segunda-feira, 29 de julho de 2013

James Petras - Brasil:O Capitalismo Extrativo e o Grande Salto para Trás

por James Petras

O Brasil testemunhou um dos mais gritantes retrocessos sócio-económicos da moderna história mundial: de uma dinâmica nacionalista de industrialização para uma economia exportadora primária. Entre meados da década de 1930 e meados da década de 1980, o Brasil cresceu a uma taxa média de cerca de 10% no seu sector manufactureiro, em grande medida com base em políticas intervencionistas do estado, subsídios, protecção e regulação do crescimento de empresas públicas nacionais e privadas. Mudanças no "equilíbrio" entre o capital nacional e estrangeiro (imperial) começaram a verificar-se a seguir ao golpe de 1964 e aceleraram-se após o retorno da política eleitoral nos meados da década de 1980. A eleição de políticos neoliberais, especialmente com a eleição do regime Cardoso em meados da década de 1990, teve um impacto devastador sobre sectores estratégicos da economia nacional: a privatização generalizada foi acompanhada pela desnacionalização dos altos comandos da economia e a desregulamentação maciça de mercados de capitais [1] . O regime Cardoso preparou o cenário para o fluxo maciço de capital estrangeiro nos sectores agro-mineral, financeiro, seguros e imobiliário. A ascensão das taxas de juro, como exigido pelo FMI, o Banco Mundial e o mercado especulativo imobiliário elevaram os custos da produção industrial. A redução de tarifas de Cardoso acabou com subsídios à indústria e abriu a porta a importações industriais. Estas políticas neoliberais levaram ao declínio relativo e absoluto da produção industrial [2]

A vitória presidencial do auto-intitulado "Partido dos Trabalhadores", em 2002, aprofundou e expandiu o "grande retrocesso" promovido pelos seus antecessores neoliberais. O Brasil reverteu para tornar-se um exportador primário de commodities, como soja, gado, ferro e minérios que se multiplicaram, as exportações de material de transporte e manufacturas declinaram [3] . O Brasil tornou-se uma dos principais exportadores de commodities extractivas do mundo. A dependência do Brasil das exportações de commodities foi ajudada e compensada pela entrada maciça e a penetração de corporações imperiais multinacionais e de fluxos de financeiros por bancos além-mar. Os mercados além-mar e os bancos estrangeiros tornaram-se a força condutora do crescimento extractivo e da morte industrial. 

Para ter um melhor entendimento da "grande reversão" do Brasil de uma dinâmica nacionalista-industrializante para uma vulnerável dependência imperial conduzida pela extracção agro-mineral, precisamos resumidamente rever a economia política do Brasil ao longo dos últimos cinquenta anos a fim de identificar os "pontos de viragem" decisivos e a centralidade da política e da luta de classe. 

Modelo militar: Modernização a partir de cima 

Sob a ditadura militar (1964-1984) a política económica era baseada numa estratégia híbrida enfatizando uma tríplice aliança do estado, do capital estrangeiro e do capital privado nacional [4] centrada primariamente em exportações industriais e secundariamente e commodities agrícolas (especialmente produtos tradicionais como o café). 

Os militares rejeitaram o modelo nacionalista-populista baseado em indústrias do estado e cooperativas camponesas do deposto presidente Goulart e puseram em vigor uma aliança de capitalistas industriais e agronegócio. A cavalgar uma onda de mercados globais em expansão e beneficiando da repressão do trabalho, a compressão de salários, subsídios abrangentes e políticas proteccionistas, a economia cresceu a dois dígitos desde o fim da década de 1960 até meados da de 1970, o chamado "Milagre brasileiro" [5] . Os militares, se bem que afastando quaisquer ameaças de nacionalizações, puseram em vigor um certo número de regras de "conteúdo nacional" e ampliaram a dimensão e âmbito da classe trabalhadora urbana, especialmente na indústria automotiva. Isto levou ao crescimento dos sindicatos de trabalhadores metalúrgicos e posteriormente do Partido dos Trabalhadores. O "modelo exportador" baseado na indústria leve e pesada, de produtores estrangeiros e internos, tinha base regional (Sudeste). A estratégia de modernização aumentou desigualdades e integrou os capitalistas "nacionais" a multinacionais imperiais. Isto preparou o terreno para o início das lutas anti-ditatoriais e o retorno da democracia. Partidos neoliberais ganharam hegemonia com a viragem para políticas eleitorais. 

Políticas eleitorais, a ascensão de neoliberalismo e a ascendência do capitalismo extractivo 

A oposição eleitoral que sucedeu aos regimes militares esteve inicialmente polarizada entre uma elite liberal, adepta do livre mercado agro-mineral e aliada a multinacionais imperiais e, por outro lado, um bloco nacionalista de trabalhadores, camponeses, trabalhadores rurais e classe média baixa. Trabalhadores militantes constituíam a CUT, camponeses sem terra o MST e ambos juntaram-se à classe média para constituir o PT. [6]

A primeira década de política eleitoral, 1984-94, foi caracterizada pelo puxa e empurra entre o capitalismo estatista residual herdado do regime militar anterior e a emergente burguesia do "livre mercado" liberal. As crises de dívida, hiper-inflação, corrupção sistémica maciça, o impedimento do presidente Collor e a estagnação económica enfraqueceram gravemente os sectores capitalistas estatais e levaram à ascendência de uma aliança do capital agro-mineral e financeiro, tanto de capitalistas estrangeiros como locais, ligada a mercados além-mar. Esta coligação retrógrada encontrou o seu líder politico e o caminho do poder com a eleição de Fernando Henrique Cardoso, um antigo académico de esquerda que se converteu em fanático do mercado livre. 

A eleição de Cardoso levou a uma ruptura decisiva com as políticas nacionais estatistas dos sessenta anos anteriores. As políticas de Cardoso deram um impulso decisivo à desnacionalização e privatização da economia, elementos essenciais na reconfiguração da economia do Brasil, e à ascendência do capital extractivo [7] . De acordo com quase todos os indicadores, as políticas ultra-liberais de Cardoso levaram a um precipitado grande salto para trás, concentrando rendimento e terra, e aumentando a propriedade estrangeiro de sectores estratégicos. A "reforma" da economia de Cardoso a expensas do trabalho industrial, da propriedade pública, dos trabalhadores sem terra provocou greves generalizadas e ocupações de terra [8] . A "economia extractiva", especialmente a abertura de sectores lucrativos na agricultura, mineração e energia, ganhou espaço a expensas das forças produtivas: a posição relativa da manufactura, tecnologia e serviços avançados declinou. Em particular, os ganhos do trabalho como um todo declinaram como percentagem do PNB [9]

A taxa de crescimento médio da indústria declinou para uns magros 1,4%. O emprego no sector industrial caiu em 26%, o desemprego subiu para mais de 18,4%, o "sector informal" subiu de 52,5% em 1980 para 56,1% em 1995 [10]

A privatização de empresas públicas como a Telebrás, firma gigante e lucrativa de telecomunicações, levou ao despedimento maciço de trabalhadores e à subcontratação de trabalho com salários mais baixos e sem benefícios sociais. Sob Cardoso, o Brasil tinha as mais altas taxas de desigualdade (coeficiente de Gini) entre todos os países do mundo. 

Cardoso utilizou subsídios do estado para promover o capital estrangeiro, especialmente nos sectores da exportação agrária e mineral, enquanto pequenos e médios agricultores ansiavam por crédito. O seu programa de desregulamentação financeira levou à especulação com divisas, lucros maciços e inesperados para bancos da Wall Street quando o regime elevou as taxas de juro em mais de 50% [11] . A bancarrota de agricultores levou ao seu despojamento pelos capitalistas agro-exportadores. A concentração de terra assumiu uma viragem decisiva quando 7% dos grandes proprietários que possuíam fazendas de mais de 2000 hectares aumentaram a dimensão das suas terras de 39,5% para 43% das terras agrícolas brasileiras [12]

Durante os oito anos de Cardoso no governo (1994-2001) houve um tsunami de investimento estrangeiro: mais de US$50 mil milhões entraram no país só nos primeiros cinco anos – dez vezes o total dos 15 anos anteriores [13] . Companhias agro-minerais de propriedade estrangeiras entre as principais companhias estrangeiras (em 1997) representavam mais de um terço e continuavam a crescer. Entre 1996-1998 multinacionais estrangeiras adquiriram oito grandes firmas de alimentos, mineração e produção metálica [14]
As políticas neoliberais de Cardoso abriram a porta amplamente para a tomada de indústrias críticas e sectores bancários pelo capital estrangeiro. No entanto, foram os presidentes do "Partido dos Trabalhadores" que vieram a seguir, Lula da Silva e Rousseff, que completaram o Grande Salto para Trás da economia brasileira ao se voltarem decisivamente para o capital extractivo como a força condutora da economia. 

Do neoliberalismo ao capital extractivo 

As privatizações de Cardoso foram apoiadas e aprofundadas pelo regime Lula. A ultrajante privatização de Cardoso da mineradora Vale do Rio Doce por uma fracção do seu valor foi defendida por Lula; o mesmo se passou com a privatização de facto da companhia petrolífera estatal Petrobrás. Lula abraçou as políticas monetárias restritivas, acordos de excedente orçamental com o FMI e seguiu as prescrições orçamentais dos directores do FMI [15]

O regime Lula (2003-2011) adoptou as políticas neoliberais de Cardoso como um guia para promover a reconfiguração da economia do Brasil em benefício do capital estrangeiro e interno, agora assente no sector primário e de exportação de matérias-primas. Em 2005 o Brasil exportou US$55,3 mil milhões em matérias-primas e US$44,2 mil milhões em bens manufacturados; em 2011 o Brasil triplicou suas exportações de matérias-primas para US$162,2 mil milhões enquanto suas exportações de manufacturas aumentaram para uns meros US$60,3 mil milhões [16]

Por outras palavras, a diferença entre o valor das exportações de matérias-primas e de manufacturas aumentou de US$13 mil milhões para mais de US$100 mil milhões nos últimos cinco anos do regime Lula. A desindustrialização relativa da economia, o desequilíbrio crescente entre o sector extractivo dominante e o sector manufactureiro ilustra a reversão do Brasil para o seu "estilo colonial de desenvolvimento". 

O capitalismo agro-mineral, o estado e o povo 

O sector exportador do Brasil beneficiou-se enormemente com a ascensão dos preços das commodities . O principal beneficiário foi o sector exportador agro-mineral. Mas o custo para a indústria, transporte público, condições de vida, investigação e desenvolvimento e educação foi enorme. As exportações agro-minerais proporcionarem grandes receitas para o estado mas também extrairam-lhe grandes subsídios, benefícios fiscais e lucros. 

A economia industrial do Brasil foi afectada desfavoravelmente pelo boom da commodities devido à ascensão no valor da sua divisa, o real, em 40% entre 2010-2012, a qual aumentou o preços das exportações de manufacturas e diminuiu a competitividade dos produtos manufacturados [17] . As políticas de "mercado livre" também facilitaram a entrada de bens manufacturados mais baratos da Ásia, particularmente da China. Enquanto as exportações primárias para a China deram um salto, o sector manufactureiro do Brasil, particularmente bens de consumo como têxteis e calçados, declinou entre 2005 e 2010 em mais de 10% [18]

Sob os regimes Lula-Rousseff, a extrema dependência de um número limitado de commodities levou a um declínio agudo nas forças produtivas, medido pelos investimentos em inovações tecnológicas, especialmente aqueles relacionados com a indústria [19] . Além disso, o Brasil tornou-se mais dependente do que nunca de um único mercado. De 2000 para 2010 a importações chinesas de soja – a principal exportação agrícola – representaram 40% das exportações do Brasil; as importações chinesas de ferro – a exportação mineira chave – constituem mais de um terço do total das exportações daquele sector. A China também importa cerca de 10% das exportações brasileiras de petróleo, carne, celulose e papel [20] . Sob os regimes Lula e Rousseff, o Brasil reverteu para uma economia quase mono-cultural dependente de um mercado muito limitado. Em consequência, o arrefecimento da economia da China levou como era de prever a um declínio no crescimento do Brasil para menos de 2% de 2011 para 2013 [21]

Brasil: Paraíso económico do capital financeiro 

Sob as políticas de mercado livre do Partido dos Trabalhadores, o capital financeiro entrou a jorros no Brasil, como nunca antes. O investimento directo estrangeiro saltou de cerca de US$16 mil milhões em 2002, durante o último ano do regime Cardoso, para mais de US$48 mil milhões no último ano do governo de Lula [22] . A carteira de investimento – na maior parte de tipo especulativo – subiu de US$5 mil milhões negativo em 2002 para US$67 mil milhões em 2010. Entradas líquidas de investimento directo estrangeiro (IDE) e investimentos de carteira totalizaram US$400 mil milhões durante 2007-2011, a comparar com os US$79 mil milhões durante o período anterior de cinco anos [23] . Investimentos de carteira em títulos de altos juros retornaram entre 8% e 15%, o triplo e o quádruplo das taxas na América do Norte e Europa. Lula e Dilma são presidentes poster da Wall Street. 

De acordo com os indicadores económicos mais importantes, as políticas dos regimes Lula-Dilma foram as mais lucrativas para o capital estrangeiro além-mar e os investidores nos sectores agro-minerais primários na história recente do Brasil. 

O modelo agro-mineral e o ambiente 

Apesar da sua retórica política em favor da família agricultora, os regimes Lula-Dilva têm estado entre os maiores promotores do agro-negócio na história política brasileira. A maior fatia de recursos do estado foi concedida à agricultura, finanças e grandes proprietários rurais. De acordo com um estudo, em 2008/2009 pequenos proprietários receberam cerca de US$6,35 mil milhões, ao passo que o agro-negócio e grandes proprietários rurais receberam US$31,9 mil milhões em financiamento e crédito [24] . Menos de 4% dos recursos do governo e de investigação foi destinada à agricultura familiar e explorações agro-ecológicas. 

Sob Lula, a destruição das florestas tropicais verificou-se a um ritmo acelerado. Entre 2002 e 2008 a vegetação da região do Cerrado foi reduzida em 7,5% ou mais de 8,5 milhões de hectares, principalmente por corporações do agro-negócio [25] . O Cerrado brasileiro é uma das regiões de savana mais biologicamente ricas do mundo, concentrando-se na região centro-leste do país. De acordo com um estudo, 69% da terra de propriedade de corporações estrangeiras está concentrada no Cerrado do Brasil [26] . Entre 1995 e 2005 a fatia de capital estrangeiro no sector cerealífero agro-industrial saltou de 16% para 57%. O capital estrangeiro capitalizou com as políticas neoliberais sob Cardoso, Lula e Dilma deslocando-se para o sector do agro-combustível (etanol), controlando cerca de 22% das companhias brasileiras de cana-de-açúcar e etanol [27] – e rapidamente invadindo a floresta amazónica. 

Entre Maio de 2000 e Agosto de 2005, graças à expansão do sector exportador, o Brasil perdeu 132 mil quilómetros quadrados de floresta devido à expansão de grandes proprietários de terra e multinacionais dedicados à criação de gado, soja e madeira [28] . Entre 2003 e 2012, mais de 137 mil quilómetros quadrados foram desflorestados, crime ajudado por multibilionários investimentos do governo em infraestrutura, incentivos fiscais e subsídios. 



Em 2008 o dano à floresta tropical amazónica aumentou 67%. Sob pressão de indígenas, camponeses, trabalhadores rurais sem terra e movimentos ecológicos o governo entrou em acção para restringir a desflorestação. Ela declinou de um pico de 27.772 quilómetros quadrados em 2004 (o segundo, apenas inferior ao de 1995, sob Cardoso, com 29.059 km2) para 4.656 km2 em 2012 [29]

A criação de gado é a principal causa da desflorestação na Amazónia brasileira. Estimativas atribuem mais de 40% a grandes capitalistas e corporações multinacionais de processamento de carne [30] . Os principais investimentos em infraestrutura dos regimes Lula-Dilma, principalmente estradas, haviam aberto anteriormente terras florestais inacessíveis a empresas corporativas de gado. Sob Lula e Dilma, a agricultura comercial, especialmente a soja, tornou-se o segundo maior contribuidor para a desflorestação da Amazónia. 

Acompanhando a degradação do ambiente natural, a expansão do agro-negócio foi acompanhada pelo despojamento, assassínio e escravização de povos indígenas. A Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, informou que em 2004 a violência latifundiária atingiu o seu mais alto nível em pelo menos 20 anos – o segundo ano do mandato de Lula. Os conflitos subiram de 1.801 em 2004, quando em 2003 foram 1.690 e em 2002 foram 925 [31]

Segundo o governo, corporações de gado e soja exploram pelo menos 25 mil brasileiros (principalmente índios despojados da sua terra e camponeses sem terra) sob "condições análogas à escravidão". As principais ONGs afirmam que o número verdadeiro poderia ser dez vezes superior àquele. Mais de 183 fazendas foram inspeccionadas em 2005 libertando 4.133 escravizados [32]

Mineração: A fraude da "privatização" da Vale, agora poluidora número um 

Cerca de 25% das exportações do Brasil são constituídas por produtos minerais – o que destaca a crescente centralidade do capital extractivo na economia. O minério de ferro é o minério de maior importância, representando 78% do total das exportações mineiras. Em 2008, o ferro representou US$16,5 dos rendimentos da indústria, num total de US$22,5 mil milhões [33] . A vasta maioria das exportações de ferro está dependente de um único mercado – a China. Quando o crescimento da China diminui, a procura declina e a vulnerabilidade económica do Brasil aumenta. 

Uma firma, privatizada durante a presidência Cardoso, a Vale, através de aquisições e fusões controla quase 100% da produção das minas de ferro do Brasil[34] . Em 1997 a Vale foi vendida pelo estado neoliberal por US$3,14 mil milhões, uma pequena fracção do seu valor. Ao longo da década seguinte ela concentrou seus investimentos na mineração, estabelecendo uma rede global de minas e mais de uma dúzia de países na América do Norte e do Sul, Austrália, África e Ásia. O regime Lula-Dilma desempenhou um papel importante para facilitar a dominância da Vale no sector mineiro e o crescimento exponencial do seu valor. O valor líquido da Vale hoje é de mais de US$100 mil milhões mas ela paga uma das mais baixas taxas de imposto do mundo, apesar de ser a segunda maior companhia mineira do mundo, o maior produtor de minério de ferro e o segundo maior de níquel. Os royalties máximos sobre a riqueza mineral subiram de 2% para 4% em 2013 [35] . Por outras palavras, durante a década do governo "progressista" de Lula e Dilma, a taxa fiscal era um sexto daquela da conservadora Austrália, que mantém uma taxa de 12%. 

A Vale tem utilizado os seus enormes lucros para diversificar operações mineiras e actividades relacionadas. Ela liquidou negócios como o aço e a celulose vendendo-os por US$2,9 mil milhões – aproximadamente o preço pago por todo o complexo mineral. Em vez disso concentrou-se na compra de minas de ferro de competidores e literalmente na monopolização da produção. A Vale expandiu-se no manganês, níquel, cobre, carvão, potassa, caulim, bauxita; comprou ferrovias, portos, terminais de contentores, navios e pelo menos oito centrais hidroeléctricas; dois terços das suas centrais hidroeléctricas foram construídas durante o regime Lula [36]

Em suma, o capitalismo floresceu durante o regime Lula com lucros recorde no sector extractivo, perigo extremo para o ambiente e deslocamento maciço de povos indígenas e produtores em pequena escala. A experiência mineira da Vale sublinha as poderosas continuidades estruturais entre o regime neoliberal de Cardoso e o de Lula: o primeiro privatizou a Vale a preço de saldo, o último promoveu a Vale como o produtor e exportador monopolista dominante de ferro, ignorando totalmente a concentração de riqueza, lucros e poderes do capital extractivo. 

Em comparação com o crescimento geométrico dos lucros de monopólio do sector extractivo, os miseráveis dois dólares por dia de Lula e Dilma, dados como subsídio para reduzir a pobreza, dificilmente permitem classificar este regime como "progressista" ou de "centro-esquerda". 

Se bem que Lula e Dilma estejam embevecidos com o crescimento do "campeão mineiro" do Brasil (a Vale), outros não estão. Em 2002, a Public Eye, um grupo de direitos humanos e ambientais, deu à Vale um "prémio" como a pior corporação do mundo: "A Vale Corporation actua com o maior desrespeito pelo ambiente e direitos humanos no mundo" [37] . Os críticos citaram a construção da barragem de Belo Monte, da Vale, no meio da floresta tropical amazónica como tendo "consequências devastadoras para regiões com biodiversidade única e tribos indígenas" [38]

O sector mineiro é capital intensivo, gera poucos empregos e acrescenta pouco valor às suas exportações. Ele tem degradado á água, a terra e o ar; afectado desfavoravelmente comunidades locais, despojado comunidades índias e criado uma economia de altos e baixos. 

Com o acentuado arrefecimento da economia chinesa, especialmente o seu sector manufactureiro em 2012-14, os preços do ferro e do cobre caíram. As receitas de exportação do Brasil declinaram, minando o crescimento geral. É especialmente importante que a canalização de recursos para infraestruturas destinadas aos sectores agro-minerais resultou no esgotamento de fundos para hospitais, escolas e transporte urbano – os quais estão de deprimidos e proporcionam um serviço fraco a milhões de trabalhadores urbanos. 

O fim do "mega ciclo" extractivo e a ascensão de protestos em massa 

O modelo de orientação extractiva do Brasil entrou num período de declínio e estagnação em 2012-2013 quando a procura mundial – especialmente na Ásia – declinou, sobretudo na China [39] . O crescimento flutuou em torno dos 2%, mal acompanhando o crescimento populacional. A classe baseada neste modelo de crescimento, especialmente o estrato reduzido de investidores estrangeiros de carteira, mineração monopolista e grandes corporações do agro-negócio, os quais controlam e arrecadam a maior parte das receitas e lucros, limitou os "efeitos gotejamento" ("trickle down effects") que os regimes Lula-Dilma promoveram como a sua "transformação social". Se bem que alguns programas inovadores tenham sido iniciados, o acompanhamento e a qualidade dos serviços realmente deteriorou-se. 

O número de camas para pacientes em hospitais declinou de 3,3 por 1000 brasileiros em 1993 para 1,9 em 2009, o segundo mais baixo da OCDE [40] . As admissões em hospitais financiados pelo sector público caiu e as longas esperas e baixa qualidade são endémicos. 

O gasto federal no sistema de saúde tem caído desde 2003, quando ajustado à inflação, segundo o estudo da OCDE. A despesa pública em saúde é baixa: 41%, a comparar com 82% no Reino Unido e 45,5% nos EUA [41] . A polarização de classe inerente ao modelo extractivo agro-mineral estende-se às despesas do governo, impostos, transportes e infraestrutura: financiamento maciço para rodovias, barragens, centrais hidroeléctricas para o capital extractivo, contra gastos inadequados e em declínio para transportes públicos, saúde pública e educação. 

As raízes mais profundas dos levantamentos em massa de 2013 estão localizadas na política de classe de um estado corporativo. Os regimes Cardoso e Lula-Dilma, ao longo das últimas duas décadas, seguiram uma agenda elitista e conservadora, amortecida pela política clientelista e paternalista que neutralizou a oposição em massa durante um período de tempo extenso, até que a rebelião em massa e os protestos à escala nacional desmascararam a fachada "progressista". 

Publicistas de esquerda e sabichões conservadores que saudaram Lula como um "progressista pragmático" ignoraram o facto de que durante o seu primeiro mandato o apoio do estado à elite do agro-negócio foi sete vezes maior do que a oferecida aos agricultores familiares que representavam aproximadamente 90% da força de trabalho rural e proporcionavam a maior parte dos alimentos para consumo local. Durante o segundo mandato de Lula, o apoio financeiro do Ministério da Agricultura ao agro-negócio durante a safra 2008.09 foi seis vezes maiores do que os fundos concedidos ao programa de redução da pobreza de Lula, o altamente publicitado programa "Bolsa Família" [42] . Ortodoxia económica e demagogia populista não são substitutos de mudanças estruturais substantivas, envolvendo uma reforma agrária ampla que abranja 4 milhões de trabalhadores rurais sem terra, assim como uma renacionalização de empresas extractivas estratégicas como a Vale a fim de financiar agricultura sustentável e preservar a floresta tropical. 

Ao invés disso, Lula e Dilma saltaram em força para o boom do etanol: "açúcar, açúcar por toda a parte" mas sem nunca perguntar, "Que bolsos enchem?" A crescente rigidez estrutural do Brasil, sua transformação numa economia capitalista extractiva, potenciou e ampliou o âmbito da corrupção. A competição por contratos mineiros, concessões de terra e projectos gigantes de infraestrutura encoraja as elites dos negócios agro-minerais a pagarem ao "partido no poder" a fim de assegurar vantagens competitivas. Isto se verificou particularmente com o "Partido dos Trabalhadores" cuja liderança executiva (destituída de trabalhadores) era composta de profissionais em ascensão, aspirando a posições na classe da elite que encarava os subornos nos negócios para o seu "capital inicial" como uma espécie de "acumulação inicial através da corrupção". 

O boom das commodities, durante quase uma década, encobriu as contradições de classe e a extrema vulnerabilidade de uma economia extractiva dependente de exportações de bens primários para mercados limitados. As políticas neoliberais adaptadas à promoção de exportações de commoditieslevaram ao influxo dos bens manufacturados e enfraqueceram a posição do sector industrial. Em consequência, os esforços de Dilma para renovar a economia produtiva a fim de compensar o declínio das receitas de commodities não funcionaram: estagflação, excedentes orçamentais em declínio e enfraquecimento da balança comercial praguejaram a sua administração precisamente quando a massa de trabalhadores e da classe média estão a pedir uma redistribuição de recursos em grande escala, de subsídios ao sector privado para investimentos em serviços públicos. 

As fortunas politicas de Rousseff e do seu mentor, Lula, foram construídas sobre os frágeis fundamentos do modelo extractivo. Eles falharam em reconhecer os limites do seu modelo, muito menos em formular uma estratégia alternativa. Uma colcha de retalhos de propostas, reformas políticas, retórica anti-corrupção face aos protestos de milhões de pessoas que se estendem a todas as grandes e pequenas cidades do país não resolve o problema básico de desafiar a concentração de riqueza, propriedade e poder de classe da elite agro-mineral e financeira. As suas aliadas multinacionais controlam as alavancas do poder político, com e sem corrupção e bloqueiam quaisquer reformas significativas. 

A era do "Populismo Wall Street" de Lula está acabada. A ideia de que altas receitas provenientes das indústrias extractivas podem comprar lealdades populares através do consumismo, financiado pelo crédito fácil, está ultrapassada. Os investidores da Wall Street já não louvam mais os BRICs como um novo mercado dinâmico. Como é previsível eles estão a transferir seus investimentos para actividades mais lucrativas em novas regiões. Quando a carteira de investimentos declina e a economia estagna, o capital extractivo intensifica sua pressão dentro da Amazónia e com terrível preço por parte da população indígena e a floresta tropical. 

O ano de 2012 foi um dos piores para os povos indígenas. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, filiado à Igreja Católica, o número de incidentes violentos contra as comunidades índias aumentou 237% [43] . O regime Rousseff deu aos índios o menor número de títulos legais à terra do que qualquer presidente desde o retorno da democracia (sete títulos). A esta taxa, o estado brasileiro levará um século para titular os pedidos de terra das comunidades índias. Ao mesmo tempo, em 2012, 62 territórios índios foram invadidos por latifundiários, mineiros e madeireiros, 47% mais do que em 2011 [44] . A maior ameaça de despojamento vem de projectos como a mega barragem de Belo Monte e centrais hidroeléctricas gigantes promovidas pelo regime Rousseff. Quando a economia agro-mineral vacila, as comunidades índias estão a ser esmagadas ("genocídio silencioso") a fim de intensificar o crescimento agro-mineral. 

Os maiores beneficiários da economia extractiva do Brasil são os principais traders de commodities do mundo os quais, à escala mundial, embolsaram US$250 mil milhões ao longo do período 2003-2013, ultrapassando os lucros das maiores firmas da Wall Street e cinco das maiores companhias automobilísticas. Em meados de 2000, alguns traders desfrutaram retornos de 50 a 60 por cento. Mesmo em 2013 eles estavam numa média de 20-30% (Financial Times , 4/15/13, p. 1). Especuladores de commodities ganharam mais de 10 vezes o que foi gasto com os pobres. Estes especuladores lucram com flutuações de preços entre localizações, com oportunidades de arbitragem proporcionadas pela abundância de discrepâncias de preços entre regiões. Traders monopolistas eliminaram competidores e os impostos baixos (5-15%) aumentaram a sua mega riqueza. Os maiores beneficiários do modelo extractivista Lula-Dilma, ultrapassando mesmo os gigantes agro-minerais, são os vinte maiores traders -especuladores de commodities. 

Capital extractivo, colonialismo interno e o declínio a luta de classe 

A luta de classe, especialmente sua expressão em greves conduzidas por sindicatos e trabalhadores rurais localizados em acampamentos que lançam ocupações de terras, declinou drasticamente ao longo do último quarto de século. O Brasil durante o período que se seguiu à ditadura militar (1989) foi um líder mundial em greves, com 4000 em 1989. Com o retorno da política eleitoral e a incorporação e legalização dos sindicatos, especialmente na estrutura de negociações colectivas tripartidas, as greves declinaram para uma média de 500 durante a década de 1990. Com o advento do regime Lula (2003-2010) as greves declinaram ainda mais, para 300-400 por ano [45] . As duas maiores centrais sindicais, CUT e Força Sindical, aliadas ao regime Lula, tornaram-se adjuntas virtuais do Ministério do Trabalho: sindicalistas asseguravam posições no governo e as organizações recebiam grandes subsídios do estado, ostensivamente para treino e educação do trabalhador. Com o boom das commodities e a ascensão das receitas do estado e rendimentos de exportações, os governos formularam uma estratégia do gotejamento, aumentando o salário mínimo e lançando novos programas anti-pobreza. Nas zonas rurais, o MST continuava a pedir uma reforma agrária e empenhado em ocupações de terras mas a sua posição de apoiar criticamente o Partido dos Trabalhadores em troca de subsídios sociais levou a um declínio agudo nos acampamentos a partir dos quais lançar ocupações de terras. No arranque da presidência de Lula (2003) o MST tinha 285 acampamentos, em 2012 tinha 13 [46]

O declínio da luta de classe e a cooptação dos movimentos de massa estabelecidos coincidiram com a intensificação da exploração capitalista extractiva do interior do país e o violento despojamento das comunidades indígenas. Por outras palavras, a exploração acrescida do "interior" pelo capital agro-mineral facilitou a concentração de riqueza nos grandes centros urbanos e nas áreas rurais estabelecidas, levando à cooptação de sindicatos e movimentos rurais. Portanto, apesar de algumas declarações retóricas e protestos simbólicos, o capital agro-mineral encontrou pouca solidariedade organizada entre o trabalho urbano e os índios despojados e trabalhadores rurais escravizados na Amazónia "arrasada". Lula e Dilma desempenharam um papel chave na neutralização de qualquer frente unida nacional contra as depredações do capital agro-mineral. 

A degeneração das principais confederações trabalhistas é visível não só com a sua presença no governo e com a ausência de greves como também na organização dos comícios anuais de trabalhadores no 1º de Maio. Os mais recentes virtualmente não incluíram qualquer conteúdo político. Há espectáculos de música, temperados com lotarias oferecendo automóveis e outras formas de entretenimento consumista, financiados e patrocinados por grandes bancos privados e multinacionais [47] . Esta relação entre a cidade e a Amazónia lembra com efeito uma espécie de colonialismo interno, no qual o capital extractivo subornou uma aristocracia do trabalho como aliado cúmplice para a sua pilhagem das comunidades do interior. 

Conclusão: Com movimentos de massa, o modelo extractivista está sob sítio 

Se a CUT e a Força Sindical estão cooptadas, o MST está enfraquecido e as classes de baixo rendimento receberam aumentos monetários, como e por que movimentos de massa sem precedentes emergiram em simultâneo numa centena de grandes cidades e outras menores por todo o país? 

O contraste entre os novos movimentos de massa e os sindicatos foi evidente na sua capacidade para mobilizar apoio durante os dias de protesto de Junho-Julho/2013: os primeiros mobilizaram 2 milhões, os últimos 100 mil. 



O que precisa ser esclarecido é a diferença entre os pequenos grupos locais de estudantes ( Movimento Passe Livre , MPL) que detonaram os movimentos de massa com base num aumento em tarifas de autocarros e os gastos faraónicos do estado com a Copa do Mundo (campeonato de futebol) e as Olimpíadas e os movimentos de massa espontâneos que questionaram as políticas orçamentais do estado e as prioridades na sua totalidade. 

Muitos publicistas dos regimes Lula-Dilma aceitam sem questionamento as verbas orçamentais atribuídas a projectos sociais e de infraestrutura, quando de facto apenas uma fracção é realmente gasta na medida em que são roubadas por responsáveis corruptos. Exemplo: entre 2008-12 foram destinados R$6,5 mil milhões para transporte públicos nas cidades principais mas só 17% foi realmente gasto ( Veja, 17/07/2013). Segundo a ONG "Contas Abertas", ao longo de um período de dez anos o Brasil gastou mais de R$160 mil milhões em obras públicas que não estão concluídas, nunca deixaram a prancheta de desenho ou foram roubadas por responsáveis corruptos. Um dos mais notórios casos de corrupção e má administração é a construção de 12 quilómetros de metro em Salvador, com a condição estabelecida de que seria completado em 40 meses ao custo de R$307 milhões. Treze anos depois (2000-13) as despesas aumentaram para cerca 1000 milhões de reais e escassos 6 km foram completados. Seis locomotoras e 24 carruagens compradas por 100 milhões de reais decompuseram-se e a garantia dos fabricantes expirou ( Veja, 17/07/2013). O projecto foi paralisado por acções de sobrefacturação corrupta envolvendo responsáveis federais, estaduais e municipais. Enquanto isso, 200 mil passageiros são forçados a viajar diariamente em autocarros decrépitos. 

A corrupção profunda que infecta toda a administração Lula-Dilma conduziu a um vasto fosso entre os apregoados feitos do regime e a deteriorada experiência diária da grande maioria do povo brasileiro. O mesmo fosso existe em relação às despesas para preservar a floresta tropical amazónica, as terras dos índios e para financiar os programas anti-pobreza: responsáveis corruptos do PT desviam fundos para financiar suas campanhas eleitorais ao invés de reduzir a destruição ambiental e reduzir a pobreza. 

Se a riqueza do boom no modelo extractivo agro-mineral "filtrou-se" para o resto da economia e elevou salários, isso fez-se de um modo muito irregular, desigual e distorcido. A grande riqueza concentrada no topo encontrou expressão numa espécie de novo sistema casta-classe no qual transporte privado – helicópteros e heliportos – clínicas privadas, escolas privadas, áreas de recreação privadas, exércitos de segurança privada para os ricos e abastado foram financiados por subsídios promovidos pelo estado. Em contraste, as massas experimentaram um agudo declínio relativo e absoluto em serviços públicos nas próprias experiências essenciais da vida. A ascensão no salário mínimo não compensada por 10 horas de espera em apinhadas salas públicas de emergência, transportes irregulares e sobrelotados, ameaças pessoais diárias e insegurança (50 mil homicídios). Pais que recebem a esmola anti-pobreza enviam seus filhos para escola decadentes onde professores mal pagos correm de uma escola para outra mal atendendo suas classes e proporcionando um fraco aprendizado. A maior indignidade para aqueles que recebem esmolas de subsistência foi dizerem-lhes que, nesta sociedade de classe-casta, eles eram "classe média"; que faziam parte da imensa transformação social que retirou 40 milhões da pobreza, quando se arrastavam para suas casas com horas de tráfego, retornando de empregos cujo salário mensal pagava uma partida de ténis num clube de campo da classe alta. A economia extractiva agro-mineral acentuou todas as desigualdades sócio-económicas do Brasil e o regime Lula-Dilma acentuou esta diferença pela elevação das expectativas, ao afirmar o seu cumprimento e a seguir ignorar os impactos sociais reais na vida diária. As verbas orçamentais em grande escala do governo para transporte público e promessas de projectos para novas linhas de metro e comboio foram adiadas durante décadas pela corrupção em grande escala e a longo prazo. Os milhares de milhões gastos ao longo de anos renderam resultados mínimos – uns poucos quilómetros completados. O resultado é que o fosso entre as projecções optimistas do regime e a frustração das massas aumentou amplamente. O fosso entre a promessa populista e o aprofundamento da clivagem entre classes sociais não será encoberto por lotarias sindicais e almoços VIP. Especialmente para toda uma geração de jovens trabalhadores que não estão presos às antigas memórias do Lula "metalúrgico" um quarto de século antes. A CUT, a FS, o Partido dos Trabalhadores são irrelevantes ou são percebidos como parte do sistema de corrupção, estagnação social e privilégio. A característica mais gritante da nova onda de protesto de classe é a divisão geracional e organizacional: trabalhadores metalúrgicos mais velhos ausentes, jovens trabalhadores não organizados dos serviços presentes. Organizações locais e espontâneas substituem os sindicatos cooptados. 

O local de confrontação é a rua – não o lugar de trabalho. As reivindicações transcendem salários monetários – as questões em causa são o salário social, padrões de vida, orçamentos nacionais. Em última análise os novos movimentos sociais levantam a questão das prioridades de classe nacionais. O regime está a despojar centenas de milhares de residentes em favelas – um expurgo social – para construir complexos desportivos e acomodações de luxo. As questões sociais permeiam os movimentos de massa. A sua independência organizativa e autonomia sublinham o mais profundo desafio a todo o modelo extractivista neoliberal; muito embora nenhuma organização ou liderança nacional tenha emergido para elaborar uma alternativa. Mas a luta continua. Os mecanismos tradicionais de cooptação fracassam porque não há líderes identificáveis para subornar. O regime, a enfrentar o declínio dos mercados de exportações e dos preços das commodities, e profundamente comprometido com investimentos não produtivos de muitos milhares de milhões de dólares nos jogos, tem poucas opções. O PT perdeu há muito a sua vanguarda anti-sistémica. Seus políticos estão ligados a e financiados por bancos e elites agro-minerais. Os líderes sindicais protegem seus feudos, suas deduções mensais automáticas e seus estipêndios. Os movimentos de massa das cidades, tal como as comunidades índias da Amazónia, terão de encontrar novos instrumentos políticos. Mas ao tomarem o caminho da "acção directa" eles deram o primeiro grande passo.

[1] James Petras and Henry Veltmeyer Cardoso's Brazil: A land for Sale (Lanham, Maryland: Rowman and Littlefield 2003/Chapter 2. 
[2] ibid Chapter 1. 
[3] James Petras, Brasil e Lula – Ano Zero (Blumenau: EdiFurb 2005) Chapter 1. 
[4] Peter Evans, Dependent Development: The Alliance of Multinational State and Local Capital in Brazil (Princeton NJ : Princeton University Press 1979). 
[5] Jose Serra "The Brazilian Economic Miracle" in James Petras Latin America from Dependence to Revolution (New York: John Wiley 1973) pp. 100 – 140. 
[6] Brasil e Lula op cit. Ch. 1 
[7] Cardoso's Brazil Ch. 5 
[8] ibid, Ch.3 and 6 
[9] ibid, Table A.12, p. 126 
[10]iIbid, Ch. 3. 
[11] ibid, Ch. 1, 2. 
[12] ibid, Ch. 5 
[13] ibid, Ch. 2. 
[14] ibid, Table A. 6. 
[15] Brasil e Lula, Ch. 1. 
[16] Brazil Exports by Product Section (USD) www.INDEXMUNDI.com/trade/exports/Brazil
[17] Peter Kingstone "Brazil 's Reliance on Commodity Exports threatens its Medium and Long Term Growth Prospects" www.americasquarterly.or/icingstone
[18] Brazil Exports op cit. 
[19] Kingstone op cit. 
[20] Kingstone op cit. World Bank Yearbook 2011. 
[21] Financial Times, 3/26/13, p. 7. 
[22] Brazil's Surging Foreign Investment: A Blessing or Curse? VSITC Executive Briefing on Trade Oct. 2012. 
[23] ibid 
[25] Ibid. 
[26] Bernard Mancano Fernandes and Elizabeth Alice Clements "Land Grabbing, Agribusiness and the Peasantry in Brazil and Mozambique " Agrarian South (April 2013). 
[27] Rainforests op cit. 
[28] Rainforests op cit. 
[29] Rainforests op cit. 
[30] ibid 
[31] Jose Manual Rambla "La agonia de los pueblos indigenas, buera de la agenda reivindicativa de Brasil" rebellion.org/notice, 5/7/13. 
[32] Rainforests ibid p. 8 
[35] The Economist, June 2, 2013. 
[36] Wikipedia, p. 9. 
[37] Guardian, Jan. 27, 2012. 
[38] ibid 
[39] Financial Times, July 13, 2013, p. 9. 
[40] Financial Times, July 1, 2013. 
[41] ibid 
[42] Rainforest op cit. 
[43] ibid 
[44] ibid 
[45] Raul Zibechi, "El fin del consenso lulista" rebellion 7/7/13 
[46] Ibid. 
[47] Ibid.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Varg Vikernes - Terrorismo na França

por Varg Vikernes

I

Na terça-feira eu acordei um pouco mais cedo do que normalmente faço. Sim, eu normalmente desperto porque o cachorro quer urinar no quintal, por volta das 7:00, mas nessa manhã eu acordei por causa de um barulho alto. Eu mais ou menos saltei da cama e percebi que alguém estava invadindo nossa casa. Felizmente eu imediatamente vi que na verdade era a polícia, assim eu não peguei em qualquer meio de defesa, e ao invés só ergui os braços e aguardei a polícia entrar. "Ah, é só a polícia". Meu segundo pensamento foi "O que raios eles estão fazendo? Eles estão realmente destruindo nossa entrada inteira só por causa do meu blog?" Eu não tinha certeza de se eles estavam ou não dando tiros em nossa sala de estar ou na verdade jogando bombas de efeito moral. Após um total de três explosões (que depois descobriu-se terem sido tiros) e muita destruição de vidros e batentes de porta eles entraram.

Minha esposa grávida, ainda não consciente de que era na verdade a polícia, tentou cobrir nosso filho mais novo e - ela me disse depois - pretendia pegar o seu rifle Browning .22 LR, quando ela entendeu pela minha reação que era a polícia. Nosso filho mais novo, estava dormindo em nossa cama naquela noite (porque minha sogra estava visitando), e estava portanto diretamente atrás de mim e na frente da boca dos rifles de assalto da polícia.

Desculpa divagar, mas às vezes quando você compra cuecas você leva três em um único pacote, e por alguma razão uma das três é sempre de alguma cor horrível, e obviamente eu estava vestindo uma dessas naquela manhã de terça-feira. Uma cueca grotescamente laranja. Já tendi sido arrastado pela rua ou por corredores de prisão de cueca antes, pela polícia norueguesa ou guardas de prisão, eu pensei comigo mesmo que isso acabaria se repetindo e eu seria fotografado com minha barriguinha, meu cabelo ralo, meus braços bronzeados em grande contraste com meu corpo pálido e usando uma cueca laranja horrível. (Todo mundo acharia que eu era na verdade holandês...).

Quando eu completei minha pequena cadeia de pensamentos inteligentes, sobre cuecas laranjas e tudo mais, a polícia já havia subido as escadas e - simplesmente - me prendeu, deitando-me com a face para baixo na cama e com algemas às costas. Para minha surpresa eles também prenderam e algemaram minha esposa grávida, deixando meu caçula chocado sentado ali sem a proteção materna.Uma horda de oficiais de polícia em roupas civis chegou e o suposto chefe disse "Sim, esse é o Vikernes".

A porta da frente da sala de estar após a ação policial:


Agora, felizmente minha sogra estava lá, para cuidar de nossos filhos, de modo que eu não fiquei tão preocupado em relação a isso. Eu os ouvi conversando e ela tentando acalmar as crianças. Me foi - para minha grande surpresa - permitido botar roupas, e me foi dito que eu era suspeito de ter cometido ou de me preparar para cometer um ato de terrorismo, e foi mantido em custódia enquanto a polícia em roupas civis vasculhava nossas coisas no escritório. De modo geral, em nossa casa, eles confiscaram livros, munições e 5 pentes de rifle, computadores, pen drives, HDs, um rifle Remington .222 CZ 527, um rifle Browning .22 LR e uma escopeta Bajkal .22, um rifle de ar comprimido, dois rifles de airsoft, facas de caça, facas de sobrevivência, três bestas com setas, um gládio, um scramasax e duas lanças. Eles vasculharam a casa inteira e a propriedade com cães, mas - é claro - não encontraram nada. Eles também encontraram todos os registros e notas fiscais para todos os rifles e munições, e a permissão de posse de armas de minha esposa.

Eles não pegaram a revista de caça da minha esposa, qualquer de nossos livros sobre camping, nosso equipamento de pesca, os livros de primeiros socorros, nossas cantinas, ou qualquer outro equipamento de caça, sobrevivência ou camping. (...)

Depois disso eu fui levado de volta para a sala de estar e vi que meu caçula havia vomitado nos braços de sua avó, e percebi que ele estava muito abalado. A ação policial havia sido obviamente dramática demais para uma criança de 3 anos e meio. Ela estava tentando confortá-lo. Aparentemente as coisas não estavam indo tão bem com as crianças. Sua mãe grávida foi posta na frente das crianças em uma cadeira, algemada e sangrando pelo nariz.

Do lado de fora havia carros estacionados no quintal e havia policiais da DCRI por todo lugar. Puseram um capuz sobre minha cabeça e eu fui rapidamente colocado dentro de um carro junto de metade de uma equipe da SWAT. Minha esposa foi posta no carro de trás com a outra metade da equipe da SWAT. Os dois carros deixaram a propriedade e dirigiram bastante rápido na direção da autoestrada, e continuaram a 160-170 km/h até Brive. A polícia manobrou profissionalmente o carro pelo tráfego, e chegamos em segurança a Brive. Nós fomos postos em celas diferentes. Eu sabia que eles não tinham qualquer razão para nos acusar de "terrorismo", mas eu tinha as minhas péssimas experiências com a polícia norueguesa frescas na minha cabeça. Teria a polícia francesa também fabricado evidência? Também eles mentiriam? Também eles plantariam evidência? Também eles me manteriam preso por um ano antes de me deixaram comparecer perante uma corte política para passar por algum pseudo-julgamento? Eu não sabia ainda, portanto estava preocupado. Infelizmente minha esposa estava envolvida também, e meus três filhos foram deixados para aguardar por nosso retorno.

Felizmente a polícia fez o possível para remover o vidro do chão e chegou até mesmo a garantir que não haveria fragmentos de vidro nos calçados de nossos filhos. Aqui está parte do vidro encontrado em nosso chão, depois de eu ter limpo a área fora da pilha em si:



II

Infelizmente eu já estive em uma cela policial antes. Várias vezes, na verdade. No total por mais ou menos um mês. Não é muito confortável. Você simplesmente fica ali, às vezes por dias, ou em casos extremos até por semanas, antes de ser transferido para uma prisão normal e uma cela de prisão normal onde você vai ficar um ou dois anos em custódia esperando o julgamento.

Na França me permitiram falar com um advogado surpreendentemente rápido. Ele me disse que eu fui preso por "terrorismo", mas que eles não pareciam ter qualquer tipo de evidência para isso, assim ele supôs que isso havia sido feito apenas para lhes dar mais tempo e mais legitimidade em relação ao tratamento que nos foi dado.

Não tendo encontrado nada em nossa casa ou em nossa propriedade sugerindo de qualquer forma que eu e minha esposa tivéssemos quaisquer planos criminosos aos policiais restou tentar fazer com que falássemos algo que nos causasse problemas, digamos assim. Só que eles não pareciam realmente interessados em nos "pegar". Ao invés eles tentaram conseguir clareza. Eu fiquei em choque! Tendo tido experiência com o bando criminoso conhecido como a polícia norueguesa, que jamais parecia se importar com qualquer coisa além de me pegar e a qualquer um que eles tivessem preso, não importassem as circunstâncias, eu me encontrei conversando com policiais que estavam efetivamente fazendo seu trabalho, como as pessoas comuns esperam que eles façam e como se supõe que eles devam fazer. Sem falsos testemunhos. Sem evidência fabricada. Sem plantar itens ilegais em nossa propriedade. Sem tentativas desesperadas de distorcer tudo que eu dissesse. Sem incompreensões obviamente deliberadas. Sem tentativas de colocar eu e Marie um contra o outro. Nada, com a exceção de alguma confusão em relação ao que havia sido apreendido e quem estava presente quando isso havia sido feito. Ao mesmo tempo os policiais locais em Brive se comportaram exemplarmente também, todos eles e o tempo todo. Eles foram educados e profissionais. Sem gritar vulgaridades para os presos. Sem comportamento ameaçador. Sem gargalhadas ou exposição ao ridículo ou outras coisas desagradáveis. Sem abuso de poder. Nossa! A França era realmente diferente. Nessa hora eu senti um pouco de vergonha por ser norueguês. Talvez a civilização não tivesse ainda chegado à Noruega afinal.

Eles conseguiram a clareza que queriam e rapidamente descobriram que eu e minha esposa não tínhamos quaisquer planos terroristas. Porém, os policiais da DCRI estavam trabalhando com ordens "vindas de cima", como eles disseram, de modo que eles tinham que encontrar algum tipo de justificativa para a nossa prisão, obviamente comandada "desde cima", de modo que eles começaram a preparar outras acusações contra nós. Como, será que seríamos pais adequados? Me fizeram perguntas sobre as roupas camufladas de meus filhos, sobre arquearia e o uso de espada por minha filha em uma das fotos de meu blog.

Seria isso treinamento militar e doutrinação política do meu filho mais velho?


Seria isso treinamento militar e doutrinação polícia da minha filha de 2 anos?


Não? Okay. Eu não tenho idéia do que passou pelas cabeças deles quando eles fizeram essas perguntas, mas pelo menos eles não insistiram que isso era treinamento militar ou doutrinação de qualquer tipo. Garotos gostam de brincar com armas de brinquedo e roupas camufladas. Garotos amam espadas e escudos de madeira. Eles aduram brincar de pique-esconde (e roupas camufladas são ótimas para isso). Garotos armam arco e flecha, eu também gostava quando era jovem. A menina de 2 anos está brincando com a espada de madeira de seu irmão mais velho? Não, isso não é treinamento militar e lavagem cerebral. Não é doutrinação política. É perfeitamente normal.

"O cara no topo", um político certamente, queria me pegar por alguma coisa, porém. Nada de planos terroristas desvendados após as primeiras 24 horas? Nenhuma maligna doutrinação nazista de crianças desvendada após as primeiras 48 horas? Merde! Assim eles precisavam encontrar algo de que me acusar, e estenderam a custódia por mais 48 horas. Minha esposa grávida foi solta da custódia, porém, e foi bem sucedidamente retirada pela DCRI sem ser notada pela horda de jornalistas que havia acampado do lado de fora da delegacia.

III

As entrevistas do dia seguinte começaram normalmente, por volta das 8 a.m., e o tema foi bastante político, e obviamente dirigido a uma preparação de uma possível persecução legal, com base nas minhas possíveis violações aqui na Thulean Perspectiva da proibição francesa da expressão de certas opiniões políticas. Posteriormente no mesmo dia um juiz queria mais respostas e mais clareza em relação a respostas que eu havia dado antes, tanto no mesmo dia como nos dois dias anteriores, e segundo a polícia ele queria uma imagem mais precisa.

Meu advogado me contou no fim do dia que eu provavelmente seria transferido para Paris, a um lugar especial dedicado a essas questões, e após ser devolvido à cela policial eu comecei a me preparar mentalmente para outra longa e dura batalha contra todas as probabilidades em um sistema hostil querendo me punir de modo a me amedrontar e a outros de falarem contra a "elite". Crimes políticos. Punição por expressar minha opinião e expor minhas preocupações em relação ao futuro.

Um dos investigadores retornou à cela pouco depois, talvez após apenas 20 ou 30 minutos, e me disse que o juiz havia lido o último depoimento e eu poderia ir para casa. Mas eu havia sido agraciado com mais 48 horas sob custódia, e apenas 10 horas haviam se passado! Como isso seria possível? Bem, eu havia dado minha explicação, que pareceu boa o suficiente, então eu poderia simplesmente ir embora. Tão fácil quanto isso. Novamente me deparei com um choque cultural, estando acostumado às patéticas investigações policiais na Noruega, onde nunca ninguém é solto até o último minuto, independentemente das circunstâncias, e sempre tentando manter você preso pelo maior tempo possível. Eles teriam pelo menos me mantido preso por aquelas 48 horas! Não, a investigação havia acabado e eu poderia simplesmente ir embora...certo, como norueguês eu realmente não esperava isso, mas eu obviamente não discutiria, então lá fui eu.

A mesma equipe de SWAT que me havia apreendido foi encarregada de me trazer de volta pra casa, em roupas civis dessa vez, mas ainda com balaclavas. Eles ainda eram excepcionalmente autoritários, profissionais e claros, por assim dizer, e nós deixamos a delegacia em um carro passando por um grupo de fotógrafos e repórteres, que tiveram que ser fisicamente empurrados para fora do caminho para deixar espaço para o carro. Eles continuaram correndo atrás do carro por um tempo, tentando conseguir uma foto que pudesse ser usada. Pelos Deuses! Eu senti vergonha de ser da mesma espécie desses indivíduos; que grupo horrível de pessoas! (Sim, minha esposa me moderou bastante aqui. Não era isso o que eu pretendia falar deles inicialmente...)

Durante a jornada para casa os policiais dirigiram e se comportaram não menos profissionalmente do que antes, se mantendo atentos a perseguidores (i.e., jornalistas), e rotineiramente dizendo um ao outro o que viam. "Direita livre". "Esquerda livre". "Atenção! Volkswagen", quando um Volkswagen deu partida a partir de um estacionamento quando passamos por ele, et cetera. Sendo um motorista de um Lada Niva eu posso garantir que a viagem de Brive até minha casa certamente durou bem menos tempo do que o normal.

Eles me perguntaram onde eu queria ser deixado, porque eles me disseram que havia jornalistas cercando a propriedade, e eu os disse para seguirem por uma trilha por trás de um bosque próximo. Eles pararam e me acompanharam na caminhada té a casa. Eu expliquei como eu planejava entrar em nosso quintal, e eles me disseram que tinham que garantir que eu entrasse antes que eles pudessem me deixar. Às vistas deles eu me aproximei da casa e lhes dei um sinal de positivo quando cheguei a nosso quintal. Foi bastante bizarro. Quatro homens jovens bem constituídos usando balaclavas e luvas de combate, mas camisetas, escondidos sob as árvores. Se eu tivesse me deparado com um grupo desses em uma trilha de floresta, caminhando com as crianças, eu teria ficado bastante preocupado. Pensei na velha senhora que eu havia visto algumas vezes no caminho, e esperava que ela não estivesse caminhando por ali naquela tarde...

A entrada traseira estava trancada, então eu tive que ir para a frente, mas tentei fazê-lo quando não houvesse ninguém ali. A barra estava limpa e eu abri uma porta, que estava destrancada, e quando eu fechei a porta vi um fotógrafo tirando fotos.

A escória jornalística da delegacia em Brive começou a aparecer, um após o outro, e começaram a tirar fotos de tudo. Da garagem. Da casa. Dos carros. Da árvore em nosso jardim. Das janelas. Dos carros novamente. Dos carros de outro ângulo. Da casa de outro ângulo. Et cetera. De novo e de novo. Isso continuou por horas. Por que? Por que raios isso seria de qualquer interesse para seus leitores ou sua audiência?

Todos os carros haviam sido deixados destrancados em nosso quintal. Um carro foi tirado da garagem e o outro teve sua capa removida, deixando-o completamente exposto às lentes dos repórteres. Por que?

Para parar com sua invasão de privacidade eu saí, encoberto, para colocar um carro na garagem e cobrir o outro. Os câmeras ficaram loucos, e correram de um lado para o outro como lunáticos, tirando fotos.

Logo cedo na manhã seguinte eu movi o terceiro carro pro outro lado da casa, mas os repórteres - chegando pouco depois - simplesmente invadiram a propriedade alheia e continuaram a tirar fotos dele a partir de sua propriedade privada. Sim, eles desrespeitaram a lei para continuar a tirar fotos do mesmo carro que eles já haviam fotografado no dia anterior...que furo de reportagem! "O carro está sob a árvore do outro lado da casa agora!" Uaaaaau!

Eu tenho pena deles. Não tem como eles se sentirem muito orgulhosos de si mesmos.

Essa foto foi tirada por mim nessa manhã de 20 de julho de 2013. "O que vai, volta".


O escurecimento da face e da placa foram feitos por mim (sim, amadoramente e rapidamente) usando Paint, por causa das leis de privacidade aqui na França, que eu pelo menos respeito.

Eu sou um sobrevivente, de modo que se eu quiser me manter fora das vistas deles eu consigo fazê-lo - literalmente por anos. Eles levaram os rifles de minha esposa, mas não nossa comida e reservas de água. Eu imagino se as estações de TV e jornais podem manter seus repórteres aqui na França por muito tempo - ou se eles pretendem manter essa palhaçada, apenas para que eles tirem mais fotos de nossa propriedade. Eles já representam serviços que na realidade se tornaram redundantes. Nós temos a internet agora. Não precisamos mais de vocês. Adeus.

IV

A verdadeira camaradagem só pode ser forjada no conflito. Eu já disse isso antes, e eu ainda creio ser verdade. Quando as coisas dão errado os covardes e traidores se dispersarão, fugirão e se esconderão, abandonando-o para combater os inimigos sozinho. Nós vemos isso na guerra, mas também vemos isso em outros tipos de conflito; disputas verbais, brigas de rua e também processos judiciais. A verdadeira camaradagem só se forja quando as coisas dão errado e aqueles que não fogem para salvar a própria pele permanecem para ver e saber que podem confiar uns nos outros.

"Muitos tem amado a traição, nenhum ao traidor". (Provérbio Europeu)

Essa semana Marie e eu estivemos em apuros; perseguidos pela polícia sem motivo algum, e também postos no pelourinho e cruelmente atacados pela mídia. Alguns seres humanos, nenhum deles nossos amigos, uniu-se quando o coro de lamentações midiático entoou suas canções de desprezo, quando escarraram seu ódio e cuspiram sobre nós com suas línguas venenosas.

"Um insulto não merecido não ofende muito" (Provérbio Europeu)

Assim eu me sinto feliz em dizer que Marie e eu, ainda que certamente também tenhamos visto hostilidade na última semana, fomos sobrepujados pelo apoio que recebemos. Da família, de amigos, de conhecidos, de completos estranhos e até mesmo de indivíduos que nós apenas admirávamos à distância antes. Nós temos visto tanta coragem e verdadeira camaradagem naqueles ao nosso redor. Nós estamos bastante tocados por isso e muito gratos, e queremos expressar nossa gratidão a todos vocês. Nós recebemos literalmente centenas de e-mails, com tudo desde ofertas de assistência econômica a apoio moral. Nós também estamos bastante encorajados pelo fato de que tantos que não eram nossos amigos antes nos apoiaram e se colocaram na linha de fogo, por assim dizer, quando a temperatura estava mais elevada, para nossa proteção; demandando de nós tão somente que lhes fosse permitido lutar por justiça e moralidade ao nosso lado. Muito obrigado a todos vocês.

"Deve-se ir convidado a um amigo de boa sorte, mas sem ser convidado se ele estiver com problemas" (Provérbio Europeu)

Àqueles que nos oferecem ajuda econômica, ou que sugerem que nos abramos para que outros nos doem dinheiro, eu direito muito obrigado, mas não obrigado. Vocês são muito gentis e apreciamos seus pensamentos imensamente. Nós obviamente sofremos economicamente com isso, mas queremos levar esse fardo sozinhos. O fardo de saber que outros suportarão fardos por nós é pior do que carregar o fardo da perda econômica em si. Nós achamos e esperamos que seremos capazes de lidar com isso.

"Do dano te tornas sábio, mas não rico" (Provérbio Europeu)

Àqueles que encomendaram o DVD Antepassados me foi pedido por minha esposa que eu dissesse que suas encomendas serão processadas, mas que isso levará mais tempo do que o normal, por causa de nossa situação atual. ela recebeu uma quantia extrema de encomendas, muito mais do que o esperado, mas ao mesmo tempo temos uma casa a ajeitar e limpar e uma porta a consertar após a invasão policial. Nós estamos caminhando calçados dentro, porque há pequenos fragmentos de vidro por todo lugar, mesmo no segundo andar, e mesmo depois de termos passado o aspirador diversas vezes. Por causa do cerco jornalístico nós também temos sido incapazes de remover confortavelmente o lixo e as pilhas de vidro de nossa sala de estar. Esperamos terminar tudo antes do retorno das crianças.

"Melhor sofrer pela verdade que ser recompensado por mentiras" (Provérbio Europeu)

Felizmente, porque somos sobreviventes nós não carecemos de qualquer alimento, água potável ou qualquer outra coisa, e escolhemos não nos expor aos indivíduos com câmeras do lado de fora, e eu quero usar isso como exemplo do quão importante é estar preparado para todo e qualquer tipo de situações difíceis que possam ocorrer. Se você for um sobrevivente, sofrerá menos, e às vezes não sofrerá nada, em situações que seria muito problemáticas para os que não são. Nem tudo que se tem que sobreviver é de natureza clássica ou possível de se prever.

"Em águas calmas todo navio possui um bom capitão". (Provérbio Europeu)

Novamente, muito obrigado pelo apoio. Nós tentaremos retornar cada mensagem, mas espero que compreendam se não formos capazes, ou pelo menos se não formos capazes tão cedo.

"Nós não herdamos a Europa de nossos ancestrais; nós a pegamos emprestada de nossos filhos". (Provérbio Europeu).

V

Há uma pergunta para a qual vocês obviamente não conhecem a resposta: exatamente por que motivo eles prenderam minha esposa grávida e eu sob suspeita de terrorismo?

Nós poderíamos especular amplamente sobre isso, mas a verdade é que eu sei porque eles fizeram isso. Eles me disseram: eles nos prenderam porque "alguém" havia dito a eles que eu havia sido um dos infelizes 500 ou mais recipientes do "manifesto" do sionista, maçom e cristão assassino em massa Anders B. Breivik, que o receberam antes de seus horrendamente covardes crimes contra a juventude socialista anti-sionista em Utoya. A polícia francesa havia recebido informação de que um e-mail que recebeu esse manifesto, registrado no nome wolfschanze, era meu. Segundo a polícia essa informação (falsa) sozinha levou a nossa prisão. Hm...eu imagino que contou isso a eles, e por que?

Pode-se sempre argumentar que a compra de minha esposa de dois rifles de ferrolho de pequeno calibre (uma .22 LR e uma .222 Remington) e um rifle de alavanca de pequeno calibre (.22 LR), bem como uma escopeta .12 poderia ter despertado suspeitas, mas se for assim então basicamente toda a França rural deveria estar sob suspeitas também, porque aqui onde vivemos quase todo mundo tem desses rifles. Alguns um ou dois a menos, e outros um ou dois a mais, mas mesmo assim. Se qualquer um acha que terroristas planejam um ataque usando escopetas e rifles de caça e esporte de pequeno calibre registrados e de quinta ou sétima categoria então essa pessoa não é um policial, mas mais provavelmente cai sob alguma outra categoria bem menos lisonjeira.

Tendo dito isso, ainda estou para ver qualquer pai de família ou mãe grávida europeus com três filhos pequenos cometer qualquer ato de terrorismo em qualquer lugar que seja.

Meu passado criminal também foi listado como argumento em favor de minha prisão, mas alguém poderia me dizer onde está a ligação entre matar um perverso auto-proclamado assassino em legítima defesa, porque ele queria te torturar até a morte, e terrorismo? Mesmo se você acreditar nas mentiras auto-contraditórias das autoridades "norueguesas" e confia neles quando eles afirma que eu dirigi quase 550km e matei um homem sem qualquer motivo (sim, essa é a versão oficial, pelo tribunal soviético de fachada de Oslo) você deve entender que ir de "matar" um homem (sem motivo algum) para terrorismo é um passo muito, muito comprido e realmente raro.

(Eu posso rapidamente acrescentar que eles não queriam admitir que eu agi em legítima defesa, porque isso teria arruinado todo seu caso contra mim, o dissidente mais popular e impopular da Noruega à época, mas eles não conseguiram listar qualquer outra razão para que eu o matasse, então eles simplesmente fingiram que eu o matei sem qualquer motivo. Por que não? Ninguém na imprensa "norueguesa" jamais questionou isso. Eles também afirmaram que eu esfaqueei 21 (ou 23?) vezes, quando na realidade eu o matei com uma pequena faca de bolso, que eu puxei apenas porque ele tentou pegar uma (grande) faca para me matar, e a maioria daqueles ferimentos foram de qualquer forma provavelmente causados pelos fragmentos de vidro de uma lâmpada quebrada, sobre os quais ele em dado momento caiu enquanto usava somente cueca, e sobre os quais ele também caminhou. Um dos tais "ferimentos de faca" listados como tendo sido causados por mim foram encontrados na sola do pé. Bem vindos à Noruega Soviética).

Eu sinceramente duvido que a polícia me viu como ameaça apenas porque eu matei um homem 20 anos atrás - seja qual fosse o motivo.

Finalmente, as especulações relativas a nossa prisão tendo sido causada por meu encorajamento à revolta também são balela pura, porque eu tenho afirmado nessas mesmas postagens no blog, e nos comentários também, que nós jamais devemos infringir a lei e sempre devemos nos comportar segundo as leis de nossos países. "Jamais faça algo ilegal", como eu tenho sempre dito, conflita demasiadamente com terrorismo.

As autoridades francesas, como nos disseram e a nossos advogados, nos prenderam tão somente por causa do (falso) elo com Breivik, uma pessoa com a qual eu discordo veementemente em todas as questões fundamentais. Uma pessoa que eu publicamente e repetidamente ataquei, por causa de seus crimes covardes e porque eu detesto tudo que ele representa.

Então diga-me França, por que isso realmente aconteceu?

Minha esposa francesa foi presa, uma tímida loira grávida de 1,55, com três filhos pequenos e nenhum antecedente criminal, e eles basicamente só perguntaram a ela sobre mim e minhas atividades, então porque ela não foi trazida como testemunha então? Me digam vocês...

Eu cresci e vivi a maior parte de minha vida na Noruega Soviética, também conhecida como RDN (Norwegische Demokratische Republik), então eu não sou estranho à supressão política violenta, ao totalitarismo, ao extremismo e à perseguição e terror estatal contra cidadãos dissidentes: seria essa a razão pela qual eu me sinto muito mais em casa aqui em vossa nova França?

Noruega Soviética: primeira e primordialmente Soviética:


A França de que me lembro e adoro:


VI

Tudo está aparentemente voltando ao normal. A mídia continuará ignorando o Thulean Perspectives, após o deslize da última semana, quando por diversos dias eles o promoveram mais do que eu poderia tê-lo feito em cem anos, acusando-me de todo tipo de coisas. Nós veremos menos visitantes a esse site do que na última semana, mas alguns novos - que só tomaram conhecimento de sua existência na última semana - ainda permanecerão. De modo geral um grande número de europeus terá se tornado consciente da injustiça e de outras falhas de seu sistema, e também da estupidez de certos atores nesse sistema. Eu penso que podemos dizer com segurança que meus inimigos ideológicos e religiosos abriram fogo contra mim, mas foram atingidos pelos ricochetes de suas próprias armas. Eu permaneço incólume. Na verdade, me encontro com mais credibilidade e um grupo ainda maior de leitores. Com seu ato de terror contra minha família eles fortaleceram e talvez até tenham demonstrado os meus pontos.

"Corações fracos jamais conquistam as belas donzelas". (Provérbio Europeu)

Apresentada pela mídia como uma terrorista neonazista francesa


O título dessa série de postagens se chama "Terrorismo na França", e eu obviamente em ponto algum me referi às acusações levantadas contra minha esposa e eu, nem ao palavreado da mídia sobre terrorismo. Me referi o tempo todo aos atos de terror deles. Ao terrorismo deles. Tão somente porque expressei minhas opiniões politicamente incorretas online, eles atacaram minha família com terrorismo, (mal-) usando a polícia para me expor a violência real: nossa porta levou tiros, vidro foi quebrado, gritos e ameaças sob a mira de armas (sugerindo que "mãos ao alto ou nós vamos atirar em vocês com nossos rifles de assalto"), invasão armada da privacidade por homens mascarados, exposição aos abutres da mídia, algemamento diante de nossos filhos, aprisionamento sem provas de qualquer tipo, e daí em diante. Não é terrorismo quando eles não tem qualquer razão real para fazê-lo?

"Aquele que se torna uma ovelha será devorado pelo lobo" (Provérbio Europeu)

Eles não atacaram apenas minha família, porém. Eles não tentaram apenas nos intimidar através da violência; eles nos usaram como exemplo pra todos vocês. Eles queriam amedrontar a todos. A mensagem deles é clara: "expresse suas opiniões politicamente incorretas e você vai sofrer". Supõe-se que todos os nacionalistas lá foram deveriam se acovardar e se esconder amedrontados. E ficar calados. Eles querem controle total, de cada mente e de cada corpo nesse planeta.

"Muitos tem muito, mas ninguém tem o suficiente" (Provérbio Europeu)

Claro, quando tomei conhecimento das leis na França relativas ao direito de emitir suas opiniões políticas apenas se elas estiverem de acordo com aquelas da minúscula elite no poder, e segundo o que entendi também a não questionar a história oficial, eu removi muitas das minhas postagens, para moderá-las e torná-las legais, mas decidi ao invés apenas escrever novas postagens. Porém, tudo que isso significa é que eu tenho que reformular e me expressar de maneira diferente.

"Mais cedo é aquele que não quer ver". (Provérbio Europeu)

Isso de modo algum tira minha vontade ou habilidade de continuar a expor os inimigos da Europa, a expressar minhas opiniões ou a iluminar compatriotas europeus, e também a outros, em relação não apenas a nossa colorida cultura européia, mas também em relação às horríveis realidades da Europa pós-pagã.

"A história são as mentiras sobre as quais concordamos". (Napoleão Bonaparte)

Nacionalistas europeus estão ligados por sangue e espírito a nosso sagrado solo europeu, como a mente de um homem está conectada a seu corpo. Mesmo aqueles que não vivem na Europa possui e sente fortemente essa conexão com a Europa. Esse elo é inquebrantável. Pode-se suprimi-lo, mas ele sempre estará lá, como brasa sob as cinzas, esperando para se tornar fogo novamente. Vocês gastam fortunas para suprimir a natureza européia, com todas as suas distrações, efeitos de fumaça e mentiras, mas tudo o que precisamos para despertá-la novamente é colocar alguns galhos e um pouco de madeira seca na brasa, e ela se tornará novamente uma poderosa fogueira, queimando, aquecendo, acendendo e iluminando nosso mundo.

"Crianças parecidas brincam melhor juntas". (Provérbio Europeu)

Não precisamos de violência para atingir nossos objetivos, e eu certamente não recomendo a ninguém que tente fazê-lo dessa forma também, e quanto mais violência e terror vocês - internacionalistas e sionistas - usam, mais fácil fica para nós reanimar o espírito europeu coletivamente. Nós, os supostos racistas e antissemitas, representamos não o ódio e o desprezo por outros, mas o amor pela diversidade e o respeito por todos. Diferentemente de vocês não queremos transformar esse belo planeta em uma "aldeia global", destruindo toda diversidade através do colonialismo, do imperialismo comercial e pela transformação da humanidade em uma massa acinzentada universal e manipulada (de escravos do consumo e dos juros). Ao invés, respeitamos cada tribo e povo e lutamos por seu direito de ter uma cultura, uma língua, uma religião, tradições e uma pátria própria, e a cultivar tudo isso sem a intromissão ou perseguição de outros. Nativos africanos, nativos americanos, nativos asiáticos e nativos australianos, sim, mas também nativos europeus.

"O pior surdo é aquele que não quer ouvir". (Provérbio Europeu)


"Nós não herdamos a Europa de nossos ancestrais; nós a tomamos emprestada de nossos filhos". (Provérbio Europeu)

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Kerry Bolton - Reductio Ad Hitlerum

por Kerry Bolton


A “erudição” no estudo do Terceiro Reich é medida em relação a um axioma de facto que está centrado em torno do Holocausto, assim como com as discussões concomitantes sobre experimentos médicos e outros aspectos da suposta brutalidade nazista única. Qualquer coisa menor do que isso é rotulada por estudiosos como Deborah Lipstadt como “relativizar o Holocausto”, o que é aparentemente mesmo pior do que o “revisionismo do Holocausto”.

Reductio ad Hitlerum é a técnica de arruinar um debate acusando o oponente de ser um nazista. Leo Strauss, um filósofo judeu, criou o termo em 1951, explicando-o em 1953:

“Infelizmente, não podemos continuar sem dizer que em nossa análise devemos evitar a falácia que nas últimas décadas tem sido frequentemente usada como substituta para o reductio ad absurdum: o reductio ad Hitlerum. Um ponto de vista não é refutado por si só, mas pelo fato de ter sido compartilhado por Hitler.”

A pesquisa informativa “A Falácia ordena” dá um exemplo de reductio ad Hitlerum:

“As ideias de ecologistas de espécies invasivas – espécies forasteiras como elas são frequentemente chamadas – parecem semelhantes à retórica anti-imigração. Os temas verdes como escassez e pureza e invasão e proteção têm ecos totalmente na direita. As ideias de Hitler sobre ambientalismo vieram, acima de tudo, da pureza.”

A citação acima por uma “feminista radical”, Betsy Hartmann, é parte de um lamento sobre o suposto “controle direitista” do movimento ecológico, cujos proponentes têm, aparentemente, defendido restrições à imigração, que é semelhante ao nazismo para aqueles que empregam compulsivamente o reductio ad Hitlerum em seu discurso intelectual. Como evidência disso, Hartmann cita a edição do jornal acadêmico População e Meio-Ambiente pelo professor Kevin McDonald, junto com o falecido J. Philip Rushton, que pertencia à diretoria editorial, ambos considerados “racistas”.

“A Falácia ordena” explica o reductio ad Hitlerum:


Apesar do termo reductio ad Hitlerum ter sido cunhado por Strauss ainda em 1951 na edição da primavera do jornal Medida, ele é muito útil. O Dr. Thomas Fleming, membro do movimento Católico Conservador Americano, presidente do Instituto Rockford e editor do Crônicas, definiu convincentemente o reductio ad Hitlerum:

“Leo Strauss o chamou reductio ad Hitlerum. Se Hitler gostava de arte neoclássica, isto significa que o classicismo é, em toda forma, nazista; se Hitler queria fortalecer a família alemã, isto torna a tradicional família (e seus defensores) nazista; se Hitler falava da ‘nação’ ou do ‘povo’, então qualquer evocação de nacionalidade, afiliação étnica, ou mesmo atributo popular é nazista.”

Por exemplo, o lobby “pró-armamento” argumenta que Hitler – como ditador – estabeleceu um confisco em massa de armas particulares no Terceiro Reich e, portanto, os defensores do “controle de armas” estão adotando uma postura como a de Hitler. Isto, como tudo mais que se passa como verdade nos meios acadêmicos, é superficial, na melhor das hipóteses. Entretanto, esta é uma indicação do quão o reductio ad Hitlerum pode ser totalmente distorcido, de modo que é o lobby pró-armamento que pode ser encarado como sendo mais hitlerista, pois como o comentarista liberal Chris Miles mostrou, quando Hitler assumiu o poder, a quantidade de armas privadas era aquela imposta pelo Tratado de Versalhes. Citando o professor Bernard Harcourt da Universidade de Chicago, sobre o Ato de Armamento alemão de 1938, que os anti-nazistas pró-armamento também citam como prova de que Hitler queria desarmar a população, “As revisões de 1938 desregularam completamente a aquisição e transferência de rifles e armas curtas, assim como munição.” Restrições que foram mantidas somente envolviam armas de fogo portáteis, que pessoas corretas poderiam portar se elas mostrassem uma boa razão para isso. Miles continua:

“O grupo de pessoas que eram privilegiadas com a aquisição do porte de armas expandiu-se. Caçadores profissionais, servidores públicos e membros do Partido Nazista não estavam mais sujeitos a restrições do porte de armas. Antes da lei de 1938, somente funcionários do governo central, dos estados e empregados daReichsbahn (Rodovia) alemã eram privilegiados. As permissões aumentaram de um para três anos. Tanto no ato de 1928 quanto no de 1938, os fabricantes de armas e comerciantes eram obrigados a manter registros com informações sobre os compradores e o número de série das armas. Estes registros deveriam ser entregues à autoridade policial para inspeção no final de cada ano.”

Foi sob o regime da autoridade aliada de ocupação que os alemães foram completamente desarmados entre 1945 e 1956.

Avanços Sociais no Terceiro Reich Suprimidos

É em relação a este ponto de vista que os “horrores do nazismo” têm sido usados para esconder e suprimir os avanços do regime em um espectro de assuntos que afetam o mundo contemporâneo. Por causa da visão dogmática de que tudo é hitlerista, algumas descobertas e avanços importantes têm sido escondidos sob uma pilha de corpos figurativa, que previne o mundo de uma análise acadêmica racional de avanços em áreas como a saúde, ecologia e sistema financeiro, ou, alternativamente, como mencionado, colocam alternativas sérias para os problemas na defensiva ao compará-las com o nazismo.

É notável que alguns avanços do Terceiro Reich foram tomados e desenvolvidos quando serviram a interesses poderosos. O exemplo mais aparente está na área de foguetes e outros armamentos avançados criados pelo Terceiro Reich, quando havia uma luta entre a União Soviética e os EUA para sequestrar “cientistas nazistas” após a guerra. Detalhes disso são incontestáveis, embora ainda estejam obscuros:

A Operação Clipe de Papel foi o nome sob o qual a inteligência americana e os serviços militares levaram cientistas embora da Alemanha durante e após os estágios finais da Segunda Guerra Mundial. O projeto era originalmente chamado de Operação Overcast e é, algumas vezes, conhecido como Projeto Paperclip.

De interesse particular foram os cientistas especializados em aerodinâmica e foguetearia (como aqueles envolvidos nos projetos da V-1 e da V-2), armas químicas, tecnologia da propulsão a jato e medicina. Estes cientistas e suas famílias foram secretamente levados aos Estados Unidos, sem a aprovação do Departamento de Estado; seus serviços para o Terceiro Reich de Hitler, sua associação com o Partido Nazista ou com a SS, assim como a classificação de muitos como criminosos de guerra ou ameaças à segurança também os desqualificavam para obter o visto de entrada. Um objetivo da operação era capturar equipamento antes dos soviéticos. O Exército americano destruiu parte do equipamento alemão para prevenir que fosse capturado pelo Exército Soviético durante seu avanço.

A maioria dos cientistas, cerca de 500, foi deslocada para o Campo de Testes de White Sands, Novo México, Forte Bliss, Texas e Huntsville, Alabama, para trabalhar em mísseis guiados e tecnologia de mísseis balísticos. Isto, por sua vez, resultou na criação da NASA e do programa de ICBMs americano.

Muito da informação sobre a Operação Clipe de Papel ainda é secreta.

Muito mais que o Paperclip foi o esforço para capturar os segredos nucleares alemães, equipamentos e pessoal (Operação Alsos). Outro projeto americano (TICOM) reuniu os especialistas alemães em criptografia.

O Departamento de Minas dos EUA empregou sete cientistas alemães especialistas em combustível sintético em uma planta da Fischer-Tropsch em Louisiana, Missouri, em 1946.

Supressão da Pesquisa contra o Câncer

A Alemanha hitlerista foi pioneira em muitos programas de saúde pública e bem-estar e no estudo da prevenção de doenças, a relação entre o cigarro e o câncer, etc. De fato, o regime estava décadas adiante em relação aos atuais estados democráticos, os quais orgulham-se de serem “progressistas”.

A mãe de Adolf Hitler morreu de câncer*. Com os lucros do livro “Minha Luta” (Mein Kampf), ele doou 100.000 marcos para a pesquisa de câncer que ele mesmo encomendou à Universidade de Jena. A campanha anti-tabagismo na Alemanha nazista foi a pioneira no mundo. Graças a ela:

· O fumo foi proibido nos escritórios da Força Aérea e do Serviço Postal;

· O fumo foi banido dos departamentos de polícia;

· Os restaurantes e cafés foram proibidos de vender cigarros a mulheres;

· Cupons de cigarro foram proibidos a mulheres grávidas;

· O fumo entre menores de 18 anos foi tornado ilegal; e

· Propagandas de cigarros foram severamente controladas.


A supressão da pesquisa de saúde alemã é uma das grandes tragédias do modo como o reductio ad Hitlerum impactou em muitas vidas. Com tal mentalidade, Peter Dunne, o único membro do Parlamento neozelandês do Partido do Futuro Unido, descreveu os lobistas para as restrições ao cigarro em 2003 como “nazistas da saúde.” Uma notícia detalhou o caso:

O líder da Coalizão Livre do Cigarro está questionando o quão o Futuro Unido é amigo da família. O líder do partido Peter Dunne atacou os simpatizantes do Livre do Cigarro como “nazistas da saúde” e fanáticos de olho gordo. Leigh Sturgiss diz que tal linguagem é inapropriada e horrorosa. Ela diz que os proponentes do controle do cigarro querem SALVAR vidas, e não destruí-las. Ela diz que Peter Dunne tem um histórico de votar contra o controle do tabagismo, que é uma contradição aos valores de seu próprio partido.

É notável que entre aqueles que foram selecionados pelos EUA na Operação Clipe de Papel estivesse o pesquisador de câncer, Dr. Kurt Blome, vice-líder da Saúde do Reich (Reichsgesundheitsführer) e Plenipotenciário para Pesquisa contra o Câncer no Conselho de Pesquisa do Reich. O Dr. Blome foi capturado e conduzido aos EUA, segundo um documento que descrevia sua relevância:

Em 1943, Blome estava estudando guerra bacteriológica, apesar de que oficialmente ele estivesse envolvido em pesquisas contra o câncer, a qual era, contudo, somente uma camuflagem. Blome também serviu como vice-ministro do Reich. Gostariam de enviar isso aos investigadores?

Notemos que o interesse no Dr. Blome não foi motivado por sua pesquisa contra o câncer mas como desenvolvedor de armas biológicas. Além disso, o relatório americano se refere à pesquisa do câncer somente incidentalmente como uma cobertura para a pesquisa nazista em guerra bacteriológica. A implicação deste relatório é que a pesquisa sobre o câncer no Reich de fato não existia; era uma farsa para esconder experimentos médicos abomináveis com o objetivo de desenvolver armas biológicas.

O Dr. Blome, como diz o relatório, foi salvo da masmorra, tendo sido acusado pelos americanos de experimentar vacinas nos prisioneiros do campo de concentração de Dachau, e em 1951, ele foi contratado pelo Corpo Químico do Exército Americano para trabalhar na guerra química.

O que isto indica é que foram os EUA que tiveram o interesse particular nas descobertas alemãs da guerra química e não tiveram nenhum interesse nas descobertas alemãs em relação ao câncer, dando a impressão que não havia nenhuma pesquisa sobre este assunto na Alemanha. Tais controvérsias servem para esconder os avanços sob o Nacional Socialismo. A erudição precisa de objetividade e isto não é possível enquanto os estudos sobre o Terceiro Reich estiverem sendo feitos a priori segundo um absolutismo moral do tipo dualidade zoroastriana, que necessariamente rotula qualquer coisa e tudo a ver com o Terceiro Reich como sendo inerentemente má, inclusive a pesquisa sobre câncer, ecologia, Autobahns(autopistas) e reforma bancária.

Assim, o que o professor Robert N. Proctor relata em seu livro, “A Guerra Nazista contra o Câncer”, somente pode ser analisada através das lentes distorcidas da propaganda de guerra, isto é, de que tal medicina social pioneira foi realizada com más intenções. O mesmo pode ser dito a respeito dos trabalhos públicos no programa Autobahn, de modo que seu objetivo era permitir uma rede de estradas capazes de mobilizar militarmente de forma rápida a Alemanha. Ocasionalmente, a verdade emerge de forma incidental dos próprios estudos ortodoxos: por exemplo, o Dr. Frederic Spotts, em seu livro “Hitler e o Poder da Estética”, escreve que as Autobahans eram admiradas no mundo inteiro como um “avanço inovador, bem sucedido e brilhante.”

Suas rodovias divididas, de extensão generosa, engenharia soberba, sensibilidade ambiental, harmonia com o interior do país, paisagens maravilhosas, entradas e saídas em trevo, viadutos e trincheiras uniformes, estações de serviço modernas, instalações de restaurantes e hotéis eram os mais avançados em relação a qualquer outro lugar e se apresentavam como um modelo para o mundo.

Enquanto a Autobahn é convencionalmente retratada como um exemplo da preparação militar da Alemanha, o Dr. Spotts teve a coragem de mostrá-la de outra maneira: “O que não é popularmente apreciado é que Hitler considerava estas autopistas acima de tudo como monumentos estéticos.” Pela primeira vez, as estradas não eram construídas sob o ponto de vista utilitário, mas sim trabalhos de arte duradouros, comparáveis às pirâmides.” O Dr. Spotts continua:

As Autobahns foram, portanto, criadas não somente para facilitar as idas e vindas de automóveis, mas também para mostrar a beleza natural e arquitetônica do país. As rotas eram escolhidas para atravessar áreas atraentes sem perturbar a harmonia das montanhas, vales e fazer com que a própria rodovia desse voltas, apesar dos custos adicionais, para oferecer uma visão particularmente impressionante. Grande esforço foi feito na construção de modo a minimizar o dano ao meio ambiente.

O modo como o Dr. Spotts se afasta de seu relato positivo dos avanços ecológicos e técnicos do Reich é revelado ao descrever a estética de Hitler como apenas “outro exemplo de autoindulgência megalomaníaca.” Assim, mesmo com este avanço notável, como tantos outros no Terceiro Reich, devemos ser lembrados que tudo no final repousa na maldade difundida de um único homem. Sendo assim, independentemente dos motivos de Hitler, tal reducionismo previne uma consideração racional e objetiva de tais avanços. Tivesse o Dr. Spotts descrito os avanços da construção de estradas nos EUA e na Inglaterra durante os anos 1930, por exemplo, o leitor ficaria com a impressão duradoura de um governo que havia alcançado muito das necessidades atuais. Entretanto, desde que um avanço notável foi feito por Hitler, ele é reduzido, mesmo pelo Dr. Spotts, a outro exemplo de megalomania de uma única pessoa má. Mas o Dr. Spotts detona um dos grandes mitos daquela era, qual seja, de que a Autobahn foi primariamente criada com objetivos militares. Falando sobre Todt, chefe do projeto, Spotts afirma que enquanto os argumentos de Todt para a Autobahn incluíam objetivos militares, “Hitler jamais se sensibilizou com essa noção. De fato, as rotas não percorriam linhas de frente, as superfícies eram muito finas para suportar tanques e por aí vai. Longe de serem úteis à Wehrmacht, as estradas, com a suas superfícies brancas brilhantes, provaram ser úteis às aeronaves inimigas ao fornecer pontos de orientação, de modo que elas tiveram que ser cobertas de tinta.”

Assim, enquanto a Autobahn, sendo um triunfo da ecologia e da engenharia, pode ser relegada ao reino da megalomania, a lição explicada pelo livro do Dr. Proctor sobre a pesquisa contra o câncer e outras pesquisas médicas no Terceiro Reich é, de acordo com o crítico do The Washington Post, “um conceito próximo do perturbador – a “banalidade do bem.”

A pesquisa do Terceiro Reich ligando o tabagismo com o câncer torna-se, portanto, banal, estúpido, trivial e outras palavras associadas com “banalidade”. Tivessem os EUA interessados em tais pesquisas, tanto quanto estavam interessados nos armamentos alemães, muitos milhões de pessoas teriam agradecido por tal pesquisa, independentemente do regime sob o qual ela foi conduzida. Entretanto, quando o público em geral ouve a respeito das pesquisas médicas alemãs é sobre os alegados abusos em prisioneiros e “racialmente inferiores”, conduzidas por indivíduos como o Dr. Joseph Mengele, que é descrito realizando alguns experimentos médicos abomináveis, apesar de ser um grande geneticista.

O que esta “banalidade do bem” – nas palavras do critico do Washington Post sobre o livro de Proctor – incluía era um esforço persistente para estabelecer uma população sadia. Naturalmente, os motivos para isto seriam criar uma “Raça Mestre” para conquistar o mundo, mas independente dos motivos, os resultados poderiam ter beneficiado a humanidade se não tivessem sido suprimidos em virtude de sua associação com o Terceiro Reich.

Proctor afirma que mais de mil dissertações de doutorados na área médica examinaram o câncer durante os doze anos do domínio nacional socialista. Pela primeira vez, registros da doença foram feitos, medidas de saúde pública preventiva foram tomadas, havia leis contra adulteração de alimentos e medicamentos, proibição do fumo e campanhas alertando contra o uso de cosméticos com componentes cancerígenos. Proctor faz a pergunta se estas e outras medidas de saúde pública resultaram na baixa incidência de câncer entre os alemães durante os anos 1950. Isto coloca um dilema moral porque significa que “um dos regimes mais assassinos na história” poderia ter sido bem sucedido em reduzir as taxas de câncer. Outras campanhas, que somente em anos recentes foram feitas nos países ocidentais, alertaram as mulheres sobre a necessidade de realizar exames de câncer anuais ou bianuais, e as mulheres foram instruídas a fazer o exame do seio, de modo que a Alemanha foi aparentemente o primeiro país a adotar essa postura. Os efeitos da poluição e do amianto foram estudados com grande ênfase. Proctor diz que a Alemanha tornou-se o líder em documentar “a conexão entre o câncer de pulmão e o amianto” como doença ocupacional. Advogados americanos trabalhistas se basearam nessas pesquisas para defender suas causas.

Com a derrota da Alemanha, Karl Astel, chefe do Instituto de Pesquisa dos Males do Tabaco, que promoveu a proibição do fumo em locais públicos – algo realizado na Nova Zelândia há poucos anos atrás – cometeu suicídio. O Líder de Saúde do Reich, Leonardo Conti, enforcou-se com sua calça enquanto estava sob detenção dos Aliados. O presidente do Departamento de Saúde do Reich, Hans Reiter, serviu muitos anos na prisão, após o que ele trabalhou em uma clínica particular, mas nunca mais voltou à vida pública. Fritz Sauckel, responsável pelo trabalho de mão de obra estrangeira, e responsável pela legislação antitabaco de Astel, foi executado em 1946. Proctor comenta: “Não é de se surpreender que muito da motivação do movimento antifumo da Alemanha foi retirada.” Mesmo assim, outros cientistas foram levados pelos EUA a trabalhar em projetos militares durante a Guerra Fria.

Mesmo hoje, o movimento antifumo alemão não superou o ativismo e a seriedade dos anos de auge entre 1939 e 1941. A pesquisa de saúde sobre o tabaco está muda, e não é difícil de imaginar que as memórias do ativismo daquela geração mais velha ajudaram a perpetuar o silêncio. A memória popular da abstinência nazista ao cigarro pode bem ter destruído o movimento antifumo alemão do pós-guerra. Parece ter moldado como lembramos a história da ciência envolvida: o mito de que cientistas americanos e ingleses foram os primeiros a mostrar as causas tabagistas do câncer de pulmão, muito conveniente – tanto para os estudiosos dos países vencedores quanto para os alemães tentando esquecer seu passado recente.

Proctor também se agarra ao método do reductio ad Hitlerum ao suprimir as iniciativas antitabagistas, um exemplo disto sendo os comentários de Peter Dunne na Nova Zelândia. Proctor diz: “Os defensores do tabagismo começaram a agir de acordo com os nazistas,” falando de “niconazistas” e “fascismo tabagista”. Proctor se refere à Philip Morris da Europa publicando propaganda ofensiva nas revistas, a qual identifica fumantes como os judeus presos nos guetos e os não-fumantes como nazistas.

Estranhamente, Proctor rejeita a ideia de que se a pesquisa médica nazista não tivesse sido suprimida vidas teriam sido salvas. Ele diz que os Aliados tiveram muito interesse na pesquisa científica nazista, mas procede com o foco rapidamente na tecnologia militar. Onde os pesquisadores médicos nazistas sequestrados após a guerra foram empregados para ajudar nas causas do câncer, os efeitos do amianto, os benefícios de uma dieta saudável? Como descrito previamente, eles estavam mortos, na prisão ou relegados à obscuridade, enquanto os cientistas aeroespaciais estavam trabalhando diligentemente nos mísseis da Guerra Fria, antes de serem denunciados após ficarem velhos.

A Oposição à Usura era intrinsecamente Nazista?

O reductio ad Hitlerum está sendo usado para suprimir e cobrir outra questão importante: aquela das alternativas ao sistema de dívida bancária. Pouco é compreendido sobre o sistema das finanças dos regimes fascistas, e é geralmente dito que a Alemanha em particular alcançou a recuperação econômica pelo gasto com armamentos. Mesmo se aceitarmos essa ideia, ela explica pouco.

Uma diferença significativa entre aquela época e os tempos atuais é que, após a Primeira Guerra Mundial, muitas pessoas compreenderam a necessidade de mudar o sistema bancário e grandes movimentos reformistas como o Crédito Social em Alberta e o Partido Trabalhista na Nova Zelândia chegaram ao poder por sua plataforma pela reforma bancária. Pelo fato dos três principais países do Eixo também emitirem crédito estatal, controlarem o sistema bancário e conduzirem suas nações à prosperidade, esta importante questão também foi submetida aoreductio as Hitlerum.

Uma vítima importante desta tática foi Stephen M. Goodson, um economista sul-africano que trabalhou muitos anos (2003 – 2012) como diretor do Banco Central Sul-Africano. Goodson é também um ardoroso defensor da reforma bancária e fundador do Partido pela Abolição da Usura e Taxa de Juros. Pior ainda, ele não se inibiu ao descrever os sistemas bancários do Japão e Alemanha nos anos 1930 como exemplos de grandes estados que alcançaram o sucesso ao romper com a agiotagem bancária. (N. do T.: Goodson também deu declarações públicas contestando o Holocausto). Goodson foi rotulado de “negador do Holocausto”, mas foi sua declaração sobre os sistemas bancários do Eixo que causaram sua demissão.

O economista chinês, executivo do Grupo de Investimentos Liu localizado em Nova York, Henry C. K. Liu, que escreveu exaustivamente sobre as políticas econômicas do Terceiro Reich, foi poupado até agora da associação com os supremacistas brancos, e é ainda capaz de escrever colunas para o The Huffington Post e o Asia Times, etc. Liu escreveu um artigo detalhado sobre a política bancária do Terceiro Reich dizendo:

De fato, a recuperação econômica alemã precedeu e mais tarde permitiu o rearmamento alemão, ao contrário da economia americana, onde os obstáculos constitucionais criados pela Corte Suprema em relação ao New Deal atrasaram a recuperação econômica até que a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial colocou a economia de mercado em passos largos. Enquanto esta observação não é uma apologia à filosofia nazista, a eficácia da política econômica alemã neste período, parte da qual foi iniciada na última fase da República de Weimar, é inegável.

Notem que Liu repudia qualquer noção de que o sucesso “inegável” da política econômica do Reich é “uma apologia à filosofia nazista”, e que ele dispensa o clichê da recuperação econômica da Alemanha como sendo resultante do rearmamento. Liu descreve os Títulos de Criação de Trabalho (WCB, sigla em ingês) emitidos pelo Reich, comentando: “Mas o princípio dos WCBs pode ser aplicado aos EUA ou à China ou qualquer outro país atualmente para combater os altos níveis de desemprego. Aliás, esta ideia de bom senso recebe forte oposição de teorias obscuras de inflação na maioria dos países.

Conclusão

O reductio ad Hitlerum é uma cria da confusão semântica que tem sido usada pelas forças convencionalmente chamadas de Esquerda, Direita e Centro. A metodologia tem sido usada para rotular os proponentes da saúde pública como “nazistas da saúde” e “niconazistas”. Os ecologistas têm sido chamados de “econazistas”. Um blog da internet chamado de “A Ralé Climática” “prova” que a ecologia é “nazista” ao mostrar vistas aéreas de uma floresta plantada durante o Terceiro Reich, na qual certas árvores foram plantadas de modo a formar uma suástica. O discurso “rios de sangue” de Enoch Powell em 1968 sobre a imigração da Nova Comunidade Britânica na Grã-Bretanha foi condenado por causa de alusões a Auschwitz, e o espectro do neonazismo ainda é evocado quando alguém questiona a imigração do Terceiro Mundo. O líder do Partido Trabalhista Tony Benn disse sobre o discurso de Powell: “A bandeira do racialismo que foi hasteada em Wolverhampton está começando a parecer com aquela que tremulava 25 anos atrás em Dachau e Belsen,” e assim permanece...

Agora, no meio de uma crise de dívida global, onde há uma luz – ainda assim pouco visível – de ressurgimento de ações alternativas à usura e à dívida, o reductio ad Hitlerum é lançado contra os defensores da reforma bancária. O método é uma perversidade social que ofusca soluções para os desafios atuais, ao negar a legitimidade de políticas que foram testadas e aprovadas.