quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Evgueni Golovin - A Era da Ginecocracia

por Evgueni Golovín



Muitos livros em nosso séculos foram escritos sobre a visão do mundo feminino, sobre a psicologia feminina e sobre o erotismo feminino. Muitos poucos foram escritos sobre os homens. E estes poucos estudos deixam uma impressão bastante desoladora. Dois deles, escritos por conhecidos sociólogos são especialmente sombrios: Paul Duval - "Homens. O Sexo em Vias de Extinção", David Riseman - "O Mito do Homem na América". A multidão masculina de faces diversas não inspira otimismo. Ao contemplar a multidão masculina nos entristecemos: "ele", "eles"...com seus trajes discretos, gravatas mal amarradas...seus movimentos estereotipados e gestos estão submetidos à fatal estratégia do mais pulcro pesadelo. Tem pressa porque "estão ocupados". Ocupados em quê? Em conseguir o dinheiro para suas fêmeas e para os pequenos vampiros que estão crescendo.

São covardes e por isso gostam de se juntar em manadas. Se prescindimos das refinadas divagações, a covardia não é mais que uma tendência centrípeta, desejo de encontrar um centro seguro e estável. Os homens tem medo de suas próprias idéias, dos bandidos, dos chefes, da "opinião pública", das aranhas que sugam seu dinheiro. Porém as mulheres são as que mais medo lhes causam. "Ela" caminha colorida e bem centrada, seu peito vibra tentadoramente... e os olhos ansiosos seguem suas curvas, e a carne se rebela dolorosamente. Sua frieza - que desgraça, sua compaixão erótica - que felicidade! "Ela" é a matéria formada de maneira atraente nesse mundo material, em que vivemos somente uma vez, "ela" é uma idéia, um ídolo, seus emergentes encantos saltam dos outdoors, capas de revistas e telas. "Ela" é uma bem concreto. O corpo feminino bonito custa caro, talvez mais barato que "A maja nua" de Goya, mas há que pagar. Uma prostituta cobra por horas, a amante ou esposa, naturalmente, pedem muito mais. O lema do matrimônio estadounidense é sex for support. As portas do paraíso sexual se abrem com a chave de ouro. O corpo masculino sem qualificar e sem se tornar musculoso não vale nada.

A Realidade da Civilização Burguesa

Ainda que nos acusem de exagerar, a situação segue sendo triste. A igualdade, emancipação, o feminismo são os sintomas do crescente domínio feminino, porque a "igualdade dos sexos" não é mais que outro fantasma demagógico da vez. O homem e a mulher devido à marcada diferença de sua orientação estão lutando permanentemente de forma aberta ou encoberta, e o caráter do ciclo histórico-social depende do domínio de um ou outro sexo. O homem por natureza é centrípeto, se move da esquerda para a direita, para a frente, de baixo para cima. Na mulher é tudo ao contrário. O impulso "puramente masculino" é entregar e apartar, o impulso "puramente feminino" é retirar e conservar. Claro que se tratam de impulsos muito esquemáticos, porque cada ser em maior ou menor medida é andrógeno, porém está claro que da ordenação e harmonização desses impulsos depende o bem-estar do indivíduo em particular e da sociedade em seu conjunto, porém semelhante harmonia é impossível sem a irracionalidade ativa do eixo do ser, convencimento intuitivo da certeza do sistema de valores próprios, a instintiva fé no acertado do caminho próprio. De outro modo a energia centrípeta ou destroçará o homem, ou lhe obrigará a buscar algum centro e ponto de aplicação de suas forças no mundo exterior. O que leva à destruição da individualidade e à perda total de controle do princípio masculino próprio. A energia erótica ao invés de ativar e temperar o corpo, como ocorre em um organismo normal, começa a ditar ao corpo suas próprias condições vitais.

A androgenia do ser está provocada pela presença feminina na estrutura psicossomática masculina. A "mulher oculta" se manifesta no nível anímico e espiritual como o princípio regulador que sujeita o ideal estrelado do "céu interior". O homem deve manter a fidelidade a essa "bela dama", a aventura amorosa é a busca da sua equivalente terrena. No caso contrário estará cometendo uma infidelidade cardinal, existencial.

Porém do que estamos falando?

Do amor.

A maioria dos homens atuais pensarão que se trata de besteirol romântico, que só vale quando se fala dos trovadores e cavaleiros. Ouçam, nos dirão, todos nós - mulheres e homens - vivemos em um mundo cruel e tecnificado em condições de luta e competição. Todos por igual dependemos dessas duras realidades, e nesse sentido se pode falar da igualdade dos sexos. Quanto à dependência do sexo, saberá que em todos os tempos houve obcecados e erotômanos. Em efeito, as mulheres agora desempenham um papel maior, mas não é suficiente para falar de um tal "matriarcado".

Certamente, não se pode falar do "matriarcado" na atualidade em sentido estrito. Segundo Bachofen, o matriarcado é mais exatamente um conceito jurídico, relacionado com o "direito das mães". Porém perfeitamente podemos nos ocupar da ginecocracia, do domínio da mulher, devido à orientação eminentemente feminina da História Moderna. Aqui está a definição de Bachofen:

"O ser ginecocrático é o naturalismo ordenado, o predomínio do material, a supremacia do desenvolvimento físico". - J.J. Bachofen. Mutterrecht, 1926, p.118

Ninguém poderá negar o êxito da Época Moderna nesse sentido. Ao longo dos últimos dois séculos na psicologia humana se produziu uma mudança fundamental. De cara à natureza masculina lhe são antipáticas as categorias existenciais tais como "a propriedade" e o tempo no sentido de "duração". O caráter centrípeto, explosivo do falicismo exige instantes e "segundos" que estão fora da "duração", que não se compõem em "duração". O destino ideal do homem é avançar para a frente, superar o peso terreno, buscar e conquistar novos horizontes do ser, desprezando sua vida, se por vida se entende a existência homogênea, rotineira, prolongada no tempo. Os valores masculinos são o desinteresse, a bondade, a honra, a interpretação celestial da beleza. Desde este ponto de vista, "Lorde Jim" de Joseph Conrad é quase o último romance europeu sobre um "homem de verdade". Jim, simples marinheiro, ofendido em sua honra, não o pode perdoar ou superar. Por isso o autor lhe concedeu o título, porque a honra é o privilégio e o valor da nobreza. O justo e o cavaleiro errante são os homens autênticos.

Poderão responder: se todos se põem a se fingir de Quixote ou a falar com os pássaros, em que se converterá a sociedade humana? É difícil responder a essa pergunta, porém é fácil observar em que se converteria dita sociedade sem São Francisco e sem Dom Quixote. Dom Quixote é muito mais necessário para a sociedade que uma dezena de consórcios automobilísticos.

A civilização burguesa é semi-civilização, é um sem-sentido. Para criar a civilização fazem falta os esforços conjuntos dos quatro estamentos.

Falamos: centralização, centrípeto. Não obstante não é nada fácil definir o conceito "centro". O centro pode ser estático ou errante, manifesto ou não, se pode amá-lo ou odiá-lo, se pode saber dele, ou suspeitar, ou pressenti-lo, com a sutilíssima e enganosa antena da intuição. É possível ter vivido a vida sem ter nem idéia acerca do centro da existência própria. Se trata do paradoxal e imóvel móvel de Aristóteles. No centro coincidem as forças centrífugas e as centrípetas. Quando uma delas apaga à outra o sistema ou explora ou se paralisa em uma morte gélida. É evidente: o incognoscível do centro garante sua centralidade, porque o contro percebido e explicado sempre se arrisca a se trasladar à periferia. Daí a conclusão: o centro permanente não se pode conhecer, há que crer nele. Por isso Deus, honra, bem, beleza são centros permanentes. É a condição principal da atividade masculina dirigida, radial.

Nos dois primeiros estamentos - o sacerdotal e o da nobreza - a atividade masculina, entendida dessa forma, domina sobre a feminina. E unicamente com a posição normal, quer dizer alta, desses estamentos se cria a civilização, em todo caso a civilização patriarcal. O burguês reconhece os valores ideais nominalmente, porém prefere as virtudes mais práticas: a honra se substitui pela honradez, a justiça pela decência, o valor pelo risco razoável. No burguês a energia centrífuga está submetida à centrípeta, porém o centro não se encontra dentro da esfera de sua individualidade, o centro há que se afirmar em algum lugar do mundo exterior para se converter em seu satélite. A tendência de "entregar e apartar" nesse caso é possível como uma manobra tática da tendência de "retirar, conservar, adquirir, aumentar".

Depois da revolução burguesa francesa e da fundação dos Estados Unidos da América do Norte veio a derrubada definitiva da civilização patriarcal. A rebelião da Vendéia, seguramente, foi a última labareda do fogo sagrado. No século XIX o princípio masculino se dispersou pelo mundo orientado ao material, fazendo-se notar no dandismo, nas correntes artísticas, no pensamento filosófico independente, nas aventuras dos exploradores dos países desconhecidos. Porém seus representantes, naturalmente, não podiam deter o progresso positivista. A sociedade expressava a admiração por seus livros, quadros e façanhas, mas os via com bastante suspeita. Marx e Freud contribuíram bastante para o triunfo da ginecocracia materialista. O primeiro proclamou a tendência ao bem estar econômico como a principal força motriz da história, enquanto que o segundo expressou a dúvida global acerca da saúde psíquica daquelas pessoas cujos interesses espirituais não servem ao "bem comum". Os portadores do autêntico princípio masculino paulatinamente se converteram nos "homens sobrantes" ao estilo de alguns protagonistas da literatura russa. "Wozu ein Dichter?" (Para quê o poeta?) - perguntava Hölderlin com ironia todavia a princípios do século XIX. Certamente para que fazem falta em uma sociedade pragmática os sonhadores, os inventores de miragens, das doutrinas perigosas e demais mestres da presença inquietantes? Gottfried Benn refletiu a situação com exatidão em seu maravilhoso ensaio "Palas Atenea":

"...representantes de um sexo que está morrendo, úteis tão somente em sua qualidade de copartícipes na abertura das portas do nascimento... Eles tentam conquistar a autonomia com seus sistemas, suas ilusões negativas ou contraditórias - todos esses lamas, budas, reis divinos, santos e salvadores, que em realidade nunca salvaram ninguém, nem a nada - todos esses homens trágicos, solitários, alheios ao material, surdos perante o chamado secreto da mãe-terra, lúgubres caminhantes... Nos estados de alta organização social, onde tudo acaba na normalidade com o acasalamento, os odeiam e toleram tão só até que chegue o momento".

Os estados dos insetos, sociedades de abelhas e cupins, estão perfeitamente organizados para os seres que "só vivem uma vez". A civilização ocidental muito exitosamente se dirige a semelhante ordem ideal e nesse sentido representa um episódio bastante raro na história. É difícil encontrar no passado abarcável uma formação humana, afiançada sobre as bases do ateísmo e uma construção estritamente material do universo. Aqui não importa o que é que se coloca exatamente como a pedra angular: o materialismo vulgar ou o materialismo dialético ou os processos microfísicos paradoxais. Quando a religião se reduz ao moralismo, quando a alegria do ser se reduz a uma dezena de "prazeres" primitivos, pelos quais ademais há que pagar não se sabe quanto, quando a morte física aparece como "o final do todo" acaso se pode falar do impulso racional e de sua sublimação? Por isso nos anos vinte Max Scheler desenvolveu sua conhecida tese sobre a "ressublimação" como uma das principais tendências do século. Segundo Scheler a jovem geração já não deseja, à maneira de seus pais e avós, gastar as forças nas buscas improdutivas do absoluto: contínuas especulações intelectuais exigem demasiada energia vital, que é muito mais prático utilizar para a melhora das condições concretas corporais, financeiras e outras. Os homens atuais anseiam pela ingenuidade, pela despreocupação, pelo esporte, desejam prolongar a juventude. O famoso filósofo Scheler, ao parecer, saudava semelhante tendência. Se visse no que se converteu esse jovem empenhado em se rejuvenescer e contemplasse também no que se converteu o esporte e outros entretenimentos saudáveis!

E ademais.

Acaso a sublimação se reduz às especulações intelectuais? Acaso o impulso para a frente e para o alto se reduz aos saltos de longitude e altitude? A sublimação não se realiza nos minutos de bom estado de humor e não se acaba com a leseira. Tampouco é o êxtase. É um trabalho permanente e dinâmico da alma para ampliar a percepção e transformar o corpo, é o conhecimento do mundo e dos mundos, atormentado aprendizado do alpinismo celestial. E ademais se trata de um processo natural.

Se um homem tem medo, foge ou nem mesmo reconhece o chamado da sublimação, é que, propriamente, não pode se chamar homem, quer dizer um ser com um sistema irracional de valores marcadamente pronunciado. Inclusive com a barba farta ou bíceps imponentes seguirá sendo uma criança, que depende totalmente dos caprichos da "grande mãe". Obrigando o espírito a resolver os problemas pragmáticos, esgotando a alma com a vaidade e a lascívia, sempre se arrastará de joelhos buscando o consolo, os ânimos e o carinho.

Porém a "grande mãe" não é em absoluto a amorosa Eva patriarcal, carne da carne do homem, é a sinistra criação da eterna escuridão, parente próxima do caos primordial, não-criado: sob o nome de Afrodite Pandemos envenena o sangue masculino com o pesadelo sexual, com o nome de Cibele lhe ameaça com castração, a loucura e o leva ao suicídio. Alguns se perguntarão que relação tem toda essa mitologia com o conhecimento racional e ateísta? A mais direta. O ateísmo não é mais que uma forma de teologia negativa, assimilada de maneira pouco crítica ou inclusive inconsciente. O ateu crê ingenuamente no poder total da razão como instrumento fálico, capaz de penetrar até onde se queira nas profundezas da "mãe-natureza". Sucessivamente admirando a "harmonia surpreendente que reina na natureza" e indignando-se ante as "forças elementais, cegas da natureza" é como uma criança mimada que quer receber dela tudo sem dar nada em troca. Ainda que ultimamente, assustado perante as catástrofes ecológicas e a perspectiva de ser trasladado em um futuro próximo às hospitaleiras superfícies de outros planetas, apela à compaixão e ao humanismo.

Porém o "sol da razão" não é mais que o fogo fátuo do pântano e o instrumento fálico não é mais que um brinquedo nas mãos depredadoras da "grande mãe". Não se deve aproximar ao princípio feminino que cria e que também mata com a mesma intensidade. "Dama Natura" exige manter a distância e a veneração. O entendiam bem nossos patriarcais antepassados, tendo cuidado de não inventar o automóvel, nem a bomba atômica, que punham nos caminhos a imagem do deus Término e escreviam nas colunas de Hércules "non plus ultra".

O espírito se desperta no homem bruscamente e esse processo é duro - essa é a tese principal de Erich Neumann, um seguidor original de Jung, em sua "História do Aparecimento da Consciência". O mundo orientado ginecocraticamente odeia essas manifestações e procura acabar com elas utilizando diferentes métodos. O que na época moderna se entende por "espiritualidade", se destaca por suas características especificamente femininas: fazem falta memória, erudição, conhecimentos sérios, profundos, um estudo pormenorizado do material - em uma palavra, tudo o que se pode conseguir nas bibliotecas, arquivos, museus, onde, qual se fora o baú da velha, se guardam todas as bagatelas. Se alguém se rebela contra semelhante espiritualidade, sempre poderão acusá-lo de superficialidade, diletantismo, aventureirismo - características essencialmente masculinas. Daí os compromissos degradantes e o medo do indivíduo perante as leis ginecocráticas do mundo exterior, que a psicologia profunda em geral e Erich Neumann em particular denominam o "medo da castração". "Tendência a resistir - escreve Erich Neumann - o medo da 'grande mãe', medo da castração, são os primeiros sintomas do rumo centrípeto tomado e da autoformação". E continua:

"A superação do medo da castração é o primeiro êxito na superação do domínio da matéria" - Erich Neumann. Urspruggeschichte des Bewusstseins, Munchen, 1975, p.83

Agora, na era da ginecocracia, semelhante concepção constitui em verdade um ato heróico. Porém, o "homem autêntico" não tem outro caminho. Vamos ler umas linhas de Gottfried Benn do já citado ensaio:

"Dos processos históricos e materiais sem sentido surge a nova realidade, criada pela exigência do paradigma eidético, segunda realidade, elaborada pela ação da decisão intelectual. Não existe o caminho de retorno. Orações a Ishtar, retornos à grande mãe, invocações ao reino da mãe, entronização de Gretchen sobre Nietzsche - tudo é inútil: não voltaremos ao estado natural".

É assim?

Por um lado: conhecimento doce, embriagador: suas vibrações, movimentos graciosos, zonas erógenas...paraíso sexual.

Pelo outro:

"Atena, nascida do sêmen de Zeus, de olhos azuis, resplandescente armadura, deusa nascida sem mãe. Palas - a alegria do combate e da destruição, cabeça de Medusa em seu escudo, sobre sua cabeça o lúgubre pássaro noturno; retrocede um pouco e de golpe levante a gigantesca pedra que servia de linde - contra Marte, que está do lado de Tróia, de Helena... Palas, sempre com seu elmo, não fecundada, deusa sem filhos, fria e solitária".

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Gwendolyn Taunton - A Síntese Olímpica de Nietzsche

por Gwendolyn Taunton



"Tarefa de lucidez: alcançar um desespero correto, uma ferocidade olímpica" - Emil Cioran

Compreender o papel que a Tradição pode ou deve desempenhar na era moderna é um tópico central no estudo da filosofia. Hoje, em um mundo em que Deus está quase, mas não muito morto, como podemos traduzir crenças tradicionais em uma forma apropriada e adequada para as pessoas da presente era? Para responder a essa pergunta devemos examinar a natureza da experiência espiritual em si e olhar para diferentes abordagens ao divino na Antiguidade. Surpreendentemente um dos melhores pontos de partida para desenvolver um relacionamento com a Tradição apropriado para o Ocidente moderno emerge não dos próprios textos Tradicionais, mas de Nietzsche. Apesar da denúncia aberta do Cristianismo feita por Nietzsche e da costumeiramente proclamada consequência da "Morte de Deus", a obra de Nietzsche penetra muito profundamente no núcleo da filosofia religiosa e essa área de seu pensamento normalmente é interpretada do modo errado. Uma quantidade substancial dos escritos de Nietzsche podem ser vistos não como desejando romper com a Tradição, mas ao invés desejando revigorá-la pela introdução de elementos do que ele acreditava ser um modelo mais forte para a crença religiosa - uma forma vital de pensamento espiritual que impediria a decadência cultural.

Muito da interpretação equivocada de Nietzsche emerge de confundir sua rejeição da tradição cristã com uma rejeição da Tradição em si, o que não era o caso. Outras referências mais obscuras sugerem que o próprio Nietzsche não acreditava que a sociedade estava pronta para abraçar a "Morte de Deus", e isso é citado em um de seus trechos mais famosos, a Parábola do Louco.

"Como nos consolaremos nós, os assassinos entre todos assassinos? O que o mundo possuía de mais sagrado e poderoso de tudo que o mundo já havia possuído perdeu seu sangue sob nossa faca: quem limpará esse sangue? Que água há para que nos limpemos? Que festivais de expiação, que jogos sagrados teremos que inventar? Não seria a grandeza desse ato grande demais para nós? Não deveríamos nós nos tornarmos deuses simplesmente para parecermos dignos dele? Jamais houve ação tão grandiosa e aqueles que poderão nascer depois de nós pertencerão por esta ação a uma história mais alta que foi até aqui qualquer outra história"

Aqui, a "Morte de Deus" não é vista como uma vitória, mas como um erro. A humanidade não é retratada como o tipo superior de Nietzsche (Übermensch), os quais se tornariam eles próprios Deuses encarnados, mas ao invés como assassinos cujas mãos estão manchadas com o sangue do próprio crime literário de Nietzsche. Deus está morto, mas as pessoas não são mentalmente ou espiritualmente fortes o suficiente para serem capazes de viver sem a idéia de Deus. Com Deus "morto" a humanidade está perdida; a morte prematura de Deus se torna um assassinato, transformado em um ato criminoso contra a humanidade, ao invés de sua salvação. A "Morte de Deus" se metamorfoseia da premissa original de Nietzsche de criar o Übermensch em um ato de crueldade, não perante Deus, mas perante a próprioa humanidade. Essa é a raiz da crise cultural do mundo europeu.

As teorias de Nietzsche sobre a Tradição, porém, são muito mais complexas do que isso, e influenciadas mais por seu amor pela Tradição Helênica do que por sua antipatia pelo Cristianismo, e é apenas nesse contexto que elas podem ser compreendidas. As idéias de Nietzsche não se formaram em um vácuo - de fato muitos de seus conceitos evoluíram de fontes mais antigas, que estavam bastante em voga nos círculos acadêmicos de sua era. Uma dessas era a ascensão à proeminência no século XIX do que só pode ser referido como Filo-Helenismo Germânico - um tipo de ressurgimento cultural em que os alemães desse tempo olhavam para a Grécia Antiga por fontes de inspiração para restaurar sua própria cultura. Vassilis Lambropoulos afirma em O Eurocentrismo que esses novos "alemães educados viam a si mesmos como os gregos modernos, os herdeiros da cultura antiga". Era bastante comum na Alemanha naquela época adotar temas gregos antigos e vê-los como o ápice da civilização européia - assim nos círculos acadêmicos muitas teorias começam a emergir que não eram inerentemente religiosas, mas de fato traçavam fortes paralelos entre a Tradição Helênica e a natureza da civilização.

Esse novo movimento germânico começa com o Grechenbild e as obras de J.J. Winckelmann, que afirmava que o caminho para a grandeza germânica estava em "imitar os antigos [...] os gregos principalmente, e a geração de pensadores alemães reconstituir sua imagem da identidade alemã e suas possibilidades". Diferente de Nietzsche, a nova "Grécia" germânica de Winckelmann se baseava em uma sociedade clássica sedada e pacífica. Por um tempo essa visão foi dominante em círculos intelectuais e não foi desafiada até Simbolismo e Mitologia dos Antigos, especialmente dos Gregos de Friedrich Creuzer foi lançado, que retratava uma imagem bastante diferente da Grécia Antiga, que revelava uma Grécia noturna e oculta de sacrifícios sangrentos, orgias intoxicantes, ritos primitivos de caça e outras liturgias que implodiram os sonhos de Winckelmann. Desafiando Winckelmann, Creuzer criou uma oposição na Tradição Helênica entre os posteriores deuses "olímpicos" de Homero e as divindades primordiais "ctônicas" associadas aos poderes escuros da terra e do submundo. Em contraste ao Apolo de Winckelmann, o deus escuro Dionísio nasceu na filosofia alemão, se tornando, "a Weltseele, o Demiurgo que era criação do mundo material e se tornou interligado com seu sofrimento". Isso por sua vez influenciaria o estudioso J.J. Bachofen em obras como Ensaio sobre o Simbolismo de Tumbas Antigas, O Direito Materno e A Saga de Tanaquil, que estabeleceram uma oposição entre forças terrenas, femininas (telúricas) e forças celestiais, masculinas (urânicas) em um paralelo óbvio ao paradigma original de Creuzer entre divindades ctônicas e olímpicas. No mundo da Tradição, isso seria posteriormente desenvolvido por Evola como uma extensão do pensamento de Nietzsche e Bachofen. Nietzsche permanece hoje como o representante mais conhecido dessa linhagem do filo-helenismo alemão, porém, pois como Max Baeumer afirma:

"A tradição de Dionísio e o Dionísio na literatura alemã de Hamann e Herder a Nietzsche - como foi lançado pela primeira vez a partir de manifestos estéticos, obras literárias, e do que hoje são obras obscuras de filosofia natural e mitologia - dá testemunho eloquente da postura místico-natural e extática dos romantistas alemães que alcança sua culminação nas obras de Friedrich Nietzsche"

É Nietzsche que estabelece de forma plena a tensão a dialética entre Dionísio Zagreu dos "ditirambos selvagens [...] cheios de labirintos" e "o deus da luz Febo Apolo, o disciplinado, bem ordenado peã". Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche dirige sua crítica contra o classicismo filo-helênico e o "sonho de pureza apolínea de Winckelmann" ao escavar uma Grécia diferente, uma que é arcaica, ao invés de clássica. Essa forma de arqueologia desconstrutiva do "clássico" serviria como força cultural determinante na Alemanha e uma "descoberta do arcaico", uma força cujas repercussões logo ressoariam na obra dos classicistas (Walter F. Otto), na literatura (O Círculo George), na filosofia (Heidegger), na política (Alfred Baeumler), nos pensadores e artistas da República de Weimar, e eventualmente no Tradicionalismo através de Julius Evola. Antes de examinar como a polaridade apolíneo/dionisíaco de Nietzsche influencia a natureza da Tradição e da modernidade, porém, é primeiro necessário olhar para a obra de Schopenhauer, quem, depois de Heráclito, é o filósofo com quem Nietzsche tem a maior afinidade. É apenas examinando Schopenhauer que a natureza intrincada da Vontade de Poder de Nietzsche e o impulso dionisíaco pode ser plenamente compreendido.

Para Schopenhauer lidar com a morte é a primeira e mais essencial função de qualquer autêntica Tradição. É nesse sentido, por deixar de fornecer uma solução para o problema da morte, que Schopenhauer considerou o Judaísmo e o "paganismo" greco-romano como religiões falhas por carecerem de uma doutrina propriamente desenvolvida da imortalidade. Para a mente de Nietzsche é claro, a Tradição Greco-Romana fornecia sim tal doutrina, pois Dionísio, como Cristo, é um "deus que morre" - ele morre para renascer pelo sacrifício, e nos mitos gregos de Dionísio comparações são traçadas entre os conceitos de vida terrena (bios) e vida eterna (zoë) encontrados nas Tradições Dionisíacas de Mistério da Grécia Antiga. A estética dionisíaca apresentada na obra de Nietzsche deve ser também, portanto, interpretada como uma resposta para o problema da redenção (uma resposta à filosofia schopenhaueriana de redenção), e ao problema de como o homem pode justificar sua própria existência individual em face do abismo "terrível" e "absurdo" da vida.



O Mundo como Vontade e Representação de Schopenhauer teve uma enorme influência sobre Nietzsche e essa idéia se funde com sua imagem arcaica de Dionísio. Há uma passagem em que Schopenhauer (usualmente conhecido por seu pessimismo) celebra a unicidade da Vontade e assim a unicidade e unidade final de todo ente. É esse elemento que Nietzsche explora - que a Vontade é positiva. A estrutura schopenhaueriana permanece, mas seu sentido é invertido; ao invés de deplorar a Vontade, devemos celebrar e proclamar sua mensagem. Nos termos de Schopenhauer, o primeiro é o Mundo enquanto Vontade, como energia criativa do universo, e na compreensão de Nietzsche, é o Dionisíaco, o segundo sendo, nos termos de Schopenhauer, o mundo como Representação, nos termos de Nietzsche o Apolíneo, o mundo como contemplação, observação e julgamento do que a Vontade criou e cria. Dionísio é tanto Vontade como Representação em um, conformando-se precisamente à noção de Schopenhauer da Vontade, perpetuamente ativa em suas representações e fenômenos individuais do que aparece para nós como mundo, o qual, através e na Vontade, é uma totalidade interconectada. Essa nova interpretação, em que Dionísio simboliza o inconsciente e a Vontade de Poder, manifesta como energia dinâmica, em um eterno fluxo e devir, o panta rei heraclítico. Ela não é algo a se comiserar, mas uma fonte de poder primordial. A vida deve seu ser ao prazer dionisíaco extático da Vontade como incessante criadora.

Essas idéias seriam eventualmente mais desenvolvidas na obra de Nietzsche, e são o pináculo do aspecto arcaico ou primordial na escola do filo-helenismo alemão. O característico dessa escola pelo que Nietzsche é renomado é sua famosa dicotomia Dionísio/Apolo em O Nascimento da Tragédia - que é em verdade muito mais filosófico que mitológico, apesar de receber seu ímpeto da Tradição Helênica. Usualmente esses dois Deuses são examinados em sua relação com o mundo artístico - mas sua oposição ecoa outro mundo; o da Tradição e a natureza da relação com o numinoso. Apolo se comunica som os seus através da arte sedada do sonho; Dionísio sussurra as palavras da loucura aos ouvidos - o estado mental pelo qual Dionísio se comunica é o da intoxicação, seja essa na forma do teatro, da música, de estados alterados de consciência ou quaisquer outros meios; o que está por trás do elemento dionisíaco é a expressão de pathos ou sentimento trágico. A racionalidade grega (geist) é uma sublimação da força impulsora da fusão dionisíaca com a natureza; os gregos projetaram suas emoções na forma da tragédia, a qual se tornaria o máximo refinamento da condição humana. Como o próprio Nietzsche diz:

"De modo a compreender essas duas tendências, concebamos primeiro a ambas como os mundos artísticos separados dos sonhos e da embriaguez. Esses fenômenos fisiológicos apresentam um contraste análogo ao existente entre o Apolíneo e o Dionisíaco".

No Apolíneo Nietzsche viu a clareza racional que vem da esfera onírica - junto do êxtase (rausch) como condição fundamental da verdadeira arte. "Apolo, como o Deus de todos os poderes criativas, é ao mesmo tempo o Deus divinizador [...] Ele, com seu significado raiz de 'o luminoso', o deus da luz, também rege sobre a aparência bela do mundo da fantasia". O Dionisíaco é virtualmente o oposto:

"A arte dionisíaca [...] se baseia no jogo da intoxicação/êxtase [rausch], com arrebatamento [verzückung]. Há dois poderes em particular que despertam o êxtase auto-abandonado [rausch] do homem ingênuo da natureza - o impulso da primavera e a bebida narcótica. Seus impactos são simbolizados pela figura do Dionísio. O principium individuationis em ambos estados é rompido; o subjetivo desaparece inteiramente contra a força do geral-humano, mesmo do geral-natural que irrompe".

As representações de Dionísio parecem irracionais ou subconscientes, as de Apolo racionais e conscientes. Ademais, Apolo é um deus do traçado de limites - tanto éticos como conceituais - ele é o deus do principium individuationis. Apolo, portanto, representa um sentido de unidade mas também de restrição. Dionísio, em contraste, expande seus horizontes pela transcendência de fronteiras - daí para o tipo religioso dionisíaco a "intoxicação" é a transcendência do mundano e de todos os limites impostos. Sendo essencialmente uma díade, ambos funcionam como os limites diferentes da mesma polaridade planar; em verdade, nenhum pode existir sem o outro - Apolo e Dionísio representam o que Nicholas Cusanus chamou de coincidentia oppositorum, a coexistência de qualidades e atributos opostos. Em verdade, não há limites claros entre a natureza apolínea e a natureza dionisíaca; há sempre dentro de um um elemento do outro, pois como Nietzsche diz "Não há aparência dionisíaca (schein) sem um reflexo apolíneo (wiederschein)". É dessa tensão flutuante entre os dois pólos que a maioria das contradições na filosofia de Nietzsche emergem, tal como seu elitismo e postura pró-aristocrática como um elemento apolíneo radicalmente contraditório à unicidade orgiástica do dionisíaco. Conforme a filosofia de Nietzsche se desenvolve, a figura de Apolo desaparece e aparentemente é esquecida; mas esse desaparecimento é ilusório. Conforme suas teorias amadurecem, Nietzsche funde a figura de Apolo em seu retrato de Dionísio. Assim a concepção nietzscheana de Dionísio se torna singular em um nível superior de entendimento, onde as duas forças trabalham em harmonia e não estão mais divididas ao nível conceitual - Dionísio e Apolo se fundem como um só, e essa força composta Nietzsche agora chama somente de "Dionísio". Visto sob essa luz, o indivíduo apolíneo é apenas aparentemente o oposto da totalidade dionisíaca, mas é na verdade tão somente o resultado temporário da atividade dionisíaca.



A Vontade de Poder, quando tornada manifesta, é a união entre Apolo consciente e Dionísio inconsciente. Nessa divindade nietzscheana composta, Apolo, de fato, perde seu nome para o outro Deus, mas de modo algum perde o poder de sua criatividade artística, perpetuamente articulando o caos dionisíaco em distintas formas, sons e imagens, que são dionisíacas apenas porque ainda brilham com o ardor do fogo primordial. É uma união também conhecida pela Tradição Helênica através da figura trágica de Orfeu, que estava relacionado a ambos Deuses, pois como Walter Strauss nota: "Pois Orfeu é verdadeiramente um reconciliador de opostos: ele é a fusão da iluminação solar radiante de Apolo e do conhecimento subterrâneo e sombrio de Dionísio". Como Orfeu, a forma final do Dionísio de Nietzsche é uma síntese composta de ambos Deuses. Os opostos aparentes são, no sentido hegeliano do termo, aufgehoben, repelidos como duas fases da totalidade do Ser. Essa é uma linha de pensamento dialético que Nietzsche herdou de Hegel, mas sem a base teleológica hegeliana, que Nietzsche rechaçou.

Há outro nível nessa dicotomia, com escritores muitas vezes atribuindo uma forma de metafísica sexual que é então sobreposta a Dionísio e Apolo, com Dionísio usualmente sendo considerado a representação "feminina". Essa idéia é introduzida por meio das conexões ctônicas e arcaicas encontradas previamente em Bachofen e Creuzer, sendo continuada mais tarde por Nietzsche, e então revisada novamente por Evola. Bachofen associa Dionísio com a sexualidade masculina potente inseparável da terra, e assim com a primeira (telúrica) e segunda (que ele designa matriarcal) fases da existência, porque evidências escritas e iconográficas associam o Deus às mulheres: "O deus fálico [Dionísio] não pode ser pensado separadamente da materialidade feminina". A informação mitológica sobre essas associações é bastante complexa e é nossa intenção não insistirmos na narrativa mitológica mas ao invés na filosofia de Nietzsche que é uma reinvenção dela. É errôneo considerar o Dionísio de Nietzsche como uma figura mitológica - ele é um conceito filosófico baseado no deus helênico, não a própria divindade. Para estudar isso, é necessário estar bem versado tanto em filosofia alemã como nos mitos gregos antigos. É suficiente dizer que ambos deuses são masculinos e possuem alguma presença de ambiguidade sexual neles - Dionísio através de sua representação ocasional como hermafrodita e Apolo através de um certo número de relações homossexuais. Isso complica as demarcações claras de sexualidade propostas em relação a ambos Deuses, como implicado por Bachofen e Evola. Ademais, não há nada de feminino nas representações nietzscheanas da Vontade de Poder ou de Dionísio, as quais se algo, são na verdade "hipermasculinas".

Essas tentativas passadas de aplicar sexualidade/fisiologia mortal aos Deuses, são porém, não mais absurdas que algumas das noções dualistas que tem sido defendidas em discussões modernas sobre "gênero". A própria palavra, "gênero", é fundamentalmente um construto artificial. Essas idéias de dualidade de gênero primeiro começaram a espalhar suas raízes ideológicas na modernidade quando Ortner escreveu as palavras "Estaria o feminino em relação à natureza o que o masculino é em relação à cultura?" O contexto dessa obra se baseava na pressuposição de que a categoria feminina está metaforicamente conectada à natureza enquanto a masculina estaria conectada à cultura. A lógica dessa noção se apóia na base de que as mulheres enquanto reprodutoras permanecem ligadas à natureza, enquanto os homens, que não podem se reproduzir, produzem e estão portanto ligados à cultura. Essa é uma expansão óbvia sobre as teorias de Bachofen, que interessantemente forma outra díade - a oposição entre sexo anatômico e a nova terminologia de "gênero". Para muitos teóricos da área, o sexo é visto como real (natureza) e o gênero como artificial (cultura). Em termos de relacionar sexo e/ou gênero de volta à dicotomia original Apolo/Dionísio, essa dualidade é facilmente comparada. O gênero, enquanto artificial e portanto um construto cultural, pode ser ligado à esfera suprarracional apolínea. O sexo, como a categoria de definição mais natural estaria portanto no reino da influência dionisíaca natural. Também vale a pena notar nesse ponto que o próprio Nietzsche, no início de O Nascimento da Tragédia compara o contraste dos elementos do apolíneo e do dionisíaco aos dos sexos: "O desenvolvimento contínuo da arte está entranhado com a realidade apolínea e dionisíaca: tal como a procriação depende da dualidade dos sexos, envolvendo conflito perpétuo com apenas reconciliações periodicamente intervenientes". O fato de que mesmo nessa primeira fase de sua filosofia, Nietzsche está suficientemente consciente das similaridades entre as duas divindades rivais e da relação entre os sexos, e que ele escolhe empregar essa metáfora é outra referência clara à influência de Bachofen.



O ideal heróico de vida humana de Nietzsche é fundamentalmente Tradicional. É um tipo de imitatio Dei, a imitação ou melhor encarnação no indivíduo humano da divindade dionisíaca, como a qual a Vontade se manifesta. O projeto nietzscheano para o homem é a sua aproximação cada vez maior à corporificação plena daquela energia divina que é a Vontade. Por causa desse aspecto relativo à associação Apolo/Dionísio é possível justapô-los com outro par filosófico encontrado nas obras de Soren Kierkegaard. Apesar de ser incongruente comparar a filosofia da religião de Nietzsche à de Kierkegaard, isso fornece um modelo mais plausível para o exame da Tradição em relação ao problema da modernidade do que é atualmente expresso pelos próprios autores Tradicionalistas.

Na modernidade três distintas esferas culturais são referidas; respectivamente essas são conhecidas como as esferas culturais da ciência, da moralidade e da arte - cuja base deriva das obras de Kant (Crítica da Razão Pura, Crítica da Razão Prática e Crítica da Faculdade de Juízo). As três esferas existenciais formuladas por Kierkegaard, a estética, a ética e a religiosa, parecem ter sido compostas em um espírito similar às três esferas culturais de Kant. O que é de grande importância na obra de Kierkegaard é que ele identificou duas correntes separadas de pensamento religioso: Religiosidade Tipo A e Religiosidade Tipo B. Essas duas formas diametralmente opostas de Tradição podem ser definidas da seguinte forma: A Religiosidade Tipo A pode ser entendida como incorporando a quarta esfera cultural que foi ignorada pelos artífices da modernidade; enquanto a Religiosidade Tipo B fornece um princípio crítico e uma perspectiva transcendente sobre as esferas culturais enquanto esferas culturais, incluindo religião como esfera cultural junto àquelas da ciência, moralidade e arte. Para esclarecer ainda mais a distinção entre os dois tipos, a Religiosidade A poderia ser melhor descrita como um modo externalizado (exotérico, em que rituais e as regulações dos papéis sociais desempenham uma função. Por contraste, na Religiosidade B a ênfase não é tão grande no papel comunal (ou princípio de communitas como foi chamado pelo antropólogo Victor Tuner), mas ao invés se apóia mais no papel do indivíduo (esotérico). O que importa na Religiosidade Tipo B é o princípio de ser religioso em si mesmo, e não a adesão a quaisquer doutrinas e práticas particulares formuladas como na Religiosidade Tipo A. O que está sendo expressado por essas duas polaridades é um padrão de pensamento religioso que é bastante similar aos papéis contrastantes de Apolo e Dionísio que formavam a base da obra de Nietzsche, O Nascimento da Tragédia. Esse padrão ocorre porque primeiramente, ambos são deuses da estética, e em segundo lugar ambos também fornecem caminhos distintos até o divino. Ambos ocupam papéis similares - mas um (Apolo) é o deus da escultura, da arte com forma. Dionísio, em contraste, preside sobre a música - sua influência é invisível; ela só é ouvida ou sentida. O que ele representa não pode ser capturado em forma, pois mesmo em seu papel como o Deus do Teatro, ele sempre usa máscara. A face de Dionísio nunca é vista. Apolo é abordado por meio das artes racionais da profecia e dos sonhos; Dionísio através dos estados alterados e extáticos de consciência. Se fôssemos descrevê-los em termos de Religiosidade Tipo A e Religiosidade Tipo B, a polaridade estaria clara, com a natureza apolínea do homem em uma ponta e a dionisíaca na outra. Em certa medida eles também podem ser vistos como incorporando a oposição entre ciência e religião, que ocorre frequentemente no pensamento modernista/pós-modernista - Apolo pode ser visto como retratando a mente científica e racional e Dionísio o poder criativo cru e subliminal que só pode ser evocado pela experiência direta.

Para completar o padrão e as associações mencionadas aqui, precisamos retornar às teorias de Nietzsche sobre religião. Sua famosa grande proclamação, "Deus está morto", é obviamente bastante conhecida; o que é pouco conhecida, porém, é a complexa cadeia de referências que conectam essa afirmação a outros pontos fundamentais dentro de sua filosofia. Um desses é encontrado dentro do poema Lamento de Ariadne, onde se sugere outro conceito de Nietzsche conhecido como "a escada da crueldade religiosa". Os três degraus dessa escada representam três fases no desenvolvimento do sacrifício: nos tempos religiosos arcaicos sacrificavam-se humanos aos deuses; em temos de crença moral sacrificavam-se os impulsos e instintos mais fortes aos deuses; em um tempo ainda vindouro sacrificar-se-á o próprio deus (representativo de qualquer crença na consolação e salvação) como ato final de crueldade contra si mesmo. Esse modelo tripartido da evolução da Tradição é importante na medida em que se liga à Parábola do Louco já mencionada. A "morte" de Deus é um ato de crueldade realizado pelo homem, contra o homem - é um crime contra a humanidade, então contra Deus. Esses três juntos, são as fases da crueldade no pensamento religioso, culminando na fase atual do erro moderno.

Quanto mais se examina a filosofia de Nietzsche e suas crenças pessoais na Tradição, mais se torna claro que ele favorece uma síntese entre os pólos apolíneo e dionisíaco. Ademais, sua rejeição do Cristianismo em preferência de uma concepção altamente individualizada da Tradição de Mistério Dionisíaca pinta uma imagem bastante clara da própria essência religiosa de Nietzsche - na terminologia de Kierkegaard o que Nietzsche está expressando é uma forma emanação da Religiosidade Tipo B. Ademais, não somente pode a Religiosidade Tipo B ser conectada com as próprias crenças de Nietzsche, ela também pode ser diretamente associada à relação entre Apolo e Dionísio. A essência que emana da corrente apolínea é um modo externo de adoração: seus ritos formais podem ser vistos e eram acessíveis a todos, e como deus da escultura/forma sua estética podia ser experimentada por todos. Aquela da corrente dionisíaca, por contraste, não pode ser vista. Ela só pode ser "sentida", seja pela música ou pelo modo dionisíaco de adoração, que envolvia estados induzidos de êxtase. Como isso só podia ser experimentado de forma individual, não era acessível a todos. Assim pode-se ver que o dionisíaco evoca uma forma interna de Tradição esotérica e estética, enquanto o apolíneo invoca uma forma exotérica de Tradição e estética. Em termos artísticos e religiosos, essa é a primeira diferença entre as duas divindades. Ao empregar a comparação entre Apolo e o elemento masculino, e Dionísio como elemento feminino, a Religiosidade Tipo A se torna então associada com o exotérico masculino e a Religiosidade Tipo B com o esotérico feminino.

Com o declínio cada vez maior de interesse na Tradição exotérica, o Ocidente também experimenta um interesse crescente na Tradição esotérico - pareceria portanto que no mundo moderno, a Religiosidade Tipo B é atualmente dominante sobre o Tipo A. E se o padrão se sustentar, será o indivíduo, as Tradições esotéricas da Religiosidade Tipo B e a corrente primordial de Dionísio que estarão destinadas a serem vitoriosas em definir a civilização do futuro, e não as Tradições clássicas de Apolo que não conseguem transgredir seus limites para se revoltar contra o mundo moderno. O caminho para a frente está, como para os alemães, em abraçar idéias do passado antigo sem repeti-las, ao invés traduzindo-as em novos sistemas e valores. A transvaloração de valores sobre a qual Nietzsche fala como a grande remodeladora da civilização só pode nascer do dionisíaco revolucionário e do espírito prometaico - que em verdade é a combinação da Vontade de Poder dionisíaca e o controle racional de Apolo em perfeita síntese. Para salvar a Tradição, a Tradição deve agora transgredir seus próprios limites auto-impostos ou perecer para sempre às mãos dos assassinos de Deus no Götzen-Dämmerung.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Aleksandr Dugin - O Fim do Mundo Presente

por Aleksandr Dugin



(Conferência em Londres em 12/10/2013)

Futuro Pós-Americano

Parte 1 - Filosofia da Presença - Mundo Moderno Presente/Ausente

(Filosófico)

1 - O Mundo Presente não é algo dado. O Mundo é algo que é criado no processo do existir humano. Nós existimos não no Mundo como algo tomado como já dado. Existindo nós constituímos o Mundo pelo próprio fato de existirmos. A Modernidade insiste na objetividade do Mundo. Mas o Mundo objetivo pode estar realmente presente - porque de modo a estar pres-ente ele precisa ter o Ser, ele tem que ser, participar na Essência. Mas a questão do Ser demanda a testemunha que deverá ser o ente pensante. Apenas o momento intelectual define se o Mundo está ou não presente e julgando a Presença ele automaticamente constitui o Mundo como algo presente. Assim o Mundo, para ser, deve estar presente e ser instaurado enquanto tal.

2 - O  Mundo Moderno, a Modernidade é cada vez mais relutante no esforço de tornar o Mundo presente. Assim ele vai relaxando e aqui começa a Pós-Modernidade. A Pós-Modernidade é a recusa de tentar tornar o Mundo algo presente, a recusa de Ser-no-Mundo. O filósofo alemão Eugen Fink dedicou ao problema do Mundo obras filosóficas fenomenológicas muito importantes. Segundo ele, o Mundo não pose ser equiparado à soma das coisas do mundo. Ele é algo mais do que elas porque ele é a Totalidade. A intuição da Totalidade é o esforço existencial que cria o Mundo enquanto Totalidade. Apenas seres humanos conhecem o Mundo precisamente porque apenas seres humanos o criam pelo fato de serem humanos.

3 - Martin Heidegger em "Grundbegriffe der Metaphysik" explorou o tema apontando que a pedra é sem-Mundo (weltlos) e o animal é pobre de Mundo, destituído do Mundo (weltarm). Assim o Mundo está presente quando o humano é humano, quando o homem existe autenticamente. Mas ser humano é difícil, demanda afrontar a morte e o Fim. Existir realmente é existir perante o Fim, no Limiar. E isso significa existir criando o evento do Ser, o entendimento do Ser como algo limitado e finito, cercado pela Morte e pelo Nada. Ser de tal maneira é possível apenas no âmbito do Sagrado. Se abandonarmos o Sagrado nós não podemos perceber o Ser como o evento. E assim perdemos o Mundo como algo presente. Isto é precisamente o fim do Mundo presente como processo de término. Não o Fim como algo dado, mas o Fim como algo que perdura. Findando mais e mais. Cada vez mais aproximando-se do Fim, mas nunca o atingindo efetivamente.

4 - Assim o Fim como Desfecho começa quando nos recusamos a existir autenticamente - em meio ao Sagrado, cercados pela morte e pelo Nada apofático, intensivamente e perigosamente. A Modernidade é precisamente uma época assim. Ela se baseia na objetificação do Ser, na sua commodificação na fase final. Assim, ser moderno no sentido sociológico significa não estar presente. É o famoso esquecimento do Ser, a ausência do Ser, a ocultação do Ser. A Modernidade é a fase em que cada vez mais nos recusamos a existir. Nos recusando a existir nós detemos o processo do presenciamento do Mundo. Detendo o processo do presenciamento do Mundo, o Mundo deixa de estar presente. Ele começa a se tornar ausente. Mas ele perdura. Ele demora a desaparecer apesar de não estamos mais trabalhando para torná-lo presente. O que isso significa? Como podemos explicar a metafísica do atraso?

5 - A única solução é a virtualidade. Nas condições da virtualidade nada precisa estar realmente presente, mas ao mesmo tempo nada está realmente ausente. Por que nada está realmente ausente? Porque a ausência demanda a testemunha que possa dizer que não há algo ou que não há coisa alguma. Mas para que haja testemunha precisamos existir. Mas existir é o mesmo que Ser-no-Mundo. Ser-no-Mundo é o mesmo que tornar o Mundo presente. Mas este não é o caso. E é por isso que o Mundo não acaba de fato como deveria. É por isso que ele prossegue "sendo" como simulacro. É a natureza da virtualidade. A virtualidade é o atraso, o lapso da (pós)história quando não há mais Mundo, mas também não há o Nada. Nem algo, nem nada. A virtualidade é precisamente isso: O Fim sem fim, o eterno desfecho.

6 - As condições pós-modernas tentam tornar essa situação normal e normativa. Se o Fim jamais termina ele não é Fim nenhum. Assim eles zombam da escatologia e promovem suas versões caricaturais. Dessa forma o Fim que não acaba nunca ri de si mesmo brincando com o paradoxo. O Fim do Mundo presente não está além dele, e nem fixado no tempo: ele está do outro lado da virtualidade e ele produz a si mesmo aqui e agora. Mas ninguém o vê porque a virtualidade não nos dá a distância para perceber seu outro lado. Nós estamos em uma armadilha. O Fim está aqui, mas ele nos elude. Ele finge não ser o que é.

7 - Nosso objetivo não é salvar o Mundo. Salvar o Mundo hoje significa salvar o Desfecho, ajudá-lo a findar mais e mais, sustentar sua falsa eternidade e prolongar a ilusão. Nosso objetivo não é pôr um fim ao processo de Desfecho porque fazendo isso estaríamos simplesmente endossando a decadência ainda mais. Nosso objetivo não é começar algo novo, porque em meio ao Desfecho, qualquer coisa "nova" será imediatamente tomado e apropriado pelo Desfecho e transformado em uma nova distração virtual. Nosso objetivo é consertar o Desfecho enquanto Fim e demonstrar a sua real natureza - a natureza do Fim. Apenas assim podemos revelar a ausência do Mundo presente e desvelar o fato de que o Fim é realmente o Fim. Assim precisamos expôr a natureza ontológica da virtualidade naquilo que ela não é presente e não é Mundo.

8 - Se tentarmos comparar a virtualidade com a realidade no sentido da filosofia moderna estamos fadados à ruína desde o início. O conceito da realidade é simplesmente a primeira fase da transição à virtualidade, seu começo. A realidade é o produto da dessacralização do Sagrado, de modo que ela é profana em seu núcleo e o resultado do desencanto reducionista do Mundo. A realidade é em sua essência já a virtualidade. A realidade sendo este conceito moderno é virtual e niilista. Por isso devemos comparar a virtualidade com algo pré-real, isto é, pré-moderno, ou seja, o Sagrado.

9 - O dilema filosófico é Virtual vs. Sagrado. Ambos estão além do Real - um por baixo, e o outro acima.

Parte 2 - O Fim dos EUA - O Fim dos outros países

(Geopolítico)

1 - Geopoliticamente, os EUA demonstram os sinais de seu colapso. Nós vemos a agonia do mundo unipolar. Os EUA não podem mais propor um programa realista de controle imperial global. Há alguns pontos importantes que são centrais.

2 - Economia. O sistema liberal atual é baseado no conceito do crescimento progressivo e ilimitado. Na economia financeira o fator temporal adquire mais e mais significância. Assim, se temos certeza do crescimento do progresso econômico mundial nós avaliamos o futuro de uma maneira muito particular. Isso afeta não apenas o problema do refinanciamento dos créditos mas também grandes segmentos dos instrumentos de crédito e financeiros especiais, a economia das dívidas e daí em diante. Nas décadas de 80 e 90, a economia liberal como um todo contribuiu para persuadir o mundo da certeza do crescimento eterno - o crescimento da classe média, dos salários, da indústria e da economia mundial. O mundo acreditou em sua história. E isso não foi inocente porque essa credulidade abriu novas estratégias econômicas da globalização - uma nova velocidade da globalização que foi definida de uma forma completamente equivocada. Assim os limites do crescimento tidos como inatingíveis foram alcançados no início do novo milênio e este foi o sinal claro da catástrofe. A crise de 2008 foi o último sinal. O colapso do sistema bancário foi evitado apenas pela aquisição de débitos pelos Estados. Mas a política de crédito permaneceu a mesma. Após a indicação de Ben Bernanke todo mundo compreendeu que estávamos adentrando o Apocalipse: A política da Reserva Federal certamente continuaria a mesma e diante de nós havia apenas a falência dos Estados. Os depósitos tóxicos foram transferidos para os Estados e todos os sistemas financeiros globais se tornaram tóxicos. Dessa forma nós aproximamos do momento da falência dos Estados. O que vem a seguir? A falência das sociedades. Porque a última instância a responder pelo colapso do prognóstico falho do crescimento eterno é o povo. Por isso o povo está fadado à ruína. Ele será obrigado a pagar pelas décadas de vida abastada da oligarquia global que já está no passado. O futuro já está vendido. Não há futuro, ele já foi demolido pelo passado recente da euforia pós-Guerra Fria.

3 - Geopolítica. O momento unipolar de dominação americana exclusiva também ficou para trás. O sítio virtual do Projeto do Novo Século Americano criado por neoconservadores está em estado lamentável - sem atualizações, tudo congelado desde o ano 2000. Ninguém ousa prever para os EUA um futuro positivo. O Império Americano está afundando rapidamente. Os países do BRICS ascendem e a China comunista, apesar de toda a baboseira sobre a incompatibilidade entre totalitarismo e crescimento econômico logo será o líder econômico. O exemplo é claro: A democracia liberal não significa automaticamente prosperidade econômica. Ambos níveis são absolutamente independentes. Você pode ser democrático e pobre, totalitário e rico, mas também democrático e rico, totalitário e pobre. Tudo isso depende.

4 - O outro aspecto: Os EUA foram obrigados a retroceder em duas situações concretas e suficientemente humilhantes: O ataque russo à Geórgia, um devotado aliado liberal americano em agosto de 2008 e quando a Rússia e a China se recusaram a permitir que os EUA bombardeassem Assad. A recusa britânica em seguir Washington é bastante sintomática. Este é o verdadeiro fim do Mundo unipolar.

5 - A atual crise do financiamento do governo americano é o outro sinal. Os EUA podem cair muito rapidamente. É certo que os EUA cairão. Não importa se amanhã ou depois de amanhã. Este é o fim: tanto teoricamente como empiricamente. Teoricamente: Os EUA perderam seu poder de fascinação. Ele não inspira suficientemente mais ninguém. Eles tiveram a chance de governar o Mundo, eles fingiram governá-lo. Eles perderam a oportunidade. É hora de pagar por isso. O Império azarado pagará cem vezes mais - é o preço do medo de uns e do engano de outros. Os EUA estão fadados à ruína mais cedo ou mais tarde.

6 - Onde estamos em relação a Israel? Questão séria. O problema de Israel não é geopolítico ou econômico. É teológico. Seu Messias não está vindo. Os cálculos judaicos dizem de forma unânime: essa é a hora, ele certamente deve se apressar. Se os EUA caírem haverá quase imediatamente um país a menos. Adivinhem qual? Então ele definitivamente tem que aparecer porque todas as ações políticas e militares dos judeus na segunda metade do século XX foram orientados para sua vinda. Se ele se atrasar eles estão perdidos. Ele não virá nem agora, nem depois. E essa é uma péssima notícia. Péssima notícia para bons judeus. Eles podem promover um simulacro similar a Sabbatai Zevi. Um Messias virtual. Parece que eles podem. E eles talvez o façam. Pior para eles. A internet não pode salvá-los. Nem o bezerro de ouro, nem a Grande Mentira.

7 - A inadimplência definitiva dos EUA pode ser considerada como boa notícia (dessa vez) para os países do BRICS e para todos os partidários da multipolaridade - no Oriente, na América Latina, na Eurásia e daí em diante. Mas também há um problema. O nível de liberalização, democratização, americanização, globalização e por aí vai é raso demais para ser irreversível, mas profundo demais para ser inocente. Ele alcançou praticamente o âmago das sociedades não-ocidentais. Isso não é suficiente para que eles sejam ocidentais e modernos (pós-modernos) mas o suficiente para que não sejam mais orientais ou tradicionais. Assim o colapso dos EUA não significará a vitória definitiva da Rússia, da China, da América Latina, da Índia ou dos países árabes. Suas elites e parte considerável de sua sociedade são ocidentalizadas o suficiente para nem mesmo imaginar a alternativa. Todos ali continua a crer religiosamente nos EUA e no Bezerro de Ouro. Os concorrentes e inimigos dos EUA são modernistas e ocidentais por dentro. Todos querem que o EUA fique mais fraco, mas ninguém quer que ele desapareça. Mas ele vai desaparecer. Essa será a catástrofe para todos os países, porque eles cairão logo em seguida. Inevitavelmente. Vendo os EUA caindo, todos correrão para ajudá-los. Será inútil. Sua vez de cair chegará rápido.

8 - Os EUA são o liberalismo, sua fase final. Os EUA são a Modernidade em si mesma. Os EUA são a Pós-Modernidade. O Império do Fim. O último. O fim dos EUA será o fim da Modernidade enquanto tal. Ele destruirá tudo que é moderno. Não apenas o capitalismo financeiro da nova economia, não apenas a oligarquia financeira, mas toda a economia incluindo a indústria que está entranhada demais na estrutura financeira global. Apenas as comunidades rurais agrícolas quase autossuficientes podem sobreviver. Um cenário ao estilo "Mad Max" está diante de nós.

9 - Assim o Fim dos EUA significará o Fim da Modernidade enquanto conceito sociológico, histórico e filosófico, incluindo sua ciência, sua antropologia, sua técnica e daí em diante. Tudo que está contaminado pela Modernidade cairá. Nós aproximamos do Fim do Mundo Moderno. Quando exatamente? Ninguém poderá dizer definitivamente - Eu penso que será logo. Ou talvez um pouco depois. Veremos.

Parte 3 - A Escolha - Platonópolis - Teoria Política e Multiplicidade de Daseins - Os Titãs

(questão moral)

1 - O panorama filosófico e geopolítico da situação, com alguns pontos conscientemente enfatizados de uma forma um tanto quanto excessiva para esclarecer as coisas, levanta uma questão de natureza moral: o que fazer? Temos uma escolha, e se sim, qual é a escolha?

2 - Eu creio que a escolha existe sempre porque a essência do ser humano é a liberdade. Mas nem sempre a escolha é idêntica ou indefinida. Cada situação histórica pressupõe a escolha especial ou um conjunto de escolhas. E escolhas são distribuídas de uma maneira muito particular entre diferentes tipos de pessoas. Por isso eu dou minha opinião - a minha escolha.

3 - Minha escolha é a Quarta Teoria Política para além das três expressões políticas da Modernidade - liberalismo, comunismo e fascismo. Todas elas estão impregnadas pela Modernidade. Eu recuso a Modernidade (essa é minha escolha) e estou satisfeito que ela esteja chegando a seu fim. Para mim ela sempre foi o Fim e eu desfruto do Fim final do Desfecho. Eu penso que precisamos em primeiro lugar encontrar o espaço adequado para além da realidade virtual da Modernidade em que devemos estabelecer a figura da Testemunha que pode pronunciar a verdade da ausência do Mundo virtual não-presente fingindo estar presente. Precisamos emigrar da Modernidade para o âmbito do Sagrado e ali preparar nossa base estratégica. Esse é o esquema principal da Quarta Teoria Política - criar uma Filosofia Política completamente nova, uma Metafísica Política completamente livre da Modernidade - contra o liberalismo, contra o comunismo e contra o fascismo.

4 - Precisamos afirmar o novo sujeito político: não o indivíduo (como no liberalismo), não a classe (como no comunismo), não a raça (como no nacional-socialismo). Assim eu proponho que ele seja o termo filosófico Dasein - o Ser-aí. Isso significa aproximadamente o núcleo da existência humana como presença pensante. A partir desse ponto precisamos preparar a Revolução existencial, o levante do Dasein contra formas alienantes da Modernidade. Indivíduo, classe ou raça são conceitos. O Dasein não é conceito, ele é a Presença em si, a Presença constituindo o Mundo - como Evento, como espaço existencial cercado pela Morte. O Ser no limiar da Morte - perigosamente, pensando, criando a Totalidade como explosão de Luz - é o eixo do Dasein. Cada homem e cada mulher pode descobrir o Dasein dentro de si, ou melhor se descobrir dentro do Dasein. O Dasein é essência humana - Menschsein. Tudo pode passar ou mudar. O Dasein está sempre aqui, pode estar aqui, deve estar aqui. Ele dorme. A Modernidade está fundada no adormecer do Dasein. Ele deve ser despertado. Ele deve se erguer. Ele deve começar a pensar e agir.

5 - Heidegger definiu o Homem como Guardião do Ser. O termo "Guardião", em grego fulax, é o nome do chefe político do Estado ideal de Platão, o governante filósofo. O Chefe do Estado no Estado perfeito em al-Farabi é considerando no sentido platônico como aquele que está unido ao Intelecto Divino, o governante profético, o Rei Filósofo. O Dasein existindo autenticamente é o Rei Filósofo. Minha alternativa é a Platonópolis, onde governam os fenomenólogos - os Filósofos da escola heideggeriana. Assim a humanidade está concentrada no Dasein daqueles que existem autenticamente. Eu sou a favor do Império existencial, o Império do Evento, Er-Eignis, o Império do Ser que deve ser a alternativa absoluta a esse pseudo-Mundo findante e sempre tardio do simulacro.

6 - Para dar o passo decisivo precisamos definir o momento adequado entre cedo demais e tarde demais - isto é, o Kairos, o momento exato. Tal momento se aproxima de nós, chega cada vez mais e mais perto. O momento de sua queda deve ser o momento de nossa possível ascensão, a janela de oportunidade pelo menos. Mas isso não pode ser algo mecânico - a queda dos EUA provocará a queda de outros. Por isso precisamos estar separados desses "outros", para não estamos com eles em seu fim - todos eles mereceram deixar de existir porque eles se recusaram a estar realmente ali, recusaram Ser-aí. Por isso precisamos nos posicionar contrariamente ao que se seguirá naturalmente à queda dos EUA. A queda do mal principal será seguida pela queda dos males menores. Precisamos não estar com eles. Este será o momento de atacar. Nosso Kairos.

7 - A Quarta Teoria Política é pluralista. Eu creio na multiplicidade e na diversidade de Daseins. Cada cultura ou civilização. Cada religião e sociedade tem seu próprio Dasein especial. Nós não podemos impôr nossos critérios existenciais sobre eles. Eles precisam despertar seus Daseins por conta própria. Todos compreendem o Evento em termos próprios. Para o iraniano é a vinda do Mahdi. Para os aztecas o Retorno de Quetzacoatl. Para os europeus é o despertar do Imperador adormecido. Para os indianos é Kalki. Para os budistas é Maitreya. Para nós russos é o aparecimento de Santa Sofia, a epifania feminina do Logos Sagrado. Que os povos ressuscitem seus Deuses. Todos eles foram mortos ou expulsos pelo teocídio titânico da Modernidade. Como disse Friedrich Jünger: "Onde não há mais Deuses, ali aparecem os Titãs". Os Titãs. Nome correto. Eles se ergueram ao topo da Montanha Sagrada, eles expulsaram nossos Deuses, eles impuseram sua visão materialista pervertida e suas sociedades corruptas e elites gananciosas. Eles prometeram húbris enquanto norma. Isso é a Modernidade - em cada versão: capitalista, marxista ou nacionalista. Agora é o tempo certo para os Titãs caírem. E para os Deuses retornarem.

8 - Heidegger uma vez disse: "É vão esperar que Deus ou os Deuses virão. Ele ou eles não virão. Porque eles aguardam que nós vamos e preparemos o lugar para seu Retorno". Pôr um Fim ao Desfecho eterno é nossa tarefa. Não a deles. Nossos Deuses são diferentes. Mas os inimigos de todos os Deuses são os mesmos. Os Titãs. Agora eles estão no limitar do mais elevado ponto imaginável. Porém nada pode crescer infinitamente. Chega o momento de sua queda. Esse momento está próximo. Mas quando? Isso talvez dependa de nós.

Obrigado por sua atenção.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Ángeles Diéz Rodríguez - Os Intelectuais do "Consenso" contra a Síria

por Ángeles Diéz Rodríguez



O caso da Síria é um dos mais paradigmáticos nos quais desde 2011 se evidenciam com clareza o papel legitimador da guerra desempenhado por certos intelectuais de esquerda. Uma parte importante desses optaram por servir de coro à guerra midiática contra a Síria investidos de uma aura ilustrada e carregados de princípios morais de fatura ocidental. Desde seus púlpitos nos meios alternativos porém também nos de massa elaboram explicações, justificativas e relatos que apresentam como princípios éticos quando em realidade se trata de sua opção política. Ridicularizam e simplificam, manipulam e tergiversam a opção dos militantes anti-imperialistas e inclusive se permitem criticar os governos latinoamericanos que, defendendo a soberania e o princípio de não-ingerência, se opõem à guerra contra a Síria.

Em junho de 2003, no marco da guerra e ocupação do Iraque não foi muito complicado, no âmbito universitário, no da cultura e na militância de esquerda, que se alçaram centenas de vozes contra a guerra, fomos capazes de reconhecer as armadilhas discursivas, capazes de descobrir os interesses do império e seus sócios, de desvelar as mentiras midiáticas e acima de tudo de estabelecer prioridades na mobilização e na denúncia. Não pudemos deter a guerra nem a ocupação do Iraque, mas pusemos os cimentos de um movimento anti-imperialista que poderia ter sido o freio de mão da barbárie bélica e que, de alguma maneira, adiou o objetivo de continuar a neocolonização da zona.

Se em 2003 nos foi relativamente fácil nos mobilizar contra a guerra no Iraque e os planos imperiais, o que não significava apoiar qualquer ditadura, muitos se fazem agora a pergunta, "o que aconteceu para que não surja ou para que não se dê continuidade ao movimento que emergiu em 2003?". Seguramente há diversas razões entrecruzadas porém gostaria de destacar duas que me parecem centrais: os meios de comunicação de massa fizeram um bom trabalho de dissuasão e uma parte dos intelectuais de esquerda que antes eram referências políticas contra a guerra optaram por servir ao outro lado.

Intelectuais de Esquerda a Serviço da Legitimação Bélica

Que os meios de massa mentem, tergiversam, ocultam, assinalam, dão forma e rosto a nossos inimigos é uma evidência repetida uma outra vez na história. O fazem não porque sejam instrumentos do império, não, o fazem porque são parte consubstancial do poder. Porém a justificação das guerras, a "fabricação do consenso" que diria Chomsky, não só se faz através das corporações midiáticas.

A propaganda é um sistema no qual se inserem as empresas midiáticas, a classe política e seus discursos, a cultura ocidental prepotente e colonialista, os jornalistas, os artistas, os intelectuais, os acadêmicos e os filósofos midiáticos. Todos esses intelectuais se converteram em um "clero secular" que "opta por desempenhar um papel fundamental na interiorização da ideologia da guerra humanitária como um mecanismo de legitimação" (Bricmont, 2005). Uns conscientemente outros nem tanto, se puseram a serviço da propaganda de guerra do império. O interessante é que essa coorte criadora de opinião pública se recrutava nas fileiras conservadoras, nas liberais e uma parte nas dos social-democratas, porém desde a guerra da Iugoslávia são cada vez mais os grupos de intelectuais que procedem ou se reclamam revolucionários de esquerda, anticapitalistas e anti-imperialistas. Se explicam com argumentos morais universalistas e humanitários: lutar contra as ditaduras (estejam onde estejam) e defender a causa dos povos (sendo estes as mulheres afegãs, os "insurgentes líbios", os "manifestantes sírios" ou a parte do povo que os meios de massa assinalem como vítima das "ditaduras"). Alguns desses intelectuais hasteiam  o "Não à guerra" contra Iraque em 2003, não obstante, desde o início das chamadas "primaveras árabes" tocam na mesma orquestra que seus governos chamando à derrubada do "tirano" Assad e à "transição democrática" na Síria; inclusive há quem reclama a intervenção militar do Ocidente como a novelista Almudena Grandes: "No fundo está Al-Assad, um ditador, um tirano, um assassino serial que resultará o único beneficiário da não-intervenção". Suponhamos que para eles Saddam Hussein era menos ditador que Assad ou quiçá se trate de que nessa guerra haverá centenas de milhares de cidadãos nas ruas gritando "Não à guerra", caso que não se dá agora. O papel que desempenha este "clero secularizado" é duplo, por um lado fornecem argumentos justificadores da intervenção armada, por outro dividem, debilitam ou bloqueiam cada vez com maior intensidade do surgimento de uma oposição forte às guerras imperiais. Umas vezes por ignorância política, outras por confusão, porém a maioria das vezes por um sentido subjacente de superioridade moral como intelectuais do mundo desenvolvido, essa "esquerda" interiorizou os argumentos da direita. Segundo Bricmont ela se moveu em duas atitudes:

a) o que chama de imperialismo humanitário, que se apoia em crer que nossos "valores universais" (a idéia de liberdade, democracia) nos obrigam a intervir em qualquer lugar. Seria uma espécie de dever moral (direito de ingerência).

b) o "relativismo cultural" que parte de que não há costumes bons ou ruins. Teríamos o caso de que se há um movimento wahhabi ou fundamentalista que se revela contra a repressão há que aplaudi-lo porque "os povos não se enganam" ou, como me explicou um filósofo espanhol, "quando os povos falam a geoestratégia se cala".

Estranhas Coincidências pela Liberdade e pela Democracia

A dominação imperial é sempre militar porém necessita de uma ideologia que a justifique para eliminar resistências na retaguarda. Hoje em dia, graças à complexidade do sistema de propaganda cada vez mais sofisticado, tecnificado e efetivo, uma grande parte da construção dessa ideologia legitimadora está nas mãos de uma esquerda, agora já respeitável, que conta com credibilidade para a opinião pública crítica graças a seu currículo como defensora da causa palestina. O núcleo duro dos discursos legitimadoras se deslocou da já clássica "liberdade" à críptica "dignidade" e mantém a "democracia" e os direitos humanos como consignas. A democracia como "a intervenção sonhada" do filósofo Santiago Alba serve de utopia light para somar adeptos e confundir os desejos com a realidade. Não obstante, há ocasiões em que a consigna da liberdade emerge qual ave fênix quando o público ao qual se dirigem é demasiado ocidentalizado para desentranhar o enigma da "dignidade". Diz Bricmont que justo quando o império abandona a linguagem da liberdade porque já não resulta crível o retoma esse clero humanitarista. Assim, na chamada da campanha de solidariedade global com a "revolução" síria assinada entre outros por Achcar, Alba e Tariq Ali cujo título é "solidariedade com a luta síria pela dignidade e pela liberdade", em apenas duas pátinas se utiliza 14 vezes a palavra liberdade. A medida que a guerra midiática contra a Síria se tem recrudescido tem aumentado as coincidências entre os relatos imperiais e os discursos dos que dizem apoiar os "revolucionários sírios". Sigamos com os exemplos ilustrativos e comparemos o "chamamento de solidariedade global com a revolução síria" com a declaração conjunta sobre a Síria que assinaram 11 países no marco da reunião do G20, proposta pelos EUA, para forçar uma frente de Estados que apoiem a intervenção armada. Na chamada do clero humanitarista se apontam os seguintes argumentos:

1 - Na síria há uma revolução em marcha.
2 - O único responsável pelas mortes, pela militarização do conflito e pela polarização da sociedade é Bashar Al-Assad.
3 - Há que apoiar os "revolucionários sírios" porque "lutam pela liberdade a nível regional e mundial".
4 - Há que "apoiar uma transição pacífica rumo a democracia para que decidam os próprios sírios".
5 - Pede-se uma "Síria livre, unificada e independente".
6 - Pede-se ajuda a todos os refugiados e deslocados internos sírios.

No sítio da campanha se introduz o texto da chamada especificando que "a revolução do povo deve ser apoiada por todos os meios", supomos que todos os meios significa todos os meios, e se exige que Assad seja derrubado, julgado e se ponha fim ao apoio militar e financeiro ao regime sírio, somente ao "regime sírio". Por sua parte, a declaração conjunta dos EUA e seus sócios, entre os quais curiosamente não se encontra nenhum país latinoamericano, e o único país árabe é Arábia Saudita, expõe os seguintes tópicos:

1 - Condena exclusivamente ao governo sírio, o qual faz responsável do ataque com armas químicas;
2 - A guerra contra a Síria é para defender o resto do mundo das armas químicas evitando sua proliferação;
3 - A intervenção trataria de evitar males maiores: "um maior sofrimento do povo sírio e a instabilidade regional";
4 - Se condena a violação dos direitos humanos "por todas as partes";
5 - Se pede uma saída política, não militar e se diz: "Estamos comprometidos com uma solução política que se traduza em uma Síria unida, inclusiva e democrática";
6 - Se convoca à assistência humanitária, aos doadores e à ajuda às necessidades do povo sírio.

Na comparação de ambos textos o surpreendente é que no primeiro se destila um ar muito mais belicista, não se reconhece que haja dois lados no conflito, o conflito se reduz a Assad, se justifica o apoio aos "revolucionários sírios" porque estão fazendo a revolução mundial e não se propõe uma saída política senão a derrota do governo sírio. Pareceria que esta chamada tivesse sido redigida precisamente por um dos bandos no conflito que se arroga a representação do povo sírio em seu conjunto.

As Armadilhas da Linguagem: "Condenamos a Intervenção", "Nem com uns nem com outros", "Os povos sempre tem razão"

A construção da ideologia do imperialismo humanitário tem tido distintos percursos. Como dizíamos ao início dessa intervenção, tem sido o estandarte da esquerda bem-pensante  (parte dela vinculada ao trotskismo da Quarta Internacional) que desde a guerra contra a Iugoslávia (1999) foi dando forma a uma discurso moralista cômodo que a homologava como "esquerda respeitável" ainda que se declarasse "anticapitalista".

Se analisamos alguns de seus discursos sobre a Síria encontramos as pautas que se repetem. Em primeiro lugar há que deixar claro constantemente o ponto de partida anti-imperialista, e negar que se esteja com "a intervenção militar estrangeira" como faz Achcar no artigo "Contra a intervenção militar estrangeira, apoio à revolta popular síria", ou Alba em "Síria, a intervenção sonhada" que termina com um "condeno, condeno, condeno, a intervenção militar estadounidense". Dizia Klemperer em sua obra "A Língua do Terceiro Reich" que a linguagem põe à luz aquilo que uma pessoa "quer ocultar de forma deliberada, perante outros ou perante a si mesmo, e aquilo que leva dentro inconscientemente".

O clero humanitarista não está a favor da intervenção militar mas se vê obrigado a repetir isso constantemente em seus escritos e conferências como se o público ao qual se dirigem não estivesse de todo convencido. Tampouco convém falar de guerra e portanto se utiliza constantemente o eufemismo "intervenção militar estrangeira" ou "intervenção militar estadounidense".

Nem com os EUA nem com Assad

A equidistância é sem dúvida um refúgio ideal para as boas consciências e tem a vantagem da ambiguidade que permite se posicionar de um lado ou do outro segundo transcorram os acontecimentos. Trata-se de uma falsa simetria que coloca no mesmo plano o agressor e o agredido. Se em uma situação na qual um Estado ou conjunto de Estados ameaçam e declaram guerra a outro nos declaramos neutros, na realidade, apoiamos a opção do mais forte. Não foi a Síria que declarou guerra aos EUA ou à Europa e comparativamente o poderio e a capacidade bélica da Síria em relação ao império e seus sócios (armas químicas, nucleares e convencionais) é incomparável.

Ao clero humanitarista não convém o posicionamento "nem-nem" e trata por todos os meios de tentar inclinar as opiniões para o lado do bando em que se encontram os chamados "revolucionários sírios". E nesse intento não poupa adjetivos contra o governo sírio e seu presidente e se situam por cima da realidade ou da veracidade dos fatos; temos assim a Alba dizendo que é um fato irrefutável que "com independência de que tenha usado ou não armas químicas contra seu próprio povo, o regime ditatorial da dinastia Assad é o responsável primeiro e direto da destruição da Síria, do sofrimento da sua população e de todas as suas consequências, humanas, políticas e regionais que derivam daí"; ou a Almudena Grandes qualificando a Assad como "assassino em série". Porém o certo é que como diz Bricmont "Em tempos de guerra denunciar os crimes do adversário, ainda supondo que estejam solidamente fundamentados, algo que com frequência não ocorre, acaba contribuindo para estimular o ódio que faz com que a guerra seja aceitável".

Outro dos tópicos clássicos é estar ao lado dos povos. Aqui temos um escolho difícil de salvar já que, no caso das primaveras árabes, os governos imperiais se tem posicionado claramente a favor dos povos e tem sido os primeiros a assinalar seu apoio aos "revolucionários sírios" A explicação mais rocambolesca desses intelectuais humanitários é a pura casualidade, o cinismo ou as intenções perversas do império que o leva a apoiar aos povos árabes para logo se apropriar das revoluções e impôr seus próprios interesses.

Segundo eles, a realidade é que nem EUA nem Europa querem intervir militarmente na Síria. Porém quando os "rebeldes e os refugiados sírios", como antes fizeram os rebeldes líbios, manifestam que "desejam o ataque dos EUA à Síria" se complica a definição de "revolucionários" e a de "povo" pois quem é esse povo revolucionário ou parte do povo que clama por um ataque militar de outros governos?

Dada a complexidade da situação refugiemo-nos em nossos princípios

Podemos denunciar às corporações midiáticas, aos políticos e publicistas que nos seguem vendendo a guerra com a mesma retórica moralista e com práticas cínicas, o problema é que lhes segue funcionando, pelo menos com as pessoas pouco conscientizadas. A novidade é que agora dispõem de uma coorte de filósofos, intelectuais e artistas que se vendem como estrelas midiáticas, ainda que seja em meios alternativos, que inclusive creem no que dizem, creem defender realmente os direitos humanos e estar do lado dos povos, porém seu labor tem sido o de acompanhar os discursos imperialistas e bloquear o surgimento de movimentos de oposição à guerra nos afundando em discussões estéreis sobre seu próprio posicionamento.

Seus textos, conferências e intervenções midiáticas tem tido uma grande eficácia para confundir, persuadir e culpabilizar os ativistas contra a guerra, às pessoas mais dispostas a oferecer resistência efetiva à guerra imperial e à propaganda de guerra. Para se curar costumam afirmar que tudo é mais complexo, de modo que a única opção que nos resta como boas pessoas que somos é nos refugiarmos em nossa boa consciência. Se nossos conhecimentos e retórica são tergiversados e utilizados para favorecer o apoio à guerra será um efeito indesejado, um dano colateral pelo qual não podemos ser responsabilizados.

O certo é que os discursos, as convocatórias e as exigências do clero humanitarista não tem a menor repercussão sobre os governos ocidentais porém também é certo afetam de fato a possibilidade de um movimento anti-imperialista. Quisera terminar com umas palavras de Sánchez Ferlosio sobre a guerra "a parte de uns poucos exaltados todos vemos a guerra com matizes, porém em momentos decisivos os matizes não podem ser o lastro que nos impeça de nos opormos à guerra com a contundência necessária. Nem devemos deixar que se convertam em munição contra nós. É nossa responsabilidade política".

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Alberto Buela - Nacionalismos de Pátria Pequena

por Alberto Buela



Os nacionalismos americanos foram, paradoxalmente, produto de uma vontade ideológica alheia à América, a do Iluminismo filosófico.

Ainda quando o termo nacionalismo possui uma polissemia abundante é universalmente aceito que o nacionalismo é a ideologia do Estado-Nação e paradoxalmente é a partir desse primeiro e elementar enunciado do conceito que nos é apresentada a diferença substancial entre os diversos nacionalismos. Os velhos filósofos aconselhavam primeiro distinguir para logo unir. E a distinção primeira que exige nosso tema é entre nacionalismo europeu e nacionalismo hispanoamericano.

O Estado surge na Europa a partir da nação enquanto que, pelo contrário, em Nossa América o Estado cria a nação. Assim na Europa os movimentos linguísticos e filosóficos de cepa romântica do século XVIII aspiravam a formar Estados nacionais, pelo contrário, na América o movimento se realizou de forma inversa. A finalidade desse Estado-Nação de caráter republicano e liberal criado a princípios do século XIX será a criação das nações. Este Estado-Nação terá por ideologia o nacionalismo "de fronteiras para dentro", expressão dos localismos mais irredutíveis encarnados pelas oligarquias vernáculas, impermeáveis a uma visão continental. Os Estados independizados da Espanha como repúblicas chegam logo de devastadoras lutas civis recém ao final do século XIX a se transformarem em nações. Daí que a expressão histórica por antonomasia desse nacionalismo localista, filho putativo da Inglaterra, liberal em economia e conservador em política seja o nacionalismo "mitrista" argentino.

Os nacionalismos europeus foram imaginados sobre uma base étnica, linguística e geográfica comum enquanto que os nacionalismos americanos foram, paradoxalmente, produto de uma vontade ideológica alheia a América, a do Iluminismo filosófico. Sendo seus gestores políticos a Grã-Bretanha e seu Secretário de Estado George Canning que se apressou em reconhecer a independência dos novos Estados, logo do triunfo de Ayacucho (1824) sobre o último exército real.

Vemos pois, como esses nacionalismos de "pátrias pequenas" são dependentes da Europa tanto em sua gênese como em seu conteúdo. Isso explica em grande parte seu fracasso político reiterado. Carecem de encarnação popular. E são elitistas não por méritos próprios, já que carecem de nobres, senão porque sua ideologia conduz à exclusão do outro.

Esses nacionalismos de invenção européia surgidos ante a quebra da cristandade por causa da reforma protestante, "vieram a preencher o vazio deixado pelo enfraquecimento da religião cristã e o sentido de segurança dos povos em um mundo secularizado". Isso explica o fato, aparentemente curioso, que a maior parte desses Estados-Nação republicanos surgiram antes na América que na Europa. Porque aqui se criaram Estados virtuais porque eram Estados sem nações, o que explica por sua vez a carência de soberania nacional. Mudamos a embalagem, as instituições, somente para passar de um amo a outro, a Grã-Bretanha no século XIX e aos EUA no século XX.

Este nacionalismo ao ser um produto ideológico transplantado desde Europa a América, carece em nós de genuinidade. Este nacionalismo é o que engendrou as poucas guerras que tivemos na América Hispânica. A Guerra do Pacífico entre Peru, Chile e Bolívia (1879); a do Chaco entre Bolívia e Paraguai (1932-35); a da Tríplice Aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai por um lado e Paraguai do outro (1865-1870) onde ao dizer de Franz Josef Strauss "pela primeira vez na modernidade o desejo do vencedor foi lograr uma rendição incondicional - tradução moderna do clássico vae victis - o que conduziu a um resultado abominável".

Uma variante desse nacionalismo na América no presente século foi o nacionalismo anti-imperialista, que de Lênin só herdou seu aspecto "latinoamericanista" (socialismo mundial) mas que, de fato, foi um produto saído das mãos de Stálin com sua idéia de revolução comunista por Estados. Esse nacionalismo marxista, importado em tudo - linguagem, insígnias, emblemas, consignas, políticos e teóricos - marcou o máximo estranhamento em relação a Nossa América. Chegando a negar nossas tradições mais telúricas como religião, etnia ou pátria. E afirmamos que foi uma variante do nacionalismo de "pátria pequena" porque não superou a idéia de Estado-Nação senão somente declamatoriamente quando se proclamava "latinoamericano".

Nacionalismo "de Pátria Grande"

O sentido continental nasce com a descoberta hispânica da América, dado que antes da descoberta não existia tal sentido. É o mundo ibérico que introduz a noção de pertença a uma ecúmene cultural de caráter continental como o é a América Ibérica.  Língua, religião e instituições compartilhadas durante três séculos por todos os povos dessa região do globo, criaram na consciência hispanoamericana um sentimento de unidade continental que duzentos anos de liberalismo político pertinaz e iluminismo filosófico não puderam desenraizar. E assim, de tanto em tanto, surgem novos intentos de construção política deu ma "Pátria Grande" que são abortados ab ovo por aqueles que são historicamente inimigos da união continental de nossos povos. Claro está, a conformação, com um poder unificado, de um grande espaço continental habitado hoje por 400 milhões de homens, significa um desafio aos poderes mundiais difícil de tolerar. Esse nacionalismo continental teve uma segunda manifestação durante as lutas por nossa independência e logrou sua expressão mais acabada em Simón Bolívar e sua idéia de criação dos Estados Unidos da América do Sul que conformariam a maior nação do mundo, onde o Istmo do Panamá seria para os hispanoamericanos o que o Istmo de Corinto foi para os gregos. Porém o Congresso do Panamá de 1826 convocado para tal efeito fracassou tanto por oposição dos nacionalistas "de pátria pequena", os localistas criadores das novas oligarquias criolas, como por erro garrafal de Bolívar de meter a raposa no galinheiro convidando aos representantes de Washington para participarem ativamente no Congresso. Os Estados Unidos já tinham uma idéia clara e distinta sobre o que fazer com a América enunciada três anos antes na Doutrina Monroe e seu lema "América para os americanos", que para bom entendedor se deveria ler como "América para os norteamericanos" e cuja estratégia como a de Zeus no governo do Olimpo foi desde então dividir para reinar. Esse nacionalismo continental reaparece depois de quase um século como consequência da Guerra Hispano-Americana de 1898 e tem sua expressão mais acabada no Ariel (1900) de José Enrique Rodó e o arielismo ou Geração do Centenário de nossa independência. Autores como José Vasconcelos, Gonzalo Zaldumbide, Francisco García Calderón, Manuel Ugarte são os que recriam o velho ideário da "criação de um continente" ou da "nação hispanoamericana" segundo os títulos de seus próprios livros. Essa terceira etapa do nacionalismo continental se caracteriza em relação das duas anteriores porque ao ideário de "grande espaço" adiciona seu anti-imperialismo porém esteve limitada ao plano intelectual, careceu de funcionalidade política. Quer dizer, não se realizou, nessa época, em nenhum movimento político de nossos países. Não obstante, seus efeitos políticos se plasmaram anos depois, em nossa opinião, em três movimentos políticos de significativa importância para Nossa América: a) No nacionalismo anti-imperialista de Augusto César Sandino e sua luta pela liberação da Nicarágua (1927-32); b) A partir de 1924 no aprismo de Victor Haya de la Torre e c) desde 1945 no peronismo argentino e sua idéia de união continental: "O ano de 2000 nos encontrará unidos ou dominados". Esse nacionalismo continental vai ser em Augusto Sandino "latinoamericano". Assim em seu principal escrito "Plano de Realização do Supremo Sonho de Bolívar" (1929) vai insistir expressamente na incorporação do Haiti ao projeto de unidade continental. Enquanto que em Haya de la Torra vai ser "indoamericano". Porém contrariamente ao que se possa pensar sobre indoamericanismo de Haya, que tem sua fonte em Vasconcelos e sua Raça Cósmica, não é indigenista, senão indiano, expressão essa que valoriza a mestiçagem como genuinamente americana. Finalmente em Perón o nacionalismo continental vai ser "iberoamericano", pois prioritariamente a política externa do peronismo, 1946/55/ 73/76 e ainda a atual, que de peronista tem somente o nome, esteve sempre dirigida a lograr a união com Brasil.

Prognóstico de uma Idéia

Os estudiosos desse tema, ou seja, da unidade continental nos tem acostumado primeiro a falar de "América Latina" e em segundo a caracterizá-la como "utópica". Elas são, em nossa opinião, duas tipificações errôneas. Pois a unidade continental foi, salvo a exceção vista de Sandino, sempre hispano ou iberoamericana e o caráter de utópica não lhe corresponde, pois essa unidade teve um lugar, existiu durante três séculos, e o que sempre se propôs foi sua restauração sob distintos modelos. A unidade continental não é um não-lugar, uma utopia como as de São Thomas Morus ou a de Campanella e sua Cidade do Sol ou a Nova Atlântida de Francis Bacon, essa é uma visão eurocêntrica de interpretar a unidade do continente. Ela deve ser interpretada a partir do que já teve lugar, do contrário se transforma eo ipso em uma idéia ilustrada como é a que tem a esquerda progressista da América. Chame-se teologia da libertação ou escola de antropologia social. Hoje em dia a unidade continental está expressada em distinta subregiões, como o Pacto Andino ou o Mercosul, mais como "unidade de interesses" que como "unidade de ideais", porém não obstante este início como "unidade de interesses" lhe outorga à idéia de unidade continental uma verossimilhança de que carecia outrora. A tarefa atual reservada aos homens da cultura e aos pensadores nacionais iberoamericanos é recriar a "unidade de ideais" que deem conteúdo à mera "unidade de interesses". E ainda quando o futuro nos esteja vedado, não esqueçamos que na caixa de Pandora somente o prognóstico ficou fechado, se vislumbra que a constituição de grandes espaços autocentrados é o único remédio perante o projeto de globalização e estranhamento dos povos. E esse grande espaço está dado para nós os iberoamericanos na unidade continental apoiada em um nacionalismo de "pátria grande". Do contrário, nossa identidade como nação corre sérios riscos de desaparecimento. É apropriado nesse sentido recordar, já que nossos ilustrados o lançaram no esquecimento, os velhos versos de Santos Vega que parecem escritos a propósito: Se minha voz é impotente para arrojar convosco, nossas lanças, nossos potros, pelo vasto continente; se jamais independente vejo o solo em que cantei, não me enterrem em sagrado onde uma cruz me recorde; encerrem-me em campo verde onde me pise o gado.