quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Ángeles Diéz Rodríguez - Os Intelectuais do "Consenso" contra a Síria

por Ángeles Diéz Rodríguez



O caso da Síria é um dos mais paradigmáticos nos quais desde 2011 se evidenciam com clareza o papel legitimador da guerra desempenhado por certos intelectuais de esquerda. Uma parte importante desses optaram por servir de coro à guerra midiática contra a Síria investidos de uma aura ilustrada e carregados de princípios morais de fatura ocidental. Desde seus púlpitos nos meios alternativos porém também nos de massa elaboram explicações, justificativas e relatos que apresentam como princípios éticos quando em realidade se trata de sua opção política. Ridicularizam e simplificam, manipulam e tergiversam a opção dos militantes anti-imperialistas e inclusive se permitem criticar os governos latinoamericanos que, defendendo a soberania e o princípio de não-ingerência, se opõem à guerra contra a Síria.

Em junho de 2003, no marco da guerra e ocupação do Iraque não foi muito complicado, no âmbito universitário, no da cultura e na militância de esquerda, que se alçaram centenas de vozes contra a guerra, fomos capazes de reconhecer as armadilhas discursivas, capazes de descobrir os interesses do império e seus sócios, de desvelar as mentiras midiáticas e acima de tudo de estabelecer prioridades na mobilização e na denúncia. Não pudemos deter a guerra nem a ocupação do Iraque, mas pusemos os cimentos de um movimento anti-imperialista que poderia ter sido o freio de mão da barbárie bélica e que, de alguma maneira, adiou o objetivo de continuar a neocolonização da zona.

Se em 2003 nos foi relativamente fácil nos mobilizar contra a guerra no Iraque e os planos imperiais, o que não significava apoiar qualquer ditadura, muitos se fazem agora a pergunta, "o que aconteceu para que não surja ou para que não se dê continuidade ao movimento que emergiu em 2003?". Seguramente há diversas razões entrecruzadas porém gostaria de destacar duas que me parecem centrais: os meios de comunicação de massa fizeram um bom trabalho de dissuasão e uma parte dos intelectuais de esquerda que antes eram referências políticas contra a guerra optaram por servir ao outro lado.

Intelectuais de Esquerda a Serviço da Legitimação Bélica

Que os meios de massa mentem, tergiversam, ocultam, assinalam, dão forma e rosto a nossos inimigos é uma evidência repetida uma outra vez na história. O fazem não porque sejam instrumentos do império, não, o fazem porque são parte consubstancial do poder. Porém a justificação das guerras, a "fabricação do consenso" que diria Chomsky, não só se faz através das corporações midiáticas.

A propaganda é um sistema no qual se inserem as empresas midiáticas, a classe política e seus discursos, a cultura ocidental prepotente e colonialista, os jornalistas, os artistas, os intelectuais, os acadêmicos e os filósofos midiáticos. Todos esses intelectuais se converteram em um "clero secular" que "opta por desempenhar um papel fundamental na interiorização da ideologia da guerra humanitária como um mecanismo de legitimação" (Bricmont, 2005). Uns conscientemente outros nem tanto, se puseram a serviço da propaganda de guerra do império. O interessante é que essa coorte criadora de opinião pública se recrutava nas fileiras conservadoras, nas liberais e uma parte nas dos social-democratas, porém desde a guerra da Iugoslávia são cada vez mais os grupos de intelectuais que procedem ou se reclamam revolucionários de esquerda, anticapitalistas e anti-imperialistas. Se explicam com argumentos morais universalistas e humanitários: lutar contra as ditaduras (estejam onde estejam) e defender a causa dos povos (sendo estes as mulheres afegãs, os "insurgentes líbios", os "manifestantes sírios" ou a parte do povo que os meios de massa assinalem como vítima das "ditaduras"). Alguns desses intelectuais hasteiam  o "Não à guerra" contra Iraque em 2003, não obstante, desde o início das chamadas "primaveras árabes" tocam na mesma orquestra que seus governos chamando à derrubada do "tirano" Assad e à "transição democrática" na Síria; inclusive há quem reclama a intervenção militar do Ocidente como a novelista Almudena Grandes: "No fundo está Al-Assad, um ditador, um tirano, um assassino serial que resultará o único beneficiário da não-intervenção". Suponhamos que para eles Saddam Hussein era menos ditador que Assad ou quiçá se trate de que nessa guerra haverá centenas de milhares de cidadãos nas ruas gritando "Não à guerra", caso que não se dá agora. O papel que desempenha este "clero secularizado" é duplo, por um lado fornecem argumentos justificadores da intervenção armada, por outro dividem, debilitam ou bloqueiam cada vez com maior intensidade do surgimento de uma oposição forte às guerras imperiais. Umas vezes por ignorância política, outras por confusão, porém a maioria das vezes por um sentido subjacente de superioridade moral como intelectuais do mundo desenvolvido, essa "esquerda" interiorizou os argumentos da direita. Segundo Bricmont ela se moveu em duas atitudes:

a) o que chama de imperialismo humanitário, que se apoia em crer que nossos "valores universais" (a idéia de liberdade, democracia) nos obrigam a intervir em qualquer lugar. Seria uma espécie de dever moral (direito de ingerência).

b) o "relativismo cultural" que parte de que não há costumes bons ou ruins. Teríamos o caso de que se há um movimento wahhabi ou fundamentalista que se revela contra a repressão há que aplaudi-lo porque "os povos não se enganam" ou, como me explicou um filósofo espanhol, "quando os povos falam a geoestratégia se cala".

Estranhas Coincidências pela Liberdade e pela Democracia

A dominação imperial é sempre militar porém necessita de uma ideologia que a justifique para eliminar resistências na retaguarda. Hoje em dia, graças à complexidade do sistema de propaganda cada vez mais sofisticado, tecnificado e efetivo, uma grande parte da construção dessa ideologia legitimadora está nas mãos de uma esquerda, agora já respeitável, que conta com credibilidade para a opinião pública crítica graças a seu currículo como defensora da causa palestina. O núcleo duro dos discursos legitimadoras se deslocou da já clássica "liberdade" à críptica "dignidade" e mantém a "democracia" e os direitos humanos como consignas. A democracia como "a intervenção sonhada" do filósofo Santiago Alba serve de utopia light para somar adeptos e confundir os desejos com a realidade. Não obstante, há ocasiões em que a consigna da liberdade emerge qual ave fênix quando o público ao qual se dirigem é demasiado ocidentalizado para desentranhar o enigma da "dignidade". Diz Bricmont que justo quando o império abandona a linguagem da liberdade porque já não resulta crível o retoma esse clero humanitarista. Assim, na chamada da campanha de solidariedade global com a "revolução" síria assinada entre outros por Achcar, Alba e Tariq Ali cujo título é "solidariedade com a luta síria pela dignidade e pela liberdade", em apenas duas pátinas se utiliza 14 vezes a palavra liberdade. A medida que a guerra midiática contra a Síria se tem recrudescido tem aumentado as coincidências entre os relatos imperiais e os discursos dos que dizem apoiar os "revolucionários sírios". Sigamos com os exemplos ilustrativos e comparemos o "chamamento de solidariedade global com a revolução síria" com a declaração conjunta sobre a Síria que assinaram 11 países no marco da reunião do G20, proposta pelos EUA, para forçar uma frente de Estados que apoiem a intervenção armada. Na chamada do clero humanitarista se apontam os seguintes argumentos:

1 - Na síria há uma revolução em marcha.
2 - O único responsável pelas mortes, pela militarização do conflito e pela polarização da sociedade é Bashar Al-Assad.
3 - Há que apoiar os "revolucionários sírios" porque "lutam pela liberdade a nível regional e mundial".
4 - Há que "apoiar uma transição pacífica rumo a democracia para que decidam os próprios sírios".
5 - Pede-se uma "Síria livre, unificada e independente".
6 - Pede-se ajuda a todos os refugiados e deslocados internos sírios.

No sítio da campanha se introduz o texto da chamada especificando que "a revolução do povo deve ser apoiada por todos os meios", supomos que todos os meios significa todos os meios, e se exige que Assad seja derrubado, julgado e se ponha fim ao apoio militar e financeiro ao regime sírio, somente ao "regime sírio". Por sua parte, a declaração conjunta dos EUA e seus sócios, entre os quais curiosamente não se encontra nenhum país latinoamericano, e o único país árabe é Arábia Saudita, expõe os seguintes tópicos:

1 - Condena exclusivamente ao governo sírio, o qual faz responsável do ataque com armas químicas;
2 - A guerra contra a Síria é para defender o resto do mundo das armas químicas evitando sua proliferação;
3 - A intervenção trataria de evitar males maiores: "um maior sofrimento do povo sírio e a instabilidade regional";
4 - Se condena a violação dos direitos humanos "por todas as partes";
5 - Se pede uma saída política, não militar e se diz: "Estamos comprometidos com uma solução política que se traduza em uma Síria unida, inclusiva e democrática";
6 - Se convoca à assistência humanitária, aos doadores e à ajuda às necessidades do povo sírio.

Na comparação de ambos textos o surpreendente é que no primeiro se destila um ar muito mais belicista, não se reconhece que haja dois lados no conflito, o conflito se reduz a Assad, se justifica o apoio aos "revolucionários sírios" porque estão fazendo a revolução mundial e não se propõe uma saída política senão a derrota do governo sírio. Pareceria que esta chamada tivesse sido redigida precisamente por um dos bandos no conflito que se arroga a representação do povo sírio em seu conjunto.

As Armadilhas da Linguagem: "Condenamos a Intervenção", "Nem com uns nem com outros", "Os povos sempre tem razão"

A construção da ideologia do imperialismo humanitário tem tido distintos percursos. Como dizíamos ao início dessa intervenção, tem sido o estandarte da esquerda bem-pensante  (parte dela vinculada ao trotskismo da Quarta Internacional) que desde a guerra contra a Iugoslávia (1999) foi dando forma a uma discurso moralista cômodo que a homologava como "esquerda respeitável" ainda que se declarasse "anticapitalista".

Se analisamos alguns de seus discursos sobre a Síria encontramos as pautas que se repetem. Em primeiro lugar há que deixar claro constantemente o ponto de partida anti-imperialista, e negar que se esteja com "a intervenção militar estrangeira" como faz Achcar no artigo "Contra a intervenção militar estrangeira, apoio à revolta popular síria", ou Alba em "Síria, a intervenção sonhada" que termina com um "condeno, condeno, condeno, a intervenção militar estadounidense". Dizia Klemperer em sua obra "A Língua do Terceiro Reich" que a linguagem põe à luz aquilo que uma pessoa "quer ocultar de forma deliberada, perante outros ou perante a si mesmo, e aquilo que leva dentro inconscientemente".

O clero humanitarista não está a favor da intervenção militar mas se vê obrigado a repetir isso constantemente em seus escritos e conferências como se o público ao qual se dirigem não estivesse de todo convencido. Tampouco convém falar de guerra e portanto se utiliza constantemente o eufemismo "intervenção militar estrangeira" ou "intervenção militar estadounidense".

Nem com os EUA nem com Assad

A equidistância é sem dúvida um refúgio ideal para as boas consciências e tem a vantagem da ambiguidade que permite se posicionar de um lado ou do outro segundo transcorram os acontecimentos. Trata-se de uma falsa simetria que coloca no mesmo plano o agressor e o agredido. Se em uma situação na qual um Estado ou conjunto de Estados ameaçam e declaram guerra a outro nos declaramos neutros, na realidade, apoiamos a opção do mais forte. Não foi a Síria que declarou guerra aos EUA ou à Europa e comparativamente o poderio e a capacidade bélica da Síria em relação ao império e seus sócios (armas químicas, nucleares e convencionais) é incomparável.

Ao clero humanitarista não convém o posicionamento "nem-nem" e trata por todos os meios de tentar inclinar as opiniões para o lado do bando em que se encontram os chamados "revolucionários sírios". E nesse intento não poupa adjetivos contra o governo sírio e seu presidente e se situam por cima da realidade ou da veracidade dos fatos; temos assim a Alba dizendo que é um fato irrefutável que "com independência de que tenha usado ou não armas químicas contra seu próprio povo, o regime ditatorial da dinastia Assad é o responsável primeiro e direto da destruição da Síria, do sofrimento da sua população e de todas as suas consequências, humanas, políticas e regionais que derivam daí"; ou a Almudena Grandes qualificando a Assad como "assassino em série". Porém o certo é que como diz Bricmont "Em tempos de guerra denunciar os crimes do adversário, ainda supondo que estejam solidamente fundamentados, algo que com frequência não ocorre, acaba contribuindo para estimular o ódio que faz com que a guerra seja aceitável".

Outro dos tópicos clássicos é estar ao lado dos povos. Aqui temos um escolho difícil de salvar já que, no caso das primaveras árabes, os governos imperiais se tem posicionado claramente a favor dos povos e tem sido os primeiros a assinalar seu apoio aos "revolucionários sírios" A explicação mais rocambolesca desses intelectuais humanitários é a pura casualidade, o cinismo ou as intenções perversas do império que o leva a apoiar aos povos árabes para logo se apropriar das revoluções e impôr seus próprios interesses.

Segundo eles, a realidade é que nem EUA nem Europa querem intervir militarmente na Síria. Porém quando os "rebeldes e os refugiados sírios", como antes fizeram os rebeldes líbios, manifestam que "desejam o ataque dos EUA à Síria" se complica a definição de "revolucionários" e a de "povo" pois quem é esse povo revolucionário ou parte do povo que clama por um ataque militar de outros governos?

Dada a complexidade da situação refugiemo-nos em nossos princípios

Podemos denunciar às corporações midiáticas, aos políticos e publicistas que nos seguem vendendo a guerra com a mesma retórica moralista e com práticas cínicas, o problema é que lhes segue funcionando, pelo menos com as pessoas pouco conscientizadas. A novidade é que agora dispõem de uma coorte de filósofos, intelectuais e artistas que se vendem como estrelas midiáticas, ainda que seja em meios alternativos, que inclusive creem no que dizem, creem defender realmente os direitos humanos e estar do lado dos povos, porém seu labor tem sido o de acompanhar os discursos imperialistas e bloquear o surgimento de movimentos de oposição à guerra nos afundando em discussões estéreis sobre seu próprio posicionamento.

Seus textos, conferências e intervenções midiáticas tem tido uma grande eficácia para confundir, persuadir e culpabilizar os ativistas contra a guerra, às pessoas mais dispostas a oferecer resistência efetiva à guerra imperial e à propaganda de guerra. Para se curar costumam afirmar que tudo é mais complexo, de modo que a única opção que nos resta como boas pessoas que somos é nos refugiarmos em nossa boa consciência. Se nossos conhecimentos e retórica são tergiversados e utilizados para favorecer o apoio à guerra será um efeito indesejado, um dano colateral pelo qual não podemos ser responsabilizados.

O certo é que os discursos, as convocatórias e as exigências do clero humanitarista não tem a menor repercussão sobre os governos ocidentais porém também é certo afetam de fato a possibilidade de um movimento anti-imperialista. Quisera terminar com umas palavras de Sánchez Ferlosio sobre a guerra "a parte de uns poucos exaltados todos vemos a guerra com matizes, porém em momentos decisivos os matizes não podem ser o lastro que nos impeça de nos opormos à guerra com a contundência necessária. Nem devemos deixar que se convertam em munição contra nós. É nossa responsabilidade política".

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