sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Alberto Buela - Nacionalismos de Pátria Pequena

por Alberto Buela



Os nacionalismos americanos foram, paradoxalmente, produto de uma vontade ideológica alheia à América, a do Iluminismo filosófico.

Ainda quando o termo nacionalismo possui uma polissemia abundante é universalmente aceito que o nacionalismo é a ideologia do Estado-Nação e paradoxalmente é a partir desse primeiro e elementar enunciado do conceito que nos é apresentada a diferença substancial entre os diversos nacionalismos. Os velhos filósofos aconselhavam primeiro distinguir para logo unir. E a distinção primeira que exige nosso tema é entre nacionalismo europeu e nacionalismo hispanoamericano.

O Estado surge na Europa a partir da nação enquanto que, pelo contrário, em Nossa América o Estado cria a nação. Assim na Europa os movimentos linguísticos e filosóficos de cepa romântica do século XVIII aspiravam a formar Estados nacionais, pelo contrário, na América o movimento se realizou de forma inversa. A finalidade desse Estado-Nação de caráter republicano e liberal criado a princípios do século XIX será a criação das nações. Este Estado-Nação terá por ideologia o nacionalismo "de fronteiras para dentro", expressão dos localismos mais irredutíveis encarnados pelas oligarquias vernáculas, impermeáveis a uma visão continental. Os Estados independizados da Espanha como repúblicas chegam logo de devastadoras lutas civis recém ao final do século XIX a se transformarem em nações. Daí que a expressão histórica por antonomasia desse nacionalismo localista, filho putativo da Inglaterra, liberal em economia e conservador em política seja o nacionalismo "mitrista" argentino.

Os nacionalismos europeus foram imaginados sobre uma base étnica, linguística e geográfica comum enquanto que os nacionalismos americanos foram, paradoxalmente, produto de uma vontade ideológica alheia a América, a do Iluminismo filosófico. Sendo seus gestores políticos a Grã-Bretanha e seu Secretário de Estado George Canning que se apressou em reconhecer a independência dos novos Estados, logo do triunfo de Ayacucho (1824) sobre o último exército real.

Vemos pois, como esses nacionalismos de "pátrias pequenas" são dependentes da Europa tanto em sua gênese como em seu conteúdo. Isso explica em grande parte seu fracasso político reiterado. Carecem de encarnação popular. E são elitistas não por méritos próprios, já que carecem de nobres, senão porque sua ideologia conduz à exclusão do outro.

Esses nacionalismos de invenção européia surgidos ante a quebra da cristandade por causa da reforma protestante, "vieram a preencher o vazio deixado pelo enfraquecimento da religião cristã e o sentido de segurança dos povos em um mundo secularizado". Isso explica o fato, aparentemente curioso, que a maior parte desses Estados-Nação republicanos surgiram antes na América que na Europa. Porque aqui se criaram Estados virtuais porque eram Estados sem nações, o que explica por sua vez a carência de soberania nacional. Mudamos a embalagem, as instituições, somente para passar de um amo a outro, a Grã-Bretanha no século XIX e aos EUA no século XX.

Este nacionalismo ao ser um produto ideológico transplantado desde Europa a América, carece em nós de genuinidade. Este nacionalismo é o que engendrou as poucas guerras que tivemos na América Hispânica. A Guerra do Pacífico entre Peru, Chile e Bolívia (1879); a do Chaco entre Bolívia e Paraguai (1932-35); a da Tríplice Aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai por um lado e Paraguai do outro (1865-1870) onde ao dizer de Franz Josef Strauss "pela primeira vez na modernidade o desejo do vencedor foi lograr uma rendição incondicional - tradução moderna do clássico vae victis - o que conduziu a um resultado abominável".

Uma variante desse nacionalismo na América no presente século foi o nacionalismo anti-imperialista, que de Lênin só herdou seu aspecto "latinoamericanista" (socialismo mundial) mas que, de fato, foi um produto saído das mãos de Stálin com sua idéia de revolução comunista por Estados. Esse nacionalismo marxista, importado em tudo - linguagem, insígnias, emblemas, consignas, políticos e teóricos - marcou o máximo estranhamento em relação a Nossa América. Chegando a negar nossas tradições mais telúricas como religião, etnia ou pátria. E afirmamos que foi uma variante do nacionalismo de "pátria pequena" porque não superou a idéia de Estado-Nação senão somente declamatoriamente quando se proclamava "latinoamericano".

Nacionalismo "de Pátria Grande"

O sentido continental nasce com a descoberta hispânica da América, dado que antes da descoberta não existia tal sentido. É o mundo ibérico que introduz a noção de pertença a uma ecúmene cultural de caráter continental como o é a América Ibérica.  Língua, religião e instituições compartilhadas durante três séculos por todos os povos dessa região do globo, criaram na consciência hispanoamericana um sentimento de unidade continental que duzentos anos de liberalismo político pertinaz e iluminismo filosófico não puderam desenraizar. E assim, de tanto em tanto, surgem novos intentos de construção política deu ma "Pátria Grande" que são abortados ab ovo por aqueles que são historicamente inimigos da união continental de nossos povos. Claro está, a conformação, com um poder unificado, de um grande espaço continental habitado hoje por 400 milhões de homens, significa um desafio aos poderes mundiais difícil de tolerar. Esse nacionalismo continental teve uma segunda manifestação durante as lutas por nossa independência e logrou sua expressão mais acabada em Simón Bolívar e sua idéia de criação dos Estados Unidos da América do Sul que conformariam a maior nação do mundo, onde o Istmo do Panamá seria para os hispanoamericanos o que o Istmo de Corinto foi para os gregos. Porém o Congresso do Panamá de 1826 convocado para tal efeito fracassou tanto por oposição dos nacionalistas "de pátria pequena", os localistas criadores das novas oligarquias criolas, como por erro garrafal de Bolívar de meter a raposa no galinheiro convidando aos representantes de Washington para participarem ativamente no Congresso. Os Estados Unidos já tinham uma idéia clara e distinta sobre o que fazer com a América enunciada três anos antes na Doutrina Monroe e seu lema "América para os americanos", que para bom entendedor se deveria ler como "América para os norteamericanos" e cuja estratégia como a de Zeus no governo do Olimpo foi desde então dividir para reinar. Esse nacionalismo continental reaparece depois de quase um século como consequência da Guerra Hispano-Americana de 1898 e tem sua expressão mais acabada no Ariel (1900) de José Enrique Rodó e o arielismo ou Geração do Centenário de nossa independência. Autores como José Vasconcelos, Gonzalo Zaldumbide, Francisco García Calderón, Manuel Ugarte são os que recriam o velho ideário da "criação de um continente" ou da "nação hispanoamericana" segundo os títulos de seus próprios livros. Essa terceira etapa do nacionalismo continental se caracteriza em relação das duas anteriores porque ao ideário de "grande espaço" adiciona seu anti-imperialismo porém esteve limitada ao plano intelectual, careceu de funcionalidade política. Quer dizer, não se realizou, nessa época, em nenhum movimento político de nossos países. Não obstante, seus efeitos políticos se plasmaram anos depois, em nossa opinião, em três movimentos políticos de significativa importância para Nossa América: a) No nacionalismo anti-imperialista de Augusto César Sandino e sua luta pela liberação da Nicarágua (1927-32); b) A partir de 1924 no aprismo de Victor Haya de la Torre e c) desde 1945 no peronismo argentino e sua idéia de união continental: "O ano de 2000 nos encontrará unidos ou dominados". Esse nacionalismo continental vai ser em Augusto Sandino "latinoamericano". Assim em seu principal escrito "Plano de Realização do Supremo Sonho de Bolívar" (1929) vai insistir expressamente na incorporação do Haiti ao projeto de unidade continental. Enquanto que em Haya de la Torra vai ser "indoamericano". Porém contrariamente ao que se possa pensar sobre indoamericanismo de Haya, que tem sua fonte em Vasconcelos e sua Raça Cósmica, não é indigenista, senão indiano, expressão essa que valoriza a mestiçagem como genuinamente americana. Finalmente em Perón o nacionalismo continental vai ser "iberoamericano", pois prioritariamente a política externa do peronismo, 1946/55/ 73/76 e ainda a atual, que de peronista tem somente o nome, esteve sempre dirigida a lograr a união com Brasil.

Prognóstico de uma Idéia

Os estudiosos desse tema, ou seja, da unidade continental nos tem acostumado primeiro a falar de "América Latina" e em segundo a caracterizá-la como "utópica". Elas são, em nossa opinião, duas tipificações errôneas. Pois a unidade continental foi, salvo a exceção vista de Sandino, sempre hispano ou iberoamericana e o caráter de utópica não lhe corresponde, pois essa unidade teve um lugar, existiu durante três séculos, e o que sempre se propôs foi sua restauração sob distintos modelos. A unidade continental não é um não-lugar, uma utopia como as de São Thomas Morus ou a de Campanella e sua Cidade do Sol ou a Nova Atlântida de Francis Bacon, essa é uma visão eurocêntrica de interpretar a unidade do continente. Ela deve ser interpretada a partir do que já teve lugar, do contrário se transforma eo ipso em uma idéia ilustrada como é a que tem a esquerda progressista da América. Chame-se teologia da libertação ou escola de antropologia social. Hoje em dia a unidade continental está expressada em distinta subregiões, como o Pacto Andino ou o Mercosul, mais como "unidade de interesses" que como "unidade de ideais", porém não obstante este início como "unidade de interesses" lhe outorga à idéia de unidade continental uma verossimilhança de que carecia outrora. A tarefa atual reservada aos homens da cultura e aos pensadores nacionais iberoamericanos é recriar a "unidade de ideais" que deem conteúdo à mera "unidade de interesses". E ainda quando o futuro nos esteja vedado, não esqueçamos que na caixa de Pandora somente o prognóstico ficou fechado, se vislumbra que a constituição de grandes espaços autocentrados é o único remédio perante o projeto de globalização e estranhamento dos povos. E esse grande espaço está dado para nós os iberoamericanos na unidade continental apoiada em um nacionalismo de "pátria grande". Do contrário, nossa identidade como nação corre sérios riscos de desaparecimento. É apropriado nesse sentido recordar, já que nossos ilustrados o lançaram no esquecimento, os velhos versos de Santos Vega que parecem escritos a propósito: Se minha voz é impotente para arrojar convosco, nossas lanças, nossos potros, pelo vasto continente; se jamais independente vejo o solo em que cantei, não me enterrem em sagrado onde uma cruz me recorde; encerrem-me em campo verde onde me pise o gado.


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