sábado, 23 de fevereiro de 2013

A Profecia Maia de 2012: O "Fim do Mundo" Orwelliano é um Apocalipse "Made in America"

por Michael Chossudovsky



As Guerras Globais e as Crises Econômicas são feitas pelo homem

Num vivo contraste com as professias Maya de “renovação” – o mundo real em que vivemos está caracterizado pela imensa crise econômica que está empobrecendo milhões de pessoas.

Estamos no centro de um apocalípse a se desenrolar, mas é um apocalípse num cenário de uma natureza complexa. Essa complexidade apresenta aspectos políticos assim também como sócio-econômicos.

O nosso apocalipse não é o da profecia Maya, o nosso é um apocalípse “Made in USA”.

A profecia Maya para 2012 foi distorcida i erroneamente interpretada. O fim do calendário Maya em 21 de dezembro de 2012 não tinha nada a ver com um “Fim de Mundo”, própriamente dito.

Na verdade o calendário Maya não terminava definitivamente em 21 de dezembro de 2012. Na realidade o falado Calendário Maya marcava não um término total, mas sim um começo. O começo de um novo “Longo Cíclico”, no modo de ver dos Maya [1]

O conceito de “Fim do Mundo”, como apresentado atualmente, é uma interpretação errada do pensamento Maya. O conceito Maya referia-se sómente a uma renovação, ao início de uma nova era.

Entretanto contos, histórias e comentários a respeito de um fim do mundo encheram as páginas dos jornais de sensação. Apesar da mídia ocidental refutar a profecia Maya, a narrativa quando repetida ao infinito serve como uma distração que leva a atenção para longe dos verdadeiros tópicos a serem discutidos. Isso assegura também uma total distorção da realidade.

Uma sondagem de opinião da Reuters-Ispos que foi conduzida em maio mostrava que 10% da população mundial acreditava que “O calendário Maya, que alguns entendem como terminando em 2012, marcava o “Fim do Mundo”, como tal.

Ironicamente e em vivo contraste com as profecias Mayas de “renovação” o mundo real em que vivemos no começo desse século 21, está marcado por uma formidável crise social e econômica que empobrece milhões, literalmente destruindo as vidas das pessoas.

Num sentido figurativo então, estamos no centro do desenrolar de um “cenário apocalíptico” mas esse apocalípse é de uma natureza político-social-econômica: apocalípse esse que é obra humana, um apocalípse “Made in the USA”.

Quanto aos Estados Unidos, o que então influência os acontecimentos no mundo inteiro, esse apocalípse é uma consequência da quebra do sistema judicial, da consecutiva criação de um grande aparato policial da Segurança Nacional, da fraudulenta desregulamentação dos mercados financeiros, e da péssima administração da economia real.

Essas mudanças fundamentais no caracter institucional e social dos Estados Unidos estão ligadas a uma agenda militar globalizada muito abrangente, assim também como a uma política externa extremamente egocêntrica. A política externa dos Estados Unidos, especialmente abaixo da direção de Hillary Clinton, aponta claramente para uma total derrocada dos canais da diplomacia americana vis-a-vis a comunidade internacional.

As crises econômicas e as guerras estão intimamente entrelaçadas.

Enquanto a economia global está em estado caótico, marcada pelo colapso das sistemas produtivos, os Estados Unidos e seus aliados –inclusive a OTAN e Israel- vivem uma aventura militar, a chamada “longa guerra”. Essa longa guerra vai então abaixo do disfarce da “Guerra ao Terrorismo”.

Na realidade o projeto global do Pentágono é um de conquista mundial.

A colocação das forças militares EUA-OTAN ocorre simultaneamente em diversas regiões do mundo. Os exercícios de guerra do Pentágono, de forma rotineira tem o seu foco central na simulação de uma terceira guerra mundial. Muito é feito então num cenário de representação de uma terceira guerra mundial, na sigla inglesa WWIII. Essa agenda militar está -em verdade- ameaçando o futuro da humanidade.

A DESINFORMAÇÃO

Enquanto a atenção pública mundial está voltada para o “Apocalípse Maya” a real crise que está afetando a humanidade, não se debate. A longa guerra do Pentágono em combinação com um cenário sombrio de empobrecimento global e de derrocada econômica, não faz manchete de jornal.

A mídia desempenha uma função central a dar legitimidade a uma agenda militar destrutiva e global. A colocação dos arsenais bélicos e militares dos EUA-OTAN por todos os lados do mundo é de maneira rotineira apresentada como se essas armas, dispositivos e depois mesmo até as guerras, fossem instrumentos de paz.

Mesmo a nova generação de armas nucleares tácticas dos Estados Unidos são apresentadas como sem perigo, ou inócuas para a população civil circundante. Uma guerra nuclear iniciada em sentido preventivo, o que na realidade constituiria um cenário de-facto apocalíptico, é apresentado como uma “ação humanitária”.

As campanhas midiáticas ocupam um papel central no entendimento da guerra como legítima. Aqui prevalece uma dualidade, entre bem e malígno-perverso.

Os perpetradores das guerras são apresentados como vítimas. Por exemplo, de acordo com a mídia ocidental, a “Área Atlântica” EUA-OTAN teria sido atacada por uma “força estrangeira” , no caso Afeganistão, em 11 de Setembro de 2001 – uma afirmação absurda.

A doutrina de segurança coletiva da OTAN baseada no conceito da auto- defesa foi invocada pelo Conselho Atlântico na manhã de 12 de setembro de 2001. Essa tendo sido então a justificativa para bombardear, e invadir o Afeganistão. Como dito, uma afirmação absurda.

A mídia permaneceu muda, sem apresentar análises ou debates. Isso fez com que a opinião pública fosse induzida a tirar conclusões incorretas.

Ressalta-se que destruir a grande mentira que apresenta guerras como ação humanitária significa destruir o aparato propagandístico, aparato esse que sustenta o projeto criminal de destruição global da qual estamos sendo testemunhas, em maior ou menor grau, conscientes.

A propaganda a favor de guerras de uma ou de outra maneira, não só sustenta uma agenda militar que dá lucro, proveito, benefício ou ganho para uma minoria, como também cria na consciência de milhões de seres humanos uma aceitação da guerra como parte de um projeto social.

Essa propaganda a favor de guerras de maneira geral exclui da mente das pessoas valores humanos fundamentais. Valores esses como por exemplo de paz, compaixão, e justiça social, transformando seres humanos em zombis, ou seja, em mortos-vivos.

Grande parte da mídia empresarial está envolvida em atos de camuflagem, como por exemplo através de apresentar o impacto devastador de uma guerra nuclear como um fato trivial ou então através de calar-se totalmente a respeito.

É imperativo comprender a gravidade da presente situação para dessa maneira poder agir determinadamente para reverter o curso dos acontecimentos levando continuamente a novas guerras.

FORTE REMÉDIO ECONÔMICO

O global conduzir de guerras é acompanhado por um processo macroeconômico, ou seja um processo econômico nacional ou internacional, de reestruturação econômica abrangendo o mundo inteiro.

Nesse contexto tem-se que através de muitas diferentes circunstâmcias um único remédio econômico é imposto ao mundo. As pessoas aqui são induzidas a acreditar que medidas sombrias de austeridade econômica seriam a única solução para a crise atual quando na realidade ela é a causa do aprofundamento do colapso econômico.

Durante 1980-1990 o programa do denominado “Ajustamento Estrutural”, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial foi imposto ao Terceiro Mundo, a Europa do Leste, aos Balcãs, e aos países do ex-bloco soviético.

Em todos esses países os nívies de vida normais, regulares e padronizados, cairam de forma aguda, enquanto os programas sociais foram muito enfraquecidos, ou privatizados.

Nos Estados Unidos e na União Europeia, a crise social tem sido marcada pelo enfraquecimento ou até mesmo pela desintegração do sistema de saúde, do sistema de segurança social, e do sistema da educação pública.

A economia civil é em crise. Os benefícios ou rendimentos dos impostos são relocados para construir uma enorme economia de guerra e isso a custo dos serviços sociais.

Um colapso fiscal é a consequência inevitável disso tudo. Através dos Estados Unidos muitos milhões de pessoas já perderam suas casas, enquanto as pequenas e as médias empresas estão sendo levadas a falência, e o que resta dos serviços sociais e de saúde está sendo arrasado.

Os únicos setores da economia dos Estados Unidos que estão florescendo são os setores de artigos de luxo, criados para uma muito pequena porcentagem da população do país, e a indústria de armas bélicas, indústria essa principalmente composta dos conglomerados de defesa que incluem, em lugar de destaque, a Lockheed Martin, a Raytheon, a Northrop Grumman, a British Aerospace e depois também, outras companhias.



O DINHEIRO DOS IMPOSTOS:- USADOS PARA GUERRA E MORTE

A economia de guerra floresce. Jatos de ataque, ou caças de guerra, tipo F35 estão a venda por meio-bilhão de dólares cada um. Nisso não estará ainda incluido outros $300 milhões para manutenção desses jatos de guerra.

O Canadá e a Noruéga estão adquirindo um grande número desses aviões a custo dos seus programas sociais. Esses jatos são construídos com o máximo da sofistificação tecnológica atual e isso como dito, ao custo individual mencionado acima. O preço total do programa sendo estimado para os militares americanos ao incrível preço de $1.51 trilhões, sendo isso então para o chamado ciclo de vida do programa. Nominalmnete cerca de $618 milhões por avião. [2]

GUERRAS E GLOBALIZAÇÃO

Guerra e globalização -incluindo a imposição de uma austeridade muitas vezes letal- estão intimamente relacionadas.

Guerra é negócio. Ela traz bilhões de dólares para dentro do que Dwight Eisenhower denominou de o “Complexo Industrial-Militar”

As manchetes cheias de fantasia a respeito de um Apocalípse Maya a se aproximar encobrem a cruel realidade das guerras reais sendo conduzidas pela dupla EUA-OTAN.

-Vários novos sistemas de armas foram introduzidos depois da era da guerra fria. A ênfase então sendo colocada nos sistemas não convencionais de guerra, ou seja:

-Guerra automatizada, mata-se através da ecrã de um computador

-Técnicas de modificação do ambiente, incluindo modificação climática como arma de guerra.

A nova generação de armas nucleares americanas, para já nem se mencionar o uso de munições de urânio empobrecido, munição essa que causa cancer.

Ao cenário de fundo tem-se então uma cultura hollywoodiana de violência, onde guerras, brutalidade policial, tortura, e assassinatos são vistos como o normal.

No contexto apresentado o desastre nuclear de Fukushima é a ser visto como uma guerra nuclear, sem guerra, cujas consquências conduziram a uma radiação e a uma contaminação massiva, das quais as consequências ainda não foram avaliadas.

QUAIS OS MAIORES ATORES POR DETRÁS DAS GUERRAS AMERICANAS?

Observe-se que o complexo industrial-militar inclui também os mercenários e os provedores de segurança particulares contratados pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Mas, para responder a pergunta apresentada acima especifica-se que:
* A classe dirigente, ou seja o estabelecimento da Wall Street incluindo os especulantes institucionais e os, em inglês denominados “hedge funds”.
* Os conglomerados biotécnicos, o agribusiness e a grande Pharma, que produzem semente genéticamente modificadas, e armamentos químicos e biológicos, respectivamente. Esse sector coincide, ou sobrepõe-se, ao complexo industrial-militar.
* Os conglomerados de petróleo anglo-americanos, e as companhias de energia.
* Os gigantes de comunicação, coincidindo, ou sobrepondo-se, com os aparatos militares-e-de-inteligência.
* Os conglomerados midiáticos que constituem a base da propaganda imperial dos Estados Unidos.

GUERRAS NA MESA DE PROJETOS DO PENTÁGONO

Preparações ativas de guerra contra a Síria, contra o Líbano e contra o Irã foram uma constante nos últimos oito anos.

Desde 2005 os Estados Unidos e seus aliados, inclusive os parceiros dos americanos na OTAN, assim também como Israel, estiveram todos muito envolvidos numa vasta atividade de colocar sistemas bélicos e de armazenamento de sistemas de armamentos tecnologicamente muito avançados, através do mundo.

No contexto tem-se aqui que a opinião pública influenciada pelas campanhas midiáticas torna-se implicitamente partidária, indiferente, ou ignorante dos impactos e consequências das diversas acções tomadas ou a serem tomadas, a curto e a longo-prazo.

Essas acções sendo, via de regra – não bem pensadas e avaliadas. Como exemplo tem-se as operações punitivas dirigidas contra as facilidades nucleares do Irã, punições e acções essas que, por já substituem uma guerra total.

Uma guerra contra o Irã é apresentada ao público como uma guerra entre outras. Ela não é vista como uma guerra ameaçando a humanidade, uma guerra apocalíptica, como deveria ser. Muito pelo contrário. Ela é vista como uma atividade humanitária, que contribui para a segurança global. Outra vez, uma idéia completamente fora de propósito.

O que estamos testemunhando é um processo contínuo que está sendo feito pelo próprio homem. Estamos testemunhando nesse século 21 uma completa destruição de inteiros países, mas o o efeito acumulado desses acontecimentos não se ressalta. No entanto uma consequência lógica dos mesmos seria o que muito provavelmente nos poderia levar a uma grande catástrofe.

DESTRUINDO AS CONQUISTAS DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL E ECONÔMICO DO APÓS GUERRA. DESMONTANDO OS ESTADOS CONSTRUIDOS A BASE DO BEM-ESTAR SOCIAL.

A União Europeia, que já tinha alcançado um alto nível de desenvolvimento econômico-social, está agora sitiada pela desemprego e pelo desmantelamento dos estados sociais criados na Europa depois da segunda guerra mundial. Os governos de países soberanos europeus, assim como outros, estão agora sendo controlados por um estabelecimento financeiro agindo como um governo-sombra dando directivas e ditando normas.

Quase ¼ dos jovens europeus estão sem trabalho, com os mais altos níveis de demprego, 54.1% , registrados na Grécia e na Espanha.

Na Grécia e na Espanha o nível geral de desemprego é de 21.9% e 24.6% , respectivamente.

Nesses dois países o desemprego aumentou muito no último ano. Em maio de 2011 o desemprego estava a 20.9% na Espanha, e 15.7 % na Grécia. [3]

Constata-se que no auge da grande depressão do século 21, o caos econômico prevalece, enquanto a possibilidade de uma grande quebra financeira, não se pode descartar.



CRIMINALIZAÇÃO DO SISTEMA BANCÁRIO

Os mega-bancos que supervisionam o restruturamento das economias europeias e norteamericanas estão envolvidos de forma rotineira em lavagem de dinheiro, ou seja, falsa contabilidade quanto ao lucro dos negócios envolvendo drogas ou narcótica. Ligações com o crime organizado seguem pistas e caminhos que deixam rastros difíceis de serem descobertos e seguidos, mas que estão agora estabelecidos, fora de dúvidas. Sabe-se agora que os bancos trabalham intimamente com as chamadas cartelas, ou consórcios de drogas.

Bancos foram processados por colaborar com o tráfico de drogas e narcóticos do México. Não se trata de nenhum fato isolado. Todas as grandes instituições envolvem-se em falsa contabilidade quanto a lavagem, ou legitimização, dos dividendos desse tráfico.

A economia das drogas sempre fez parte da longa história do comércio internacional. A Corporação Bancária de Hong Kong e Shangai, fundada em 1865, na colônia inglesa de Hong Kong era um ramo da Companhia Britânica da Índia, BEIC na sigla inglesa

Começando no século 18, e protegida pelo império britânico, a BEIC esteve envolvida em um lucrativo comércio de ópio. Produzido em Bengala e depois transportado, via marítima, para a China o lucro do ópio era então usado para a expansão imperial britânica.

Quando o governo imperial da China deu ordens para que o ópio fosse destruido, em 1839, a Inglaterra declarou guerra contra a China, começando o que ficou conhecido como a “primeira guerra do ópio. O “casus belli”, ou seja o motivo da guerra, sendo que a China tinha –através de destruir o ópio- violado as regras do comércio livre em curso, no século 19.

Bancos não são exceção. Hoje o capital das corporações continua protegendo o comércio das drogas e as instituições bancárias mais respeitadas lavam, ou legalizam, bilhões de narco-dólares.

Pondo um ponto de início em 2001 a economia do Afeganistão, devastada pela guerra, vem fornecendo cerca de 90% do consumo internacional da heroina. O altamente lucrativo comércio de drogas do Afeganistão, vem sendo protegido pelas forças de ocupação EUA-OTAN.

Esse comércio é feito em benefício de poderosos interesses financeiros. É uma bonanza para os bancos e os sindicatos envolvidos no comércio das drogas. O resultante fluxo de narco-dólares é em grande parte legalizado, ou lavado, nos sistemas bancários ocidentais.

DESTRUINDO CIVILIZAÇÕES: MESOPOTANIA E O VALE INDÚ

As guerras dos Estados Unidos no Oriente Médio e na Ásia Central levaram a uma grande destabilização e ao declínio de inteiras regiões consideradas pela história como o berço da civilização.

A guerra do Iraque foi instrumental, e agora a da Síria está a completar a destruição da Mesopotânia. Mais do que 5.000 anos de história foram apagados no Iraque já quando do começo da ocupação, em abril de 2003, e a herança cultural-arqueológica da Mesopotâmia, o atual Iraque foi, se não destruida então saqueada pelos invasores.

Os ataques dos Estados Unidos no Paquistão, ataques esses feitos através dos drones e abaixo do mandato da global “Guerra ao Terrorismo” , são feitos em grande parte, na parte superior do Vale Indú, berço de outra civilização primordial, que vem da Idade do Bronze, tres mil anos Antes de Cristo. Essa antiquíssima civilização está hoje também sendo destruida pela máquina de guerra dos Estados Unidos.

Ressalta-se então que a denominação de “vítimas-colaterais”, resultando dos ataques feitos pelos drones americanos , é e então muito especialmente no Paquistão, um eufemismo para assassinatos em massa- feitos, financiados, ou apoiados por um estado, no caso os Estados Unidos

Quanto aos destinatários dos ganhos das guerras propulcionadoras em busca de benefícios e proveitos esses são as gigantes das petroleiras anglo-americanas e os grandes fornecedores de material bélico como Lockheed Martin, Raytheon, Northrop Grumman, British Aerospace, e outros, que produzem “mísseis humanitários” e jets de ataque para a máquina de guerra EUA-OTAN, máquina de guerra essa que inclui também uma nova generação de armas nucleares.

A tecnologia e a sofistificação de materiais informáticos militares como computadores, impressoras, modems e muitos e muitos outros instrumentos de alta tecnologia estão no auge da era eletrônica, a expandir-se para além dos limites imagináveis.

O PAPEL DA AL-QAEDA.

As guerras dos Estados Unidos estão dirigindo-se a cada vez mais a incitar conflitos étnicos e entre diversas facções e isso através de açcões encobertas e dissimuladas que apoiam a formação de organizações paramilitares terroristas, as quais com ou sem a devida razão, denominam como Islamistas. Essas acções são depois intencionalmente dirigidas a destruir a estrutura político-social de nações, onde pretendem instalar regimes marionetes.

Durante os últimos 30 anos os serviços de inteligência dos Estados Unidos, em associação com o MI6 da Grã-Bretanha, e o Mossad de Israel, estiveram apoiando a criação e o fortalecimento da Al-Qaeda, assim como também de um bom número de organizações afiliadas a ela. Essas entidades terroristas são verdadeiros trunfos para os acima mencionados proporcionando grandes vantagens para os serviços de inteligência ocidentais, em primeira mão então, para os Estados Unidos, a Inglaterra e Israel.

Hoje em dia os jihadistas –guerreiros da denominada Guerra Santa Islâmica- estão sendo recrutados pela OTAN.

Na Líbia assim como na Síria entidades afiliadas a Al-Qaeda, apoiadas e integradas pelas forças especiais da França e da Grã-Bretanha agiram e continuam a agir em benefício da aliança militar ocidental. Eles atuam então como os soldados rasos da OTAN, dentro de um país alvo.



O DESTINO DAS SEMENTES GENÉTICAMENTE PREPARADAS- GMO

Na Índia, onde o Ganges rega as planícies e os campos férteis de Uttar Pradesh, Bihar e a parte ocidental de Bengala, milhares de lavradores empobrecidos e falidos, proprietários ou trabalhadores de maiores ou menores sítios ou fazendas estão, em grande número, cometendo suicídio.

Há confirmação de 250.000 suicídios entre os lavradores. Porque? Isso é porque as sementes orgânicas usadas pelos lavradores estão sendo substituidas por uma variedade de tipos de sementes geneticamente modificadas. O processo leva não só a destruição da diversidade biológica, como também ao fim de inteiras comunidades de lavradores.

Monsanto ofereceu a compra das suas sementes geneticamente modificadas aos lavradores da Índia. Lavradores simples e sem muita instrução pensaram que essa fosse a oportunidade de suas vidas. Eles não faziam idéia do que estava para vir.

As sementes da Monsanto na Índia não produziram o que a companhia tinha prometido, e o que os lavradores esperavam. As sementes caras trouxeram altos níveis de débitos, e isso além de destruir campos de lavoura tradicional. Em muitos casos as sementes simplesmente não cresceram. Os lavradores não estavam conscientes de que essas sementes requereriam mais água do que as sementes tradicionais. Além disso a falta d´agua generalizada em muitas partes da Índia, só fez por aumentar o problema.

Sem colheitas os lavradores não conseguiram pagar seus débitos. Abaixo do peso das consequências das dívidas e da humilhação social, os lavradores começaram a se suicidar, o que então acabou por ser uma consequência social em forma de suicídio em massa, onde muitos lavradores se mataram através do que tinham em mãos. Foram muitas mortes de envenenamento por pesticidas.

A somar-se a miséria dos suicídios de seus companheiros de vida, as mulheres tiveram que herdar as dívidas dos mesmos, juntamente com o medo de ainda vir a perder suas casas e campos. As famílias dos lavradores com a falta de dinheiro tiveram que tirar suas crianças da escola. O suicídio em massa dos lavradores da Índia é conhecido como o “Genocídio GM” [4]

Uma situação similar está a se desenrolar na região Sub-Sahara da África. Tem-se então que nas terras altas da Etiópia, diversas espécies de um sistema agricultural milenar estão agora sendo substituidas pelas sementes e investimentos da Monsanto, Cargill e outros.

A agenda da qual não se fala, é a de no final trocar as variedades e espécies orgânicas tradicionais, que se reproduzem nas incubadoras ao nível regional, pelas do sistema comercial das espécies geneticamente motificadas. Isso é então a ser feito sempre quando o enfraquecimento do sistema tradicional finalmente for obtido. [5]

EMPOBRECIMENTO E FOME NA ÁFRICA SUB-SAHARA

Esse modelo é destrutivo para a agricultura e tem sempre resultado em fome generalizada. Ele está agora sendo replicado em toda a África Sub-Sahara.

Desde a crise do começo dos anos oitenta o Fundo Monetário Internacional, o FMI, e o Banco Mundial, BM, estiveram preparando o terreno para por um ponto final na economia agricultural tradicional da região.

Esse processo consciente e planejado de empobrecimento do continente africano, abaixo da direção do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundia, l está sendo acompanhado por um processo de militarização dirigida. A liderança sendo sempre dos Estados Unidos, esses então agora sempre agindo abaixo do pretexto “Guerra ao Terrorismo”.

No decorrer dos últimos trinta anos muitas guerras civís foram postas no gatilho através das operações dissimuladas e encobertas dos serviços de inteligência ocidentais. Por intermédio dessas muitas guerras –desnecessárias e cruèis- foram deslanchadas através do mundo.

Poderosos interesses de organizações empresariais estão entäo por detrás dessas guerras. O que se almeja é o controle sobre os recursos, sobre o petróleo e o gás natural, assim como de metais preciosos e estratégicos. Todo esse contexto faz parte de uma agenda, já agora não tão secreta.

Petróleo foi descoberto no sul do Sudão em 1978. Cinco anos mais tarde uma “guerra civil” apoiada pela CIA foi deslanchada. Essa guerra foi então liderada por John Garang, homem que foi treinado pelos militares americanos em Fort Benning, Geórgia. A guerra do Sudão resultou em dois milhões de mortos e em quatro milhões de pessoas desalojadas.

Estima-se que quatro milhões de mortos possa ser um resultado mais realista.

A guerra civil da Ruanda, e o genocídio de 1994 resultaram num milhão de mortos. Isso numa população de sete milhões de habitantes.

A guerra por recursos econômicos no Congo resultou em cerca de cinco milhões de mortes.

Essas guerras no Sub-Sahara Africano nunca foram devidamente apresentadas pela mídia -mainstream- nos Estados Unidos e muita gente lá, nem sabe que elas aconteceram.

De uma maneira geral as profecias Maya, ressaltadas entre os acontecimentos mundiais, teve a função prática de distrair as atenções das devastadoras crises atuais, caracterizadas por guerras sem fim, degradação ambiental, e miséria.

REVERTENDO O FLUXO DE GUERRAS. RESTRUTURANDO O DESENVOLVIMENTO. REINSTALANDO AS LIBERDADES CIVÍS.

Apesar de não estarmos enfrentando um cenário de imediato e absoluto “Fim do Mundo” encontramo-nos numa junção muito séria devido a crise econômica-social.

Estamos num ponto sem precedentes na história moderna. Uma grande guerra contra a Síria, assim também como contra o Irã, poderá levar a humanidade a um cenário de Terceira Guerra Mundial.

Os Estados Unidos possuem um impressionante arsenal bélico e o está a usar para ameaçar o mundo de diversas maneiras.

Um assustador estado-policial repressivo está consolidando-se, com uma estrutura de espionagem e vigilância intensiva de civis, não só nos Estados Unidos – como também num âmbito global. No auge da era eletrônica, com sofisticados bancos de dados, e técnicas de vigilância de alta tecnologia, essa operação se processa agora pelo mundo inteiro. A Europa não sendo exceção, muito pelo contrário.

O sistema de Habeas corpus – o direito de ter seu caso provado em corte de lei já foi, em grande parte, anulado nos Estados Unidos. Assassinatos políticos estão tornando-se a ordem do dia, enquanto a comunidade internacional tem aprovado a idéia de guerra nuclear preemptiva, em nome da paz. [!]

Fazer o mundo mais seguro é a justificação usada para uma operação militar que pode resultar num holocausto nuclear.

Mesmo que se possa conceptualizar morte e a destruição resultando das guerras dias do Iraque e Afeganistão, é impossível de se comprender, em toda sua extensão, a devastação que resultaria através de uma terceira guerra mundial. Nessa guerra se usariam as novas tecnologias e os armamentos tecnológico muito avançados, incluindo as armas nucleares. Não se comprende bem, mas isso é só até que se torne realidade.

O que estamos testemunhando nesse começo do século 21 não é uma quebra ou uma queda inesperada e abrupta, mas sim um processo radual de decomposição e declínio social.

O que está em jogo é a destruição da nossa civilização como a conhecemos. O progresso, tanto social como cultural e civilizatório, poderá ser interrompido, e a reprodução da vida humana prejudicada.

Esse processo está sendo marcado pela implementação de uma agenda militar global, agenda essa entrelaçada com uma grande e global depressão econômica.

ESTAMOS VIVENDO NUM DESTRUTIVO E IMPORTANTE PERÍODO DA HISTÓRIA MUNDIAL

Os conceitos ideológicos de uma “Nova Ordem Mundial” são inquisitoriais e devastadores.

O consenso geral é de esse projeto criminosos e global deveria ser apoiado por todos .

Essa Nova Ordem Mundial está a exigir guerras ilegais, um estado-policial-repressivo, a anulação dos direitos e liberdades civís, e a fraude financeira. Tudo então sendo feito [ad nauseum] em nome de uma inexistente democracia .

Não se permite divergência ou debate. Essa é a Inquisição Americana. Os que se opõe a essa perversa forma de democracia são caracterizados como “terroristas”. Ser contra a criminalidade tornou-se numa ofensa criminal.

Para que essa Nova Ordem Mundial possa ser mantida, a realidade tem que ser posta de ponta-cabeça. Tudo tem ser virado de cima para baixo.

O aparato propagantístico encarrega-se, consciente-ou inconscientemente, da missão de instalar em nossas mentes percepções e conceitos totalmente falsos e contrários a realidade.

Temos que aceitar premissas para uma Ordem Mundial onde:
* guerra é anunciada como paz
* o estado policial-militar é anunciado como democracia
* a austeridade é anunciada como prosperidade
* e riqueza e luxo, para pouquíssimos, são apresentados como desenvolvimento
* os assassinatos e a tortura de supostos terroristas são apresentados como parte e parcela da segurança nacional
* tem que ser acreditado que as vítimas das guerras sempre iriam constituir uma ameaça a civilização ocidental.

A realidade é completamente distorcida –ad absurdum.

A crise real afetando o povo desse planeta é obscurecida por falsas crises e catástrofes, já para não se mencionar avisos de iminentes ataques terroristas por inimigos não encontrados ou identifiáveis.

O objetivo final da propaganda a que somos submetidos é o de criar confusão e obediência a um pré-estipulado consenso a ser obtido.

Nesse contexto a opinião pública tem que ser distraida e dirigida para longe da comprensäo da crise afetando a humanidade. depressão econômica real, e mesmo uma potencial terceira guerra mundial, não fazem aqui manchete de jornal.

Entretanto, o perigo de uma guerra mundial não é só potencial, como também muito provável, se as regras do jogo não forem transformadas, desde logo.

Reverter o fluxo dos acontecimentos significa uma revolução em si mesma.

O sistema econômico atual está caracterizado pela criminalidade do sistema financeiro assim como do aparato político. Banqueiros estão envolvidos em falsa-contabilidade para legitimar lucros criminosos. Lockheed Martin, Raytheon e outras fornecedoras de material bélico lutam por mais guerras, enquanto as companhias petrolíferas exigem a conquista do Oriente Medio onde mais de 60% do petróleo mundial está localizado, em países Islâmicos.

A crise atual está puxando toda a estrutura social para um virvel profundo. Esse processo é gradual, mas cumulativo.

Isso significa entque esse processo pode ser revertido.

A condição para que esse processo seja revertido exige o desmantelamento de estruturas e instituições fundamentais do sistema atual, o repúdio do estado-policial-altamente repressivo, o encerramento do complexo industrial-militar- como tal-, a restruturação do sistema financeiro, o desmontar das medidas de austeridade e a restauração dos níveis de vida, assim como o por um ponto final aos assassinatos políticos, e aos assassinatos denominados humanitários. Um repúdio decisivo ao racismo e a xenofobia constituem uma parte inerente de um processo de reversão do fluxo dos acontecimentos.

O que é essencial é uma mudança de regime nos Estados Unidos. Uma total reavaliação do sistema político assim como da estrutura do sistema financeiro é imprescindível..

Essa transformação implicaria, antes de mais nada, o desmantelamento do aparato de propaganda. O ponto focal tendo que ser as fontes de desinformação.

Desmontar o fluxo de desinformação da mídia institucional é um pré-requisito para implementar mudanças mais fundamentais no funcionamento , tanto do sistema econômico quanto do sistema social. Isso implica então mudanças fundamentais nas relações de poder.

O instrumento mais importante a nossa disposição é a verdade. A verdade sempre vencerá sobre a mentira. A verdade é também o alicerce básico para o desenvolvimento de um movimento social, tanto nacional quanto internacional.

Quando a mentira se transforma na verdade, num estado-policial-de-alta –repressão, já não há retorno possível, e a humanidade precipita-se numa espiral autodestrutiva.

É crucial que se entenda a natureza criminosa da nova ordem mundial, suas bases políticas e jurídicas, assim também como a natureza da estrutura de poder da elite que a sustém.

Para reverter o fluxo, os criminosos de guerra em altos escalões oficiais devme ser não só expostos, como também julgados, e isso como um passo inicial.

O complexo-industrial-militar se não eliminado, deverá pelo menos ser controlado politicamente.

Os fraudulentos mecanismos do sistema financeiro – incluindo o comércio com os chamados derivativos e os instrumentos especulativos, as instituições assim como o aparato jurídico-legal, não deverão mais poder agir em impunidade total.

Nesse estudo apresentaram-se algumas idéias para iniciar um debate maior. As complexidades na base da agenda militar e o sistema econômico global precisam de ser encarados para que se possa reverter o fluxo dos acontecimentos levando a uma muito provável catástrofe.

O que se necessita é um movimento de massas que conteste e desafie a legitimidade das guerras, ilegais e de conquista, assim como que diga não as políticas de austeridade econômica, que só beneficiam uns pouquíssimos no alto da pirâmide social.

A guerra tem que ser criminalizada.

Assim já o primeiro passo terá sido dado.

Martin Luther King uma vez disse em outras palavras:

Crianças ao redor do mundo em diferentes ocasiões irão perguntar:
O QUE É A FOME?
O QUE É SEGREGAÇÃO RACIAL
O QUE É A BOMBA ATÔMICA?
O QUE É A GUERRA?

Então se terá que dizer que essas palavras já não se usam mais. São palavras como carruagens, galeras, escravidão. São palavras que já não fazem sentido, e que portanto foram retiradas dos dicionários.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Perón e a Revolução Cubana

por Javier Iglesias e Juan Carlos Benedetti



Nota Prévia

O presente trabalho estuda um dos aspectos menos conhecidos da história do peronismo: a influência que o pensamento do general Perón teve sobre as forças revolucionárias cubanas das décadas de 40-50 e, em especial, sobre o jovem Fidel Castro e seu nascente movimento insurrecional. Nesse sentido, este escrito é a antecipação de um mais extenso que não só historiará esse influxo peronista sobre o castrismo, senão que, ao mesmo tempo, analisará seu complemento simétrico: a posterior gravitação do castrismo já triunfante (1959) sobre o peronismo da Resistência e o exílio.

Se bem o tema desse trabalho pode parecer histórico, nosso objetivo é, no essencial, político: queremos resgatar em toda sua integridade revolucionária, anti-oligárquica e anti-imperialista a esse verdadeiro gigante libertário que foi o general Juan Domingo Perón, cuja mensagem de Liberação transcendeu e transcende as fronteiras argentinas para alcançar dimensões continentais e terceiro-mundistas. Esse Perón, revolucionário histórico e real, nada tem que ver com o triste leão desdentado que nos pretendem vender os trânsfugas liberal-menemista a serviço desse mesmo imperialismo a que Perón combateu. Porém tampouco é o que fantasiam certos neoperonistas "rosas" e social-democratizantes que, se bem criticam a inegável traição menemista, coincidem finalmente com ela no reacionário intento de construção de um pseudo-peronismo pequeno-burguês, intelectualóide e amaneirado; castrado de todo conteúdo e potencial nacionalista, operário, popular, terceiro-mundista e revolucionário.

Frente a liberais comissionistas, do Império, a reformistas da eunuca centro-esquerda cipaia, ou a falsos "nacionalismos" anti-peronistas e em nada populares, levantamos cada vez mais a firme convicção nos valores revolucionários do terceirismo anticolonial peronista. A bancarrota das ditaduras burocráticas comunistas e a passagem sem dissímulos da ex-URSS ao bloco imperialista encabeçado pelos supercriminosos ianques, reafirma nossas mais claras teses fundacionais: o único anticapitalismo possível é o representado por Movimentos Nacionais e Populares de Terceira Posição. Já caiu o explorador sistema comunista, agora faz falta derrubar o ainda mais explorador sistema capitalista. Tão só a metade do caminho está feita.

Recordar a mensagem revolucionária do general Perón, é, pois, reafirmar sua vigência prática atual, da mesma forma que recordar a influência peronista na primeira etapa da Revolução casuísta cubana nos permite entender que como já escrevemos há mais de um ano atrás:

"O isolamento de Cuba pode levar a seu reencontro com a Pátria Grande Latinoamericana, prescindindo das velhas fórmulas marxistas e aderindo de novo ao nacionalismo revolucionário terceirista do castrismo inicial. O fim do Império comunista antecipa a derrubada do Império capitalista. Cada Povo deve lutar por sua Revolução Nacional ao tempo que se forjam laços de unidade, solidariedade e organização mundial de todas as nações oprimidas, contra os imperialismos, a injustiça e a reação".

Introdução

Em 26 de julho de 1953 o recém-nascido castrismo surge pela primeira vez à luz pública com o intento de tomada do Quartel Moncada; operação guerrilheira cujo fracasso serve de pretexto para que o ditador Batista massacre cerca de uma centena de combatentes revolucionários ou simples opositores. Fato geralmente esquecido: para se resguardar da cruel repressão são vários os guerrilheiros fidelistas que se refugiam na Embaixada da Argentina Peronista. Esse seria o caso, por exemplo, de Raúl Martínez Ararás e Antonio López, responsáveis pelo assalto simultâneo ao Quartel de Bayamo para impedir que sua guarnição - uns 400 soldados - acudisse em defesa dos de Moncada.

Na Embaixada Argentina em La Habana também encontra refúgio alguém sindicado pelo diário oficialista "Alerta" de 27 de julho como um dos responsáveis máximos de dita operação. Nos referimos a José Pardo Liada, dirigente do próprio Partido do Povo Cubano "Ortodoxo" ao qual ainda pertencia Fidel Castro; futuro combatente de Sierra Maestre e, ao mesmo tempo, um dos mais claros simpatizantes do Peronismo na ilha do Caribe, autor inclusive de diversas obras em defesa da Terceira Posição Justicialista.

A evidente atitude solidária do Governo Peronista em relação aos insurgentes anti-batistianos contrasta com as posições de alguns grupos supostamente "anti-ditadoriais", "anti-imperialistas" e "revolucionários". Os comunistas pró-soviéticos cubanos - Partido Socialista Popular - para citar um só caso, em sua "Carta da Comissão Executiva Nacional do P.S.P. a todos os Organismos do Partido" (30 de agosto de 1953) condenavam o castrismo definindo o assalto ao Moncada como uma tentativa "golpista, aventureira, desesperada, característica de uma pequena-burguesia sem princípios e comprometida com o gangsterismo". Recém em julho de 1958, poucos meses antes do triunfo final, os comunistas moscovitas mudaram essa estúpida e reacionária posição subindo ao carro do vencedor.

A vinculação da primeira guerrilha casuísta com a Argentina peronista não será, pelo demais nem esporádica nem assunto meramente anedótico.

O próprio Carlos Franqui - militante do castrismo desde sua fundação, combatente urbano e de Sierra Maestra, secretário de organização do Comitê do Exílio do Movimento 26 de Julho e após a vitória fidelista, diretor do diário oficial "Revolução" - em uma de suas obras recorda que, ao menos até princípios da década de 50, Fidel "simpatizava com um peronista anti-imperialista".

Se trata, como veremos, de uma atitude em nada "platônica" e que chegará a contatos orgânicos que analisaremos em continuação.

O Exemplo Revolucionário Peronista

Se bem não é nosso objetivo analisar em profundidade a natureza da Revolução Peronista em seu período 1945-55, ao mesmo tempo é certo que não pode se entender a influência desse Peronismo no castrismo inicial se não situamos a experiência argentina no contexto latinoamericano da época.

O Peronismo chega ao poder e consolida sua obra no marco fundacional de um enfrentamento total com o imperialismo ianque e a oligarquia local a ele associada. A disjuntiva "Braden ou Perón", com a que nasce o Movimento Nacional Popular liderado pelo então coronel Perón, marca profundamente esse Movimento e demonstra seu verdadeiro caráter anti-imperialista. Que esse anti-imperialismo não é retórico o demonstram algumas simples cifras: o capital estrangeiro que em 1945 era 15,4% do capital total, em 1955 já é só uns 5,1%. As saídas de capitais (lucros imperialistas) que no período 1940-44 supõem uma média anual de 382 milhões de dólares de 1950, no ano 1955 se reduzem a 34 milhões de dólares. A nacionalização dos meios de comunicação e transportes, sistema financeiro, seguros, comércio exterior, etc., são precisamente, os instrumentos que unidos a uma enérgica política industrialista e de substituição de importações, logram o aberto objetivo da Independência Econômica como base imprescindível para o desenvolvimento nacional e a justiça social.

Contradizendo aos que afirmam a necessidade de capitais estrangeiros - ianques principalmente - para os países "subdesenvolvidos" do Terceiro Mundo, a Independência Econômica se caracteriza no exemplo peronista por garantir um processo de crescimento jamais igualado em nosso país. Cifras contam: entre 1946 e 1955 a produção industrial a preços constantes de 1960 passou de 164 mil milhões de pesos a 277 mil milhões, com o que o crescimento supera em mais de 12% ao que se registrou na década de 1935-1945. No mesmo período também, o produto conjunto da indústria manufatureira, a construção e os serviços energéticos, de transporte e comunicações, passaram de 224,1 mil milhões a 324,5 mil milhões, o que significou um incremento superior em mais de 30% ao que se deu nos 10 anos precedentes. Isso explica o que na Argentina peronista, ao contrário que em todos os países capitalistas, se chegasse nesse período ao ideal geralmente inalcançável da plena ocupação laboral.

Independência econômica e desenvolvimento da economia, por outra parte, repercutem sobre tudo no Povo trabalhador, que acessa níveis de vida inéditos para nosso continente. A participação do setor assalariado na Renda Nacional passa de 44,1% em 1943 a 57,4% em 1954 (na atualidade não é muito mais do que 20%). Os salários reais sobem de um índice 100 em 1945 a um índice 164,7 em 1955. E tudo isso sem ter em conta benefícios indiretos porém não menos palpáveis: obras sociais, férias pagas, salário anual extraordinário, colônias de férias, assistência social direta mediante a Fundação Eva Perón, construção de novas escolas e hospitais (em 1946 só havia 15400 leitos nos hospitais públicos; em 1951 existiam já 114.000); educação gratuita, aprendizagem industrial, universidades nacionais operárias, habitação barata, queda do analfabetismo de 15 a 3,9%, etc.



Estado Sindicalista

Tudo isso, ao mesmo tempo, deslumbra mais a numerosos revolucionários e anti-imperialistas latinoamericanos pelo fato de que o próprio Perón insiste uma e mil vezes em que é tão somente "o início" de uma Revolução ainda mais profunda. Em 1 de maio de 1952 é assim como Perón manifesta publicamente que:

"Para o capitalismo a renda nacional é produto do capital e pertence ineludivelmente aos capitalistas. O coletivismo crê que a renda nacional é produto do trabalho comum e pertence ao Estado porque o Estado é proprietário total e absoluto do capital e do trabalho. A Doutrina Peronista sustenta que a renda do país é produto do trabalho e pertence, portanto, aos trabalhadores que a produzem".

E, para se ficasse alguma dúvida, acrescenta:

"Os trabalhadores adquirirão progressivamente a propriedade direta dos bens capitais de produção, do comércio e da indústria, porém o processo evolucionista será lento e paulatino".

Se trata, como escreverá um estudioso do fenômeno peronista, de proposições em certa medida relacionados com os do sindicalismo revolucionário:

"Mais que o socialismo clássico, o Peronismo em gestação adotou idéias fundamentais do anarco-sindicalismo hispano-francês, o qual já tinha uma tradição não desprezível no gremialismo argentino. Se trata aqui de duas exigências: a) o direto protagonismo político do sindicato (não por mediação do partido) sobre tudo através da greve geral como instrumento de ação; e b) o objetivo distante de uma administração dos meios de produção pelos próprios sindicatos. Já o Congresso Sindical de Amiens (1906) havia proclamado 'o sindicato atualmente nada mais que um grupo de resistência, será no futuro o responsável da produção e distribuição, bases da organização social'."

Essa semelhança é palpável quando Perón define o Estado Justicialista futuro como um "Estado Sindicalista" já que: "O que vem demonstrando como adiantamento, diremos assim, da teoria, é que entre o político e o social o mundo se encontra em um estado de transição. Nós estamos em dia com essa evolução, em meu conceito. Temos a metade sobre o corpo social e a outra metade sobre o corpo político. O mundo se desloca do político para o social. Nós não estamos decididamente nem em um campo nem no outro, estamos assistindo ao final da organização política e ao começo da organização social... Eu não posso abandonar o partido político para substituí-lo pelo movimento social. Tampouco posso substituir o movimento social pelo político. Os dois são indispensáveis. Se essa evolução continua, nós continuaremos ajudando à evolução. Quando chegue o momento propício lhe faremos um enterro de primeira, com seis cavalos, ao partido político e chegaremos a outra organização. Porém estamos em marcha ao estado sindicalista, não tenham a menor dúvida".

A importância da organização sindical no Estado e no Movimento Peronista, do qual se define como "coluna vertebral"; a existência de ministros, deputados e governadores operários; o papel dos sindicatos em constituições provinciais como a do Chaco; a sindicalização (entrega da propriedade aos sindicatos de trabalhadores) das cervejarias Bemberg ou do diário "A Imprensa", são sinais claros do que a partir da década de 1960 Perón começará a definir como "socialismo nacional, humanista e cristão"; quer dizer: um socialismo sindicalista autogestionário de liberação nacional e de Terceira Posição.

O Nacionalismo Revolucionário Cubano

Se grande é a influência da Revolução Peronista em toda a América Latina, mais o é ainda em Cuba, tanto que um informe de 1956 editado pela Revolução Libertadora chega a afirmar que: "Cuba tem sido o foco peronista no Caribe". Tal fato é devido à conjunção na ilha caribenha de dois fatores: a presença direta do prepotente imperialismo ianque unida ao caráter abertamente contrarrevolucionário do comunismo pré-castrista.

Em relação à presença ianque devemos recordar que Cuba é o último país latinoamericano em se livrar do domínio espanhol e que quando o faz (1898) é pela presença das tropas ianques, que com o pretexto da voadura de seu navio (Maine) invadem a ilha e derrotam os espanhóis. O caráter colonial dessa Cuba supostamente "independente" fica confirmado na própria Constituição "nacional" com a inclusão em junho de 1901 da chamada "emenda Platt" (pelo nome do senador Orviolle Hitchcock Platt, de Connecticut) que afirmava explicitamente: "Cuba consente em que os EUA possam exercitar o direito de intervir na defesa da independência cubana e na manutenção de um governo adequado para a proteção da vida, da propriedade e da liberdade individual".

Frente a esse expansionismo ianque já denunciado por patriotas como José Martí ("Tenho vivido dentro do monstro e conheço suas vísceras; minha funda é a de Davi"), surge um nacionalismo anti-imperialista cada vez mais intransigente que, como conta o professor Robert F. Smith, do Texas Ludieran College, em sua obra The USA and Cuba, faz com que em junho de 1922 (e não em 1959 ou em 1960) um diário de La Habana apareça com um título sobre oito colunas: "O ódio aos EUA será a religião dos cubanos".

Quando para conter esse pujante anti-imperialismo os EUA promovem a sangrenta ditadura do presidente do Partido Liberal, Gerardo Machado (1924-1933), a oposição patriótica e popular se vê obrigada a adotar como recurso de ação a resistência armada, o terrorismo individual, a sabotagem e a conspiração insurrecional. É nessa experiência de nacionalismo revolucionário armado não comunista onde se pode encontrar a origem histórica do primeiro castrismo.

Nacionalismo Revolucionário Frente a Comunismo

Em setembro de 1933 uma exitosa combinação de mobilização de massas, greve geral e sublevação cívico-militar, derruba a ditadura de Machado e entrega o poder a dois representantes desse nacionalismo revolucionário: Ramón Grau San Martín e, acima de tudo, Antonio Guiteras, partidário este último de uma Revolução Nacional Anti-Imperialista que culminasse em uma forma autóctone de socialismo que, de acordo com seu programa, não era uma "construção caprichosamente imaginada, senão uma dedução nacional baseada nas leis da dinâmica social". Tal governo se vê, sem embargo, atacado não só pelas forças pró-capitalistas e pró-ianques senão também pelo comunismo vernáculo que promove "sovietes" armados em diversos pontos distantes da ilha com a peregrina idéia de derrubar o governo "burguês".

O ultra-esquerdismo "combativo" pró-soviético contra um governo popular e anti-imperialista se entende ainda menos se se conhece o fato de que em plena insurreição anti-machadista (agosto de 1933) os dirigentes comunistas César Vilar e Vicente Álvarez "haviam prometido a Machado suspender a greve se lhes outorgasse o reconhecimento oficial das CONC" (sindicatos cubanos). Presos do esquema de "classe contra classe" que por aquele então propugnava a Internacional Comunista, os stalinistas caribenhos consideravam que tão "burgueses" eram Machado quanto os opositores de modo que preferiram sabotar a luta em troca de benefícios particulares e legalistas. Lastimosamente Fabio Grobart, fundador do PC, várias décadas depois afirmaria que a ordem comunista de romper a greve não teve o mínimo êxito já que "os operários de La Habana - que foram os únicos que se inteiraram dessa atitude - eliminaram, com sua firme ação, qualquer incompreensão sobre o caráter da greve geral, e o Partido e a CONC, retificaram o erro momentâneo, e, com os trabalhadores, adotaram a decisão unânime de não voltar ao trabalho enquanto Machado estivesse no poder". A emenda, não obstante, resultou pior que a conversa fiada já que, como vimos, do economicismo de direita frente a Machado passaram milagrosamente ao ultra-esquerdismo insurrecional contra um governo nacional-popular em uma estranha mistura de brandura com os cipaios e dureza contra os patriotas.



A Ditadura de Batista

Aproveitando a agressão em pinças (desde a direita e a esquerda) contra o governo Grau-Guiteras, o coronel Fulgêncio Batista se apodera do poder que controla, diretamente ou mediante presidências títeres, até, 1939. Isso obriga à oposição, geralmente armada. Assim Grau San Martín funda o Partido Revolucionário Cubano "Autêntico", que no ideológico alguns autores vinculam ao "varguismo, cardenismo, peronismo, aprismo, MNR (Bolívia), Acción Democrática (Venezuela), velasquismo (Equador) e liberacionismo (Costa Rica)"; Guiteras constitui a organização revolucionária político-militar "Jovem Cuba", com características socialistas e nacionalistas. O grupo nacionalista influenciado pelos fascismos europeus ABC (que já havia lutado com as armas contra Machado) segue operando militarmente, os setores insurrecionais do Partido "Autêntico" constituem diversas organizações de combate (União Insurrecional Revolucionária, Organização Autêntica, Movimento Socialista Revolucionário, etc.).

Desse bloco opositor, como era de esperar, não forma parte muito tempo o Partido Comunista que, a partir de 1938, e seguindo a nova linha "antifascista" da Internacional Comunista, considera a Batista como um possível "aliado". O raciocínio é até certo ponto lógico... para qualquer agente moscovita: na medida em que para a URSS o inimigo principal era a Alemanha de Hitler, os ianques eram possíveis aliados e, por conseguinte, os diferentes governos pró-ianques (como o de Batista) apoiáveis para os PC locais. No caso cubano isso se vê patentemente em uma série de fatos:

* No fim de 1938 é legalizado por Batista o PC.
* Em 25 de julho de 1940, o general Batista, apoiado ainda pelos comunistas, triunfa sobre o Partido "Autêntico" aproveitando que a nova constituição democrática não devia ser aplicada até 1943. O triunfo batistiano-comunista se obtém segundo o antigo método de escrutínio restritivo, que só permite votar à metade do eleitorado.
* Em 24 de julho de 1942, Batista fez entrar a dois ministros comunistas, Juan Marinello e Carlos Rafael Rodríguez em seu governo. Eram os primeiros comunistas no poder na América Latina. Rodríguez, paradoxalmente, com posterioridade também desempenharia um importante papel no governo castrista.

As primeiras eleições livres, em 1944, acabam com o cogoverno batistiano-comunista quando o Dr. Grau San Martón obtem uma maioria de votos (65%) sobre Salgarida, o candidato de Batista apoiado pelos comunistas. Isso supõe um evidente retrocesso para os stalinistas cubanos que, privados do apoio estatal, começam a ser deslocados por sindicalistas "autênticos" ou simplesmente anti-batistianos, ao mesmo tempo em que os antigos grupos insurrecionais anti-ditatoriais, com o apoio agora do governo, começam a atingir o alvo de seus atentados não com comunistas senão filobatistianos.

O Jovem Fidel Castro

Em 1945, ano da Revolução Peronista, Fidel Castro ingressa na Universidade de Havana e, mediante ela, na vida política. Sua natureza revolucionária lhe faz se aproximar aos grupos insurrecionais, ainda não desmobilizados, do Partido "Autêntico" que ainda mantinham certa imagem nacionalista revolucionária. É assim como se integra à União Insurrecional Revolucionária, de Emilio Tro, segundo afirmam alguns autores (Yves Guilbert, Pardo Liada) ainda que outros (K.S. Karol) sustentam que se se vincula à UIR é como "independente" e mais que nada para evitar a pressão do Movimento Socialista Revolucionário, grupo também "autêntico" mais inimigo da UIR e sob a condução de Mario Salabarría.

É Mario Salabarría, precisamente, quem em 1947 organiza um autodenominado "Exército de Liberação da América" que, dividido em quatro batalhões (denominados respectivamente: "Antonio Culteras", "Máximo Gómez", "José Martí" e "Augusto César Sandino") tenta a invasão de Santo Domingo de Trapillo para derrubar dita ditadura e, posteriormente, fazer o mesmo com a de Somoza na Nicarágua. Fidel Castro, que junto a Carlos Franque e outros revolucionários forma parte de dita expedição, é um dos poucos que consegue escapar quando após três meses de concentração em Cayo Confite, os revolucionários são detidos pelo exército cubano, temeroso das reais intenções do numeroso grupo armado. A primeira ação que poderíamos definir como "armada" de Fidel Castro, ainda que tão só seja um jovem recruta por aquele então, para alguns historiadores já tem relação com o Peronismo. K.S. Karol, por exemplo, ao falar da expedição assegura: "Esta já havia recebido do presidente argentino Perón um apreciável presente: 350.000 dólares em armas de diversos tipos". Ainda que não acreditemos que esse apoio fosse real - pois não existe nenhum documento ou testemunho argentino da época que o corrobore - a afirmação serve para ver como se considerava o Peronismo na época: um movimento revolucionário, anti-ditatorial e anti-imperialista.



Perón e Fidel Castro

O primeiro contato documentado entre Peronismo e castrismo se dá precisamente a princípios do ano seguinte. O dirigente peronista Antonio Cañero recorda que, nesse ano, depois de criar uma Federação Nacional de Universitários Peronistas:

"Tentei organizar um congresso, já não nacional senão latinoamericano de estudantes nacionalistas. Entrevistei Perón, logrei seu consentimento e acompanhado de um dirigente cubano, Santiago Touriño Velázquez, recorremos Santiago de Chile, Lima, Panamá e Havana. Os referentes políticos eram óbvios: Albizu Campos, Playa de la Torre, Arnulfo Arias. Em março de 1948 chegamos a Havana e a uma das reuniões assistiu Fidel Castro. Me preveniram meus amigos cubanos, em especial Touriño, sobre a atitude radicalizada de Fidel (...) Touriño, atualmente eexilado em Miami o descreveu como uma figura singular. Não tive tratos com ele porém aos poucos dias viajou a Bogotá e participou do bogotaço".

Sobre a participação de Castro nesse congresso latinoamericano de nacionalistas e peronistas, assim como sobre as reuniões prévias, dá também informação o já citado dirigente cubano Pardo Liada:

"A fins de março de 1948, chegou a Havana o senador argentino Diego Luis Molinari, utilizando Luis Priori, delegado operário da Embaixada argentina, estabeleceu contato com os principais dirigentes universitários cubanos, convidando-os a participar em uma conferência anti-colonialista em Buenos Aires, onde reclamariam a devoção das ilhas Malvinas.

O embaixador peronista se entrevistou ao presidente da FEU Enrique Olivares, e o secretário desse organismo, o comunista Alfredo Guevara, que acabava de chegar de Moscou, resposto de dores pulmonares. Ambos viajariam a Bogotá, aproveitando a 9ª Conferência Americana, para lhe fazer propaganda ao congresso anti-colonialista de Buenos Aires, convocado por Perón a princípios de maio.

Inteirado Castro da viagem de Ovares a Bogotá quis se unir à delegação. Ao saber que Molinari facilitava as passagens, me pediu que lhe conseguisse uma entrevista com o argumento, a quem viu no Hotel Nacional. Ao encontro com o embaixador de Perón acudiu Castro acompanhado por Rafael del Pino e o estudante pró-peronista Santiago Touriño. Castro fez a melhor impressão a Molinari. Desde muito jovem Castro tinha carisma de líder. E saiu da entrevista com a promessa do senador de convidá-lo a uma viagem com três escalas:

Panamá, Bogotá e finalmente, Caracas. Com passagens pagas por Perón viajaram a Colômbia Enrique Ovares, Alfredo Guevara, Fidel Castro e Rafael del Pino. Enquanto, outra delegação estudantil cubana, também respaldada pelo senador peronista, com os estudantes Touriño, Tabeada e Esquivel, visitaria vários países da América Central do proselitismo para a Conferência Anti-Imperialista de Buenos Aires".

A Ideologia do Jovem Castro

O Fidel que tem estes contatos e relações com a Argentina peronista não é já um "franco-atirador" dos grupos armados mais ou menos vinculados aos "Autênticos", senão um militante enquadrado no Partido do Povo Cubano "Ortodoxo". A "ortodoxia" surge precisamente como cisão dos "Autênticos" e em oposição à corrupção e abandono dos princípios nacionalistas revolucionários por parte dos governos de Grau San Martón e Pío Socarras, e a gangsterização delitiva de suas armadas colaterais. Com consignas centrais como "independência econômica, liberdade política e justiça social" claramente inspiradas nas Três Bandeiras Justicialistas, é lógico que a "ortodoxia" seja o lugar natural de militância dos filoperonistas cubanos, desde Pardo Liada a Fidel Castro.

Como o nove golpe de Batista, em março de 1952, tem por propósito explícito impedir o triunfo eleitoral desse Partido "Ortodoxo", seus militantes se veem obrigados a passar à luta armada. O grupo encabeçado por Fidel Castro que assalta o quartel Moncada ("Juventude do Centenário" ou "Movimento") tem por fim, como escreveu Fidel ao dirigente ortodoxo de Santiago Luis Conté Agüero: "por a ordem em mãos dos ortodoxos mais fervorosos. Nosso triunfo tivesse significado a subida imediata ao Poder da ortodoxia primeiro, provisoriamente e depois mediante eleições gerais".

Essa identidade ideológica com a ortodoxia continua já fundado o Movimento 26 de Julho. Na carta de Castro ao Congresso do Partido "Ortodoxo", em 16 de agosto de 1955, este afirma: "o Movimento 26 de Julho não constitui uma tendência no interior do Partido; é o aparato revolucionário do "chibasismo" enraizado em sua base da qual surgiu para lutar contra a ditadura quando a ortodoxia demonstrou ser impotente devido a suas mil divisões internas (...) uma ortodoxia sem direção de latifundiários do tipo Fico Fernández Casas; sem açucareiros do estilo de Gerardo Velázquez; sem especuladores da bolsa, sem magnatas da indústria e do comércio, sem os advogados das grandes fortunas, sem potentados provinciais sem politicalhos...". Recém em 19 de março de 1956 o M-26 rompe formalmente com o Partido Ortodoxo ainda que em plena luta insurrecional e até pouco antes de chegar ao poder os militantes e dirigentes da Ortodoxia: "como grupo se haviam convertido praticamente em um satélite da causa castrista, seguindo suas diretivas quase ao pé da letra. Pareciam convencidos de que o Movimento 26 de Julho era um ramo de seu próprio partido, e alguns consideravam Castro como um intrépido redentor que executava um ato heróico para o qual a eles faltava coragem". "Nossa Razão", Manifesto-Programa do Movimento 26 de Julho fechado em novembro de 1956, levanta consignas em grande medida identificáveis às da Ortodoxia (e ao Peronismo) como a luta pela "soberania política, independência econômica e cultura diferenciada" dentro de um "pensamento democrático, nacionalista e de justiça social".



Peronismo e Movimento Operário Cubano

A influência do Peronismo histórico não só se nota nas organizações políticas do nacionalismo revolucionário pré-castrista. Dadas as características nacional-proletárias e sindicalistas da Argentina Peronista é mais lógica que seu influxo maior se produz no Movimento Operário Latinoamericano. Cuba não seria uma exceção e é seu Movimento Operário a melhor prova da convergência entre terceirismo revolucionário pró-peronista e o nacionalismo revolucionário não marxista do castrismo inicial.

Em 20 de novembro de 1952, na cidade de México, representantes de organizações operárias de nosso Continente pertencentes a 19 países, convocados pela CGT argentina decidem constituir a Agrupação de Trabalhadores Latinoamericanos Sindicalistas (ATLAS). Se trata de uma central operária continental e anti-imperialista oposta tanto ao pseudo-sindicalismo amarelo da pró-ianque ORIT, como ao regimentado sindicalismo filo-soviético da CTAL.

Na constituição de ATLAS tem um papel destacável o dirigente sindical cubano do tran´sporte Fernando Pérez Vidal. Este militante, exilado pela ditadura batistiana e futuro dirigente sindical castrista, ocupa desde a fundação de ATLAS a Secretaria de Relações Exteriores, ainda que em 1953 chegaria a ser designado transitoriamente como Secretário Geral de dito organismo continental peronista.

Que a vinculação entre o Movimento Operário Peronista e o Movimento Operário Castrista cubano não é circunstancial e efêmero o prova a longa correspondência entre esses dirigentes operários castristas, já chegados ao poder, e o ainda Secretário Geral de ATLAS, o argentino (e peronista) Juan Garone. Assim, em 16 de fevereiro de 1960 Pérez Vidal solicita a aquele o envio "... do carnê como delegado de ATLAS no Carine ou só em Cuba" ressaltando que: "Hoje, graças à Revolução Libertadora que rege os destinos da nação e que encabeça esse invencível líder e grande estatista Fidel Castro Ruz, nossa pequena pátria, porém digna, tem um posto destacado nas nações livres do mundo. Exatamente o que logrou vossa grande pátria sob as bandeiras gloriosas do Justicialismo que fez possível Independência Econômica, Justiça Social e Soberania Política..." E acrescenta, caso ficasse alguma dúvida: "Muda nada mais que a forma, ou seja, não dizer ATLAS ou Justicialismo é um problema complexo de dirigentes pouco maduros e com muito escasso nível político que vem fantasmas onde só brilha o sol mais claro e melhor".

Em idêntico sentido se manifesta o também dirigente operário cubano José Gayoso em carta ao próprio Garone: "Enquanto aos fins que o governo cubano persegue são puramente nacionalistas (...) Quanto a ATLAS creio que seria conveniente que vocês se dirigissem ao companheiro David Salvador, Secretário-Geral da CTC para chegar a um fim prático na reorganização nessa de ATLAS (...) com homens que sentem os ideais do Justicialismo".

Para uma melhor compreensão do anterior esclarecemos que o citado David Salvador era um ex-dirigente comunista que em 1947 havia rompido com os pró-soviéticos locais para acabar se integrando no castrismo, do qual dirige durante a Revolução seu braço sindical: Seção Operária do M-26 de Julho, posteriormente conhecida por "Frente Operário Nacional Unido" (FONU) após a absorção da Seção Funcional de Trabalhadores da Ortodoxia História e da Seção Operária do Diretório Revolucionário. Salvador dirige numerosas greves durante a resistência anti-batistiana, geralmente combinadas com ações armadas. Após a chegada ao poder do castrismo o Primeiro Congresso Nacional da CTC (já convertida em central operária única) a lista de David Salvador e o M-26 obtém o 90% dos votos frente a só 5% dos "Autênticos" e outro 5% dos comunistas. A pressão do próprio Fidel para uma lista de unidade castrista-comunista é rechaçada, não por um anticomunismo de direita senão porque, como reconhece um marxista estudioso da Revolução Cubana durante a Revolução: "O PSP (pró-soviético) não via com bons olhos à Frente Operária Nacional, fundada pelos castristas e dirigida por David Salvador, antigo comunista; o PSP desconfiava simultaneamente das tendências anti-comunistas de uma certa propaganda do M-26 e de suas exaltações esquerdistas da luta armada. (...) Não se encontra nem uma só pista da participação dos comunistas nessa decisiva batalha da frente urbana" que foi a greve geral de 9 de abril de 1958, dirigida pelo FONU.

Síntese

Como uma Revolução Nacionalista e Terceirista, aparentada diretamente com o Peronismo histórico, pode acabar se convertendo em uma sistema marxista-leninista de partido único? De fato de Revolução castrista, até o 2 de dezembro de 1961, não se define como comunista senão como terceirista. Os carimbos cubanos dirigidos aos EUA dizem: "Nossa Revolução não é capitalista nem comunista, senão humanista". O próprio Fidel no diário "Revolução" de 17 de março de 1959 afirma: "Frente a ideologias que se disputam a hegemonia, surge a Revolução Cubana, com idéias novas e acontecimentos novos. Não vão confundir o Povo chamando-nos de comunistas". Também algo depois o próprio Che Guevara afirmaria em carta a "Bohemia", publicada em 14 de junho de 1959: "se fosse comunista não duvidaria em dizê-lo a vocês".

Essa Revolução Nacional, sem embargo, se vê cercada pelos ianques obrigando ao governo cubano a radicalizar cada vez mais suas posições. Quando a Revolução Cubana, por exemplo, decide importar petróleo russo e as três refinarias ianques em Cuba se negam a processá-lo, Fidel nacionaliza essas propriedades ianques. Os ianques contestam suspendendo a quota de açúcar. Castro contra-ataca rompendo relações com os ianques e obtendo um primeiro crédito soviético. Os ianques auspiciam o desembarque em Baía Cochinoss (abril de 1961), Castro se proclama "marxista-leninista". Se trata de uma radicalização em grande medida forçada pelos ianques como reconhece o Che em uma entrevista a L. Bergquist, "Look", novembro, 1960: "Exceção feita de nossa reforma agrária, que o povo desejava e havia iniciado espontaneamente, todos os procedimentos radicais que adotamos foram uma resposta direta aos atos de agressão por parte dos potentes monopólios dos que vosso país é o máximo expoente. Para saber até onde chegará Cuba, é necessário lhe perguntar ao governo dos EUA até onde ele quer chegar".

A estratégia de se apoiar nos russos para combater aos ianques não é aceita, de todos os modos, pela totalidade do velho castrismo. Franqui distingue nesse sentido pelo menos quatro correntes internas: os pró-ianques que se conformavam com uma "democratização" anti-batistiana, os nacionalistas democráticos, a corrente operária revolucionária socialista porém não pró-soviética (fundamentalmente os sindicatos casuístas) e, finalmente, uma corrente "pequeno-burguesa" autoritária aliada aos comunistas e que é a que acabou triunfando. Os simpatizantes do peronismo em Cuba, nacionalistas democráticos ou socialistas nacionais, acabaram exilados (Pardo Liada, muitos ortodoxos) ou presos (Salvador David, numerosos dirigentes sindicais) e o dilema parece ser, até há pouco, "democracia" pró-ianque ou pró-sovietismo casuísta.

O definitivo trânsito da ex-URSS ao bloco imperialista ocidental; seu abandono de Cuba, agora isolada e contando só com uma eventual ajuda dos Povos latinoamericanos, repropõe a questão e obriga ao castrismo a se basear em suas próprias forças, em um nacionalismo tão distante de ianques como de soviéticos. Poderá voltar o castrismo a um terceirismo revolucionário como o de sua etapa inicial? A História, enquanto criação livro dos Povos o dirá e, sendo assim, Cuba será uma trincheira mais no novo combate emancipador dos Povos da América Latina, com bandeiras nacionais e sociais, tão anti-capitalistas como anti-marxistas.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O Islamismo contra o Islã?

por Claudio Mutti



O instrumento fundamentalista

"O problema subjacente para o Ocidente não é o fundamentalismo islâmico. É o Islã". Essa frase, que Samuel Huntington coloca ao fechar o longo capítulo de seu Choque de Civilizações chamado "O Islã e o Ocidente", merece ser lido com mais atenção do que tem sido feito até agora.

Segundo o ideólogo norteamericano, o Islã é um inimigo estratégico do Ocidente, porque é seu antagonista em um conflito de fundo, que não surge tanto de disputas territoriais senão de um confronto fundamental e existencial entre a defesa e rechaço dos "direitos humanos", a "democracia" e os valores laicos". Huntington escreve: "Enquanto o Islã siga sendo Islã (como assim será) e Ocidente siga sendo Ocidente (coisa que é mais duvidosa), este conflito fundamental entre duas grandes civilizações e formas de vida continuarão definindo suas relações no futuro".

Porém a frase citada ao princípio não se limita em designar o inimigo estratégico, também é possível deduzir a indicação de um aliado tático: o fundamentalismo islâmico. É certo que nas páginas do Choque das Civilizações a idéia de utilizar o fundamentalismo islâmico contra o Islã não está formulada de uma forma muito explícita, porém em 1996, quando publicou Huntington O Choque de Civilizações e a Reconfiguração da Ordem Mundial, este tipo de prática já havia sido inaugurada.

"É um dado de fato - escreve um ex-embaixador árabe acreditado nos EUA e Grã-Bretanha - que os EUA haviam acertado alianças com a Irmandade Muçulmana para expulsar os soviéticos do Afeganistão; e que, desde então, não deixaram de fazer a corte a essa corrente islamista, favorecendo sua propagação nos países de obediência islâmica. Seguindo a pegada de seu grande aliado norteamericano, a maioria dos estados ocidentais adotaram, em relação a essa nebulosa integrista, uma atitude que vai da neutralidade benévola à conivência deliberada".

O uso tático do assim chamado integrismo ou fundamentalismo islâmico por parte do Ocidente não começou, como se diz, a partir de 1979 no Afeganistão, senão- como recorda em From the Shadows o ex-diretor da CIA Robert Gates - seis meses antes da intervenção soviética, quando os serviços especiais estadounidenses começaram a ajudar os guerrilheiros afegãos.

Não obstante, sua origem se remonta aos anos cinquenta e sessenta, quando Grã-Bretanha e Estados Unidos identificam o Egito nasseriano como o principal obstáculo para a hegemonia no Mediterrâneo ocidental, pelo que prestaram apoio à Irmandade Muçulmana de uma forma discreta porém acertada. É o caso emblemático de um filho do fundador do movimento, Sa'id Ramadan, que "tomou parte na criação de um importante centro islâmico em Munique, ao redor do qual se formou uma federação com ampla difusão". Sa'id Ramadan, que recebeu financiamento e instruções do agente da CIA, Bob Dreher, em 1961 expôs seu plano de ação a Arthur Schlesinger Jr., assessor do presidente eleito John F. Kennedy. "Quando o inimigo está armado com uma ideologia totalitária e dispõe de regimentos de fiéis devotos - escrevia Ramadan - aqueles que estão alinhados sobre posições políticas opostas devem enfrentá-los sobre o plano da ação popular e a essência de sua tática deve consistir em uma fé e devoção contrária. Só as forças populares, genuinamente involucradas e reativas por sua conta, podem fazer frente à ameaça de infiltração do comunismo".

A utilização instrumental dos movimentos islamistas funcionais à estratégia atlântica não terminou com a retirada do Exército Vermelho do Afeganistão. O auspício do governo de Clinton ao separatismo bósnio e kosovar, o apoio estadounidense e britânico ao terrorismo wahabi no Cáucaso, o suporte oficial de Brzezinski aos movimentos armados fundamentalistas na Ásia Central, as intervenções em favor dos bandos subversivos na Líbia e na Síria, são episódios sucessivos de uma guerra contra a Eurásia, nas quais os EUA e seus aliados se valem da colaboração islamista.

O fundador de An-Nahda, Rachid Ghannouchi, que em 1991 recebeu os elogios do governo de George Bush pelo papel eficaz que desempenhou na mediação entre as facções afegãs anti-soviéticas, tratou de justificar o colaboracionismo islamista esboçando uma imagem quase idílica das relações entre EUA e o mundo islâmico. Um jornalista do "Fígaro" que lhe perguntou se os americanos lhe pareciam mais conciliadores que os europeus, o líder islamista tunisiano respondeu que sim, porque "não existe um passado colonial entre os países muçulmanos e os EUA, nada de Cruzadas, nada de guerra, nada de história"; e à evocação da luta comum dos estadounidenses e islamista contra o inimigo bolchevique, acrescentou a menção da contribuição inglesa.

A "Nobre Tradição Salafi"

O islamismo representado por Rachid Ghannouchi é aquele, segundo um orientalista, que "se vincula à nobre tradição salafi de Muhammad 'Abduh e que teve sua versão mais moderna na Irmandade Muçulmana".

Voltar ao Islã puro dos "antepassados piedosos" (as-salaf as-Salihin), fazendo tábula rasa da tradição emanada do Corão e da Sunna ao longo dos séculos: este é o programa da corrente reformista que tem seus fundadores no persa Jamal ad-Din al-Afghani (1838-1897) e seus discípulos, os mais importantes dos quais foram o egípcio Muhammad 'Abduh (1849-1905) e o sírio Muhammad Rashid Rida (1865-1935).

Al-Afghani, que em 1883 fundou a Associação dos Salafis, em 1878 foi iniciado na maçonaria em uma loja do Rito Escocês no Cairo. Ele aos intelectuais de seu entorno o ingresso na maçonaria, entre os quais está Muhammad 'Abduh, que, logo de ocupar uma série de altíssimos cargos, em 3 de junho de 1899 se converteu no Muftí do Egito, com o beneplácito dos ingleses.

"Eles são os aliados naturais do reformador ocidental, se merecem todo o estímulo e toda a sustentação que se pode dar": Este é o reconhecimento explícito de Muhammad 'Abduh e do indiano Sir Sayyid Ahmad Khan (1817-1889) que foi dado por Lord Cromer (1841-1917), um dos principais arquitetos do imperialismo britânico no mundo muçulmano. De fato, enquanto que Ahmad Khan afirmou que "o domínio britânico na Índia é a coisa mais bela que o mundo já havia visto", e asseverava em uma fatwa que "não era lícito se rebelar contra os ingleses, sempre e quando estes respeitassem a religião islâmica e permitissem aos muçulmanos praticar seu culto", Muhammad 'Abduh difundia no ambiente muçulmano as idéias racionalistas e cientificistas do Ocidente contemporâneo. 'Abduh argumentou que na civilização moderna não há nada que esteja em conflito com o verdadeiro Islã (identificava aos jinn com os micróbios e estava convencido de que a teoria da evolução de Darwin estava contida no Corão), daí a necessidade de revisar a corrigir a doutrina tradicional para submetê-la ao juízo da razão e aceitar as contribuições científicas e culturais do pensamento moderno.

Depois de 'Abduh, o líder da corrente salafi foi Rashid Rida que, após o desaparecimento do califado otomano, planejou a criação de um "partido islâmico progressista" com o objetivo de criar um novo califado. Em 1897, Rashid Rida fundou a revista "Al-Manar", a qual, difundida por todo o mundo árabe e em outras partes, se seguirá publicando depois de sua morte durante cinco anos por outro membro do reformismo islâmico: Hasan al-Banna (1906-1949), o fundador da Irmandade Muçulmana.

Porém, enquanto Rashid Rida teorizava o nascimento de um novo Estado islâmico destinado a governar a Ummah, na Península Arábica tomava forma o Reino da Arábia Saudita, onde existia outra doutrina reformista: o wahabismo.



A Seita Wahabi

A seita wahabi toma seu nome do sobrenome de Muhammad ibn 'Abd al-Wahhab (1703-1792), um árabe de Najd, da escola hanbalí, que se entusiasmou de imediato pelos escritos de um advogado literalista que viveu quatro séculos antes na Síria e no Egito, Taqi ad-din Ahmad inb Taymiyya (1263-1328). Partidário de obtusas interpretações antropomórficas sobre as imagens contidas na linguagem corânica, animado de um verdadeiro e próprio odium theologicum pelo sufismo; muitas vezes acusado de heterodoxia, Ibn Taymiyya merece a definição de "pai do movimento salafi através dos séculos" que lhe deu Henry Corbin. Seguindo suas pegadas, Ibn 'Abd al-Wahhab e seus partidários condenaram como manifestações de politeísmo (shirk) a fé na intercessão dos profetas e dos santos e, em geral, todos aqueles atos que, em sua opinião, equivaleriam a considerar como partícipes da onipotência divina e do querer divino a um ser humano ou a outra criatura, pelo que consideram politeísta (mushrik), com todas as consequências do caso, inclusive ao muçulmano devoto dedicado a invocar o Profeta Maomé ou por orar próximo à tumba de um santo. Os wahabis atacaram as cidades sagradas do Islã xiita, saquearam seus santuários, se apoderam em 1803-1804 de Meca e Medina, demoliram os monumentos sepulcrais dos santos e dos mártires, e inclusive profanaram a tumba do Profeta; colocaram fora da lei às organizações iniciáticas e seus ritos; aboliram a celebração do aniversário do Profeta; extorquiram aos peregrinos e suspenderam a peregrinação à Casa de Deus; promulgaram as proibições mais extravagantes.

Derrotados pelo exército que o soberano egípcio havia enviado contra eles após a exortação à Sublime Porta, os wahabis se dividiram entre as duas dinastias rivais, a de Saud e Rashid, e durante um século empenharam todas as suas energias na luta intestina que ensanguentou a península árabe; até que Ibn Saud ('Abd al-' Aziz ibn 'Abd ar-Rahman Al-Faisal Al Su'ud, 1882-1953) realizou realçou de novo a sorte da seita. Patrocinado pela Grã-Bretanha, que em 1915 é com o único Estado no mundo que estabeleceu relações oficiais, exercendo como um "quase protetorado" no Sultanato de Nejd, Ibn Saud logra ocupar Meca e Medina em 1925. Se converteu em "O Rei de Hiyaz e Nejd e suas dependências", de acordo com o título que em 1927 lhe foi reconhecido pelo Tratado de Yidah de 20 de maio de 1927, firmado com a primeira potência européia que reconheceu a nova formação estatal wahabi: a Grã-Bretanha.

"Suas vitórias - escreve um dos tantos orientalistas que cantou seus feitos - o converteram no governante mais poderoso da Arábia. Seus domínios fazem fronteira com Iraque, Palestina, Síria, o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico. Sua personalidade de destaque se afirmou com a criação da Ikhwan ou Irmandade: uma confraria de ativistas wahabis à que o inglês Philby denominou "uma nova maçonaria".

Se trata de Harry St. John Bridger Philby (1885-1960), o organizador da revolta árabe anti-otomana de 1915, que "havia ocupado na corte de Ibn Saud, o lugar do falecido Shakespeare" para citar a expressão hiperbólica de outro orientalista daquela época. Ele foi quem advogou perto de Winston Churchill, do rei Jorge V, do Barão Rothschild e de Chaim Weizmann pelo projeto de uma monarquia saudita que, usurpando a custódia dos Santos Lugares, tradicionalmente assignados à dinastia hachemita, unificará a Península Arábica e controlará em nome da Inglaterra, a via marítima Suez-Aden-Mumbai.

Com o final da Segunda Guerra Mundial, durante a qual a Arábia Saudita mantém uma neutralidade anglófila, ao patrocínio britânico se somará e logo será substituído o norteamericano. Em tal sentido, um evento antecipador e simbólico foi a reunião que teve lugar em 1 de março de 1945 sobre o Canal de Suez, a bordo do Quincy, entre o presidente Roosevelt e o soberano wahabi, que, como recordava orgulhosamente um arabista estadounidense, "sempre foi um grande admirador da América do Norte, que antepõe também a Inglaterra". De fato, já em 1933 a monarquia saudita havia dado em concessão à Standard Oil Company of California, o monopólio da exploração do petróleo, enquanto que em 1934 a companhia americana Saoudi Arabian Mining Syndicate havia obtido o monopólio da exploração e extração do ouro.

A Irmandade Muçulmana

Usurpada a custódia dos Santos Lugares e adquirido o prestígio associado a essa função, a Casa de Saud se percata da necessidade de dispor de uma "internacional" que lhe permita estender sua hegemonia sobre uma grande parte da comunidade muçulmana, com o fim de combater a difusão do pan-arabismo nasseriano, o nacional-socialismo baathista e- depois da revolução islâmica de 1978 no Irã - a influência xiita. A organização da Irmandade Muçulmana proporciona à política de Riad uma rede organizativa que tirará proveito dos substanciais financiamentos sauditas. "Depois de 1973, devido ao aumento dos lucros provenientes do petróleo, os meios econômicos não faltam; se investirá principalmente nas zonas onde um Islã pouco 'consolidada' poderia abrir a porta à influência iraniana, especialmente na África e na comunidade muçulmana emigrada no Ocidente".

Por outra parte, a sinergia entre a monarquia wahabi e o movimento fundado em 1928 pelo egípcio Hassan al-Banna (1906-1949) se baseia sobre um terreno doutrinário substancialmente comum, assim como a Irmandade Islâmica são os "herdeiros diretos, ainda que não sempre estritamente fiéis, da salafiyyah de Muhammad 'Abduh' e como tal leva inscrita em seu DNA desde seu nascimento a tendência a aceitar, inclusive com todas as reservas necessárias, a civilização ocidental moderna. Tariq Ramadan, neto de Hassan al-Banna e expoente da atual intelligentsia reformista muçulmana, interpreta dessa maneira o pensamento do fundador da organização: "Como todos os reformadores que lhe precederam, Hassan al-Banna nunca demonizou o Ocidente. (...) o Ocidente permitiu à humanidade dar grandes passos adiante e isso sucedeu desde a Renascença, quando se iniciou um vasto processo de secularização ('que foi uma contribuição positiva', tendo em conta a especificidade da religião cristã e da instituição clerical)". O intelectual reformista recorda que seu avô, em sua atividade de mestre de escola, se inspirava nas mais recentes teorias pedagógicas ocidentais e nos remete a um extrato eloquente de seus escritos: "Devemos nos inspirar nas escolas ocidentais, em seus programas (...) Também devemos tomar das escolas ocidentais e de seus programas o constante interesse pela educação moderna e sua forma de afrontar a exigência e preparação para a aprendizagem, fundados sobre métodos firmes extraídos de estudos sobre a personalidade e natureza da criança (...) Devemos nos aproveitar de tudo isso sem sentir nenhuma vergonha: a ciência é um direito de todos (...)".

Com a assim chamada "primavera árabe", se manifestou de maneira oficial a disponibilidade da Irmandade Muçulmana para aceitar os cimentos ideológicos da cultura política ocidental, que Huntington assinala como termos fundamentais para a oposição ao Islã. Na Líbia, Tunísia, Egito, a Irmandade tem desfrutado do patrocínio dos Estados Unidos.

O partido egípcio Liberdade e Justiça, constituído em 30 de abril de 2011 por iniciativa da Irmandade e controlado por ela, se aferra aos "direitos humanos", propugna a democracia, apoia uma gestão capitalista da economia, não é contrária a aceitar empréstimos do FMI. Seu presidente Mohammed Morsi (nascido em 1951), atual presidente do Egito, estudou nos EUA, onde também trabalhou como professor assistente na California State University; dois de seus cinco filhos são cidadãos estadounidenses. O novo presidente de repente declarou que o Egito respeitará todos os tratados celebrados com outros países (portanto também com Israel); realizou sua primeira visita oficial à Arábia Saudita e declarou que reforçará as relações com Riad; declarou também que é um "dever ético" sustentar o movimento de oposição armada que luta contra o governo de Damasco.

Se a tese de Huntington tinha necessidade de uma demonstração, a Irmandade Muçulmana a proporcionou.