quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Terrorismo com "Face Humana": A História dos Esquadrões da Morte dos EUA

por Michel Chessudovsky



O recrutamento de esquadrões da morte, faz parte de uma agenda de inteligência militar bem estabelecida nos Estados Unidos. Há uma longa e atroz história de financiamento e apoio, dissimulado, às brigadas de terror e aos assassinatos seletivos, que vêm do tempo da guerra do Vietnã.

Enquanto forças governamentais sírias, ainda hoje estão confrontando o autoproclamado “Exército Livre da Síria” –FSA, as raízes históricas da guerra encoberta do Ocidente contra a Síria - guerra essa que já resultou em inúmeras atrocidades - devem ser totalmente reveladas. 

Desde o começo, em março de 2011, os Estados Unidos e seus aliados tem apoiado a formação de esquadrões da morte, assim como a invasão do território da Síria por brigadas terroristas em uma iniciativa cuidadosamente planificada.

O recrutamento e o treino de brigadas terroristas tanto no Iraque quanto na Síria, foram modelados na denominada “Opção Salvador”, um "modelo terrorista" para assassinatos em massa efetuados por esquadrões da morte patrocinados pelos EUA na América Central. Foi aplicado pela primeira vez em El Salvador, no apogeu da resistência contra a ditadura militar, que levou ao que se estima foram 75.000 mortes.

A formação de esquadrões da morte na Síria se baseia na história e experiência de brigadas terroristas patrocinadas pelos EUA no Iraque, sob o programa de "contrainsurgência" do Pentágono.

O estabelecimento dos Esquadrões da Morte no Iraque

Os esquadrões da morte patrocinados pelos Estados Unidos foram recrutados no Iraque em 2004-2005 numa iniciativa lançada sob a direção do embaixador americano John Negroponte, que foi mandado para Bagdá pelo Departamento do Estado Americano, em junho de 2004.

Negroponte era o homem certo para o trabalho, uma vez que tinha sido embaixador para Honduras de 1981 a 1985. Negroponte fez um papel central em apoiar e em supervisionar os Contras de Nicarágua, que estavam baseados em Honduras. Ao mesmo tempo ele também supervisionava as atividades dos esquadrões da morte militares de Honduras.

“No governo do general Gustavo Alvarez Martinez, o governo militar de Honduras era um aliado íntimo da administração de Reagan e “fazia desaparecer” dezenas de opositores políticos mediante métodos clássicos dos esquadrões da morte.”

Em janeiro de 2005, o Pentágono confirmou que estava considerando: 

"'Formar esquadrões de assassinos de combatentes xiitas e curdos para atacar líderes da resistência iraquiana em uma mudança estratégica vinda da experiência da luta contra as guerrilhas de esquerda da América Central, há 20 anos atrás'.

Sob a denominada “Opção El Salvador” forças iraquianas e americanas deveriam ser mandadas a matar ou sequestrar líderes da insurreição, mesmo na Síria, onde alguns dos insurgentes teriam tido então abrigo.

Esquadrões de ataque sendo controversos, deveriam provavelmente ter de ser mantidos secretos.

A experiência dos 'esquadrões da morte' na América Central continua a ser uma experiência brutal para muitos, e ainda continuam contribuindo para sujar a imagem dos Estados Unidos na região.

Tem se ainda que a administração de Reagan deu fundos e treinou times de forças nacionalistas para neutralizar os líderes rebeldes salvadorenhos, assim também como os que com eles simpatizavam.

John Negroponte, o embaixador americano em Bagdá, tinha um lugar privilegiado de observação dado o seu tempo como embaixador em Honduras de 1981-85.

Esquadrões da morte era uma parte brutal da política latino-americana de então...

No começo dos anos oitenta a administração de Reagan deu fundos e treino aos Contras de Nicarágua baseados em Honduras, com o objetivo de derrubar o regime sandinista de Nicarágua Os Contras foram equipados com o dinheiro obtido pela venda americana, ilegal, de armas ao Irã. Esse foi um escândalo que poderia ter derrubado Reagan do poder.

O impulso da proposta do Pentágono no Iraque... era o de seguir esse modelo...

Não ficou claro se o objetivo principal da missão seria o de matar os rebeldes ou sequestrá-los para levá-los a interrogatórios, no Iraque. Qualquer missão na Síria seria provavelmente feita pelas Forças Especiais dos Estados Unidos.

Também não ficou claro quem iria ter a responsabilidade pelo programa, se o Pentágono ou a Agência Central de Inteligência, ou seja, a CIA. Essas operações feitas abaixo de panos – encobertas, tem tradicionalmente sido feitas pela CIA, a um braço de distância da administração em poder, dando aos oficiais americanos a possibilidade de negar conhecimento da situação". (El Salvador-style “death squads” to be deployed by US against Iraq militants – Times Online, January 10, 2005)

Enquanto o objetivo especificado da “Opção Salvadorenha para o Iraque” seria a de acabar com a resistência, na prática as brigadas terroristas patrocinadas pelos Estados Unidos se envolveram em matanças rotineiras de civis, tendo em visto o atiçar uma violência sectária.

Por seu turno, a CIA assim como a MI6 estavam superintendendo unidades da “Al Qaeda no Iraque” envolvidas em assassinados de alvos demarcados e dirigidos contra a população Shiite. É importante de se ressaltar que os esquadrões da morte foram integrados assim como aconselhados, encoberta e dissimuladamente, pelas Forças Especiais dos Estados Unidos.

Robert Stephen Ford – ..Depois apontado como embaixador dos Estados Unidos na Síria, fazia parte do time de Negroponte em Bagdá, durante o período de 2004-2005. Em janeiro 2004 ele foi mandado como representante americano para a cidade Shiite de Najaf, que era um foco forte do exército “Mahdi, com o qual ele fez contatos preliminares.

Em janeiro de 2005, Robert S. Ford foi apontado como Ministro Conselheiro para Assuntos Políticos – Minister Counsellor for Political Affairs- na Embaixada dos Estados Unidos, abaixo da direção do embaixador John Negopronte. Ele não somente fazia parte do círculo mais próximo e fechado de Negroponte. Ele era também o associado dele no estabelecimento da “Opção Salvadorenha” no Iraque. O terreno já tinha então sido preparado em Najaf, antes da transferência de Ford a Bagdá.

John Negroponte e Robert Stephen Ford foram encarregados de recrutar os esquadrões da morte iraquianos. Enquanto Negroponte coordenava as operações a partir de seu gabinete na Embaixada dos Estados Unidos, Robert S. Ford que falava fluentemente tanto árabe como a língua turca, teve a incumbência de estabelecer contatos estratégicos com os grupos militantes Shiite e Curdos, fora da “Zona Verde”-“Green Zone”.

Dois outros oficiais da embaixada, nomeadamente Henry Ensher – auxiliar ou deputado de Ford, assim como um oficial mais jovem da secção política, Jeffrey Beals, tiveram um papel importante no time que então “falava com alguns segmentos iraquianos, incluindo extremistas”. (Veja The New Yorker, March 26, 2007). Uma outra pessoa-chave no time de Negroponte era James Franklin Jeffrey, embaixador dos Estados Unidos, na Albânia 2002-2004. Jeffrey veio a tornar-se embaixador dos Estados Unidos para o Iraque, entre 2010-2012.

Negroponte também trouxe para dentro do time um de seus antigos colaboradores, o Coronel James Steele, retirado dos seus dias de apogeu em Honduras.

Durante a “Opção El Salvador” no Iraque, Negroponte foi assistido por um colega dos anos oitenta, ou seja, dos seus dias na América Central. Esse colega de Negroponte no Iraque era então o aposentado Coronel James Steele.

Steele, que recebeu em Bagdá o título de Conselheiro das Forças de Segurança Iraquianas -Counselor for Iraqi Security Forces- supervisionou a seleção e o treino dos membros da Organização Badr e do Exército Mahdi, as duas maiores milícias Shiitas, no Iraque. Isso com a intenção de fazer de alvo a direção e a rede de apoio da resistência, primordialmente Sunni, do Iraque. Tenha sido planejado, ou não, esses esquadrões da morte logo ficaram fora de controle e se tornariam na causa de morte número 1, no Iraque.

Se foi a intenção original ou não, o número de corpos torturados e mutilados surgindo nas ruas de Bagdá todos os dias foram obras dos esquadrões da morte, que por sua vez eram impulsionados por John Negroponte. E, foi a violência sectária apoiada pelos Estados Unidos que levou em muito grande parte ao infernal desastre que é o Iraque de hoje. (Dahr Jamail, Managing Escalation: Negroponte and Bush´s New Iraq Team. Antiwar.com, January 7, 2007)

De acordo com o Republicano Dennis Kucinich o coronel Steele era o responsável, pela implementação do plano em El Salvador, onde dezenas de milhares salvadorenhos “desapareceram” ou foram assassinados, inclusive então também o Arquebispo Oscar Romero, assim também como quatro freiras americanas.

Logo do seu apontamento para Bagdá, o Coronel Steele foi encaminhado para a unidade de contrainsurreição, unidade essa conhecida como o Comando Policial Especial- “Special Police Commando”, abaixo do Ministério do Interior do Iraque. (Veja ACN, Havana, 14 de junho 2006).

Relatórios confirmam que “os militares americanos entregaram muitos prisioneiros para a Wolf Brigade – o temido 2º batalhão dos comandos especiais do ministério do interior” , que então estavam abaixo do comando do Coronel Steele. Os prisioneiros foram entregados para “interrogatórios adicionais”. . Peter Mass do New York Times confirma que:

“US soldados, conselheiros dos EUA, estavam em posição observando, sem fazer nada,” enquanto membros da “Wolf Brigade” batiam, assim como torturavam os prisioneiros. Os comandos do Ministério do Interior do Iraque teriam então também tomado a biblioteca pública de Samara para a transformar num centro de detenção.

Uma entrevista conduzida por Mass em 2005 nesse local transformado em prisão e em companhia do conselheiro militar americano da “Wolf Brigade”, o coronel James Steele, foi interrompida pelos gritos aterrorizados de um prisioneiro fora do local, disse ele. Steele como consta do protocolo foi empregado anteriormente como conselheiro para ajudar a esmagar a resistência em El Salvador.” (Ibid)

Um outro elemento notório que teve um papel no programa da contrainsurreição no Iraque foi o ex-Comissionário da Polícia de Nova Iorque, Bernie Kerik que em 2007 foi indicado em corte federal por 16 acusações judiciais.

Kerik foi o enviado pela administração de Bush, no começo da ocupação do Iraque, para organizar e treinar a força policial do Iraque. Durante o seu curto termo em 2003, Kerik –que preencheu o posto de interim Ministro do Interior- trabalhou para organizar unidades de terror dentro da Força Policial do Iraque: mandado para o Iraque para por as forças de segurança iraquiana em forma, Kerik usava a denominação “ministro interim do interior do Iraque”. Entretanto, conselheiros policiais britânicos o chamavam de o “exterminador de Bagdá”. (Salon, 9 de dezembro de 2004)



Abaixo da direção de Negroponte, da Embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, uma onda de assassinatos encobertos de civis, assim também como assassinatos de pessoas entendidas como alvos, foi deslanchada. Engenheiros, médicos, cientistas e intelectuais foram alvos. O autor e analista geopolítico Max Fuller, documentou em detalhe as atrocidades cometidas abaixo do programa de contrainsurreição patrocinado pelos Estados Unidos.

O aparecer dos esquadrões da morte entraram primeiramente em foco em maio de 2005 quando foi reportado que...dezenas de corpos tinham sido depositados...em terrenos baldios ao redor de Bagdá. Todas as vítimas tinham as mãos presas em algemas, estavam com os olhos vedados e tinham sido baleadas na cabeça. Muitos deles mostravam sinais de terem sido brutalmente torturados...

A evidência foi suficiente para motivar a Associação de Acadêmicos Muçulmanos –Association of Muslim Scholars, AMS, uma conhecida e importante organização Sunnita a fazer declarações públicas na qual acusavam as forças de segurança ligadas ao Ministério do Interior, assim como a Badr Brigade, a ex-ala armada do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque –Supreme Council for Islamic Revolution in Iraq, SCIRI, por estar por detrás dessas mortes. Eles também acusaram o Ministério do Interior de estar conduzindo terrorismo de estado (Financial Times).

Os Comandos Policiais assim como a “Wolf Brigade” eram supervisionadas pelo “programa de contrainsurreição”, no Ministério do Interior do Iraque.

Os Comandos Policiais eram formados abaixo da experiência, tutelagem e supervisão de combatentes americanos, veteranos de contrainsurreição. Os comandos policiais iraquianos então, desde o começo conduzindo operações conjuntas com as unidades de forças de elite, altamente secretas.(Reuters, National Review Online).

...James Steele foi uma figura chave no desenvolver dos Comandos Especiais da Polícia - Special Police Comandos do Iraque. Ele foi um operativo das forças especiais do Exército dos Estados Unidos, que tendo começado no Vietnã foi depois mandado para dirigir a missão militar dos Estados Unidos em El Salvador, no auge da guerra civil, no país...

Outro contribuinte no desenvolver dos Comandos Especiais da Polícia, no Iraque, foi o mesmo Steven Casteel que como o mais experiente conselheiro dos Estados Unidos no Ministério do Interior afastou sem maiores considerações as bem substanciadas acusações de apavorantes violações dos direitos humanos como “rumores e insinuações”.

Assim como Steele, Casteel também ganhou considerável experiência na América Latina, no caso dele através de participar na perseguição do barão da cocaína, Pablo Escobar, nas narco-guerras da Colômbia, nos anos noventa...

O cenário da história pessoal de Casteel é importante nesse caso, porque o tipo de papel de apoio na colheita de informação e na produção de listas de morte, nas quais as suas experiências na América Latina foram baseadas então, são características do envolvimento dos Estados Unidos em programas de contrainsurreição, constituindo um elemento básico no que se poderia perceber como acaso, ou orgias de carnificinas desconexas.

Comentários do Departamento de Defesa dos Estados Unidos em 2005...Esses tipos de genocídios planificados de forma centralizada são consistentes com os acontecimentos no Iraque...Isso é também consistente com o pouco que sabemos a respeito dos Comandos Especiais da Polícia, que foi projetada para prover o Ministério do Interior com uma força de capacidade de ataque especial. (Departamento de Defesa dos Estados Unidos).

Max Fuller comentou, no contexto, que em mantendo esse papel os quartéis de Comando da Polícia tinham se tornado no centro de um comando nacional de controle, comunicação, informática e inteligência – Cortesia dos Estados Unidos. (Max Fuller, op cit).

Essa inicial preparação de terreno, estabelecida abaixo da direção de Negroponte, em 2005, permitiu a implementação das atividades abaixo de seu sucessor, o embaixador Zalmay Khalilzad. Robert Stephen Ford garantiu a continuidade do projeto antes do seu apontamento como embaixador dos Estados Unidos na Argélia em 2006, assim também como depois do seu retorno a Bagdá, como Chefe Deputado da Missão – Deputy Chief of Mission, em 2008.

Operação "Contras Sírios": Aprendendo com a Experiência Iraquiana



A macabra versão iraquiana da “Opção El Salvador” abaixo da direção do embaixador John Negroponte serviu como modelo para a construção dos Contras do “Exército Livre da Síria”. Robert Stephen Ford esteve muito provavelmente envolvido na implementação do projeto dos Contras na Síria, depois do seu apontamento como Chefe Deputado da Missão –Deputy Head of Mission em Bagdá, 2008.

Na Síria o objectivo era o de criar divisões faccionais entre as comunidades Sunnitas, Shiitas, Curdas e Cristãs. Conquanto o contexto da Síria seja completamente diferente da do contexto do Iraque, existem também surpreendentes similaridades ao que diz respeito aos procedimentos pelos quais as atrocidades e matanças foram, e continuam sendo conduzidas.

Uma reportagem publicada pelo Der Spiegel em relação as atrocidades cometidas na cidade síria de Homs confirma um processo sectário de assassinatos em massa e mortes extrajudiciais, ou seja assassinatos, comparáveis as conduzidas pelos esquadrões da morte no Iraque, esquadrões patrocinados pelos Estados Unidos.

As pessoas em Homs eram de forma rotineira categorizadas como “prisioneiros” (Shia, Alawita) e “traidores”. Os traidores eram os civis Sunnitas, dentro da área urbana ocupada pelos rebeldes, que expressavam discordância ou oposição ao reino de terror do Exército Livre da Síria -“Free Syrian Army” –FSA:

“Desde o último verão [2011], nós executamos pouco menos que 150 homens, o que representa cerca de 20% dos nossos prisioneiros,” disse Abu Rami.... Mas os executores de Homs estiveram mais ocupados com traidores dentro de suas próprias falanges do que com prisioneiros de guerra. “Se pegamos um Sunnita espionando, ou se um cidadão trai a revolução, fazemos o processo curto, disse o combatente. De acordo com Abu Rami, “Hussein´s burial brigade” teria posto entre 200 a 250 traidores a morte, desde o começo da sublevação.” (Der Spiegel, March 30, 2012)

Preparações ativas para a operação síria teriam certamente sido iniciadas quando da chamada de Ford da Argélia, nos meados de 2008 para um novo apontamento na embaixada dos Estados Unidos no Iraque.

O processo exigia um programa inicial de recrutamento e treino de mercenários. Esquadrões da morte, incluindo unidades Salafistas do Líbano e da Jordânia entraram pela fronteira sul da Síria -com a Jordânia, nos meados de março de 2011. Muito da preparação do terreno estava já pronta antes da chegada de Robert Stephen Ford a Damasco, em janeiro de 2011.

O apontamento de Ford como embaixador da Síria foi anunciado no começo de 2010. As relações diplomáticas estiveram cortadas desde 2005 após o assassinato de Rafik Hariri, do qual os Estados Unidos acusaram a Síria. Ford chegou em Damasco apenas dois meses antes do começo da insurreição.


O Exército Livre Da Síria - FSA

Washington e seus aliados replicaram na Síria as características essenciais da “Opção El Salvador –do Iraque”, levando a criação do Exército Livre da Síria -FSA- e as suas várias facções incluindo a brigada “Al Nusra”, afiliada a Al Qaeda.

Apesar da criação do Exército Livre da Síria –FSA ter sido anunciada em junho de 2011, o recrutamento e treino dos mercenários, vindos de fora do país, foram iniciados muito anteriormente.

Em muitos aspectos, o Exército Livre da Síria é uma cortina de fumaça, usada para enublar e desvanecer os contornos da realidade. O denominado Exército Livre da Síria é apresentado pela mídia ocidental como uma entidade de boa fé, estabelecida como resultado de defecções em massa das forças governamentais. O número das defecções no entanto, não foram nem significantes, nem suficientes para estabelecer uma estrutura militar coerente, com os devidos comandos e controles de função.

O Exército Livre da Síria não é uma entidade militar profissional, é mais uma rede não estruturada, constituída por diversas brigadas terroristas, as quais por seu turno, são constituídas por muitas células paramilitares, agindo em diversas partes do país.

Cada uma dessas organizações opera independentemente. O Exército Livre da Síria- FSA, não exerce funções de controle ou comando efetivos e isso inclui também não efetividade nas suas ligações e contatos com as entidades paramilitares. Essas entidades paramilitares estão em sua grande parte controladas pelas forças especiais, assim como profissionais da inteligência, patrocinados pelos EUA-OTAN. Tanto as forças especiais como os profissionais da inteligência são encaixados, ou incrustados, nas alas das várias formações terroristas.

Essas forças especiais “no solo” – muitas das quais contratadas de companhias particulares de segurança, estão de forma rotineira, em contacto com EUA-OTAN, assim também como com unidades de comando da inteligência militar dos outros envolvidos. As Forças Especiais estão, muito provavelmente, também envolvidas nos ataques devastadores, muito cuidadosamente planejados, dirigidos contra as instalações governamentais, conjuntos militares, e muitos outros objetos centrais e sensíveis.

Os esquadrões da morte são mercenários recrutados e treinados pelos EUA-OTAN, e seus aliados do Golfo Pérsico, GCC. Eles são supervisionados pelas forças especiais aliadas, assim como por companhias particulares de segurança -em contrato com a OTAN e o Pentágono. Relatórios confirmam o emprisionamento pelas forças governamentais da Síria, de cerca de 200-300 contratados de firmas particulares de segurança, contratados esses que estavam integrados nas alas dos rebeldes.

A Frente Jabhat Al Nusra



A Frente Al Nusra -que se entende como afiliada a Al Qaeda- é descrita como o grupo rebelde mais efetivo na luta da oposição. Al Nusra é o grupo responsável por muitos dos maiores –high profile- ataques de bombas. O grupo Al Nusra é apresentado como um inimigo dos Estados Unidos, e está na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado.

Entretanto, as ações da Al Nusra apresentam as características, ou impressões digitais, dos treinos e das tácticas paramilitares dos Estados Unidos. As atrocidades cometidas contra civis pelo grupo Al Nusra são similares a aquelas feitas pelos esquadrões da morte patrocinados pelos EUA no Iraque.

Nas palavras do líder da Al Nusra, Abu Adnan, in Aleppo:- “Jabhat al-Nusra conta com veteranos sírios da guerra do Iraque entre seus números, homens que trazem perícia – especialmente na construção de dispositivos explosivos (IEDs) para o fronte na Síria.”

Como no Iraque, violência entre facções e limpeza étnica foram ativamente promovidas. Na Síria as comunidades Alawita, Shia e Cristãs foram alvo dos esquadrões da morte patrocinados pelos EUA-OTAN. A comunidade cristã foi um dos alvos centrais no programa de assassinatos.

Relatórios confirmam o influxo de Salafistas e esquadrões da morte afiliados a Al Qaeda abaixo dos auspícios da Irmandade Muçulmana para dentro da Síria, desde o começo da insurreição, em março 2011.

Ainda mais, reminiscente do alistamento dos Mujahideen para lutar a jihad –guerra santa- da CIA no auge da guerra União Soviética-Afeganistão, guerra essa que a OTAN e a Turquia (the Turkish High command) tinham iniciado...

... “uma campanha para alistar milhares de voluntários Muçulmanos nos países do Oriente Médio e no Mundo Muçulmano para lutar lado a lado com os rebeldes sírios. O Exército turco iria acomodar esses voluntários, treiná-los e assegurar a passagem dos mesmos para dentro da Síria. (DEBKAfile, NATO to give rebels anti-tank-weapons, August 14, 2011).

De acordo com o que foi relatado, companhias particulares de segurança operando dos países do Golfo estão envolvidas em recrutamento e treino de mercenários.

Apesar de não especialmente marcadas para o recrutamento dos mercenários dirigidos contra a Síria, relatórios apontam para uma criação de campos de treinamento em Qatar e no Emirados Árabes Unidos –UAE. Na cidade militar de Zaved –Zaved Military City, UAE, “um exército secreto está sendo construído”, operado por Xe Services, antes denominado Blackwater. O acordo da UAE para estabelecer um campo militar para treino de mercenários foi assinado em julho de 2010, nove meses antes dos furiosos ataques contra a Líbia e a Síria.

Em desenvolvimentos recentes, companhias de segurança em contrato com a OTAN e o Pentágono estiveram envolvidas em treinar os esquadrões da morte no uso de armas químicas.

“Os Estados Unidos e alguns aliados europeus estão usando contratados da defesa para treinar os rebeldes sírios em como assegurar provisões de armas químicas na Síria, um sênior oficial dos Estados Unidos, e diversos diplomatas informaram a CNN, domingo” (CNN Report, December 9, 2012).

Os nomes das companhias envolvidas não foram revelados.


Atrás de portas fechadas no departamento de Estado dos EUA

Robert Stephen Ford fazia parte de um pequeno time no Departamento do Estado Americano que supervisionava o recrutamento e treino de brigadas terroristas, conjuntamente com Derek Chollet e Frederic C. Hof, um ex-associado de negócios de Richard Armitage, que serviu como “coordenador especial” de Washington, em assuntos da “Síria”. Derek Chollet foi recentemente apontado para a posição de “Assistant Secretary of Defense for International Security Affairs” (ISA)- [Secretário Auxiliar da Defesa para Assuntos de Segurança Internacional]

Esse time trabalhou abaixo da direção do ex-Auxiliar Secretário de Estado para Assuntos do Próximo Oriente –Near Eastern Affairs, Jeffrey Feltman.

O time de Feltman estava em próximo contacto com os processos de recrutamento e treino dos mercenários da Turquia, Qatar, Arábia Saudita e Líbia (cortesia do pós-Kaddafi regime, que despachou -600- tropas da “Libya Islamic Fightin Group”-LIFG para a Síria, via Turquia, nos meses a seguir o colapso do governo de Kadafi, em setembro 2011.

O Auxiliar Secretário do Estado, Feltman, esteve em contacto com o Ministro do Exterior Saudita, o Príncipe Saud al Faisal , e o Ministro do Exterior de Qatar, Sheik Hamad bin Jassim. Ele também esteve encarregado do gabinete para “coordenação especial de segurança” relacionado a Síria e baseado em Doha. Esse gabinete incluía representantes das agências de inteligência do ocidente, assim como do GCC e representantes da Líbia. O Príncipe Bandar bin Sultan, a prominente e controverso membro da inteligência Saudita fazia parte desse grupo. (Veja Press TV, May 12, 2012).

Em junho 2012, Jeffrey Feltman foi apontado UN Under-Secretary-General for Political Affairs, uma posição estratégica que, na prática consiste em por a agenda da ONU (em favor de Washington) em assuntos pertencendo a “Resolução de Conflitos” em vários focus de problema ao redor do globo. Isso inclui Somália, Líbano, Líbia, Síria Iêmem e Mali. Numa amarga ironia, os países para a “resolução de conflitos” da ONU são então aqueles mesmos sendo alvos das operações, encobertas, dos Estados Unidos.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Julius Evola - Nietzsche para Hoje

por Julius Evola


Na Itália parece que um interesse em Friedrich Nietzsche foi revivido. Um sinal óbvio disso é que Adelphi de Milão está publicando uma tradução crítica de todas as suas obras; em segundo lugar, há o aparecimento quase simultâneo de dois livros, Nietzsche por Adriano Romualdi, que contém um ensaio completo sobre esse pensador seguido por uma seleção de passagens de seus escritos, e então a tradução do alemão da excelente obra sistemática, Nietzsche e o Sentido da Vida por Robert Reininger. A abordagem específica do segundo desses livros nos leva a propor essa questão: à parte da importância que Nietzsche tem como filósofo em geral, o que podem significar suas idéias hoje e, mais precisamente, quais de suas idéias ainda mantém qualquer validade?

A relevância desse problema foi trazida à luz por Reininger, ao notar que a figura de Nietzsche também possui a qualidade de um símbolo, e que sua persona incorpora ao mesmo tempo uma causa: "é a causa do homem moderno pelo qual se luta, desse homem sem mais raízes no solo sagrado da tradição, oscilando entre os picos de civilização e os abismos de barbárie, buscando a si mesmo, ou seja, levado a criar para si um sentido satisfatório para uma existência de tudo trazido para si".

É possível especificar ainda mais essa visão relativa ao problema do homem do período do niilismo, do "ponto zero de todos os valores", do período em que "Deus está morto", com base no que Nietzsche fez seu Zaratustra anunciar, e que hoje é notoriamente traduzido de forma comum e quase banal; do homem no período em que todos os suportes externos falham e em que - como nosso filósofo já disse - "o deserto cresce".

Da mesma maneira, se pode dizer que muito do que Nietzsche pode possivelmente fornecer remete ao problema individual puro. Todas as formulações tendo uma possível relação com problemas políticos e coletivos são postos de lado, aqueles para os quais muitos gostariam de ver colusões entre doutrinas nietzscheanas e alguns movimentos políticos passados, especialmente o Nacional-Socialismo hitlerista e que foram também acusados de fomentar o orgulho de uma suposta "Herrenvolk" (ou seja, raça mestra) e a fixação com um racismo biológico pobremente compreendido.

Se um "super-homem" indubitavelmente constitui uma idéia central da totalidade do pensamento nietzscheano, é em termos de um "super-homem positivo", não é aquilo grotesco no estilo de D'Annunzio, nem a "fera loira de rapina" (essa é uma das expressões mais pobres de Nietzsche) e nem mesmo o indivíduo excepcional que encarna um máximo da "vontade de poder", "para além do bem e do mal", porém sem qualquer luz e sem uma sanção superior.

O super-homem positivo, que cabe ao "melhor Nietzsche", deve ao invés ser identificado com o tipo humano que mesmo em um mundo niilista, devastado, absurdo, ímpio sabe como ficar de pé, porque ele é capaz de dar a si mesmo uma lei de si mesmo, segundo uma nova liberdade superior.

Aqui devemos notar a clara linha de demarcação que existe entre Nietzsche enquanto "destruidor", o esmagador de ídolos, e "imoralista" (essa designação que ele costumava reivindicar, mas só para causar sensação: porque seu desdém era tão somente pela "moralidade pequena" e pela "moralidade de rebanho"), e aquela "revolução do nada" [ou seja, 1968], aquele anarquismo de baixo que a profunda crise do mundo moderno está trazendo. É tão significativo, quanto é natural, que Nietzsche seja absolutamente desconhecido pelos assim chamados movimentos de "protesto" de hoje, enquanto ele foi o primeiro e maior dos rebeldes. Não há correspondência no sujeito humano, as verdadeiras afinidades eletivas - ou seja, o plebeu - de tais movimentos é revelado em sua frequente colusão com o marxismo e seus derivados, e com cada gueto social e racial próximo à superfície violenta e destrutiva da camada puramente subpessoal e naturalista do ser.

As palavras do Zaratustra de Nietzsche são atuais e pertinentes, nesse sentido, quando ele pergunta que busca se livrar de todo grilhão: "Você chama a si mesmo de livre, mas isso não me interessa - Eu te pergunto: livre para quê?", lembrando que há casos em que o único valor que se possui são lançados longe junto com o grilhão. Esse é o claro alerta para aqueles hoje que só sabem falar de "repressões" e que se alimentam de uma intolerância histérica por todo tipo de autoridade - e eles alimentam tal intolerância - só por essa razão: porque eles não possuem em si mesmos um princípio superior que comanda.

Agora o tipo nietzscheano, que colocou o "niilismo atrás de si", que, de fato, "sabe como obter um remédio saudável para tal veneno", é o único que possui este princípio, e que portanto também sabe como dar uma lei a si mesmo. Reininger, nesse sentido, está correto ao ver em Nietzsche o afirmador de uma moralidade "absoluta" como a de Kant, e certas conexões poderiam até mesmo ser estabelecidas com a ética estoica antiga, que similarmente defendia uma soberania interior.

Certamente, a multiplicidade de posições dramaticamente mutantes, algumas vezes até contraditórias, entre as quais Nietzsche tentou encontrar o próprio caminho, pode levar rumo a uma direção bem diferente: por exemplo, quando Nietzsche promove a exaltação da "vida" ou quando ele invoca a "fidelidade à Terra". Fidelidade também a si mesmo: ser e querer ser o que se é, às vezes isto é proposto como o único padrão possível e válido no "deserto que cresce". O padrão adequado, ainda que perigoso, conhecido mesmo na antiguidade clássica antes de qualquer "existencialismo".

O problema fundamental, da maior importância para o que hoje o melhor de Nietzsche pode oferecer, envolve esse perigo. Após o que foi dito, nesse ponto, de que se deve ser a própria lei para si mesmo, é uma questão de ver o que o indivíduo encontra em si e aceitar o limite alcançado pelos múltiplos processos de dissolução espiritual que tem agido em tempos recentes: ver se, em si mesmo, se encontra aquele desprezo natural pela vulgaridade e por todo interesse medíocre, aquela vontade por uma disciplina clara, voluntária, aquela habilidade de estabelecer livremente "valores" e de alcançá-los sem desistir a qualquer custo, aqueles valores que em Nietzsche definem o "Superador" (Überwinder), o homem que não é quebrado entre tantas coisas que estão quebradas hoje.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O Segredo da Eurásia: A Chave para a História Oculta e os Eventos Mundiais

por Mehmet Sabeheddin



"Sob o amplo ondular da história humana fluem as correntes furtivas das sociedades secretas, que frequentemente determinam nas profundezas as mudanças que ocorrem na superfície". - A.E. Waite

Estariam as sociedades secretas e fraternidades ocultas ativas por trás das cenas dos eventos mundiais por milhares de anos? Moldariam esses guardiães de sabedoria secreta o crescimento da consciência humana e influenciariam o destino das nações? Estariam mestres secretos de conhecimento oculto fortalecendo e infiltrando certos movimentos políticos, culturais, espirituais e econômicos, cumprindo um antigo plano? Poderia ser que as maiores reviravoltas, guerras e revoluções humanas, bem como suas descobertas pioneiras na ciência, literatura, filosofia e artes, seriam resultado de uma "mão oculta"? Podemos decodificar a história e encontrar a interface misteriosa entre política e ocultismo, assim desvelando os reais motores de nosso mundo moderno?

O filósofo alemão Oswald Spengler avisou sobre uma "poderosa disputa" enter grupos de homens de "imenso intelecto" a qual o "cidadão comum nem observa nem compreende". Lá em 1930 Ralph Shirley, o editor do Occult Review londrino, o principal diário britânico de ciências esotéricas, endossou "a suspeita de que as fileiras do ocultismo estão secretamente trabalhando para a desintegração e a revolução". Prova positiva na forma de um grupo de ocultistas trabalhando com este objetivo em vistas recentemente veio à atenção do presente escritor".

O major-general Fuller, antigo discípulo de Aleister Crowley, que tinha ligações com a inteligência militar britânica, escreveu sobre uma força insidiosa usando "Magia e Ouro" buscando "alcançar o domínio global sob um Messias vingativo como previsto pelo Talmud e a Qabalah". O antigo chefe de Fuller, Crowley, trabalhou como agente secreto tanto para a Grã-Bretanha como para a Alemanha, ainda que seus contatos britânicos tenham notado sua "pouca confiabilidade" alertando que ele só devia ser usado em operações de espionagem com o maior cuidado. Durante a Primeira Guerra Mundial o Ministério de Relações Exteriores da Alemanha secretamente pediu ao ocultista Gustav Meyrink que escrevesse um livro culpando os maçons da França e da Itália pelo início da guerra.

A Madame Blavatsky acreditava que a sociedade católica dos jesuítas havia transferido seu quartel-general do continente para a Inglaterra onde eles planejavam mergulhar o homem em uma ignorância passiva e instituir "Despotismo Universal". A fundadora da Sociedade Teosófica, uma mulher de intelecto imenso e experiência de primeira mão com sociedades secretas, alertou:

"Estudantes de Ocultismo deveriam saber que enquanto os jesuítas conseguiram através de seus meios fazer com que o mundo em geral, e os ingleses em particular, creia que não há tal coisa como Magia e ria de Magia Negra, esses astutos e furtivos conspiradores eles mesmos sustentam círculos magnéticos e formam correntes magnéticas pela concentração de sua vontade coletiva, e quando eles tem algum objeto especial para afetar ou qualquer pessoa particular e importante para influenciar".

A Revolução Francesa, uma das reviravoltas políticas mais importantes da Europa, foi majoritariamente a obra de lojas maçônicas dedicadas à derrubada da monarquia e a por um fim à religião católica estabelecida. Em Provas de uma Conspiração (1798), John Robinson demonstrou que os clubes políticos e comitês de correspondência durante a revolução, incluindo o famoso Clube Jacobino, nasceu dessas lojas maçônicas.

A influência do misticismo, do oculto e das sociedades secretas sobre a história é geralmente descartada por acadêmicos ocidentais. Historiadores comuns escolhem ignorar este aspecto porque eles acreditam que ele não possui qualquer importância real para a política mundial. Na verdade é somente pelo reconhecimento do papel e influência do "subterrâneo oculto" que importantes eventos globais podem ser plenamente compreendidos e colocados em sua perspectiva histórica real.

Atlantismo versus Eurasianismo

As sociedades secretas e os professores da sabedoria oculta consistentemente traçam suas origens de volta à própria aurora da civilização. Dentro da cultura judaico-cristão, as escolas secretas falam de Adão, Set, Moisés e dos Patriarcas como iniciados de uma sabedoria divina cuidadosamente transmitida de uma geração para a próxima. Outros grupos ocultistas olham para o antigo Egito e para as Escolas de Mistério da Grécia, para o continente perdido de Atlântida. Ainda outros traçam sua linhagem à Suméria ou Babilônia e às misteriosas planícies da Tartária.

Examinando os mitos, lendas e histórias arcanas da humanidade nós encontramos incontáveis referências a uma civilização primordial desaparecida. O brilhante metafísico francês René Guénon escreveu sobre uma grande cultura hiperbórea que floresceu ao redor do Círculo Ártico e seus entrepostos Shambhala no Oriente e Atlântida no Ocidente. Platão escreveu sobre Atlântida, descrevendo-a como o coração de um grande e poderoso império que, devido à mistura indiscriminada dos "filhos dos Deuses" com os "filhos dos homens", sofreu "violentos terremotos e inundações" e "desapareceu sob o mar". Segundo a tradição oculta, Atlântida chegou ao fim após um longo período de caos e desastres trazidos, nas palavras de Madame Blavatsky, porque a "raça atlante se tornou uma nação de magos malignos". Atlântida foi destruída por uma conspiração de magos malignos que havia tomado o controle do poderoso continente.

Muito antes do fim de Atlântida, grandes migrações ocorreram em direção a diferentes centros terrestres. Em uma lenda nos é falado sobre um remanescente justo viajando do Círculo Ártico para Shambhala, na remota vastidão da Ásia Central. Outras lendas sugerem que sobreviventes atlantes estabeleceram a antiga civilização egípcia.

Victoria LePage, autora de um dos mais amplos estudos sobre Shambhala explica como Atlântida e Shambhala são mais do que meros locais geográficos:

"No folclore Atlântida e Shambhala estão implicitamente ligadas como imagens carismáticas do desejo do coração, duas miragens que se situam no horizonte mais longínquo do anseio humano, inalcançáveis, sempre recuando conforme tentamos alcançá-las; na melhor das hipóteses não mais do que estados ideais de consciência jamais realizados. Mas sua associação parece ter uma base bem mais real e historicamente concreta do que isso. A tradição iniciática afirma que ambas genuinamente existiram, uma no mar ocidental, a outra nas montanhas orientais, como eixos centrais do que foi outrora uma rede de centros de sabedoria localizados em uma grande rede de poder abarcando o globo. Ademais, Shambhala ainda existe dentro de um âmbito que aguarda reativação".

De modo a identificar atividades históricas de sociedades secretas nós precisamos apreciar a origem de uma idéia assaz poderosa. As tradições ocultas falam de Shambhala como o centro positivo da Fraternidade da Luz, e Atlântida como o centro negativo dos magos negros, a Fraternidade da Sombra. Onde quer que olhemos nós vemos a divisão de sociedades secretas e empenhos ocultos nessas duas "Ordens" opostas. Todos os movimentos e ensinamentos ocultos inevitavelmente servem ou à "Ordem da Eurásia" ou à "Ordem do Atlantismo", com seus respectivos centros simbólicos de Shambhala e Atlântida. Ocultas por trás de uma multidão de diferentes formas e representados por uma gama de insuspeitos agentes de influência, estes dois centros - Shambhala e Atlântida - representam dois diferentes impulsos na evolução humana.

Visto da perspectiva da geografia sagrada, em nosso ciclo histórico atual, o Atlantismo é o triunfo dos elementos mais destrutivos e diabólicos na civilização ocidental. Uma autoridade moderna em geografia sagrada e geopolítica observa:

"A geografia sagrada com base em 'simbolismo espacial' tradicionalmente considera o Oriente como 'a terra do Espírito', a terra paradisíaca, a terra de uma completude, abundância, a 'terra nativa' sagrada em seu tipo mais pleno e perfeito. Em particular, essa idéia é espelhada no texto bíblico, onde a disposição oriental do 'Éden' é tratada.

Precisamente tal compreensão é peculiar também a outras tradições abraâmicas (Islã e Judaísmo) e também a muitas tradições não-abraâmicas - chinesa, hindu e iraniana. 'O Oriente é a mansão dos Deuses', afirma a fórmula sagrada dos antigos egípcios, e a própria palavra 'Oriente' ('neter' em egípcio) significa ao mesmo tempo "Deus". Do ponto de vista do simbolismo natural, o Oriente é o lugar onde o sol se ergue, Luz do Mundo, símbolo material da Divindade e do Espírito.

O Ocidente possui o significado simbólico oposto. É o 'país da morte', o 'mundo sem vida', o 'país verde' (como os antigos egípcios o chamavam). O Ocidente é 'o império do exílio', 'o poço dos rejeitados', segundo a expressão de místicos islâmicos. Ocidente é 'anti-Oriente', o país da decadência, transição de degradação do manifesto ao imanifesto, da vida para a morte, da completude à carência, etc. O Ocidente é o lugar onde o sol desce, onde ele 'afunda'."



Rússia e o Universo Mágico

A Rússia, geograficamente o maior país da terra, ocupa uma posição única no estudo da história humana nos fornecendo uma janela para o mundo das sociedades secretas, professores ocultos e correntes políticas subterrâneas.

Idéias e práticas tiradas da magia e do oculto sempre foram parte da vida russa. No século XVI o Czar Ivan IV consultou magos e tinha consciência do significado oculto das pedras preciosas de seu cajado. Seu reino era a culminação do sonho de construir uma civilização profética e religiosa na tradição cristã oriental de Bizâncio. Cercado por ordens secretas de monges apocalípticos, Ivan se via como o herdeiro dos reis israelitas e tentou transformar a vida russa segundo sua visão mágica da realidade. Ivan estava convencido de que a nação russa tinha uma missão especial a realizar, nada menos que a redenção do mundo.

Em 1586, o Czar Boris Godunov ofereceu o enorme salário de 2.000 libras inglesas por ano, com uma casa e todas as provisões de graça, para John Dee, o mago inglês e mestre espião, para que o servisse. O filho de Dee, Dr. Arthur Dee, que como seu pai era um alquimista e rosacruz, foi para Moscou trabalhar como médico. Mikhail Romanov, o primeiro Czar da dinastia Romanov, supostamente ascendeu ao trono com a ajuda do Dr. Arthur Dee e do serviço secreto britânico. Antes de sua ascensão ao poder os Romanov eram acusados por seus inimigos de praticarem magia e possuírem poderes ocultos.

O lendário Conte de Saint-Germain, descrito como alquimista, espião, industrialista, diplomata e rosacruz, se tornou envolvido em diversas intrigas políticas na Rússia e era, segundo Nicholas Roerich, "um membro da irmandade do Himalaia". Em 1755 ele viajou pela Eurásia para estudar doutrinas ocultas, e pode até ter visitado o Tibet. É dito que enquanto estudava ocultismo na Ásia Central o Conte foi introduzido aos ritos secretos da magia sexual tântrica que forneceram a ele uma técnica para prolongar sua juventude. Ele também participou de operações de espionagem contra a notória Companhia Britânica das Índias. Saint-Germain fundou duas sociedades secretas chamadas Confrades Asiáticos e Cavaleiros da Luz. Tão cedo quanto 1780 ele alertou Maria Antonieta que o trono francês estava em perigo pro causa de uma conspiração internacional dos "Irmãos das Sombras". Rumores continuaram a circular por muitos anos após sua suposta morte de que Saint-Germain ainda estava vivo trabalhando por trás das cenas na política européia ou estudando doutrinas ocultas na Ásia Central.

Ocidente encontra Oriente

"Poderes ocultos parecem ser uma questão de temperamento nacional...a Rússia tende a produzir magos - homens ou mulheres que impressionam por sua autoridade espiritual; nenhuma outra nação possui um equivalente espiritual de Tolstói e Dostoévsky, ou mesmo de Rozanov, Merezhkovsky, Soloviev, Fedorov, Berdaev, Shestov. Certamente nenhuma outra nação chegou perto de produzir alguém como Madame Blavatsky, Gregory Rasputin ou George Gurdjieff. Cada um é completamente único". - Colin Wilson, The Occult

O processo de síntese das tradições ocultas do Oriente e Ocidente é visto na obra de Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica e o autor do magnum opus A Doutrina Secreta. Nascida Helena von Hahn, a filha de uma família militar russa e prima do futuro Primeiro-Ministro russo Conde Witte, ela é uma verdadeira emissária da Ordem Eurasiana. Nevill Drury diz da ocultista russa: 

"Sua principal contribuição ao pensamento místico era a maneira na qual ela buscava sintetizar filosofia e religião oriental e ocidental, assim fornecendo uma estrutura para entender a doutrina oculta universal".

Madame Blavatsky viajou pela Ásia e Europa, se uniu à milícia revolucionária nacional de Garibaldi, lutando na batalha de Mentana, na qual ela foi gravemente ferida. No final da década de 1870, pouco após a publicação de seu primeiro livro Ísis Desvelada, uma convincente acusação à religião ocidental contemporânea como falida espiritualmente, ela se mudou dos EUA para a Índia onde o quartel-general da Sociedade Teosófica permanece até hoje.

Em 1891 o futuro Czar Nicolau II, na companhia do estudioso místico eurasiano Príncipe Ukhtomsky, visitou o quartel-general da Sociedade Teosófica em Adyar. A descrição da Sociedade pelo Príncipe Ukhtomsky:

"À insistência de Blavatsky, uma senhora russa que sabia e havia visto muito, brotou a idéia da possibilidade, e mesmo necessidade, de fundar uma sociedade de teosofistas, de buscadores da verdade no sentido mais amplo da palavra, para o propósito de alistar adeptos de todos os credos e raças, de penetrar mais fundo nas doutrinas mais sagradas das religiões orientais, de trazer asiáticos a uma verdadeira comunhão espiritual com estrangeiros educados no Ocidente, de mantar relações secretas com diferenças sacerdotes, ascetas, magos, e daí em diante".

Madame Blavatsky queria unificar Ásia Central, Índia, Mongólia, Tibet e China, de modo - com o envolvimento da Rússia - a criar uma grande potência eurasiática para se opor às ambições britânicas. Viajando pela Índia Blavatsky agitou contra o governo britânico e se viu acusada pelas autoridades coloniais de ser uma espiã russa. O Príncipe Ukhtomsky via apoio para a Eurásia na "prontidão dos indianos em se agruparem sob o estandarte da estranha mulher do norte". Ele acreditava que Madame Blavatsky havia sido forçada a abandonar a Índia pelas "suspeitas dos ingleses".

Tão cedo quanto 1887 H.P. Blavatsky havia se tornado tópico de debate na "Petersburgo mística" e recebido o apoio prestigioso do amigo de Ukhtomsky, o misterioso tibetano Dr. Badmaev, que logo se tornaria notório pelo favor que ele recebeu na corte imperial russa e por sua relação com Rasputin. A irmã de Blavatsky insistia que o Metropolita Ortodoxo Russo de Kiev havia reconhecido o dom psíquico da jovem Helena, e a havia alertado a usar seus poderes com discrição, já que ele tinha certeza de que eles haviam sido dados a ela para algum propósito superior.

O Dr. Stephen Hoeller, um estudioso de religião comparada e Bispo Gnóstico, nos lembra que Blavatsky "era uma verdadeira filha da Mãe Rússia. Alguns sentiam que sua vida e caráter correspondem fortemente ao arquétipo tradicional russo do santo andarilho, conhecido como staretz (literalmente "ancião"), denotando um asceta andarilho não-clerical, ou peregrino, que viaja pelo interior, exortando as pessoas em relação a questões espirituais, algumas vezes de uma maneira decididamente heterodoxa".

Após a morte de Blavatsky em Londres em 1891, a Sociedade Teosófica ficou sob o firme controle dos ocultistas ingleses Annie Besant e C.W. Leadbeater, um convicto imperialista britânico. A orientação eurasiática dada pela Teosofia primitiva de Blavatsky foi comprometida pela influência da maçonaria britânica e pelo anglicanismo esotérico de Leadbeater. No grande conflito dos magos o impulso eurasiático encontro novos agentes históricos no Ocidente, entre eles o celebrado mago francês Papus.



Grande Batalha de Magos

"Quando o século XIX tiver chegado ao fim, um dos Irmãos de Hermes virá da Ásia para reunificar a humanidade". - Nosstradamus

Papus, junto com Oswald Wirth e De Guaita, sonhava em unir ocultistas de todos os lugares em uma fraternidade rosacruciana revivida, uma ordem oculta internacional na qual eles esperavam que o Império Russo desempenharia um papel de liderança como ponte entre Oriente e Ocidente.

Papus era o pseudônimo do Dr. Gerard Encausse (1865-1916), um discípulo de Joseph Saint-Yves d'Alveydre (1842-1910), um iniciado da Igreja Gnóstica Francesa e não raro o instigador de muitos dos grupos ocultistas de seu tempo. Um dos mais famosos ocultistas da virada do século, ele foi o fundador da Escola Hermética em Paris, que atraiu muitos estudantes russos, e dirigiu a principal revista ocultista francesa, L'Initiation. Papus era também o líder de duas sociedades secretas, a L'Ordre du Martinisme e a L'Ordre Kabbalistique de la Rose-Croix.

Quando o Czar e a Czarina russos visitaram a França em 1896, foi Papus que lhes enviou uma saudação em nome dos "espiritualistas franceses", esperando que o Czar "imortalizaria seu Império por sua união total com a Divina Providência". Essa saudação era reminiscente das esperanças de místicos à época da Santa Aliança do Czar Alexandre I.

Papus fez sua primeira visita à Rússia em 1901 e foi apresentado ao Czar. Ele rapidamente organizou uma loja de sua Ordem Martinista em São Petersburgo com o Czar como o presidente dos "Superiores Desconhecidos" que a controlavam. O historiador James Webb diz que Papus "estava meramente revivendo uma devoção a uma filosofia que havia florescido na Rússia na virada dos séculos XVIII e XIX antes de ser suprimida".

Como o principal estudante de Saint-Yves d'Alveydre, Papus sabia do papel fundamental a ser desempenhado pela Rússia na unificação da Eurásia e seu destino oculto como o Império do Fim, a manifestação externa do poder enigmático da "Shambhala Nórdica".

Através de Papus, a família imperial passou a conhecer seu amigo e mentor espiritual Mestre Philippe (Nizier Anthelme Philippe). Um místico cristão sincero, ele recebeu título e honras do Czar russo, e manteve contato com a corte imperial até sua morte em 1905.

Papus voltou a São Petersburgo em 1905 onde corria o rumor de que ele, na presença do casal imperial, invocou o espírito do pai do Czar, Alexandre III, que ofereceu conselhos práticos sobre como lidar com uma crise política.

Tanto Mestre Philippe como Papus tiveram um importante papel político na corte russa. Eles não só aconselhavam o Czar em questões de Estado como mantinham contato com influentes iniciados russos da Ordem Martinista, entre eles dois tios do Czar e vários parentes. O ocultista alemão Rudolf Steiner, que tinha seus próprios discípulos entre o Estado-Maior alemão, seguiu a missão dos dois franceses, perturbado pela "grande influência de Papus na Rússia". Um forte defensor de uma aliança entre França e Rússia, Papus alertou o Czar de uma conspiração internacional objetivando a dominação mundial.

"Ele acreditava que o vasto Império Russo era a única potência capaz de evitar a conspiração dos 'Irmãos da Sombra'. Ele também urgiu o Czar a se preparar para uma futura guerra com a Alemanha, então sendo planejada por forças sinistras em Berlim. Segundo um relato, ele prometeu à família imperial que a monarquia Romanov estaria protegida enquanto ele, Papus, estivesse vivo. Quando notícias de sua morte alcançaram Alexandra em 1916, ela enviou uma nota a seu marido (à época comandando os exércitos russos no front na Primeira Guerra Mundial) contendo as palavras 'Papus está morto, nós estamos perdidos!'"

Papus promoveu sua Ordem Martinista como uma oposição às lojas maçônicas que, ele acreditava, estavam a serviço do imperialismo britânico e dos sindicatos financeiros internacionais. De seus escritos é sabido que ele forneceu documentação às autoridades russas sobre atividades maçônicas na Rússia e na Europa. Papus condenou a Maçonaria como ateísta em contraste ao cristianismo esotérico da Ordem Martinista. Ele atacou "nossa época de ceticismo, de adoração de formas materiais, tão vitalmente carente de uma reação verdadeiramente cristã, independente de todos os sacerdócios". Pouco após retornar de sua primeira visita à Rússia em 1901, uma série de artigos apareceu na imprensa francesa pelos quais Papus era o principal responsável. Eles alertavam sobre uma "conspiração oculta" sobre cuja existência o público estava totalmente inconsciente e sobre as maquinações de um sindicato financeiro sinistro tentando romper a aliança franco-russa. O público é cego para as forças reais da história:

"Ele não vê que em todos os conflitos emergindo dentro ou entre nações, há ao lado dos atores aparentes motores ocultos que por seus próprios cálculos interessados tornam esses conflitos inevitáveis...

Tudo que acontece na confusa evolução de nações é assim preparado em segredo com o objetivo de garantir a supremacia de uns poucos homens; e são esses poucos homens, às vezes famosos, às vezes desconhecidos, que devem ser procurados por trás de todos os eventos públicos.

Agora, hoje, a supremacia é garantida pela posse de ouro. São os sindicatos financeiros que seguram nesse momento os fios secretos da política européia...

Poucos anos atrás foi assim fundado na Europa um sindicato financeiro, hoje onipotente, cujo objetivo supremo é monopolizar todos os mercados do mundo, e que de modo a facilitar suas atividades tem que adquirir influência política".

Os inspirados artigos de Papus em Echo de Paris revelavam o papel do Serviço Secreto Britânico, que era exposto como estando por trás da maçonaria britânica, de isolar e enfraquecer a Rússia. Na França, agentes britânicos concentravam-se na propaganda anti-russa, enquanto na Rússia eles faziam uso de "truques financeiros" para se infiltrarem em todos os níveis da sociedade. Cada esforço era necessário para "preservar o Imperador russo - tão leal e generoso - dos males...dos sindicatos financeiros...que atualmente controlem os destinos da Europa e do mundo".



O Tibetano Misterioso

"São Petersburgo...em 1905 era provavelmente o centro místico do mundo" - Colin Wilson, The Occult

Shamzaran (Pyotr) Badmaev era um mongol buriat que havia crescido na Sibéria e se convertido à ortodoxia russa com Alexandre III como seu padrinho. Ele adquiriu considerável influência no Ministério de Relações Exteriores e o Czar lhe deu o título de Conselheiro Privado. Badmaev era renomado como um doutor de medicina tibetana, herbalista e curandeiro que tratava pacientes das alta sociedade em sua famosa clínica de "Medicina Oriental em São Petersburgo. Descrito por um historiador russo como "uma das personalidades mais misteriosas do dia", e um "mestre de intriga", Badmaev desfrutava de uma forte associação com o curandeiro místico Rasputin.

Conhecido como "o Tibetano", Badmaev sonhava com a unificação da Rússia, da Mongólia e do Tibet. Ele se envolveu em incontáveis projetos objetivando a criação de um grande império eurasiático. A missão histórica da Rússia, ele acreditava, se encontrava no Oriente, onde ela estava destinada a unificar os povos budistas e muçulmanos, como uma oposição ao colonialismo ocidental. Badmaev delineou sua visão em um relatório de 1893 ao Czar Alexandre III chamado "As Tarefas da Rússia no Leste Asiático". Seu conhecimento político considerável garantiram o apoio das tribos mongóis na Guerra Russo-Japonesa.

Em uma carta de 19 de dezembro de 1896, Badmaev escreveu para o Czar Nicolau II: "...minhas atividades tem o objetivo de que a Rússia deveria ter maior influência do que outras potências sobre o Oriente mongol-tibetano-chinês". Badmaev expressou particular preocupação com a influência da Inglaterra no Oriente, afirmando em um memorando especial:

"O Tibet, que - como mais alto plateau da Ásia - reina sobre o continente asiático, deve sem dúvidas estar nas mãos da Rússia. Comandando este ponto, a Rússia certamente será capaz de tornar a Inglaterra mais condescendente".

Badmaev conhecia a lenda, popular na Mongólia, China e Tibet, do "Czar Branco" que viria do Norte (da "Shambhala Nórdica") e restauraria as tradições decadentes do verdadeiro Budismo. Ele relatou ao Czar Nicolau II como "buriats, mongóis e especialmente lamas...estavam sempre repetindo que o tempo havia chegado para estender as fronteiras do Czar Branco no leste..."

Badmaev tinha uma forte associação com um lama tibetano bem posicionado, Agvan Dordzhiyev, o tutor e confidente do XIII Dalai Lama. Dordzhiyev equiparava a Rússia com o vindouro Reino de Shambhala antecipado nos textos Kalachakra do Budismo Tibetano. O lama abriu o primeiro templo budista na Europa, em São Petersburgo, significativamente dedicado à doutrina Kalachakra. Um dos artistas russos que trabalhou no templo de São Petersburgo foi Nicholas Roerich, que havia sido introduzido à lenda de Shambhala e ao pensamento oriental pelo lama Dordzhiyev. George Gurdjieff, outro homem de mistério que teve um impacto tremendo no esoterismo ocidental, conhecia o Príncipe Ukhtomsky, Badmaev e o lama Dordzhiyev. Teria sido Gurdjieff, acusado pelos britânicos de ser um espião russo na Ásia Central, um pupilo dos misteriosos tibetanos?

"Eu estou treinando homens jovens em duas capitais - Pequim e Petersburgo - para outras atividades", escreveu o Dr. Badmaev para o Czar Nicolau II.



Anarquismo Místico

A influência do "Tibetano" se estendia para além da corte imperial até a intelligentsia russa e mais ainda até o mundo subterrâneo da espionagem e da política revolucionária. Um dos movimentos intelectuais à época dos tumultos políticos de 1905 era chamado de "Anarquismo Místico". Dois de seus principais expoentes eram o poeta e escritor Viacheslav Ivanov e George Chulkov, ambos associados do Dr. Badmaev. Chulkov, como o "Tibetano", é descrito como um medium inconsciente transmitindo forças misteriosas.

Uma doutrina política radical objetivando reconciliar liberdade individual e harmonia social, o Anarquismo Místico se inspira nas idéias de Friedrich Nietzsche. Isso não é surpreendente quando consideramos a visão positiva de Nietzsche sobre a Rússia como a antítese do Ocidente decadente, e a apreciação do filósofo alemão pelo budismo e pela cultura oriental.

Segundo a historiadora Bernice Glatzer Rosenthal, os anarquistas místicos, convictos de que "forças invisíveis estavam guiando eventos aqui na Terra, acreditavam que a revolução política refletia realinhamentos na esfera cósmica, e que um novo mundo de liberdade, beleza e amor era iminente".

"Defendendo a abolição de todas as autoridades externas e todas as restrições sobre o indivíduo - governo, lei, moralidade, costume social - eles eram indiferentes a direitos legais como meras "liberdades formais" e se opunham a constituições e parlamentos em favor do sobornost. Por sobornost eles queriam dizer uma comunidade livre unida por amor e fé cujos membros preservavam sua individualidade (como distinto de individualismo, auto-afirmação à parte ou contra a comunidade)...

Eles fundavam esse ideal em sua noção de 'pessoa mística', a alma ou psiquê, que busca união com outros e se reconhece como um microcosmo do macrocosmo, como distinto da 'pessoa empírica', o Eu ou ego, que se afirma à parte ou contra outros. Evocar e desenvolver essa 'pessoa mística' tornaria possível uma 'nova sociedade orgânica' unida por laços invisíveis de amor (eros, não agape), 'experiência mística', e sacrifício - o exato oposto da sociedade liberal, baseada no contrato social e no auto-interesse mútuo e caracterizada pelo discurso racional".

O Anarquismo Místico é uma idéia sociopolítica totalmente eurasiana. Aqui nós temos um motivo assaz arcano em uma forma moderna: A grande luta da civilização empírica, plutocrática e ocidental contra a cultura mística, sacrificial da Eurásia. Em termos ocultos é o conflito do impulso de "Shambhala" com os renegados da "civilização atlante". A Fraternidade da Luz Nórdica combatendo os Irmãos das Sombras, manifestação externa da longa guerra entre os agentes do Ser e do Não-Ser.

Nicholas Berdyaev, Dmitri Merezhkovsky, Zenaida Hippius, Valerri Briusov, Mikhail Kuzmin, Alexandre Blok, Vasili Rozanov, junto a uma hoste de outros poetas, escritores e artistas russos, transmitiram diferentes aspectos do Anarquismo Místico e da visão eurasiana. Quando nos anos antes da Revolução o mestre sufi Inayat Khan visitou a Rússia, ele encontrou muito a ser elogiado no "tipo oriental de discipulado que é natural à nação".

Merezhkovsky viu a possibilidade de evoluir uma "nova consciência religiosa" dos dois tipos peculiarmente russos representados por Tolstói e Dostoévski. Tolstói representava um misticismo panteísta da carne, e Dostoévski valores espirituais mais ascéticos. "Nessa Rússia o 'Homem-Deus' será manifesto ao mundo ocidental, e o 'Deus-homem' pela primeira vez para o oriental, e será, para aqueles cujo pensamento já reconcilia ambos hemisférios 'Um em Dois'".

Após a Revolução Bolchevique, Blok contrastou a nova Rússia com o Ocidente. Ele chamou a Rússia de a "Cita", ou seja, uma nação jovem e fresca cujo destino era desafiar o Ocidente decadente:

"Nós somos os citas, nós somos os asiáticos...séculos de vossos dias não são mais do que uma hora para nós, Ainda assim como escravos obedientes, Nós seguramos um escudo entre duas raças hostis - Europa, e as hordas mongóis...Da guerra e horror venham aos nossos braços abertos, O abraço de parentes, Coloque a velha espada longe enquanto há tempo, Nos saúdem irmãos...Ah, Velho Mundo, antes que pereças, una-se a nosso banquete fraternal".

O poeta Nikolai Kliuev e seu jovem amigo Sergei Esenin incluíam imagens ocultistas e temas eurasianos em suas obras. Ao fim de 1917 Kliuev (1887-1937), um profeta e emissário da Eurásia, escreveu:

"Nós somos a hoste dos portadores-do-sol
No centro do universo
Ergueremos uma casa flamejante de cem andares
China e Europa, Norte e Sul
Virão à câmara em uma dança-de-roda de amigos
Para unir Abismo e Zênite
Seu padrinho é o próprio Deus e sua Mãe
É a Rússia".

O protegido de Kliuev, Esenin (1895-1925), desejava o fim do velho mundo e sua substituição por um novo, e até mesmo proclamou uma nova tendência religiosa chamada "Aggelismo", com claras raízes no gnosticismo russo. Ele saudava tanto Cristo como Gautama o Buda como gênios porque eles eram homens de "palavra e ação". Em uma carta a um amigo, Esenin escreveu:

"Povo, olhai para si, não emergiu Cristo de vós, e vós não podeis ser Cristos? Não posso eu com força de vontade ser um Cristo...? Quão absurda é toda nossa vida. Ela nos distorce desde o berço, e ao invés de pessoas verdadeiramente reais algum tipo de monstro emerge".

Ele alertou os Estados Unidos, para ele o símbolo de todas as fontes não-russas e racionalistas, para não cometer o erro da "descrença" e ignorar a nova "mensagem" da Rússia, já que o caminho para a nova vida é somente através da Rússia. Um amigo escreveu como Esenin e seus companheiros poetas "citas" queria um "aprofundamento da revolução política ao nível social" e passaram a considerar o marxismo russo como "áspero". Antes de sua morte, Esenin se tornou convicto de que "forças malignas" haviam usurpado a Revolução e que os Bolcheviques traíram a missão da Rússia.

O famoso poeta Nikolai Kliuev conhecia tanto o Dr. Badmaev como Grigory Rasputin, e como este havia sido iniciado em uma escola secreta de misticismo sexual cristão com similaridades ao Tantra tibetano e o Shivaísmo indiano. "Eles me chamaram de um Rasputin", escreveu Kliuev em um poema de 1918. A espiritualidade de Kliuev era profundamente enraizada na tradição dos dissidentes religiosos russos como os Velhos Crentes, os Khlysty e Skoptsy, que formavam um verdadeiro rio subterrâneo entre as pessoas comuns. Kliuev admitiu como ao ser desafiado por um ancião Khlyst a se "tornar um Cristo", ele foi apresentado à comunidade secreta dos "irmãos da Pomba". Com a ajuda de "várias pessoas de identidade secreta", Kliuev viajou por toda a Rússia participando de rituais secretos e bebendo das tradições ocultas do Leste russo.

Em seus poemas Kliuev buscava transmitir o espírito místico da Eurásia. Ele era um profeta de Belovodia, o nome dado pelos Velhos Crentes russos ao aguardado paraíso terreno similar a Shambhala. Kliuev visualizava uma transformação radical da Rússia que traria uma sociedade sem classes em que a cultura campesina triunfaria sobre o industrialismo, o capitalismo, e a mecanização geral da vida. Ele expressou sua preocupação pelos perigos da civilização desalmada ocidental em uma carta de 1914 a um amigo:

"Todo dia eu vou ao bosque - e lá me sento perto de uma pequena capela - e o velho pinheiro, há tão somente uma polegada do céu, eu penso em você...eu beijo seus olhos e seu querido coração...oh, mãe natureza! Paraíso do espírito...quão odioso e negro parece todo o assim-chamado mundo civilizado e o que eu não daria, que Golgotha eu não suportaria - para que a América não arremetesse sobre a aurora azul...sobre a cabana de contos de fada".

O filósofo russo Nicholas Berdyaev articulou a visão partilhada pelos pensadores russos pré-revolucionários bem como pela elite cultural, quando ele escreveu do fim do racionalismo ocidental e do nascimento de uma nova era do espírito que testemunharia o conflito do Cristo e do Anticristo. Ele viu a popularidade de doutrinas místicas e ocultas como prova da aproximação dessa Nova Era, e pediu por uma "nova cavalaria".  "O homem não é uma unidade no universo, formando parte de uma máquina irracional, mas um membro vivo de uma hierarquia orgânica, pertencendo a um todo vivo e real". Os ataques de Berdyaev contra os valores materialistas ocidentais somente refletiam uma visão amplamente partilhada pela sociedade russa. Escrevendo em exílio no início da década de 30 ele observou:

"O individualismo, a 'atomização' da sociedade, a aquisição desordenada do mundo, a superpopulação indefinida e a inesgotabilidade das necessidades do povo, a falta de fé, o enfraquecimento da vida espiritual, essas e outras são as causas que contribuíram para construir aquele sistema capitalista industrial que mudou a face da vida humana e rompeu seu ritmo com a natureza".

Jornada para Shambhala

"Nicholas Roerich foi um homem que trouxe glória para nosso povo russo; ele é um representante de nossa civilização e de sua cultura, um de seus pilares". - Mikhail Gorbachev

Nikolai Konstantinovich Roerich (1874-1947) havia sido introduzido à idéia de Shambhala enquanto trabalhava na construção do primeiro templo budista já construído na Europa. Pessoalmente próximo à intelligentsia pré-revolucionária da Rússia, Roerich se tornou um artista altamente respeitado e prolífico. Um estudando das obras de Madame Blavatsky, Roerich acreditava na unidade transcendente de religiões - na noção de que um dia o budista, o muçulmano e o cristão perceberiam que seus dogmas separados eram cascas ocultando a verdade interior. Entre 1925 e 1928, Roerich realizou cinco notáveis expedições pela Ásia Central, focando ma região misteriosa entre os Urais e o Himalaia, a área considerada como o coração da Eurásia. As tradições e lendas encontradas por Roerich em suas viagens são descritas nos livros Altai-Himalaya, Coração da Ásia e Shambhala.

Na tradição do Budismo Tibetano, Shambhala é a terra oculta em que os ensinamentos da escola tântrica Kalachakra ("Roda do Tempo) são mantidas em sua forma mais pura. Roerich descobriu que a Shambhala do Budismo Tibetano não é muito diferente da lenda de Belovodia preservada pelos místicos cristãos russos. Um ancião da seita dos Velhos Crentes confidenciou a Roerich:

"Em terras distantes, para além dos grandes lagos, para além das montanhas mais altas, há um lugar sagrado onde toda verdade floresce. Lá é possível encontrar o conhecimento supremo e a futura salvação da humanidade. E esse lugar é chamado Belovodia, significando águas brancas".

Nicholas Roerich escreveu sobre como em uma visita à capital mongol Ulan-Bator na década de 20, ele ouviu soldados revolucionários cantando:

"A guerra da Shambhala Nórdica
Morramos nessa guerra
Para renascermos de novo
Como Cavaleiros do Governante de Shambhala".

Por "Shambhala Nórdica" se quer dizer Rússia-Eurásia. Em seu livro Coração da Ásia, Roerich definiu Shambhala não tanto quanto um reino vindouro como um evento - uma nova época para a humanidade da qual Shambhala e Belovodia eram símbolos atemporais:

"Você notou que o conceito de Shambhala corresponde às aspirações de nossa pesquisa científica ocidental mais séria... Em sua busca, os discípulos orientais de Shambhala e as melhores mentes do Ocidente, que não temem olhar para além de métodos desgastados, estão se unindo".

Roerich jamais duvidou do papel crucial que a Rússia teria em unir a mais nobre sabedoria tanto do Oriente como do Ocidente. Na Rússia uma nova síntese emergiria e um novo dia raiaria para a humanidade, nem exclusivamente ocidental nem totalmente oriental, mas verdadeiramente eurasiana. Em 1940, conforme o mundo se viu lançado em uma guerra, Roerich discerniu os primeiros vislumbres de uma Nova Era e escreveu:

"O povo russo empilhou grandes pedras. Para a admiração de todos eles não construíram uma Torre de Babel mas uma Torre russa. Um Kremlin de Portadores-do-Sol com uma centena de torres!... Ouçam - este é o futuro, e quão radiante ele é!".

Um ano depois em 1941 ele comentou:

"Todo o mundo caminha rumo ao Armageddon. Todos estão confusos. Todos estão inseguros em relação ao futuro. Mas o povo russo encontrou seu curso e com uma poderosa enchente estão nadando rumo a seu radiante futuro".

"Você deve prestar Atenção em Mim, para poder Me Ver"

O futuro radiante da humanidade, como Shambhala, se situa no limiar. Um colégio invisível de homens e mulheres de cada era e cada nação o vislumbraram e responderam ao impulso. Vivendo nos primeiros anos de um novo milênio nós estamos testemunhando o desdobramento de um antigo plano. Assim como não há dia sem noite, também não há uma autêntica Nova Era sem sua contraparte. E assim como as trevas devem ceder lugar à nova aurora, também nossa atual Era das Trevas passará sob a grande luz da "Shambhala Nórdica".

Por trás do emaranhado dos eventos atuais a antiga batalha está sendo concluída. "Em tempos de guerra", disse o emissário do Atlantismo Winston Churchill, "a verdade é tão preciosa que ela deve ser sempre atendida por uma guarda de mentiras". Fortalecidas pelos magos malignos de Atlântida, as sociedades secretas ocidentais estão em um estado de guerra oculta com a Ordem da Eurásia.

Nós aguardamos a chegada da Nova Era de Shambhala, a derrubada dos Irmãos das Sombras dos centros governamentais e financeiros da terra, e o fim do karma maligno herdado das trevas de Atlântida.

Alice Bailey, que descreveu Shambhala como "o centro vital da consciência planetária" e a relacionou à Segunda Vinda do Cristo, também profetizou o papel especial da Rússia em trazer a verdadeira Nova Era:

"A partir da Rússia...emergirá aquela nova e mágica religião sobre a qual eu lhe falei. Ela será o produto da grande iminente Aproximação que ocorrerá entre a Humanidade e a Hierarquia. Desses dois centros de força espiritual, em que a luz que sempre brilhou no Oriente e a partir do Oriente irradiará o Ocidente; todo o mundo será inundado com o brilho do Sol da Retidão. Eu não estou aqui me referindo, em conexão com a Rússia, à imposição de qualquer ideologia política, mas ao aparecimento de uma grande e espiritual religião, que justificará a crucificação de uma grande nação e que se demonstrará e se focará em uma grande e espiritual Luz que será mantida no alto por um expoente russo vital de verdadeira religião - aquele homem por quem muitos russos tem procurado, e que será a justificativa de uma muito antiga profecia".



quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Pensamento Social de Proudhon

por Marc Valbert



Um eco recente de Notre Combat assinalava a nossos leitores a presença em Paris da senhorita Henneguy, de noventa e três anos: a neta do grande Proudhon. Posto que, se devemos acreditar em Jacques Bourgeat que acaba de publicar um estudo sobre Proudhon, pai do socialismo francês, "a vida e obra de Proudhon são pouco conhecidas pelo grande público", consagraremos esta crônica da Marcha ao Socialismo àquele que lhe fez dar tão grande passo...

Pierre-Joseph Proudhon nasceu em Besançon em 1809. De família pouco acomodada, obteve uma bolsa municipal para seguir seus estudos. Se fez impressor, depois de ter sido simplesmente tipógrafo, depois contador, finalmente jornalista. Sua vida consagrada à criação de sua obra, foi atormentada por causa de seus inimigos políticos. Eleito membro da Assembléia Nacional em 1848, se negou a participar da Comissão de Luxemburgo. Em 1849 foi preso devido a fofocas fomentadas por seus adversários. Sob o Império partiu para o exílio em Bruxelas. Teve uma existência severa, dolorosa; publicou seus trabalhos a preço de enormes penas, caminho da miséria, devido à saúde ruim e às perseguições.

O pensamento social de Proudhon exerceu sua influência até o estrangeiro e contínua sendo estudada hoje em dia com paixão. (O que é a propriedade? O sistema das Contradições Econômicas, Idéia Geral da Revolução no Século XIX, A Guerra e a Paz, Teoria do Imposto, etc...), conservando um profundo valor atual.

Nos equivocaríamos se considerássemos Proudhon como um revolucionário partidista. Pelo contrário, era um espírito aberto, imbuído de forte disciplina; conservava profundas ataduras com o espírito familiar. Se declara partidário da manutenção da autoridade marital e paternal. Sentiu horror frente ao "amor livre", odiou, segundo suas próprias palavras, as revoluções sangrentas. Se opôs à emancipação da mulher.

E não obstante, quantas opiniões novas, construções atrevidas, reformas sensatas não chegou a sugerir. É por isso que mereceu ser chamado de pai do socialismo francês. Quando se revisa a harmoniosa construção de suas idéias políticas e sociais, nos sentimos muitas vezes confundidos, por serem tão próximas às realizações modernas de alguns países europeus.

Acima de tudo reclamou a plena reabilitação do trabalho. Quer que seja alegria e honra em lugar de fadiga e tristeza. Não há trabalho humilhante. É ele, também, quem devolve a honra ao trabalho manual após se alçar contra a injustiça que consiste em considerá-lo como inferior ao trabalho intelectual.

O filósofo passou depois aos grandes princípios, às bases mesmas da vida social; o princípio de justiça, e o da igualdade na equidade. Dá da justiça essa bela definição: "é o respeito espontaneamente sentido e reciprocamente garantido da dignidade humana". Demonstrou tudo aquilo que tem de odiosas as desigualdades sociais fundadas sobre qualquer outra coisa que não seja o mérito. Denuncia os privilégios, os abusos, "vampiros que corroem as forças vivas da Sociedade e desunem lentamente o espírito nacional das classes operárias".

Aplicando essas teorias, propôs algumas medidas práticas; algumas das quais se parecem estranhamente a realizações sociais atuais que conheceram o triunfo mais legítimo. É assim também em relação a suas aplicações da teoria da propriedade: nada mais falso do que crer que Proudhon negava esse direito fundamental ao ser humano: ao contrário, vê nele mesmo "o eixo e o grande suporte de todo o sistema social". Porém esse direito é precisamente tão importante para o Estado que a comunidade deve se reservar um direito em relação à forma em que as possessões são geridas; Proudhon dá como exemplo, o usufruto e a enfiteuse. Uma parcela de terra descuidada poderá ser expropriada. Pelo contrário, se é bem cuidada, a cidade terá cuidado em se assegurar a perenidade de sua exploração: Proudhon é assim levado até o "sistema da pequena exploração campesina inalienável, indivisível e hereditária".

Que o leitor pese cuidadosamente estes termos. Não são por acaso o contrário dos conceitos marxistas e não mostram por acaso o mais puro e inteligente socialismo de Estado? Essa idéia proudhoniana faz pensar irresistivelmente no "domínio rural hereditário" alemão: tão certo é que dois conceitos socialistas animados pelo mesmo amor ao bem público não podem se distanciar demasiado entre si em suas aplicações práticas.

Proudhon teve ainda outras muitas idéias destacáveis por sua engenhosidade e sua generosidade. Seus conceitos do salário e do crédito renovaram essas questões. Pediu a revalorização dos salários das coletividades operárias e a criação, para as mesmas, de alojamentos higiênicos. Para retirar dos capitalistas internacionais o emprego abusivo do crédito, Proudhon reclamou que esse poderoso motor da economia pública fosse acessível a uma quantidade maior de indivíduos.

Finalmente foi o grande inventor do mutualismo, que deveria mais tarde, como mostra o Sr. Lagardelle em seu belo estudo sobre o "socialismo operário", ser tão útil para a edificação das diversas teorias sindicalistas...as que, por outra parte, para serem postas a soldo de propagandistas estrangeiros, saíram de seu objetivo, que era melhorar a sorte do trabalhador. O mutualismo, transformado em corporativismo, suprime a luta de classes; seguindo as próprias palavras de Proudhon "a teoria da mutualidade é a síntese das duas idéias da propriedade e da comunidade". Isso ainda estava em linha com um socialismo jovem e renovador".

Assim a figura de Proudhon aparece hoje, com o progresso da história, como um precursor; seu tempo não o compreendeu. Com segurança, não devemos aceitar sem reservas toda a sua doutrina. Não é o mestre mais além das dúvidas da nova escola socialistas. Porém tudo nele surge de um pensamento generoso, exclusivamente orientado para o bem público.

Este pensamento social de Proudhon servirá sem dúvidas amanhã, à luz de experiências passadas, para a renovação nacional e a reconstrução comum da cidade.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A Visão Cíclica da História

por Savitri Devi



A idéia de progresso – aperfeiçoamento indefinido – não é nada moderna. Ela é provavelmente tão antiga quanto a mais antiga tentativa de sucesso do homem para melhorar o seu ambiente material e aumentar, através de perícia técnica, a sua capacidade de ataque e defesa. Habilidades técnicas, por muitos séculos, pelo menos, têm sido muito preciosas para serem desprezadas. Mais ainda, quando exibidas em um grau extraordinário, essas habilidades têm sido mais de uma vez saudadas como algo quase divino. Lendas maravilhosas sempre foram criadas, por exemplo, sobre os homens que, de alguma forma, foram capazes de se levantar, fisicamente, acima da terra, seja como Etana de Erech, que subiu ao céu “suportado por asas de águia”, ou o famoso Ícaro, infeliz precursor de nossos aviadores modernos, ou o irmão de Manco Capac, Auca, dito ter sido agraciado com “asas naturais”, que funcionaram pouco melhor do que as artificiais de Ícaro.

Mas, para além de tais proezas incríveis de um punhado de indivíduos, os povos antigos como um todo se distinguiram em muitas realizações materiais. Eles poderiam gabar-se do sistema de irrigação da Suméria; da construção de pirâmides que revelam, tanto no Egito como, séculos depois, também na América Central, um conhecimento incrível de dados astronômicos; dos banhos e esgotos do palácio de Cnossos; da invenção da carruagem de guerra após a do arco e flecha e da ampulheta após a do relógio de sol – o suficiente para torná-los atordoados com a vaidade e excesso de confiança no destino de suas respectivas civilizações.

No entanto, apesar de eles terem reconhecido plenamente o valor do seu próprio trabalho no campo prático, e certamente terem concebido a possibilidade – e, talvez, adquirido a certeza – do progresso técnico indeterminado, eles nunca acreditaram no progresso como um todo, ou em progresso em todos os campos, como a maioria dos nossos contemporâneos parecem fazer. De todas as evidências, eles fielmente se agarraram à idéia tradicional de evolução cíclica e tinham, além disso, o bom senso de admitir que eles viviam (apesar de todas as suas conquistas) em nada além do começo do longo processo de decadência, constituindo seu próprio “ciclo” particular – e os nossos. Sejam os hindus ou os gregos, egípcios ou japoneses, chineses, sumérios, ou nativos americanos – ou mesmo os romanos, os mais “modernos” entre os povos da Antiguidade – todos eles deixaram a “Era Dourada”, a “Idade da Verdade”, o reinado de Cronos ou de Ra, ou de quaisquer outros deuses na terra – o glorioso e lento início do desabrochar da ruína da história, seja qual for o nome que lhe seja dado – muito atrás no passado.

E eles acreditavam que o retorno de uma era similar [à “Era Dourada”], antecipado em seus respectivos textos sagrados e tradições orais, dependeria não do esforço consciente do homem, mas das leis de ferro, inerentes à própria natureza da manifestação visível, tangível, e onipresente; sobre as leis cósmicas. Eles acreditavam que o esforço consciente do homem não é senão uma expressão dessas leis em ação, levando o mundo, querendo ou não, sempre para onde o seu destino está; ou em uma palavra, que a história do homem, assim como a história do resto da vida, é apenas um detalhe na história do universo, sem princípio nem fim; um resultado periódico da necessidade interior que conecta todos os fenômenos dentro do tempo.

E assim como os antigos poderiam aceitar essa visão da evolução do mundo e ainda tirar pleno partido de todos os progressos técnicos ao seu alcance, também podem – e assim fazem – nos dias de hoje, milhares de homens educados dentro dos limites das velhas culturas centradas nas mesmas visões tradicionais e, também, em meio às culturas mais orgulhosas industrialmente, alguns poucos indivíduos serem capazes de pensar por si mesmos. Eles contemplam a história da humanidade em uma perspectiva semelhante.

Enquanto vivendo, aparentemente, como “modernos” homens e mulheres – usando ventiladores elétricos e ferros elétricos, telefones, trens e aviões, quando podem pagá-los – eles nutrem em seus corações um profundo desprezo pela vaidade e esperanças infantis da nossa era presente, e para com as várias receitas para “salvar a humanidade” que filósofos e políticos colocam em circulação. Eles sabem que nada pode “salvar a humanidade”, porque a humanidade está chegando ao fim do seu ciclo atual. A onda que a carregou, por milênios de anos, está prestes a quebrar, com toda a fúria da velocidade, e a fundir uma vez mais nas profundezas do oceano imutável da existência indiferenciada. Ela irá subir, novamente, algum dia, com a sua majestade abrupta, pois tal é a lei das ondas. Mas, entretanto, nada pode ser feito para pará-la. Os infelizes – os loucos – são aqueles homens que, por algum motivo mais conhecido para eles mesmos – provavelmente por conta de sua estimativa exagerada do que está a ser perdido no processo – gostariam de parar esse processo. Os privilegiados – os sábios – são aqueles poucos que, tendo pleno conhecimento da crescente inutilidade da humanidade de hoje e do seu muito aplaudido “progresso”, sabem o quão pouco há para ser perdido no aniquilamento a caminho, e esperam com alegre expectativa a condição necessária para um novo começo – uma nova “Era Dourada”, a crista iluminada da próxima longa onda decadente desenhada sobre a superfície do oceano infinito da vida.

Para aqueles privilegiados – entre os quais contamos a nós mesmos – toda a sucessão de “eventos atuais” aparece em uma perspectiva completamente diferente do que para qualquer um dos crentes desesperados pelo “progresso” ou daquelas pessoas que, embora aceitando a visão cíclica da história e, portanto, considerando o aniquilamento a caminho como inevitável, sentem pena de ver a civilização em que vivem acelerando para a sua perdição.

Para nós, os “ismos” cujos nossos contemporâneos nos pedem para oferecer a nossa lealdade, agora, em 1948, são todos igualmente inúteis: naturalmente traídos, derrotados e, finalmente, rejeitados pelos homens em geral caso contenham qualquer coisa realmente nobre; naturalmente apreciados, por algum tempo, com algum tipo de sucesso ruidoso se for suficientemente vulgar e pretensioso a apelar para o crescente número de escravos mecanicamente condicionados que rastejam sobre o nosso planeta, posando como homens livres; todos destinados a provar, em última instância, que nada servirá. As religiões consagradas pelo tempo, a cada dia mais fora de moda hoje em dia, enquanto os “ismos” se tornam cada vez mais populares, não são menos fúteis – se não mais: quadros de organizadas superstições, vazias de todo o sentimento verdadeiro do Divino, ou – entre as pessoas mais sofisticadas – meros aspectos convencionais da vida social, ou sistemas de ética (e de uma ética muito elementar) temperados com uma pitada de ritos obsoletos e símbolos que poucos procuram os significados originais; dispositivos nas mãos de homens inteligentes no poder para manipular os comuns com obediência permanente; nomes convenientes, em torno dos quais pode ser fácil convergir aspirações nacionais ou tendências políticas; ou apenas o último recurso dos fracos e desprovidos: isto é, praticamente, tudo o que eles são – tudo a que eles foram reduzidos no curso de alguns séculos. Eles estão mortos, na verdade – tão mortos como os antigos cultos que floresceram antes deles, com a diferença que esses cultos há muito tempo deixaram de exalar o cheiro da morte, enquanto eles (os chamados “vivos”) estão ainda na fase em que a morte é inseparável da corrupção. Nenhum desses – nem o cristianismo, nem o islamismo, nem mesmo o budismo – pode ser confiado agora para “salvar” nada desse mundo que uma vez eles parcialmente conquistaram; nenhum tem um lugar na vida “moderna”, que é essencialmente desprovida de toda a consciência do eterno.

Não há nenhuma atividade na vida “moderna” que não seja fútil, salvo, talvez, aquelas que visem satisfazer a fome do corpo: o cultivo do arroz, o cultivo do trigo, a procura por castanhas nas matas ou a colheita de batatas em seu jardim. E a única política sensata não pode ser senão a deixar as coisas seguirem o seu curso e aguardar a vinda do Destruidor, destinado a limpar o terreno para a construção de uma nova “Era da Verdade”: aquele que os hindus chamam de Kalki e identificam como a décima e última encarnação de Vishnu, o Destruidor cujo advento é a condição da preservação da vida de acordo com as leis eternas da mesma.

Sabemos que tudo isso vai soar como uma loucura total para aqueles, mais e mais numerosos, que, apesar dos horrores inexprimíveis da nossa era presente, continuam convencidos de que a humanidade está “progredindo”. Vai parecer cinismo até mesmo para muitos daqueles que aceitam a nossa crença na evolução cíclica, que é a crença universal, tradicional, expressa em forma poética em todos os textos sagrados do mundo, incluindo a Bíblia. Nós não temos nada para responder a esta última crítica, pois ela é inteiramente baseada em uma atitude emocional que não é nossa. Mas podemos tentar apontar a vaidade da crença popular no “progresso”, seja apenas para sublinhar a racionalidade e a força da teoria dos ciclos que constituem o pano de fundo do estudo que é o tema deste livro.

Os leais à crença no “progresso” oferecem muitos argumentos para provar – para si e aos demais – que o presente, com todos os seus inconvenientes inegáveis, é, em geral, melhor do que qualquer época do passado, e até mesmo que é possível observar sinais claros de melhoria. Não é possível analisar todos esses argumentos em detalhe. Mas pode-se facilmente detectar as falácias escondidas nos argumentos mais difundidos e, aparentemente, mais “convincentes” deles.

Todos os defensores do “progresso” insistem enormemente em coisas como a alfabetização, a “liberdade” individual, as oportunidades iguais para todos os homens, a tolerância religiosa, e a “humanidade”, os progressos nesta última linha sendo aqueles que abrangem todas as tendências que encontram sua expressão na moderna preocupação com o bem-estar das crianças, as reformas prisionais, melhores condições de trabalho, os auxílios estatais aos desamparados e doentes e, se não maior bondade, pelo menos, menos crueldade com os animais. Os resultados deslumbrantes obtidos, nos últimos anos, na aplicação das descobertas científicas para indústrias e outras atividades práticas são, naturalmente, os mais populares de todas as instâncias que servem para mostrar o quão maravilhoso é o nosso tempo presente. Mas esse ponto não será discutido, uma vez que já deixamos claro que nós não negamos ou minimizamos a importância do progresso técnico. O que fazemos é negar a existência de quaisquer progressos no valor do homem como tal, seja individualmente ou coletivamente, e as nossas reflexões sobre a alfabetização universal, e outros altamente elogiados “sinais” de melhoria que os nossos contemporâneos têm orgulho, nascem desse único ponto de vista.

Nós acreditamos que o valor do homem – assim como o valor de cada criatura – não reside no mero intelecto, mas no espírito: na capacidade de refletir o que, por falta de uma palavra mais precisa, nós escolhemos chamar de “o divino”, ou seja, o que é verdadeiro e belo além de toda a manifestação, que permanece intemporal (e, portanto, imutável) dentro de todas as alterações. Nós acreditamos nisso, com a diferença que, aos nossos olhos – ao contrário do que os cristãos mantêm – a capacidade de refletir o divino está intimamente ligada com a raça do homem e a sua saúde física; em outras palavras, que o espírito é dependente do corpo. E nós não conseguimos ver que as melhorias que testemunhamos hoje em dia na educação ou no campo social, no governo ou até mesmo em questões técnicas, têm tornado homens e mulheres individualmente mais valiosos nesse sentido, ou criado um novo tipo duradouro de civilização em que as possibilidades do homem de perfeição em todos os campos, assim concebido, estão sendo promovidas. Os hindus parecem ser, hoje, o único povo que, por tradição, partilha as nossas opiniões; e eles têm, no decorrer do tempo, falhado em manter a ordem divina – a regra das castas naturalmente dominantes. E nós, o único povo no Ocidente que têm tentado restaurar essa ordem divina nos tempos modernos, temos sido materialmente arruinados pelos agentes das forças da falsa igualdade que o mundo moderno chama de forças do “progresso”.

Progresso? – É verdade que, hoje, pelo menos em todos os países altamente organizados (tipicamente “modernos”), quase todo mundo pode ler e escrever. Mas e daí? Ser capaz de ler e escrever é uma vantagem – e uma vantagem considerável. Mas não é uma virtude. É uma ferramenta e uma arma, um meio para um fim, uma coisa muito útil, sem dúvida, mas não um fim em si mesmo. O valor final da alfabetização depende do fim para o qual ela é usada. E para que fim ela é geralmente utilizada nos dias de hoje? Ela é usada por conveniência ou entretenimento, por aqueles que lêem; para alguns comerciais, ou alguma propaganda indesejável – para ganhar dinheiro ou conquistar poder – por aqueles que escrevem; às vezes, é claro, por ambos, para adquirir ou propagar conhecimentos desinteressantes sobre as poucas coisas que vale a pena conhecer; para encontrar expressão ou dar expressão aos poucos sentimentos profundos que podem levantar um homem para a consciência das coisas eternas, mas não mais freqüentemente do que nos dias em que um homem em dez mil conseguia entender o simbolismo da palavra escrita. Geralmente, nos dias de hoje, o homem ou a mulher que o ensino obrigatório transformou em “letrado” usa a escrita para comunicar assuntos pessoais com amigos e parentes distantes, para preencher formulários – uma das ocupações internacionais da humanidade civilizada moderna – ou para memorizar coisas úteis, mas também insignificantes, como o endereço de alguém ou um número de telefone, ou a data de algum encontro com o cabeleireiro ou dentista, ou a lista de roupas limpas deixadas na lavanderia. Ele ou ela lê “para passar o tempo”, porque, fora do horário de trabalho, o mero pensamento não é mais intenso e interessante o suficiente para servir a esse propósito.

Sabemos também que existem pessoas cujas vidas foram direcionadas para algum destino por um belo livro, um poema – uma frase simples – lida na infância distante, como Schliemann, que prodigamente gastou em escavações arqueológicas a riqueza que foi construída com paciência em quarenta anos de triste trabalho pesado, tudo por causa da impressão deixada sobre ele, ainda quando menino, pela história imortal de Troia. Mas esse tipo de pessoa sempre viveu, mesmo antes de a escolaridade obrigatória entrar em moda. E as histórias ouvidas e lembradas não eram menos inspiradoras do que as histórias de lemos agora. A vantagem real da alfabetização geral, se houver uma, deve ser procurada em outro lugar. Ela não reside na melhoria da qualidade tanto dos homens e mulheres extraordinários ou dos milhões de alfabetizados, mas sim no fato de que estes últimos estão rapidamente se tornando mais intelectualmente preguiçosos e, portanto, mais ingênuos do que nunca – e não menos – mais facilmente enganados, mais susceptíveis a serem conduzidos como ovelhas sem sequer a sombra de um protesto, desde que o absurdo que se deseje que eles engulam seja apresentado em forma impressa e pareça ser “científico”. Quanto maior o nível geral de alfabetização, o mais fácil é, por um governo no controle da imprensa diária e do setor editorial – esses quase irresistíveis meios modernos de ação sobre as mentes – para manter as massas sob o seu polegar, sem que esses nem sequer suspeitem.

Entre os analfabetos, mas muito mais ativamente pensantes, abertamente regidos na antiga forma autocrática, um profeta, porta-voz direto dos deuses, ou de verdadeiras aspirações coletivas, poderia sempre confiar a subir entre a autoridade secular e as pessoas. Os próprios sacerdotes não teriam a certeza de manter o povo em obediência para sempre. As pessoas poderiam escolher ouvir o profeta, se elas quisessem. E elas o fizeram, às vezes. Nos dias de hoje, onde a alfabetização universal é predominante, inspirados expoentes da verdade eterna – os profetas – ou até mesmo os defensores altruístas das mudanças práticas, têm cada vez menos chances de aparecer. O pensamento sincero, o pensamento realmente livre, em nome da autoridade sobre-humana ou do senso comum humilde, para questionar a base do que é oficialmente ensinado e geralmente aceito, tem cada vez menos chances de prosperar. É, repetimos, de longe, mais fácil escravizar um povo alfabetizado do que um analfabeto, por mais estranho que isso possa parecer à primeira vista. E a escravidão também é mais provável que seja duradoura. A vantagem real da alfabetização universal é aumentar o controle do poder do governo sobre os milhões de tolos e vaidosos. É provavelmente por isso que gritam para as nossas cabeças, desde a infância, que a “alfabetização” é uma bênção. A capacidade de pensar por si mesmo é, contudo, o benefício real. E isso sempre foi e sempre será o privilégio de uma minoria, uma vez reconhecidos e respeitados como uma elite natural. Hoje, a educação obrigatória em massa e uma literatura cada vez mais padronizada para o consumo de cérebros “condicionados” – sinais proeminentes do “progresso” – tendem a reduzir essa minoria à menor proporção possível; em última instância, a eliminá-la completamente. É isso o que a humanidade quer? Se assim for, a humanidade está perdendo a sua razão de ser, e quanto mais cedo for o final desta chamada “civilização”, melhor.

O que temos dito sobre a alfabetização pode ser repetido sobre as outras duas principais glórias da democracia moderna: a “liberdade individual” e a igualdade de oportunidades para cada pessoa. A primeira é uma mentira – e uma mentira cada vez sinistra à medida que as algemas do ensino obrigatório estão mais e mais irremediavelmente apertadas ao redor das pessoas. A segunda é um absurdo.

Uma das mais engraçadas inconsistências do cidadão médio do mundo moderno e industrializado é a maneira em que ele critica todas as instituições de civilizações mais antigas e melhores, como o sistema de castas dos hindus ou o culto familiar absorvedor do Extremo Oriente, com o fundamento de que estes tendem a limitar a “liberdade do indivíduo”. Ele não percebe o quão exigente – ou melhor, o quão aniquilador – é o comando da entidade coletiva que ele obedece (metade do tempo, inconscientemente) em comparação com o da autoridade coletiva tradicional dessas sociedades aparentemente menos “livres”. As pessoas guiadas por castas ou guiadas pela família, na Índia ou no Extremo Oriente, não são permitidas a fazer tudo o que elas gostariam em muitos campos relativamente insignificantes, e em alguns assuntos realmente muito importantes, da vida diária. Mas elas podem acreditar no que elas quiserem, ou melhor, no que elas puderem; podem sentir de acordo com sua própria natureza e se expressar livremente sobre um grande número de questões essenciais; elas são permitidas a conduzir as suas “vidas maiores” da maneira que julgarem ser mais sábio para elas, após os seus deveres para com a família e o rei forem cumpridos. O indivíduo que vive sob o domínio de ferro e aço do “progresso” moderno pode comer o que ele gosta (e comer muito) e casar com quem lhe agrada – infelizmente – e ir sempre onde ele gosta (pelo menos em teoria). Mas ele é obrigado a aceitar, em todos os assuntos extra-individuais – questões que, para nós, realmente contam – as crenças, as atitudes perante a vida, a escala de valores e, em grande medida, as posições políticas, que tendem a fortalecer o poderoso sistema sócio-econômico de exploração ao qual ele pertence (ao qual ele é forçado a pertencer, a fim de ser capaz de viver) e no qual ele é apenas uma simples peça. E, além disso, ele é levado a crer que é um privilégio seu ser uma engrenagem de tal organismo; que as questões sem importância sobre as quais ele sente que é o seu próprio mestre, de fato, são as mais importantes – e as únicas realmente importantes. Ele é ensinado a não valorizar a liberdade de juízo sobre a verdade eterna, estética, ética ou metafísica, da qual ele é sutilmente privado. Mais ainda: ele é ensinado – nos países democráticos, de qualquer modo – que ele é livre em todos os aspectos; que ele é “um indivíduo, que responde a ninguém, mas somente à sua própria consciência”… depois de anos de condicionamento ter moldado a sua “consciência” e todo o seu ser, tão completamente de acordo com o padrão, que ele não é mais capaz de reagir de uma forma diferente. E como pode um homem assim falar de “pressão sobre o indivíduo” em qualquer sociedade, seja ela antiga ou moderna!

Pode-se perceber o como que as mentes do homem têm sido curvadas no mundo em que vivemos hoje, tanto por condicionamento deliberado como pelo condicionamento inconsciente, quando se encontra pessoas que nunca viveram sob a influência da civilização industrial, ou quando alguém acaba tendo a sorte de ter desafiado, desde a infância, a pressão perniciosa do ensino padronizado, e de ter permanecido livre em meio à multidão daqueles que reagem exatamente como eles foram ensinados sobre todas as questões fundamentais. A diferença entre os pensantes e os irracionais, os livres e os escravos, é revoltante.

Quanto à “igualdade de oportunidades”, não existe qualquer forma de tal coisa existir. Ao produzir homens e mulheres diferentes, tanto em grau e em qualidade de sensibilidade, inteligência e força de vontade, diferentes em caráter e temperamento, a própria Natureza lhes dá as oportunidades mais desiguais para o cumprimento das suas aspirações, não importando quais essas possam ser. Uma pessoa excessivamente emocional e bastante fraca pode, por exemplo, nem conceber o mesmo ideal de felicidade, nem ter chances iguais de alcançá-lo durante a vida, se comparada com quem nasce com uma natureza mais equilibrada e uma força de vontade mais forte. Isso é óbvio. Some a isso as características que diferenciam uma raça de homens de outra, e o absurdo da própria noção de “igualdade humana” se torna ainda mais impressionante.

O que nossos contemporâneos querem dizer quando falam de “igualdade de oportunidades” é o fato de que, nas sociedades modernas – assim dizem – qualquer homem ou mulher tem, cada vez mais, chances similares aos seus vizinhos de conquistar uma posição e fazer o trabalho para qual ele ou ela está naturalmente adaptado. Mas isso também é apenas parcialmente verdadeiro. Pois, cada vez mais, o mundo de hoje – o mundo dominado pela indústria de grande escala e pela produção em massa – pode oferecer somente postos de trabalho em que o melhor do que o trabalhador é realmente capaz de fazer tem pouco ou nada de influência se ele ou ela for nada mais do que uma pessoa meramente inteligente e materialmente eficaz. O artesão hereditário, que pode encontrar a melhor expressão para o que se convencionou chamar de sua “alma” em seu trabalho diário de tecelagem, tapeçaria, esmalte, etc, e até mesmo o lavrador do solo, em contato pessoal com a Mãe Terra e o Sol e as estações, estão se tornando cada vez mais figuras do passado. Há cada vez menos oportunidades, também, para o verdadeiro e sincero buscador da verdade – orador ou escritor – que se recusa a tornar-se expositor das idéias amplamente aceitas, produtos do condicionamento das massas, as quais ele ou ela não aceita; e para o buscador da beleza, que se recusa a ceder a sua arte para as demandas do gosto popular, que ele ou ela sabe que é mau gosto. Essas pessoas perdem muito da sua competência fazendo de forma ineficiente – e a contragosto – algum trabalho para o qual elas não são adaptadas, para conseguirem viver, antes que elas possam dedicar o resto das suas vidas para o que os hindus chamariam de suasadhana – o trabalho para qual a sua natureza mais profunda o nomeou: a dedicação da sua vida.

A idéia da divisão moderna do trabalho, resumido na frase tantas vezes citada “o homem certo no lugar certo”, resume-se, na prática, pelo fato de que qualquer homem – qualquer um dos milhões de maçantes – pode ser “condicionado” para ocupar qualquer lugar, enquanto o melhor dos seres humanos, os únicos que ainda justificam a existência dessa espécie mais e mais degenerada, têm seus potenciais papéis negados. Progresso…

Ainda permanecem os argumentos sobre a “tolerância religiosa” dos nossos tempos e a nossa “humanidade” em comparação com a “barbárie” do passado. Duas piadas, para dizer o mínimo!

Recordando alguns dos horrores mais espetaculares da história – a queima de “hereges” e “bruxas” nas fogueiras, o massacre indiscriminado de “pagãos”, e outras manifestações não menos repulsivas do que a civilização cristã na Europa, como a conquista da América, de Goa, e de outros lugares – o homem moderno é cheio de orgulho quanto ao “progresso” realizado, em uma linha, pelo menos, desde o fim da idade das trevas do fanatismo religioso. Por pior que sejam os nossos contemporâneos, eles pelo menos deixaram de cultivar o hábito de torturar as pessoas para tais “insignificâncias”, como a concepção da Santíssima Trindade ou as suas ideias acerca da predestinação e do purgatório. Esse é o sentimento do homem moderno – porque as questões teológicas perderam toda a importância nas suas vidas. Mas nos dias em que as igrejas cristãs perseguiam umas às outras e incentivavam a conversão das nações pagãs, por meio de sangue e fogo, ambos os perseguidores e os perseguidos, os cristãos e aqueles que queriam se manter fiéis aos credos não-cristãos, encaravam essas questões como vitais de uma maneira ou de outra. E a verdadeira razão porque ninguém é condenado à tortura nos dias hoje pelas suas crenças religiosas não é que a tortura, como tal, tenha tornado-se desagradável para todos, na civilização “avançada” do século XX, e não que os indivíduos e os Estados se tornaram “tolerantes”, mas apenas porque, entre aqueles que têm o poder de infligir dor, quase ninguém tem qualquer interesse vívido e fundamental na religião, e muito menos na teologia.

A suposta “tolerância religiosa” praticada pelos Estados modernos e seus indivíduos brota de qualquer outro pensamento, exceto uma inteligente compreensão e amor por todas as religiões como expressões simbólicas das poucas verdades essenciais e eternas – como a tolerância hindu faz, e sempre fez. Essa suposta “tolerância” é, em vez disso, resultado de um desprezo grosseiramente ignorante sobre todas as religiões; de uma indiferença para com as verdades que vários de seus fundadores se esforçaram para afirmar, vez após vez. Isso não é tolerância de forma alguma.

Para avaliar até que ponto os nossos contemporâneos têm ou não o direito de se vangloriar de seu “espírito de tolerância”, o melhor é observar seu comportamento para com aqueles a quem eles decididamente olham como os inimigos de seus deuses: os homens que, por acaso, têm pensamentos contrários aos deles não com relação a alguma ladainha teológica, em que eles mesmos não estão interessados, mas com relação a alguma ideologia política ou sócio-política que eles vêem como “uma ameaça à civilização” ou como “o único credo pelo qual a civilização pode ser salva.” Ninguém pode negar que, em todas as circunstâncias, e especialmente em tempos de guerra, todos eles realizam – na medida em que eles têm o poder – ou justificam – na medida em que eles não têm, eles próprios, a oportunidade de realizar – ações que em todos os aspectos são horríveis como as que foram encomendadas, realizadas, ou toleradas no passado, em nome de diferentes religiões. A única diferença é, talvez, que as modernas atrocidades a sangue frio só se tornam conhecidas quando os poderes ocultos em controle dos meios de condicionamento do rebanho – da imprensa, do rádio e do cinema – decidem, para fins nada “humanitários”, que elas deveriam ser; ou seja, quando são atrocidades do inimigo, e não deles mesmos – e nem dos seus “corajosos aliados” – e quando a sua história é, portanto, considerada como “boa propaganda”, no sentido da subseqüente onda de indignação que se espera criar e do novo incentivo que se espera dar aos esforços de guerra. Além disso, depois de uma guerra, realmente travada ou supostamente travada por uma ideologia – o equivalente moderno dos amargos conflitos religiosos do passado – os horrores com ou sem razão que teriam sido perpetrados pelos derrotados são os únicos a serem transmitidos para todo o mundo, enquanto os vitoriosos tentam o máximo possível fingir que o seu Alto Comando nunca fechou os olhos diante de quaisquer horrores semelhantes. Mas na Europa do século XVI, e antes; e entre os guerreiros do Islã, envolvidos na “Jihad” contra os homens de outras religiões, cada um dos lados estava bem ciente dos atrozes meios utilizados, não apenas pelos seus adversários para os seus “fins sórdidos”, mas também por seu próprio povo e pelos seus próprios líderes, a fim de “extirpar a heresia”, ou para “enfrentar o papado”, ou “pregar o nome de Allah aos infiéis”. O homem moderno é mais um covarde moral. Ele quer as vantagens da intolerância violenta – que é natural – mas ele foge das responsabilidades da mesma. Progresso, também.

A suposta “humanidade” dos nossos contemporâneos (em comparação com seus antepassados) é apenas uma falta de coragem ou falta de sentimentos fortes – um aumento de covardia, ou uma crescente apatia.

O homem moderno é escrupuloso sobre as atrocidades – até mesmo sobre a brutalidade comum, sem imaginação – apenas quando os objetivos para os quais as ações atrozes ou simplesmente brutais são executadas são odiosas ou indiferentes com relação a ele. Em quaisquer outras circunstâncias, ele fecha os seus olhos para quaisquer horrores – especialmente quando ele sabe que as vítimas nunca podem retaliar (como é o caso com todas as atrocidades cometidas pelo homem contra os animais, para qualquer fim que seja), e ele exige, no máximo, que não seja lembrado delas com muita frequência ou convicção. Ele reage como se houvesse classificado as atrocidades sob duas categorias: as “inevitáveis” e as “evitáveis”. As “inevitáveis” são aquelas que servem ou deveriam servir para a finalidade do homem moderno – em geral: “o bem da humanidade” ou o “triunfo da democracia”. Elas são toleradas, ou melhor, justificadas. As “evitáveis” são aquelas que são ocasionalmente cometidas, ou supostamente cometidas, por pessoas cujo objetivo é alheio ao seu. Só elas são condenadas, e seus autores reais ou supostos – ou inspiradores – são marcados pela opinião pública como “criminosos contra a humanidade”.

Quais são, afinal, os sinais dessa suposta “humanidade” maravilhosa do homem moderno, de acordo com aqueles que acreditam no progresso? Já não temos hoje em dia – eles dizem – as execuções horríveis dos tempos antigos; traidores não são mais “enforcados e esquartejados”, como era costume na gloriosa Inglaterra do século XVI; qualquer coisa que se aproxime da crueldade da tortura e execução de François Damien, na praça central de Paris, diante de milhares de pessoas vindas com o propósito de vê-lo, em 28 de maio de 1757, seria impensável na França moderna. O homem moderno também não defende a escravidão, nem ele (em teoria, pelo menos) justifica a exploração das massas sob qualquer forma. E suas guerras – até mesmo suas guerras, monstruosas como podem parecer, com seus aparatos elaborados de máquinas demoníacas – estão começando a admitir, no seu código (ou assim se diz), certa quantidade de humanidade e justiça. O homem moderno é horrorizado pelo simples pensamento sobre os hábitos dos povos antigos durante períodos de guerra – como o sacrifício de doze jovens troianos sob o herói grego Pátroclo, para não falar dos menos antigos, mas mais atrozes sacrifícios dos prisioneiros de guerra do deus da guerra asteca, Huitzilopochtli (mas os astecas, apesar de relativamente modernos, não eram cristãos, nem, pelo que sabemos, crentes no progresso como um todo). Finalmente – dizem – o homem moderno é mais amável, ou menos cruel, com relação aos animais do que seus antepassados eram.

Uma enorme quantidade de preconceito em favor de nosso tempo pode permitir que pessoas sejam conquistadas por tais falácias.

Certamente, o homem moderno não “defende” a escravidão; ele a denuncia com veemência. Mas ele a pratica, no entanto – e em maior escala do que nunca, e com muito mais planejamento do que os antigos jamais poderiam – tanto no Ocidente capitalista como nos trópicos, ou (do que se ouve fora de seus muros impenetráveis) mesmo no único Estado que supostamente é, hoje, o “paraíso dos trabalhadores”. Existem diferenças, claro. Na Antiguidade, até mesmo o escravo tinha horas de lazer e alegria que eram propriedade dele; ele tinha seus jogos de dados, à sombra das colunas do pórtico de seu mestre, suas piadas grosseiras, suas conversas, sua vida livre fora de sua rotina diária. O escravo moderno não tem o privilégio da vadiagem, de estar totalmente despreocupado, nem que seja por meia hora. Seu suposto lazer é cheio de entretenimento compulsório, tão exigente e muitas vezes tão triste quanto o seu trabalho, ou – na “terra da liberdade” – envenenado por preocupações econômicas. Mas ele não é abertamente comprado e vendido. Ele é apenas tomado. E tomado não por um homem que, de alguma forma, é pelo menos superior a si mesmo, mas por um gigantesco sistema impessoal, sem qualquer corpo para se chutar, ou uma alma para amaldiçoar, ou uma cabeça para responder por suas ofensas.

E da mesma forma, antigos horrores certamente desapareceram dos registros dos chamados homens civilizados, com relação à justiça e às guerras. Mas novos e piores horrores, desconhecidos nos tempos “bárbaros”, apareceram em seu lugar. Um exemplo simples é arrepiador o suficiente para comprovar isso. O julgamento prolongado não de criminosos, não de traidores, nem regicidas, nem magos, mas dos melhores personagens líderes da Europa; a sua condenação injusta, depois de meses e meses de todo os tipos de humilhação e tortura sistemática moral; e o seu enforcamento final, da forma mais lenta e cruel possível – aquela farsa sinistra, encenada em Nuremberg, em 1945-1946 (e 1947) por um bando de covardes e hipócritas vitoriosos, é incomensuravelmente mais nojenta do que todos os sacrifícios humanos de pós-guerra do passado unidos em um, inclusive aqueles realizados de acordo com o conhecido ritual mexicano. Porque pelo menos lá, por mais doloroso que possa ter sido o processo tradicional de matar, as vítimas eram francamente levadas à morte para o deleite do deus tribal dos vencedores e dos próprios vencedores, sem qualquer pretensão macabra de estabelecer “justiça”. E eles eram, aliás, escolhidos de todas as fileiras de combatentes capturados, e não malignamente selecionados da elite do seu povo. Nem a elite do povo vencido representava, na maioria dos casos – como de fato ocorreu no julgamento da vergonha dos nossos tempos progressivos – a própria elite do seu continente.

Quanto às atrocidades impensáveis como as que ocorreram na França e na Espanha, e em muitos outros países a partir da Idade Média, pode-se encontrar um grande número de episódios da recente guerra civil espanhola – para não mencionar o registro não menos impressionante dos horrores realizados, ainda mais recentemente, pelos “heróis” da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial – que são tão horríveis quanto e, muitas vezes, ainda piores.

Curiosamente – embora eles digam que “odeiam essas coisas” – um número considerável de homens e mulheres de hoje, quando falta a coragem para cometer atos horríveis, pessoalmente, parecem estar dispostos como sempre a assisti-los sendo realizados ou, pelo menos, a pensar sobre e regozijá-los, apreciando-os de forma indireta, se negado o prazer mórbido de ver. Essas são as pessoas que, na Inglaterra moderna, se unem diante das portas da prisão sempre que um homem está para ser enforcado, esperando só Deus sabe que tipo de emoção doentia pelo simples fato de ler o anúncio de que “a justiça foi feita” – pessoas que, se apenas dadas uma oportunidade, correriam para assistir uma execução pública, ou melhor, uma queima pública de bruxas ou hereges, com certeza tão rapidamente quanto seus antepassados uma vez fizeram. Esses também são os milhões de pessoas, considerados “civilizados” e aparentemente bondosos, que se revelam de forma tão clara logo que uma guerra eclode, ou seja, tão logo eles se sentem incentivados a mostrar o tipo mais repugnante de imaginação nas descrições competitivas sobre o que “infligiriam” aos líderes do inimigo, se ele – ou mais frequentemente ela – tivesse irrestrita liberdade para agir. Tais são, no fundo, aqueles que tripudiam sobre o sofrimento do inimigo morto após uma guerra vitoriosa. E são milhões deles: milhões de selvagens vicários, desprezíveis e ao mesmo tempo cruéis, a quem os guerreiros da chamada idade do “barbarismo” teriam completamente desprezado.

Mas o mais covarde e hipócrita, talvez, do que qualquer outra coisa, é o comportamento “progressista” do homem moderno com relação à Natureza viva, e particularmente com relação ao reino animal. Falei sobre isso extensamente em outro livro, e vou, portanto, aqui, me contentar a sublinhar alguns fatos.

O homem primitivo – e, muitas vezes, também, o homem cuja civilização não é nada “moderna” – é ruim o bastante, é verdade, com relação ao seu tratamento dos animais. Basta viajar aos países menos industrializados do sul da Europa, ou ao Próximo e Médio Oriente, para adquirir uma certeza muito clara sobre este ponto. E nem todos os líderes modernos têm sido igualmente bem sucedidos em colocar um fim a essa antiga e burra crueldade, seja no Oriente ou no Ocidente. Gandhi não pôde, em nome daquela bondade universal que ele repetidamente anunciava como o princípio essencial da sua fé, evitar que os homens hindus matassem de fome deliberadamente os seus bezerros machos, a fim de vender algumas pintas extras de leite de vaca. Mussolini não conseguiu detectar e lidar com todos os italianos que, sob seu governo, persistiram com o hábito detestável de depenar frangos vivos sob o fundamento de que “as penas saem mais facilmente”. Não há como fugir do fato de que a bondade com os animais em escala nacional não depende dos ensinamentos de qualquer religião ou filosofia. É uma das características distintivas das raças verdadeiramente superiores. E nenhuma alquimia religiosa, filosófica ou política pode transformar metais comuns em ouro.

Isso não significa que um bom ensino não possa ajudar a trazer o melhor de cada raça, assim como em cada homem ou mulher individualmente. Mas a civilização industrial moderna, na medida em que ela é centrada no homem – e não controlada por qualquer inspiração de um modo super-humano, cósmico – e tende a enfatizar a quantidade em detrimento da qualidade, produção e riqueza em vez do caráter e valor intrínseco, é tudo menos conveniente para o desenvolvimento de uma bondade universal consistente, mesmo entre as melhores pessoas. Ela esconde a crueldade. Ela não faz nada para suprimi-la, ou até mesmo para diminuí-la. Ela perdoa, ou melhor, exalta qualquer atrocidade contra os animais que seja direta ou indiretamente relacionada com ganhar dinheiro, dos horrores diários dos abates dos matadouros ao martírio dos animais nas mãos do circo, do caçador ao vivisseccionista. Naturalmente, o “maior” interesse dos seres humanos é apresentado como justificativa – sem que as pessoas percebam que o homem que está disposto a comprar entretenimento ou luxo, “comidas saborosas”, ou mesmo informações científicas e meios de curar doentes, já não é mais digno de estar vivo. O fato é que nunca houve tamanha degeneração e doenças de todos os tipos de descrições entre os homens quanto neste mundo de vacinação obrigatória (ou quase obrigatória) e inoculação; este mundo que exalta os criminosos contra a Vida – carrascos de seres vivos inocentes para fins do homem, tais como Louis Pasteur – considerado entre os “grandes” homens, embora tenha condenando os realmente grandes, que se esforçaram para destacar a sagrada hierarquia das raças humanas diante da hierarquia óbvia de todos os seres, e que, aliás, construíram o único Estado no Ocidente cujas leis de proteção dos animais lembravam, pela primeira vez depois de séculos (e na medida em que foi possível em um país industrial moderno de clima frio), os decretos do imperador Asoka e Harshavardhana.

Esse mundo pode muito bem se vangloriar de seus cuidados com cães e gatos e animais de estimação em geral, enquanto tentando esquecer (e tentando fazer as melhores civilizações esquecerem) o fato hediondo de que um milhão de criaturas passa por vivissecção anualmente somente na Grã-Bretanha. Mas não é possível nos fazer esquecer dos seus horrores escondidos e nos convencer de seu “progresso” quanto à bondade para com os animais, tanto quanto à sua bondade crescente para com as pessoas “independentemente do seu credo”. Nós nos recusamos a ver nela outra coisa senão a prova viva mais escura daquilo que os hindus têm caracterizado desde tempos imemoriais como “Kali Yuga” – a “Idade das Trevas”, a Era da Melancolia, a última (e, felizmente, a mais curta) subdivisão do atual ciclo da história. Não há nenhuma esperança de “colocar as coisas em ordem” em tal fase. Essa é, essencialmente, a fase descrita com tanta força embora laconicamente no Livro dos livros – o Bhagavad-Gita – como aquela em que “da corrupção das mulheres nasce a confusão das castas; da confusão das castas, a perda da memória; da perda da memória, a falta de compreensão; e deste último, todos os outros males”; a fase em que a mentira é chamada de “verdade” e a verdade é perseguida como falsidade ou ridicularizada como loucura; em que os expoentes da verdade, os líderes divinamente inspirados, os verdadeiros amigos de sua raça e de toda a vida – os homens como Deus – são derrotados, e seus seguidores humilhados e sua memória caluniada, enquanto os mestres das mentiras são tidos como “salvadores”; a fase em que cada homem e mulher está no lugar errado, e o mundo é dominado por indivíduos inferiores, raças bastardas e doutrinas viciosas, tudo parte integrante de uma ordem inerente de feiúra muito pior do que a completa anarquia.

Esta é a fase em que os nossos democratas triunfantes e os nossos orgulhosos comunistas ostentam o “progresso lento, mas constante, por meio da ciência e da educação”. Muito obrigado por tal “progresso”! A simples visão de tal “progresso” é suficiente para confirmar-nos na nossa crença na teoria cíclica da história imemorial, ilustrada nos mitos de todas as antigas religiões naturais (incluindo aquela através da qual os judeus – e, através deles, os seus discípulos, os cristãos – derivam a história simbólica do Jardim do Éden; Perfeição no começo do Tempo). Impressiona-nos o fato de que a história humana, longe de ser uma ascensão constante para o melhor, é um processo cada vez mais desesperado de emasculação, abastardamento e desmoralização da humanidade; uma “queda” inexorável. Ela desperta em nós o desejo de ver o fim – a queda final, que vai empurrar para o esquecimento tanto os inúteis “ismos” que são produto da decadência do pensamento e de caráter, e as não menos inúteis religiões de igualdade que lentamente tem preparado o terreno para eles; a vinda de Kalki, o Destruidor divino do mal; a aurora de um novo ciclo que se abre, como todos os ciclos de tempo sempre fizeram, com uma nova “Era Dourada”.

Não importa quão sangrenta a queda final possa ser! Não importam os tesouros antigos que podem perecer para sempre nesse incêndio! Quanto mais cedo ele vier, melhor. Estamos esperando por isso – e para as glórias que se seguirão – confiantes na lei cíclica divinamente estabelecida que rege todas as manifestações da existência no tempo: a lei do eterno retorno. Estamos esperando por ele, e para o triunfo posterior da Verdade perseguida hoje; pelo triunfo, sob qualquer nome, da única fé em harmonia com as leis eternas do ser; do único “ismo” moderno, que de “moderno” tem muito pouco, sendo apenas a mais recente expressão de princípios tão antigos quanto o Sol; o triunfo de todos os homens que, ao longo dos séculos e hoje, nunca perderam a visão da Ordem eterna, decretada pelo Sol, e que têm lutado com um espírito altruísta para expor essa visão aos demais. Estamos aguardando a restauração gloriosa, desta vez, em escala mundial, da Nova Ordem; a projeção no tempo, na próxima assim como em todas as recorrentes “Eras Douradas”, da Ordem eterna do Cosmos.

Essa é a única coisa para a qual vale a pena viver – e morrer, se for dado esse privilégio – agora, em 1948.