quinta-feira, 28 de novembro de 2013

François Duprat - O Ba'ath: Ideologia e História

por François Duprat



O único partido nacionalista árabe restante digno desse nome é o Ba'ath já que os diversos movimentos de tipo nasserista foram incapazes de conduzir à criação de uma força ideológica e política nos diversos países árabes. O Ba'ath deve ser estudado portanto como o único representante da ideologia unionista árabe, organizada em um partido e não limitada a um movimento de opinião, ainda que seja de grande magnitude (ontem o nasserismo, hoje em dia o gadaffismo).

A Ideologia do Ba'ath

O Ba'ath oferece a particularidade de ser o único partido político pan-árabe (o único se deixarmos de lado o caso original do Partido Sício Social-Nacionalista) a ter tentado elaborar uma doutrina nacional-revolucionária razoavelmente coerente graças às análises políticas e históricas de seu fundador e líder, Michel Aflaq (um sírio grego-ortodoxo) primeiro em seus inúmeros artigos dispersos e acima de tudo em sua obra de síntese Fi sabîl al-Ba'ath (Na Via da Ressurreição), publicada em Damasco em 1959, nos tempos da União Sírio-Egípcia, no seio da República Árabe Unida.

Aflaq analisa tanto seu nacionalismo como sua oposição à filosofia marxista:

"A Nação Árabe tem uma história independente da história do Ocidente e da Europa; as teorias e as formas de organização que surgem da civilização ocidental nascem de condições próprias do Ocidente e não correspondem às necessidades dos países árabes pelo que estas não encontram um entorno favorável.

A Nação Árabe não é uma pequena nação de importância secundária que pode adotar uma mensagem distinta ao que lhe é próprio, marchar sobre os passos de outra nação e se alimentar de seus restos...

A doutrina marxista é uma ameaça para os países árabes porque ameaça com fazer desaparecer sua personalidade nacional e porque impõe ao pensamento árabe moderno um ponto de vista partidário, tendencioso e artificial destruindo a liberdade e a integralidade desse pensamento".

Para Aflaq, não-muçulmano, o nacionalismo árabe não obstante se encontra "inspirado" pelo Islã, porém de uma forma bem distinta daquela pela qual advogam a Irmandade Muçulmana ou o Coronel Gaddafi:

"Toda nação...possui uma força motriz essencial...essa força motriz foi a religião ao momento da aparição do Islã. Em efeito, somente a religião era capaz de revelar as forças latentes dos árabes, de realizar sua unidade... Hoje... a primeira força motriz dos árabes...é o nacionalismo... Os árabes estão como mutilados em sua liberdade, sua soberania e sua unidade que não podem compreender outra linguagem que a de seu nacionalismo".

O Ba'ath, no reconhecimento do papel positivo da religião islâmica na tomada de consciência da unidade árabe (nos termos da Umma, a comunidade dos crentes), é portanto um partido nacionalista laico.

Porém o Ba'ath se apresenta também como um partido socialista:

"O socialismo do Ba'ath está em perfeito acordo com a vida da sociedade da nação árabe...

Ele se limita a organizar a economia em vistas a redistribuir a riqueza no mundo árabe, de assentar as bases de uma economia que garante a justiça e a igualdade dos cidadãos e de promover uma revolução na produção e nos meios de produção...

Nosso socialismo está impregnado por uma filosofia que emana entre os árabes de suas necessidades próprias, suas condições históricas e suas particularidades. A filosofia do Ba'ath não aprova a concepção materialista da filosofia marxista... Nosso socialismo se apóia no indivíduo e sua livre personalidade. O socialismo do Ba'ath considera que a força principal de uma nação reside nos motivos individuais que levam aos homens a atuar, o partido se abstém portanto de abolir a propriedade privada, busca limitá-la...de maneira que se evite qualquer abuso...

Nosso socialismo não poderá prosperar definitivamente senão no marco do Estado Árabe Unitário, quer dizer quando todo o povo árabe seja liberado, quando desapareçam os grilhões tais como o imperialismo, o feudalismo e as fronteiras geográficas impostas pela política, que se opõem ao êxito do socialismo".

Em uma entrevista com Benoist-Méchin (em "Uma Primavera Árabe"), Michel Aflaq apresentou de forma particularmente potente sua definição da Nação e das relações que ligam o indivíduo à comunidade histórica: "...Nós somos os nacionalistas árabes. Nós devemos elevar o homem a sua dignidade suprema. Este objetivo não é realizável mais que em um marco nacional. Um homem não é plenamente ele mesmo mais que no seio de suanação. A nação é o teatro em cujo interior o homem desempenha um papel para realizar seu destino individual. Ao suprimir o teatro já não existirá dito papel. De repente o homem se desaba sem sentido..." (p.340)

A tomada de posição soviética em favor da causa árabe e em particular no tema palestino, os importantes interesses da URSS no seio do mundo árabe, muitas vezes nos levam a pensar que o nacionalismo árabe chegou a um acordo com o comunismo internacional, ou se viu convertido em uma filial. O problema se encontra, em particular no caso do Ba'ath, em razão das muito boas relações entre os dois regimes baathistas do Iraque e da Síria com Moscou.

A realidade resulta bem diferente dada a hostilidade permanente do Islã contra o materialismo marxista, os árabes por sua vez descobriram no imperialismo soviético algo tão pungente quanto o que lhes havia precedido.

Inclusive no momento da primeira reunião entre os nacionalistas árabes e a União Soviética, os primeiros foram marcando uma clara distinção entre a URSS e os partidos comunistas árabes.



Assim, o manifesto de criação do Ba'ath (escrito por Aflaq) declarava em 1944:

"Nós não estamos contra a União Soviética, nós fazemos uma distinção bem clara entre a URSS e o Partido Comunista Sírio local. Nós árabes não temos razão alguma para nos opormos a um grande Estado como a URSS que depois de sua formação demonstrou simpatia pelos países que lutam por sua independência. Nosso objetivo é estabelecer relações amigáveis com a URSS para ter relações normais de tratados oficiais e intergovernamentais e não através do partido comunista local. Os triunfos do comunismo se dão aqui pela debilidade dos espíritos. Porém um árabe bem informado não pode ser um comunista sem abandonar o arabismo, os dois são incompatíveis, o comunismo é estrangeiro a tudo que é árabe. Ele será o perigo maior para o nacionalismo árabe já que será incapaz de dar uma definição sistemática de seus objetivos".

Nessa época, o Ba'ath lucidamente julga que o comunismo na terra árabe jogava a carta do chauvinismo e do anti-imperialismo; nessa ótica, se o nacionalismo árabe não se converte em uma estrutura ideológica, será literalmente absorvido pelo comunismo. Daí se dão os esforços de Aflaq para dotar seu partido de um aparato ideológico coerente capaz de ser um responsável do desafio ao marxismo. Por este logro, a ação ba'athista a favor do "socialismo árabe" está planejada para socavar a hera sob os pés dos propagandistas marxistas. Porém este "socialismo árabe" (comum também a todos os movimentos unionistas) não tem nenhum ponto em comum com o marxismo-leninismo. Ele é uma simples projeção do nacionalismo, um meio para tornar factível o nacionalismo, assim é que Aflaq reconhece explicitamente:

"Os nacionalismos árabes compreendem que o socialismo é um meio mais seguro para logar o renascimento do nacionalismo e da nação porque sabem que o combate dos árabes na época atual repousa na união dos árabes e que não é possível que eles participem unidos neste combate, se estão divididos entre senhores e escravos.

Portanto nós pensamos que os árabes não poderão realizar seu renascimento se não estão convictos de que o nacionalismo implica em justiça, igualdade e vida digna em sociedade".

Este "socialismo árabe", só pode atrair a clássica resposta marxista: "Populismo pequeno-burguês!", "Demagogia social-fascista!"

De todo modo, o socialismo ba'athista é idêntico ao de todos os movimentos de tipo fascista e Aflaq se limita a demarcar os pensadores fascistas ocidentais (apesar de sua hostilidade de princípio aos "ideólogos estrangeiros ao mundo árabe" de que faz uso contínuo para repelir o comunismo), tudo contra as divisões marxistas da luta de classes.

Resenha História do Ba'ath

O Ba'ath se constituiu em 1944 na Síria, depois de se estender a vários países árabes; é necessário estudar país por país (ou melhor ainda, segundo a terminologia baathista, região por região).

Síria



O Ba'ath de 1944-45, foi implementado unicamente em Damasco, não constitui mais que um pequeno movimento de intelectuais, ao redor de Michel Aflaq e outros de seus amigos. O papel limitado que desempenhou não impediu que fosse proibido pela ditadura do Coronel Chichakly em abril de 1952 e será novamente autorizado em setembro de 1953, levando a cabo um processo de unificação com um pequeno partido próximo: o Partido Socialista Árabe (al-Hizb al-Ifritayets al-Arabi), criado em 1950 por Akram Haurani. Os dois movimentos se fundiriam um pouco mais tarde sob o nome definitivo de Ifrikayets al Ba'as al-Arabi: Partido Socialista do Renascimento Árabe.

Nas eleições de 1949, o pequeno partido ba'athista só obteve quatro assentos, ao contrário do partido unificado que se asseguraria uma posição muito sólida nas eleições de 1954, depois da queda do ditador ganharam dezessete assentos.

Sob a direção de Chukri al-Kouatly, Presidente da República depois de agosto de 1955, a Síria se move à esquerda e nas eleições de maio de 1957, a Frente Nacional Progressista (formado pelo Partido Comunista, pelo Ba'ath, pelo Partido Cooperativo Socialista e pelo Partido Nacional, de al-Kouatly) prevalece sobre os partidos de direita (Partido do Povo, Movimento de Liberação Árabe, do ex-ditador Chichakly, e Fraternidade Muçulmana). Rapidamente o Partido Comunista, que havia desenvolvido uma grande influência e infiltrado o Partido Nacional se enfrenta aos ba'athistas, hostis ao marxismo e em novembro de 1957 para salvar a Síria do comunismo, a Assembléia Nacional vota, sob a direção do Partido Ba'ath e do Partido Nacional (sob controla da ala de direita) uma resolução em favor da união com o Egito, união que será realizada em 1 de fevereiro de 1958, sob o nome de República Árabe Unida. O Partido Comunista é declarado ilegal pelo novo regime unionista, porém o Ba'ath será rapidamente "absorvido" pelos nasseristas (em particular pelo onipotente Coronel Serraj, chefe dos serviços de segurança e posterior ministro do interior da "província síria" da RAU).

Em dezembro de 1959, os ministros ba'athistas caem e seu partido se torna clandestino até o putsch militar de 28 de setembro de 1961, causando o fracasso da RAU e que leva ao nascimento de um regime liberal reautorizando os partidos (salvo o Partido Comunista, que será proscrito até fevereiro de 1966 e o PPS que se mantém como ilegal). As eleições de dezembro de 1961, logo do colapso do regime unionista, resultam em um êxito muito limitado para o Ba'ath, os partidos conservadores asseguram uma ampla maioria no Parlamento:

Partido do Povo: trinta e dois assentos (grande ganhador das eleições), Partido Nacional (purgado de seus elementos de esquerda) vinte e dois assentos, Fraternidade Muçulmana: seis assentos, Ba'ath: vinte e quatro assentos.

Os outros assentos são atribuídos aos independentes ou aos partidos minoritários; quanto ao Movimento de Liberação Árabe e ao Partido Cooperativo Socialista, não sobrevivem à morte de seus fundadores.

No período seguinte, o governo moderado (o Ba'ath se encontra na oposição) se expõe às ações inconsideradas dos oficiais ambiciosos. Os ba'athistas preparam um golpe de Estado com os oficiais pró-nasserianos, putsch que ocorre bruscamente em 8 de março de 1963.

O êxito do golpe se dá rapidamente e se constitui um Conselho Nacional da Revolução sob o comando do General Atassi, enquanto que o chefe da ala de direita do Ba'ath Salah al-Din Bitar, forma o novo governo, com uma grande maioria ba'athista. As personalidades conservadores são levadas ao isolamento cívico, entre elas Akram Haurani, que havia rompido com seus antigos amigos do Ba'ath e recriou seu próprio movimento se aliando às forças da direita.

Uma nova República Árabe Unida nasce em 17 de abril de 1963, porém, menos de quinze dias da criação da federação sírio-egípcia-iraquiana (o Ba'ath vem a tomar o poder no Iraque) ba'athistas e nasserianos começam a se opor abertamente.

Em 13 de maio de 1963, Bitar constitui um novo ministério, puramente ba'athista, que provoca a passagem à oposição dos nasserianos. Estes últimos tentam um golpe de Estado em 18 de julho de 1963 que fracassa lamentavelmente. Nasser rompe totalmente com o Ba'ath, enquanto que o General Amin al-Hafez se converte no Presidente do Conselho Nacional da Revolução. O CNR promulga uma Constituição provisória em 25 de abril de 1964 que insiste na vocação unitária da Síria ba'athista.



Hafez busca em seguida se aproximar aos unionistas nasserianos e libera os prisioneiros de julho de 1963. Convertendo-se no chefe de governo em 3 de outubro de 1964, ele proclama em 22 de dezembro do mesmo ano a nacionalização dos recursos energéticos e minerais do país, estas primeiras medidas são seguidas no início de 1965 por toda uma série de novas nacionalizações.

As lutas violentas de poder se travam no seio do Ba'ath debilitado pela queda de seu ramo iraquiano. A influência de Aflaq diminui progressivamente e é nomeado em um posto puramente honorífico de Chefe de Partido, enquanto que o doutor al-Razza o sucede no posto vital de Secretário Geral do Ba'ath. Quanto aos "esquerdistas" ba'athistas, como Zouayyen e o General Salh Djedid, ganham terreno substancial no seio de um partido dividido.

Em setembro de 1965, Zouayyen forma o novo governo, enquanto que o Comando Nacional (quer dizer inter-árabe, a Síria faz parte de uma nação árabe que existia para o Ba'ath) dirigido por Hafez e Aflaq se opõem ao Comando Regional da Síria, animado por Djedid.

O General Hafez, em dezembro de 1965, dissolve o Comando Regional e substitui o esquerdista Zouayyen pelo direitista Bitar. Porém, em 23 de fevereiro de 1966, Djedid, por um golpe de Estado, prende Hafez, enquanto que Aflaq foge para o Líbano (eterno terreno de asilo para os políticos árabes que tem o suficiente azar de ter que abandonar seu país).

Zouayyen volta ao governo e se aproxima às URSS autorizando o líder comunista Khaled Baggdache a voltar à Síria.

A inícios de setembro de 1966, o Comando Nacional ba'athista monta um contragolpe de Estado que se apóia nas Forças Especiais do Coronel Salim Hatoum, porém o putsch é abortado.

Todas essas querelas tomam lugar no seio de um partido minúsculo: quatrocentos membros (!) segundo Flory e Mantran, em sua excelente obra: Os Regimes Políticos dos Países Árabes, cifra que nos parece ainda assim muito baixa.

Por outro lado, a de seis a sete mil militantes, dada na Síria por Simon Jargy (no início dos anos 70) que é provavelmente muito exagerada.

Pode-se pensar razoavelmente que uma cifra de mil e quinhentos a dois mil ba'athistas (para uma população total de cinco milhões) é mais próxima à realidade. As divergências religiosas desempenharam um papel importante nessas contendas, os sunitas são mais moderados, enquanto que a seita dissidente alauíta se encontra mais bem no meio favorável aos extremistas de esquerda.

O desastre militar de junho de 1967 golpeou terrivelmente aos "esquerdistas" do Ba'ath, que haviam custodiado em sua reserva as duas melhores brigadas blindadas (nº 10 e 50) para fazer frente a um possível putsch interior da direita e que por razões políticas prepararam mal a armada para este caso, apesar das declarações sensacionalistas: "Quase sete mil oficiais (80% dos corpos de oficiais) foram eliminados depois de 28 de setembro de 1961 e acima de tudo depois de 8 de março de 1963. Dois dos generais mais enérgicos da armada estavam na prisão: Amin al-Hafez (ex-chefe de governo) e Omrane (ex-ministro de defesa) (François Duprat, "A Agressão Israelense", número especial de Défense de l'Occident, julho-agosto de 1967, página 45).

Igualmente, o Coronel Hatoum, especialista das operações comando, regressa de seu exílio jordaniano para combater a armada israelense, será imediatamente preso e executado sob o pretexto de complôs.

Progressivamente, os elementos moderados do Ba'ath se reagrupam em torno ao General Assad, ministro da defesa, que utiliza os defeitos da esquerda para tomar vantagem sobre ela. Assad vai chegar ao poder supremo utilizando o desastre de setembro de 1970, enquanto que as unidades sírias e da Saïka - ramo ba'athista da resistência palestina - são destruídas pela aviação jordaniana, a aviação síria (que se encontra sob a obediência de seu antigo chefe Assad) não lhes dá apoio. Djedid e Zouayyen são dados como responsáveis do fracasso que lamentavelmente se sofreu, são destituídos do governo e Assad controla daí para a frente a situação.

Em um esforço para democratizar o regime, Assad organiza eleições mais ou menos livres, logo de ter concluído um acordo com o Partido Comunista e os elementos nasserianos. Os resultados não desafiam a supremacia do Ba'ath, que se assegura a supremacia no seio da Frente Nacional Progressista: Ba'ath: cento e onze cadeiras, União Socialista Árabe (nasserianos): seis cadeiras, Socialistas Árabes: três cadeiras, independentes: trinta e três cadeiras. A oposição se limita a quatro Irmãos Muçulmanos disfarçados.

Paralelamente, Assad deve enfrentar uma agitação violenta dirigida contra "o ateísmo" e o "socialismo" do Ba'ath, animada pelos Irmãos Muçulmanos clandestinos, que mantém seu poder na Síria.

A maior provação para o regime ba'athista é indiscutivelmente a guerra de outubro, quando as tropas sírias e egípcias tomam de surpresa os israelitas, para a estupefação geral. Os sírios, energicamente conduzidos, são os que obtém o resultados mais perigosos para a entidade sionista, tomando em três dias uma boa parte das Colinas de Golam. Se os poderosos contra-ataques israelitas terminam por destruir a armada síria, esta se redimiu gloriosamente de seu fracasso de 1967. Seu novo prestígio reforça a posição de Assad que cumpriu a tarefa que a extrema-esquerda falava todo o tempo, sem jamais tratar de concretizá-la.

Depois do fim das hostilidades, Assad pratica uma política dinâmica a fim de evitar se separar do Egito, porém deve fazer frente a uma renovada oposição de parte de seus inimigos de esquerda que realizam esforços para se beneficiarem do Iraque, onde se organiza um movimento de resistência, encarregado de reagrupar os árabes hostis aos compromissos de paz com Israel.

O destino de Assad e de sua tendência estão ligados diretamente ao êxito ou fracasso do Plano Kissinger para o Oriente Médio.

Iraque



O Ba'ath clandestino só havia desempenhado um papel ínfimo sob a monarquia Hachemita e não chega a se realmente visível senão até quando o General Kassem toma o poder em 14 de julho de 1958.

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Entrou em luta desde o advento do novo regime contra os três partidos que representam o apoio popular de então de Kassem: o Partido Nacional-Democrático (socialista de esquerda), o Partido Comunista Iraquiano e o Partido da Independência, fascista e ligado a Rachid Ali el-Gailani, chefe da revolta pró-alemã de 19441 dos oficiais do "Palácio de Ouro".

Não obstante, rapidamente se cria uma nova divisão política quando Kassem começa a se situar como rival de Nasser. Os ba'athistas, e por sua vez os unionistas terminam por fazer frente comum com o Coronel Aref (verdadeiro organizador do levante de 14 de julho de 1958), o Partido da Independência e Ali el-Galiani, porém Kassem dissolve o complô e esmaga com sangue o levante unionista do General Chawaf em Mossul, em março de 1959.

As Milícias Populares e o Partido Comunista (que tinham nesse momento seu congresso na mesma cidade) desempenharam um importante papel na supressão do golpe unionista e desenvolvem assim sua influência. Kassem é forçado a manobrar e aceitar em 2 de janeiro de 1960 a autorizar os partidos, ele favorece o nascente PC dissidente (enquanto que o Ba'ath e o verdadeiro Partido Comunista se mantém como ilegais).

O Zaïm (Chefe) Kassem acumula fracassos, não podem se apoderar de Kuwait em junho de 1961, depois de ter feito frente à revolta de Mollah Barzani, no Curdistão, onde sua armada se encalha sem lograr resultados.

Ba'athistas e nasserianos se beneficiam dos fracassos de Kassem, buscam conspirar contra o Zaïm e em 8 de fevereiro passam à ação. Dispõem de escasso apoio: um batalhão blindado, algumas centenas de militantes ba'athistas, quatro aviões MIG 17; porém atual com selvagem determinação, massacram Kassem (diante das câmeras de televisão) e formam uma Guarda Nacional, dirigida pelo General Hassan al-Bakr. Essa Guarda Nacional, composta de jovens massacrando comunistas e progressistas que logo de um momento de hesitação (que lhes será fatal) acudem ajudar o Zaïm. Trinta mil militantes de esquerda foram vítimas da repressão desencadeada pelos ba'athistas após a vitória do levante, o massacre é a obra de Ali Saad al-Saadi, chefe da ala direitista dos ba'athistas no Iraque.

O nasserista Aref forma o Conselho Nacional de Comando da Revolução, porém o Ba'ath parece o mestre e resulta o anfitrião com grande pompa de Michel Aflaq, pouco depois da vitória ba'athista de Damasco em 8 de março de 196.

Porém os ba'athistas estão divididos entre aqueles da Direção Regional Iraquiana, ultradireitista de Saad al-Saadi e de Kazzar, entram em conflito com a Direção Nacional de Aflaq, que busca limitar suas ambições em vistas de evitar um conflito aberto com Aref.

Aref se beneficia das dissenções ba'athistas e em 18 de novembro de 1963 dissolve a Direção Regional do partido e seu braço secular, a Guarda Nacional, cujos membros jovens são pouco tendentes a querer continuar suas operações de polícia e não cessam de enfrentar o exército regular. Por outra parte a ruptura entre Nasser e os ba'athistas provoca a cólera dos unionistas cujos membros apoiaram Aref em sua luta contra o Ba'ath.

Em 18 de dezembro de 1963, Aref proíbe todos os partidos, depois de ter acabado coma mal-coordenada resistência da Guarda Nacional (que os ba'athistas moderados não apoiam) e se afirma abertamente sobre o Egito.

Em 14 de julho de 1964 ele forma a União Socialista Árabe do Iraque, destinado a ser o partido único do país, sob o modelo da União Socialista Árabe do Egito e cria em outubro de 1964 um Comando político único com o Egito que não terá resultados concretos. Por sua vez Aref não logra resolver o problema curdo, vacilando entre a guerra e as negociações.

Aref morre em um misterioso acidente de helicóptero (muito provavelmente uma sabotagem) em 13 de abril de 1966. Seu irmão o sucede porém ele não tem todas as suas qualidades e o regime rapidamente se torna incapaz de fazer frente ao descontentamento crescente.

Em julho de 1968, um golpe dos oficiais descontentes, sem grande coloração política, permite ao Ba'ath se aproximar ao poder. Rapidamente os ba'athistas logram eliminar seus associados e aproveitam para tomar a totalidade do poder, enquanto que o antigo chefe da Guerda Nacional, o General al-Bakr se converte em Chefe de Estado. Os ba'athistas do Iraque, membros da ala direitista do partido se enfrentam aos responsáveis sírios e dão as boas vindas a Aflaq que abandona Beirute para se instalar em Bagdá.

A polícia política dirigida por Nazem Kazzar (que vimos no papel da liquidação da esquerda iraquiana em 1963) e o ramo militar do Ba'ath (dirigido por Mohammed Fadel e pelo agrupamento dos oficiais membros do partido) organizam um regime de terror que elimina a família Takriti, particularmente influente no exército. É também pelo terror que se mantém no poder um partido minúsculo, de algumas centenas de membros (ainda menos que os da Síria), e podemos crer legitimamente que estavam absolutamente desconectados das massas. O regime, inicialmente contrário aos comunistas e às URSS, termina por liquidar a disputa com o tratado russo-iraquiano, e com a entrada de dois ministros comunistas no governo da coalizão de maio de 1972.

O golpe falido de Kazzar (termina com trinta e cinco execuções após a morte do Ministro de Defesa o General Chahab que havia sido tomado como refém e é capturado pela polícia comandados por Saddam Hussein, durante sua fuga para o Irã). Em 30 de junho de 1973, em vistas de deter essa evolução e encomendar o governo do Iraque à Direção Nacional do Ba'ath e portanto a Michel Aflaq, cada vez mais direitizado.

Apesar da conclusão do Pacto de Ação Nacional em 17 de julho de 1973 entre o Ba'ath e o Partido Comunista, que buscava a constituição de uma Frente Nacional, a ala direitista ba'athista não resulta afetada pelo fracasso sangrento de Kazzar. Como dirá o escritor Eric Roulleau, em um artigo chamado "Iraque à Sombra das Intrigas", no Le Monde de 20 de julho de 1973:

"Paradoxalmente a eliminação de Nazem Kazzar contribuiu para reforçar a ala direitista do partido ainda quando o antigo chefe da segurança reflete todavia a ideologia. Em efeito, os conservadores, incluídos os militares, recarregaram sobre a esquerda - particularmente sobre Saddam Hussein - a responsabilidade pelos últimos eventos. Argumentando que todos aqueles que estiveram vinculados ao complô são considerados, mais ou menos, como os homens de sua devoção...

Foram utilizados para reforçar os poderes da facção civil e radical do Ba'ath em detrimento do exército.

Este último...exigirá manter uma participação efetiva no exercício do poder, uma reorientação da política interior no sentido de firmeza contra os comunistas e os autonomistas curdos e na política exterior, considerada muito favorável à URSS".

Um novo enfrentamento de forças parece provável no Iraque entre a tendência nacionalistas do Ba'ath e a esquerda à sombra de Hussein, Bakr, centristas moderados que podem desempenhar um papel decisivo no conflito. Porém a guerra de outubro provocou, de novo, mudanças profundas. O Iraque anima o movimento de resistência e aparece como o centro da resistência às negociações com Israel. Ademais, a ruptura parece a ponto de conduzir a uma nova guerra, sob o plano das relações entre os curdos e o Ba'ath, tudo permite à ala direitista ba'athista reforçar rapidamente sua posição. Aflaq e seus amigos claramente não deram sua última palavra no Iraque.

Os outros países árabes:



Existem núcleos ba'athistas, muitas vezes clandestinos, em certo número de outros países árabes. Um grupo ba'athista foi desmantelado pela polícia de Túnis em 1970. Os ba'athistas foram altamente ativos na Jordânia, inclusive no plano parlamentar, antes de sua proscrição pelo governo monárquico. Uma ação clandestina não obstante persiste ali. Existe por sua vez pequenos grupos clandestinos no Egito.

No Líbano, em 1958, durante a guerra civil o Ba'ath desempenha um papel importante sob a direção de Abdel Medjid Rafi, que buscará em diversas ocasiões constituir um governo revolucionário contra o governo legal. Não obstante, a importância do partido se mantém limitada apesar de que pela primeira vez, ela se preparou para obter um eleito nas últimas eleições, estes últimos são favoráveis ao ramo iraquiano do Ba'ath libanês, que por sua vez estão divididos em duas facções rivais.

Não se dá durante a formação da Resistência Palestina a divisão por essa rivalidade, pelo menos entre duas delas:

- A Saïka, a segunda formação em importância da Organização de Liberação Palestina (depois do Fatah), e está sob o controle completo dos ba'athistas de Damasco. Até a tomada de poder por Assad, a Saïka constituía o apoio essencial militar da ala esquerdista do Ba'ath sírio.

- A Frente de Liberação Árabe foi criada por Bagdá para ser um contrapeso à Saïka e demonstrar o interesse de Bagdá pela luta palestina. Sua importância se encontra muito limitada, porém nós podemos pensar que rapidamente podem aumentar seus efetivos, em razão de sua posição oposicional determinada nos processos de negociação em curso. A Frente já obteve o apoio da Frente Popular para a Liberação da Palestina do Doutor Habbasch.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Dominique Venner - A Tríade Homérica

Por Dominique Venner


Para os antigos, Homero era “o começo, o meio e o fim.” Uma visão do mundo e até mesmo uma filosofia estão implicitamente contidas em seus poemas. Heráclito resumiu seu alicerce cósmico com uma frase bem colocada: O universo, o mesmo para todos os seres, não foi criado por nenhum deus ou homem qualquer; mas sempre foi, é, e será eternamente fogo vivo...”


1. Natureza como Base


Em Homero, a percepção de um cosmos ordenado e incriado é acompanhada por uma visão mágica transmitida por mitos antigos. Os mitos não são crenças, mas sim a manifestação do divino no mundo. As florestas, as rochas, os animais selvagens têm uma alma que Ártemis (Diana para os romanos) protege. Toda natureza funde-se com o sagrado, e os homens não são excluídos disso. Mas a natureza não está destinada a satisfazer os nossos caprichos.

Por outro lado, na natureza em sua imanência, aqui e agora, encontramos respostas para nossa angústia: “As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores, que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida; outras, brotam na primavera, de novo, por toda floresta viçosa. Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira.”(Ilíada, VI, 146-149). A roda das estações e da vida, cada uma transmitindo algo de si para aqueles que seguirão, garantindo assim uma certa eternidade.

A certeza fortalecida pela consciência de deixar uma lembrança na mentalidade futura, como Helena diz na Ilíada: “Triste destino Zeus grande nos deu, para que nos celebrem nas gerações porvindoiras, os cantos excelsos dos vates” (VI, 357-358). Talvez, mas a glória de um nome nobre é esquecida como o resto.

O que não morre é interior, dentro de si mesmo, na verdade da própria consciência: ter vivido nobremente, sem abjeções, ter-se mantido de acordo com o modelo estabelecido.


2. Excelência como Objetivo


Na imagem dos heróis, os homens verdadeiros, nobres e talentosos (kalos kai agathos) buscam na coragem da ação a medida de sua excelência (arete), assim como as mulheres procuram no amor ou na doação de si a luz que as torna reais . A única coisa que importa é o que é bonito e forte. 

“Seja sempre o melhor,” Peleu diz ao seu filho Aquiles, “melhor do que todos os outros” (Ilíada, VI, 215).

Quando Penelope é atormentada pelo pensamento de que seu filho Telêmaco poderia ser morto pelos “pretendentes” (usurpadores), o que ela teme é que ele poderia morrer “sem glória”, antes de fazer o que é preciso para se tornar um herói igual a seu pai (Odisséia, IV, 539).

Ela sabe que os homens não devem esperar pelos deuses e ter esperanças de qualquer ajuda além deles próprios, como Heitor disse ao rejeitar um mau presságio: “Há um presságio melhor: a luta por sua pátria” (Ilíada, XII, 250).

Na batalha final da Ilíada, compreendendo que é condenado pelos deuses ou pelo destino, Heitor dilacera-se longe do desespero por uma onda de heroísmo trágico: “Ah, bem! Não, eu não pretendo morrer sem luta nem glória, nem sem algum grande feito que será recontado pelos homens que estão por vir”(XXII, 330-333).


3. Beleza como Horizonte


A Ilíada começa com a ira de Aquiles e termina com ele acalmando a dor de Príamo. Os heróis de Homero não são modelos de perfeição. Eles são propensos a erros e excessos na proporção de sua vitalidade. Por essa razão, eles caem sob os golpes de uma lei imanente que constitui a fonte do mito e da tragédia Grega. Cada falha traz punição, tanto a de Agamenon quanto a de Aquiles. Mas para Homero, inocentes também podem ser subitamente atingidos pelo destino, como Heitor e tantos outros, porque ninguém está a salvo do trágico destino.

Essa visão de vida é estranha à ideia de uma justiça transcendente punir mal ou pecado. Em Homero, nem o prazer, nem o gosto pela batalha, nem a sexualidade são comparados ao mal. Helena não é culpada por uma guerra desejada pelos deuses (Ilíada, III, 170-175). Somente os deuses são culpados pelos destinos que se abatem sobre os homens.

As virtudes consagradas por Homero não são morais, mas estéticas. Ele acredita na unidade do ser humano definida por seu estilo e seus atos. Então, os homens definem-se com referência ao belo e o feio, o nobre e o vil, não bem ou mal. Ou, dito de outra forma, o esforço pelo belo é a condição de bem.

Mas a beleza não é nada sem lealdade ou bravura. Sendo assim, Paris não pode ser realmente belo, porque é um covarde. Ele é apenas um vaidoso que engana o seu irmão Heitor e até mesmo Helena, a quem ele seduziu por magia. Por outro lado, Nestor, apesar da idade, mantém a beleza de sua coragem.

Uma vida bela, o objetivo final de excelência na filosofia Grega, da qual Homero foi a expressão suprema, supõe a adoração da natureza, o respeito da modéstia (Nausicaa ou Penélope), a benevolência do forte para os fracos (exceto em combate), o desprezo pela baixeza e a feiúra, a admiração pelo herói condenado.

Se a observação da natureza ensinou os gregos a moderar suas paixões, para limitar seus desejos, então não há nada de idiota na ideia de que eles eram sábios antes de Platão. Eles sabiam que a sabedoria era associada com as harmonias fundamentais surgidas a partir de oposições: masculino e feminino, violência e gentileza, instinto e razão. Heráclito tinha ido à escola de Homero quando ele disse: “A natureza gosta de opostos: através deles, produz harmonia.”

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

David Landot - Francisco Franco: Camarada?

por David Landot



Muita gente de fora da Espanha nos pergunta: Seria Francisco Franco um camarada? Eu creio que não, e mais, me atrevo a dizer que nem mesmo nunca foi um fascista. Por que? Vamos vê-lo em seguida. Franco ainda que possua algumas conquistas econômicas e sociais inegáveis, tais como algumas prestações sociais de amplitude, uma melhora notável nas condições laborais, nacionalização dos bens e empresas estratégicas da nação, etc (realizações que sistematicamente os governos democráticos posteriores trataram de desmantelar progressivamente), no aspecto ideológico e no aspecto geopolítico ele deixa bastante a desejar. 

Franco é a encarnação da reação conservadora hispânica: amigo de latifundiários, clericalista ao extremo, centralista e monárquico convicto; nada mais distante, portanto, dos princípios retores do fascismo espanhol encarnado pela Falange e pelas JONS, que desde seus postulados ardentemente nacionalistas exigia vastas reformas sociais incluindo por exemplo uma profunda reforma agrária que acabasse com o problema dos latifúndios y levasse a cabo uma distribuição justa e racional da terra para os camponeses. É óbvio o incômodo que essas idéias geravam nas oligarquias da época, as quais Franco tinham um empenho pessoal em manter ao seu lado, tanto por afinidade pessoal como por puro oportunismo. Desse modo Franco leva a cabo uma instrumentalização da Falange, se bem a empregue como suporte militar e álibi ideológico para o levante nacional uma vez ganha a guerra e começado o processo de construção do novo Estado se desprende totalmente dela. 

O primeiro marco neste processo de defascistização tem lugar em 1937, com a promulgação do decreto de unificação, que busca a criação de um partido único sob a sigla da Falange que aglutinara elementos fascistas, carlistas (tradicionalistas) e monárquicos conservadores; de certo isso não caiu especialmente bem entre os setores fascistas com Manuel Hedilla à cabeça, líder da Falange e herdeiro do legado de José Antonio, que por causa de sua oposição ao projeto unificador será condenado à morte (ainda que logo sua sentença será comutada à pena de prisão) e afastado de maneira permanente e forçosa da política, substituído por Raimundo Fernandez Cuesta, deixando como legado uma Falange domesticada e pusilânime a serviço do conservadorismo franquista, situação que muitos antigos falangistas não tolerarão, protagonizando revoltas revidadas pelo regime com mais repressão ou optando pela morte heróica e se oferecendo para lutar como voluntários contra o comunismo na Divisão Azul. Tampouco os tradicionalistas carlistas e requetés se verão satisfeitos o que explicará a adoção de posturas nacionalistas bascas por muitos deles, perante a impossibilidade de conseguir seus objetivos dentro do Estado espanhol... porém isso seria motivo para outro artigo.

Único aspecto positivo desse fato e que se manterá ao longo de todo o regime é a criação da comissão de auxílio social, entregue a falangistas puros como Pilar Primo de Rivera ou Mercedes de Bachiller por causa de sua sensibilidade social e que levará a cabo una admirável tarefa em aspectos como a ajuda aos deserdados e aos órfãos de guerra . 

Pese a isso, Franco manterá a ficção fascista (ao menos em seu fator estético: uniformes, saudação romana, desfiles, etc.) no que se chama na história de “etapa azul”, buscando desse modo ganhar para si as simpatias dos governos do Eixo. De certo quando os fascismo caem na Europa isso resultará um empecilho para o governo de Franco, de modo que se desembaraçará sem o menor problema dando início a uma nova etapa etapa (etapa desenvolvimentista), baseada na aproximação aos EUA, a primazia política dos tecnocratas do Opus Dei (em detrimento dos últimos falangistas), o capitalismo liberal e a sociedade de consumo como modo de vida e a adoção de um discurso anticomunista liberal, muito em consonância com el existente nos EUA em tempos de Guerra Fria. 

Certamente esse discurso deu resultados entre os EUA necessitados de aliados, levando-se a cabo a visita do presidente Eisenhower a Franco, a entrada da Espanha na ONU (uma vez mais se demonstra a arbitrariedade dessa organização controlada pelo Grande Irmão e que apesar de defender a democracia não tem problemas em abrir as portas a Estados ditatoriais se são aliados) e a ratificação de sucessivos acordos econômicos e militares de “colaboração” que incluem a cessão de território nacional para a construção de bases militares ianques em um regime jurídico quase colonial, dando guarida ainda a material bélico nuclear perigoso. O incidente da bomba de Palomares, manipulado e ocultado pelo regime é prova de sobra da atitude vassala e servil de Franco, totalmente oposta às tendencias nacionalistas e europeístas que caracterizam a alma fascista.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Elena Semenyaka - Ernst Jünger como Ícone do "Estilo Fascista" - Implicações Ideológicas e Biográficas

por Elena Semenyaka



I - Ernst Jünger como autor do Novo Nacionalismo: o Estilo Fascista vs. a Ideologia Nacional-Socialista Oficial

É difícil reclamar de uma falta de atenção para a personalidade e para o trabalho como autor de Ernst Jünger. Apesar de seu "passado dúbio"[1] e diferentemente de muitos de seus camaradas-de-armas, ele ganhou reconhecimento em vida. Ademais, ele próprio se tornou objeto de estudo, e deve-se admitir, um particularmente desafiador: muitas questões e controvérsias cercam seu caráter misterioso. Como celebridade e um reconhecido ícone alemão, Jünger não as deixou sem respostas; porém, o mistério permaneceu, porque em muitos casos pistas, omissões e especialmente silêncio enfático foram suas respostas.

O mesmo vale para a criatividade de Ernst Jünger que durou por oitenta anos. Não é de surpreender que seu legado tem sido estudado nos termos de uma considerável variedade de discursos (do filológico ao político), o que reflete a riqueza dos gêneros que ele dominou; por exemplo, os relatórios sobre experimentações com LSD não são partes menos integrais à bibliografia de Jünger que o jornalismo de extrema-direita ou os diários de guerra. Similarmente, isso corresponde com a multitude de talentos de Jünger e portanto subpersonalidades para investigação biográfica: Jünger como escritor e jornalista, Jünger como militar e guerreiro, Jünger como esteta e dandy, Jünger como entomologista e colecionador de insetos, e, finalmente, Jünger como líder dos Nacional-Revolucionários e um teórico proeminente da Revolução Conservadora. Ademais, a identidade política e ideológica de Jünger também tem sido objeto de debates duradouros que variam dentro de uma extensão que vai de "Jünger como padrinho do fascismo" a "Jünger como liberal enrustido"[2]. As questões mais populares para investigação, como se pode facilmente advinhar, estão conectadas com as relações de Jünger com o Nacional-Socialismo e a infame "Questão Judaica".



Finalmente, discussões tradicionais sobre vetor "progressivo vs. regressivo" da Revolução Conservadora e esquemas ideológicos atípicos de seus membros no caso de Jünger alcançam o mais alto nível de intensidade. Há um termo especial nos estudos jüngerianos germânicos - "Jünger-Kontroverse", que significa a polêmica ao redor de sua personalidade e escritos. No presente, apesar (ou devido) essas charadas, há uma imensa Jüngeriana, que pode até mesmo afastar um admirador curioso ou um pesquisador do legado de Ernst Jünger que gostaria de adquirir uma visão clara e coerente de sua ideologia.

De fato, muitas investigações, tanto críticas como apologéticas, parecem confundir ao invés de esclarecer as questões relativas a Jünger. Ademais, dificilmente se pode ultrapassar o nível de reflexão de Jünger e dar definições de suas perspectivas mais precisas do que suas autodescrições desse “Augenmensch”, que é também conhecido como um “sismógrafo da época”, cujas previsões se tornaram realidade. Portanto, é suficiente ler atenciosamente suas próprias “confissões” para compreender esse esteta exemplar da Direita, para quem forma e conteúdo eram igualmente importante. Talvez esta seja a razão pela qual Jünger foi incapaz de se explicar ou se justificar no período pós-guerra: sua pose aristocrática natural, essa “desenvoltura” (leveza, distanciamento) e a responsabilidade intelectual pública, especialmente de uma pessoa que negava o sufrágio universal junto a outras demandas “universais” do Iluminismo, eram simplesmente incompatíveis. Dever-se-ia ser verdadeiramente ingênuo para esperar de Jünger quaisquer tipos de atividades populistas que ele jamais realizou mesmo durante a era Nacional-Socialista, a qual traiu suas esperanças de completa despolitização das massas, hoje, sob o reino do Leviatã globalizado, isto é da Nova Ordem Mundial. Similar a Martin Heidegger, que nunca disse uma única palavra de arrependimento, Ernst Jünger escolheu o silêncio como resposta:

“Se está então no período pós-guerra imediato, um tempo triste e doloroso quando ambos homens foram tratados como se fossem radiativos. Jünger, em 25 de junho de 1949, escreveu essa fascinante frase: ‘No curso dos últimos anos,  tornou-se bastante claro para mim que o silêncio é a mais poderosa das armas, desde que esteja dissimulado por trás de algo que merece ser encoberto’. [3]”

Por outro lado, como o título “wittgensteiniano” de uma investigação sobre sua criatividade sugere, “aquilo de que Ernst Jünger não pode falar, isso ele também não pode silenciar"[4]. Desnecessário dizer, deve-se ter ouvidos para ouvir o que Jünger tenta expressar por meio desse silêncio enfático. Ou melhor, olhos para ver o que ele gostaria de mostrar, pois a prosa de Jünger possui um caráter distintamente "visual"; outro famoso aforismo por Ludwig Wittgenstein "O que pode ser mostrado, não pode ser dito" é também mais do que relevante nesse contexto. Ademais, segundo Armin Mohler, um historiador germano-suíço que deixou a Suíça para ingressar na Waffen-SS, serviu como secretário de Jünger de 1949 a 1953 e escreveu a clássica investigação Die Konservative Revolution in Deutschland: 1918-1932 que deu origem aos estudos acadêmicos de Jünger. Ernst Jünger, junto a Gottfried Benn e, por exemplo, Otto Strasser, é o mais brilhante representante de um "estilo fascista" descrito no curto ensaio de Mohler do mesmo título (Der Faschistische Stil, 1973) como uma deviação positiva da ideologia Nacional-Socialista oficial que é característico para fenômenos tão diversos quanto os movimentos liderados por José Antonio Primo de Rivera na Espanha, Léon Degrelle na França, Gabrielle D'Annunzio na Itália, Oswald Mosley na Grã-Bretanha, Corneliu Zelea Codreanu na Romênia, etc.

"Mohler compreende o estilo como um fenômeno puramente estético, como a elevação do gesto acima da idéia. Um exemplo do estilo fascista é 'severidade e frieza', retorcendo forma 'pela pura forma a partir do caos'. O slogan de batalha dos fascistas espanhóis em 1936, 'Vida Longa à Morte', é correspondentemente um gesto tipicamente fascista"[5].



Apesar de Mohler ter alertado contra interpretações esquerdistas superficiais do estilo fascista como "mera" estética, tais "gestos" devem ser vistos como a chave para compreender por que Jünger foi um "emigrante interior" desde o Terceiro Reich e uma pessoa inconveniente para qualquer força política em geral, apesar de ele ter dedicado a cópia de seu livro Feuer und Blut (Sangue e Fogo) (1926) ao "Führer nacional - Adolf Hitler" e duas vezes quase se encontrou com ele (o primeiro encontro não ocorreu por causa do rígido calendário de trabalho de Hitler, e o segundo porque Jünger não compareceu ao Congresso de Nuremberg em 1929). Esse conflito de ideologia e estética em seu máximo sentido está oculto por trás de tais atos demonstrativos realizados por Jünger durante a era Nacional-Socialista como rejeitar ingressar ao NSDAP (duas vezes, em 1927 e 1933) e se recusar a ingressar na Academia Prussiana das Artes (no verão de 1933) acompanhado de uma carta rispidamente irônica em que um lendário soldado da Primeira Guerra Mundial, um reconhecido líder dos círculos militares de extrema-direita e um autor celebrado de livros sobre a guerra afirmava que um "caráter profundamente soldadesco" de seu trabalho e, em particular, articulado no parágrafo 59 de seu "livro sobre o trabalhador" sobre a correlação entre armamento e cultura o impediria de se juntar à Academia, o que poderia afetar negativamente seu serviço militar conduzido desde 1914[6]. Depois que sua casa foi vasculhada pela Gestapo no inverno de 1933, o brilhante dandy metropolitano e proponente do "Novo Nacionalismo" urbanístico se mudou para a cidade provinciana de Goslar.

Pelo livro sobre o trabalhador Ernst Jünger queria dizer seu principal tratado metafísico Der Arbeiter (O Trabalhador) publicado em 1932, e que foi recebido com silêncio tanto pelos Nacional-Socialistas como por seus oponentes, que, segundo suas memórias, simplesmente não sabiam o que fazer com aquilo. Similarmente, é dito que ao rejeitar um assento no Reichstag, Jünger comentou da seguinte forma: "É muito mais honroso escrever uma boa linha do que representar sessenta mil imbecis no parlamento". Como um convicto decisionista um apologista do autoritarismo revolucionário, Jünger estava desapontado com a campanha eleitoral iniciada pelos Nacional-Socialistas, apesar de sua promessa de se livrar das eleições. No artigo Nationalismus und Nationalsozialismus (Nacionalismo e Nacional-Socialismo) (1927) o autor do programa do assim chamado "Novo Nacionalismo" (em relação ao nacionalismo liberal do século XIX que resultou da revolução francesa) explicitamente afirmava que esse "estilo fascista", falando nos termos de Mohler, vai além dos padrões ideológicos imbuído de significância metafísica: 'Um ideal de nacionalismo é sua posição interior". Jünger segue dizendo que todos aqueles que buscam esse ideal, mesmo que seus pontos-de-partida ideológicos variem, estão próximos uns aos outros.

Portanto, está claro que a oposição entre o curso Nacional-Socialista oficial e a estética “fascista” não é uma entre conteúdo e forma, questões primárias e secundárias, como esquerdistas e Nacional-Socialistas ortodoxos tendem a crer, mas, muito pelo contrário, é uma entre questões abstratas e concretas ou mesmo imaginárias e reais, que determinam diferenças em prioridades de seus aderentes. Manifestações frias, severas, e emocionalmente restritas do estilo fascista não cancelam suas raízes vitalistas: Ernst Jünger, que estudou filosofia e zoologia na Universidade de Leipzig na década de 20, em particular, foi a palestras de Hans Driesch, fundador do neovitalismo, Hugo Fischer e seu assistente Feliz Krüger, sem mencionar a fascinação típica da “geração do front” com Friedrich Nietzsche, Arthur Moeller van den Bruck, Oswald Spengler e Werner Sombart, acima de tudo, enriquecida com seu jornalismo nacionalista de Weimar (1923-1933), os legados do voluntarismo, da filosofia de vida e do romantismo alemães. Mesmo uma familiaridade básica com o texto é suficiente para observar que “sangue”, “espírito”, “destino”, “vontade”, “força vital”, “coração”, “energia”, etc. são as palavras mais frequentemente usadas nesses artigos; a própria tecnologia é retratada como um poder mágico elemental que não tem conexão alguma com sua visão esquerdista como instrumento neutro da racionalização e do progresso. Foi essa mesma “combinação de distanciamento, amor fati e nacionalismo romântico” que “era uma maneira pobre de resistir aos nazistas” segundo os críticos de Jünger [7]. O próprio Jünger, porém, preferia chamar sua posição de “realismo heroico”.

Ernst Jünger, como líder dos Nacional-Revolucionários devido à classificação de Armin Mohler das principais direções dentro do movimento Conservador Revolucionário em geral, sustentava uma opinião diferente sobre as questões racial e judaica do que os representantes da tendência völkisch a qual pertence a invenção da doutrina “Blud und Boden” (“Sangue e Solo”) absorvida na política hitlerista oficial. Ele negava tanto o biologismo racial como o antissemitismo do NSDAP, o primeiro por ser abstrato demais (nas palavras de Jünger, o sangue se prova não por sua “pureza”, mas pela ação; a raça possui sentido “energético” e não substancial) e o segundo como reação a uma ameaça extremamente superestimada dos judeus assimilados que apenas desacreditava os alemães (no artigo Nationalismus und “Nationalismus”(Nationalismo e “Nacionalismo”) ele rejeitou a visão de que o nacionalista “come três judeus no café-da-manhã. O antissemitismo no que lhe concerne não é uma questão essencial”[8]. Jünger acreditava que quanto mais a gestalt alemã se tornasse distinta, mais visíveis se tornariam os judeus frente a esse pano-de-fundo, de modo que eles teriam que ou se transformar em alemães, ou abandonar a Alemanha como representantes de uma formação alógena:

“Para os judeus só há uma última estação, um único templo de Salomão, e esta é a ortodoxia judaica, que eu saúdo tanto quanto devo saudar a singularidade genuína de cada povo. Indubitavelmente ela recuperará espaço no mesmo grau que o nacionalismo dos povos da Europa ganhe ímpeto”[9].



O conceito de gestalt é de fato um sinônimo do estilo fascista compreendido como o fenômeno de valor metafísico. No tratado Der Arbeiter, que sumariza o jornalismo de Jünger em Weimar, ele passa da gestalt alemão à gestalt metafísica do Trabalhador que literalmente imprime um novo tipo humano – o tipo do Trabalhador imbuído com tais atributos como unidade de liberdade e necessidade, dominação e obediência, trabalho e lazer, abertura ao elemental e perigo, um tratamento mais fácil da dor e da morte (em comparação ao burguês individual), impessoalidade e habilidade de auto-objetificação, etc. Esses traços são causados pelo caráter prometeico da gestalt que representa os poderes da tecnologia e se expande por seus meios: a tecnologia, segundo a famosa definição, é o caminho pelo qual a gestalt do Trabalhador mobiliza o mundo. Ademais, Jünger especifica que o trabalho, que aparece como o modo de vida em relação ao homem e como o princípio em relação à realidade de seus esforços, em um sentido formal deve ser como um estilo.

Características de estilo já são familiares; afinal, elas podem ser facilmente derivadas de atributos do novo tipo humano como uma impressão da gestalt. Enquanto tal, elas foram reconhecidas e altamente estimadas por Julius Evola em seu livro sobre a figura do Trabalhador na criatividade de Jünger como traços do tipo ascético-heróico ativo conhecido como kshatriya no sistema de castas da Índia. O que também eleva esse estilo acima da “mera estética” é afirmado diretamente pela irredutibilidade de Jünger da gestalt a avaliações éticas, estéticas e científicas, o que torna ver o mundo em termo de gestalts um ato verdadeiramente revolucionário necessário para compreender o ser na totalidade de sua vida. Não importa se algo é bom ou mal, bonito ou feio, verdadeiro ou falso, continua Jünger, a única coisa que conta é a gestalt à qual ele pertence. É por isso que ele negava tanto a interpretação econômica como a moral do trabalho: em oposição a tentativas bastante difundidas de retratar o Trabalhador como um labutador altruísta, que desafia a gananciosa lógica capitalista, Jünger não deixa dúvidas de que o trabalho tem mais em comum com o esporte e a paixão por uniformes do que ganhar pão “no suor de sua face”.

II – Estetização da Violência: O Caso de Nos Penhascos de Mármore



Armin Mohler queria dizer aproximadamente o mesmo ao dizer que para estetas como Ernst Jünger e Gabrielle D’Annunzio o gesto espetacular era “mais importante” que o destino de seu próprio povo e pátria. Ou a França ocupada onde Jünger serviu como capitão no quartel-general do General Otto von Stülpnagel, o Comandante do Exército Alemão para a França, durante a Segunda Guerra Mundial e estava mais preocupado com encontrar celebridades locais e ler livros do que com deveres militares:

“Quanto ao aspecto neroniano do distanciamento de Jünger em relação ao barbarismo ao seu redor, aqui está Jünger sobre Nero: ‘Eu estou sempre discordando de minha esposa sobre Nero, de quem ela não gosta. Eu digo: aquele Nero, que homem! Ele foi um artista nato. E agora ele tinha que virar imperador, também, pobre homem. Eu admiro fortemente suas últimas palavras, ‘Qualis artifex pereo’.[10]”

Outro episódio exemplar, que é avidamente citado tanto por admiradores como odiadores da maneira de escrita divina de Jünger – pelos segundos como argumento decisivo no debate sobre sua responsabilidade como autor pela “estetização da violência” – aparece nos Diários de Paris de Jünger e reflete sua impressão do bombardeio de Paris em maio de 1944 observado do teto do Hotel Raphael enquanto bebia vinho:

“Durante a segunda onda, no pôr-do-sol, eu segurei em minha mão um copo de vinho com morangos flutuando nele. A cidade com suas torres e domos vermelhos jazia disposta em uma beleza inebriante como um cálice que se derrama para uma polinização mortal. Tudo foi espetáculo, puro poder, afirmado e exaltado pela dor"[11].

Portanto,  é ao invés a ideologia Nacional-Socialista oficial que deve ser considerado como o fenômeno "meramente" ético, enquanto o estilo fascista é evidência de uma aspiração conservadora revolucionária de "reencantar" o mundo secularizado pela reunião dos campos modernos autônomos da ética, da estética, da ciência, da política, da religião, etc. Essa crítica foi dirigida aos Nacional-Socialistas no já citado artigo Nationalism and National Socialism escrito em 1927 onde Jünger notou que o número de seguidores e a luta partidária eram significativos apenas para os Nacional-Socialistas, que buscavam o poder ao invés da "revolução absoluta", enquanto para os nacionalistas o número não significava nada e um fenômeno como o de Spengler era mais valioso do que cem cadeiras no parlamento. Os oponentes de Jünger na esquerda também o sentiam: Karl Radek, por exemplo, uma vez disse que converter esse autor "perturbadoramente honesto" para o seu lado era mais importante do que conquistar uma maioria parlamentar. Em outras palavras, outra diferença entre o Nacional-Socialismo e o estilo fascista consiste na preferência por quantidade acima da qualidade e vice-versa correspondentemente.



Termos que significam essa qualidade especial do novo tipo humano no jornalismo weimariano de Jünger são "caráter", "sangue" e "raça" no sentido "energético" que permite a irmãos espirituais a se reconhecerem uns aos outros por um aperto de mãos, contato visual, tom de voz, expressões faciais, etc. Jünger aponta que, similarmente à gestalt, não há caráteres bons ou ruins; há apenas os grandiosos e os medíocres. Atenção aos detalhes também é crucial segundo a descrição de Mohler dos "novos homens bravos" que são desprovidos de messianismo ideológico e saúdam a um superior apenas se eles vão com a sua "cara". Similarmente, ele ressalta que sua reação à propaganda oficial é bastante incomum: eles ou arreganham os dentes ou bocejam. O parágrafo 59 de Der Arbeiter mencionado por Jünger na carta de rejeição à Academia Prussiana de Artes contém substanciação explícita para esse recuo à estética fascista que beira o individualismo anarquista. À primeira vista, nós lidamos com o contraste entre dois tipos de estética: estética fascista da juventude, a vontade de poder e morte e a estética Nacional-Socialista que apela à "cultura alemã" e seu passado glorioso mesmo em cujas profundezas mais remotas, na opinião de Jünger, dificilmente se poderia encontrar essa "mistura desagradável de vulgaridade e arrogância" típica dos slogans oficiais.

Porém, a insatisfação de Jünger com o epigonismo barato de muitos dos artistas do regime, acima de tudo, era ideologicamente motivada. Apesar de sua abordagem futurista, Jünger negava o foco Nacional-Socialista no passado não em nome do progresso, mas em favor da "mais elevada tradição viva", que requer grandeza genuína e cujo oposto ele considerava "museificação" da herança cultural iniciada pela autoridade, isto é, como se pode dizer, pela tradição "inferior", "morta" ou "artificial". Ideologicamente, isso corresponde ao desrespeito de Jünger pelo nacionalismo liberal como uma teoria pseudo-política forma nascida da revolução francesa e do Iluminismo, que não possui nada em comum com uma doutrina germânica de nacionalismo "orgânico" - o único tipo de nacionalismo digno desse título. Falando em sentido estrito, Jünger criticava não tanto o Nacional-Socialismo quanto sua contraparte liberal; é por isso que ele chamava a museificação da história e da cultura "o último oásis da segurança burguesa" que justifica escapar das decisões políticas e carece do poder de proteger a soberania estatal da invasão dos menores entre os países vizinhos. Jünger insiste que sob as circunstâncias atuais nós não devemos falar sobre tradição: nós devemos criá-la. É por isso que ele ressaltou que um verdadeiro símbolo da época moderna - um soldado desconhecido, que caiu em algum lugar perto de Sommes ou em Flandres - jamais pode ser ofuscado por qualquer espírito do passado. Não é surpresa, portanto, que Ernst Jünger apoiasse o nacional-bolchevique Ernst Niekisch reprimido por difundir sentimentos anti-Hitler e um criador de "arte degenerada" Rudolf Schlichter quando ele foi acusado de "um modo de vida não-Nacional-Socialista".



Ao mesmo tempo seria extremamente equivocado concluir que Jünger era antinazi ou mesmo um ativista anti-hitlerista. A história por trás de seu conhecido romance Auf den Marmorklippen (Nos Penhascos de Mármore) escrito em 1939, que é muito mencionado como o ponto de partida da virada de Jünger "da política para a literatura" (junto com a segunda redação de Das Abenteuerliche Herz (O Coração Aventuroso) (1938)), é extremamente esclarecedora nesse contexto. O romance narra a história de dois irmãos que levam uma existência poética próxima a uma vida pastoral não menos idílica em uma terra chamada Grande Marina que é gradativamente destruída pelas gangues bárbaras do Monteiro-Mor (Oberförster) que erguia florestas selvagens sob seu comando em áreas previamente sob seus assentamentos pacíficos. O livro foi censurado por Goebbels logo após sua publicação na Alemanha, mas ele logo foi republicado às custas do Exército, assim como o livro Myrdun: Briefe aus Norwegen (Myrdun: Cartas da Noruega) (1943) que foi banido de publicação por causa da recusa em eliminar a referência crítica ao Salmo 73.

Por um lado, a reação de Goebbels é bastante compreensível: em 1929 ele qualificou a primeira redação de O Coração Aventuroso como literatura ("mera tinta") contra o pano-de-fundo do livro anterior "grande e heróico" In Stahlgewittern (Tempestades de Aço) (1920), - os lendários diários militares que lhe trouxeram fama e eram até mesmo recomendados para leitura no currículo escolar. Ademais, levando em consideração que Nos Penhascos de Mármore como exemplo de uma ficção altamente sofisticada longe o ideal de Goebbels da "vida plenamente real" foi instantemente reconhecida como uma alegoria antinazista que tem como alvo Adolf Hitler como o Monteiro-Mor e Joseph Goebbels como Braquemart, não é de surpreender que este último tivesse pelo menos duas razões para censurar essa nova obra-prima de Jünger. Porém, essa se revela uma interpretação falsa quando nos aprofundamos mais na história:

"Nos Penhascos de Mármore vendeu 35.000 cópias antes de ser suprimida no início de 1940. Como ela foi suprimida pela máquina de censura do Dr. Goebbels não é tão misterioso quando se percebe que Braquemart teve como modelo o próprio Dr. Goebbels que se sentiu lisonjeado e fascinado com isso, mas depois alarmado por sua popularidade entre a casta dos oficiais. O próprio Jünger afirmou então - como agora - que a fábula não é antinazi, mas está 'acima disso tudo'. [12]"



Muito depois no curto epílogo ao romance (1972) Jünger repete que mesmo na França ocupada os leitores advinharam que ele era "o sapato que se encaixa em vários pés". Ademais, nas entrevistas ele traçou seu paralelo usual entre os regimes de Hitler e Stálin e ressaltou que o livro poderia facilmente ser visto como uma exposição do segundo, ainda que, em geral, Jünger refutasse a própria interpretação política do romance como limitado demais. Mais precisamente, Jünger confessou sua insatisfação crescente com a palavra "resistência" no mesmo epílogo à obra, porque sua estratégia de emigração interior, que encontrou sua expressão mais brilhante nos conceitos de Waldgänger e Anarca, ditava status igual para "oposição" e "colaboração" desde que se permanecesse verdadeiro para consigo mesmo [13].

Apesar do fato de que em Paris Jünger se comunicou com muitas figuras notáveis, incluindo algumas da Resistência (Sacha Guitry, Jean Cocteau, Marcel Jouhandeau, Paul Leautard, Louis-Ferdinand Céline, Gaston Gallimard, Paul Morand, Banine, Georges Braque, Pablo Picasso, Henri de Montherland, Pierre Drieu La Rochelle, Florence Gould), e seu tratado Der Friede (A Paz. Um Apelo à Juventude da Europa e à Juventude do Mundo) (1943) era muito popular entre os militares que preparam uma tentativa de assassinato contra Hitler em 20 de julho de 1944 (entre outros, General Otto von Stülpnagel, sob cuja supervisão Jünger trabalhava, e Hans Speidel, o Chefe de Estado-Maior; o Marechal Erwin Rommel até mesmo planejava difundir o apelo de Jünger ao redor do mundo caso a conspiração tivesse sucesso), sua única punição foi a dispensa da Wehrmacht como "inapto para o serviço" graças à intercessão pessoal de Hitler. Ao mesmo tempo, o preço que Jünger pagou por atividades subversivas foi a morte simbólica de seu filho Ernst próximo aos penhascos de mármore de Carrara em 29 de novembro onde ele foi alistado no batalhão de punição por organizar conversas anti-Hitler em sua unidade. Ou melhor, por seus ataques irônicos e esteticamente perfeitos ao regime: diz-se que o jovem Ernst disse a seus camaradas-de-armas: "Se vencermos, teremos que enforcar Kniebolo" repetindo uma combinação das palavras "knien" (ajoelhar) e "Diablo" (o diabo) usados como combinação para Hitler nos diários franceses de Jünger.

III - A Emigração Interior de Ernst Jünger: Entre o Waldgänger e o Anarca



Em 1945, como comandante da Kirchhorst Volkssturm, Jünger ordenou à milícia local que cessasse a resistência e se rendesse às autoridades de ocupação americanas. Apesar de sua distância crescente em relação ao envolvimento político e o seu banimento de publicar na Alemanha por quatro anos imposto pelas forças de ocupação britânicas, Jünger se recusou a participar nos procedimentos de desnazificação e admitiu abertamente que ele estava do lado dos derrotados.

"O diário de Jünger demonstra sua indignação em relação ao fato de a Alemanha estar sendo ocupada pelos americanos, cuja cultura ele considerava inferior. 'Nas ruas, fileiras infinitas de caminhos passam, sendo dirigidas por negros', ele observou, com um desprezo pouco disfarçado, como se a Europa estivesse sendo tomada por aborígenes africanos'.[14]"

Similarmente, apesar de ele ter estado entre os primeiros a admitir que os alemães "pagaram o preço por suas ações" e que a vingança dos russos, "as coisas horríveis que aconteceram quando os russos avançaram e nos meses seguintes", "não deve ser aprovada, mas é compreensível"[15], ele imediatamente começou a expôr a hipocrisia e moral dúplice dos Aliados que exploravam o Holocausto como pretexto para impôr seus próprios interesses. Na opinião de Jünger, são os alemães que desempenham o papel dos "burros de carga" do mundo hoje - um lugar previamente ocupado pelos judeus. Ademais, diferentemente de seu amigo nacional-bolchevique Ernst Niekisch, que tinha esperanças de colaboração com a União Soviética, Ernst Jünger insistia que os EUA e a URSS eram igualmente perigosos para a Alemanha; ele tinha certeza absoluta de que a perda dos territórios orientais da Alemanha na Polônia teria consequências graves a longo prazo.

Ademais, o suposto tratado antinazista de Jünger A Paz, que circulava ativamente no período pós-guerra, também tem sido estimado como um documento da "culpa em desaparecimento"[16], onde Jünger, à sua maneira metafísica, ou melhor dizendo, estética, usual, vê o Holocausto como uma das manifestações da dominação planetária da gestalt metafísica do Trabalhador, que impõe um caráter impessoal de produtividade niilista sobre tudo, da guerra ao estilo de vida. Enquanto tal, ele é perfeitamente comparável aos crimes militares cometidos por outros regimes autoritários; por exemplo, Jünger não via de que maneira o Holocausto seria diferente da execução a sangue frio de Katyn de pelo menos 14.700 oficiais poloneses pela NKVD em 1940[17]. O mesmo vale para o romance aparentemente antinazi Nos Penhascos de Mármore, que se tornou amplamente conhecido como um exemplo clássico de sua "estetização da violência" e inaugurou uma nova onda de debates sobre a responsabilidade de Jünger como escritor por ocasião de seu recebimento do prestigioso Prêmio Goethe em 1982.

De modo geral, a participação pública de Jünger no período pós-guerra foi mínima. Depois de publicar os livros Über die Linie (Sobre a Linha) em 1950 e An der Zeitmauer (No Muro do Tempo) em 1959, "Jünger parecia ter desaparecido através de seu próprio muro do tempo"[18]. A substanciação conceitual para essa nova emigração interior foram os modelos jüngerianos de Waldgänger (Caminhante na Floresta) soberano individual e sua versão avançada do Anarca (na verdade, o anarquista de direita), desenvolvidos no ensaio Der Waldgang (Passeio na Floresta) (1951) e o romance distópico futurista Eumeswil (1977) correspondentemente. Este último, por sua vez, era uma sequência de seu romance distópico Heliopolis (1949), onde, em particular, Jünger previu a ilusão contemporânea da participação de massa no governo democrático através do voto anônimo por meio do "Fonóforo" (um meio de comunicação que pode ser considerado o análogo de um smartphone com acesso à internet), que, porém, deixa a seguinte pergunta sem resposta: "Quem determina os tópicos de votação?" Portanto, o Waldgänger, que nega esse mundo liberal de falsa liberdade ("abstrações anêmicas que passamos a associar com esse termo"[19]), automatismo e determinismo ético, abandona a sociedade para fugir para a Floresta, tanto literal como metaforicamente. O seguinte trecho de Der Waldgang lança luz sobre as razões por trás do próprio recuo de Jünger em relação ao ativismo político na RFA:

"É indicativo de uma nova característica em nosso mundo, em que estrangeiros podem acusar o indivíduo como colaborador de movimentos populares, enquanto partidos políticos o julgam como simpatizante de causas impopulares. O indivíduo está então situado entre Cila e Caríbdis; ele é ameaçado com liquidação ou porque ele participou ou porque ele deixou de participar.



Daí, um alto grau de coragem é necessário, o que lhe permitirá defender a causa da justiça sozinho, e até mesmo contra o poder do Estado. Será duvidoso se tais homens podem ser encontrados. Alguns aparecerão, porém, e eles serão caminhantes na floresta (Waldgänger). Mesmo contra sua vontade, esse tipo de homem entrará na cena histórica, pois há formas de coerção que não deixam escolhas"[20].

Diferentemente do Caminhante na Floresta, o Anarca não está necessariamente excluído da sociedade; muito pelo contrário, ele pode ser até mesmo um funcionário mais efetivo do que qualquer outro se visto desde fora:

"O fugitivo na floresta foi expulso da sociedade, o anarca expulsou a sociedade de si mesmo. Ele é e permanece seu próprio mestre em todas as circunstâncias. Quando ele decide fugir para a floresta, sua decisão é menos uma questão de justiça e consciência para ele do que um acidente de trânsito. Ele modifica sua camuflagem; é claro, seu status alienígena é mais óbvio na fuga para a floresta, daí fazendo dessa a forma mais fraca, ainda que talvez indispensável"[21].

Essa retirada deliberada da vida social que rendeu a Jünger a reputação de lobo solitário, dandy aristocrático, forasteiro, etc. eventualmente culminou em sua total mitologização enquanto pessoa. Segundo Niekisch, ele não se apressava para refutar qualquer rumor, pois "não se deve interferir no desenvolvimento de um mito"[22]. A transição temporária de Jünger do Waldgänger ao Anarca foi conectada com a celebração internacional de seu aniversário de cem anos em 29 de março de 1995, noticiada pela mídia na França, Alemanha e Itália. Entre aqueles que foram saudar e elogiar esse mito vivo do século estiveram o presidente francês François Mitterrand, o chanceler alemão Helmut Kohl (ambos foram honoráveis ouvintes de Jünger em 1984 quando ele deu um discurso na cerimônia de reconciliação franco-alemã no memorial de Verdun). À parte isso, a Jünger-Haus em Wilflingen havia sido anteriormente visitada por Jorge Luis Borges e Alberto Moravia. O discurso de saudação de aniversário de Mitterrando dá uma impressão do status de Jünger entre a elite:

"Enredando ao ponto de arriscar sua vida na tormenta do século, ele se manteve à parte de suas paixões. Nada pode se apropriar de seu nome, nem de seu olhar, exceto talvez aquela borboleta no Paquistão hoje chamada 'Trachydura Jüngeri', que é seu orgulho. Porque esse rebelde persegue insetos luminosos, esse soldado escreve romances. Um filósofo, ele possui um apetite pela vida, que o tempo não enfraqueceu. Poucas obras de vida são mais diversas, poucas mentes mais incansáveis. Como herdeiro de Goethe, Hölderlin e Nietzsche, mas também de Stendhal, o pensamento de Jünger une as riquezas do Iluminismo com as do Romantismo, o rigor de uma com a generosidade da outra.

[...] Similarmente com sua idéia de progresso, que repudia as profecias de Hegel e Marx e o pessimismo de Spengler. Ninguém compreendeu melhor que ele o advento do mundo da tecnologia, seus benefícios e catástrofes. Se ele considera inevitáveis os triunfos da ciência e dos números, ele luta contra os excessos de sua conquista"[23].

Naturalmente, Jünger não recebeu apenas respostas positivas. Jean Paul Sartre, que confessou seu ódio por Jünger nomeadamente como "um aristocrata", é uma instância bem conhecida de uma atitude negativa em relação ao escritor alemão. Segundo o discurso conduzido perante os convidados de uma celebração em Saulgau, seus admiradores e odiadores simplesmente "pertenciam" a seu "karma"[24]. Nem mais, nem menos, é por isso que Jünger não estava interessado em um diálogo com adversários. Como ele escreveu à época da morte de Brecht, 'Eu acho que nenhuma discussão se dará entre ele e eu, como muitos tem sugerido - bem, talvez logo em Valhalla!".[25]

Em geral, ainda que o dandismo aristocrático de Jünger, que beirava a excentricidade privada detestada em seus livros antiburgueses, e sua devoção final a sua nova pátria espiritual a França logo tê-lo tornado parte da cultura popular (livros com uma assinatura EJ estilizada eram vendidos como perfumes franceses; Jünger aceitou a proposta de Salvador Dali de reescrever caligraficamente um fragmento de sua obra Fassungen (Versões) (1972) em um papiro de um exemplar único do livro[26]; até o Papa João Paulo II uma vez citou Jünger [27]), ele não se tornou um ícone na Alemanha democrática. É suficiente ler as seguintes respostas ao entrevistador para compreender que sua rejeição do nacionalismo liberal, sem falar na democracia, em favor do estilo fascista permanecia imutável:

"Pergunta: Vivemos em uma pseudodemocracia?

Jünger: As coisas que nos são permitidas hoje são, em comparação com o período barroco, muito reduzidas.

Pergunta: O que por exemplo?

Jünger: Por exemplo, não se pode dizer 'Eu sou um fascista'. Diga isso e você será considerado a escória da escória. Hoje não se pode simplesmente dirigir do lado esquerdo da estrada. Isso é uma afronta profunda ao indivíduo. Até nossos avós eram mais livres do que nós"[28].

Em outras palavras, não importa quão poéticas possam ser à primeira vista figuras "escapistas" como o Waldgänger e o Anarca, no período do pós-guerra Jünger ainda antecipava o retorno do Príncipe que seria capaz de unir os povos da Europa no lugar de Adolf Hitler. Não é de surpreender que ele jamais tenha se associado com a nova Alemanha democrática que afirmava ser uma sucessora melhor do Reich alemão "caído":

"Minha esposa e eu somos cidadãos leais da República Federal, mas não particularmente entusiásticos - nossa realidade é o Império Alemão"[29].

Notas

1. Elliott Y. Neamann, A Dubious Past: Ernst Jünger and the Politics of Literature after Nazism (Berkeley: University of California Press, 1999).

2. Peter Koslowski, Der Mythos der Moderne. Die dichterische Philosophie Ernst Jüngers (München: W. Fink Verl., 1991).

3. Alain de Benoist, Jünger, Heidegger and Nihilism < http://www.counter-currents.com/2010/07/junger-heidegger-nihilism/ >

4. Bernd Hüppauf, Whereof Ernst Jünger cannot Speak, Thereof He Can Also Not Be Silent. An Early Example of “‘Forgetting’ the Holocaust.” Power, Conscience, and Opposition ( Bern, New York, etc: Peter Lang, 1996).

5. Elliott Y. Neamann, A Dubious Past: Ernst Jünger and the Politics of Literature after Nazism (Berkeley: University of California Press, 1999), p. 114.

6. Quoted in Heimo Schwilk, Ernst Jünger: ein Jahrhundertleben: die Biografie (München; Zürich: Piper, 2007), p. 359.

7. An Exchange on Ernst Jünger (Hilary Barr, reply by Ian Buruma) < http://www.nybooks.com/articles/archives/1993/dec/16/an-exchange-on-ernst-junger/?pagination=false >

8. Quoted in Thomas R. Nevin, Ernst Jünger and Germany: Into the Abyss, 1914–1945 (Durham, NC: Duke University Press, 1996), p. 108.

9. Quoted in Ibid., p. 110.

10. An Exchange on Ernst Jünger (Hilary Barr, reply by Ian Buruma) < http://www.nybooks.com/articles/archives/1993/dec/16/an-exchange-on-ernst-junger/?pagination=false >

11. Quoted in German Writings Before and After 1945: E. Junger, W. Koeppen, I. Keun, A. Lernet-Holenia, G. von Rez (Continuum International Publishing Group, 2002), p. 33.

12. Bruce Chatwin, An Aesthete at War < http://cecilecottenceau1.free.fr/chatwin%20website/mine%20and%20mine%20only/junger.htm >

13. Ernst Jünger, Eumeswil; translated by Joachim Neugroschel (New York: Marsilio, 1993), p. 227.

14. Elliott Y. Neamann, A Dubious Past: Ernst Jünger and the Politics of Literature after Nazism (Berkeley: University of California Press, 1999), p. 48.

15. Quoted in Ibid., 50.

16. Thomas Hajduk, With A Little Help From My Friends: Ernst Jiinger and his network in the post-war period (Masters thesis, Durham University, 2008), < http://etheses.dur.ac.uk/2016/ >

17. Ibid.

18. Elliott Y. Neamann, A Dubious Past: Ernst Jünger and the Politics of Literature after Nazism (Berkeley: University of California Press, 1999), p. 51.

19. Ernst Jünger, Retreat into the Forest (Confluence, vol. 3, # 2, 1954), p. 131.

20. Ibid., p. 139.

21. Ernst Jünger, Eumeswil; trans. by Joachim Neugroschel (New York: Marsilio, 1993), p. 147.

22. Quoted in Elliott Y. Neamann, A Dubious Past: Ernst Jünger and the Politics of Literature after Nazism (Berkeley: University of California Press, 1999), p. 82.

23. Francois Mitterrand to Ernst Jünger on his 100th birthday—1995 < http://www.ernst-juenger.org/2012/05/francois-mitterand-to-ernst-junger-on.html >

24. Quoted in Elliott Y. Neamann, A Dubious Past: Ernst Jünger and the Politics of Literature after Nazism (Berkeley: University of California Press, 1999), p. 62.

25. Quoted in Ibid, p. 85.

26. Ibid, p. 52-53.

27. Thomas R. Nevin, Ernst Jünger and Germany: Into the Abyss, 1914–1945 (Durham, NC: Duke University Press, 1996), p. 1.

28. Quoted in Elliott Y. Neamann, A Dubious Past: Ernst Jünger and the Politics of Literature after Nazism (Berkeley: University of California Press, 1999), p. 62.

29. Quoted in Ibid, p. 61.