólares. E os municípios italianos com 240.300 dólares.

Finalmente, as empresas Eletrobrás e Petrobrás e o Banco do Brasil (sociedades de economia mista pública e privada) colaboram com 8.098.500 de dólares (20%).

Sobre o papel “antiglobalizador” da Fundação Ford e da Fundação Irmãos Rockefeller não precisamos nem falar.

Todos estes fundos são administrados pela Associação Brasileira de ONG’s (Abong) e pelo Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas). Ibase, por sua vez, é fortemente financiado... pela Fundação Ford.

Cabe a pergunta: porque as ONG’s financiadas pelos governos mais pró-capitalistas e submetidos à vontade do governo Bush, as sociedades de economia mista, as Fundações Ford e Rockefeller, as igrejas, a direita brasileira e o governo Lula, servo fiel das receitas do FMI, financiam um evento que “organiza a luta contra a “globalização”, o “neoliberalismo” e o predomínio das multinacionais”?  Não creio que estejam equivocados. Não há dúvida de que sabem bem onde colocam seu dinheiro.

Mas então o que fazem os companheiros que de boa fé participam destes fóruns acreditando lutar contra as multinacionais e o imperialismo? Pois tenho medo do que estão fazendo...

*os dados financeiros e governamentais se referem ao mês de fevereiro de 2005

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Liberdade Germânica" e Neopaganismo na Classe Trabalhadora, no Proletariado e na Cultura Socialista Alemã

por Henning Eichberg


Um estudo retrospectivo da esquerda alemã nos conduz, antes de 1914 e inclusive antes de 1900, a descobrir uma classe trabalhadora original e uma cultura socialsita dentro da qual encontramos aos livre-pensadores proletários.

Curiosamente, os historiadores da esquerda dos anos 70 deliberadamente ignoraram este movimento que em 1933, no momento em que Hitler chegou ao poder, não eram menos de um milhão de membros procedentes de organizações social-democratas, socialistas e comunistas.

Nos casos em que se estudou este movimento, estranhos de outro modo, foi em condições ideológicas de estreiteza mental; se aproximaram unicamente à história pessoal dos líderes e esqueceram dos aspectos quotidianos da vida desse movimento. Ao observar mais de perto sua história e sociologia, descobre-se, não obstante, muitas referências à antiguidade germânica.

"Thor decapita a Serpente de Midgard": tal é a lenda impressa em uma revista do Partido Socialista Democrático de 1895. Em Vorwärts, um jornal socialista, o historiador e ideólogo marxista Franz Mehring dá boas vindas à intenção de um editor de publicar uma série de livros que mostram antigas lendas alemãs e inclusive acrescentam conteúdo novo. Em um frontispício de 1894, se vê um anão de barba branca abrindo para umas crianças assustadas a porta para um mundo de lendas fantásticas; naturalmente se tratava de associá-lo com uma perspectiva futurista e socialista. O jornal socialista Der währe Jacob, abundava em idêntica direção, manejando as mesmas associações de idéias e imagens enquanto oferecia a seus leitores um pôster entitulado "Solstício de Inverno", que mostrava os antigos alemães reunidos ao redor de uma fogueira.

Usou-se uma série de desenhos colecionados e publicados por uma cooperativa social-democrata que distribuía produtos alimentícios baratos para transmitir a seguinte mensagem: "As reuniões de tribos da antiga Alemanha chamavam-se 'Things' ou 'Dings'; sempre ocorriam em locais ao ar livre. Estes locais de encontro estavam no alto das montanhas ou sob grandes árvores ou na proximidade de grandes blocos de pedra. Todos os homens livres e de prestígio que portavam armas tinham o dever de acudir a estes encontros. Se reuníam em datas estabelecidas ou à chamada de convocatórias extraordinárias para regular seus assuntos de acordo com as leis tradicionais, para decidir a paz ou a guerra ou para atuar como em uma corte".

Esta ala esquerdista declarava fidelidade às Things do Antigo Regime, dirigidas por assembléias de companheiros e pelas cooperativas de consumidores das primeiras décadas da democracia social alemã. Uma canção dos "Amigos Proletários da Natureza" (1900) mostra que o ar livre, evocado na descrição do Thing democrático, podia ser considerado como uma pretensão política, uma identificação com uma forma original do ambientalismo que preconizava a higiene vital:

Erguei-vos irmãos!
Partamos ao bosque querido e livre!
Que entre os verdes vales de bosques, nossas canções ressoem com ainda mais força.
Onde viveram nossos pais,
Fortes como leões e fieis como pombas,
Aonde voava a águia livre,
Onde nosso caminho começa a alçar-se.
Exerçamos ali a força de nossas massas,
Demonstremos o valor que há em nossos peitos
Para que nossos ancestrais no Valhalla nos olhem com alegria.

"Livre", "verde", "ancestrais", "Valhalla": aqui se assentou um cenário bastante romântico, porém em perfeita harmonia com as esperanças socialistas. Quando a festa dos trabalhadores cantantes da Bavária de 1925 pôde ser vista, enquanto entravam na cidade e a caminho da festa do solstício, uma cabina, ocupada por figuras com antigos trajes germânicos e por uma menina loira sentada do lado e atuando entre dois carvalhos. Estes personagens cantavam velhas canções alemães. Este espetáculo poderia passar por estranho e duvidoso se unicamente se associasse com as pompas patrióticas e militaristas da idade imperial. Porém no contexto do movimento socialista, não era nem militarista nem chauvinista: simbolizava a liberdade alemã, em perfeita harmonia com as visões de futuro do movimento socialista.


Ademais dos amigos da natureza e dos proletários livre-pensadores, havia jovens trabalhadores socialistas que seguiam os passos de Hermann Cherusci ao realizar passeios pelo bosque de Teutoburgo. Nas cidades, os jovens trabalhadores rompiam a monotonia de sua existência industrial dançando danças populares ao ar livre, celebrando os solstícios e redescobrindo as antigas obras de teatro da Idade Média. Inclusive se adotou uma reforma cosmética pela juventude trabalhadora: as mulheres reviveram os comportamentos femininos da antiguidade alemã usando diademas e alfinetes de bronze.

Esta reapropriação da herança cultural alemã, transformada e adaptada, encontrou um eco particular dentro das festas proletárias, organizadas em sua maioria pelos livre-pensadores socialistas. Em 1874, um jornal socialista escrevia: "Quem não se alegra ao se aproximar o feliz tempo do Natal? Quem não está encantado com seus filhos ao vê-los pular de alegria diante da árvore de Natal cheia de presentes? Porém poucos de nossos contemporâneos perguntam-se pelo verdadeiro significado das festas natalinas. A cristandade teve êxito ao transformar as festas da antiguidade pagã em festas cristãs. Era o que acompanhava ao Natal que os antigos alemães tinham em grande consideração. Esta festividade antiga é agora uma das maiores festas dos cristãos. Os antigos alemães tinham sentimentos parecidos porque os dias começam a se alargar. Nossos ancestrais frequentemente associavam suas festas aos processos naturais. A prolongação dos dias criava dentro de seus lares um ambiente festivo porque significava mais luz. A luz é vida e mais luz significa mais vida".

Ao final de 1880, o poeta proletário Manfred Wittich publicou uma obra natalina para a "União dos Trabalhadores Especialistas" de Leipzig. Esta obra descobria antigos costumes alemães do Natal. Um texto militante de Franz Diedrich entitulou-se "Solstício de Inverno". Após a Primeira Guerra Mundial, os jovens trabalhadores interpretavam cenas do solstício que foram publicadas pelas "Edições de Trabalhadores Jovens". Entre estas publicações, poderíamos citar a Luz, uma obra de teatro de solstício pertencente a Hermann Claudius e Solstício de Jurt Heilbutz. Os filólogos deveriam iniciar uma investigação exaustiva para estabelecer se estas fogueiras e festividades do solstício surgiram sem pensar na literatura socialista ou se estavam inspiradas na conduta da juventude trabalhadora. sem dúvida ambas tiveram sua importância. É mais que provável que o movimento da juventude contribuiu para o desenvolvimento de ritos enquanto a literatura socialista aportava temas, teorias, e justificativas. Em 1926, um livre-pensador socialista escreveu: "o proletariado cria suas próprias festividades. Nós vemos no Natal um fato através do qual o comunismo traz sua mensagem de felicidade ao povo: o solstício é para nós um símbolo do proletariado em luta. Da mesma forma que o Sol sai a cada dia, o movimento revolucionário superou seu ponto ínfimo e se encontra na senda da vitória: também chegará nossa primavera".

Festividades de maio, festas pagãs de primavera e culto ao trabalho

Ademais do solstício, o primeiro de maio se interpretava também pelos socialistas alemães como um dia da luta internacional da classe trabalhadora e a vinculavam aos costumes pagãos da primavera. Já em 1880, Wilhelm Liebknecht apelava às longínquas origens socialistas do primeiro de maio: "Há milênios que o primeiro de maio é dia festivo, não somenten as nações germânicas, senão também nas latinas. É a festa da primavera e o renascimento da terra. Portanto, o primeiro de maio é a escolha festiva mais afortunada de todas as festas do mundo do trabalho ao estar santificada por uma tradição milenar".

Ainda que a festa do primeiro de maio complementasse certos pontos de vista econômicos e políticos com o olhar colocado definitivamente no futuro, recebia, por essa referência pagã, um elemento diferente que se integrava no desenho socialista dessa festividade. Unicamente desde uma consideração superficial da história do socialismo, baseada em óticas frequentes hoje em dia, pode parecer contraditório que um velho revolucionário socialista como Liebknecht formulasse referências às festas pagãs da primavera, às tradições milenares e aos aspectos sagrados que derivavam deles. Porém os socialistas da época certamente se referiam a eles. Em 1905, o jornal do SDP se ilustrou, em honra à festividade de maio, com desenhos do artista popular e neopagão Fidus. A primeira página mostrava o deus radiante da primavera (Baldur), rodeado de humanos nus ao modo dos antigos germanos. Fidus fez depois desenhos também para os anarquistas e para os livre-pensadores assim como para aqueles direitistas que estavam impregnados de religiosidade germânica e da adoração nacionalista do povo.



 A festa de maio, anticristã e de colorido pagão, acabou chegando aos estamentos mais elevados da política em 1919, quando o novo governo republicano propôs fazer dele uma festa nacional. Os debates no Reichstag foram abertos pelo ministro socialista do interior, David: "No primeiro de maio se celebra a natureza primitiva que sobrevive em muitos lugares dentro dos contos e dos costumes populares. Sente-se uma imensa alegria de viver, o regresso do sol e da luz, o despertar da natureza com um sopro de flores. Ao escolher este dia, os trabalhadores combatentes introduziram na natureza antiga celebrações de um elevado ideal cultural".

O porta-voz da ala direitista respondeu-lhe dizendo que a dignidade do trabalho se expressava melhor na festa cristã do Pentecostes. Como cristão, assinalou que mesmo na agitação do primeiro de maio, o aspecto religioso permanecia, porém longe do dos domingos e de outras festas públicas cristãs. Com o aplauso dos nacionalistas germânicos, concluiu dizendo que se negava a apoiar o reconhecimento legal do primeiro de maio e convidou a todos os deputados de sensibilidade cristã a que se unissem a ele.

Em continuação a este debate, criou-se um cisma visível entre os socialistas pagãos e uma facção da oposição que permanecia profundamente cristã. Esta oposição incluía os porta-vozes social-democratas que faziam referência a Jesus de Nazaré e insistiam que a ética cristão não podia ser apagada. Os livre-pensadores do movimento socialista aderiram a sua interpretação pagã da festividade de maio e a desenvolveram ainda mais. Por exemplo, em 1928 um jornal do Círculo de Leitores Social-Democratas declarou: "O caráter do primeiro de maio, celebrado como o dia de maior participação do ano entre muitos antigos, é tanto mais interessante quanto seu conteúdo ideológico não fica limitado a uma exaltação da nova terra, senão que introduz também uma varidade de tópicos culturais relacionados com o trabalho (...) Entre os celtas, os druidas distribuíam o fogo da nova terra no primeiro de maio. Esta distribuição do novo fogo era um costume dotado de um significativo sentido sacro; o caráter santificador do trabalho figurava entre os mais relevantes (...) o pensamento da maioria dos povos primitivos estava em grande parte regido por um sentimento de veneração pelas ferramentas de trabalho, pelas plantas e pelos animais domésticos. Encontram-se os mesmos propósitos na adoração do martelo: jura-se pelo martelo, sela ele os contratos, abençoa os matrimônios e se usa como amuleto. Coloca-se como talismã nas portas das coberturas do gado e nas casas, mais tarde nas portas das cidades. O signo cristão da cruz é o velho símbolo do martelo. O arado, o barco, a roda, a carroça, a foice e, acima de tudo, o fogo, gozavam da mesma veneração.

O fogo é particularmente significativo porque é o símbolo da unidade social, de uma comunidade socialista de trabalho e vida.

É o velho fogo da horda que encontramos aqui. A cerimônia do fogo é adicionada às reuniões populares mais importantes: a grande "Thing". O mesmo que para o antigo "Merkergeding", uma assembléia que geralmente tinha lugar na época da festividade dos Walpurgis, também chamada "Meigeding" (Thing de maio) ou, nos documentos mais antigos, "Meyengedingen", cuja origem se perde no tempo. Era o encontro mais solene dos membros de uma comunidade de colonos fronteiriços. Não se devia a razões arbitrárias que a festa da primavera e o agrupamento dos povos tivessem lugar conjuntamente. Os dois acontecimentos tinham uma raiz social. No espírito daqueles tempos remotos, era completamente normal associar a volta à vida da terra com a solução dos problemas da comunidade porque os deuses eram fatores de unidade.

A decadência e, por último, o desaparecimento dessas comunidades de colonos das estepes, junto com seus métodos de gestão da economia e do bem-estar público mediante a utilização de um grande componente de ética social, não supôs necessariamente o desaparecimento da festa de maio. Pelo contrário, esta festividade não deixou de ter conotações sociais muito claras nem tampouco de expressar conflitos de classe. Os jogos de maio, que se celebravam ao redor da árvore de maio depois desta ter sido solenemente erigida, era normalmente o lugar das sátiras dos agricultures e dos artesãos do proletariado urbano e que iam dirigidas contra seus opressores e exploradores. Neste sentido, as obras de teatro dos ingleses são especialmente interessantes. Robin Hood aparece ali como "o rei de maio", e um herói popular. O que significava isso? Robin Hood! Robin Hood! Robin Hood! Aquele que tira dos ricos para dar aos pobres!

A festividade de maio foi a mais imponente da história da engenharia humana. Em 1889, com o congresso internacional de Paris, elevou-se até alcançar o nível de festa mundial do proletariado. Assim foi como se estabeleceu uam ponte sobre um milênio.

Neste texto socialista de 1928, já não se trata somente de questão de comportamento externo ou de explicações românticas - fogos de solstício, etc. Pelo contrário, se oferece uma visão sinóptica da "Thing": a adoração do fogo e da árvore de maio, a festa da primavera, a adoração do trabalho e a luta de classes. A festa de maio, por conseguinte, recebeu conteúdos que eram pagãos, socialistas e materialistas históricos. Os documentos que se encontram com referências pagãs e mitológicas da cultura operária socialsita são tão significativas que se pergunta como puderam passar desapercebidas até agora. O mesmo poderia ser dito das cavalgados com auras religiosas, do nudismo da classe trabalhadora (considerado como ato de liberação) e do movimento de livre-pensadores dentro do proletariado militante alemão.

Estas omissões não somente revelam o espírito limitado dos analistas senão também a arrogância de uma natureza metodológica implícita no seio dos meios de comunicação. Estes ressurgimentos, socialistas e neopagãos ao mesmo tempo, não eram proezas teóricas que emanaram de alguns líderes direitistas ou social-democratas. A razão pela qual nossos historiadores contemporâneos não a tomaram com seriedade se deve a que o movimento foi narrado em jornais quotidianos, em livros infantis e em gráficos. Certamente não em literatura socialista "séria".

Portanto, escondeu-se um capítulo inteiro da história da cultura de oposição da classe trabalhadore e perdemos um aprofundamento importante nas motivações que conduziram à formação de organizações proletárias significativas, a movimentos de uma juventude trabalhadora, aos círculos de "amigos da natureza" e aos livre-pensadores. Porém uma busca por parte dos pioneiros atuais, que estão começando a liberar-se do intelectualismo pretensioso e da pura teoria, revela uma religiosidade alternativa socialista. Ao estudar as formas espontâneas da festividade e a necessidade de religião que se sente e vive por parte dos trabalhadores, na Rússia viu-se como os traços do neopaganismo tomavam forma após a tomada de poder pelos bolcheviques. Portanto tivemos os "criadores de deuses", aos quais se referiram Anatoli Lunatcharski e Máxim Gorki. Entre os democratas ocidentais da Alemanha e Bélgica, Henri De Man fez um esforço parecido ao organizar o "Thingspiele" socialista junto com os nacional-socialistas.

Um exame de todo este material mostra que é bastante possível que pudesse haver uma continuidade direta ou uma analogia estrutural entre a cultura neopagã da classe trabalhadora de 1900-1933, por um lado, e as tentativas em uma linha muito similar por redescobrir raízes mitológicas na década de 70, por outro. Devemos desenvolver novas interpretações de natureza estrutura, como se preenchessemos uma brecha. Por outra parte, nos parece mais exato dizer que os românticos de esquerda dinamarqueses e alemães de fins do século XIX e do século XX são fonte de inspiração mais contemporânea.