sexta-feira, 31 de maio de 2013

Aleksandr Dugin - Rússia, a Pátria do Arcanjo

por Aleksandr Dugin


Missões dos povos

Desde o ponto de vista da Tradição nada nesse mundo perecível é aleatório, espontâneo, surgindo, existindo e desaparecendo segundo o capricho de circunstâncias caóticas ou pelo jogo de forças cegas. A Tradição vê a história da humanidade, a história do cosmo, a história do Ser como um processo significativo e providencial onde cada ponto do espaço e do tempo, cada elemento do universo desempenha uma função especial, porta o selo sagrado da Necessidade Sacral. Isso é verdadeiro para todos os aspectos naturais e culturais da história já que não há linha divisória entre artificial e natural, humano e miraculoso na esfera do sagrado. As criações humanas são seu próprio produto na mesma medida em que são criações da natureza. O Espírito Santo está fazendo a história do Ser através das pessoas e através dos elementos da natureza.

Qualquer história é uma história sagrada. Mas a humanidade é um aspecto subjetivo do sacral já que foi encarregada da missão misteriosa da implementação providencial do pensamento de Deus, seu plano sagrado na Terra. Porém, a história sagrada da humanidade é especificada pela sua divisão em diferentes povos. Precisamente os povos são os sujeitos principais da história. Dentro deles, sua diversidade, sua diferença, sua singularidade, em seus gestos e suas tragédias há um conteúdo de drama divino. Povos e seus destinos são capítulos do livro do Espírito Santo.

Cada povo possui sua missão, possui suas causas profundas para existir em um dado período espaço-temporal, e não em outro. Há para cada povo as causas para realizar atos específicos, para aparecer e desaparecer em certo momento da história. O fato de que povos cumprem missões específicas não é uma afirmação infundada e desprovida de fundamento de uma única escola histórico-filosófica. Qualquer religião, qualquer tradição sacral se refere a um povo exatamente dessa maneira. Um povo é um símbolo, a corporificação de uma ou de outra idéia sacral, de uma ou de outra essência celestial. No mundo cristão se pode tomar uma decisão sobre a missão dos povos com base no Antigo e Novo Testamento com uma interpretação ortodoxa compatível com a tradição antiga. A divisão em povos no Hinduísmo é considerada como uma expressão múltipla de um princípio divino unificado. Na verdade, tradições antigas pré-abraâmicas e não-abraâmicas viam a corporificação de uma ou de outra divindade em cada povo, sua expressão histórica e subjetiva. Guerras e armistícios, confrontos e discrepâncias, conquistas e lutas por independência, ascensões heróicas e quedas sem fim de povos históricos são a extensão humana de grandes mistérios celestes (ou infernais) preter-humanos. É justo dizer que a essência misteriosa de cada povo equivale a algum caráter super-humano, arcangélico, se funde com ele em sua profundidade, em sua clareza e pureza absoluta. Em todo, um povo é uma forma específica de epifania, teofania.

Nosso mundo moderno é indubitavelmente uma anomalia na corrente de ciclos sagrados (o hinduísmo, por exemplo, diz que vivemos no fim da Kali Yuga, Idade do Ferro, que exatamente se equipara à doutrina cristão sobre a vinda do Salvador logo antes do fim do mundo), não obstante, ele não pode privar completamente os povos de suas missões sagradas. Essa missão passa até mesmo pelas formas mais mecânicas, profanas e materialistas infligidas pela civilização moderna anti-sacral. Mesmo que seja temporariamente possível suprimir, forçar as energias de povos portadores do Divino ao controle horrendo de utopias sócio-econômicas, mais cedo ou mais tarde essas forças despertam, rompendo os grilhões e varrendo as quimeras do "admirável mundo novo" em uma explosão apaixonada de criação histórica. Os povos continuam a cumprir sua missão mesmo quando externamente parecem ter se dissolvido no reino da quantidade, morrendo no abismo anti-espiritual da civilização anti-natural industrial ou tecnotrônica. De outro modo, eles perderiam o sentido de sua existência.

A Religião da Rússia

O povo russo pode ser o exemplo mais convincente do fato de que o significado de "povo" em sentido profundo não pode ser atribuído aos conceitos modernos de "etnia", "nação", "Estado", etc. Não sem razão todos os pesquisadores se assombram com o fato de que "nacionalismo" de qualquer forma é algo historicamente ausente ou marginal na Rússia. Por razão de marginalidade nós não levamos em consideração imitações artificiais e periféricas de "nacionalismos" europeus por russos. O fato é que os russos percebem sua etnia diretamente como um fator religioso que ultrapassa essas instâncias - nação, cidadania, etc. - que são necessariamente presentes e dominam em outros povos. Os russos percebem sua identidade nacional como uma confissão. O misticismo étnico especial para nós quase não é conectado ao sangue. Mais provavelmente, o gigantesco e vasto espaço russo serve como expressão de nossa auto-consciência étnica. Ser russo significa pertencer a uma religião misteriosa especial que delineia a infinitude das fronteiras russas.

A peculiaridade de tal relação com o povo - e acima de tudo a ausência de elementos intermediários entre o instinto étnico direto e a dimensão metafísica - claramente aponta para a singularidade da missão sacral do povo russo como parte da história sagrada. Se o povo russo percebe seu destino misterioso de modo tão incomum, tão intenso, tão atento então esse destino deve realmente possuir alguma singularidade metafísica, algum significado incomum, relevante. Quase todos os pensadores e teólogos ortodoxos russos, todos os pintores e filósofos russos tem se proposto essa questão sobre o segredo misterioso da Rússia, sobre sua mística indizível e supra-racional.  O staretz Philothey formulou essa singularidade ao nível cristão no conceito ortodoxo de "Moscou - a Terceira Roma". A nível estatal ela foi incorporada no Império continental. O gênio grandioso e destrutivo russo se mostrou na cultura. Porém, nós não temos a última resposta metafísica, a última equação sacral da "religião russa". Talvez haja um tempo para tentar expressar o "sacramento da Rússia" em termos metafísicos porque o caminho glorioso e pesaroso do povo russo, um grande povo inspirado por Deus, em muitas maneiras está chegando ao seu ponto de culminação, à última realização escatológica e soteriológica. Os sinais dos tempos estão claramente nos contando isso.

A Equação da Alma - O Anjo Púrpura

O autor islâmico sufi/xiita Sheikh al-Ishraq Shihaboddin Suhrawardi formulou em seus textos as bases da geografia sagrada mostrando a correlação de conceitos geográficos de Oriente e Ocidente com o significado do Oriente e Ocidente metafísicos. Talvez, para compreender o mistério da Rússia, deve-se fazer referência a essa doutrina, portando as mais importantes conexões espirituais.

Para Suhrawardi o Ocidente é um "lugar de fontes negras", "terra do exílio". A capital do Ocidente é a cidade de "Kayravan", "cidade do Mal", "cidade dos opressores e aprisionadores". Desde um ponto de vista simbólico, uma jornada ao Ocidente é uma "descida à prisão" onde os "guardas" mantém os estranhos no "porão escuro e úmido de um sinistro castelo".

O Oriente é o mundo da Fonte, o mundo da Causa Primeira. No centro do Oriente está a "Montanha Esmeralda" onde o Arcanjo Púrpura reside, possuindo uma asa branca e uma asa negra. O Oriente é a pátria da alma.

Porém, segundo Suhrawardi, a jornada a Kayravan, a capital do Ocidente, a descida por suas fontes é necessária para inflamar de desejo o retorno ao Oriente, para compreender e apreciar a grandeza da Alma do Mundo.

A doutrina de Suhrawardi se aplica não apenas ao nível vertical, onde o Ocidente é o símbolo do mundo corpóreo, e o Oriente do mundo espiritual. Em termos de Tradição, a realidade geográfica é em si uma reflexão da estrutura sagrada do Ser, e portanto as regiões ocidentais do continente são propensas a servirem como manifestação do Ocidente metafísico, como prisão para a alma, "fontes negras do exílio".

A Rússia como realidade sacro-geográfica indubitavelmente pertence ao Oriente.

É importante notar que muitas vezes patriotas russos tem tido consciência da singularidade da sacralidade russa mais claramente logo após visitarem os países ocidentais, após a compreensão de sua ausência de graça, de sua "natureza prisional", sua inferioridade metafísica. O reconhecimento do Arcanjo púrpura da Rússia via de regra começa após o retorno do "exílio ocidental". Então a santa pátria dos russos se expõe como pátria do arcanjo, como o Oriente do espírito, como o retorno à origem espiritual. É simbólico que Shatov em "Demônios" de Dostoiévski formulou sua idéia dos russos como povo portador de Deus (bodonosnyi narod) logo após voltar do Ocidente.

Porém, a Rússia é diferente de outras regiões sagradas do Oriente muito mais do que elas diferem entre si. Uma das principais características da Rússia é que formas metafísicas puramente espirituais, complexas e sofisticadas, como nos países do Oriente não-russo (o Oriente islâmico, taoísta, budista ou hindu), não se desenvolveram aqui. Portanto, a Rússia, desde o ponto de vista da geografia sagrada não se remete nem ao Ocidente "materialista racional" nem ao Oriente "metafísico espiritual". Deve-se assumir que a Rússia e os russos são a encarnação da alma do mundo, Anima Mundo. Isso explicaria imediatamente porque é dito sobre os russos que eles são "uma conjunção entre animal e anjo": de fato, uma fera e um anjo são expressões de dois aspectos do escopo de uma grande alma.

A Rússia é um lugar de graça direta que transcende as fronteiras da existência corpórea mas não ainda transfigurada pelo Logos intermediário, ou ingressa no campo da benção direta suprarracional em seu estado indiferenciado, abundante, superconcentrado. A Rússia é o armazém da "água da vida" distribuída para todos sem medida e lógica, despejada sobre digno e indigno, dada não por mérito, mas por excesso. A Rússia é a província do Arcanjo púrpura.

Segundo Suhrawardi o país do Oriente e o lugar da residência do Arcanjo púrpura é localizada precisamente no centro do mundo, no mundo da alma, onde a dualidade ainda não foi retirada (as duas asas do Arcanjo), como na unidade superior do céu puramente espiritual, mas onde a multiplicidade material do "reino ocidental da quantidade" já havia sido derrotada. A cor verde da montanha Qaf nas descrições do país do Oriente também apontam para o fato de que esta é uma busca pelo centro do mundo (segundo o simbolismo tradicional das cores).

O Caminho para o Oriente é o caminho para a Rússia e passa pela Rússia. É impossível chegar ao espírito passando pelo mundo da alma (Malakut). A unidade não pode ser encontrada sem se encontrar com o Arcanjo no topo da montanha esmeralda. Não se pode chegar à eternidade sem ter bebido da água da vida, da água da graça russa, o suco invisível da Rússia, doador de imortalidade.

Katechon

O mistério russo também possui sua forma externa. Este é o grande Império Russo. Segundo as origens religiosas das tradições cristãs, o Império possui em si mesmo um significado sagrado. Ademais, as doutrinas fundamentais da escatologia cristã, baseadas nas palavras do Apóstolo São Paulo na Segunda Mensagem aos Tessalonicenses (2, 1-17), tem, segundo a lenda, uma relação muito direta com o Império. O Império Russo, a Terceira Roma - o último dos Impérios. Logicamente, isto está no coração de toda a interpretação do Apóstolo sobre o fim do mundo.

São Paulo diz: "Pois o poder secreto da iniquidade já está em ação; mas aquele que o detém continuará a fazê-lo até que seja retirado do caminho". (II Tessalonicenses, 2.7). "Aquele que detém", em grego é "katechon", é interpretado pelos teólogos ortodoxos (por exemplo João Crisóstomo) como uma alusão ao Sacro Império, o Império Cristão. Segundo o ensinamento ortodoxo, sob "katechon", "o detenedor" (após a queda de Constantinopla) se deve entender Rússia, Moscou, a Terceira Roma, a Última Roma.

O Arcanjo Russo, cuja expressão externa são as fronteiras russas e cujo conteúdo interno é a comunidade religiosa da teoforia russa (povo portador de Deus), é o último obstáculo para o "filho da abominação". Esta é a missão escatológica da Rússia, que, mesmo sob a bandeira vermelha, sob o jugo de doutrinas materialistas fabricadas por "guardadores de poços do Ocidente", não obstante protegeu a humanidade da última fase de sua história. Mesmo a besta vermelha do comunismo era precisamente uma besta do Oriente, um sorriso monstruoso das camadas mais baixas da alma, mas era a alma, viva, vibrante, apaixonada, profunda, untada pelo mistério russo, pela graça russa, tendo bebido o líquido vivo da ressurreição. Porém, em comparação com o grande sofrimento russo, com o sofrimento do Arcanjo, "com o sofrimento do Oriente", mesmo o bem-estar e a prosperidade dos "poços ocidentais" é uma tortura insuportável pelo menos para aqueles que são untados com o espírito vivificador da Rússia, que são mordidos por sua tristeza luminífera e sua alegria sombria. Enquanto houver Rússia, há Igreja, há fé, há vida. Enquanto houver Rússia, há "aquele que o detém continuará a fazê-lo até que seja retirado do caminho". Enquanto houver Rússia, o "katechon" da alma mantém o "filho da abominação" longe de realizar o último ato escatológico maligno, não haverá chance para o Anticristo começar seu sermão fétido, um sermão de "conforto e bem-estar dominando no fundo dos poços do exílio ocidental".

A divisão que se dá na Rússia hoje está além das preferências políticas, ideológicas e filosóficas aleatórias. Pela primeira e talvez última vez na história russa, a missão do povo russo, a grande missão da alma do mundo, está posta na cristalina equação escatológica. Ser leal ao mistério russo, à igreja russa, ao destino russo significa estar ao lado "daquele que detém", ao lado do Império, do grande Império continental russo, que deve se expandir às fronteiras naturais da terra eurasiana, não de modo a tomar, comprar, conquistar, fazer servir, mas para salvar, para dar, para derramar a graça da alma mundial, para ser como um Cristo "o servo de seus servos", para guardar, para ajudar, para libertar, para não dar chance de que "o mistério da iniquidade acontece antes do tempo". Aqueles que abandonam e traem a Rússia hoje - com uma aparência patética, tão pobres, tão despossuídos, tão humilhados, ridicularizados, miseráveis - abandonam e traem o céu, abandonam e traem a pátria do espírito, abandonam e traem a si mesmos. Seu destino - as águas da morte, os porões de Kayravan, a capital do Ocidente, a sina maldita de servir ao "filho da morte". Aqueles que buscam entrar no Oriente, passando ao largo da Rússia, ainda assim chegarão ao Ocidente, mesmo que se encontrem na Turquia ou Índia, na China ou no Japão. A geografia sagrada possui sua própria lógica inexorável, e não se pode saltar um único degrau sem ser punido.

O Deus da Rússia

"A apostasia veio ao mundo, mas ai daqueles através dos quais ela vem", disse o Evangelho. O destino russo desde o início dos tempos tem levado o fardo da tragédia atual, "recuo, partido do katechon", a fuga do Arcanjo púrpura. Mas que terrível fim terá a ingenuidade estúpida e demasiado humana daqueles que hoje dão chutes ao corpo russo, ao corpo da "besta e do anjo". A Rússia hoje confia nas almas dos outros povos, a Rússia prova nações e continentes, a Rússia as lidera rumo à fileira dos justos.

Mas logo a donzela solar do Império abandonará sua cobertura, com fogo - derramará a graça luminosa do Arcanjo sobre os fiéis e um fogo descerá "morno", cuspido pela boca do Salvador, porque ele não era "nem frio nem quente".

A luz do Oriente é a luz da Rússia. A Igreja sabe que a ausência do "katechon", o anjo da Terceira Roma, será muito, muito breve". "Que sejam todos eles malditos os que não acreditaram na verdade, mas se regojizaram na iniquidade" (II Tessalonicenses 2.12).

Nós sabemos que Seu julgamento é um julgamento justo. Nós sabemos que a Rússia "não é desse mundo". Nós sabemos Quem conquistou o mundo e Aquele cuja terrível vinda em glória porá um fim ao fim.

Cristo, o sol do mundo, nosso verdadeiro Deus, "o Deus da Rússia".

terça-feira, 28 de maio de 2013

Felix Aleman - Multipolarismo e Globalismo: As duas Cosmovisões geopolíticas e seus contextos espirituais

por Felix Aleman



Durante a chamada Guerra Fria, nós vivemos em um mundo bipolar. Ao menos, é isso que a maioria das pessoas pensa. Mas quão bipolar ele realmente era? Havia duas superpotências (EUA e União Soviética), com suas respectivas áreas geopolíticas de influência (Oeste e Leste), tentando controlar os recursos mundiais e a população mundial, e competindo um com o outro.

Na realidade, esse sistema bipolar foi um experimento. O Oeste ("americano") e o Leste ("soviético") não eram (desde a morte de Stálin) realmente inimigos, mas dois sistemas trabalhando como instrumentos a serviço dos mesmos mestres. Os globalistas controlando a ambos, estavam tentando ver qual dos dois sistemas funcionava "melhor" (melhor para eles, óbvio) de modo a alcançar seu objetivo final; a total dominação mundial após a destruição de um mundo multipolar natural e de uma ordem pluricultural (de nações soberanas), baseada em comunidades orgânicas.

Sabendo disso, não é mais surpreendente ver quantos dos principais globalistas atuais (Wolfowitz, Podhoretz, etc) servindo como propagandistas de guerra para o imperialismo de Washington, são ex-comunistas do ramo trotskista.

Durante quatro décadas esses dois sistemas foram postos para trabalhar. Ambos eram internacionalistas. O comunismo marxista chama a si mesmo internacionalista, e o capitalismo financeiro, baseado no poder do dinheiro, é indubitavelmente internacional também, porque os capitalistas não conhecem fronteiras...e porque o dinheiro não tem pátria.

Os Estados em que o polvo liberal do capitalismo foi implementado, deram (e dão) aos cidadãos a ilusão da "democracia" (poder do povo), a ilusão de que eles estão realmente escolhendo seus representantes. A maioria das pessoas que vive no "Primeiro Mundo" acredita nisso até mesmo hoje, quando tudo se torna mais e mais orwelliano, e nossos políticos supostamente democráticos demonstram sua verdadeira natureza de marionetes. Mas no sistema capitalista, onde graças à usura bancária o dinheiro pode surgir a partir do nada, o poder não está nas mãos do povo, mas nas mãos daqueles que controlam o dinheiro... e o dinheiro não é democrático.

Por outro lado, em muitos países comunistas, um fenômeno bastante interessante ocorreu: o comunismo marxista ortodoxo, sendo anti-tradicional e ateísta; bem como globalista e internacionalista (possuindo a mesma natureza materialista e octópode que o capitalismo), começou a se desenvolver de maneiras diferentes em cada país, fundindo o sistema econômico socialista com o caráter de cada nação, da comunidade orgânica em que havia tomado o poder. (Isso não aconteceu nos países capitalistas, que estavam e ainda estão sob uma extrema lavagem cerebral e sob um imenso imperialismo cultural e social vindo dos EUA: com elementos subversivos tais como Hollywood, a mídia de massa, a destruição da própria língua, da própria herança, etc).

Isso era algo muito natural: o comunismo se adaptava em cada país, o comunismo era absorvido em cada país, e não o contrário, como havia sido originalmente planejado pelos globalistas, que queriam implementar um sistema ditatorial desenraizado, frio e antinatural sobre o mundo.

O racha interno do comunismo começou já com a disputa de poder entre Stálin - que era mais orientado à nação - e Trótski - que pregava um comunismo globalista sem fronteira com sua "revolução permanente"). Assim, por exemplo, na Coréia do Norte, o comunismo se fundiu com as antigas tradições coreanas com sua rica cultura, e sua idiossincrasia nacional, e o líder Kim Il Sung desenvolveu a ideologia Juche; um tipo de socialismo tipicamente coreano. Na Romênia Nicolae Ceausescu foi um grande admirador dos heróis nacionais do passado glorioso da Idade Média.

Dessa forma, o que originalmente era um sistema frio e desalmado objetivando destruir os valores tradicionais como "reacionários", uma vez implementado em um país específico era absorvido pela idiossincrasia nacional assumindo suas tradições como um modo de resistência.

Há um paralelismo interessante com o cristianismo. Muitos consideram o cristianismo um tipo antigo de comunismo, e há alguma verdade nisso. Quando o cristianismo chegou ao poder em Roma, durante os primeiros séculos eles proibiram todas as outras religiões, as pagãs, no Império e impuseram a sua com dogmatismo e violência sobre todos. Eles eram globalistas e universalistas antigos. Mas após algum tempo, o cristianismo foi absorvido nas nações, e se desenvolveu diferentemente em cada parte do mundo, algumas vezes incluindo sincretismo com a velha Tradição. Isso pode ser observado no ramo ortodoxo do cristianismo e suas igrejas nacionais: Há um Patriarca grego, o sérvio, o russo, e daí em diante. No caso russo, o Czar é o Chefe de Estado, e da Igreja, isso sendo equivalente à religião tradicional japonesa Shinto, onde o Tenno - o Imperador - era ao mesmo tempo líder nacional e religioso.

Esse mesmo fenômeno aconteceu com o Islã; há um provérbio iraniano que diz que "o Islã não conquistou a Pérsia, mas a Pérsia conquistou o Islã". O Zoroastrianismo e o Mazdeísmo tiveram um importante papel em moldar a corrente xiísta persa. E na atual República Islâmica do Irã, há um Supremo Líder (Aiatolá Khamenei, que é também líder religioso e nacional ao mesmo tempo). Também o Califa Otomano no passado recente ou o Imperador Romano no passado distante.

O fato de que o comunismo (como o cristianismo no passado) estava se desenvolvendo em cada lugar segundo suas tradições era muito perigoso para os globalistas (trotskistas tanto quanto liberais). Assim, a tendência do nacional-comunismo tinha que ser detida.

É por isso que eles decidiram suprimir o "lado oriental", pôr um fim à Guerra Fria e à bipolaridade; e usando de agora em diante apenas o sistema capitalista liberal como o único aceitável. A URSS e os países do pacto de Varsóvia foram um experimento, e eles não eram mais úteis, porque os "mestres" por trás das cenas perceberam que era o sistema capitalista que melhor servia a seus objetivos.

Esse foi o nascimento da "Nova Ordem Mundial" proclamada pelo Bush pai, esperando que com o colapso da URSS, a Rússia e as outras nações eurasianas estariam privadas de soberania nacional e seriam escravizadas pelo liberalismo. Durante a década de 90, Gorbachov e Yeltsin, toleraram e fomentaram o saque da riqueza russa pelos oligarcas e pela finança internacional. Mas com o início do novo século, a soberania nacional começou a ser restaurada pelo Presidente Putin. É por isso que ele é difamado no Ocidente, com epítetos como "autoritário", "ditador", etc.



A liberdade oferecida pelo liberalismo poderia ser sucintamente explicada como segue: Ela oferece a escolha entre coca-cola e pepsi, ou entre McDonalds e Burger King. Não é nada mais que consumismo, puro materialismo, onde o lucro é tudo que importa.

Todos os países que não queriam ser governados por esse sistema supostamente democrático, ou não queriam colaborar com ela, eram os poucos países comunistas remanescentes como Cuba e Coréia do Norte e os de Terceira Via, como a Iugoslávia, Iraque, Líbia ou Síria. Os globalistas decidiram que eles tinham que ser derrubados, um por um. Em primeiro lugar esses países deveriam ser midiaticamente demonizados (o conceito de "eixo do mal" foi popularizado nesse contexto), ameaçados e eventualmente, como último recurso, destruídos por guerras em nome da liberdade e da democracia.

No caso particular da Síria, um fato que não é tão conhecido é que antes da crise começar, o Presidente Assad planejava construir a "Estratégia dos Quatro Mares", para transformar sua nação em um centro de comércio entre o Mar Negro, o Mar Mediterrâneo, o Mar Arábico/Golfo Pérsico e o Mar Cáspio. Como um país soberano com uma moeda estável e um banco nacional não controlado pelos Rothschilds, isso poderia tornar a Síria uma intersecção geopolítica bastante poderosa. E na Líbia, aliás, Gaddafi tentou introduzir o dinar de ouro, e isso teria sido um verdadeiro golpe contra a fantasiosa economia internacional baseada no dólar.

O Retorno aos Tempos da Bipolaridade

Esses dois sistemas globalistas, usados pelos EUA e seus aliados (o assim chamado "mundo livre") por um lado e pelos soviéticos e os seus do outro; eram respectivamente, como sabemos, o capitalismo e o comunismo. Ambas essas ideologias não são opostas como muitos acreditam, mas "irmãos de sangue" vindo da mesma origem, da mesma cosmovisão materialista, que é linear e acredita que o progresso é infinito, sem perceber que os recursos naturais do mundo não são infinitos.

Para por em outras palavras: o capitalismo e o comunismo são duas faces da mesma moeda.

Voltando ao paralelismo espiritual; também é possível afirmar que o comunismo era a resposta ao capitalismo no século XIX como o cristianismo foi a resposta ao judaísmo no século I.

O judaísmo é uma religião étnica. Eles se consideram o Povo Eleito, e esse conceito se desenvolveu negativamente em alguns ramos do judaísmo, sendo utilizado como um sentimento de superioridade racista e como direito divino de governar opressivamente todos aqueles que não pertenciam a sua religião étnica, os goyim. Jesus veio para redimir os judeus dessa aberração, e por isso ele foi morto pelos fariseus, como os profetas antes dele. O sionismo é uma versão contemporânea do fariseísmo. Após isso, Paulo tentou ampliar a mensagem do judaísmo (de que há um Deus absolutista, um Criador separado da criação, que o recompensará se você o obedecer e o punirá se não o fizer) para todos os povos no Império Romano, criando ou inventando, (com os ensinamentos de Cristo) um "judaísmo para os gentios". Karl Marx pode ser visto como o São Paulo do século XIX; ensinando a necessidade da riqueza econômica para todos, e não apenas para a "elite" dos capitalistas.

A diferença entre o judaísmo e as outras religiões étnicas (pagãs) da Antiguidade, é que o judaísmo é a primeira religião (das que ainda existem hoje) que se considera a verdade absoluta, e que todos os outros caminhos espirituais estariam errados, todos os outros caminhos à Tradição seriam besteira. Ele se desenvolveu a partir do henoteísmo (acreditando que Jeová era o deus mais poderoso, mas que também existiam outros deuses de outros povos) em direção a uma submissão monoteísta ciumenta a Jeová como Deus único. Posteriormente, essa particularidade foi "herdada" também pelo cristianismo e pelo islamismo, mas apenas em certa medida. Porque como o comunismo na modernidade sócioeconômica, o cristianismo e o islamismo se adaptaram aos diferentes países pelos quais passaram, pela Europa, Oriente Médio, Ásia, África e depois Américas).

No cristianismo, duas correntes diferentes se desenvolveram na Idade Média européia: os guelfos e os guibelinos. Os primeiros apoiavam o Vaticano e o Papa incondicionalmente, sendo religiosamente muito dogmáticos e intolerantes; enquanto os guibelinos eram mais voltados para a nação, e apoiavam a multipolaridade, sob o mando de um Rei ou Imperador, que deveria se tornar um líder simbólico religioso e nacional. Há um paralelismo com o comunismo aqui também, e nós poderíamos ver Stálin como o Guibelino e Trótski como o Guelfo.

Em relação a Imperium e imperialismo, esses são dois conceitos muito diferentes e na verdade opostos. Enquanto o Imperium integra, compondo uma unidade continental de natureza telurocrática que respeita cada cultura dos diferentes povos dentro dela; o imperialismo é uma paródia mercantil moderna sem fronteiras de qualquer tipo, com a única "pátria" sendo o dinheiro; e ela não compõe ou integra, mas ao contrário, impõe e desintegra, dividindo e conquistando, por força ou ilusão, considerando a si como único sistema possível; ou a "verdade absoluta".

Atualmente, após a Guerra Fria, há apenas um imperialismo, internacional e mercantilista, que é também conhecido como globalismo, ou sionismo (farisaísmo moderno).

Esse imperialismo está se tornando mais poderoso e destrutivo a cada dia, porque as massas não percebem qual é o perigo real, e quem são os inimigos verdadeiros. A plutocracia e a usura (capitalismo) são os instrumentos desse sistema; que para ser efetivo, trabalha para idiotizar as massas (com a mídia de massa, TV, filmes hollywoodianos, etc.), e para separá-las (por exemplo sunitas vs xiitas no mundo islâmico, ou cristãos vs muçulmanos nos Balcãs; mas também homens vs mulheres em nossas sociedades ocidentais já seculares, ou filhos vs pais).

Na geopolítica, há duas correntes permanentemente combatendo uma a outra: Atlantismo ou talassocracia (representada pela Grã-Bretanha & França no passado colonial; e atualmente principalmente pelos EUA); e Continentalismo ou telurocracia; que é o conceito eurasiano, e costumava ser representado pelos Impérios Centrais no passado, e hoje em dia principalmente por uma nova Rússia em ascensão.

O atlantismo é um sistema geopolítico globalista, que através do comércio - liberalismo - deseja eventualmente impor seu sistema sobre todo o mundo - porque, como dissemos antes, crê ser a única verdade; o único sistema válido. O continentalismo, por outro lado, crê em uma cosmovisão multipolar, não em uma unipolar globalista; mas em um sistema multipolar com diferentes blocos de poder, cada um com sua própria área de influência.

Um desses blocos de poder seria a Eurásia desde as Canárias até Vladivostok. Outro, por exemplo o mundo árabe (Nasser e a ideologia Baath no Iraque e na Síria), outro uma América Latina unida (Perón e Chávez seguiam essa idéia). E também a América do Norte, porque os EUA é uma potência bioceânica e continental, que possui recursos naturais suficientes para si e não necessita pilhar os recursos (petróleo, gás...) de países soberanos estrangeiros há milhares de quilômetros de distância sob o falso pretexto da "democracia", e impor sua cosmovisão sócioeconômica (a globalista), que é considerada por seus políticos marionetes não só a mais desejável, ou mais aceitável, mas a única possível, a "verdade absoluta".

Esse é o dogmatismo secular da Kali Yuga.

O continentalismo representa autarquia, soberania plena. Autossuficiência, independência real. Para conservar as fronteiras tradicionais com a natureza, espiritualidade, família e nação. O atlantismo, ao contrário, necessita da importação-exportação para sobreviver. Assim, ele representa o mercantilismo, e está ligado ao materialismo, ao mammonismo. E este é um criadouro perigoso para a prática da especulação financeira e para a prática demoníaca da criação do dinheiro a partir do nada; que escraviza todos os povos pela usura.

O continentalismo deseja relações amistosas entre todos os povos e nações. A integração territorial e política deve ser feita por mútua aprovação, e trocas culturais são bem vindas e desejáveis; mas sem interferência em questões internas. O atlantismo, que é controlado por uma "elite" parasita de banqueiros, precisa invadir e saquear nações estrangeiras para sobreviver, porque isso está em plena consonância com sua natureza parasitária.

É importante apontar,como Parvulesco disse, que nós não devemos integrar a Rússia na União Européia, mas integrar a União Européia na Rússia (que apesar da ruína da década de 90, continua mantendo sua idiossincracia nacional quase intacta, o que não se pode dizer do Ocidente).

A idéias imperiais do geopolítico alemão Karl Haushofer, trabalhando para um eixo eurasiano Berlim-Moscou-Tóquio, devem ser estudadas, difundidas e desenvolvidas de modo a combater a tese imperialista da Esfera Angloamericana-Sionista (Atlantismo), que sempre tenta sabotar as rodas comerciais terrestres tradicionais da Eurásia e dividir os povos eurasianos colocando-os uns contra os outros em bases confessionais ou usando o assim chamado "terrorismo islâmico" (em realidade, terrorismo saudita wahhabi criado pela CIA) como Cavalo de Tróia com a criação da "Al Qaeda" como instrumento útil contra a soberania nacional e a independência, como vimos na Iugoslávia, Chechênia, Líbia ou Síria.

Para concluir: Multipolarismo e Globalismo são os únicos sistemas antagônicos reais lutando um contra o outro, e NÃO capitalismo e comunismo, que foram inventados como distração e ilusão.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Entrevista de Alain de Benoist sobre Dominique Venner

por Nicholas Gauthier




Alain de Benoist, você conhecia Dominique Venner desde 1962. Além da pena e do desgosto, você se surpreendeu com seu gesto? Apesar de ele ter faz tempo renunciado à política, este gesto é coerente com a sua vida, com sua luta política?

Me desagradam sobretudo certos comentários. "Suicídio de um ex-membro da OAS", escrevem uns; outros falam de uma "figura da extrema-direita", de um "violento opositor do matrimônio gay" ou de um "islamofóbico". Sem contar os insultos de Frigide Barjot, que revelou sua verdadeira natureza, cuspindo sobre um cadáver. Esta gente não sabe nada de Dominique Venner. Não leram nunca uma linha sua (entre outros cinquenta livros e centenas de artigos). Ignoram mesmo que, após uma juventude agitada - que ele mesmo detalhou em Le cœur rebelle (1994), que está entre suas melhores obras -, ele tinha já renunciado a toda forma de ação política faz quase meio século. Exatamente em 02 de Julho de 1967. De fato, eu estava presente quando ele comunicou sua posição. A partir daí Dominique Venner se dedicou à escrita, primeiro com livros sobre a caça e sobre armas (no assunto, era um reconhecido especialista), depois com ensaios históricos cintilantes pelo estilo e o mais das vezes competentes. Tinha fundado, depois, a Nouvelle Revue d'Histoire, publicação bimestral de alta qualidade.

O seu suicídio não me surpreendeu. Fazia tempo que sabia que Dominique Venner - baseado no exemplo dos antigos Romanos e também de Cioran, para citar somente ele - admirava a morte voluntária. A julgava a mais de acordo com a ética da Honra. Lembrava Yukio Mishima e não por acaso o seu próximo livro, que no mês que vem será publicado por Pierre-Guillaume de Roux, se chamará Un Samouraï d'Occident. Desde já se pode avaliar o caráter de testamento. Portanto, esta morte exemplar não me surpreende. Me supreendem o momento e o lugar.

Dominique Venner não tinha "fobias". Não cultivava qualquer extremismo. Era um homem atento e reservado. Com os anos, o jovem ativista da época da guerra da Argélia se transformou em um historiador meditativo. Sublinhava fortemente o quanto a história é sempre imprevisível e em aberto. Nos mostrava motivo para não ter desespero; de fato, refutava toda forma de fatalismo. Mas era acima de tudo um homem de estilo. Por isto que o que mais apreciava nas pessoas era a tenacidade. Em 2009 tinha escrito um belo ensaio sobre Ernst Jünger, explicando sua admiração pelo autor de Nos Penhascos de Mármore através de sua tenacidade. No seu universo interior não havia lugar para os cancãs, para o escárnio, para as disputas de uma política politiqueira que justamente desprezava. Por isto era respeitado. Procurava a tenacidade, o estilo, a equanimidade, a magnanimidade, a nobreza de espirito, por vezes até ao excesso. São termos cujo senso escapa a quem vê apenas os jogos televisivos.

Dominique Venner era pagão. Mas escolheu uma igreja para colocar fim aos seus dias. Uma contradição?

Penso que ele mesmo respondeu à pergunta na carta que deixou, pedindo que fosse tornada pública: "Eu escolho um local altamente simbólico, a Catedral de Notre Dame de Paris, que eu respeito e admiro: ela foi construída pelo gênio de meus ancestrais no local de cultos ainda mais antigos, reclamando nossas origens imemoriais". Leitor de Sêneca e Aristóteles, Dominique Venner admirava especialmente Homero: a Ilíada e a Odisséia eram para ele os textos fundadores de uma tradição européia na qual reconhecia sua pátria. Apenas Christine Boutin pode imaginar que ele se "converteu no último segundo"!

Politicamente esta morte espetacular será útil, como outros sacrifícios célebres, tal qual o de Jan Palach em 1969 em Praga, ou aquele mais recente do ambulante tunisiano que em parte provocou a primeira "primavera árabe"?

Dominique Venner se expressou também sobre as razões do seu gesto: "Diante de perigos imensos, sinto que devo agir até que tenha força para tanto. Acredito ser necessário me sacrificar para romper a letargia que nos oprime. Enquanto muitos homens são escravos de suas vidas, meu gesto corporifica uma ética de vontade. Eu me entrego à morte para despertar consciências adormecidas". Não se poderia ser mais claro. Mas se estaria errado ao não ver nesta morte além do contexto estreito dos debates sobre o "matrimônio para todos". Faz anos, Dominique Venner não aguentava mais ver a Europa fora da história, sem energia, esquecida de si. Dizia constantemente que a Europa estava "em letargia". Quis acordá-la, como Jan Palach, de fato, ou, em um outro período, Alain Escoffier. Assim provou sua tenacidade até o fim último, sendo fiel à sua imagem do comportamento de um homem livre. Escreveu também: "Ofereço aquilo que resta da minha vida em uma intenção de protesto e fundação". Esta palavra, "fundação", é o legado de um homem que escolheu morrer de pé.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Dominique Venner - Os Protestos de 26 de Maio & Heidegger

por Dominique Venner



Nota do blog: Eis o último texto do blog Dominique Venner, datado do mesmo dia de seu suicídio.

Manifestantes no 26 de maio [contra a recém aprovada lei do "casamento gay" na França] berrarão em sua impaciência e ira. Uma lei infame, uma vez aprovada, sempre pode ser repelida.

Eu acabo de ouvir a um blogueiro argelino: "De qualquer maneira", ele disse, "em 15 anos os islamistas estarão no poder na França e removerão esta lei". Não para nos agradar, eu imagino, mas porque é contrária à Sharia (lei islâmica).

Esse é o único ponto superficialmente comum entre a tradição europeia (que respeita as mulheres) e o Islã (que não as respeita). Mas a árida afirmação do argelino é de dar calafrios. Essas consequências serão muito maiores e mais catastróficas do que a detestável lei Taubira.

Deveria ser claro que a França bem pode cair nas mãos dos islamistas. Por 40 anos, políticos e governos de todos os partidos (com exceção da Frente Nacional), bem como funcionários públicos e a Igreja, tem acelerado ativamente a imigração afromagrebina por todos os meios possíveis.

Por um longo tempo, grandes escritores tem soado o alarme, começando com Jean Raspail em seu profético Campo dos Santos, cuja nova edição tem sido recebida com recordes de vendas.

Os manifestantes de 26 de maio não podem ignorar essa realidade. Sua luta não pode se limitar à rejeição do casamento gay. A "grande substituição" da população da França e da Europa, denunciada pelo escritor Renaud Camus, é um perigo muito mais catastrófico para o futuro.

Não é o suficiente organizar protestos de rua educados para impedir isso. Essa é uma "reforma moral e intelectual" real, como Renan disse, e deve ser conduzida como tal desde o início. Ela deve tornar possível a recuperação da memória francesa e europeia de nossa identidade, cuja necessidade ainda não é claramente percebida.

Isso certamente demandará gestos novos, espetaculares e simbólicos para comover nossa sonolência, abalar nossas consciências anestesiadas, e despertar a memória de nossas origens. Nós estamos entrando em um tempo em que palavras devem ser autenticadas por atos.

Nós devemos também lembrar, como brilhantemente formulado por Heidegger em Ser e Tempo, que a essência do homem está em sua existência e não em "outro mundo". É aqui e agora que nosso destino é apostado até o último segundo. E esse segundo final é tão importante quanto o resto de uma vida. É por isso que é necessário ser você mesmo até o último momento. É ao decidir, ao verdadeiramente querer o próprio destino, que se conquista o nada. E não há escapatória dessa demanda, porque nós só temos essa vida, na qual é nosso dever sermos plenamente nós mesmos - ou sermos nada.

Dominique Venner - As Razões para uma Morte Voluntária

Nota do blog: No dia de hoje, 21 de maio de 2013, o historiador dissidente Dominique Venner deu fim a sua vida com um tiro na boca no altar da Catedral de Notre Dame. Seu gesto heroico e corajoso foi um último grito de desafio contra a pós-modernidade, cujos tentáculos se estendem por toda a Europa e cujo domínio se torna mais total a cada dia. 

Ao camarada Venner nossas saudações.

Presente!

por Dominique Venner



Eu estou sadio em mente e corpo, e estou repleto de amor por minha esposa e filhos. Eu amo a vida e não espero nada além, senão a perpetuação de minha raça e minha mente. Porém, no entardecer de minha vida, me deparando com imensos perigos para minha pátria francesa e europeia, eu sinto o dever de agir enquanto eu ainda tenho forças. Eu creio ser necessário me sacrificar para romper a letargia que nos empesteia. Eu entrego o que resta de vida em mim de modo a protestar e fundar. Eu escolho um local altamente simbólico, a Catedral de Notre Dame de Paris, que eu respeito e admiro: ela foi construída pelo gênio de meus ancestrais no local de cultos ainda mais antigos, reclamando nossas origens imemoriais.

Enquanto muitos homens são escravos de suas vidas, meu gesto corporifica uma ética de vontade. Eu me entrego à morte para despertar consciências adormecidas. Eu me rebelo contra o destino. Eu protesto contra venenos da alma e os desejos de indivíduos invasivos de destruir as âncoras de nossa identidade, incluindo a família, a base íntima de nossa civilização multimilenar. Enquanto eu defendo a identidade de todos os povos em seus lares, eu também me rebelo contra o crime da substituição de nosso povo.

O discurso dominante não pode deixar para trás suas ambiguidades tóxicas, e os europeus devem lidar com as consequências. Carecendo de uma religião identitária para nos ancorar, nós partilhamos de uma memória comum que volta até Homero, um repositório de todos os valores nos quais nosso futuro renascimento será fundado uma vez que rompamos com a metafísica do ilimitado, a fonte dolorosa de todos os excessos modernos.

Eu peço desculpas antecipadamente a qualquer um que venha a sofrer com a minha morte, primeiramente e mais importantemente a minha mulher, meus filhos, e meus netos, bem como a meus amigos e seguidores. Mas uma vez que a dor e o choque se dissipem, eu não duvido que eles compreenderão o significado de meu gesto e transcenderão seu pesar com orgulho. Eu espero que eles resistam juntos. Eles encontrarão em meus escritos recentes intimações e explicações de minhas ações.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Natella Speranskaya - A Quarta Teoria Política e a "Outra Europa"

por Natella Speranskaya



"A Quarta Teoria Política é uma construção volitiva da tradição baseada na destruição da modernidade" - Aleksandr Dugin

Crítica do (Neo)Liberalismo desde "cima".

Em seu livro Carl Schmitt, Leo Strauss e O Conceito do Político Heinrich Meier assinalou que o mundo está tratando de deixar de identificar a diferença entre amigo ou inimigo. Schmitt mostra claramente ao mundo a inevitabilidade do "bem" com o fim de intensificar a "consciência de uma situação de emergência" e voltar a despertar a capacidade que se manifesta quando "o inimigo se revela a si mesmo com particular clareza". De fato, hoje podemos identificar sem deixar lugar para dúvidas o nosso inimigo. O inimigo ideológico (e ontológico) é o liberal, o partidário da teoria política que derrotou às duas ideologias do século XX, o comunismo e o fascismo/nacional-socialismo. Hoje nos enfrentamos com o resultado da vitória. Ao dizer "nós" não me refiro a alguma entidade política abstrata, mais exatamente me refiro aos representantes da tradição geopolítica da Eurásia ou dos enfoques da geopolítica telurocrática (portanto, os inimigos estão determinados por sua participação na geopolítica talassocrática). Comentando a obra fundamental O Conceito do Político, Leo Strauss assinala que apesar de toda a crítica radical do liberalismo contida nela, Schmitt não segue até o fim, já que sua crítica se desenvolve e se mantém dentro do alcance do liberalismo.

"Sua tendência anti-liberal", diz Strauss, "fica limitada pela 'sistemática do pensamento liberal' que não foi superada até o momento, o qual - como o próprio Schmitt reconhece - apesar de todos os erros não é substituído por nenhum outro sistema na Europa de hoje". A crítica do liberalismo é impossível dentro do âmbito de aplicação do liberalismo; sem superar definitivamente (ou melhor dito, "colapsar") o discurso liberal não há substituição possível.

Somos muito conscientes do fato de que as três grandes ideologias políticas do século passado - o liberalismo, o comunismo e o fascismo (as teorias políticas primeira, segunda e terceira, respectivamente) - são produto da modernidade. Uma mudança de paradigma à pós-modernidade implica necessariamente o nascimento de uma teoria política que esteja fora do alcance das últimas três teorias (ademais, tendo em conta as metamorfoses políticas do liberalismo, que podem se reduzir a uma só definição - "neoliberalismo" - a necessidade de uma alternativa bem cimentada se torna essencial). Somente depois de conseguir se liberar da escravidão da doutrina liberal, é possível proceder a sua crítica total.

Dar um passo mais além da modernidade não significa: a) tentativas destinadas à formação de outra doutrina comunista; b) a possibilidade de estabelecer uma ideologia neofascista capaz de substituir uma teoria política alternativa de essência contra-liberal. Temos que fazer uma escolha política que determinará o futuro da ordem mundial estando já em um ponto de transição rumo a multipolaridade, constituída por quatro pólos, onde a presença do pólo eurasiático é essencial. Ademais, a própria escolha política implica a aceitação consciente do conceito da Quarta Teoria Política permitindo a crítica do (neo)liberalismo desde "cima".

"A Outra Europa"

"Só umas poucas pessoas podem argumentar contra o fato de que hoje, em meio à aterradora sensação de crise e inquietude que se apoderou das mentes mais agudas, toda a comunidade européia apela ao ideal supremo da cultura mundial, a cultura, em que um novo princípio se espera que una aos poderes e portadores das dispersas tradições européias", diz o filósofo italiano Julius Evola em uma introdução de seu ensaio Europa Unida: O Requisito Espiritual.

Nós, os representantes da filosofia política eurasiática, estamos construindo relações estratégicas com os últimos rebeldes da resistência da Europa, com os que inclusive entre as ruínas mantém o valor de defender os valores supremos, heróicos e tradicionais. Ao refletir sobre as condições prévias da nova unidade européia, Evola destaca uma ameaça iminente proveniente à época da Rússia e dos Estados Unidos. Este ensaio se enfrenta ao período histórico que se caracterizou por ser um sistema bipolar de ordem mundial, em que o próprio modelo incorpora dois pólos, a duas potências hegemônicas - a URSS e os Estados Unidos. Hoje em dia, nos enfrentamos a um modelo unipolar e a uma potência hegemônica única, os Estados Unidos da América e, portanto, nos encontramos dentro de um vitorioso discurso liberal que está passando por metamorfoses só recém perceptíveis. Apesar de todas as diferenças entre os dois períodos históricos, a crise européia não somente segue sendo um problema não resolvido senão aumentou significativamente. Não obstante, que tipo de Europa estamos discutindo? Em uma de suas entrevistas, Aleksandr Dugin assinalou que hoje em dia nos encontramos com "duas Europas": Uma Europa liberal (ou Europa-1) que incorpora a idéia da "sociedade aberta", os direitos humanos, o registro de matrimônios do mesmo sexo, a legalização da família sueca, e a "outra Europa (Europa-2) politicamente comprometida, pensadora, intelectual, espiritual, que considera o status quo e a dominação do discurso liberal como um verdadeiro desastre e uma traição à tradição européia. "Muitos anos se passaram desde que o Ocidente se deu conta do que a "tradição" representa, em seu sentido mais elevado; o espírito anti-tradicional se converteu em sinônimo do ocidental já na época do Renascimento. A "Tradição", em seu sentido pleno, é uma sucessão de períodos, 'os tempos heróicos' de Vico - onde era a única força criativa com raízes metafísicas expressas nos costumes e na religião, no direito, na mitologia, nas criações artísticas - em todas as áreas privadas da existência", diz Julius Evola. Os últimos rebeldes da resistência da Europa são os representantes da "Outra Europa".

Em sua obra Europa e a Globalização Alain de Benoist presta atenção ao fato de que a "Europa tem todas as cartas de trunfo que lhe permitiriam derrubar a hegemonia estadounidense e se converter em uma grande potência mundial sem dúvida alguma". Não obstante, a Europa se abstém de tomar uma decisão estratégica e permite ser arrojada ao abismo da desesperança e da extinção total pelos Estados Unidos, a maioria dos europeus perderam sua identidade, e só uns poucos representantes da "Outra Europa" seguem sendo fiéis à herança da tradição européia. O quarto Nomos da Terra ao qual nos temos aproximado se caracteriza como "multipolar" ou, mais precisamente, como potencialmente multipolar já que "a única civilização, os Estados Unidos da América, é hegemônica em seis grandes esferas de poder: tecnológica, econômica, financeira, bélica, midiática e cultural". De Benoist destaca que os Estados Unidos tem como objetivo retrasar a inevitável transformação do universum ocidental em um pluriversum planetário. Uma ruptura radical em relação aos EUA poderia levar a Europa a se converter em soberana, para regressar a sua verdadeira identidade (nacional, cultural, etc) e, em consequência, contribuir para o ocaso do status dos EUA como líder mundial.

Gostaríamos de assinalar a necessidade de identificar um princípio capaz de assegurar a unidade, assinalada por Evola, da que definimos como uma doutrina política que representa uma importante alternativa à ideologia liberal. A doutrina política fundada por Aleksandr Dugin foi batizada como A Quarta Teoria Política. Hoje devemos reconsiderar o destino histórico da Rússia e da Europa. A Rússia, não como uma parte da Europa, senão mais exatamente Rússia e Europa como dois "grandes espaços" (Grossraum), duas civilizações: por um lado, dado o modelo multipolar da ordem mundial que incorpora a ditas civilizações como atores, e por outro lado, tendo em conta a análise exaustiva das relações entre Rússia e Europa que está superando o paradigma liberal e nos oferece uma imagem completamente diferente. Alain de Benoist também destaca que a Rússia, que se encontra no centro do Heartland, não é Europa, enquanto que a Europa pertence à entidade eurasiática. Cabe assinalar que o filósofo italiano Massimo Cacciari, ex-governador de Veneza e antigo membro do Parlamento Europeu (popular na Rússia acima de tudo por sua obra A Geofilosofia da Europa) tinha um pressentimento sobre a Quarta Teoria, descrito no prólogo de seu trabalho geofilosófico como: "...em lugar de um clássico regime simplificado com dois pólos - esquerda (marxistas) e direita (anti-marxistas, conservadores), e o centro no meio, Cacciari aborda apropiadamente um regime político que implica, pelo menos, quatro distinções".

"Imitação da História"

A Quarta Teoria Política é inimiga do liberalismo. Não obstante, o que defende o atual liberalismo? Nosso plano estratégico dirigido à destruição dessa ideologia hostil depende da resposta a essa pergunta. Hoje em dia nos enfrentamos ao "neoliberalismo" ou "pós-liberalismo", um liberalismo inautêntico. Em seu livro A Quarta Teoria Política, Dugin estabelece a mudança de status da ideologia liberal na transição da modernidade à pós-modernidade, e descreve o "cenário do grotesco pós-liberalismo": o individuum do liberalismo clássico, a primeira medida de todas as coisas, se converte em um pós-individuum; o homem como possuidor da propriedade privada - que praticamente adquire um status sagrado - será possuído por essa última por esta última; se produz a Sociedade do Espetáculo (La Société du Spectacle de Guy Debord); o limite entre o real e o virtual se torna borrado - o mundo se converte em um supermercado técnico; todas as formas de autoridade supra-individual se eliminam, o Estado é substituído pela "sociedade civil"; o princípio - "a economia é nosso destino" se substitui por outro princípio - "o código digital é nosso destino", em outras palavras, tudo se converte em virtualidade total.

"Não há nada mais trágico que a incapacidade de entender o momento histórico que estamos atravessando atualmente", assinala Alain de Benoist, "este é o momento da globalização pós-moderna". O filósofo francês põe em relevo a importância da questão de um novo Nomos da Terra como uma forma de estabelecer relações internacionais. Então como crê que será o quarto Nomos? De Benoist analisa duas possibilidades: a transição ao universo (ou um mundo unipolar), que significa a dominação estadounidense, e a transição ao pluriversum (um mundo multipolar), onde a diversidade cultural não se enfrentará a nenhuma ameaça de absorção total e de "fusão". Em efeito, o quarto Nomos da Terra se relaciona com a Quarta Teoria Política. Alain de Benoist afirma que "similar aos três grandes Nomos da Terra, na modernidade houve três grandes teorias políticas". Na era da modernidade nos encontramos com a sucessão do liberalismo, o socialismo e o fascismo nos séculos XVIII, XIX e XX, respectivamente. E essas três ideologias desapareceram em ordem inversa. Assim, a última das ideologias foi a primeira que desapareceu. O quarto Nomos da Terra requer o surgimento da Quarta Teoria Política. A Quarta Teoria ainda não se pode definir em detalhe - acrescenta De Benoist. Em efeito, será crítica com as teorias anteriores. Não obstante, incorporará idéias valiosas das ideologias precedentes. Será uma síntese como o Aufhebung em seu sentido hegeliano.

Ao elaborar uma base ideológica para a Quarta Teoria é possível analisar aspectos tanto positivos como negativos das outras três teorias políticas conhecidas, e adotar aqueles aspectos que nos parecem aceitáveis. Essa é uma das maneiras. Não obstante, isso não significa que não existam outros enfoques. Também podemos propor a questão da "mimesis política" tendo considerando desde outro ângulo.

Por exemplo, os filósofos franceses contemporâneos Philippe Lacoue-Labarthe e Nancy Jean-Luc, oferecem um novo conceito de "imitação da história". Se centram na idéia de que a Europa tem tendido a ser orientada mediante a imitação durante muito tempo "o que, em primeiro lugar, significa imitar os antigos. O papel do modelo antigo (Esparta, Atenas, Roma) no estabelecimento dos Estados nacionais contemporâneos e na construção de sua cultura é bem conhecido".

"A imitação da história" desempenhou um papel fundamental no conceito do nazismo alemão (assim como no fascismo italiano). É importante refletir se a mímese política da época clássica é factível hoje em dia, e se existe ou não a necessidade de uma nova mudança rumo ao antigo é algo que tem que ser analisado. Não foi um erro dos seguidores da terceira teoria política em sua forma de nacional-socialismo alemão (o que resultou em uma derrota) o que na imitação dos antigos ignoraram uma característica importante: a existência de "duas Grécias" - apolínea e dionisíaca, a Grécia da luz do dia e a Grécia dos mistérios, a Grécia da Lei e da severidade heróica e a Grécia dos rituais extáticos e dos sacrifícios? E por último, é o território russo ao invés de somente o europeu onde é factível o renascimento do espírito da antiguidade? Em outras palavras, não deveríamos pedir emprestado a mímese política ou a imitação da história de ideologemas mais antigos em lugar daqueles aspectos ideológicos que existem dentro das teorias políticas geradas pela modernidade? Essa seria uma solução radical para o desenvolvimento da teoria política mais além da modernidade.

Quanto a Rússia, o estabelecimento da escola russa de neoplatonismo indica claramente a seriedade de nossa intenção e nossa compreensão acerca do importante papel de Platão. "O projeto da nova Rússia deve ser iniciado com o anúncio de Platão", diz Dugin. O fato de que Platonópolis, a República de Platão, nunca tenha sido fundada pode indicar que qualquer tentativa de estabelecê-la implicou uma intenção inicial de reduzir a distância entre a modernidade e a antiguidade mediante a aproximação da herança grega "nós/eles". Não obstante, o ponto principal é que nós/eles devemos ser elevados aos gregos. A cidade do mundo deve se converter na cidade de Deus e não ao contrário.

"O nazismo (e em muitos aspectos, o fascismo italiano) se caracteriza pela definição de seu próprio movimento, ideologia e Estado como uma manifestação de algum mito ou como um mito vivente. Isso é o que Rosengerg afirma: 'Odin está morto, porém de outra maneira, como essência da alma alemã, Odin ressuscita ante nossos olhos'", assinalam P. Lacoue-Labarthe e J.L. Nancy. O nacional-socialismo era uma síntese de diversos mitos (ainda que não muito exitosa): a Grécia apolínea e a dionisíaca se chocaram mais que compartiram em comum dentro da nova doutrina política; inclusive nas primeiras etapas, essa contou com uma derrota a mais em um choque histórico. Não obstante, ademais do elemento grego (Hitler costumava dizer de si mesmo: "Eu sou grego"), o nacional-socialismo também incorporou elementos do antigo paganismo germânico, da tradição medieval e indo-ária. O fascismo de Mussolini, por sua vez, representou um mito idealista da Itália como herdeira de Roma. Julius Evola assinala que com a doutrina do Estado, o fascismo "voltou à tradição que subjaz nos grandes Estados europeus. Ademais, restabeleceu, ou ao menos tratou de reviver a idéia romana como a maior e especial integração do "mito" sobre um novo organismo político que é "forte e orgânico". Para Mussolini a tradição romana não era somente uma figura retórica, era mais exatamente a "idéia de poder", o ideal para a educação de um novo tipo de ser humano que teve que tomar o poder em suas mãos. "Roma é nosso mito" (1922). Essas palavras testemunham uma adequada escolha e um grande valor; incorporam o desejo de fechar a brecha sobre o abismo dos séculos, para reviver a continuidade da única herança valiosa da história italiana". Não obstante, Mussolini nunca foi capaz de apreciar realmente a dimensão espiritual do símbolo romano e da antiga Roma.

Doutrina Racial

Um erro fatal do nacional-socialismo alemão foi uma compreensão distorcida da doutrina racial que reconhecia somente o "racismo de primeiro grau" (racismo biológico).

O primeiro passo nessa sucessão foi a confusão dos conceitos de "nação" e "raça" que, nas palavras de Evola, equivalia à democratização e à degradação do conceito de raça. As opiniões de um pequeno número de seguidores com uma compreensão diferente da teoria racial não foram tomadas em conta. Quanto ao fascismo italiano, desde o princípio essa ideologia estava livre da interpretação vulgar da teoria racial. Em 1941, Evola foi citado a comparecer no Palacio Veneziano, lugar onde havia sido planificada sua reunião com Mussolini. Mussolini expressou grande interesse na obra de Evola A Síntese da Doutrina da Raça depois de ter descoberto nela "uma base para o estabelecimento de um racialismo fascista independente e anti-materialista". Mussolini aceitou incondicionalmente a teoria das três raças, espiritual, mental e física (biológica). A mesma teoria havia tido uma relação direta com as idéias de Platão: a raça do corpo no Estado correspondia ao demos, a massa, enquanto que a raça mental e a raça do espírito se correlacionavam com os protetores/guerreiros e os filósofos, respectivamente. Não obstante, posteriormente Mussolini foi pressionado pelos representantes da Igreja Católica, que advertiu uma grande ameaça na questão racial discutida ao nível do espírito, e a teoria das três raças não recebeu um apoio adequado.

Julius Evola enfatizava que o conceito de raça (que está mais além de sua compreensão usual como uma quantidade antropológica e étnica) se enfrenta ao indivíduo (que de fato é uma característica positiva de racismo). Segundo o filósofo italiano, um dos efeitos práticos da teoria racial é "a necessidade de superar as concepções liberais, individualistas e racionalistas, segundo as quais uma pessoa é como um átomo, o sujeito em si mesmo, que vive, pelo que só tem sentido para si mesmo". Assim, o fascismo italiano com suas raízes se centrou inicialmente na teoria das três raças, o que o distingue fortemente da doutrina nacional-socialista que professava fanaticamente o racismo biológico.

Hoje em dia, a palavra "raça" e seus derivados se percebe somente em um sentido negativo; portanto, sua aplicação como elemento de base para qualquer estrutura ideológica seria extremamente imprudente. A Quarta Teoria Política rechaça categoricamente o racismo, incluindo as últimas formas pós-modernas que, como uma ditadura de glamour, seguem as tendências da informação moderna, a idéia da globalização unipolar (a superioridade dos povos ocidentais). Aleksandr Dugin afirma que a Quarta Teoria Política rechaça "todas as formas de hierarquização normativa das sociedades sobre bases de origem étnica, religiosa, social, tecnológica, econômica e cultural. Uma comparação das sociedades é possível, não obstante, não se deve reclamar superioridade de uma sociedade sobre as demais".

Voltando à questão da "imitação da história" várias perguntas podem ser apresentadas: Que caminho há que seguir ao desenvolver a Quarta Teoria Política? Há que selecionar "elementos sólidos" das três ideologias políticas ou devemos fazer referência à Politeia de Platão e à sociedade pré-moderna, tradicional (ou combinar ambos enfoques)?

Qual poderia ser uma transição hipotética do logos ao mythos dentro da ideologia política? E qual é a relação entre a Quarta Teoria Política e um mito?

Qual é o mito da Rússia e o mito (ou mitos) da "outra Europa" que se incorporam na Quarta Teoria Política como base para um mundo multipolar?

Essas perguntas esperam respostas.

Aleksandr Dugin crê que Platão sacrificou a verdade do mito à verdade da filosofia. Portanto, a República de Platão, desde o princípio, se baseava no princípio apolíneo (rechaçando estritamente o dionisíaco). Acaso não é adequado sacrificar a verdade da filosofia pela Filosofia do outro Princípio que eliminará a problemática da separação de logos e mythos? A Politeia só é possível quando há dois de seus princípios constituintes. A Quarta Teoria Política está na necessidade de um Mito, um Mito como Mito universal, um Mito como paradigma, em cujo marco o diálogo entre Rússia e a "Outra Europa" marcará (quer dizer, chegará a ser) a transição rumo a uma nova realidade política.

Segundo seu fundador, a Quarta Teoria Política é uma construção volitiva da tradição baseada na desconstrução da modernidade. Principalmente maneja o rechaço total aos três sujeitos das três teorias do século XX: rechaço do indivíduo, classe e raça/Estado-nação, no liberalismo, comunismo e nacional-socialismo/fascismo, respectivamente. O Dasein (em alemão "ser-aí") de Heidegger se converte no sujeito da Quarta Teoria Política fazendo dela uma "estrutura ontológica fundamental desenvolvida no campo da antropologia existencial". Ademais, a Quarta Teoria Política, enfocada na multipolaridade, vai ainda mais além que Heidegger e afirma a pluralidade do Dasein. O Dasein-cultura-civilização-grande espaço-pólo do mundo multipolar apresenta um contexto absolutamente diferente do pensamento político. Não há nenhum indivíduo já que é abolido pelo Dasein; em lugar do indivíduo há um problema de existência autêntica ou inautêntica, é uma opção - das Mann ou Selbst; esse é o fundamento da Quarta Teoria Política. Uma classe e uma raça, assim como um Estado (pelo menos, um Estado nacional burguês contemporâneo), constituem construções antropológicas e ontológicas da modernidade, versões de Techne, Ge-Stell; e nós estamos desenhando uma estrutura política existencial - diz Aleksandr Dugin.

Portanto, todas as tentativas de nossos adversários liberais tendentes a desacreditar a Quarta Teoria Política como "uma nova versão do nacional-socialismo" não tem fundamento, e representam somente uma reação hostil devido à aparição de um rival igual (ou superior) e ações estratégicas destinadas a eliminar o risco de colisão iminente com o inimigo. Uma vez mais, gostaríamos de enfatizar que a Quarta Teoria Política está mais além do alcance das três ideologias políticas, e que uma resistência rígida ao liberalismo pode ser considerada como a única característica que lhe aproxima à segunda e terceira teoria.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Alberto Buela - Geopolítica da América do Sul

por Alberto Buela



Cada vez que nos convidam a falar ou escrever sobre "América Latina" temos que fazer a ressalva em relação a essa forma espúria, universalmente difundida, de nos designarmos. De modo que propomos de entrada a questão do quid nominis, de como devemos nos denominar, como devemos ser nomeados e qual é a forma mais adequada, mais genuína, mais específica de nos nomearmos e sermos nomeados.

A expressão "América Latina" nasce com Chevallier o chanceler de Napoleão III para intervir militar e politicamente na América Ibérica em nome e defesa de la latinité.

Logo são os ianques, mais tarde a Igreja e por último o marxismo que passam a nos denominar dessa maneira.

O uso ideológico do termo salta à vista como evidente, pois o Canadá francês, a Guiana e Martinica nunca foram incorporados formando parte da "América Latina" quando assistiriam razões iguais ou melhores para que o fossem.

Isso mostra que na ordem internacional onde a geopolítica, as relações internacionais, a estratégia e a metapolítica jogam todas as suas fichas não existe nem a boa vontade nem as idéias neutras, o que existem são relações de poder: de mando e obediência, de público e privado e de amigo-inimigo. Assim pois, desconfiar das denominações ad hoc das instituições ou espaços internacionais é um princípio de saúde metodológica de todo investigador que nessa ordem se estime como tal.

Hoje não se pode entender a geopolítica sem a metapolítica, isto é, a disciplina que estuda as grandes categorias de pensamento que condicionam a ação política dos governos da vez. E por isso preferimos a denominação, para nosso espaço geopolítico de "América Ibérica", pois o termo designa de forma clara e precisa, a especificidade da ecúmene cultural a que pertencemos os americanos hispano-lusos de toda América e porque o termo América Ibérica involucra, de forma plena e sem dúvidas, o Brasil.

Hoje, já começando a segunda década do século XXI, falar de "latinidade" é uma rêmora. É um universalismo a mais como o de "humanidade", não nos diz nada. É uma categoria geopolítica que funciona como um adormecimento da inteligência, pois pensar a partir dela é uma forma de não pensar.

Assim, o realismo político nos obriga a nos limitarmos e nos circunscrevermos à América do Sul. Em primeiro lugar porque o México tem assinado e em execução o tratado de livre comércio com os Estados Unidos que compromete toda sua economia e suas decisões políticas. Enquanto a América Central e o Caribe, salva a exceção de Cuba, se encontra enfeudada em sua totalidade com a política exterior norteamericana e sua dependência em relação à potência talassocrática é quase absoluta. De modo tal, que a única possibilidade de pensar um espaço geopoliticamente verossímil é a América do Sul. E aqui nos introduzimos no tema de nossa apresentação.

Os dados objetivos que possuímos da América do Sul é que constitui um espaço geográfico contínuo que abarca 17,8 milhões de km², o dobro da Europa e o dobro dos Estados Unidos. Tem uma população de aproximadamente 420 milhões de pessoas, que falam por metades o castelhano e o português, duas línguas entendíveis entre si. Dez são as nações que a dividem politicamente e quatro enclaves coloniais (as ilhas Malvinas e Guiana que formam parte da Commonwealth britânica, Suriname da Holanda e Guiana Francesa da França. Todos juntos não chegam a 1,5 milhões de habitantes).

O país mais poderoso é Brasil com quase metade dos habitantes do subcontinente, que possui a oitava economia do mundo com PIB (Produto Interno Bruto) de 1.600.000 milhões de dólares enquanto Argentina e Venezuela seguem com 330 mil milhões de dólares cada um.

Possui 27% da água doce do mundo. Conta com o aquífero Guerani e com 50.000 km de vias navegáveis internas que unem as três bacias hídricas: Orinoco, Amazonas e o Prata. Sua projeção sobre a Antártida abarca todo o quadrante sulamericano que inclui a totalidade da península.

Interpretação Geopolítica



A América do Sul constitui uma ilha continental rodeada pelos Oceanos Pacífico e Antártico que possui 25.432km de costas. É um espaço terrestre de difícil acesso, que tem o Amazonas como heartland sulamericano, que abarca quase 2 milhões de km² que compartilham quatro países (Brasil, Colômbia, Venezuela e Peru).

Este difícil acesso obrigou os Estados Unidos a rodeá-lo com bases militares para poder controlá-lo (Arauca, Larandia e Três Esquinas na Colômbia, Iquitos e Nanay no Peru, Marechal Estigarribia no Paraguai e Curaçao a 50km da Venezuela).

Como suporte teórico-ideológico lançaram a "teoria da soberania limitada do Amazonas" propondo uma tutela internacional, tese sustentada pela diplomacia sueca. Brasil, Venezuela, Argentina e Bolívia a rechaçaram de plano.

Essa característica de impenetrabilidade do heartland sulamericano marca toda sua história política desde a descoberta da América. E assim, todas as suas grandes cidades (Buenos Aires, São Paulo, Rio de Janeiro, Valparaíso, Lima, etc) são portuárias à diferença da Europa que são mediterrâneas. É que o povoamento da América do Sul se foi realizando por toda a costa dessa grande ínsula. Sua marcha tem sido da periferia ao centro. Centro que ainda hoje, na segunda década do século XXI, não foi ocupado.

Se a tese de Mackinder (1861-1947) "quem ocupe o heartland detém o poder" for verdade, no caso da América do Sul ninguém o possui de forma hegemônica, pois ninguém tem plenamente o manejo do Amazonas.

O Caso Brasileiro

É indubitável que o Brasil, potência emergente mundial, tem como Estado-Nação o maior peso econômico da região como o denota seu PIB com seu oitavo lugar na economia do globo.

Seus últimos movimentos na ordem internacional o mostram como uma futura potência ativa: a) Integra o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), grupo privilegiado de grandes espaços estatais; b) O grupo dos quatro junto com Índia, África do Sul e Alemanha reclamando um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas; c) A Unasul (União de Nações do Sul) junto com o resto dos países da América do Sul; d) O grupo do G20 com os Estados de maior produção de riqueza; e) O G5 junto com México, África do Sul, China e Índia, grupo de potências emergentes; f) O pacto turco-brasileiro de diálogo com o Irã, em substituição da teoria da demonização do governo iraniano proposto por EUA-Israel.

Militarmente acaba de comprar o primeiro submarino nuclear à França e espera produzir oito submarinos nucleares mais, à imitação do francês, nos próximos cinco anos. Seu orçamento militar foi de 10.000 milhões de dólares em 2010, similar ao da Colômbia, contra 3.200 milhões do argentino.

É de destacar como tem feito notar os investigadores brasileiros (Moniz Bandeira, Guimarães et alii), que a maior hipótese de conflito que se apresenta ao Exército do Brasil é com uma superpotência em terreno florestal (vgr. O Amazonas).

A América do Sul Hispana



Conforma os outros 50% da América do Sul e está composta por nove nações que alcançam em habitantes, em Forças Armadas e em PIB ao bloco unitário brasileiro.

Se destacam em primeiro lugar o poderio militar colombiano de terra e o chileno de mar. Se tem produzido desde a assunção de Hugo Chávez um rearmamento da Venezuela, fundamentalmente russo. Fuzis automáticos para guerra de baixa intensidade, aviões e helicópteros. Por outro lado a Argentina desde a derrota da guerra das Malvinas em 1982 tem adotado a tese da inexistência de conflitos internacionais e da diplomacia desarmada. Enquanto Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru e Equador carecem de peso específico na matéria.

Chile é o único país da América do Sul que integra o seleto grupo dos vinte primeiros países no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) na estatística das Nações Unidas.

A Venezuela é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e o principal provedor de refinado em forma de naftas aos Estados Unidos.

Nas últimas duas décadas se produziu na Bolívia, Chile, Peru, Argentina e Equador o auge da mineração extrativa a céu aberto que está produzindo, ademais de prejuízo econômico, mudanças e danos terrestres irreparáveis.

A Relação entre os Dois Blocos

Desde o ano 1992 se repetem anualmente as Cúpulas Iberoamericanas que realizam conjuntamente com Espanha e Portugal os dez países sulamericanos porém cujos resultados tem sido mais declamativos que efetivos. Não se pôde superar a teoria da boa vizinhança para poder passar à conformação de um grupo de poder mundial homogêneo que compartilha língua, religião, instituições, usos e costumes.

Em 1991 se criou o Mercosul (Mercado Comum do Sul) cujos sócios fundadores foram Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, que tem Bolívia e Venezuela em processo de incorporação e Chile, Colômbia e Equador como países associados.

Porém após vinte anos o Mercosul se reduziu a uma união aduaneira utilizada, acima de tudo, pelas burguesias comerciais de São Paulo e Buenos Aires.

O outro nexo entre os dois blocos, o hispano e o lusitano, é a mencionada Unasul que entrará plenamente em vigência em janeiro de 2011 e o Conselho de Defesa Sulamericano que entrará em vigor por eses anos e cuja sede será Buenos Aires.

Temos logo o Banco do Sul, proposta de Hugo Chávez realizada em 2004, porém nascida morta já que seu capital inicial se fixou na soma irrisória de 7.000 milhões de dólares, quando o Banco do Brasil tem ativos de 407.000 milhões de dólares e o Banco Itaú de São Paulo por volta de 350.000 milhões de dólares.

Existe entre Argentina e Brasil um tratado que obriga a uma reunião de ministros a cada 45 dias e a uma reunião de presidentes a cada três meses, porém ditas reuniões se encontram limitadas a equilibrar os termos do intercâmbio comercial para que nenhuma das duas economias se encontre prejudicada.

O Caso Argentino

A que foi a segunda Armada do mundo em 1890 passou a não existir, e a que foi em 1910 a décima primeira economia do mundo retrocedeu ao lugar número vinte um século depois. A estrutura das exportações argentinas está bastante equilibrada, pois sua composição é: Combustíveis 12%, Indústria 31%, Agro 34%, Primários 23%. O motor de sua economia segue sendo o agronegócio com seus grãos e carnes porém o desenvolvimento de sua indústria leve o está alcançando. O danoso é que a mineração, que não produz nenhum desenvolvimento posterior por ser uma atividade meramente extrativa, haja alcançado nessa última década porcentagens de exportação tão altos.

O segundo aspecto onde se destaca é no desenvolvimento nuclear, que é considerado dentro dos padrões mundiais como um dos mais desenvolvidos. A investigação nesse campo se vem realizando de forma contínua desde 1950. A produção de reatores nucleares de fabricação própria (Carem) são demandados em todo o mundo: Austrália, Argélia, Peru, Egito, Irã.

A agroindústria e a produção nuclear são os dois traços específicos da produção de riqueza argentina.

Existe finalmente um terceiro fator positivo que pode aportar Argentina e que não está contemplado nas estatísticas econômicas: o fator humano, que se destaca por sua profundidade de análise, rapidez na captação e execução. Vivaz, criador e engenhoso. Orgulhoso de si e de seu lugar no mundo, ignora a capitis diminutio aos "outros".

Perspectiva Geopolítica da América do Sul



Afirma Hegel em sua Introdução à Filosofia do Direito que a coruja de Minerva (símbolo da filosofia) sai a voar ao entardecer, quando a realidade já se pôs. Já se escondeu o sol. De modo tal que é muito difícil realizar prognósticos desde a filosofia sobre coisas humanas, não obstante isso e com essa ressalva vamos tentar.

Brasil e Argentina são o eixo sobre o qual deve girar toda a geopolítica da América do Sul. Essa tem que tender à formação de um losango irregular que uma em linhas de poder as capitais de Brasília, Buenos Aires, Lima e Caracas para proteger o heartland sulamericano.

O princípio da integração deve ser: dado que o Brasil tem cinco vezes a economia da Argentina, as contribuições se devem realizar nessa proporção. A integração é proporcional e não em pé de igualdade. A igualdade é, nesse caso, a primeira fonte de injustiças.

Brasil e Argentina tem que criar antes de qualquer coisa uma moeda comum (o austral) que outorgue solidez a suas economias em relação ao dólar e ao euro. E ao mesmo tempo criar uma companhia exportadora de grãos para evitar o condicionamento do mercado de Chicago.

Devem seguir para a formação de uma força marítima comum para o controle do mar territorial e do extenso litoral atlântico. Evitar o saque que se está produzindo no Atlântico Sul é compartilhar de um espaço de soberania comum. Não é um ponto de fricção senão um ponto de união. O Pacífico Sul é controlado pelo Chile que possui uma magnífica e bem treinada força naval e complementado por Peru e Colômbia.

A navegação dos rios interiores, a construção de um grande oleoduto, rotas aéreas diretas intercapitais, a recuperação dos trens interiores, habilitação dos canais bioceânicos mistos, o desenvolvimento tecnológico complementar onde cada Estado aporta o melhor de seu desenvolvimento.

A construção de um espaço geopolítico autocentrado é possível e está ao alcance da mão, o que sucede é que sua construção supõe a limitação dos poderes mundiais, diretos ou indiretos, na zona sulamericana.

E é aqui onde surge o problema principal. Pois para criar uma nova geopolítica regional, como para fazer um bolo, há que romper alguns ovos. Ademais a geopolítica para ser tal necessita de um elemento fundamental: o arcano.

O arcano entendido como segredo profundo e ao mesmo tempo íntimo. E disso participam muito poucos. Pode existir um arcano geo ou metapolítico entre os Estados que conformam a América do Sul sem que seja penetrado pelos serviços de inteligência do imperialismo? É uma pergunta de difícil resposta pois se dizemos que não, essa meditação não tem sentido e se afirmamos que sim, podemos cair no idealismo político que sempre tem sido mau conselheiro.

Se impõe então o "realismo político": aquele que nos permite assumir com um certo ceticismo os projetos teóricos, porém não por isso deixá-los de pensar e tentar realizá-los. O realismo político é o que incorpora, trabalha e põe toda sua confiança na racionalidade estratégica para lograr os bens e satisfazer os interesses da comunidade ou povo que melhor desenvolva sua estratégia. Nesse caso, essa que propomos aqui.