domingo, 18 de agosto de 2013

Jean Bricmont - A Esquerda Fantasiosa

por Jean Bricmont



Os Agentes Desavisados da Ordem Imperial

Há muito tempo atrás, no início da década de 70, muitas pessoas, incluindo eu mesmo, achávamos que todas as "lutas" daquele período estavam ligadas: a Revolução Cultural na China, as guerrilhas na América Latina, a Primavera de Praga e os "dissidentes" do leste europeu, o maio de 68, o movimento dos direitos civis, a oposição à guerra do Vietnã, e os movimentos anticoloniais nominalmente socialistas na África e na Ásia. Nós também achávamos que os regimes "fascistas" na Espanha, Portugal e Grécia, por analogia com a Segunda Guerra, só poderiam ser derrubados pela luta armada, muito provavelmente protraída.

Nenhuma dessas suposições estava correta. A Revolução Cultural não tinha nada que ver com os movimentos anti-autoritários no Ocidente, os dissidentes do leste europeu eram, em geral, pró-capitalistas e pró-imperialistas, e muitas vezes o eram fanaticamente, as guerrilhas latinoamericanas foram um sonho impossível (exceto na América Central) e os movimentos de liberação nacional foram simplesmente isso: eles (muito justamente) desejavam a liberação nacional e se chamavam socialistas ou comunistas apenas por causa do apoio que lhes era oferecido pela URSS ou pela China. Os regimes "fascistas" do sul da Europa se transformaram sem oferecer resistência séria, quanto menos uma luta armada. Muitos outros regimes autoritários seguiram o mesmo rumo: na Europa Oriental, na América Latina, na Indonésia, na África e agora em parte do mundo árabe. Alguns se desintegraram por dentro, outros após alguns protestos.

Eu fui lembrado de algumas dessas ilusões juvenis quando li uma petição "em solidariedade com os milhões de sírios que tem lutado por dignidade e liberdade desde março de 2011", cuja lista de signatários inclui um verdadeiro "quem é quem" da esquerda ocidental. A petição afirma que "A revolução na Síria é parte fundamental das revoluções norte-africanas, e ainda assim é também uma extensão da revolta zapatista no México, do movimento dos sem-terra no Brasil, das revoltas contra a exploração neoliberal na Europa e na América do Norte, e um eco dos movimentos por liberdade no Irã, na Rússia e na China".

Os signatários é claro demandam a saída imediata do poder de Bashar al-Assad, o que se supõe ser a única "esperança de uma Síria livre, unificada e independente". Eles também caracterizam a Rússia, a China e o Irã como estando em "apoio ao massacre do povo", ainda que eles sejam "supostamente amigos dos árabes"; eles reconhecem que "os EUA e seus aliados no Golfo tem intervindo em apoio aos revolucionários", mas os culpam por "tê-lo feito apenas por um interesse próprio claramente cínico" e por tentarem "esmagar e subverter o levante". Não está claro como isso é compatível com a próxima linha do texto, que afirma que "potências globais e regionais tem deixando o povo sírio sozinho".

O desfecho da petição consiste em afirmações grandiloquentes de "solidariedade" de "intelectuais, acadêmicos, ativistas, artistas, cidadãos preocupados e movimentos sociais", "com o povo sírio para enfatizar a dimensão revolucionária de sua luta e para impedir as batalhas geopolíticas e guerras subsidiárias que ocorrem em seu país". Nada menos!

Vale a pena analisar essa petição em detalhes, porque ela resume muito bem tudo que há de errado no pensamento esquerdista mainstream de hoje e tanto ilustra quanto explica por que não há mais esquerda no Ocidente. O mesmo tipo de pensamento dominou o pensamento da esquerda ocidental durante as guerras do Kosovo e da Líbia, e em alguma medida durante as guerras no Afeganistão ("solidariedade com as mulheres afegãs") e no Iraque ("eles estarão melhor sem Saddam").

Em primeiro lugar, a apresentação dos fatos sobre a Síria é bastante duvidosa. Eu não sou nenhum especialista na Síria, mas se o povo está tão unido contra o regime, como é que ele resiste há tanto tempo? Tem havido relativamente poucas deserções no exército ou no corpo diplomático e político. Dado que a maioria dos sírios é sunita e que o regime é constantemente representado como dependendo do apoio da "seita alauíta", algo deve estar faltando na narrativa síria.

Depois, gostemos ou não, as ações da "Rússia, China e Irã" na Síria tem estado em acordo com o Direito Internacional, diferentemente das dos "EUA e seus aliados no Golfo". Desde o ponto de vista do Direito Internacional, o atual governo sírio é legítimo e responder a seu pedido de ajuda é perfeitamente legal, enquanto armar rebeldes não é. É claro, os esquerdistas que assinam a petição provavelmente objetarão a este aspecto do Direito Internacional, porque ele favorece governos contra insurgentes. Mas simplesmente imagine o caos que seria criado se cada Grande Potência estivesse armando os rebeldes de sua escolha por todo o mundo. Poder-se-ia criticar a venda de armas para "ditaduras", mas os EUA dificilmente estariam em posição de dar sermões ao mundo neste tópico.

Ademais, são "Rússia e China" que, por seu voto na ONU impediram outra intervenção direta americana, como a que houve na Líbia, a qual a esquerda ocidental, se opôs de maneira extremamente plácida, isso quando se opôs. Na verdade, dado que os EUA usaram a Resolução da ONU sobre a Líbia para realizar uma mudança de regime que a resolução não autorizava, não é natural que Rússia e China sintam que foram ludibriados na Líbia e digam: "nunca mais!" ?

A petição vê os eventos na Síria como uma "extensão da revolta zapatista no México, do movimento dos sem-terra no Brasil, das revoltas contra a exploração neoliberal na Europa e na América do Norte, e um eco dos movimentos por liberdade no Irã, na Rússia e na China", mas eles são cuidadosos em não ligá-los aos governos anti-imperialistas na América Latina, já que estes se situam radicalmente contra intervenções estrangeiras e em favor do respeito pela soberania nacional.

Finalmente, o que poderia fazer alguém acreditar que a partida "imediata" de Bashar al Assad levaria a uma "Síria livre, unificada e independente"? Os exemplos do Iraque e da Líbia não são suficientes para lançar dúvidas sobre tais pronunciamentos otimistas?

Isso nos traz a um segundo problema com a petição, que é sua tendência ao romantismo revolucionário. A esquerda ocidental hodierna é a primeira a denunciar os regimes "stalinistas" do passado, incluindo os de Mao, Kim Il Sung ou Pol Pot. Mas eles se esquecem que Lênin lutou contra o czarismo, Stálin contra Hitler, Mao contra o Kuomitang, Kim Il Sung contra os japoneses e que os dois últimos, bem como Pol Pot, lutaram contra os EUA? Se a história nos ensina algo, é que a luta contra a opressão não necessariamente transforma ninguém em santo. E dado que tantas revoluções violentas do passado se tornaram amargas, que razão há para crer que a "revolução" na Síria, cada vez mais tomada por fanáticos religiosos, emergirá como exemplo luminoso de liberdade e democracia?

Tem havido repetidas ofertas de negociação vindas da Rússia, da China e do Irã, bem como do "regime Assad" com a oposição bem como com seus financiadores (os "EUA e seus aliados no Golfo"). Não se deveria dar à paz e à diplomacia uma chance? O "regime sírio" modificou sua constituição; por que estar tão certo de que isso não poderia levar a um "futuro democrático", enquanto uma revolução violenta poderia? Não se deveria dar à reforma uma chance?

Porém, o principal defeito dessa petição, bem como com apelos similares da esquerda humanitária intervencionista no passado, é: com quem eles estão falando? Os rebeldes na Síria querem tantas armas sofisticadas quanto possível - nenhum signatário da petição poderá providenciá-las, e é difícil visualizar como a "sociedade civil global, e não governos ineficazes e manipuladores" poderia fazê-lo. Aqueles rebeldes querem que governos ocidentais lhes forneçam tais armas - eles não dão a mínima para o que a esquerda ocidental pensa. E esses governos ocidentais dificilmente sabem que a esquerda fantasiosa até mesmo existe. E se sabem, por que eles dariam ouvidos a pessoas sem qualquer apoio popular sério, e sem meios de pressionar governos? A melhor prova disso é dada pela causa a que tantos signatários tem devotado boa parte de suas vidas: a Palestina. Que governo ocidental presta atenção às demandas do "movimento de solidariedade palestina"?

Apenas porque a petição não tem efeito na Síria não quer dizer que ela não tenha efeito tout court. Ela enfraquece e confunde o que resta dos sentimentos antiguerra, ao enfatizar que "nossa" prioridade devem ser gestos vazios de solidariedade com uma rebelião que já é militarmente apoiada pelo Ocidente. Uma vez que a mentalidade é adquirida, se torna psicologicamente difícil fazer oposição à intervenção americana nas questões internas da Síria, já que intervenção é precisamente aquilo que os revolucionários que nós devemos "apoiar" querem (aparentemente, eles não notaram, diferentemente dos signatários, que o Ocidente quer "esmagar e subverter o levante"). É claro, defensores da petição dirão que eles não "apoiam" os extremistas mais violentos na Síria, mas quem exatamente eles estão apoiando então, e como? Ademais, a falsa impressão de que as "potências globais deixaram o povo sírio sozinho" (enquanto, na verdade, há um fluxo constante de armas e jihadistas para a Síria) vem parcialmente do fato de que os EUA não são idiotas o suficiente para arriscar uma Guerra Mundial, dado que a Rússia parece estar firme em seu apoio. O pensamento de que possamos estar à beira de uma Guerra Mundial nunca parece ocorrer a esses signatários.

Defensores da petição provavelmente dirão que "nós" devemos denunciar tanto o imperialismo ocidental quanto os regimes opressores contra os quais o "povo" se revolta. Mas isso só mostra a profundidade de suas ilusões: pra que afirmar fazer duas coisas ao mesmo tempo, quando não se é capaz de fazer nem uma, ainda que parcialmente?

Se essas petições são piores do que ficar sem fazer nada, então o que deveria a esquerda fazer? Em primeiro lugar, cuidar da própria vida, o que significa lutar em casa. Isso é muito mais difícil do que expressar uma solidariedade irrelevante para com um povo de terras longínquas. E lutar pelo quê? Paz através da desmilitarização do Ocidente, uma política não-intervencionista, e situar a diplomacia, e não as ameaças militares, no centro das relações internacionais. Incidentalmente, uma política não-intervencionista é defendida pelos libertários e pela direita paleoconservadora. Esse fato, ademais da invocação da história do pré-Segunda Guerra (a guerra civil espanhola, e os acordos de Munique), é usada constantemente pela esquerda para dar má fama ao anti-intervencionismo. Mas isso é balela: Hitler não está sendo constantemente ressuscitado de verdade, e não há quaisquer ameaças militares sérias confrontando o Ocidente. Na situação atual, é uma questão perfeitamente legítima para cidadãos americanos a de cortar os custos do Império.

Na verdade, seria perfeitamente possível estabelecer uma ampla coalizão esquerda-direita de pessoas opostas ao militarismo e ao intervencionismo. É claro, dentro dessa coalizão, as pessoas ainda podem discordar quanto ao casamento gay mas, importante quanto essa questão possa ser, ela talvez não deveria nos impedir de trabalhar conjuntamente em questões que também parece importantes para outras pessoas, tais como a paz mundial, a defesa das Nações Unidas e do direito internacional, e o desmonte do império de bases americanas. Ademais, não é improvável que uma maioria do público americano possa ser conquistada para essas posições de campanhas permanentes e bem organizadas fossem estabelecidas para persuadi-los. 

Mas é claro, o espírito da petição vai exatamente na direção contrária, na direção de mais envolvimento e intervenções americanas. Muitos signatários certamente pensam em si mesmos como anti-imperialistas e pacifistas, e alguns deles tiveram papel importante em opor guerras americanas anteriores. Mas eles não parecem ter notado que as táticas do imperialismo mudaram desde os dias dos movimentos de liberação nacional. Agora que a descolonização está completa (com a exceção da Palestina), os EUA estão atacando governos, e não movimentos revolucionários, que são considerados independentes demais. E, para fazê-lo, eles usam uma variedade de meios que são similares em suas táticas aos movimentos revolucionários ou progressistas do passado: luta armada, desobediência civil, ONGs financiadas por governos, revoluções coloridas, etc.

O último exemplo dessas táticas é a tentativa de governos ocidentais de usar a comunidade GLBT como tropas de choque ideológicas contra a Rússia e as Olimpíadas de Inverno, em um esforço transparente de desviar a atenção pública do fato embaraçoso de que, na questão Snowden, é a Rússia e não os EUA que estão ao lado da liberdade. É de se temer que a esquerda humanitária intervencionista pule no trem dessa nova cruzada. Porém, como Gilad Atzmon apontou, com seu estilo levemente provocador, é improvável que isso faça qualquer bem à comunidade GLBT na Rússia, já que esse tipo de apoio permite que seus oponentes os categorizem como portadores de influência estrangeira. Não é uma boa idéia para qualquer minoria, em qualquer lugar do mundo, ser vista como agente de uma potência hostil, e muito menos, de um governo tão odiado por sua arrogância e seu intervencionismo quanto a atual administração dos EUA. E incidentalmente, as pessoas que pedem pelo boicote dos Jogos de Inverno na Rússia não tiveram qualquer objeção a realizar os Jogos Olímpicos em Londres, o que implica que, a seus olhos, medidas anti-gay são um crime sério, enquanto guerras no Afeganistão e Iraque são meros pecadinhos.

Pessoas que sucumbem às ilusões do romantismo revolucionário ou que se aliam com o suposto mais fraco, independentemente da agenda deste, estão sendo instrumentalizadas pelas táticas do imperialismo hodierno. Mas aqueles que aspiram a uma ordem mundial mais pacífica e mais justa, e que creem que uma precondição dessa ordem é o enfraquecimento do imperialismo americano, veem facilmente por trás dessa camuflagem. Essas duas perspectivas diferentes dividem tanto a esquerda como a direita: intervencionistas liberais e neoconservadores de um lado, libertários, paleoconservadores e esquerdistas tradicionais do outro, e pode demandar novas e heterodoxas alianças.

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