terça-feira, 31 de julho de 2012

A "Primavera Árabe" Está Vindo para a América Latina?

por Adrian Salbuchi



Uma onda de protestos está estourando na Venezuela, Equador e Bolívia – países de forte oposição às políticas dos EUA e de seus aliados na região. Será que estamos testemunhando uma “Primavera Latino-americana”?

Como arquitetar uma violenta insurgência ainda não parece estar na agenda dos Poderosos Senhores Globais, há sinais de crescente atividade de guerra psicológica por agências e ONG's “pró-democracia”, “pró-direitos humanos” e “de ajuda”, atuando através de seus atores locais alinhados com os interesses dos EUA/Reino Unido/União Europeia.

Acendendo o Fósforo

Será que está sendo pavimentado o caminho para coisas bem piores? Aqueles que “riscam o fósforo” que inflama a agitação e os protestos populares já aprenderam muito bem, a partir da sua experiência com a “Primavera Árabe”, como soprar estas chamas que conduzem a catastróficas explosões sociais...

Alguns alarmes estão começando a disparar em países como Venezuela, Equador e Bolívia, cujos presidentes – Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales, respectivamente – não tocam a melodia dos EUA e seus aliados, que por mais de um século têm exercido dominação econômica colonial sobre a América Latina.

A Venezuela, a Bolívia e o Equador insistem em manter estreitas relações com países, que os EUA e seus aliados definiram como “estados desonestos”, notadamente o Irã, a Síria e, até o assassinato público de Muammar Kadafi, a Líbia. Será que eles estão destinados a serem cabeças de ponte para uma possível “Primavera Latino-americana” de insurreição programada?

A chamada “Primavera Árabe” também começou com a erupção de uma grande variedade de queixas populares que evoluíram para demonstrações em massa e rapidamente transformaram-se em violência social descontrolada de todos os lados.

Um sinal de que este tipo de “fósforo” está sendo riscado pode ser visto no Equador onde um jornal de Quito, “El Telégrafo”, revelou que o chamado “Projeto Cidadania Ativa” para “treinar jornalistas de oposição”está recebendo 4,3 milhões de dólares em fundos da USAID – a Agência Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos, que também destina fundos para os grupos de oposição locais como o Faro e o Fundamedios com o pretexto declarado de “reforçar a democracia” através de oficinas, fóruns, e projetos de vigilância da mídia.

Redes de Poder

Para entender como este complexo sistema de dominação realmente funciona, precisamos também olhar para a atividade do setor privado, que é instrumento para a obtenção do controle sobre os países da região.

Por exemplo, uma entidade privada como a “Sociedade das Américas” presidida por David Rockefeller – fortemente ligada ao Conselho de Relações Exteriores que está bem em frente do outro lado da luxuosa Park Avenue na cidade de Nova York – recentemente foi capaz de catapultar um de seus membros, Juan Manuel Santos, como presidente da Colômbia, um tradicional aliado dos EUA na região.

Outros membros da Sociedade das Américas incluem poderosos líderes políticos e empresariais regionais e globais, como o presidente do Congresso Mundial Judaico Eduardo Elsztain (empresário argentino sócio de George Soros) e, Gustavo e Patricia Cisneros, proprietários de um poderoso conglomerado multi-mídia da oposição venezuelana.

Co-presidindo a Sociedade das Américas com David Rockefeller está John Negroponte, que serviu como embaixador do governo George W. Bush na ONU e no Iraque, e que também era seu Conselheiro de Segurança Nacional.

Frequentemente, são fatos pouco conhecidos como estes que ajudam a “ligar os pontos” e permitem mostrar onde de fato o poder se encontra, mas que a mídia ocidental toda ignora.

Assim como também ignora o fato de que os Poderosos Senhores Globais impuseram Mario Monti como presidente da conturbada Itália que também “por acaso” é o Presidente europeu da Comissão Trilateral Rockefeller-Rothschild com sua extensa lista de grandes banqueiros como membros.

Ainda bem que o mundo está acordando para o fato de que a chamada “Primavera Árabe” não é mais do que um método para impor o estilo ocidental de “democracia” a todos os países muçulmanos, enfraquecendo assim todos os estados soberanos.

É evidente que isto está sendo arquitetado e financiado com a cumplicidade da Elite de Poder que astutamente tira vantagem das divisões internas e sequestra genuínas reivindicações das populações locais em seu proveito próprio.

Ela usa todas as armas de que dispõem –geralmente através de operativos da CIA, do MI6 e do Mossad. Também inclui guerra psicológica midiática local que espalha informação falsa/distorcida sobre o que realmente está acontecendo em cada país e por quê.

Guia dos Sete Passos Para Destruir um País

Escrevendo para a RT no ano passado a respeito da“Primavera Árabe”, descrevemos um processo de ‘Sete Passos' através do qual a Elite Ocidental pode provocar tumultos até a destruição total.

Como nuvens estão se formando sobre a América Latina e outras regiões, faremos bem em revisar este processo:

1. Eles começam apontando um país que consideram pronto para uma “mudança de regime”, frequentemente carimbando-o como “Estado Covarde”,então...

2. Espalham mentiras deslavadas através de seus noticiários e jornalistas pagos e, chamam a isso de “preocupações da Comunidade Internacional”, então...

3. Financiam e promovem contendas e tumultos internos, geralmente evoluindo para fornecimento de armas e treinamento de grupos terroristas locais pela CIA, MI6, Mossad, Al-Qaeda e membros de cartéis de drogas, e os chamam de “Rebeldes Pela Liberdade”, então...

4. Tentam encenar Resoluções do Conselho de Segurança da ONU permitindo que a OTAN despeje morte e destruição sobre milhões de pessoas, e chama a isso de “Sanções Para Proteger a População Civil”,então...

5. Invadem e começam a controlar o país escolhido, e chamam a isso de
“Liberação”, então...

6. Quando o dito país cai sob seu controle, eles fraudulentamente impõem pérfidos governos fantoches e chamam a isso de “Democracia”,até que finalmente...

7. Eles roubam o petróleo, os minérios e a produção agrícola entregando-os aos Banqueiros e Corporações globais, também impõem Dívidas Soberanas desnecessárias, e chamam a isso de ”Investimento Estrangeiro e Reconstrução”.

Portanto, Equador, Venezuela e Bolívia – e até mesmo Argentina: abram os olhos!

Aprendam a ver através do uso secreto e violento da força e da hipocrisia em público da Elite de Poder.

Porque quando os Poderosos Senhores Globais decidirem vir atrás de vocês, eles dirão que é tudo em nome da “liberdade de expressão”,da “democracia”, da “paz”, dos “direitos humanos”, da “não discriminação”e outras frases de efeito.

Não caiam nessa!

domingo, 29 de julho de 2012

Superexploração do Trabalho e Acumulação de Capital: Reflexões Teórico-Metodológicas para uma Economia Política da Dependência

por Carlos Eduardo Martins
 


Introdução

O conceito de superexploração do trabalho foi estabelecido por Ruy Mauro Marini, no final da década de 60 e na década de 70, em um conjunto de trabalhos, dentre os quais Dialética da dependência (1973) é a expressão clássica e concentrada. Tal conceito constitui um dos principais pilares da teoria marxista da dependência. Todavia, devido ao caráter paradigmático do aporte de Marini e à relativa dispersão de suas contribuições em livros, artigos ou trabalhos de circulação restrita, tornar-se necessário um aprofundamento da teoria da superexploração, uma vez que, como afirmava Marini, Dialética da dependência (1973) não pretendia mais do que introduzir o tema, ainda que tenha lançado suas bases de forma definitiva.

Pretendemos, neste texto, sintetizar os principais resultados teóricos alcançados por Ruy Mauro Marini na elaboração do conceito de superexploração, enfatizando sua relação com a gênese da acumulação capitalista. Procuramos, ainda, contribuir para o desenvolvimento desse conceito, mediante a sua formalização matemática e quantitativa.

Dividiremos nosso trabalho em três partes. Na primeira e na segunda, estabelecemos as bases teórico-metodológicas do conceito formulado por Marini. Na terceira parte, realizamos sua formalização.

1- Superexploração e acumulação capitalista

Ruy Mauro Marini afirma, em Dialética da dependência (1973), que o regime capitalista de produção desenvolve duas grandes formas de exploração que seriam o aumento da força produtiva do trabalho e a maior exploração do trabalhador. O aumento da força produtiva do trabalho ocorreria quando, no mesmo tempo e com o mesmo gasto de força de trabalho, houvesse maior quantidade produzida. Já a maior exploração do trabalhador se caracterizaria por três processos, que poderiam atuar de forma conjugada ou isolada, representados pelo aumento da jornada de trabalho; pela maior intensidade de trabalho, sem a elevação do equivalente em salário; e pela redução do fundo de consumo do trabalhador (Marini, 1973, p. 95-96).

A maior exploração do trabalho, embora caracterizasse as formas da acumulação em situações de baixo desenvolvimento tecnológico, não se resumiria a este cenário, desenvolvendo-se durante a evolução tecnológica do modo de produção capitalista. Segundo Marini, essas duas grandes formas de exploração tenderiam a se combinar durante o desenvolvimento capitalista, produzindo economias nacionais com maior incidência de uma ou outra. Ao predomínio da maior exploração do trabalho corresponderia, precisamente, a superexploração do trabalho.

As razões para que essas formas de exploração se articulem no regime capitalista de produção são desenvolvidas no conjunto da obra de Marini e encontram a mais rica elaboração em seu artigo "Mais-valia extraordinária e acumulação de capital" (1979), considerado pelo autor um complemento indispensável à Dialética da dependência (Marini, 1990, p. 43). Como fundamentos dessa tendência à combinação podemos mencionar:

i) O aumento da produtividade do trabalho que, ao reduzir o tempo necessário para a produção de uma certa massa de mercadorias, permite ao capital exigir a expansão do trabalho excedente do operário, combinando a maior produtividade com a maior exploração do trabalho. Marini assinala, ainda, que a elevação da produtividade do trabalho impulsiona o aumento da intensidade de trabalho e conduz à maior exploração do trabalho e desgaste da força de trabalho, caso a extensão da jornada não seja reduzida. Nos países centrais, a rigidez apresentada pela jornada de trabalho desde os anos 30, indica que a elevação da produtividade foi acompanhada de maior exploração do trabalho (Marini, 1973, p. 96-97).

ii) A distinção que realiza entre produtividade e mais-valia relativa, afirmando que o aumento da produtividade cria apenas mais produtos ao mesmo tempo, e não mais valor para o capitalista individual. O aumento da produtividade se expressaria em uma mais-valia extraordinária, ao permiti-lo reduzir o valor individual das mercadorias e manter o seu valor social, resultando na apropriação por este capitalista de uma maior massa de mais-valia e na queda das taxas de mais-valia e da taxa de lucro dos outros capitalistas, por manter-se constante a massa de mais-valia no ramo. A generalização do aumento de produtividade no ramo suprimiria essa alteração na repartição do valor, expandindo a massa global de produtos sem elevar a massa de valor. O resultado disso seria a queda da massa de mais-valia no ramo, pois uma parte dela seria absorvida pelo aumento da composição orgânica do capital que a generalização do aumento de produtividade estabelece. A única possibilidade de burlar essa queda, afirmará Marini mais adiante, será mediante a extensão da mais-valia extraordinária do interior do ramo produtivo para as relações entre eles.

Já a mais-valia relativa, diferentemente, ocorreria quando a elevação da produtividade atingisse o setor que produz bens-salário, implicando uma desvalorização da força de trabalho e o aumento do tempo de trabalho excedente.

iii) Em "Mais-valia extraordinária e acumulação de capital" (1979), Marini desenvolve os argumentos anteriores apresentados em Dialética da dependência. Nesse artigo, assinala que o progresso técnico somente é introduzido pelo capital individual e que a sua liderança setorial cabe ao setor produtor de bens de consumo suntuário e aos segmentos do setor I que para ele produzem. Essa análise é desenvolvida a partir de uma profunda releitura dos esquemas de reprodução capitalista de Marx, em que introduz o progresso técnico no seu funcionamento. De acordo com Marini, o sub-setor IIa (que produz bens-salário) e o setor I (que produz insumos para esse) não são capazes de sustentar a generalização do progresso técnico no ramo, pois a conservação da massa de valor representada pelo capital variável entra em contradição com o progresso técnico e/ou com a elevação da intensidade do trabalho, necessários para a obtenção da mais-valia extraordinária no ramo. As mercadorias constituídas de bens-salário, ao manterem o seu valor social apesar da redução do valor individual, não encontram demanda para sua realização, pois expressam-se em uma maior massa física de produtos. Já o setor IIb e os segmentos do setor I, que produzem diretamente ou indiretamente bens suntuários, podem sustentar, até certo ponto, a generalização do progresso técnico e da intensidade do trabalho na busca de mais-valia extraordinária. A perda da participação relativa do capital variável na estrutura produtiva, gerada pelo aumento da produtividade ou da intensidade do trabalho, forneceria a demanda para a maior oferta de produtos suntuários.

iv) O nivelamento das taxas de lucro entre os ramos produtivos. Este nivelamento tenderia a ocorrer quando a expansão da acumulação em IIb e o segmento de I correlato atingissem uma tal intensidade, que a oferta de mercadorias do setor IIa e I produtor de capital circulante não conseguiria manter-se à altura da procura em IIb e I. Isso porque a concentração da produtividade em IIb e I criaria uma situação onde, de um lado, o aumento da composição orgânica do capital nesses sub-setores exigiria escalas de produção crescentes, que se manifestariam no aumento mais que proporcional de seu consumo de matérias-primas, na crescente intercambiabilidade tecnológica, mas também no aumento de seu consumo de força de trabalho. De outro lado, a capacidade do segmento IIa e I produtor de capital circulante proporcionar os insumos materiais para IIb e I produtor de capital fixo é limitada pelos crescentes diferenciais de produtividade que vão se desenvolvendo entre estes sub-setores. Desse modo esgota-se, a médio e longo prazo, a margem fornecida pela ampliação do espaço de circulação de mercadorias mediante a extensão da divisão nacional e internacional do trabalho, que permite aumentar a massa física de produtos destinadas ao sub-setor IIb e à produção de capital fixo sem reduzir-se o diferencial de produtividade frente a eles. Assim sendo, o nivelamento das taxas de lucro e a transferência tecnológica correlata de IIb e I produtor de capital fixo para IIa e I produtor de capital circulante permitem romper com a queda das taxas de mais-valia e de lucro nos primeiros sub-setores (ao desvalorizarem e depreciarem os insumos fornecidos por IIa e I correlato), elevando as taxas globais de mais-valia e de lucro do capital em geral. Mas também realizam uma significativa transferência da massa de mais-valia para os segmentos IIb e I produtor de capital fixo, o que tende a eliminar cada vez mais a autonomia de um segmento produtor de capital fixo exclusivo ao sub-setor IIa.

A partir desses fundamentos desenvolvidos por Marini, apreende-se que: o fato de a produtividade ser introduzida pelo capitalista individual, ter seu dinamismo vinculado aos ramos produtivos associados diretamente ou indiretamente ao consumo suntuário e ser difundida aos ramos vinculados aos bens-salário através dos preços de produção, torna, simultaneamente, o movimento de produção de mais-valia um movimento de apropriação de mais-valia.

Assim, se a mais-valia extraordinária permite ao capitalista individual (de maior composição técnica e orgânica do capital) e aos ramos ligados ao consumo suntuário desvalorizarem individualmente suas mercadorias em ritmo superior ao crescimento da massa de seu capital, viabilizando um recurso superior à produtividade do trabalho quando do nivelamento das taxas de lucro, os efeitos dessa valorização (através da concorrência) sobre os capitalistas individuais e ramos com menor composição orgânica de capital serão de perda da massa de mais-valia gerada. Os preços de produção serão fixados abaixo do valor de suas mercadorias, o que, para ser compensado, exige que os preços da força de trabalho fiquem abaixo de seu valor.

As tendências enunciadas por Marini no plano da concorrência (itens ii, iii e iv) podem ser lidas como absolutas, hegemônicas ou dinâmicas. As primeiras remeteriam à existência de uma economia capitalista pura, que realizasse suas tendências mais agudas de desenvolvimento, pois supõem a plena liderança dos segmentos IIb e I correspondente na introdução do progresso técnico e a completa dependência tecnológica dos sub-setores IIa e I corretato a ele. Como tendências hegemônicas, se manifestam no fato de explicarem a maior parte do crescimento econômico; e como tendências dinâmicas, no fato de representarem uma parte menor, porém crescente do desenvolvimento econômico.

Dessa forma, a superexploração do trabalho corresponderia à afirmação hegemônica, no plano da concorrência, das tendências indicadas. Ela se estabelece, a partir do desenvolvimento da produtividade do trabalho, naquelas empresas, ramos ou regiões capitalistas que sofrem depreciação de suas mercadorias, em razão da introdução, em seu espaço de circulação, de progresso técnico realizado por outras empresas, ramos ou regiões. Isto ocorre quando a maior parte do crescimento da produtividade , nesse âmbito, se origina de inovações tecnológicas produzidas em outras empresas, setores ou regiões, não podendo as primeiras compensarem, com geração endógena de progresso técnico, o movimento de apropriação de mais-valia que sofrem.

As inovações atuariam sobre o trabalho aplicado nas condições da capacidade instalada, depreciando a massa de valor e de mais-valia produzida nesses segmentos, e exigiriam a depreciação da força de trabalho como mecanismo de compensação para reequilibrar as taxas de mais-valia e de lucro.

É justamente a situação acima descrita – quando a maior parte do aumento da produtividade dos capitais de uma região decorre de inovações tecnológicas produzidas pelas acumulação capitalista de outros centros, ou quando suas mercadorias simplesmente sofrem depreciação em função das inovações introduzidas em outros pólos – que fundamenta o desenvolvimento dependente de uma região.

Nessa região, estabelece-se uma separação entre a expansão da circulação da massa de mercadorias ligadas às inovações tecnológicas e a circulação de mercadorias ligadas à reprodução da força de trabalho, que tende a se restringir. Desse modo, as inovações passam a vincular-se à produção de mercadorias que não se destinam à reprodução da força de trabalho (consumo suntuário nos próprios países dependentes ou consumo produtivo ou popular nos países centrais). Quando se associam à produção de mercadorias destinadas à reprodução da força de trabalho, apenas o fazem marginalmente. Tal fato possui duas implicações:

i) Tendo em vista que as inovações tecnológicas ocorridas nos segmentos dinâmicos, ao não desvalorizarem a força de trabalho, não ampliam a taxa global de mais-valia da formação social em questão e desenvolvem a contradição entre o aumento da composição orgânica do capital e a redução da massa de mais-valia no conjunto da economia, a superexploração faz-se necessária para que a taxa de lucro global seja preservada;

ii) a baixa competitividade produzida pelo regime de acumulação fundado na superexploração do trabalho permite que as empresas estrangeiras, estabelecidas em formações sociais onde esse processo se estrutura, mantenham altas taxas de remessas de capitais para suas regiões de origem, uma vez que sua liderança no processo local de acumulação é pouco ameaçada. Essas remessas, que são realizadas através de diversos mecanismos (pagamentos de juros e serviços do financiamento externo, envio de remessas de lucros, pagamentos de royalties, patentes e assistência técnica e prática de sobrepreços nas relações intra-firmas), superam amplamente as entradas de capitais por elas realizadas, resultando em significativo processo de expropriação de capitais e divisas.

2- Dependência e superexploração

De acordo com Theotônio dos Santos (1978 e 1991), a dependência representa uma situação onde a estrutura sócio-econômica e o crescimento econômico de uma região são determinados, em sua maior parte, pelo desenvolvimento das relações comerciais, financeiras e tecnológicas de outras regiões. A dependência é gerada e reproduzida a partir da internacionalização capitalista e de sua tendência a concentrar e centralizar os excedentes que resultam da acumulação mundial nos centros dinâmicos do sistema mundial.

Do século XVI até meados do século XIX, a internacionalização esteve sob a hegemonia dos capitais comercial e usurário e, posteriormente, a partir do final do século XIX, sob a hegemonia do capital produtivo. A partir daí, o desdobramento de D em D` fundamenta-se no capital produtivo e a reprodução ampliada da economia mundial adquire uma base sustentada e orgânica ao possuir um fundamento técnico (Dos Santos, 1978). A dependência ganha, então, caráter sistemático e passa a se vincular às tendências econômicas do desenvolvimento capitalista, onde o componente tecnológico torna-se a base da apropriação de mais-valia das sociedades dependentes e da expansão das formas usurárias e comerciais de apropriação do valor produzido nessas sociedades.

Os países centrais passam a concentrar, em seu aparato produtivo, os elementos tecnológicos que articulam o crescimento da composição técnica e orgânica do capital e que permitem o desdobramento internacional de D em D'. Os países dependentes são objeto dessa articulação e oferecem os elementos materiais para a especialização do centro através de sua integração à divisão internacional do trabalho. Essa integração é constantemente redefinida pelo centro, segundo as necessidades do crescimento mundial da composição técnica e orgânica do capital.

Diferentemente dos países centrais, onde a relativa homogeneização da base tecnológica permite aos segmentos vinculados ao sub-setor IIa responder tecnologicamente às inovações introduzidas pelos segmentos vinculados ao consumo suntuário, criando a base para um mercado de massas e para a indústria de bens de capital que alavancarão de forma orgânica a industrialização no centro; os países dependentes, ao se integrarem no mercado mundial a partir de grandes desníveis tecnológicos, não poderão responder da mesma forma, recorrendo à superexploração do trabalho.

Portanto, como se observa, o enfoque de Marini articula os livros I, II e III de O Capital e reposiciona amplamente os enfoques usuais sobre a maturidade da acumulação capitalista, os quais, ao priorizarem o livro I de Marx – que abstrai a concorrência, esfera real onde se dá a acumulação capitalista -, consideram a mais-valia relativa e a produtividade do trabalho como as formas normais desta acumulação. Não se trata de uma visão estagnacionista, como lhe atribuíram, entre outros, Cardoso e Serra (1978), fundada na incompreensão da capacidade do capitalismo industrial e "pós-industrial" gerar a mais-valia relativa, mas sim de uma visão dialética, capaz de levar em consideração os diversos níveis do processo de acumulação capitalista.

Na visão de Marini, o capitalismo surge na sua globalidade; isto é, como um modo de produção e de circulação de mercadorias. Primeiramente ele analisa o dinamismo tecnológico capitalista no interior da concorrência e considera a produtividade do trabalho e a maior exploração do trabalho como pólos associados, que expressam a presença da produção e da apropriação de mais-valia na acumulação internacional capitalista, para depois verificar em que medida a elevação da composição técnica e orgânica do capital resulta em maior exploração do trabalho e superexploração ou, inversamente, no aumento da produtividade do trabalho para um capital particular. A obra de Marini descreve e associa teoricamente dois movimentos, que não ocorrem separadamente: a) um, de elevação da composição técnica do capital e conseqüente desvalorização de mercadorias, que direcionado à produção de bens de consumo necessários é capaz de expandir a massa de mais-valia; b) outro, concorrencial, em que os diferenciais da composição técnica fundamentam a apropriação da mais-valia de uma determinada estrutura capitalista por outra. Quando o segundo movimento predomina sobre o primeiro, estão estabelecidas as condições para a superexploração do trabalho.

3- Para uma formalização do conceito de superexploração do trabalho

Parte das críticas feitas a Marini consideram que sua análise é circulacionista, afirmando que ele dedica-se à apropriação da mais-valia esquecendo-se do livro I de O Capital, onde a expansão da mais-valia é realizada fundamentalmente através do recurso à tecnologia, tornando a maior exploração do trabalho secundária diante do aumento da força produtiva do trabalho.

Em nossa opinião, o equívoco dessas críticas está em não situar adequadamente os níveis do modo de produção e do capital em geral, de um lado, e da concorrência e das formações sociais, de outro lado, como planos de análise diferenciados e necessariamente articulados do funcionamento da economia internacional capitalista.

Nesta seção, demonstraremos que a apropriação de mais-valia e a superexploração são compatíveis com o modo de produção especificamente capitalista e com o recurso à maior intensidade tecnológica pelo capital expropriado. Isso acontece sempre que a apropriação de mais-valia de um capital por outro não puder ser compensada pela produção de mais-valia mediante a geração endógena de tecnologia pelo capital expropriado, estabelecendo-se, de maneira irrevogável, a necessidade da superexploração do trabalho.

A superexploração torna-se a base do regime de acumulação quando a expansão do diferencial de produtividade entre o capital A (que determina os valores médios das mercadorias em um espaço determinado da circulação) e o capital B (expropriado) for suficiente para neutralizar o movimento de expansão da mais-valia em B ou para torná-la inferior à elevação da composição orgânica que a gera, derrubando sua taxa de lucro.

Levando-se em consideração a dinâmica da acumulação capitalista; se a variável chave da apropriação e da produção de mais-valia é a tecnologia, o ponto de equilíbrio para o capital B - onde a expansão de mais-valia neutraliza a apropriação sofrida - é aquele em que o aumento do diferencial de produtividade inter-capitalista for equivalente ao crescimento da produtividade em B, supondo-se uma determinada expansão da composição técnica do capital no espaço da circulação em questão. Portanto, uma vez que há aumento na composição técnica média dos capitais, a elevação da composição técnica em B terá de ser equivalente a 50% do crescimento total da composição técnica média, pois somente assim o aumento da produtividade em B se iguala ao diferencial de expansão de produtividade entre A e B.

Em resumo, a superexploração ocorreria sempre que o crescimento da composição técnica em B não alcançasse à metade do aumento da composição técnica do capital que determina as condições da concorrência ou quando, mesmo alcançando metade ou mais, não conseguisse gerar uma massa de mais-valia suficiente para compensar o aumento da própria composição orgânica do capital que a elevação de sua composição técnica propiciaria.

Se elevarmos o nível de abstração, do capital particular para as estruturas de produção capitalistas nacionais e regionais, podemos concluir que a dependência é a condição do atraso inter-estatal e inter-regional que determina a correlação entre a apropriação e a produção de mais-valia que fundamenta a superexploração. Isso porque a dependência descreve uma situação na qual uma região se insere num espaço de circulação de mercadorias em que a maior parte do crescimento da composição técnica do capital origina-se de inovações introduzidas ou geradas por capitais estrangeiros.

Vejamos isso mais em detalhe. Nas equações abaixo trabalhamos com as fórmulas de preço de produção de Marx e, para fins de simplificação, o estamos considerando equivalente ao preço de mercado

A equação I descreve o preço de produção de um capital que produz nas condições médias e que, portanto, não sofre perda de mais-valia para a concorrência. A equação II descreve uma situação na qual a perda da massa de mais-valia de um determinado capital é função da variação da composição técnica média em relação a sua produtividade. A variação da produtividade externa em relação à interna está representada por x e a perda de mais-valia por y. A equação III indica como o aumento de produtividade, gerado pelo capital que determina os valores médios, é traduzido em elevação de sua massa de mais-valia. O aumento da produtividade é expresso por z e a massa de mais-valia acrescentada por m'. A equação IV indica a tentativa do capital expropriado reagir à perda de mais-valia, mas, ao mesmo tempo, assinala seu caráter parcial e limitado, uma vez que o aumento da produtividade z pode corresponder, no máximo, a 50% do crescimento da produtividade externa.

I) c + v + m = p

II) (c + v + m) - y = Donde: se p - y = ; y = p - =

III) (c + v + m) z = p + m' Donde: se pz = p + m'; z = 1 + ; m' = pz - p

IV) (c + v + m) z - y = Donde: (c + v + m) z - y =

Sabendo-se que:

x= l - w + 1

x' = l - z + 1

Considerando que:

c = capital constante

v = capital variável

m = mais-valia criada por um determinado capital e que se reflete em sua estrutura de preços p.

y = depreciação que incide sobre determinado capital

p = massa de valor expressa sob a forma preço

u = produtividade externa inicial em um momento (t1)

l = produtividade externa inicial (u) acrescentada de sua variação em determinando período de tempo (D t).

w = produtividade interna inicial de determinado capital (=1) em um momento (t1)

z = produtividade interna inicial (=1) somada a sua variação endógena – sem o recurso à queda dos preços da força de trabalho abaixo de seu valor. Na equação IV, a variação endógena de z oscila entre 0% e 50% da variação da produtividade externa.

x = relação entre a produtividade externa acrescentada de sua variação (l ) e a produtividade interna igual a 1 de determinado capital.

x' = relação entre a produtividade externa acrescentada de sua variação (l ) e a produtividade interna igual a 1 de determinado capital somada a sua variação endógena em determinado período de tempo (D t)

pz = massa de valor, expressa sob a forma-preço, incrementada pela elevação da produtividade interna

m'= mais-valia criada com a variação da produtividade interna

Na equação II, que corresponde à dimensão mais geral das condições de progresso técnico que criam a superexploração, a determinação da compensação à perda de mais-valia é evidente e absoluta. Aqui, a introdução de progresso técnico no espaço de circulação das mercadorias dos países dependentes, através do investimento direto, da importação de tecnologia ou da mera concorrência internacional, cria uma depreciação no valor da grande massa de trabalho desses países. Nessa equação, demonstra-se como o diferencial de produtividade entre estruturas de produção capitalistas significa, para o capital desfavorecido, uma perda de mais-valia.

Na equação IV, evidenciamos a compatibilidade da teoria da superexploração com a geração endógena de progresso técnico pelas estruturas capitalistas desfavorecidas no processo de concorrência capitalista. Os capitais, que sofrem depreciação de sua mercadoria, somente conseguem neutralizar a perda de mais-valia quando conseguem elevar sua composição técnica do capital em pelo menos 50% do aumento ocorrido no capital concorrente. A partir de qualquer exemplo numérico, verifica-se que m' e y eqüivalem-se, resultando em anulação mútua da depreciação sofrida e da mais-valia gerada pelo capital em questão. Tal situação configura o limite técnico a partir do qual atua a superexploração e a articula organicamente com a situação de dependência. Entretanto, mesmo na equação IV, cabe assinalar que, para efeitos de simplificação, estamos desprezando a elevação da composição orgânica do capital propiciada pelo aumento da produtividade interna do capital. Quando isso ocorre, parte de m’ transforma-se em capital constante, a taxa de lucro é reduzida e a superexploração do trabalho estende-se para além do limite técnico assinalado.

Façamos, todavia, um exercício numérico a título de exemplificação das equações II e IV:

Numa primeira situação, um capital A e um capital B partem das condições médias de produtividade, em um momento (t1). Supõe-se que, uma vez decorrido um período (D t), o capital B não gere qualquer dinâmica tecnológica e apenas mantenha a sua produtividade anterior; e que o capital A aumente a sua produtividade em 100%, em exata equivalência com a variação das condições médias de produtividade que determinam o valor. Desta forma: w = u = 1. Sabendo-se que c = 500; v = 200; m= 300; p = 1000, teríamos ainda que: l = 1 + 100% = 2; x = 2. Portanto, neste caso, utilizando-se a equação II, teríamos que y = 500, o que representa a perda líquida de mais-valia para o capital B, já que essa não seria compensada por nenhuma geração interna de mais-valia (m'), pois a variação endógena em z eqüivale a zero e torna z = w.

Numa segunda situação, um capital A e um capital B partem também das condições médias de produtividade, em um momento (t1). Entretanto, supõe-se que uma vez decorrido um período (D t), o capital B gere uma dinâmica tecnológica própria, equivalente a 50% do aumento da produtividade do capital A que, por sua vez, aumenta a sua produtividade em 100%, em exata equivalência à variação das condições médias de produtividade que determinam o valor. Tomando-se os mesmos valores para c, v, m, p, teríamos que: x = 2; l = 2; z = 1 + 50% = 1,5; x' = 1,5. Assim, o capital B geraria internamente um acréscimo em mais-valia (m') através da elevação de sua produtividade, de tal forma que m' = 500 – aceitando-se a suposição de que não haveria alteração do valor em c. Todavia, ao situar-se abaixo das condições médias de produção do valor, o capital B sofreria uma perda de mais-valia (y), calculada na equação IV, onde y = 500 = m', neutralizando a geração do acréscimo de mais-valia.

Se admitirmos que ocorre um aumento da composição orgânica do capital de B, nessa segunda situação, para produzir-se m', expresso em uma elevação do valor de c, parte de m' deveria converter-se em c, tornando y > m'. Tal resultado, como mencionamos acima, ativaria as condições de atuação da superexploração do trabalho.

Quanto mais as tendências absolutas do desenvolvimento dependente se afirmarem, e os capitais de uma determinada região tendam a se subordinar de maneira total às estruturas monopolísticas do capitalismo internacional, mais a geração endógena de progresso técnico dos capitais dependentes estará próxima a 0 % do crescimento da produtividade introduzida pelos capitais que determinam os valores médios das mercadorias, reduzindo a equação IV à equação II22. Esse foi o ponto mais acentuado por Marini, por representar as tendências de longo prazo da geração de progresso técnico nos países dependentes.

No pós-scriptum que faz ao seu artigo Dialética da Dependência: A economía exportadora (1972), que integra à Dialética da Dependência (1973), Marini alerta o leitor para o nível de abstração do seu ensaio. Visando o desenho das leis fundamentais do capitalismo dependente, alguns traços foram feitos a grossas pinceladas, sem que fossem examinadas situações particulares que introduzissem um certo grau de relativização ao estudo. Todavia, indica o caráter tendencial destas leis:

"Aprovecharé, pues, este post-scriptum para aclarar algunas cuestiones y deshacer ciertos equívocos que el texto ha suscitado. En efecto, pese al cuidado de matizar las afirmaciones más tajantes, su extensión limitada llevó a que las tendencias analizadas se pintaran a brochazos, lo que les confirió a veces un perfil muy acusado. Por outra parte, el nivel mismo de abstración del ensayo no propiciaba el examen de situaciones particulares, que permitieran introducir en el estudio un cierto grado de relaticvización. Sin pretender justificarme com esto, los inconvenientes mencionados son los mismos a que alude Marx, cuando advierte:

[...] teoricamente, se parte del supuesto de que las leyes de de producción capitalista se desarrollan en estado de pureza. En la realidad, las cosas ocurren siempre aproximadamente; pero la aproximación és tan mayor cuanto más desarrollada se halla la produción capitalista [...]"
(Marini, 1973, p. 82)

O conceito da superexploração do trabalho é dos mais complexos dentro da economia política marxista. Para além das encruzilhadas políticas que deslinda – o que torna as discussões algumas vezes ideológicas e passionais –sua compreensão exige a articulação dos níveis da produção e da circulação para identificar os efeitos produzidos pela concorrência na economia global capitalista e em seus diversos rincões. Esperamos, com este trabalho, haver contribuído para elucidar algumas confusões a respeito de sua gênese e para avançar na sua consolidação cientifica.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Nacionalismo: Fenomenologia e Crítica

por Alain de Benoist


Há provavelmente tantas teorias do nacionalismo quanto há teorias nacionalistas. É obviamente impossível fazer um relato delas aqui. Nós não tomaremos parte na falsa controvérsia sobre se o nacionalismo é uma exacerbação patológica do patriotismo, ou se ele representa, ao contrário, sua elaboração doutrinária consciente e rigorosa. Notemos apenas que, para além das normalmente extremamente complexas tipologias sugeridas hoje, o nacionalismo pode ser definido de duas maneiras básicas.

Primeiro, o nacionalismo é a aspiração mais ou menos voluntária, fundada em fatos objetivos ou não, de um povo ser constituído (ou restaurado) como uma nação, geralmente em um contexto percebido como hostil a sua identidade coletiva. Assim, ele se apresenta como um movimento de construção histórica. Na segunda definição, o nacionalismo é a doutrina política que afirma que um governo deve se preocupar acima de tudo com o interesse nacional, ou até mesmo exclusivamente baseado nele.

Essas duas definições demonstram desde o início a ambivalência do nacionalismo, uma ambivalência diretamente relacionada a seu caráter eminentemente reativo. O nacionalismo geralmente aparece em circunstâncias que são "excepcionais", no sentido schmittiano do termo. O nacionalismo objetiva uma reação contra uma ameaça, real ou suposta, que lançaria suas sombras sobre a identidade coletiva e a impediria de fundar a si mesma como ou persistir como nação. O nacionalismo, por exemplo, aparece tanto em relação a uma ocupação estrangeira como em uma situação de colonização, no contexto de um regionalismo exacerbado, etc. Sua essência, portanto, está relacionada ao conflito. Ele precisa de um inimigo. Mas esse inimigo pode assumir as formas mais diversas. Daí a plasticidade do nacionalismo que, na história, pode tão bem ser moderno ou antimoderno, intelectual ou popular, de Direita ou Esquerda. (Durante todo o século XIX, lembremos, o nacionalismo era primariamente liberal e republicano).

A definição de nacionalismo como uma doutrina política levanta outros problemas. Uma vez que uma identidade seja resgatada ou que a nação emerge, o que no nacionalismo pode verdadeiramente ser usado como princípio de governo? O conceito de "interesse nacional" é nebuloso. Maurras escreve que um nacionalista "subordina seus sentimentos, seus interesses, e seus sistemas ao bem da pátria". Mas que facção já não reivindicou essa expressão? O "bem da pátria" é um conceito através do qual quase qualquer coisa pode ser reivindicado, tanto quanto se pode ter idéias extremamente diferentes sobre ele. Dado que o conflito pertence à essência do nacionalismo, o risco é então grande de que um governo nacionalista só possa existir enquanto confronte novas arenas de conflito. Qualquer estrangeiro, por exemplo, será potencialmente visto como um inimigo. Quanto ao conceito de um "inimigo interno", ele levará à guerra civil, que o nacionalismo parece proibir por questão de princípio.

Os conteúdos do nacionalismo permanecem, assim, um tanto quanto obscuros. Se veem movimentos nacionalistas aparecendo no mundo, mas em geral eles possuem poucas coisas em comum. Eles se opõem uns aos outros. Eles reivindicam valores contraditórios. Tudo parece ocmo se o nacionalismo fosse mais uma forma do que uma substância, um continente mais do que um conteúdo.

Pode-se entender isso melhor, porém, se o relacionamos à idéia da nação, da qual ele não pode ser dissociado. De fato, o nacionalismo inicialmente representa uma instrumentalidade política da identidade coletiva que dá origem à nação. Porém, a nação é apenas uma forma de entidade política entre outras. E ela é uma forma especificamente moderna.

Nem a resistência gálica contra César, nem a de Armímius contra as legiões de Varro são relevantes para nosso sentido de "nacionalismo". A aplicação da palavra "nação" à Antiguidade ou ao Velho Regime é, em geral, um anacronismo. Na Idade Média, a "nação" (de natio, "nascimento") possuía um sentido cultural ou étnico, mas de modo algum um sentido político. À época da Guerra dos Cem anos, o patriotismo faz referência ao "país" (pays), ou seja, a tanto uma região familiar quanto a um conjunto de corpos intermediários definindo concretamente uma identidade compartilhada. No sentido político, a nação aparece apenas no século XVIII, e ela se define em oposição ao rei. Os "patriotas" então eram aqueles que pensavam que a nação, não o rei, encarnam a unidade do país, ou seja, a nação existe independentemente do reino. A nação reúne aqueles que partilham das mesmas idéias políticas e filosóficas. É nesse sentido que Barrère foi capaz de dizer à Convenção que "os aristocratas não possuem pátria". A nação é assim inicialmente percebida como o povo soberano, então como a população de um dado território reconhecendo a autoridade do mesmo Estado e se reconhecendo como membros de uma mesma unidade política, e finalmente como essa própria unidade política. É possível ler, no Artigo 3 da Declaração dos Direitos do Homem: "O princípio de qualquer soberania se encontra primariamente na nação".

O Velho Regime na França já havia dado início ao processo de centralização. A Revolução continuou esse processo de uma nova forma. Ela objetivava "produzir a nação", criando um novo laço social, gerando comportamentos sociais dando origem à nação como um corpo político formado por indivíduos iguais. O Estado, consequentemente, se tornou o produtor do social. E essa produção era construída sobre as ruínas dos corpos intermediários. Começando com a Revolução, a nação se tornou para qualquer indivíduo uma presença imediata. Ela é uma abstração coletiva à qual se pertence diretamente, sem a mediação de corpos intermediários ou do Estado. Aí se encontra então, paradoxalmente, uma raiz individualista da nação e do nacionalismo. Louis Dumont escreveu sobre este tema:

"Historicamente, a nação no sentido moderno e preciso do termo, e o nacionalismo - distinto do mero patriotismo - tem dependido do individualismo como valor. A nação é precisamente o tipo de sociedade geral correspondente ao reino do indivíduo enquanto valor. Não apenas a nação acompanha o individualismo historicamente, mas a interdependência dos dois é essencial, de modo que se pode dizer que a nação é uma sociedade composta de pessoas que se consideram como indivíduos".

A "modernidade" da nação e do nacionalismo permanecem sem ser vista por um longo tempo, inicialmente porque o nacionalismo foi em certos momentos também uma reação (ou uma resposta) às disfunções sociais e políticas nascidas da modernidade, então, se iniciando no final do século XIX, porque a Direita política assumiu a idéia nacional em oposição aos movimentos socialistas "internacionalistas".

Esse sentido individualista e moderno da idéia nacional nos permite compreender como o nacionalismo se situa no horizonte da metafísica da subjetividade. Heidegger, que vê a subjetividade como a forma moderna (Gestalt) de ser si mesmo (Selbstsein), escreve nessa conexão:

"Qualquer nacionalismo é, no plano metafísico, um antropologismo e enquanto tal um subjetivismo. O nacionalismo não é superado pelo puro internacionalismo, mas apenas ampliado e estabelecido como sistema. O nacionalismo é tão pouco trazido e erguido à humanitas pelo internacionalismo quanto o individualismo o é pelo coletivismo ahistórico. O coletivismo é a subjetividade do homem no plano da totalidade".

Ao mesmo tempo isso também clarifica o relacionamento entre nacionalismo e individualismo liberal: O "nós" que forma a base daquele é apenas uma ampliação do "eu" característico desse. No liberalismo, é legítimo para o indivíduo sempre buscar seu próprio interesse; o nacionalismo, o interesse nacional precede tudo. Em ambos casos, a justiça e a verdade se fundem com o que é bom para mim ou para nós. Em ambos casos, a decisão final reside no interesse subjetivo, isto é, na utilidade.

Na citação acima, Heidegger demonstra muito bem que o universalismo político ("internacionalismo puro") não contradiz fundamentalmente o nacionalismo. O etnocentrismo exacerbado, ademais, é definido bastante classicamente como o indivíduo privado ampliado a dimensões universais, e o universalismo, inversamente, como um etnocentrismo mascarado. O indivíduo privado atesta apenas a sua verdade, mas ele tende a apresentá-la como a verdade em si mesma. Tal é a base ta pretensão de certos povos ou certas nações em serem considerados como "escolhidos", ou seja, chamados a realizar uma "missão universal". A França não escapou dessa tentação, e até mesmo sucumbiu mais frequentemente do que outros. Guizot declarou: "A França é o coração da civilização". Lavisse acrescentou: "Nossa pátira é a mais humana das pátrias", assim dando a entender que existe graus de "humanidade". De fato, se diz normalmente que o nacionalismo francês não pode ser fundamentalmente intolerante porque na França a idéia de nação caminha junto à idéia de humanidade. Mas essa afirmação nos faz refletir. De fato, se a idéia de nação caminha junto à de humanidade, então a de humanidade também o faz com a de nação. Quem não pertença à nação consequentemente se encontra excluído da humanidade.

Nem toda reivindicação da identidade coletiva necessita ser formulada em termos da ideologia do nacionalismo. Tal confusão, dado os excessos históricos do nacionalismo, só pode pôr em cheque o valor do próprio conceito de identidade coletiva. Porém tal conceito, independentemente de métodos e fundações, é essencial para qualquer socialidade. Em sociedades comunistas, foi ele que fez possível para o povo sobreviver opondo sua própria identidade à que o regime tentava impôr. Na sociedade ocidental, é o que continua a nutrir a imaginação simbólica e dar sentido ao desejo de viver junto. O nacionalismo, no que é mais tumultuoso e questionável nele, não é mais uma consequência inevitável da asserção de identidades coletivas do que a nação é a única maneira de organizar politicamente os cidadãos. De fato, é a negação de identidades coletivas, tais como encontramos ao longo do século XX no liberalismo, bem como no comunismo, que faz com que essas identidades assumam formas irredentistas, convulsivas e destrutivas.

Para ser mais preciso, digamos que há duas maneiras diferentes de apresentar a afirmação de uma identidade coletiva. A primeira, que poderia ser a do nacionalismo, restringe o indivíduo a defender seu povo, enquanto a segunda, preocupada acima de tudo com diversidade, vê a necessidade de defender todos os povos contra as ideologias que ameaçam erradicá-las.

Consideremos o ditado inglês "My country, right or wrong". Esse ditado é geralmente incompreendido. Ele não a firma que a pertença é um mero fato do qual não se pode fazer uma abstração. Ele também diz que meu país pode estar certo ou errado - e não que ele está sempre certo.

Porém, em todo rigor, um nacionalismo não poderia reconhecer que seu país está errado, simplesmente porque para julgá-lo errado, ele deve ter um critério de justiça que vá para além da mera pertença, ou seja, ultimamente, uma consciência clara da verdade objetiva. Um nacionalista é espontaneamente levado de pensar que seu país nunca está errado a pensar que ele está sempre certo. De tal ponto de vista, no evento de um conflito, apenas a força pode decidir. A força então se torna o valor supremo. Ela é identificada com a verdade, o que quer dizer que a história está basicamente correta: os vencedores estão sempre certos, pela simples razão de terem vencido. Paradoxalmente se cai no social-darwinismo, que é apenas uma outra forma da ideologia do progresso.

Se, ao contrário, eu posso julgar meu país como errado, sem esquecer que ele é meu, isso é porque eu sei que minha pertença não é um critério de verdade objetiva. Então eu deixo para trás a metafísica da subjetividade, o ponto no qual nacionalismo e individualismo liberal convergem. A identidade de outros não é mais em princípio uma ameaça à minha. Eu estou pronto para defender minha identidade porque essa defesa é um princípio geral, cuja legitimidade eu também reconheço nos outros. Em outras palavras, se eu defendo minha "tribo", é também porque eu estou sempre pronto para defender a dos outros.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O Cosmoteísmo


por John  Carver

Uma vez, no início dos anos 70, William Pierce (1933-2002) – fundador da organização nacionalista National Alliance – foi convidado a falar a uma escola particular em Maryland. Que ele foi convidado a falar para alguma escola é surpreendente. Que foi a Indian Friend’s School, operada por Quakers é realmente excepcional. Pierce falou ao seu jovem público sobre sua crença de que os brancos devem formar um sentido forte de identidade racial e orgulho se eles desejam sobreviver como povo. Depois de seu discurso, Pierce ficou sem palavras com uma pergunta de um jovem branco: “Por que você pensa que é tão importante para a raça branca sobreviver?”. Agora, se pensaria que Pierce, de todas as pessoas, teria tido uma reposta pronta a essa questão. Mas o fato é que ele não teve – ou não ainda.

O incidente tomou os pensamentos de Pierce, e ele chegou à conclusão de que ele não poderia convencer os brancos de salvar sua raça através de simplesmente um apelo a “amar sua própria raça”. Não, brancos necessitavam de uma razão do porque sua raça deveria ser salva. A raça em si mesmo necessitava de uma justificação; precisava ser justificada por si mesmo. Aquela justificação tomou a forma do que Pierce chamou de Cosmoteísmo.

Ele primeiro anunciou a tese do Cosmoteísmo em um ensaio em 1976 intitulado “Nossa Causa” (no qual ele não empregou ainda o termo Cosmoteísmo). (A menos que de outra forma notou, todas citações subsequentes são desse ensaio) Depois de uma longa introdução (que inclui a história de sua visita da Indian Spring Friend’s School), Pierce introduz o Cosmoteísmo com primeiramente sugerindo que é a visão de mundo da qual todos os brancos estão inconscientemente informados, somente pela virtude de ser branco:

Nós sabemos disso porque no nosso profundo interior, na alma da nossa raça, há uma sabedoria de origem divina, sabedoria de todas as idades, da sabedoria antiga como o universo. Essa é a sabedoria, a verdade, que nós na National Alliance queremos tornar a base de nossa política nacional. É uma verdade da qual nós temos sido muito inconscientes em todas nossas vidas, mas da qual agora nós temos a oportunidade de compreender claramente e precisamente.

De aqui, Pierce fala do cosmos como “o inteiro” – pelo qual ele denota algo mais que o universo físico. “O universo”, escreve, “é a manifestação física do inteiro”. Nada dentro do universo pode ser dito como um fim em si mesmo: não a humanidade, nem os planetas, nada. Somente o inteiro é um fim em si mesmo. Mais, o inteiro está continuamente mudando e evoluindo para formas mais e mais complexas.

O desenvolvimento da vida na Terra da matéria não-viva foi um passo no processo evolutivo nunca-compreendido. A evolução das criaturas humanas das formas mais primitivas da vida foi um passo. A diversificação dessas criaturas em raças e sub-raças mais diferenciáveis, e a contínua evolução dessas distintas raças em distintas partes do mundo em diferentes proporções, tem sido a continuação desse processo.

Agora isso ajuda a compreender o que Pierce aprendeu como um físico. Ele tornou-se doutor em física pela Universidade do Colorado em Boulder em 1962, e subsequentemente ensinou por muitos anos  na Universidade Estatal de Oregon antes de abandonar sua carreira acadêmica O Cosmoteísmo é muito antes uma filosofia física (ou, como veremos, religião). Em particular, Pierce parece ter sido influenciado em parte pela “forte versão” de uma teoria referida  por físicos como “princípio antrófico”. Interessantemente, essa teoria primeiro conseguiu circulação no início dos anos 70 – o momento em que Pierce estava procurando por algum tipo de filosofia para fundamentar seu movimento político. Ele continua:

A evolução inteira da vida na Terra de seu começo, alguns três bilhões de anos atrás, e em um sentido mais geral, a evolução do universo sobre um período maior antes da aparição da vida, é uma evolução não somente no termo de render mais e mais formas físicas superiores, mas também uma evolução em consciência. É uma evolução na própria consciência do inteiro.

Essencialmente, Pierce argumenta que o inteiro – que ele chama de “criador”, que é “auto-criado” – está evoluindo para sua consciência em si mesmo. A evolução das formas novas e ainda mais complexas é para ser entendida como um processo no qual o inteiro está procurando se tornar consciente de si mesmo. Neste processo, a raça humana possui papel crucial, para o qual sobre o decurso do desenvolvimento humano que o criador (que, de novo, significa o inteiro) vem a conhecer a si mesmo. Isso parece uma idéia fantasticamente estranha, mas pode ser explicada ainda de forma mais simples. Os seres humanos são manifestações desse inteiro – o resultado de bilhões de anos de sua evolução. Nós somos nós mesmos do inteiro. Portanto, nossos esforços para fazer a ciência e a filosofia e (em geral) procurar sabedoria do inteiro constitui a busca do inteiro pela sabedoria de si mesmo. O inteiro adquire consciência própria através de nós mesmos.

“Nosso propósito”, Pierce nos conta, “é o propósito pelo qual a Terra surgiu fora do gás e do pó do cosmos”. E nosso destino “será divino”. Essa última observação acrescenta  um novo vinco às coisas. Se o homem desempenha o papel cósmico de trazer o inteiro (o criador) para a própria consciência, isso significa que nós completamos Deus. E isso não nos torna divinos de alguma maneira? Pierce fala de nossa missão como realização da “plena consciência de nossa unidade com o todo, alcançando plena consciência de que nós somos uma parte do criador e de que nosso destino é alcançar o propósito pelo qual o universo existe – a auto-realização do criador”. E ele explica que está implícito isto em nosso “reconhecimento e aceitação de nossa responsabilidade pelo futuro do universo”.

Mas Pierce não está falando de humanidade de maneira geral. Ele acredita que é preeminentemente através do homem branco europeu que esse propósito cósmico será alcançado.

Nosso propósito, o propósito com o qual devemos nos tornar obcecados, é o pelo qual os melhores e mais nobres homens e mulheres de nossa raça caíram através das idades lutando e morrendo se eles fossem completamente conscientes do propósito ou não. É o propósito pelo qual eles viram beleza e criaram beleza; o propósito pelo qual estudaram o Além e ensinaram a si mesmo os mistérios da natureza; o propósito pelo qual eles lutaram contra as forças degeneradas e regressivas ao redor deles; o propósito pelo qual, ao invés de tomar a vida fácil, o caminho inferior, escolheram o superior, independente da dor, do sofrimento, e do sacrifício que sua escolha destinou. Nenhuma outra raça pode percorrer este caminho, nosso caminho, por nós.

Pierce fala da tremenda responsabilidade e carga que seguir esse caminho exige da raça. Sua visão é uma visão cosmológica da “carga do homem branco”: A aceitação de nossa verdade não somente nos sobrecarrega com a responsabilidade que outros homens têm evitado através da história, isso nos confere um manto de autoridade moral que vai junto da responsabilidade, a autoridade moral para fazer o que seja necessário na realização da nossa responsabilidade. Além disso, é uma aceitação do nosso destino, um destino ilimitado, um destino glorioso além da imaginação, se nós verdadeiramente tivermos coragem das nossas convicções. Se nós verdadeiramente aguentarmos as demandas que nossa verdade exige de nós, significa que enquanto outros homens continuam vivendo somente pelo dia, continuam procurando somente a auto-gratificação, e continuam a viver vidas que são essencialmente sem significado e que não deixam qualquer vestígio atrás deles quando desaparecerem, nós estamos vivendo e trabalhando para a causa da eternidade. Sendo assim, estamos nos tornando uma parte desta eternidade.

Satisfeito de que encontrou uma base filosófica para seu movimento, Pierce levou as coisas a um passo adiante e declarou o Cosmoteísmo como religião. Em 1976 ele fundou a “Igreja da Comunidade Cosmoteísta”. Nove anos mais tarde Pierce adquiriu cerca de 400 acres em Mill Poiint, West Virginia, como um local para a National Alliance e sai igreja Cosmoteísta. Ele aparentemente tentou ter as terras declaradas isento dos impostos federais, estatais, e locais, no argumento de que era uma Igreja, e teve de ser usado exclusivamente para as atividades relacionadas ao Cosmoteísmo (o resto das terras foi usado para operações da National Alliance).

Pierce continuou demonstrando suas idéias Cosmoteístas em três mais ensaios: “The Path” (1977), “ON Living Things” (1979) e “ON Society”(1984). Nesses ensaios ele adotou um tom misterioso que se assemelha à Bíblia ou o Assim Falou Zaratustra de Nietzsche. “The Path”, por exemplo, começa com as palavras “A VIDA É CURTA, nossos irmãos e irmãs. Deveria também ser vazia? Deveria também ser amarga? Deveria passar pelo terror?” As idéias expostas nesses ensaios não amplificam grandiosamente aqueles estabelecimentos em “Our Cause”. Contudo, em “The Path” é colocada grande ênfase na idéia da divinização potencial do homem (branco) através da sabedoria do todo:

O homem permanece entre o homem sub-humano e o superior, entre a consciência imanente e desperta, entre a inconsciência de sua identidade e sua missão e o estado de Consciência Divina. Alguns homens cruzarão o limiar, e outros não. Aqueles que atingem a Consciência Divina ascenderão ao Caminho da Vida em direção ao seu Destino, que é a Divindade; que é dizer, o Caminho da Vida lidera para cima através de uma sucessão de estados intermináveis, o próximo do qual é o homem superior, e o ultimato do Criador auto-realizado...O eterno nada é o destino daqueles que estão espiritualmente vazios. Mas aquele que alcançou um estado de Consciência Divina participa da imortalidade do Todo na forma de homem superior: seu corpo perece, mas seu espírito permanece com o Todo (“The Path”).

Isso faz parecer que Pierce acredita na imortalidade da alma. Sem dúvidas, em um nível, ele quis que alguns de seus seguidores acreditassem que é fato o que diz o Cosmoteísmo. Ele torna claro, entretanto, que essa “imortalidade” é atualmente alcançada através da continuação da raça e sua missão cósmica:

Aquele que é um membro da Comunidade da Divina Consciência não é aniquilado pela morte, porque sua consciência é uma com a Comunidade. Enquanto a Comunidade vive, sua consciência vive; e enquanto a Comunidade serve o Propósito Verdadeiro, aquele que serve o Propósito antes de perecer seu corpo serve na eternidade...A Comunidade da Divina Consciência é a Comunidade dos Despertos, a Comunidade dos Ascensores do Caminho, a Comunidade do Povo da Runa da Vida, a Comunidade dos Ordenados.

“On Living Things” enfatiza a natureza hierárquica da vida; como algumas criaturas – assim como alguns homens – são mais avançadas e mais capazes em servir o Verdadeiro Propósito que outras. “On Society” estabelece os pensamentos de Pierce na organização básica da sociedade. Aqui, como se pode esperar, ele enfatiza que o principal papel do governo é a proteção da raça. E isso requer uma certa crueldade. Pierce escreve: “Se um homem ensina outros de que a mistura de raças é permitida ou de que todos homens são de igual valor ou de que a vida não tem propósito, então a Comunidade deve torna-lo um fora-da-lei e expulsá-lo” (“On Society”). Contudo, a raça não é protegida como um fim em si mesmo: seu futuro é seguro, então pode continuar a cumprir sua missão cósmica.

Agora, o que quer que se pense de Pierce e suas visões políticas, é uma teoria fascinante, audaciosa, e estranha. Não é de jeito algum original, entretanto. Essencialmente, o Cosmoteísmo é idêntico (de forma mais ampla) à filosofia de G. W. F. Hegel – até ao componente racialista. O Cosmoteísm é, em verdade, uma teoria filosófica que Pierce escolheu para formar uma religião.

Mas considerando primeiro como uma filosofia (e pondo Hegel de lado), que evidência há para apoiar o Cosmoteísmo? Pierce, de fato, não apresenta argumentos para os princípios do Costmoteísmo. Ele não apresenta argumentos ao quê deveria se considerar “o todo” como Deus. O Cosmoteísmo não está sobre uma base de argumentos. É uma visão – uma grande visão – a qual nós concordamos ou não.

Assim, na análise final pode realmente ser melhor ver o Cosmoteísmo como religião do que como filosofia. Mas aqui há alguns sérios problemas.

Primeiro de tudo, o Cosmoteísmo é realmente uma forma de monoteísmo, e exibe muitos dos mesmos problemas que vemos em outras religiões monoteístas. O principal entre estes é uma concepção abstrata superior de Deus divorciada da experiência vivida, e divorciada da natureza. De acordo com o Cosmoteísmo, não encontramos Deus dentro da natureza (como acontece no paganismo de nossos ancestrais). A natureza é uma ‘parte do todo”, mas não o todo em si mesmo. Dessa forma, o Deus do Cosmoteísmo transcende a natureza e os sentidos inteiramente. Com relação a isso, o Cosmoteísmo é efetivamente uma forma pior de monoteísmo que o judaísmo, cristianismo, e islamismo, desde que apresenta-nos com Deus completamente sem qualquer propriedade pessoal. Pior ainda, um Deus “iincompleto” no qual devemos colocar acabamentos finais. Isso é verdadeiramente um “Deus dos filósofos” e não religião. Não é uma sorte de coisas que poderiam ser acreditadas (deixar compreendido) por pessoas de todos os caminhos da vida.

Mais, há mais semelhanças entre o Cosmoteísmo e a tradição Jucaico-cristã pelo simples fato de que ambas são monoteístas. O Cosmoteísmo de Pierce fala de uma raça específica portadora de uma missão especial frente a Deus. O que isso nos pode lembrar do pacto de Deus com os israelitas, o Povo Escolhido? De fato, certas formas de Cabala judaica atualmente clamam que é missão dos judeus “completar” a criação de Deus através da Lei. Recentemente, o escritor israelita Mordekhay Nesiahy formulou um tipo de versão secularizadora dessa doutrina, que ele efetivamente nomeou de “Cosmoteísmo”! (Eu não imagino que William Pierce soube disso, mas se ele não soube, estou certo de que ele acharia preocupante).

Em suma, a teoria de Pierce está muito inserida no espírito judaico-cristão. É monoteísta. Vê um povo particular como (de fato) entrar em um pacto especial com Deus e desempenhar um papel de importância cósmica. Tem uma concepção linear de tempo: ergue a história do progresso científico a uma dimensão sagrada. Ainda promete um tipo de imortalidade aos membros da raça que aceitarem essa missão e tomarem parte nela. Se achamos a tradição judaico-cristã problemática, então devemos achar teorias como o Cosmoteísmo problemático também.

E, como a cristandade, o Cosmoteísmo é de fato uma religião universalista. Agora, isso parecerá estranho clamar desde que Pierce ofereceu como uma religião étnica – uma religião para brancos, exclusivamente. Mas consideraramos o seguinte. Pierce certamente tem conhecimento de que há membros de outras raças que têm habilidade em avançar no conhecimento científico. Ele parece argumentar que seus números são pequenos, mas teria que conceber que existem. Nos termos de Pierce, tais não-brancos são portanto capazes de desempenhar um papel na “completude de Deus”.

Se brancos adotaram o Cosmoteísmo, eventualmente – longe no futuro – esse ponto seria feito. Eventualmente os filhos e filhas adolescentes demasiado devotos de ricos Cosmoteístas brancos argumentariam que é injusto excluir fulano de tal do grande projeto cósmico desde que, depois de tudo, não é excepcional? Ele não provou ser um dotado físico, ou o que vocês tem? Ele não pode ajudar a avançar a auto-consciência do Criador? E nesse caminho o que começou como uma religião étnica seria transformado em universalista.

Mas vamos colocar à parte os detalhes da teoria Cosmoteísta e considerar primeiro o fato extraordinário que foi colocado, sobretudo. Quando fazemos, achamos que o Cosmoteísmo de Pierce – por todos seus defeitos – revela algo muito incomum sobre o povo branco. Pierce chegou ao Cosmoteísmo como um resultado de sua realização de que necessitou para oferecer ao povo branco uma justificação para salvar a raça. Se pararmos e pensarmos sobre isso, deveria parecer peculiar. Outros povos não parece necessitar de “justificativa” protegendo e preferindo a si próprios. Eles simplesmente sentem uma afinidade natural pelo seu próprio tipo e desejam promover os interesses de outros como a si mesmos.

Uma raça ou etnia é simplesmente um grupo de pessoas geneticamente semelhantes. Assim é uma famílias. Suponha que um homem necessita de uma “justificação” para preferir sua própria família à outras ou por proteger sua família e promover seus interesses. Suponho que Joh Smith viu sua esposa e crianças em um mau caminho e disse “Podem dar-me alguma boa razão para protege-los? Vocês merecem?”. Ou suponha que quando confrontado com a necessidade de providenciar a eles seu futuro ele disse “Mas por que eu deveria deixar meu dinheiro pela minha própria família, e não de alguém mais? Talvez algumas outras famílias merecem mais”. Consideraríamos um homem assim estranhamente torcido e defeituoso. Pensaríamos que ele está esquecendo de algo muito importante. E esse algo é, claro, um sentimento de amor a si mesmo – algo sentido por muitas pessoas na ausência de qualquer “justificações” ou argumentos racionais.

Em um nível, o Cosmoteísmo de Pierce e sua convicção de que é necessário revelar algo muito singular sobre o povo branco europeu: ele tem uma tendência a sentir que deve justificar sua própria existência, de uma forma ou outra. Para estar certo, não é a verdade de todos. Mas geralmente a maior inteligência e sua capacidade para razão abstrata (especialmente razão em termos de princípios morais) quanto mais ele sente que para amar seu próprio povo e protege-lo, seu povo deve ser digno de amar e digno de proteger. De novo, minha impressão é de que não é tão verdade dos outros povos – ainda a intelligentsia de outros povos. Eles parece ser uma tendência forte para identificar com e promover os interesses do seu próprio povo, simplesmente porque são um como os outros. Isso é, sem dúvida, uma mentalidade muito mais saudável – pelo menos se se pensar que a sobrevivência e florescer do seu próprio grupo é um valor.

Se quer dizer a William Pierce, “Se sua missão é salvar sua raça, por que não encoraja eles a serem como outros povos e amar seu próprio simplesmente porque é seu próprio? Por que não estabelece essa grande visão filosófica (ou religiosa) – aberta a uma série de consultas e objeções – e tem tudo articulado naquilo?” Mas a resposta é, de novo, que os brancos europeus são diferentes. Necessitando ser dignos de serem salvos, necessitando de uma missão que nos justifica, é simplesmente parte da natureza. Não há como contornar isto. Certamente, é uma fenda terrível. Claro, se pode também argumentar que é uma grande virtude. De qualquer forma, parece que nós europeus estamos presos nisto.

E assim podemos imaginar Pierce respondendo à crítica acima dizendo “Tudo bem, se não o Cosmoteísmo, então o quê?” É uma excelente questão, para a qual eu não tenho resposta.

O Peronismo Será Revolucionário ou Não Será Nada

por Evita Perón



Em meu país o que se estava por fazer era nada menos que uma Revolução.

Quando a "coisa por fazer" é uma Revolução então o grupo de homens capazes de percorrer este caminho até o fim se reduz às vezes ao extremo de desaparecer.

Muitas revoluções foram iniciadas aqui e em todos os países do mundo. Porém uma Revolução é sempre um caminho novo cujo percurso é difícil e não é feito senão para os que sentem a atração irresistível das iniciativas arriscadas.

Por isso fracassaram e fracassam todos os dias revoluções desejadas pelo povo e ainda realizadas com seu apoio total.

Um dia me disseram que era demasiado peronista para que pudesse encabeçar um movimento das mulheres de minha Pátria. Pensei muitas vezes nisso e ainda que de imediato senti que não era verdade, tratei durante algum tempo de chegar a saber por que não era não era nem lógico nem razoável.

Agora creio que posso dar minhas conclusões.

Sim, sou peronista, fanaticamente peronista.

Demasiado não, demasiado seria se o peronismo não fosse como é, a causa de um homem que por se identificar com a causa de todo um povo possui um valor infinito. E ante uma coisa infinita não se pode levantar a palavra "demasiado".

Perón diz que sou demasiado peronista porque ele não pode medir sua própria grandeza com a vara de sua humildade.

Os outros, os que pensam, sem me dizer, que sou demasiado peronista, esses pertencem à categoria dos "homens comuns". E não merecem resposta!

Uns poucos dias ao ano, represento o papel de Eva Perón; e nesse papel creio que me desempenho cada vez melhor, pois não me parece difícil nem desagradável.

A imensa maioria dos dias sou ao invés Evita, ponte estendida entre as esperanças do povo e as mãos realizadores de Perón, primeira peronista argentina, e este sim me resulta papel difícil, no qual nunca estou totalmente contente comigo.

De Eva Perón não interessa que falemos.

O que ela faz aparece demasiado profusamente nos diários e revistas de todas as partes.

Em câmbio, sim interessa que falemos de "Evita"; e não porque sinta nenhuma vaidade em sê-lo senão porque quem compreenda a "Evita" talvez encontre logo facilmente compreensíveis os seus "descamisados", o próprio povo, e esse nunca sentirá mais do que é...nunca se converterá portanto em oligarca, que é o pior que pode suceder a um peronista!

Eu sei que quando eles me criticam no movimento, o que no fundo lhes dói é a Revolução.

Perón e Perón cumprirão com seu povo.

Enquanto isso possa ocorrer, eles não voltarão.

Por isso tratam de me destruir.

Sabem também que não trabalho para mim, não me verão jamais buscando uma vantagem pessoal e isso os sobressalta.

Desejariam ver-me cair no egoísmo e na ambição, para demonstrar assim ao povo que no povo busquei a mim mesma.

Sabem que assim poderiam me separar do povo. Não entendem que eu em meus afãs não busco outra coisa que o triunfo de Perón e de sua causa por ser o triunfo do próprio povo.

Nem mesmo quando me aproximo dos que trabalham ou dos que sofrem o faço buscando uma satisfação egoísta de quem faz algum sacrifício pessoal.

Eu me esforço todos os dias para eliminar de minha alma toda atitude sentimental frente os que me pedem.

Não quero ter vergonha de mim perante eles. Vou a meu trabalho cumprindo meu dever e para dar satisfação à justiça.

Nada de lirismo nem de charlatanismo, nem de comédias, nada de poses nem de romances.

Nem quando entro em contato com os mais necessitados ninguém poderá dizer que faço o papel da dama caridosa que abandona seu bem-estar por um momento para figurar que cumpre uma obra de misericórdia.

Do próprio Perón, que sempre costuma dizer: "o amor é a única coisa que constrói", eu aprendi o que é uma obra de amor e como ela deve ser cumprida.

O amor não é - segundo a lição que aprendi - nem sentimentalismo romântico, nem pretexto literário.

O amor é dar-se; e "dar-se" é dar a própria vida.

Enquanto não se dá a própria vida, qualquer coisa que se dê é justiça. Quando se começa a dar a própria vida então se começa a fazer uma obra de amor.

Para mim, por isso, descamisado é o que se sente povo. O importante é isso; que se sinta povo e ame e sofra e goze como povo, ainda que não vista como povo, que isso é o acidental.

Um oligarca empobrecido poderá ser materialmente descamisado porém não será um descamisado autêntico.

Aqui também me declaro inimiga das formas, segundo o que estabelece a doutrina peronista.

Para mim, os operários são por isso, em primeiro lugar, descamisados: eles estiveram todos na Praça de Maio aquela noite. Muitos estiveram materialmente; todos estiveram espiritualmente presentes.

Nem todos os descamisados são operários, porém, para mim, todo operário é um descamisado; e eu não esquecerei jamais que a cada descamisado devo um pouco da vida de Perón.

Em segundo lugar, eles são parte integrante do povo; desse povo cuja causa ganhou meu coração desde muitos anos.

E em terceiro lugar, são as forças poderosas que sustentam a estrutura sobre cujo esqueleto se levanta o edifício mesmo da Revolução.

O movimento peronista não poderia se definir sem eles.

Sou sectária, sim. Não o nego; e já o disse. Porém, poderá alguém negar esse direito? Poderá negar-se aos trabalhadores o humilde privilégio de que eu esteja mais com eles do que com seus patrões?

Se quando eu busquei amparo em meu amargo calvário de 1945, eles, somente eles, me abriram as portas e me estenderam uma mão amiga?

Meu sectarismo é ademais um desagravo e uma reparação. Durante um século os privilegiados foram os exploradores da classe operária. Faz falta que isso seja equilibrado com outro século no qual os privilegiados sejam os trabalhadores!

Quando passe este século creio que terá chegado o momento de tratar com a mesma medida aos operários e aos patrões, ainda que suspeito que já para então o Justicialismo terá conseguido seu ideal de uma única classe de homens, os que trabalham.

Um pouco é o inconsciente culpável que não os quer deixar ver bem e a fundo a realidade total.

E outro pouco é por aquilo que disse da própria pobreza que se esconde.

Os desprevenidos visitantes que passeiam por ali verão ranchos de palha e barro, casinhas de latão, alguns vasos de flores e algumas plantas, ouvirão algum canto mais ou menos alegre, o barulho das crianças bricando nos terrenos baldios...e por acaso lhes ocorrerá pensar que tudo isso é poético e talvez romântico.

Pelo menos frequentemente ouvi dizer que se trata de bairros "pitorescos".

E isso me pareceu a expressão mais sórdida e perversa do egoísmo dos ricos.

Pitoresco é para eles que homens e mulheres, velhos e crianças, famílias inteiras devam habitar casas piores que os túmulos de qualquer rico, medianamente rico!

Eles não veem jamais, por exemplo, o que ocorre ali quando chega a noite.

Ali onde quando há cama muitas vezes não há colchões, ou vice-versa; ou onde simplesmente há uma só cama para todos...! E todos sendo sete ou oito ou mais pessoas: pais, filhos, avós...!

Os pisos dos ranchos, casinhas e bordéis costumam ser de terra limpa.

Pelos tetos costumam infiltrar-se a chuva e o frio...! Não somente a luz das estrelas, que isso seria o poético e o romântico!

Ali nascem os filhos e com eles se agrega à família um problema que começa a crescer.

Os ricos todavia creem que cada filho traz, segundo um velho provérbio, seu pão debaixo do braço; e que onde comem três bocas há também para quatro. Como se vê que nunca viram de perto à pobreza!

O mundo tem riqueza disponível como para que todos os homens sejam ricos.

Quando se faça justiça não haverá nenhum pobre, pelo menos entre os que não quiserem sê-lo.

Por isso sou justicialista...

Por isso não tenho medo de que as crianças de meus lares se acostumem a viver como ricos, com tal de que conservem a alma que trouxeram: alma de pobres, humilde e limpa, simples e alegre...!

No que as obras são minhas é no selo de indignação perante a injustiça de um século amargo para os pobres.

Dizem por isso que sou uma "ressentida social".

E tem razão meus "super críticos". Sou uma ressentida social. Porém meu ressentimento não é o que eles creem.

Eles creem que se chega ao ressentimento unicamente pelo caminho do ódio... Eu cheguei a esse mesmo lugar pelo caminho do amor.

E não é um jogo de palavras. Não.

Eu luto contra todo privilégio de poder ou de dinheiro. Vale dizer contra toda oligarquia, não porque a oligarquia me tenha tratado mal alguma vez.

Ao contrário! Até chegar ao lugar que ocupo no movimento peronista eu não lhe dava mais que "atenções". Inclusive algum grupo representativo de damas oligarcas me convidou a integrar seus altos círculos.

Meu "ressentimento social" não me vem de nenhum ódio. Senão do amor: do amor por meu povo cuja dor abriu para sempre as portas de meu coração.

Ademais eu fui sempre desordenada em minha maneira de fazer as coisas; me agrada a "desordem" como se a desordem fosse meu meio normal de vida. Creio que nasci para a Revolução. Vivi sempre em liberdade. Como os pássaros, sempre me agradou o ar livre do bosque. Nem mesmo pude tolerar essa certa escravidão que é a vida na casa paterna, ou a vida - no povoado natal... Muito cedo em minha vida deixei meu lar e meu povo, e desde então sempre fui livre. Quis viver por minha conta e vivi por minha conta.

Por isso não poderei jamais ser funcionária, que é atar-se a um sistema, encadear-se à grande máquina do Estado e cumprir ali todos os dias uma função determinada.

Não. Eu quero seguir sendo pássaro livre no bosque imenso.

Me agrada a liberdade como ela agrada ao povo, e nisso como em nenhuma outra coisa me reconheço povo.

Não importa que ladrem.

Cada vez que eles ladram nós triunfamos.

O mal seria que nos aplaudissem! Nisso muitas vezes se vÊ todavia que alguns dos nossos conservam velhos preconceitos.

Costumam dizer por exemplo:

Não se dão conta de que aqui, em nosso país, dizer "oposição" significa ainda dizer "oligarquia". E isso vale como se disséssemos "inimigos do povo".

Se eles estão de acordo, cuidado, com isso não deve estar de acordo o povo.

Desejaria que cada peronista gravasse este conceito no mais íntimo da alma; porque isso é fundamental para o movimento.

Nada da oligarquia pode ser bom!

Não digo que possa haver algum "oligarca" que faça alguma coisa boa... É difícil que isso ocorra, porém se ocorresse creio que seria por equívoco. Conviria lhe avisar que se está fazendo peronista!

E conste que quando falo de oligarquia me refiro a todos os que em 1946 se opuseram a Perón: conservadores, radicais, socialistas e comunistas. Todos votaram pela Argentina do velho regime oligárquico, entreguista e vende-pátria.

Desse pecado não serão redimidos jamais.

A Razão de minha Vida.

A história é também criação dos povos, porque se os povos sem condutores quase não avançam na história, tampouco a história não avança nunca sem grandes povos, ainda que tenham grandes condutores, porque estes sucumbem por falta de colaboração, às vezes por covardia e às vezes por incompreensão.

Nós encontramos ao "homem"; não temos já mais que um só problema: que quando o homem se vá, como diz nosso Líder, a doutrina fique, para que seja a bandeira de todo o povo argentino.

Não há de ser a aspiração do povo argentino - e acima de tudo a nossa de peronista, a quem me dirijo ao falar nessa classe - a de trabalhar com roupa feita.

Nós queremos uma obra de arte, e as obras de arte não se vendem em série, senão que são obras de um artista que as criou. Portanto, não se podem comprá-las a mais, nem fabricá-las todos os dias.

Os críticos da história dizem que não se pode escrever a história nem falar dela se isso é feito com fanatismo, e que ninguém pode ser historiador se deixa-se dominar pela paixão fervorosa de uma causa determinada. Por isso eu me excluo de antemão. Eu não quero, em realidade, fazer história, ainda que a matéria se chame assim. Eu não poderia renegar jamais de meu fanatismo apaixonado pela causa de Perón.

Vocês terão visto que Eva Perón jamais fez uma questão pessoal.

E como sei que é desgraçado aquele que não se equivoca nunca porque não faz anda, quando me equivoquei reconheci imediatamente o erro e me retirei, para que não fosse eu a causa de um erro que pudesse prejudicar o movimento. Assim devem ser vocês, honrados para reconhecer quando se equivocam, e honrados e valentes para fazer chegar, em qualquer momento, a todos os peronistas, a voz sincera, valente e doutrinária de nossa causa. Há de ser grande a causa do General, quando nós, em lugar de nos submeter e nos conformar com os velhos "comitês" escutando a voz do Líder, formamos unidades básicas da Nova Argentina na vida política, tanto no que se refere aos companheiros como às companheiras. Porém não nos conformamos com isso, nós peronistas, porque o general Perón é homem de criações e realizações. É por isso que se criou essa Escola Superior Peronista, para estabelecer mentes, para que conheçam, sintam e compreendam mais ainda, se possível, essa doutrina, da qual alguns de vocês serão os realizadores, e outros, como disse nosso querido Presidente e Líder, os pregadores, que irão por todos os caminhos empoeirados da Pátria disseminando as verdades dessa Nova Argentina e de um gênio ao qual devemos aproveitar.

Não se esqueçam que - segundo disse Napoleão - os gênios são um meteoro que se queima para iluminar um século.

Em meio a esse mundo pleno de sombras em que se levanta essa voz justicialista que é o peronismo, parecerera que a palavra justicialista assusta a muitos homens que levantam tribunas como defensores do povo, muito mais que o comunismo. Eu pensava nesses dias, em uma conferência que me coube presidir, se o mundo quererá de verdade a felicidade da humanidade ou só aspira lhe fazer a jogada um pouco carnavalesca e sangrenta de utilizar a bandeira do bem para satisfazer interesses mesquinhos e subalternos. Nós temos que pensar, e chamar um pouco à reflexão à humanidade acima de tudo aos homens que tem a responsabilidade de dirigir os povos. Pelo que sei o carnaval não dura mais que três dias ao ano, e portanto, é necessário que retiremos as caretas e que olhemos bem para a realidade, não fechando os olhos para ela, e que a vejamos com os olhos que a vê Perón, com os olhos do amor, da solidariedade e da fraternidade, que é a única coisa que pode construir uma humanidade feliz. Para isso é necessário que não repitamos a sangrenta palhaçada que a fizeram os "defensores" do povo aos trabalhadores. Por exemplo, durante 30 anos se erigiram em defensores deles e estiveram seguindo um capitalismo cru, sem pátria nem bandeira; quando uma mulher da América levanta a voz para dizer a palavra justicialista, se escandalizam como se tivessem pronunciado a pior das ofensas que se possa dizer.

Quando olho para Perón me sinto povo, e por isso sou fanática do General; e quando olho para o povo me sinto esposa do General, e então sou fanática do povo.

O movimento popular dos descamisados do 17 de outubro não é grande somente por si mesmo, senão também por suas consequências.

Desde esse dia o povo tem consciência de seu valor e de sua força.

Sabe que ele pode impor sua vontade soberana em qualquer momento, sempre que mantenha organizados os quadros de seus agrupamentos sindicais. Porque essa é a única força com que o povo argentino poderá manter sua soberania frente qualquer eventualidade.

Porque Perón terá realizado a revolução por causas que não são as que perseguiam outros companheiros seus.

Os demais acreditavam que as causas da revolução eram a fraude e a imoralidade na administração pública, e os círculos políticos que não se ocupavam do país, senão de seguir no governo a qualquer preço e a qualquer custo.

Perón via mais além.

Se tudo tivesse consistido somente nisso, a revolução teria cumprido com o povo em muito pouco tempo. Com uma simples reforma política se consertava tudo.

Porém isso seria ver o problema muito superficialmente, pois se bem era um problema fundamental a fraude com que se teria enganado o povo por tanto tempo; se bem era um problema sério para os governos anteriores a imoralidade administrativa, o problema mais sério - e ainda o mais agravante para o povo - era a exploração do homem pelo homem e, por outra parte, a entrega constante da Pátria à potência estrangeira que pagasse mais.

Porém, para desgraça dos argentinos, não só se vendia a Pátria; se rendia fidelidade às potências com o só fim de ter amigos importantes no estrangeiro.

Isso era mais fundamental.

Por que temos os justicialistas tão fervorosa admiração, respeito e carinho pelos povos, qualquer seja sua raça, seu credo, sua bandeira?

Por várias razões, todas muito simples: porque os povos tem o sentido inato da justiça.

Por isso Perón sustenta que, para suprimir as guerras injustas, os governos devem consultar seus povos.

Se o povo fosse consultado não haveria guerras porque quase todas são injustas.

Nós, os justicialistas, não estamos contra as guerras quando se luta pela justiça. Porém, desgraçadamente, nesse mundo muito pouco ou nada se há lutado pela justiça.

Se há lutado sempre por interesses econômicos, e muitas vezes por imperialismos que são alheios a nós, já que somente nos interessa a justiça dos povos.

Os povos levam em si mesmos, todos sem exeção, sentimentos de generosidade, de amor, de altruísmo, de solidariedade. Daí o êxito que tem, nos povos, as doutrinas generosas.

Muitas vezes me ouviram falar de Perón nessas classes. Eu sei que tive que fazer sofrer o General em sua humildade, dizendo em sua presença coisas que dirão dele cem gerações de argentinos, bendizendo seu nome.

Me antecipei à história, nada mais, e interpretei nosso grande povo argentino, aos humildes.

Cheguei a dizer que Perón é o compêndio maravilhoso das melhores e mais altas virtudes que adornaram a alma de todos os gênios que teve a humanidade.

Talvez alguém haja pensado que eram exageros, produto de meu fanatismo - e isso entre nós - porque os de fora drião que estou a ponto de perder o equilíbrio, ou que estou completamente desequilibrada. Se o sábio não aprova, mal; porém se o néscio aprova, pior. Assim é que, quanto mais me combate ou nos combatem, mais seguro estamos de ir pela senda do bem e caminhando para um futuro melhor.

Sou jovem e com um marido maravilhoso, respeitado, admirado e amado pelo seu povo.

Me encontro na melhor das situações.

Esse é o caminho fácil, o de macadame.

Eu quero a selva e a incógnita.

Sabem por quê? Porque a selva e a incógnita é defender à Nação, ainda que nós caiamos. Poderão apagar o General e a mim, porém não poderão apagar com o tempo o fato de que, podendo escolher o caminho fácil e a porta larga da história, escolhemos a selva para abrir horizontes e caminhos com um afã extraordinário de unidade nacional.

Acima de tudo o dos peronistas, que é o da maioria do povo, queimando nossas vidas, deixando diariamente migalhas de trabalho, de esforço, de sacrifício e de amarguras.

É que creio que somente com fanáticos triunfam os ideais, com fanáticos que pensem e que tenham a valentia de falar em qualquer momento e em qualquer circunstância que se apresente, porque o ideal vale mais que a vida, e eqnaunto não se há dado tudo por um ideal, não se há dado nada.

E tudo é a vida mesma.

Demasiado intranscendente e medíocre seria viver a vida se ela não fosse vivida por um ideal.

Os homens de nosso tempo, mais que os de todos os tempos da história, necessitam de quem lhes assinale um caminho; porém exitem que quem os queira conduzir tenha algo mais que boas e grandes idéias.

Necessitam de um condutor extraordinário.

Os homens desse século, talvez por terem sido tão enganados, necessitam de gênios para crer, porque então eles verão os olhos de seu condutor e mestre, ouvirão pelos ouvidos dele e falarão por seus lábios.

E assim expressaremos ao mundo uma verdade justicialista, e muitas gerações, não já de argentinos, senão de homens de todas as latitudes, nos bendirão por termos tido nós a valentia de acompanhar um homem que nasceu nesse pedaço de terra argentina.