sábado, 1 de março de 2014

Julius Evola - As Duas Faces do Liberalismo

por Julius Evola


Resulta sumamente sintomático e humorístico o fato de que hoje em dia se repute o liberalismo como uma formação de direita quando em épocas anteriores os homens da direita viram a este como a um cuco, como a uma força subversiva e desagregadora da mesma maneria que na atualidade são considerados (também de parte dos mesmos liberais) o marxismo e o comunismo. Em efeito, a partir de 1848 o liberalismo, o nacionalismo revolucionário e a ideologia maçônica antitradicional aparecem na Europa como fenômenos estreitamente vinculados entre si e é sempre interessante revisar os antigos exemplares da publicação Civiltá Catolica para ver como esta se expressava em relação ao liberalismo daquela época.

Porém nós deixaremos de lado tal circunstância para fazer uma breve menção, necessária para nossos fins, com relação às origens do liberalismo. É sabido que tais origens devem ser buscadas na Inglaterra, e pode-se dizer que os antecedentes do liberalismo foram feudais e aristocráticos: há que fazer referência a uma nobreza local apegada a seus privilégios e suas liberdades, a qual, desde o Parlamento, tratou de se defender de qualquer abuso da Coroa. Logo disso, simultaneamente com o avanço da burguesia, o liberalismo se refletiu na ala Whig do Parlamento opondo-se aos conservadores, os Tories. Porém há que ressaltar que até então o partido desenvolvia a função de uma "oposição orgânica", mantendo-se firme a lealdade ao Estado, de modo tal que se pôde falar da His Majesty's most loyal opposition (a lealíssima oposição de Sua Majestade). A oposição exercia no sistema bipartidarista uma simples função de freio e de controle.

O fator ideológico de esquerda não penetrou no liberalismo senão em um período relativamente recente, e não sem relação com a primeira revolução espanhola, de modo tal que a designação originária dos liberais foi a espanhola, quer dizer liberales (e não liberals, como no inglês). E é aqui onde começa o declive. Deve-se ressaltar pois que o primeiro liberalismo inglês teve um caráter aristocrático: foi um liberalismo de gentleman, isso é um liberalismo de classe. Não se pensou em liberdades que qualquer um pudesse reivindicar indistintamente. Subsiste ainda hoje em dia na Inglaterra este aspecto sadio e no fundo apolítico do liberalismo: o liberalismo não como uma ideologia político-social, senão como a exigência de que, prescindindo da particular forma do regime político, o sujeito possa gozar de um máximo de liberdade, que a esfera de sua privacy, de sua vida pessoa privada, seja respeitada e seja evitada a intromissão de um poder estranho e coletivo. Desde o ponto de vista dos princípios este é um aspecto aceitável e positivo do liberalismo que deveria diferenciá-lo da democracia, posto que na democracia o momento social e coletivista predomina sobre o da liberdade individual.

Porém aqui nos encontramos também com uma mudança de direção, posto que um liberalismo generalizado e indiscriminado, ao assumir vestimentas ideológicas, se fundiu no continente europeu com o movimento iluminista e racionalista. Aqui alcançou o primeiro plano o mito do homem que, para ser livre e verdadeiramente si mesmo, deve desconhecer e rechaçar toda forma de autoridade, deve seguir tão somente a sua razão, não deve admitir outros vínculos mais além que os extrínsecos, os quais devem ser reduzidos ao mínimo, pois sem os quais nenhuma vida social seria possível. Em tais termos o liberalismo se converteu em sinônimo de revolução e de individualismo (um passo mais e se chega à idéia de anarquia). O elemento primário é visto no indivíduo, no sujeito. E aqui são introduzidas duas pesadas hipotecas sob a direção do que Croce denominou como a "religião da liberdade", porém que nós denominaríamos melhor como fetichismo da liberdade.

A primeira hipoteca é que o indivíduo já se encontra "evoluído e consciente", portanto capaz de reconhecer por si mesmo ou de criar qualquer valor. A segunda é que do conjunto dos sujeitos humanos deixados no estado de total liberdade (laissez faire, laissez aller) possa surgir de maneira milagrosa uma ordem sólida e estável: pelo que, teria que recorrer à concepção teológica de Leibniz da denominada "harmonia preestabelecida" (pela Providência), de modo tal que, para usar uma comparação, ainda que as engrenagens do relógio funcionem cada um por sua conta, o relógio em seu conjunto marcará sempre a hora exata. A nível econômico, do liberalismo deriva o "liberismo" ou "economia de mercado" que pode denominar-se como a aplicação do individualismo ao campo econômico-produtivo, afetado por uma idêntica utopia otimista em relação a uma ordem que nasce por si mesma e que é capaz de tutelar verdadeiramente a proclamada liberdade (bem sabemos aonde vai parar a liberdade do mais fraco em um regime de competição desenfreada e piratesca, tal como acontece em nossos dias não só entre indivíduos, senão entre nações ricas e pobres). O espetáculo que hoje nos mostra o mundo moderno é um cru testemunho do arbitrárias que sejam tais posições.

Chegados a este ponto podemos tirar algumas conclusões. O liberalismo ideológico nos termos recém explicados é evidentemente incompatível com o ideal de um verdadeiro Estado de Direita. Não se pode aceitar a premissa individualista, nem o rechaço fundamental por todo tipo de autoridade superior. A concepção individualista tem um caráter inorgânico; a suposta reivindicação da dignidade do sujeito se resolve, no fundo, em uma redução da mesma através de uma premissa igualitária e niveladora. Assim pois nos tempos mais recentes o liberalismo não teve nada que objetar ao regime do sufrágio universal da democracia absoluta, onde a paridade de qualquer voto, que reduz a pessoa a um simples número, é uma grave ofensa ao indivíduo em seu aspecto pessoal e diferenciado. Logo, em matéria de liberdade, se descuida a essencial distinção entre a liberdade em relação a algo e a liberdade para algo (quer dizer, para fazer algo). Tem muito pouco sentido se manifestar cioso em relação a primeira liberdade, da liberdade externa, quando não se sabem indicar ideais e fins políticos superiores em função dos quais o uso da mesma adquira um verdadeiro significado. A concepção básica de um verdadeiro Estado, de um Estado de Direita, é "orgânica" e não individualista.

Mas se o liberalismo, remetendo-se a sua tradição pré-ideológica e pré-iluminista, se limitasse a defender a maior liberdade possível da esfera individual privada, a combater toda intromissão abusiva ou desnecessária na mesma de poderes públicos e sociais, se o mesmo servisse de limite às tendências "totalitárias" em sentido negativo e opressivo, se defendesse o princípio de liberdades parciais (se bem o mesmo deveria defender também a idéia de corpos intermediários, dotados justamente de autonomias parciais, entre o vértice e a base do Estado, o que levaria diretamente ao corporativismo), se estivesse disposto a reconhecer um Estado omnia potens, mas não omnia facens (W. Heinrich), quer dizer que exerce uma autoridade superior sem se intrometer em tudo, a contribuição "liberal" seria sim mais positiva. Em especial se temos em conta a atual situação italiana, poderia ser também positiva a separação, propugnada pelo liberalismo ideológico, da esfera política em relação a eclesiástica, sempre que isso não significa a laicização materialista da primeira. Não obstante aqui se encontraria um obstáculo insuperável, posto que o liberalismo tem uma fobia por tudo o que pode assegurar à autoridade estatal um fundamento superior e espiritual e professa um fetichismo pelo denominado "Estado de Direito": quer dizer, um Estado de legalidade abstrata, como se a legalidade existisse fora da história, e como se o direito e a constituição caíssem do céu e com caráter de irrevogabilidade.

O espetáculo da situação à que conduziu a partidocracia neste regime de massas e de demagogia deveria nos fazer refletir em relação à antiga tese liberal (e democrática) de que o pluralismo desordenado dos partidos seja garantia verdadeira de liberdade. E em relação à liberdade reivindicada a qualquer preço e em qualquer plano, por exemplo no da cultura, seria necessário fazer hoje em dia uma série de precisões oportunas, se é que não se quer que tudo vá à deriva de forma acelerada. Hoje em dia se pode ver muito bem de que coisas o homem moderno, convertido finalmente em "adulto e consciente" (de acordo ao liberalismo e à democracia progressista) se tornou capaz nos últimos tempos com sua "liberdade", a que muitas vezes foi a de produzir sistematicamente bacilos ideológicos e culturais que estão levando à dissolução a toda uma civilização.

Porém em relação a isso o discurso seria demasiado longo e nos retiraria do marco de nossa análise. Supomos que com essas notas, ainda de uma maneira extremamente resumida, foi posto em evidência desde o ponto de vista da Direita tudo aquilo que de positivo e negativo possa nos apresentar o liberalismo.

Um comentário:

  1. Esse texto é mesmo da autoria de Evola ou de um dos escritores do blog?

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