sábado, 28 de junho de 2014

Entrevista com Jean Thiriart - 14 Perguntas

por Gene H. Hogberg



Pergunta 1: Desde seus primeiros escritos na década de 60, você estudou as obras dos grandes pensadores geopolíticos do passado, homens como Sir Halford Mackinder, o professor Nicholas Spykman e o General Karl Haushofer. Como suas teorias influenciaram seus próprios conceitos?

Resposta: As raízes da geolítica se estendem para muitos antes do tempo de Mackinder, Spykman e Haushofer. Para alguns, a geopolítica começou com Dietrich von Bulow, enquanto para outros ele foi apenas uma fase em seu desenvolvimento. Em 1799 ele publicou Der Geist Des Neueren Kriegssystems [O Espírito do Novo Sistema de Guerra], von Bulow havia plenamente percebido que por causa do sistema militar moderno (o aparecimento súbito do novo estilo de guerra introduzido pelos exércitos revolucionários massivos da Primeira República Francesa) a era dos pequenos Estados havia acabado. Em seu livro ele descreve, logicamente, o que a Europa iria, de fato, se tornar de 1771 em diante, notavelmente que tanto Itália como Alemanha se tornariam países unificados. (Em 1799 muitos haviam rido de tal conceito).

Entre os pensadores da escola geopolítica, devemos também mencionar Friedrich List. Em 1841 List (1789-1846) publicou seu livro.Systeme National d'Economie Politique [Sistema Nacional de Economia Política], que é conhecido no mundo todo. O que muitos não sabem é que em 1827, nos EUA, ele havia publicado outro livro, Elements de l'Economie Politique Americaine [Elementos da Economia Política Americana]. List viveu nos EUA e se tornou cidadão americano. A pedido de Andrew Jackson ele foi indicado como cônsul para a Alemanha, onde ele serviu de 1832 a 1845. List havia sofrido, profunda e pessoalmente por causa da divisão e miséria política da Alemanha que ele havia conhecido em sua juventude. Até sua morte ele permaneceu alemão em seu coração, tanto de modo apaixonado como realista. Ele era um defensor fidagal do Zollverein. Para List, e para mim, o poder vem antes da riqueza. Na verdade, a riqueza é inútil sem a unidade e o poder da nação. A habilidade de uma nação de fazer guerra é medida segundo sua habilidade de produzir riqueza. Ele queria uma Grande Alemanha, uma Alemanha absorvendo Dinamarca, Holanda e Bélgica. Como indivíduo, eu pus as teorias de List em prática. De 1940 a 1945 eu fui membro da organização "Os Amigos do Grande Reich Alemão". List queria ver a Inglaterra não mais capaz de impôr a lei no Mediterrâneo. Ele anunciou a eventual queda da Inglaterra e a chegada da supremacia americana - mais de um século antes. List foi também o pai espiritual do projeto da ferrovia Berlim-Bagdá.

O pensamento de List foi parcialmente realizado por volta de 1880, sob a liderança de Bismarck. Há algumas boas páginas sobre List em Criadores da Estratégia Moderna, de Edward Mead Earle, publicado pela Princeton University Press, em 1943. A geopolítica é uma ciência fácil para a pessoa que pertence a uma escola racional de pensamento. Tudo é revelado em mapas. Só se faz necessário ler mapas "físicos": montanhas, desertos, rios, climas, mares; mares, em particular! Para mim é incongruente, inconcebível que se possa escrever um livro de história sem ilustrá-lo profusamente com mapas. Ainda assim, isto é precisamente o que 95%, senão 98%, dos autores fazem, assim provando sua falta de seriedade e criteriosidade.

O acaso me fez nascer um belga, em um país pequeno. Eu sofri profundamente por causa disso desde a adolescência. Aos 18 anos, eu já procurava por um país maior. A Alemanha exercia uma grande fascinação romântica sobre mim à época. Os Thiriarts são um povo das áreas localizadas no triângulo formado por Maestricht (Holanda), Liege (Bélgica) e Aachen (Alemanha). O ramo mais conhecido é o de Mutzhagen (apêndice 1). Lembre que Charles Martel e Carlos Magno também nasceram nessa região. Carlos Magino disse ser "um alemão da nação franca". Assim, eu fui levado aos conceitos científicos da geopolítica por esse desvio pelos caminhos românticos de minha adolescência. Porém, melhor do que ninguém, de 1960 a 1968, eu escrevi artigos importantes para mostrar que foi o nacionalismo alemão que impediu o nascimento de uma Europa unida entre julho de 1940 e maio de 1941.

Hoje, eu sou um dos oponentes mais resolutos de qualquer tipo de "reunificação alemã" proposta fora dos lações estatais de uma nação européia. O título de meu livro alemão Das Vierte Reich: Europa [O Quarto Reich: Europa] simboliza precisamente meu pensamento: jamais haverá outro Reich alemão. O Quarto Reich será a totalidade da Europa dessa vez. Se eu tivesse tempo, eu escreveria uma crítica bem severa dos pensamentos de Haushofer. Haushofer foi um autor que queria misturar uma ciência e uma paixão, a paixão alemã. Isso é antinômico; contraditório. Uma ciência por definição é universal. Ela é feita por todos e para todos. E o mesmo é verdadeiro para a astronomia, balística, ótica, medicina, optometria, física e química. Essas disciplinas intelectuais todas pertencem à espécie humana; não há lugar nelas para qualquer nacionalismo.

A geopolítica científica deve ser capaz de ser compreendida - e acima de tudo ser usada - igualmente bem por leitores em Pequim, Moscou e Washington - e amanhã por leitores em Bruxelas. É um tipo de lógica que afeta profundamente os campos militar, econômico político e mesmo social. Haushofer não compreendeu a importância do mediterrâneo - de forma alguma. Ainda assim o mediterrâneo é a barriga da Europa. A Europa de Haushofer é apenas a Europa Central, Mitteleuropa. O capítulo dois do livro de Haushofer é chamado de O Bloco Continental da Europa Central - Eurásia - Japão. Haushofer revela um viés preconceituoso ao desprezar os povos do sul da Europa. Ele escreve:

"Se essa raça sulina, os italianos...avançarem para além de suas fronteiras e empurrarem para o norte, ela será subsequentemente forçada a recuar".

Haushofer algumas vezes escreveu coisas tão estúpidas quanto as que encontramos no pensamento arcaico de De Gaulle. Ele visualiza uma "Confederação" Européia na qual cada membro manterá sua própria linguagem (sic). Ele não quer um "estupro de almas". Como isso pode ser chamado de estudo científico - a alma (sic) de um povo? Ao mesmo tempo, ainda que os conceitos de Haushofer não possam ser usados pelos defensores de um Império Europeu (Império Euro-Soviético), ele é valioso enquanto fonte. Ele localizou o erro de Guilherme II, repetido por Hitler: um vacilo, uma hesitação, entre uma política marítima e uma continental. Em seu livro, Haushofer descreve o nascimento da escola soviética de geopolítica. Foi à época em que a revista Novy Vostok [O Novo Oriente] foi publicada pela Universidade Sun-Yat-Sen em Moscou, sob a liderança de Karl Radek. O que eu mais retenho de Haushofer é a máxima dos líderes militares durante o nascimento da República Romana: "Fas est ab hoste doceri", que significa, "É um dever sagrado se deixar ser ensinado pelo inimigo".

Outro autor, pouco conhecido mas digno de ser lembrado na geopolítica, é Anton Zischka, nascido em Viena em 1904. Em 1952 ele publicou seu livro, Afrika, Europas Gemischftaufgabe Tummer [África, Complemento da Europa]. Em 1952, a África ainda era completamente controlada por belgas, franceses e portuguesas. Em 1952, a Europa Oriental já nos estava perdida. Em seu livro, Zischka sugere um tipo de Império Norte-Sul, de Estocolmo a Johannesburgo. Dez anos depois, a idéia não seria mais válida. Outro geopolítico, provavelmente desconhecido para o público americano, o General Jordis von Lohausen, um de meus amigos. Ele elogiou bastante meus conceitos europeus em seus escritos. Em 1981, o General von Lohausen publicou seu brilhante volume Mut zur Macht - Denken in Kontinenten [A Coragem de Poder - Pensando em Escala Continental], pelo editor Kurt Vowinckel. Vowinckel também calhou de ser um amigo próximo, além de editor de Haushofer. O livro do General von Lohausen foi traduzido ao francês pela Madame Elfriede Popelier, que trabalhou em meu bureau político por muitos anos.

Eu gosto bastante de máximas latinas. O general cita uma muito interessante: "Ducunt fata volentem, nolentem trahunt", que significa: "O destino carrega o homem voluntarioso; o que não o é ele arrasta". Oswald Spengler já a tinha usado. Von Lohausen é um discípulo de Haushofer, cujo estudante ele era. Ele permanece muito alemão - como Haushofer mas eu tive a honra de influenciá-lo um pouco, intelectualmente isto é, com minha obra de 1964.Em parte, o general foi influenciado por mim. Eu pessoalmente fui influenciado por Ortega y Gasset, o brilhante liberal espanhol (durante a guerra de 1940 a 45, ele escreveria na revista dos estudantes universitários da SS - a revista Jeune Europe, publicada em Berlim em mais de 10 idiomas). Aqui o que von Lohausen escreve, influenciado por meus próprios pensamentos (que por sua vez foram influenciados por Ortega y Gasset): "Uma nação não é necessariamente uma unidade de idioma, origem ou cidadania. Ela pode, é claro, ser isso tudo, mas primeiro e principalmente, ela é uma unidade de vontade". É essencialmente a "nação enquanto entidade política", tal qual era a grande República Romana para começar. Depois este foi o pensamento de Sieyes, e então o meu.

O General von Lohausen fala da "unidade do continente de Madri a Vladivostok. Cinquenta anos depois, o nacional-comunista Niekisch esreveu sobre "o grande espaço Vlissingen-Vladivostok". Niekisch terminou seus dias como deputado na Alemanha Oriental. Por muitos anos ele foi prisioneiro em um dos campos de concentração de Hitler. De qualquer maneira, vários de seus velhos amigos que haviam ingressado nas SA ou nas SS conseguiram salvar sua vida.

Em primeiro lugar, o leitor americano deve ser conscientizado sobre a unidade de pensamento de quatro geopolíticos: Haushofer, Niekisch, von Lohausen e eu, Thiriart: A União Soviética é parte intrínseca de nosso conceito territorial. É uma Europa "Eurasiana", uma Muito Grande Europa, a Nova Roma. Europa Eurasiana, em oposição a Pequena Europa que, nos termos de von Lohausen, é chamada Europa "Franca". Eu acrescentei a minha carta "Karte 5", que mostra o Reich Franco-Ocidental e o Reich Franco-Oriental por volta de 850, após a morte de Carlos Magno. É minha crença que desde uma perspectiva estritamente científica todos os professores americanos de geopolítica estão obrigados a aceitar esse conceito "Vladivostok a Dublin" (ou melhor "a Reykjavik"). Por volta de 1961 eu já havia o excluído o conceito de uma Europa contra a União Soviética. Agora uma Europa sem a União Soviética é excluída de meu pensamento. A geografia o dita. Do livro de von Lohausen, eu cito a seguinte passagem extremamente importante: "Para a Rússia, há quatro Europas possíveis: uma Europa hostil, uma Europa subjugada, uma Europa devastada e uma Europa aliada (associada) por mútuo consentimento. Uma Europa independente, aliada por concordância mútua com seu vizinho, é a única Europa que conta. Para os russos, apenas tal Europa dispensa a necessidade de uma presença militar seja de natureza supervisória ou para mantê-la unida. Apenas tal Europa é vitoriosa. O Kremlin está muito equivocado por nunca ter sentido a necessidade de trabalhar para a criação desse tipo de Europa".

Eu tentei convencer o historiador soviético Vsevolod Kniajinski sobre isso quando ele veio me ver em Bruxelas em abril de 1986. Kniajinski publicou em vários idiomas (incluindo francês, que ele fala fluentemente), L'Integration Ouest-Europeenne: Politique et Relations Internationales [Integração Européia Ocidental: Política e Relações Internacionais]. Eu falhei na tentativa de convencê-lo apesar de meus esforços. Após um dia de discussão histórica e uma tarde no lounge do Villa-Lorraine - um de meus restaurantes favoritos - nada resultou disso. Ele dedicou seu livro a mim. Eu dediquei o meu a ele. Felizmente eu tenho outras conexões lá. Não obstante, na página 322 da edição francesa, o professor soviético aponta que a Inglaterra está sendo usada como Cavalo de Tróia pelos americanos na Europa contemporânea. A atitude de Kniajinski em relação a Europa é reminiscente da tomada por Richelieu ou Mazarin em relação a Alemanha. Ela demonstra um forte desejo de reduzir a Europa a uma "Klenstaaterei" assim como a Alemanha foi (incrivelmente) reduzida a 343 Estados pelo Tratado de Vestfália em 1648. O livro do professor soviético é pesado e trabalhoso de ler. É escrito em jargão político. Seu índice bibliográfico é muito bem documentado.

Para que fique gravado, deve-se saber que a imensa biblioteca pessoal de Haushofer foi roubada em 1945 por dois oficiais do Exército americano. Os tenentes Morgenstern e Kaufmann. Eu digo roubada sabidamente, não confiscada. As fontes mais completas sobre Haushofer, ainda que tedioso ler, são encontradas na obra de dois volumes de Hans-Adolf Jacobsen Karl Haushofer: Leben und Werk. São 1.600 páginas. Exaustivo!

Segundo o que vejo, os geopolíticos tentam imaginar e delinear Estados que seriam viáveis desde uma perspectiva econômica e militar. Ela deve planejar o tamanho mínimo de tais Estados. Ela também deve determinar onde situar as fronteiras máximas, aquelas além das quais a produtividade começa a ser arriscada. A geopolítica também deve levar à redistribuição de zonas de influência. A geopolítica deve ajudar a criar unidades maiores. Na economia há limites críticos abaixo dos quais a sobrevivência econômica, e consequentemente a sobrevivência histórica, não são mais possíveis. Atenas, Tebas e Esparta desapareceram da história porque não foram capazes de ver que a Cidade-Estado seria dominada pelo Estado-territorial, primeiro o de Felipe da Macedônia, então o do Estado Romano.

A guerra de 1939 a 1945 matou de 40 a 45 milhões de homens. A próxima guerra mataria 400 milhões. A raça branca seria eliminada da história. São os autores, pensadores, polemistas e militares americanos que são os mais perigosos nesse momento. A guerra afetou muito pouco aos EUA. Aqui na Europa, alemães e russos sabem do que se trata a guerra. Os europeus são maduros, os americanos imaturos, nessa área. Assim a geopolítica moderna deve ajudar a desarmar algumas minas perigosas: a Frota americana no Mediterrâneo, a influência soviética em Cuba, a presença soviética na Indochina, as reivindicações chinesas no norte e daí em diante.

Os gregos antigos não entenderam a progresso necessária de Cidade-Estado para Estado-Território. A vasta maioria dos europeus não percebe a progressão necessária de Estados territoriais para Estados continentais. O mesmo se sustenta para a América Latina.

Pergunta 2: Pensando em termos de geopolítica, que erros estratégicos primários Adolf Hitler cometeu na Segunda Guerra Mundial?

Resposta: Primeiro, devemos dispensar a abordagem simplista, preto-e-branca que vê o comunismo e o nacional-socialismo como pólos opostos um ao outro. Eles eram muito mais competidores que inimigos. É por isso que o totalmente inesperado tratado germano-soviético no verão de 1939, pela primeira vez, coloca as peças nos lugares certos no tabuleiro de xadrez.

O fascismo autêntico definitivamente não é de direita. (Cf. as análises de Zeev Sternhell, o historiador israelense). As raízes "esquerdistas" do nacional-socialismo são numerosas. Após deixar a prisão, eu consegui conhecer e entrevistar o último dos irmãos Strasser ainda vivo, Otto. Por volta de 1962, minha imprensa publicou duas entrevistas com Otto Strasser. As SA (camisas-marrons) eram às vezes chamados "bifes mal-passados". Na verdade, a maioria da SA eram comunistas que passaram para o lado de Hitler. Marrons por fora, mas vermelhos por dentro. Na Alemanha Oriental, por volta de 1950, muitos desses se tornaram vermelhos por fora de novo.

Já em 1943, se tornou óbvio que o Terceiro Reich não podia vencer uma guerra em duas frentes. Era necessário tentar negociar uma paz separada com um lado. Goebbels não hesitou: "as negociações devem ser feitas com Stálin". Em 1986, um estudo histórico sobre a ocupação alemã da Bélgica foi lançado: La Belgique sous la botte [Bélgica sob a bota], de Jacques Willequet. Na página 75, o historiador belga publica resumos de análises feitas pela Igreja Católica (Canon Van de Elst - secretário do Cardeal-Primaz Van Roeyy) no que concerne a maneira na qual as pessoas pensavam a Alemanha naquele momento: "A SS é pró-soviética: círculos intelectuais e classe média tendem para o Ocidente". Essa conclusão vem de uma análise sobre as possibilidades de uma paz separada no início de 1944. Permitam-me citar Michel Heller e Aleksandr Nekrich, autores soviéticos que passaram ao Ocidente. Abrindo seu livro L'Utopie au pouvoir [A Utopia no Poder], nós lemos: "Hitler, de sua parte, disse a seus camaradas sobre sua convicção de que um comunista poderia ser sempre um bom nazista, enquanto um social-democrata jamais poderia sê-lo".

Os dois historiadores ex-soviéticos me deram muitos detalhes sobre "dividir o mundo". Em 14 de novembro de 1940, Molotov deixou Berlim com as propostas alemães. Ele retornou a Berlim após 12 dias trabalhando com a liderança soviética. Infelizmente, o acordo não foi para a frente por causa de extremistas em ambos os lados. Foi Ribbentrop quem, em 13 de outubro, havia tomado a iniciativa de enviar uma longa carta a Stálin. Nessa carta, Ribbentrop propõe que Stálin se una a Pacto Tripartite. O Pacto de Três teria se tornado um Pacto de Quatro.

O eixo visualizado por Haushofer era Tóquio/Moscou/Berlim/[Roma]. O prêmio: o Império Britânico. Havia escolhas ótimas, espólios abundantes a serem partilhados. A sinceridade de Ribbentrop não pode ser duvidada. Aqui, eu farei uso de uma fonte soviética recente. O autor é Valentin Beriejkov, adido à embaixada soviética em Berlim, e intérprete pessoal de Stálin. O título francês, J'etais interprete de Staline [Eu fui intérprete de Stálin]. Beriejkov estava na Chancelaria de Berlim em junho de 1941 quando o Reich declarou guerra à URSS. Ribbentrop anunciou a decisão de Hitler a eles. Beriejkov escreve o seguinte: "Nós nos viramos e caminhamos em direção à porta. Naquele momento algo inesperado aconteceu. Apressando o passo, Ribbentrop se aproximou de nós. Falando rapidamente com uma voz trêmula, ele nos garantiu que ele era particularmente contrário à decisão do Führer. Ele a considerava pura loucura. Mas ele não foi capaz de fazer nada em relação a isso. Hitler havia tomado a decisão e havia se recusado a ouvir a qualquer um... Que Moscou saiba que eu fui contra o ataque, ouvimos o ministro dizer, ainda que nós já estivéssemos no corredor".

Beriejkov corrobora o clima descrito pelos fugitivos soviéticos Heller e Hekrich. O intérprete de Stálin estava pessoalmente presente quando Hitler fez a afirmação sobre partilhar o mundo. O seguinte extrato é da página 25: "Nessa conjuntura, Hitler uma vez mais desenvolveu seu fantástico plano para dividir o mundo. Nos meses vindouros, ele nos garantiu, a Inglaterra seria derrotada e ocupada por exércitos alemães. Os EUA não estariam em posição de constituir uma ameaça para a 'Nova Europa' por muitos anos ainda. É por isso que o tempo era o certo para planejar a criação de uma 'Nova Ordem', reinando sobre todo o mundo. No que concernia os governos alemão e italiano, continuou o Führer, eles já haviam determinado suas respectivas esferas de interesse. Essas seriam Europa e África. Os interesses do Japão estavam na Ásia Oriental. Com isso em mente, ele continuou, a União Soviética poderia avançar sobre suas fronteiras sulinas na direção do Oceano Índico. Isso lhe daria acesso a portos de água quente.

Como muitos antes dele, Jacques Doriot, um dos líderes comunistas internacionais e membro sênior da Comintern, também passou do comunismo ao nacional-socialismo. Doriot tinha enorme prestígio na França em 1926. Ele foi um dos confidentes de Stálin, e todos sabiam disso. Em 1925 Ho Chi-Minh se apoiou nele. Doriot terminou sua carreira na Divisão SS-Charlemagne, composta de voluntários franceses. Na Bélgica, Henri De Man, presidente do partido socialista belga, esteve intensamente envolvido na colaboração intelectual com o Terceiro Reich. Em 1938 ele era, no que concernia a Europa - o maior teórico da doutrina do socialismo moderno. Ele publicou um grande número de livros. De Man, como Doriot, e seguindo os passos de tantos outros, se tornou fascinado com o nacional-socialismo.

Por contraste, os interesses de outros começaram com o nacional-socialismo e terminaram no comunismo. E suas memórias, Walter Schellenberg menciona Henrich Muller, o famoso oficial de campo da SS que liderava a Gestapo - após ter sido assistente de Heydrich. Em 1945 Muller passou ao lado soviético. Já desde 1943, pelo menos entre seus associados próximos, ele já estava se referindo ao Ocidente como "lata de lixo".

Eu fiz essas digressões para explicar a razão para a osmose contínua entre comunismo e nacional-socialismo. Agora que eu rascunhei brevemente o clima psicológico ou ideológico de osmose entre os dois sistemas, olhemos para as razões geopolíticas para o plano de Ribbentrop. A Alemanha e a URSS saíra da guerra reduzidas em estatura e força, a primeira em 1918, a segunda já em 1917. Nós não devemos nos esquecer das incursões militares inglesas e francesas no território russo desde o nascimento da URSS. Alemanha e URSS foram derrotadas na guerra de 1914-1918. Elas eram nações pobres comparadas as nações "possuidoras", Inglaterra e França. Estrategicamente falando, a URSS e a Alemanha não são separadas uma da outra pela água, mas por uma planície - uma infinita planície sempre vulnerável a aventuras militares. Para os dois países serem capazes de se defender, números consideráveis de tropas teriam que ser mobilizadas em ambos os lados. Isso, por sua vez, causa um enorme dreno na economia.

O que eu quero deixar claro é ainda mais válido em 1987 do que era em outubro de 1940. Atualmente, a URSS está se exaurindo economicamente para manter um imenso exército terrestre, um esforço que a Inglaterra não teve que fazer antes de 1940 e que os EUA não fazem mesmo em 1987. Ribbentrop avaliou com agudeza o lado negativo desse confronto potencial em 1939-1940. A guerra de 1941-45 provou que ele estava certo: os dois maiores exércitos terrestres no mundo exauriram um ao outro. Ribbentrop tinha uma visão que era tanto estratégica quanto geopolítica. Sua escolha de amigo e de inimigo estava correta. Quanto a Hitler, por causa de sua abordagem racista aos problemas, ele subestimou, subestimou terrivelmente, os eslavos. O resto é história.

A posição de Ribbentrop era influenciada pela tradição prussiana de evitar um inimigo ao leste. Os reis prussianos sempre evitaram quaisquer impulsos militares para o leste. Bismarck era ainda mais cuidadoso. A situação permanece a mesma hoje; mas as apostas são mais altas. A totalidade da Europa Ocidental não tem nada, absolutamente nada a ganhar ao embarcar em cruzadas para o leste. Em qualquer caso, ela não tem a coragem para isso. A União Soviética tem tudo a ganhar ao a triar a Europa. Mais do que isso, ela tem tudo a ganhar ao alcançar a integração total de Vladivostok a Dublin.

A União Soviética não pode ter qualquer grande projeto político na medida em que seu flanco ocidental permanece exposto no lado europeu; aquela terrível planície, a "barriga nua" entre Lubeck e Sofia, convidando a agressão militar. A URSS tem estado na defensiva desde 1945 por causa de sua posição geográfica. Enquanto potência continental, a URSS não pode se permitir perder uma guerra. Adicionalmente, para um Estado totalitário, perder uma guerra significa o próprio fim do regime. Uma potência marítima, mercantil, como a Inglaterra no passado e os EUA hoje, pode perder uma guerra sem necessariamente desaparecer de cena. A natureza insular da Inglaterra no passado, como a dos EUA hoje, fornece vantagens estratégicas óbvias. A URSS (isto é, o coração-continental), está em permanente estado de "sítio" ou "bloqueio". Os EUA, com sua rede de satélites se estendendo da Noruega à Turquia passando por Dinamarca, Holanda, Bélgica, Alemanha, França, Itália, Espanha e Grécia controla a Rimland (a faixa costeira). A Rimland pode facilmente ser transformada em um tipo de jiboia econômico-militar.

O fato deve ser entendido de que a URSS está sob bloqueio e que os EUA estão impondo bloqueio, mesmo em tempos de guerra fria e paz. Nesse jogo de "bloqueio", as regras a serem lembradas são de que a potência bloqueadora só precisa preencher as fendas; enquanto que, para se libertar, o país sob cerco deve efetivamente derrotar o inimigo. Um deve vencer; enquanto o outro pode se satisfazer com não perder.

Pergunta 3: Você defende uma reaproximação, um novo Pacto de Rapallo europeu, abraçando uma Europa unida e a URSS. Que vantagens haveria para ambos os lados em tal arranjo? Daria Moscou, por exemplo, maior liberdade às nações da Europa Oriental em retorno por ajuda econômica da Europa Ocidental?

Resposta: Meu pensamento evoluiu desde 1964 quando eu visualizava uma Europa derivando seu impulso do Ocidente e se espalhando para o oriente, ao mesmo tempo mantendo boas e próximas relações com a URSS. Agora, em 1987, eu mudei minha perspectiva em favor de uma dinâmica leste-oeste.

Hoje, eu vejo algo muito maior que um pacto Rapallo ampliado. Um livro a ser publicado sob o título L'Empire Euro-Sovietique de Vladivostok a Dublin [O Império Euro-Soviético de Vladivostok a Dublin] responderá a todas as suas perguntas. O livro foi terminado há três anos. Eu ainda não o publiquei porque: 1) Meu tempo tem sido tomado por responsabilidades profissionais durante um período de rápida expansão de negócios; 2) Eu ainda não decidi que sistema de computação adotar, eu tenho agora uma grande rede de computadores IBM a minha disposição; assim eu deverei escrever minha bíblia da expansão européia com a ajuda da IBM e da "WordPerfect" - a ironia e paradoxo!

Militarmente, a URSS não pode seguir indefinidamente tolerando a "ponta-de-lança" americana em seu flanco ocidental - uma ponta-de-lança feita de serviçais americanos, os lacaios de Bonn, Londres, Paris, Roma e Bruxelas. A Europa Ocidental de hoje, sob controle da OTAN, é um tumor no flanco da URSS. Todos os esforços da estratégia naval do Almirante Gorshkov são virtualmente inúteis enquanto os EUA mantiverem essa "ponta-de-lança", esse pedaço da Rimland.

Militarmente, a URSS está constantemente na defensiva - uma defensiva cara. Em seu lado ocidental, a URSS ainda não está completa. A OTAN na Europa e a Sexta Frota no Mediterrâneo são um verdadeiro pesadelo para os soviéticos; é uma péssima posição de fraqueza. A URSS precisa da indústria européia para desenvolver a Sibéria. A Sibéria, o extremo-oriente russo, está passando por um interessante porém extremamente lento crescimento econômico, tendo em vistas a conexão com as possibilidades industriais da Europa Ocidental. O desenvolvimento da Sibéria seria cinco vezes mais rápido se pudesse ser alimentado pelo potencial industrial da Europa Ocidental, e a integração da Europa Ocidental com a URSS sinalizaria sua própria autonomia em termos energéticos. Há tanta riqueza mineral e energética entre Kiev e Vladivostok que a autarquia total e absoluta se tornaria uma questão de fato

Arthur Koestler, que eu admiro, e cuja produção literária eu conheço bem, escreveu descrevendo uma Europa totalitária se estendendo de Londres aos Urais (novamente, vemos o equívoco geográfico em relação a essas colinas insignificantes). Em seu romance político-histórico, Bernard, um de seus personagens, fala sobre essa questão. Peça para alguém traduzir para você as páginas 181, 182 e 183, sobre a "nova e gigante pátria eurasiana". E guarda essa tradução em sua mesa. É claro, minha Europa vai muito além dos Urais; eu tenho um conhecimento melhor de geopolítica, e mais conhecimento econômico e militar do que ele; minha Europa se estende a, ou se você preferir, começa em Vladivostok. Thiriart é um tipo de antitipo do Bernard de Koestler, ainda que em maior escala.

No romance de Koestler, Bernard é um nacional-socialista; enquanto eu não tenho sido um nacional-socialista de 1945; eu tenho os pés no chão. Eu nunca tive um tipo de mentalidade "nostálgico, de velho soldado". Desde 1945, eu tenho visto que ainda que o nacional-socialismo (com seu estúpido nacionalismo alemão e seu igualmente estúpido racismo anti-eslavo) tenha falhado em criar a Europa que eu visualizei em seu impulso para o leste; não obstante, uma União Soviética, com um pouco de imaginação criativa, poderia trazer essa Europa à existência por meio de uma iniciativa para o oeste. O Bernard de 1987 se tornou um nacional-bolchevique pan-europeu - servindo a um comunismo que se livrou dos grilhões de Marx. Aqui o que o Bernard koestleriano do inverno de 1942-43 disse sobre sua visão de uma Europa nacional-socialista. Bernard diz o seguinte:

"Cidadãos Unidos de uma Imensa e Nova Pátria Européia. Bem, em primeiro lugar esqueçam pelo menos metade de nossa propaganda oficial. Nós temos que bater tambores para fazer tudo funcionar: se disséssemos a verdade, eles não entenderiam. O que realmente acreditamos é que com o rápido desenvolvimento da ciência e da técnica, a humanidade entrou na fase de sua puberdade, uma fase de experimentos radicais, globais com total desconsideração do indivíduo, seus supostos direitos e privilégios, e outras baboseiras liberais. As leis da economia ortodoxa, costumes, moeda, fronteiras, parlamentos, igrejas, sacramentos e instituições, casamento, dez mandamentos - tudo baboseira. Nós partimos do zero. Eu te digo como... Feche os olhos. Imagina a Europa até os Urais como um espaço vazio no mapa. Há apenas campos de energia: poder hídrico, pedras magnéticas, veios de carvão sob a terra, poços de petróleo, florestas, vinhedos, terras férteis ou estéreis. Conecte essas fontes de energia com linhas azuis, vermelhas, amarelas e você tem a rede de distribuição. Azul: a rede de energia elétrica se estendendo dos fiordes noruegueses até o Dniepr; vermelho: o fluxo de tráfego controlado de matéria-prima; amarelo: a troca regulada de bens manufaturados. Desenho círculos de variáveis rádios ao redor dos pontos de intersecção e você tem os centros de aglomeração industrial; descubra o trabalho humano necessário para alimentar a rede em qualquer dado ponto e você tem a densidade populacional adequada para qualquer distrito, província e nação; divida esse número pela quantidade de cavalos de potência que ela introduz e você tem o padrão de vida designado para ela. Descarte aquelas fronteiras ridículas, as muralhas da China que cortam nossos campos de energia; varra ou transfira indústrias que foram desnecessariamente construídas nos lugares errados; liquide a população excedente nas áreas em que ela não é necessária; transfira a população de certos distritos, se necessário de nações inteiras, para os espaços em que elas são desejadas e para o tipo de produção que elas são racialmente mais adequadas; varra quaisquer linhas de força perturbadoras que possam se sobrepôr a sua rede, isto é, a influência das igrejas, do capital estrangeiro, de qualquer filosofia, religião ou sistema ético ou estético do passado..." "Incluindo aqueles totens e forças tribais que lhe agradaram tanto usar?"

Interrompeu Peter. "Sim, é claro", continuou Bernard imperturbavelmente, "incluindo as tradições nacionais e cultura dos povos temporariamente subjugados. Eles jamais abandonarão voluntariamente sua reivindicação anacrônica de soberania nacional, o único meio de unificar a Europa é pela conquista, assim como os Estados-nanicos alemães só puderam ser unificados pelos exércitos prussianos. Se você esperar ou pelos capitalistas em competição ou por seu proletariado internacional para fazer o trabalho, você pode esperar um bom tempo, e enquanto isso você pode ver seus proletários esquecendo tudo sobre sua solidariedade de classe de vinte em vinte anos e correndo às armas para matar uns aos outros. Você começou a resolver o problema pelo lado errado; vocês foram amadores, meu amigo. A rivalidade tribal só pode ser abolida pela maior tribo engolindo as menores. Isso se encaixa, aliás, com sua dialética hegeliana. Tese: o conquistador, antítese: o conquistado, síntese: conquistadores e conquistados unidos como cidadãos da nova gigante pátria eurasiana".

A fusão da URSS com a Europa Ocidental liberaria imensos números de forças armadas (atualmente defendendo a planície de Lubeck a Sofia) que poderiam ser usadas em outros lugares. Eu sublinho: outros lugares. Essa fusão, esse casamento entre indústria européia ocidental e recursos minerais e energéticos (petróleo e carvão) de uma URSS comparativamente pequena cria uma situação de autarquia inabalável. Essa fusão nos permitiria recuperar o controle e direção da África. Você menciona as nações da Europa Oriental em sua questão. Em minha opinião, é imperativo que essas nações jamais tenham a permissão de olhar para o século XXI com qualquer esperança de independência real. Isso seria uma negação da unificação européia. Historicamente falando, mesmo que a ocupação soviética de Varsóvia a Sofia seja uma coisa cruel em termos de vida quotidiana, é uma coisa boa e positiva para a formação da Europa.

A França que ocupou a Argélia por 130 anos unificou o país. Em 1830 a Argélia parecia um pasto de acasalamento de luta intertribal. Quando a França deixou a Argélia em 1962, ela entregou um país unificado a seus habitantes. Mais um paradoxo da história. Aqui na Europa Ocidental, desde um ponto de vista histórico, a OTAN é positiva ao servir para gerar uma consciência supranacional ou transnacional. Nem tudo é negativo na ocupação militar da Europa Ocidental. No nível técnico-militar, você está inconscientemente forçando os assombrosamente imbecis micro-nacionalistas ingleses, alemães e italianos a trabalharem juntos.

No longo prazo, a ocupação soviética de Varsóvia a Sofia também terá resultados positivos. E o mesmo se aplica à ocupação americana de Oslo a Atenas, de Londres a Ancara. A OTAN turva e diminui as atitudes psicologicamente danosas dos nacionalismos estreitos de antigamente - italiano, francês, grego e assim por diante. Os "caminhos de Deus" são insondáveis, como dizem os fiéis.

Para finalizar minha resposta à terceira pergunta, eu resumirei como segue: uma fusão da URSS e da Europa Ocidental permitiria:

(a) À Europa Ocidental recuperar tudo que ela perdeu entre 1955 e 1965 (os territórios previamente pertencentes aos franceses, belgas, portugueses, espanhóis...)

(b) À Sibéria se desenvolver cinco vezes mais rápido do que hoje

(c) Ao Exército Soviético ser aliviado de seu papel defensivo exaustivo entre o Báltico e o Mar Negro

(d) À Marinha Soviética finalmente ter um papel genuíno a desempenhar em escala oceânica - a Frota Euro-Soviética, eu devo dizer, tanto a URSS como a Europa Ocidental, para trazer a autarquia absoluta. Qualquer guerra que possa cortar o Atlântico Sul, o Oceano Índico ou o Pacífico Oriental será de pouca consequência. O bloco unido de Vladivostok a Dublin seria capaz de viver sem tráfego comercial pelo mar por décadas e décadas.

Minha visão de uma Europa feita com, ou melhor feita lado a lado, pacificamente, com a URSS mudou progressivamente desde meu livro de 1964, de modo que agora, desde 1982 na verdade, eu visualizo uma Europa feita pela URSS. Isso só chocará aqueles que classificam homens e nações como Boas ou Más, de modo maniqueísta. Arthur Koestler, que teve uma certa influência inegável ma formação de uma perspectiva política e histórica, parte do mesmo ponto de vista pragmático.

Em Londres, ao fim de 1944, ele escreveu: "Historicamente, faz pouca diferença se é Hitler ou outra pessoa que faz surgir os Estados Unidos da Europa..." Pouco antes disso, em 1944, ele já havia escrito: "Se Hitler falou, Stálin pode ter sucesso, e se Stálin falhar, alguém mais terá sucesso em um século ou dois".

O caminho filosófico de Koestler o levou do sionismo ao mandismo, e ao fim de sua vida do marxismo ao liberalismo inglês. O meu progrediu do comunismo ao nacional-socialismo, e do nacional-socialismo a um comunismo sem Marx, iluminado. Finalmente, para mim, como com Koestler, Hitler e Stálin aparece de certa forma como "meios para um fim", as ferramentas, os obstetras potenciais da história", poderíamos dizer da História, com "H" maiúsculo. Koestler (cujo exemplo eu sigo) usualmente enfatiza a diferença essencial entre histórica percebida com visão política e história vista historicamente. A unificação histórica da Europa é inevitável: no longo prazo ela é "estatisticamente" obrigatória - ditada pela geopolítica.

Os políticos do Mercado Comum em Bruxelas e os oradores do Parlamento de Estrasburgo caem dentro da perspectiva política. Em 1987, conforme eu procuro por um meio de acelerar as coisas, a única maneira parece ser pelo conflito armado. Meus escritos presentes e futuros devem servir ao mesmo propósito como um "acelerador de partículas" na física experimental. A perspectiva deve ser histórica ao invés de política. E o único caminho possível para dar origem a isso é pelo conflito armado com os EUA. Não com bombas atômicas; nesse caso uma .45 é tudo que se faz necessário. Em minha entrevista com os universitários de Paris em 1975, eu disse que 300 americanos "assassinados" na Europa ocupada esmagariam sua complacência e provocariam uma reação. E isso os faria finalmente nos dar os mártires de que precisamos. Eu fico exasperado pela corajosa, porém intelectualmente absurda, luta das Brigadas Vermelhas na Itália, da Ação Direta na França, das Células Comunistas de Luta na Bélgica, e do grupo Baader-Meinhof na Alemanha. Enquanto seus ataques são geralmente impressionantes do ponto de vista técnico, seu objetivo, infelizmente, não pode ser levado a sério: um tipo de comunismo pré-1848. Nenhum desses grupos pensou em se unificar sob uma divisa européia comum, e em ter um único inimigo comum: o "inimigo odioso", o americano. Eu encerrarei dizendo que o conflito armado mudaria a perspectiva da política para a histórica. Ela também a mudaria de trivial para trágica.

Antes de concluir minha resposta à sua terceira questão, eu penso que seria útil citar Arthur Koestler um pouco mais. Sobre a diferença entre o político e o histórico, sobre a inevitabilidade da unificação européia, e sobre a irrelevância dos meios utilizados (só o fim importa) para fazer essa unificação acontecer: seja por um Hitler, um Stálin ou um novo Stálin. Eis o que Arthur Koestler escreveu no final de 1944:

"Uma vasta massa de indivíduos sujeitos por longos períodos a certas pressões e influências - climáticas, econômicas, etc - reagirão, mais cedo ou mais tarde, de uma forma mais ou menos previsível. As palavras 'mais cedo ou mais tarde' e 'mais ou menos' devem ser enfatizadas já que elas indicam a margem em que fatores subjetivos, tais como acaso e personalidade, podem desempenhar um papel. Porém, se a história é vista em uma escala mais ampla, por séculos ao invés de décadas, a importância dos fatores subjetivos se torna negligenciável e probabilidades estatísticas se tornam certezas. Assim, podemos prever que a alta velocidade de sistemas de transportes levará inevitavelmente à unificação da Europa. Se Hitler falhou, Stálin pode ter sucesso; se Stálin não tiver, então alguém mais terá em um século ou dois. A história se assemelha a um rio, e o fator subjetivo é como uma rocha lançada no meio de seu curso. Um quilômetro mais a baixo a água novamente preencherá toda a amplitude do rio (que é determinada pela estrutura do terreno) como se a rocha nunca tivesse existido. Mas por uma curta faixa - uns 100 metros ou uns 100 anos - a forma da rocha faz uma considerável diferença. Agora, a política não conta por séculos, mas em anos, e é por isso que ela deixa uma margem de liberdade e responsabilidade pessoal para os líderes. Não é uma questão da responsabilidade abstrata dos líderes em relação a História, mas de sua responsabilidade moral perante seus contemporâneos. Historicamente, faz pouca diferença se é Hitler ou alguém mais que dá origem aos Estados Unidos da Europa. Em um século ou dois, o gume do nazismo estará cego, as teorias racistas e programas judaicos não serão nada além de uma memória distante, e os resultados duradouros teriam sido uma Europa unificada que, por volta do ano 2.500, teria possuído as mesmas características gerais da que teria sido criada pelo sucessor de Hitler. Mas politicamente falando, se contarmos em anos ao invés de séculos, a diferença é enorme em termos de todo o sofrimento humano envolvido pela alteração dolorosa do rio".

Eis outra passagem de Koestler:

"Cinquenta anos após o primeiro aparecimento da ferrovia na Europa, os trezentos e tantos principados alemães se tornaram um único Reich. Hoje, o mesmo processo de amalgamação é inevitável em escala européia; em uma era de transporte aéreo, o quebra-cabeças anacrônico de micro-Estados não pode continuar por muitas décadas. Foi a Prússia, o mais autocrático e o mais espartano dos Estados alemães, que unificou o país todo. A posição mantida pela Prússia na metade do século passado em relação aos outros Estados alemães é mantida hoje pelos soviéticos em sua relação com a Europa Central e Oriental".

Koestler aprecia plenamente que desde uma perspectiva histórica importa pouco se é a Alemanha ou a URSS que faz a Europa surgir: "Um século atrás, Nietzsche também viu a necessidade de criar a Europa. Então eu analisarei brevemente o pensamento de Nietzsche sobre esse tema, e para ser objetivo e ao mesmo tempo atual, eu estudarei Nietzsche como visto pelo professor soviético Stepan Odouev. Eu estou usando a versão francesa de sua obra, Par les sentiers de Zarathoustra. Nietzsche exerce um fascínio inegável, primeiro sobre os jovens românticos dos círculos ocidentais, mas também, seja notado, sobre certos pensadores marxistas. Em novembro de 1968, um simpósio especial foi realizado em Belgrado chamado 'Marx e Nietzsche'. Nesse simpósio, Danco Grlic, um comunista iugoslavo apoiou apaixonadamente as perspectivas de Nietzsche, uma abordagem que não tem apelo para o soviético Stepan Odouev".

Na página 18 da versão francesa Odouev escreve o seguinte:

"Ademais, as obras de Danco Grlic são extremamente características dessa perspectiva. Acontece que o criador do Zaratustra usou 'toda sua força titânica' para demolir totalmente os valores de uma cultura hipócrita - uma moralidade imoral, perspectivas estereotípicas (os deuses e ídolos de uma burguesia perfeitamente autoconfiante e contente consigo mesma), e Nietzsche dez isso em nome da emergência do novo homem, com o mais alto nível possível de consciência humana (143, p.338). O autor busca mostrar que tanto Marx quanto Nietzsche escolheram uma visão profética do homem que é similar sobre a qual basear seus sistemas filosóficos, e que as consequências históricas de seus ensinamentos, apesar das diferenças, 'são muito próximas em sua abordagem básica', e convidam a um paralelo entre o Super-Homem e o ideal comunista de um desenvolvimento harmônico progressivo da personalidade, etc. (cf. 142, p.13, 15, 131).

O autor soviético vê em Nietzsche uma nostalgia pelo Império Romano. Numerosos pensadores europeus expressaram sua nostalgia pelo Império Romano, incluindo eu mesmo e centenas de outros. Para nós, tudo ruiu após a morte do Imperador Juliano. O primeiro renascimento foi ilustrado por Frederico II de Hohenstaufen. Cinco séculos a frente de seu tempo sua Constituição de Melfi anunciou o Estado Romano unitário...reconstituído em miniatura pela Primeira República Francesa, e realizado perfeitamente por Bonaparte. Stepan Odouev, estudando Nietzsche detalhadamente, encontrou o que ele chama ser "algo como o Império Romano".

O seguinte é um extrato das páginas 109-110:

"Disso deve vir o nascimento de um Estado 'ideal' pondo um fim à discórdia resultante da busca ávida por democracia e forjando laços genuínos de ferro para as massas populares, algo como o Império Romano ou o absolutismo russo. Nietzsche considerava a Rússia como 'a única nação contemporânea com a esperança de qualquer poder duradouro, capaz de aguardar seu tempo e ainda se manter promissora para o futuro', a antítese da 'patética instabilidade' do governo parlamentar euro-ocidental. O poder da Rússia continuará a crescer a não ser que ela seja enfraquecida pela introdução da 'idiotice parlamentar'."

Odouev fala da "neurose nacional" afligindo a Europa e convidando o sarcasmo de Nietzsche. Essa neurose patriótica ainda vigora hoje, especialmente na França onde ela vai da esquerda para a direita atravessando todo o espectro parlamentar como o clarim de todos os "animais" políticos.

Nietzsche se exaspera com a divisão da Europa em pequenos Estados. Eu cito da página 115:

"Os alemães chafurdam no nacionalismo surrado. Ao invés de tirarem vantagem de uma situação favorável 'para tornar a Europa uma unidade política e econômica', para conquistar outras terras, há 'essa neurose nacional' afligindo a Europa e perpetuando sua divisão em pequenos Estados, políticas paroquiais". Eu penso que você ficará fascinado pelo paralelismo total entre o que Nietzsche publicou em Leipzig em 1883 e o que Koestler faz seu nacional-socialista Bernard dizer em 1942, e o que eu estou escrevendo sobre Totalitarismo iluminado.

Há um fio comum aqui levando da vontade de poder seguida pela vontade de superioridade (o homo novus). Stepan Odouev corretamente aponta que a idéia de unidade européia em Nietzsche caminha de mãos dadas com a descrição do novo homem - o mesmo homo novus que Marx, Lênin, Stálin e Gorbacehv queriam e ainda querem hoje. Antes de citar da página 117, deixe-me colocar a afirmação de Odouev na perspectiva correta me referindo brevemente à página 11 de seu prefácio. O escritor soviético afirma: "...na década de 30 quando Zaratustra retornou dos céus com uma suástica em seu braço". Zaratustra poderia voltar daqui a uns poucos anos, mas dessa vez para o Kremlin. Suástica ou Estrela Euro-Soviética; não faz diferença.

Agora aqui o que diz Stepan Odouev na página 117:

"O processo duplo de consolidar forças de classe (objetivamente condicionadas pelo desenvolvimento dos meios capitalistas de produção por um lado e também pela luta de classes na sociedade burguesa) aparece na teoria de Nietzsche como o fenômeno que trará uma raça de homens supranacionais (os europeus do futuro) e também uma organização estatal européia única: 'os Estados Unidos da Europa'. Quem são esses 'europeus do futuro?'. Em que consiste sua missão? Quando ele fala em 'europeus do futuro', Nietzsche uma vez mais distingue dois tipos humanos 'psicologicamente diferentes', livres da neurose do nacionalismo de todo sentimento patriótico, de qualquer filiação partidária ou outros 'preconceitos' da sociedade democrática. Sob as condições evolutivas atuais que estão levando a um nivelamento das nações européias, ele nota, ocorre, primeiro, um 'nivelamento e rebaixamento do homem em direção a mediocridade', a formação de um animal 'útil e zeloso' com instinto de rebanho, adaptado à escravidão, e em segundo lugar, a promoção, a ascendência, de uns poucos indivíduos poderosos com as qualidades excepcionais de mestres tirânicos".

Uma vez mais, para concluir, eis os extratos das páginas 121 e 119 do livro do escritor soviético:

"Nas obras de seu último período, Nietzsche fala bastante sobre a necessidade de uma unificação política da Europa. Mas ele jamais concebe essa unificação como um fenômeno descontrolado, se desenvolvendo com base em um consenso entre potências européias; e ele jamais foi tentado, nem tentou a outros com uma visão de utopias pacifistas. Ele infere a inevitabilidade da unificação a partir da vontade de poder, isto é da luta entre os reivindicadores presentes e futuros pela dominação dessa zona do planeta. Portanto, a unificação da Europa deve ser precedida por uma grande guerra... Forjando sua própria vontade por meio de uma nova casta reinando sobre a Europa, uma vontade formidável, de longo alcance, capaz de estabelecer objetivos por milênios. E assim a Europa de uma vez por todas terá terminado com a já excessivamente longa comédia de estar dividida em pequenos Estados; seus impulsos dinásticos e democráticos divergentes estarão acabados. O tempo para a pequena política acabou: o próximo século dará origem à luta pela dominação universal - a obrigação da política em larga escala (cf. 78, p. 127). Isso significa que se a Europa não se une com base no 'espírito germânico', é a Rússia quem o fará".

A profecia de Nietzsche está sendo realizada. A Alemanha falhou em criar a Europa por causa do nacionalismo estreito de Hitler. Agora é a Rússia que o fará! (Nietzsche) Ainda bem que seu compatriota (o fakir e cultista americano) Lyndon H. Larouche não lê Nietzsche. Ele lhe daria insônia.

Eu tenho sido pedante. Me desculpe. Mas eu considero importante trazer a sua atenção as coincidências extraordinárias a serem encontradas entre Nietzsche, Koestler e eu. Eu citei três; mas eu poderia encontrar 50 para você em minha biblioteca.

Muitas pessoas, com seu nariz no chão como pequenos cães de caça farejam em busca dos alarmantes neonazistas, dos vis khomeinistas, dos sanguinários gaddafistas. Ao se farejar tão baixo se pode deixar passar o que vem pairando por cima. Zaratustra no Kremlin na segunda-feira, em Dublin na terça-feira? Em Johanesburgo no sábado? Em Leipzig, Alemanha, em 1883, o livro de Nietzsche não despertou interesse. Stepan Odouev relata que um ano após sua publicação, Assim Falou Zaratustra. Um Livro para Todos e para Ninguém, havia vendido menos de 60 cópias.

Pergunta 4: A União Soviética não é mais apenas uma potência terrestre. "O Urso aprendeu a nadar", tendo desenvolvido uma marinha oceânica, graças ao Almirante Gorshkov. Qual é a significância do poder naval soviético caso a Europa e a União Soviética se tornem mais proximamente aliados no futuro?

Resposta: O interesse da Rússia em uma marinha começou com Pedro o Grande. Em sua juventude, ele brincava com um pequeno bote. Depois, como adulto e após se tornar Czar, ele passou tempo na Holanda aprendendo a arte da construção de navios. À época, a Holanda tinha a segunda maior marinha no mundo. No mundo de hoje, a frota soviética ainda está em desvantagem porque ela carece tristemente de uma rede de bases navais de boa qualidade. Lembre que a frota britânica era apoiada de uma ponta à outra do Mediterrâneo pelas bases navais de Gibraltar, Malta e Chipre, e a frota veneziana tinha bases na costa da Dalmácia - bem como em Creta e na Grécia. A frota soviética hoje se encontra em posição similar a de Guilherme II em 1914; com uma dolorosa ausência de uma rede global de bases de apoio terrestre. Em 19339, a frota de submarinos alemães estava totalmente despreparada para a guerra. Ela não se tornou eficiente até o início de 1942, quando já era tarde demais.

A URSS não está cometendo o mesmo erro. Ela está em um estado de prontidão constante com sua frota submarina. Os porta-aviões de hoje valem pouco mais do que os cruzadores de 1941-42 no Pacífico. O Almirante Rickover, criador do submarino nuclear, afirmou à época de sua aposentadoria em 1982: "Todos os porta-aviões americanos durariam por volta de dois dias se começasse uma guerra". Ainda assim, os submarinos soviéticos ainda precisariam ter fácil acesso ao alto-mar. Esse não é o caso no momento por causa da rede de bases da OTAN e estendendo de Narvik a Istambul. Em questões de estratégia naval, uma distinção clara deve ser feita entre guerra fria e guerra quente. Em tempos de guerra fria, a presença visível da Marinha Soviética desempenha um papel importante no mundo. É uma ferramente política.

Mas em uma guerra quente, a frota de superfície soviética não tem papel a desempenhar. Apenas a força submarina será eficiente, desde que seja capaz de deixar suas águas nórdicas bem como escapar das garras dos Mares Negro e Báltico. Em uma guerra quente, o poder naval do Ocidente (os EUA, com seus lacaios japoneses, ingleses e alemães) seria reduzido a algo de pouca consequência no que concerne sua marinha mercante. O Japão seria imediatamente cortado, e quase instantaneamente seu poder industrial deixaria de contribuir para o poderio militar dos EUA.

Como você pode ver, há duas estratégias opostas e contraditórias aplicáveis igualmente bem tanto para os soviéticos como para os americanos: o que é verdadeiro em tempos de guerra fria deixa de sê-lo em tempos de guerra quente, e vice-versa. História e ciência militar nos fornece um grande número de cenários que poderiam ser prontamente listados. Porém apenas um se desdobrará em um dado tempo e lugar. Em 1981 eu considerei a possibilidade da Sexta Frota ser pressionado pelas forças terrestres da Espanha e do Marrocos como resultado de uma insurreição. Essencial para esse cenário era a desestabilização do regime do Rei do Marrocos - uma hipótese plausível tendo em vistas a difusão da militância islâmica. Com forças terrestres mínimas, a base Rota (próxima a Cádiz) poderia ser tornada também indefensável e inabitável.

Mas o contra-ataque americano para tais ameaças é uma possibilidade viável mais ou menos em qualquer lugar no mundo. Os EUA possuem um arsenal de marionetes de todos os espectros políticos, desde a extrema-direita no Chile à esquerda socialista em Madri. Dois dos meus jovens discípulos, Luc Michel e Cuadrado, publicaram um excelente panfleto sobre os "Comunistas de Washington" (na Itália e na Espanha). Washington é bastante promíscua em sua escolha de marionetes.

Uma estratégia naval prática não é possível em tempos de guerra quente. A frota russa não chegará mais longe que a frota de Von Tirpitz. Toda o cenário muda se a Europa Ocidental passar ao campo soviético, seja como resultado de conquista ou por uma combinação de associação e fusão (que é o que eu espero ver acontecer). A estratégia naval da URSS só é possível pela ampliação da dimensão geográfica atual na direção de uma dimensão eurossoviética - tão longe quanto Dublin.

Isso transformaria o Mediterrâneo em um lago. Em tal evento haveria uma grande atividade entre Senegal e Brasil. Olhe no mapa e compare distâncias. Não esqueça que o Canal do Panamá perde qualquer valor em uma guerra quente por causa de mísseis de longo alcance de extrema precisão, ou mesmo com mísseis de alcance intermediário. O Panamá era a preocupação intensa do Estado Maior americano em 1938-40. Vocês lutarão na próxima guerra sem o Canal. A Zona do Canal será vitrificada desde o começo. A estratégia naval é fundamental para a solução final entre um bloco eurossoviético e os EUA. Nesse sentido, os EUA serão atrapalhados pela extensão extrema de suas linhas marítimas de comunicação. Especialmente no Pacífico.

Muitos não sabem do fato de que foi no mar que Roma finalmente destruiu Cartago. O historiador francês Leon Homo escreveu em 1941: "Roma (tradicionalmente uma nação focada na terra) destruiria Cartago apenas ao se tornar ela mesma uma grande potência marítima e ao adquirir o domínio dos mares". Na Batalha de Mylae, em 260 a.C., os famosos "Corvos de Duilius" [pontes de abordagem] aterrorizaram os cartagineses. Então, em 256 a.C., veio a Batalha de Ecnomus ao sudeste de Agrigento na Sicília. Roma havia reunido 130 navios e 40.000 legionários sob as ordens dos cônsules Atilius Regulus e Manlius Vulso.

Você diz que o Urso aprendeu a nadar, e é verdade. A Loba também aprendeu a nadar 22 séculos atrás. Mas antes de destruir Cartago, Roma teve que tomar a Córsega, Sardenha e a Sicília. Hoje, a Sicília é a totalidade da Europa Ocidental.

Eu concluirei minha resposta expressando minha opinião pessoal sobre a questão:

a) Sem a Europa Ocidental, a URSS se tornará uma potência de segunda por volta de 2025.

b) Tudo terá que ser finalmente decidido no mar. A terra não pode ser conquistada sem o oceano.

Pergunta 5: Como você prevê o desenvolvimento das relações entre URSS e China na próxima década?

Resposta: Eu já respondi parcialmente essa pergunta em uma entrevista que você tem. Foi em julho de 1984, e a pergunta era: "Quais são seus pensamentos sobre um conflito entre Rússia e China?" Leia minha resposta de novo. O conceito de Ásia como ensinado para crianças em idade escolar em aulas de geografia não tem muito valor no que concerne a geopolítica. As Montanhas Urais não existem. Os Urais não são uma linha costeira ou mesmo uma fronteira. A Sibéria é russa, o que quer dizer que ela é européia. A verdadeira fronteira entre China e Europa (a Rússia sendo uma província da Europa) foi estabelecida claramente e abertamente pelo mais poderoso imperador chinês, Shih Huang-Ti (século 3 a.C.). Em linhas gerais, esse muro [A Grande Muralha da China] define os limites do continente europeu (o continente eurasiano, de Ostend a Vladivostok - a planície eurasiana).

Enquanto capital, Pequim está fora do centro assim como Washington, e como Moscou estará amanhã. Uma possível capital para um futuro império eurossoviético é indubitavelmente Istambul. A capital geopolítica da China é Cantão ou Hong Kong. Pelo tempo presente, a China está doente por causa de sua estúpida economia marxista. Imagine com o que uma China normal pareceria desde um ponto de vista industrial. E aprecie sua demografia. Agora a nação chinesa tem 1 bilhão de indivíduos. Esse bilhão multiplicado pela deficiência econômica marxista não dá muita causa para alarme. Mas imagine uma China que seja economicamente normal. Todos ficam fascinados com o Japão. Isso é porque eles estão todos pensando em termos do que é ao invés do que poderia ser. "Uma China normal" e isso é o que ela se tornará - despertará para os pensamentos usuais gerados pela eterna libido dominandi [desejo por dominação]. A China está incompleta. Ela é incompleta sem Formosa, as Filipinas, Vietnã, Tailândia e Malásia.

Geopoliticamente, tudo separa claramente os EUA da China. Os ossos de contenção entre esses dois países são numerosos. Para um chinês inteligente, a presença americana nas Filipinas deve ser tão inaceitável quanto a presença americana no Mediterrâneo para mim, um europeu. Em ambos os casos é uma provocação. A regra de ouro da política soviético, e depois da eurossoviética, é: "Jamais tenha um conflito com a China".

Isso nos traz de volta para aquele curto, porém genial interlúdio do Pacto de Não-Agressão entre Ribbentrop e Molotov, entre Hitler e Stálin. Em outubro de 1940, Moscou e Berlim não fizeram o que se precisava fazer, isto é dividir o Império Britânico. Foi um erro estratégico, para dizer o mínimo. Agora há outro império a dividir. Dessa vez, cabe a Moscou e Pequim dividir o império americano no Pacífico. Os americanos em Tóquio e Manila são uma aberração geográfica e geopolítica - como a presença soviética no Vietnã.

Moscou deve trocar o Vietnã pelas duas Coréias: a URSS, para começar, e então o Império Eurossoviético, deve ter uma janela para o Pacífico Norte. Em tempo, o Japão se reunirá ao Império Eurossoviético e a totalidade da Indonésia terá que se reunir à China. Se Moscou e Pequim conseguirem chegar a um acordo, os tempos ficarão ruins para vocês americanos. A URSS não terá mais suas mãos amarradas na direção do Oceano Índico, do Oriente Médio, do Mediterrâneo e da Europa Ocidental.

Os "espólios geo-históricos" a serem vencidos são o Império Talassocrático e a Nova Cartago - isto é vocês, os Estados Unidos. Logo o tempo de arrogância terá acabado. Vocês não serão mais capazes de bombardear a Líbia ou massacrar o Líbano com impunidade. E lembre-se de Dresden!

Eu espero que haja Ribbentrops em Moscou e Pequim. Releia a história da China. Seu eixo de expansão sempre foi de nordeste para sudoeste por 3.000 anos. Entre os séculos XVIII e XV, durante a Dinastia Ming, a China começou a se voltar para o mar. Estude as expedições marítimas chinesas entre 1405 e 1433. O Kremlim deve consignar a sinofobia de Kruschev ao passado. Todas as indicações sugerem que ela tem tentando fazer um esforço nessa direção desde que Andropov e Gorbachev apareceram na cena.

Mais uma digressão, um tema que eu ampliarei depois, mas é importante pelo menos mencioná-lo nesse momento. O conceito escolar de Ásia deve abrir lugar para uma geografia racional. Digamos que há um continente eurasiano, de Dublin a Vladivostok, um continente chinês, de Pequim a Java (ou pelo menos tão longe quanto Cingapura) e um continente indiano, de Karachi a Rangoon.

Pergunta 6: A aliança da OTAN está agora com quase quarenta anos de idade. Sob que condições você vê as forças militares americanas abandonando a Europa Ocidental?

Resposta: Eu não direi como eu visualizo pessoalmente a partida das forças americanas da Europa. Minha opção, minha escola, é o resultado de um longo amadurecimento de minhas idéias: o curso da história deve ser acelerado e a fusão entre Europa Ocidental e União Soviética deve ser preparada. A seguinte resposta, ao invés de ser minha, será uma solução razoável, convencional. Eu delinearei para vocês uma solução não-radical. Imaginemos por um momento que eu me torno novamente um burguês liberal iluminado e amante da paz. Eu digo amante da paz, ao invés de pacifista.

Para nós europeus a decisão de apertar o botão que levaria a uma catástrofe nuclear definitivamente não pode ficar em mãos americanas. A política americana é costumeiramente aventureira. O recente bombardeio da Líbia não tinha justificativa histórica: Gaddafi não é ameaça real; ele não está fazendo nada na Europa. O aventureirismo americano se contrasta radicalmente com as deliberações frias das políticas do Kremlim. Por contraste, os tropeços da política externa americana são numerosos demais para mencionar. Lembremos o fracasso americano no Irã. Anteontem Carter foi feito de tolo em Teerã. Ontem, por assim dizer, Reagan sofreu o mesmo em Tripoli.

Se eu fosse um lacaio dos EUA, como a sra. Thatcher, ou msr. Chirac, eu teria pouca confiança em meus empregadores com sua abordagem impulsiva em Tripoli ou sua abordagem ingênua em Teerã. Uma digressão para ilustrar a ingenuidade de Carter. Minha fonte, que é americana, é tomada do livro Debacle. The American Failure in Iran de 1980, por Michael Ledeen e William Lewis, Knopf, Nova Iorque.

"Carter e sua equipe normalmente se esqueciam que palavras não tem o mesmo significado em todas as culturas e em contextos diferentes. Uma das palavras mais enganosas na crise iranana era 'religioso'. Uma vez que o 'Aiatolá' foi rotulado 'religioso', era difícil para o presidente Carter vê-lo como inimigo. Sua própria experiência religiosa o levou a acreditar que um Aiatolá tinha uma alma parecida a sua. A convicção de Young de que Khomeini era um santo certamente veio da mesma falta de discernimento crítico"

Tendo dito isso, consideremos minha solução não-radical e razoável. Segundo essa, uma Europa capitalista liberal, parlamentar, democrática (sic) e unida finalmente adotaria uma moeda única, e uma língua franca (provavelmente inglês). E finalmente, essa razoável Europa do Mercado Comum organizaria um Exército Europeu integrado. Nenhum Estado existe sem exército. Mesmo uma Europa "democrática" deve ter um exército. Seria um exército normal, integrado como o presente exército americano e não a atual farsa que vemos na Europa com 12 diferentes forças aéreas, 12 diferentes marinhas e 12 diferentes exércitos. Você pode imaginar exércitos completamente independentes um do outro em Minnesota e Wyoming; distintas marinhas para Carolina e Oregon; diferentes forças aéreas para Dakota e Wisconsin? É risível, não é? Ainda assim é precisamente essa a situação em que seus "aliados europeus" se encontram (eu coloco aliados entre aspas - já que eles são na verdade seus lacaios e marionetes).

Então imaginemos um "exército do mercado comum", um exército europeu verdadeiramente nacional com um único idioma e, necessariamente, sob comando militar único. Também teria um único comando estratégico sob controle civil. É isso que foi visualizado em 1954 com a CDE (Comunidade de Defesa Européia) e que foi destruída pelos gaullistas, pelos comunistas franceses, lacaios de Moscou, e também, é claro, pelo lobby político judaico, tão arrogante e grosseiro quanto de costume. O Exército do Mercado Comum teria enormes meios científicos, industriais, financeiros e demográficos a sua disposição. A Europa dos 12 já é muito mais do que os EUA são.

O velho projeto da CDE (aceito em 1953-54 por Bélgica, Alemanha, Holanda e Luxemburgo, mas rejeitada pela Inglaterra), torpedeada conclusivamente pelo Parlamento Francês (a Assembléia Nacional Francesa) em 13 de agosto de 1954, pode ser reconsiderado. A CDE de pequena escala de quatro ou cinco membros, como concebida em 1951-53, poderia dar lugar em 1988, a uma CDE maior de 12 membros dessa vez. É claro, isso é tudo hipótese. Mas examinemos o cenário. A "CDE dos 12" restabelece imediatamente ordem e calma no Mediterrâneo, que novamente se torna o "Mare Internum da Europa", como era para o Império Romano.

O abcesso do Oriente Médio seria cauterizado. Os palestinos recuperariam suas terras e dignidade. A segurança do pequeno Estado de Israel seria garantida pelo próprio poder da "CDE dos 12". O projeto paranóico de uma "Grande Israel" do Nilo ao Eufrates seria enterrado. Palestinos e israelenses aprenderiam a viver um ao lado do outro como povos civilizados.

E os soviéticos? Bem, a "CDE dos 12" aceitaria a linha de divisão conhecida como "Cortina de Ferro". A Europa adotaria uma política de neutralidade vigilante. Ela possuiria suas próprias nucleares, foguetes e satélites. Ela não seria dependente dos EUA para nada. Essa era dos 12 se proclamaria neutra e se distanciaria dos conflitos planetários entre Washington e Moscou. Nessa hipótese é tomado como garantido que uma Europa dos 1, possuindo seu próprio exército integrado, não teria ambições por uma nova cruzada para o leste. A Europa dos 12 sabe que qualquer guerra significa guerra em casa. A URSS também sabe que guerra significaria guerra em seu próprio território.

Essa consciência de "guerra em casa" permite aos líderes em Bruxelas e Moscou primeiramente manter o autocontrole necessário, e subsequentemente lhes permite proceder a um desarmamento progressivo, controlado, gradual. Para os europeus de Bruxelas (a democrática Europa dos 12) e para os europeus de Moscou, a guerra se tornaria impensável porque significaria suicídio para ambos os lados.

O que é trágico no presente, tanto para europeus ocidentais (Mercado Comum) como para os europeus de Moscou é que os EUA são capazes de dar início a uma guerra total na Europa para evitar tê-la em seu próprio território (porém, isso é uma ilusão). Vocês americanos escaparam da guerra "em casa" em 1917-18 e em 1941-45. É isso o que os torna tão imprudentes hoje. Os soviéticos ganhariam muito ao ter uma "Europa dos 12" como vizinhos ao invés de um exército americano na Alemanha e uma frota americana, a sexta, no Mediterrâneo.

Mesmo nessa versão "liberal-democrata" de uma Europa dos 12, eu não a imagino sem um exército integrado proporcional a seu potencial industrial. Eu jamais fui um pacifista, mas eu sei como ser um indivíduo amante da paz. E os EUA? Bem, em relação a essa Europa dos 12 (que estaria adequadamente armada com arsenais nucleares) os EUA ganhariam um poderoso Estado-tampão. Esse Estado-tampão, ainda que neutro, seria necessariamente mais amistoso que hostil em relação aos EUA.

Em minha resposta à primeira pergunta, eu mencionei a frase do General Von Lohausen: "Para a Rússia, há quatro Europas possíveis". O geoestrategista Von Lohausen vê claramente que uma Europa que é "independente e aliado de sua própria vontade" seria um lucro para a URSS. Eu posso inverter a frase e dizer que uma Europa independente e amistosa (eu não digo aliada - não é prudente se aliar com aventureiros irresponsáveis) seria um lucro para Washington. Certos políticos americanos compreenderam isso.

A pequena CDE de 1951-54 foi em certa medida pensada por Washington. Depois, a estratégia Nixon-Kissinger havia, em dado momento, pensado em retornar a esse conceito de desengajamento militar americano na Europa. A seguinte citação é de uma fonte americana, Stanley Hoffman em sua obra, Primazia ou Ordem Global:

"Uma maneira de reduzir gastos consistia em mudar os meios de manutenção da supremacia. Haveria menos intervenções militares abertas e mais atividades secretas, aconselhamentos menos abertos a nossos amigos e aliados no que considerássemos o comportamento preferido (como nos dias em que uma integração supranacional européia era o objetivo da América), e o estabelecimento de um certo esquema, isto é, um meio de situar outros em situações em que eles agiriam segundo nossos desejos; menos tropas e bases, mas mais transferência de armas e investimentos; menos ajuda sob a forma de alimento e assistência militar, mas mais vendas de comestíveis e armas, o que ajudaria a balança de pagamentos americana e transformaria compradores em devedores de bancos americanos".

Hoje a Europa dos 12 não é independente. Ela é uma Europa dependente dos EUA, uma Europa "apequenada"; uma Europa com uma faca nas suas costas que tem que comprar milho americano e aviões americanos; uma Europa totalmente dominada pelo lobby de Tel Aviv; uma Europa que é rastejante, fraca e subjugada. Os atuais líderes do Mercado Comum são todos, senão rufiões, pelo menos charlatães. Na Europa não há um único homem bem informado com qualquer tutano (e eu quero dizer com um senso de sua própria dignidade) que seja pró-americano.

Essa hipotética Europa dos 12, completamente armada, só pode ser visualizada na perspectiva de:

(a) Independência total em relação aos EUA;

(b) Independência total (para não dizer desconfiança) em relação à extrema-direita e o lobby sionista.

Amizade na independência certamente, mas jamais amizade na dependência. É uma contradição em termos. Não pode haver amizade entre um mestre e um lacaio. Eu esqueço de mencionar, mas precisa ser dito? Eu esqueço de dizer que uma Europa dos 12 adequadamente armada não visualizaria qualquer ação expansionista ou geopolítica contra os EUA ou qualquer cruzada para o leste rumo a Moscou, ou contra Moscou. E certamente não haveria qualquer cruzada na direção da América Latina. Ainda assim, não se esqueça quão curta é a distância entre Dakar e Recife.

Também se segue que essa Europa dos 12 rearmada retornaria à África para restabelecer eficiência econômica entre Argélia e Antananarivo e entre Cairo e Kinshasa. Para nós europeus "democráticos", nossa esfera de coprosperidade seria na África; a de vocês seria na América Latina.

Quanto a URSS, ela seria capaz de desenvolver a Sibéria em alta velocidade graças à ajuda industrial da européia ocidental. Europeus podem ajudar uns aos outros. Em Cuba vocês apoiaram os Batistas e criaram Castro. Foram vocês que forçaram Castro a se tornar anti-americano. Aqui na Europa vocês continuam a contar com Batistas locais, os charlatães de Bonn e Roma, os rufiões de Bruxelas e Paris. Vocês tem uma queda por fazerem a escolha errada de aliados. Na verdade, vocês procuram por lacaios dóceis. Isso será sua ruína. Isso os fará perder as Filipinas, a América Latina e a Europa. Vocês poderiam ter amigos na Europa, mas isso demandaria uma total modificação na maneira como vocês lidam com os outros. Então tentem fazer um esforço para compreender exatamente o que significa a "dignidade do outro".

Na Europa, como em outros lugares, vocês tem se apoiado na anti-elite ao invés de na contra-elite (eu imagino que vocês saibam a diferença no que concerne a sociopolítica). Batista era a anti-elite de uma sociedade. Castro era a contra-elite: a intelligentsia revolucionária. Lênin representava a contra-elite em 1917, Robespierre em 1792 e Mazzini em 1850. Mais cedo ou mais tarde, líderes sempre surgem para restabelecer a dignidade dos oprimidos.

A totalidade da estratégia americana, exceto em raros momentos (CDE 1954) consistiu em impedir a unificação européia. A história do século XXI nos mostrará quais serão as consequências dessa política para vocês. Pois há diversas reações possíveis para qualquer dada situação. No tempo presente é inegável que (por razões válidas ou ingênuas) a vasta maioria dos europeus preferiria uma amizade americana a uma amizade comunista russa.

Essa é a visão psicopolítica em qualquer dado momento no tempo. Mas confrontando essa visão psicopolítica, há a realidade geo-histórica. Essa realidade diz que de Vladivostok a Dublin há um império natural, um óbvio império geopolítico. Ela será história pelo meio de "átomos em choque" ou história por meio da geopolítica?

Na história da Europa entre 1500 e 1870, o "vácuo alemão" levou a dezenas de guerras sérias incluindo a atroz Guerra dos Trinta Anos. Na história do planeta o "vácuo europeu" arrisca levar a uma guerra suicida geral. Eis o que uma página do meu manuscrito (escrito há três anos, mas ainda não publicado) contém sobre o Império Eurossoviético que é relevante para a pergunta seis. (O texto concerne Madame Veil e Herr Glucksman):

Apêndice I

O Estado de Israel garantido pela URSS e (ou) pela Europa. Permanece a solução que a Europa poderia fornecer; isto é uma Europa unida com armas nucleares.

Madame Veil foi a primeira a visualizar essa solução que consistiria em substituir uma Europa unida e armada pelo papel desempenhado nesse sentido pelos EUA. Glucksman era ainda mais franco e direto. Ele foi direto ao ponto de dizer 'sim' à bomba alemã. Imaginemos, como mera suposição, uma 'Europa Ocidental unida' se estendendo de Lubeck a Lisboa e de Londres a Atenas, com uma moeda comum e um exército europeu integrado. Segue dessa hipótese que tal Europa garantiria a sobrevivência do 'Estado de Israel como formulado nas resoluções da ONU' por duas razões:

1 - O Mediterrâneo sendo uma zona geopolítica européia. Nenhuma desestabilização nessa esfera seria tolerada por nós;

2 - A História já viu massacres suficientes, e o da população de Israel não seria admissível. Minha posição é bem clara: se o Estado de Israel pedir uma garantia de sobrevivência de uma Europa Ocidental unida, ele deve recebê-la com condições claras e sem hesitação. Mas se o lobby israelense quiser arrastar a Europa Ocidental em uma cruzada contra a URSS, tal tolice deve ser fortemente denunciada e impedida com determinação e termos absolutos. Seria loucura para a Europa. A Europa deve proteger a 'pequena' Israel pastoral (com as fronteiras prescritas pelas Nações Unidas), 'uma Israel de kibbutzes e vinhedos'. Porém, a paranóia bíblica da extrema-direita (israelense) que sonha com uma Grande Israel se estendendo até o Eufrates, deve ser denunciada e resistida com vigor.

Para nós europeus morrer pelo sonho belicoso de rabinos insanos está fora de questão. Seja no esquema de uma Europa Ocidental unida hipotética ou de um Império Eurossoviético, Israel deve ser reduzida a uma problema local, o de uma minoria cujo massacre não deve ser permitido. Eu penso que seria produtivo citar o historiador soviético Kniakinski - que eu encontrei em Bruxelas em abril de 1986 - sobre a CDE de 1954. Eis o que o professor Kniajinski escreve no jargão político comunista típico:

"Em meados da década de 50, profundas divergências de interesses econômicos e políticas concretas apareceram entre os adeptos dos blocos imperialistas situados sob a liderança dos EUA, particularmente nas fileiras da liderança da futura 'Comunidade Européia'. Essa fileiras estavam profundamente divididas em relação ao caráter 'supranacional' da 'Comunidade'. Essas divergências foram particularmente marcadas na França, a única das potências vitoriosas a ser parte do tratado de criação da 'Comunidade Européia'. Desde o começo da década de 50, projetos tendendo a limitar a soberania nacional conflitaram com as reservas de certos círculos influentes da classe média francesa e foram o objeto de conflitos dentro da maioria dos partidos de classe média. Os gaullistas eram os mais opostos a esses projetos. Um dos homens principais, Michel Debre, muitas vezes enfatizou a origem americana de conceitos 'supranacionais', e ele criticou a política dos EUA que ele disse estar 'impondo às nações, sobre a opinião pública e os parlamentos na esfera política e militar um conceito de Europa que é apenas um dos conceitos possíveis'.

Falando em uma sessão geral da assembléia consultiva do Conselho da Europa e do Conselho da Assembléia da CECA em junho de 1953, Debre propôs substituir a Comunidade 'supranacional' dos Seis com uma 'união' posta sob a autoridade de um conselho dos Primeiros-Ministros que realizariam sessões mensais. Em certos círculos de classe média, era temido que os alemães poderiam dominar o futuro bloco, e eles estavam infelizes com a ausência da Inglaterra. Os círculos tinham um portavoz ativo na figura de Pierre Mendes, que se tornou premier da França em junho de 1954. Sob pressão das massas populares, e em vistas das sérias divergências perturbando o círculo de líderes, a questão da ratificação do tratado foi perpetuamente adiada. 

O capitalismo francês havia reforçado sua posição em certa medida. Medidas importantes que foram combinadas após o fim da Segunda Guerra Mundial para modernizar a economia haviam permitido à França ultrapassar o melhor nível prévio de produção - o de 1930, e continuar a expandir rapidamente o volume de produção. Economicamente, a França estava menos dependente dos EUA.

Por outro lado, o apoio que a América estava dando à Alemanha Ocidental demonstrava bem que o imperialismo francês estava errado em reivindicar o papel de principal parceiro dos EUA no continente. Conforme a histeria atribuída à 'ameaça soviética' começou a diminuir (uma histeria pela qual o imperialismo americano tentou reconciliar as perspectivas opostas de seus parceiros europeus ocidentais), os objetivos d política externa americana se tornaram bastante claros. Foi nessa época que um novo governo americano anunciou e começou a pôr em operação sua famosa política de liberação. O novo Secretário de Estado, J.F. Dulles, pôs mais ênfase que seus predecessores na criação de uma 'Federação Européia' em que a Alemanha Ocidental teria o papel de liderança. Ele não tinha pudor em usar chantagens, chegando ao ponto de ameaçar 'reconsiderar' a política externa americana na Europa. A pressão americana teve um efeito totalmente diferente do que alguns anos antes. Mesmo um apoiador leal da integração 'supranacional' como Jacques Freymond, o diretor do Instituto Superior para Estudos Internacionals em Genebra, notou críticas renovadas e reservas na Europa em relação a política americana, 'particularmente frente declarações americanas sobre 'contenção' e 'retaliação massiva'.' Em 13 de agosto de 1954, a Assembléia Nacional Francesa rejeitou o projeto CDE por 319 votos a 264 com 43 abstenções, e decidiu 'passar a considerações de questões mais imediatas'. A Comunidade de Defesa Européia havia tido seu dia. O fiasco dos conceitos americanos de integração foi imediatamente usado pelo serviço diplomático inglês para tentar recuperar uma posição dominante na Europa Ocidental.

Desde o início de 1954 a Secretaria de Relações Exteriores havia preparado um plano para a integração da República Federal Alemã com a Aliança Ocidental. Em setembro de 1954 Anthony Eden foi a Bonn, Roma e Paris, para discutir a questão. Depois, em suas memórias, ele menciona o 'medo' da possível afirmação de 'tendências neutralistas' simuladas pelas propostas de paz da URSS. Esse medo era partilhado pelos governos da República Federal da Alemanha, pela Itália e pela França. É por isso que a proposta inglesa de reunir a Alemanha com a Aliança Ocidental foi favoravelmente recebida. É verdade que durante uma visita a Bonn, imediatamente após a partida de Eden, Dulles e o Chanceler da Alemanha Ocidental haviam declarado que entre eles 'havia uma concordância total sobre o fato de que a integração européia era de importância vital para a paz e a segurança, e que já que o objetivo final não deveria ser abandonado por causa de uma derrota temporária era importante perseguir tais esforços resolutamente até uma conclusão positiva'. Mais ainda, durante uma viagem posterior a Londres, Dulles, enquanto tinha prazer em enfatizar sua convergência de opinião com Adenauer, criticou duramente a proposta britânica por não mencionar uma solução 'supranacional'.

Não obstante, os EUA apoiaram o plano inglês, enquanto devotavam suas energias para estabelecer seu controle sobre acordos subsequentes. Foi em tal contexto de amargas rivalidades políticas entre Estados imperialistas, durante o curso de conferências em Londres e Paris de setembro a outubro de 1954, que medidas foram finalizadas para integrar a República Federal Alemã ao Pacto de Bruxelas (que foi substancialmente modificado e se tornou nesse meio tempo a União Européia Ocidental), e acima de tudo integrá-la na OTAN. Em uma declaração adotada em Moscou em 2 de dezembro de 1954, os Estados socialistas tinham boa razão para caracterizar esses acordos como favorecendo um renascimento do militarismo alemão, como criando obstáculos intransponíveis para a reunificação da Alemanha e como uma ameaça para a paz na Europa. A União Européia Ocidental dificilmente ocultou a entrada da Alemanha Ocidental na OTAN. A República Federal da Alemanha havia recuperado suas antigas forças. Esses dois eventos junto a campanhas anti-soviéticas e anticomunistas foram usadas como justificativa para reforçar a 'defesa do Ocidente', permitiram aos parlamentos reunir a maioria de votos vitais para a ratificação dos acordos de Paris. Aqueles em favor de integração 'supranacional' que haviam votado em favor dos acordos de Paris, tomaram isso como indicando o progresso na direção da 'verdadeira integração'. Assim, F. Dehousse, o orador para essa questão no Senado Belga, ao analisar os acordos de Paris, disse em fevereiro de 1955 que eles eram um obstáculo para a 'neutralização pró-soviética' da República Federal Alemã, que eles garantiam sua 'contribuição militar', que eles evitavam uma crise na OTAN, que eles permitiam uma reaproximação dos Estados continentais da Europa Ocidental com a Inglaterra, e que ao mesmo tempo, eles não eram um estorvo para o objetivo de integração".

No esquema "razoável, não-radical" de minha resposta à pergunta número seis, se é levado a imaginar duas boas esferas de coprosperidade vizinhas. Primeiro, haveria uma Europa dos 12, inicialmente com neutralidade vigilante, então posteriormente com neutralidade amistosa com a URSS. Então haveria os EUA em boas relações de vizinhança com um tipo de grande mercado comum latinoamericano.

Em ambos os casos há, desde o início, relações economicamente complementares, com a Europa Ocidental contribuindo fortemente para o desenvolvimento da Sibéria, e com os EUA contribuindo (honestamente) para a industrialização e normalização da América Latina.

Essas são soluções razoáveis. É uma pena que o homem raramente escolhe soluções razoáveis e construtivas.

Pergunta 7: Há problemas cada vez maiores entre os EUA e a Comunidade Européia. Você prevê uma guerra comercial real? Se sim, quais seriam as consequências para a Europa?

Resposta: No esquema revolucionário das coisas, uma guerra econômica entre EUA e Europa só pode ser benéfica. Essa guerra econômica despertará a consciência política da Europa. A escalação da guerra econômica só pode ser positiva, desejável na verdade, para a formação política da Europa. O cinismo econômico americano abrirá os olhos das pessoas que inicialmente não veem os EUA como o inimigo geopolítico que aqueles de nós que são conscientes de serem europeus consideram ser.

Desde 1945 a "classe governante" européia (eu coloco "classe governante" entre aspas porque elas são qualquer coisa além de "governantes", na verdade eles são a "classe proprietária") renunciou a todas as reivindicações por independência política européia. Ela aceitou a liderança política americana em troca da permissão para fazer dinheiro. A Alemanha do governo de Bonn ilustra perfeitamente minha afirmação: politicamente falando, é uma Alemanha totalmente castrada. Carecendo de existência histórica, ela só possui existência econômica.

A guerra econômica na qual os EUA estão atualmente engajados irá, ou poderá, despertar a consciência política dos "homens-sim" ("Beni-oui-oui", para usar um termo marroquino) em Bonn, Londres e Paris. O cinismo econômico americano começará a atiçar o "patriotismo econômico europeu" entre aqueles que inicialmente aceitam servilmente a dominação política americana. Para colocar de forma mais direta, os EUA estão começando a irritar até mesmo seus lacaios, seus "colaboracionistas". Está indo longe demais. Na Europa e em outros lugares os EUA demonstram um tipo excessivo, quase patológico, de libido dominandi econômica. Um termo adequado para descrever as relações de Washington com a Europa é arrogância econômica.

Alguns fatos e números para o registro, já que eles são regularmente publicados na imprensa financeira internacional: o parceiro comercial mais importante dos EUA é o Canadá; vocês exportam 46 bilhões de dólares em bens para eles e importam 62 bilhões de dólares. Depois vem a Europa, com 45 bilhões de dólares de exportações e 68 bilhões de dólares de importações. O Japão está apenas em terceiro lugar. O Japão exporta 72 bilhões em bens para os EUA, mas só importam 23 bilhões. Seu melhor parceiro comercial ainda é o Canadá. Seu pior é o Japão. Em todos os três casos vocês tem uma balança de pagamentos deficitária.

A "Comunidade Européia" de Bruxelas, com seus eunucos políticos, cederam para os EUA na questão do milho americano em janeiro de 1987. Espanha e Portugal "podem" [sic] comprar dois milhões de toneladas de milho americano anualmente e trezentas mil de sorgo. Mas já há um excedente dessas commodities dentro do Mercado Comum. O nome do Rambo-Tarzan americano que conseguiu isso é Clayton Yeutter.

Improvisos diários e ações impulsivas semanais parecem ser o estilo escolhido pela equipe do Reagan. Uma vez você bombardeia a Líbia sem motivo válido. Outra vez você deixa o dólar achar seu próprio nível, isto se isso não foi deliberadamente maquinado. Como o The Wall Street Journal afirmou em 29 de janeiro de 1987: "O governo dos EUA está preocupado com o dólar, mas não decidiu se, e quando, intervir".

A recusa em exportar produtos civis de alta tecnologia para os países comunistas resulta em uma perda anual para os EUA de 17 bilhões de dólares. Isso é um décimo de seu déficit anual. Ainda assim um corpo tão responsável quanto a Academia Nacional de Ciência criticou esse ineficaz embargo. Ela também comentou que esse embargo estava gerando desconforto, para não dizer irritação, entre os "aliados" (lacaios) europeus.

A Bélgica sabe algo sobre isso na questão da fábrica Pegard em Andenne. A economia americana sempre foi protecionista. Taxas de importação são quase a base de sua filosofia. Consiga uma cópia da obra de Merle Fainsod, Governo e a Economia Americana, W.W. Norton and Co. Publishers, New York.

A documentação sobre a piora de relações entre EUA e Europa está aumentando. A pilha está ficando maior. Houve o recente caso Airbus (ver Financial Times, 30 de janeiro de 1987). Deixando seu posto como embaixador americano ao Mercado Comum em Bruxelas, o sr. William Middendorf afirmou: "Durante os próximos dois anos, a não ser que sejamos muito inteligentes, nós estaremos em curso de colisão".

Quanto ao avião de combate europeu (um esforço conjunto de Inglaterra, Alemanha, Espanha e Itália), leia o que o Financial Times de 3 de fevereiro de 1987, disse. Mesmo nas telecomunicações, o imperialismo econômico americano é desprovido de tato. Leia mais uma vez as afirmações cínicas e agressivas do sr. Clayton Yeutter, representante especial de Reagan, no Financial Times de 18 de fevereiro de 1987.

Eis minha conclusão para a pergunta sete. A arrogância econômica americana é uma coisa muito boa para os defensores resolutos da unificação européia como eu. Vocês estão realmente indo longe demais. A falta de contenção será sua ruína. Mesmo os eunucos de Bonn, Paris e Londres estão começando a se preocupar. Vocês os escolheram quando eles estavam em um estado politicamente castrado em 1945. Agora, vocês querem castrá-los novamente, economicamente.

Pergunta 8: A Espanha é agora um membro da Comunidade Européia. Ela representa a cultura materna da maior parte do Novo Mundo. Uma Europa unida teria fortes elos com a América Latina? Você prevê tais laços conflitando com os interesses dos EUA no hemisfério ocidental?

Respostas: Em primeiro lugar, permita-me lembrar que eu foi amigo próximo de Perón durante seu exílio em Madri. Nessa época Skorzeny havia feito uma nova vida para si como civil. Ele era um importador de equipamento industrial. (Antes de se tornar oficial na Waffen-SS, ele havia sido um engenheiro na Áustria).

Nós formamos um trio de amigos, nos encontrando frequentemente ou na magnífica villa de Perón ou no restaurante Horcher em Madri que para dois de nós era uma lembrança, bem como um símbolo um tanto romântico, dos "bons anos" - nossos é claro. Logo de início, Perón entrou em contato comigo quando ele soube de minha postura anti-americana através de Skorzeny. Eu publiquei cartas e entrevistas com Perón. Quando chegava no momento de discutir os EUA, nós estávamos definitivamente na mesma sintonia. Em Madri, peregrinos políticos de toda a América do Sul - não só da Argentina - vinham diariamente para ver Perón. Havia um fluxo contínuo de visitantes. Ele era o símbolo da dignidade latinoamericana.

Quando nos reunimos para aquele divertido jantar em janeiro de 1987, eu lhe disse na biblioteca do Hilton de Bruxelas que uma Europa Unida poderia adotar como idioma comum ou o inglês (uma solução pragmática) ou espanhol (uma solução política). Se a Europa que eu visualizo - de Vladivostok a Dublin - se reunir sob condições de grave conflito militar - ela imediatamente terá que controlar todo o norte da África...que não é propriamente África. O norte da África pertence ao Mediterrâneo. A África propriamente dita só começa ao sul do Saara. A lógica da situação pede um impulso na direção de Johannesburg se possível antes que vocês sejam capazes de fortalecer efetivamente suas defesas na área. Mas outro eixo ofensivo óbvio precisa ser estabelecido; um entre Senegal e Brasil. Esse é tanto um eixo militar como ideológico. Se a Europa tiver que tomar uma postura militar dura contra a teimosia americana, o estabelecimento de um eixo ofensivo Senegal-Brasil é uma conclusão óbvia. Se a unificação da Europa se der no contexto de realinhamentos políticos globais então isso alteraria tudo. Ninguém pode saber o que o futura guarda.

A solução sensível e não-radical seria como segue: por um lado os EUA (dessa vez sinceramente, para variar) ajudaria na industrialização de um grande Mercado Comum sulamericano; enquanto a Europa, por outro lado, devotaria pacificamente suas energias para desenvolver a África e industrializar a Sibéria, a idéia sendo a de restaurar o equilíbrio político do mundo. Em tal caso, a Europa não tentaria exercer hegemonia sobre a América Latina.

A solução revolucionária seria a Europa unificar em uma luta até a morte contra os EUA. Em tal caso, para nós europeus, o Brasil desempenharia um papel similar que o desempenhado pela Sicília para os romanos, quando eles se engajaram na destruição de Cartago. Isso nos traz de volta a nossa discussão na biblioteca do Hilton. A solução política para uma Europa Unida: seria ela adotar o espanhol como lingua franca. Espanhol, tanto em Moscou quanto em Paris. Em todo lugar. A adoção do espanhol para a Europa futura a permitiria estar imediatamente nos portões, senão na antecâmara dos EUA. Uma Europa falando oficialmente o espanhol estaria imediatamente nos subúrbios de Los Angeles e Miami! Por toda América Latina, a Europa é tida em uma estima da qual ela não desfruta nos EUA especialmente deste o tempo do Big Stick de Theodore Roosevelt.

Há muitos cadáveres históricos entre vocês, os EUA, e todo o continente da América Latina. Lembre da divisão da América Central em 1840, o massacre de Vera Cruz em 1847, o bombardeio de Creytown na Nicarágua por sua artilharia naval em julho de 1854, a guerra hispano-americana foi seguida pelo saque de Cuba e das Filipinas.

A luta armada contra os EUA, a luta armada político-militar (atividades subterrâneas), já começou mais ou menos por toda a América Latina ainda que ela não tenha ainda começado aqui na Europa. McKinley queria "civilizar e cristianizar" os filipinos. Entre 1899 e 1903 os americanos mataram 220.000 de filipinos, 90% dos quais eram civis. Vocês americanos só tem duas cartas que podem jogar:

1 - Compreensão, moderação, e mesmo generosidade em relação aos outros;

2 - Arrogância, desprezo, cinismo. Seguidos pela resposta inevitável (Vietnã, Irã, Filipinas, etc).

Vocês tem o dom de fazer seus inimigos se assemelharem a demônios; Inglaterra em 1840, o Kaiser em 1917, Hitler em 1941, a União Soviética hoje. Mas essa abordagem tem consequências de longo alcance para vocês: eg. Vietnã. Os EUA possuem o seu catálogo oficial de demônios. À época de suas eleições de 1844 havia uma febre antibritânica histérica. Em conclusão à pergunta de número oito, eu preciso realmente dizer que tipo de arma psicológica a América Latina poderia ser em nossas mãos - se usarmos tal arma, ou se precisamos ou mesmo tivermos que usar tal arma?

Mais uma palavra sobre essa técnica de fazer inimigos parecerem demônios. Isso pode ser uma técnica eficaz no que concerne as pessoas comuns, mas se aqueles que usam a técnica de "demonização" forem vítimas de seu próprio jogo, eles logo perderão de vista os objetivos necessários para o bom julgamento. Sua tecnologia de propaganda peca por causa de seu americanismo auto-absorvido que torna muito difícil para vocês compreenderem os "outros" como eles realmente são. Essa falta de compreensão surgem em primeiro lugar através da preguiça intelectual: seus oponentes leem inglês; vocês não leem nem em francês, nem em alemão.

Vocês estão firmemente convictos da justiça de sua própria causa. Assim não raro os americanos parecem vir de uma Disneylândia intelectual. Sobre o mal que resulta da ignorância. Eu cito Albert Camus. No budismo filosófico original que ainda não havia se tornado religioso, o pior pecado era a ignorância. Nesse sentido a mensagem de Sakyamuni é muito superior a de Cristo. O caráter um tanto simplista de suas análises é aparente em muitas de suas obras técnicas. Para mencionar uma de centenas, há o livro de William E. Daughery, (Departamento de Pesquisa de Operações e Morris Janowitz, Livro de Casos de Guerra Psicológica. Vejamos o que Albert Camus tem a dizer em seu livro La Peste:

"O mal que está no mundo quase sempre vem da ignorância, e a boa vontade pode causar tanto dano quanto a má vontade se ela não for iluminada. Os homens tendem a ser bons ao invés de malvados, mas essa não é a questão. O que importa é que em grau maior ou menor eles são ignorantes e é aqui que a verdadeira virtude ou vício aparece, o vício mais assombroso sendo o tipo de ignorância que acredita saber tudo e consequentemente dá a si mesma a autoridade de matar (cf. Dresden e Hiroshima). A alma do assassino é cega, e não há verdadeira bondade ou amor nobre sem a habilidade de pesar as coisas com clareza absoluta, objetiva".

Pergunta 9: Que relações você prevê a Europa tendo no futuro com outros centros estratégicos de poder como o Japão e a Índia?

Resposta: O papel do Japão como potência independente acabou. Desde 1945 o Japão tem sido um apêndice da América. Amanhã ele terá que escolher entre se unir com a China, o que é mais improvável, ou se unir com a Eurásia, isto é com o Império Eurossoviético. O mundo como o vemos hoje pode influenciar sobremaneira nosso conceito de como ele pode se parecer amanhã. O Japão é uma magnífica e eficiente unidade industrial. Em tempos de paz ele participa proximamente do imperialismo plutocrático americano. Em uma guerra quente o Japão será instantaneamente cortado dos EUA.

Demograficamente, o Japão representa menos que 1/5 da população da China. A situação entre China e Japão de 1935 a 1945 não existe mais e nunca voltará a existir. A China está uma vez mais unida, e Mao teve sucesso onde Chiang Kai-Shek falhou. Permanece para a China realizar sua modernização industrial e econômica, e mais cedo ou mais tarde isso acontecerá. Na Ásia o século XXI será da China e não do Japão.

O conceito escolar, com a Ásia começando nos Urais, não é de valor real. A Ásia é um conceito gratuito; ela compreende vários continentes. Suas fronteiras reais estão nos Himalaias e nas Montanhas Altai. Climaticamente, o Indu separa duas zonas diferentes: as monções dos desertos. Como eu já disse em outra resposta, o eixo de expansão da China tem tido uma orientação de noroeste para sudeste por 3.000 anos. No longo prazo, as Filipinas, Bornéu, as Celebes, Indochina, Sumatra e Java se tornarão parte de uma grande China. Então eu vejo uma China expandida na direção do sudeste. A Índia é um continente asiático em si mesmo. Burma novamente se unirá com a Índia, e Sião com a China. O Baluchistão se tornará uma das praias do Império Eurossoviético. Nós devemos plantar nossos pés nas águas do Oceano Índico.

A atual URSS teria que ser totalmente insana para abandonar o Estado-tampão do Afeganistão. Não esqueça que há pouco tempo atrás o Irã do Xá era como um porta-aviões americano apontando na direção da URSS; assim como a Tchecoslováquia em 1937 era como um porta-aviões apontado para a Alemanha. A paz relativa pode ser trazida pela estratégia da balança de poder. Pessoalmente, nos próximos dois séculos eu vejo três potências asiáticas emergindo, todas nascidas da geopolítica.

Essas são o Império Eurossoviético, a Grande China e a Índia. Então, caso os chineses escolham marchar na direção de Mandalay ao invés de Cingapura, a Índia possivelmente terá que buscar o apoio do Império Eurossoviético. E então não nos esqueçamos que através dos milênios nós mesmos somos indo-europeus. Vocês americanos são indo-europeus também. Pessoalmente, eu não acredito que os EUA serão capazes de mantar o nariz acima da água por muito mais tempo. Suas linhas de comunicação são perigosamente longas. Meça as milhas náuticas entre São Francisco e Tóquio no globo e a distância entre São Francisco e Manila. Então compare essas distâncias àquelas entre Cantão e Manila ou Vladivostok e Tóquio. A natureza precária dessa situação é claramente óbvia. O mesmo se aplica ao Atlântico. "Tome tudo, perca tudo", diz o provérbio. O eixo geopolítico natural de expansão para os EUA é de norte para sul. O Canadá enquanto entidade política independente é um anacronismo. Ele é de facto uma parte dos EUA. Quanto à marcha para o sul, ela não deve ser de conquista e escárnio, mas de integração e colaboração honesta.

Pergunta 10: Em seu livro, Europa: Um Império de 400 Milhões de Homens você escreveu que uma Europa unida pode existir em "simbiose" com a África. Isso ainda é verdadeiro, dados os problemas pós-independência da África?

Resposta: Eu simplesmente não acredito em um destino separado para a África. A África não pode resistir sem tutela econômica. A África do Sul tem sido descrita pelo General von Lohausen como o ponto de Arquimedes [o nêmese] de sua atual estratégia naval. A Europa não pode tolerar sua presença na África do Sul mais do que vocês seriam capazes de tolerar um Estado argentino como satélite da URSS de hoje (ou do Império Eurossoviético de amanhã). Uma China imperialista também preferiria não tê-los no Oceano Índico. Eu anexo a minha resposta um mapa tomado do livro do General von Lohausen.

Pergunta 11: Como você vê os desenvolvimentos na África do Sul em termos do futuro da Europa? Por isso eu me refiro à localização geoestratégica da África do Sul e sua reserva de minerais essencial à indústria moderna.

Resposta: Pergunta 11 já respondida na 10.

Pergunta 12: Os EUA estão mudando rapidamente. Que desafios você prevê para os EUA nos próximos poucos anos?

Resposta: No longo prazo seus elos com a Ásia estão fadados à ruína. Eles estão estrategicamente fadados. Sob circunstância alguma a China do século XXI tolerará vocês em Manila ou Cingapura. Seu controle atual do Mar da China é indisputado, mas ele pertence à perspectiva atual, não à perspectiva histórica. É apenas um conceito criado por banqueiros, financistas, comerciantes e jornalistas. Veneza cometeu o mesmo erro no passado. Porém, tão logo quanto uma potência continental como o Império Otomano emergiu, Veneza rapidamente entrou em colapso. Uma China imperialista dos séculos XXI e XXII jamais os tolerará nas Filipinas, mais do que o Império Turco podia tolerar os venezianos em Creta.

A expansão militar e econômica atual da América no Japão e nas Filipinas é o resultado de circunstâncias mais do que de realidades geopolíticas ou geoestratégicas. O Vietnã foi um tiro de aviso. Não se iludam: os japoneses não gostam de vocês e eles não esquecerão Hiroshima. Minha biblioteca ainda contém numerosos livros de meus anos de adolescência; atlas de 1935 à 1939. O que permanece hoje daqueles impérios francês, inglês, belga, holandês, português e italiano? Em menos de 50 anos tudo mudou; tudo foi perdido. O que permanecerá do Império Americano em 2035?

Em minha obra O Império Eurossoviético, que está saindo nesse verão, eu contrasto a estabilidade temporal de Estados cujo território é contíguo, com a fragilidade histórica de Estados cujo território é dispersado e fragmentado sobre a superfície do planeta. Desde um ponto de vista militar, uma potência marítima permanece mais eficaz que uma potência continental. Eu lembro o Reich, que na primavera de 1944 teve que dispersar excelentes exércitos na Noruega, Dinamarca, Holanda, Bélgica e Sudoeste da França. Juntos, esses exércitos alemães teriam podido varrer o exército de Eisenhower em tempo mínimo, mas 3/4 dele jamais foram trazidos ao front.

Assim, desde um ponto de vista militar, eu prefiro uma potência marítima a uma potência continental. Mas quando consideramos desde um ponto de vista histórico, na perspectiva histórica, o inverso é verdadeiro. Um Estado continental é mais capaz de resistir a uma crise que uma potência marítima. Quando você perde o fôlego na terra você se senta por 10 minutos. Quando você está sem fôlego no mar você se afoga. Pense no Império Britânico em 1938 e o que restava dele em 1958. O trabalho de quatro séculos desapareceu em menos de 1/4 de século.

Para estabilidade, um Estado precisa tanto de contiguidade quanto de continuidade. Essa é a lição da geopolítica. Se eu fosse americano, eu escreveria em favor de integração econômica e histórica do Alaska à Argentina, assim como eu escrevo, como europeu, em favor de integração total de Vladivostok a Dublin. Eu não vejo a história por olhos econômicos (como financistas americanos ou banqueiros olham para os lucros de Tóquio e Cingapura). Eu não olho para a história com óculos coloridos pela ideologia como aqueles que travam uma batalha anticomunista - quando o comunismo já está gasto, pelo menos em sua forma marxista.

Uma política histórica vanguardista teria a Europa desenvolvendo a África e a Sibéria e teria os EUA desenvolvendo a América Latina. É aí que vocês devem inicialmente buscar seus parceiros econômicos, mas isso deve ser feito de forma justa. Então faça deles seus amigos. Finalmente, traga um tipo de integração por uma cultura comum. Ao ir à América do Sul você encontrará raízes européias. É notável o que a Espanha colonial alcançou. As velhas capitais da Cidade do México a Buenos Aires, construídas entre o século XVI e o fim do século XVIII, são milagres arquitetônicos em pedra.

Enterre a era dos WASPs, e tente amar os latino-americanos ao invés de desprezá-los. Em Manila vocês tem uma base precária. Aqui na Europa, também desde um ponto de vista histórico, sua presença é precária. Mais cedo ou mais tarde vocês serão expulsos da Ásia e da Europa.

Pergunta 13: A cultura anglófona, especialmente a dos EUA, parece apelar a outros, especialmente aos jovens, com sua música pop, comida, modismo e outras formas de consumismo. Alguns até usam o termo "imperialismo cultural". Vocês concordam, e se sim, como pode a Europa recuperar controle sobre seu próprio desenvolvimento cultural?

Resposta: O termo "imperialismo cultural americano" é puramente polêmico, não tendo existência consciente por si mesmo. Porém, existe uma forma degenerada de sociedade americana que está se espalhando ao redor do mundo na onda da expansão econômica e militar americana. Nem podemos dizer que a cultura européia pode ser exclusivamente limitada à Europa. É simplesmente a cultura dos povos civilizados por todo lugar, seja em Tóquio, Moscou, Cingapura ou Pasadena. Eu não sou um daqueles que sonham com uma cultura européia separada, introvertida, cortada de outros, ou negada a outros.

O tipo de cultura "européia" que se espalhou ao redor do mundo por mais ou menos os últimos quatro séculos é o da Renascença, o do antigo mundo grecorromano. Certamente, aqui na Europa há diferenças de opinião quanto a ênfase ou orientação dada a essa cultura européia global. Alguns a teriam mais judaico-cristã. Perdoe-me por dizer que eu estou fortemente oposto a essa tendência. Outros, como eu, a querem mais voltada na direção de um tipo de neo-estoicismo, isto é na direção da autodisciplina e do autocontrole. Pois quando alguém sucede em dominar a si mesmo, é fácil dominar outros. Infelizmente, às vezes se leva toda uma vida para aprender a se dominar. E, quando finalmente se atinge esse objetivo, ou se chega perto de atingi-lo, ninguém nas gerações mais jovens quer aceitar o legado ou a mensagem.

Meu sistema de valores é inspirado pelo estoicismo no que concerne a disciplina pessoal, e pelo prometeísmo para o "homo novus" isto é dizer no que concerne a interação do homem dentro do contexto da sociedade. Para citar um autor clássico, Epictetus, que aborda esse tema:

"Assim como maus artistas não podem cantar sozinhos, mas sim em um coro, algumas pessoas não podem se erguer nos próprios pés. Homem, se és alguém, caminhe sozinho, converse consigo mesmo, e não se esgueiro no coral. Aprenda como tomar ocasionalmente a zombaria de outros, olhe ao seu redor, mova-se para que possas saber quem és".


Nessa passagem Epictetu se coloca na categoria de indivíduos autodeterminados, tão bem descritos por David Riesman professor de ciências sociais em Harvard, por volta de 195. Se minha memória está correta, o título americano era: "A Multidão Solitária".

Por volta da mesma época, Vance Packard estava se tornando conhecido na Europa por sua La Persuasion Clandestino. Trabalhos lidando com psicologia e psiquiatria sempre me interessaram. Entre 1950-60, eu li quase tudo novo que foi publicado em psicologia social. Isso influenciou meu filho, Philippe, que fez seus estudos nessa disciplina na América do Norte, e que está atualmente lá dirigindo um laboratório em psicologia experimental. Ele escreve e publica frequentemente.

Quanto ao Prometeísmo, a coisa mais fácil para mim é lhe dar a explicação do professor francês Jean Baaechler que está encarregado de pesquisa no Centro Nacional para Pesquisa Científica (CNPC). Eis o que ele escreve sobre o Prometeísmo em Qu'Est Ce Que L'Ideologie?:

"Algumas expressões da ideologia da vontade de poder são óbvias. O Prometeísmo é a ideologia tecnológica por excelência. Ela propõe à humanidade um programa de perfeição material e humana. O Prometeísmo busca explorar todos os recursos, transformar os continentes, mares e clima, ir cada vez mais rápido, mais alto e mais longe, busca melhorar as espécies vegetais e animais e, por que não, a espécie humana, com vistas a desenvolver novas espécies enquanto se trabalha as possibilidades psíquicas latentes do homem, etc. Mas se a tecnologia possui aspectos positivos em ampliar os poderes do homem, ela também possui seu lado negativo. Por um lado, ela escraviza o homem, já que a tecnologia tem suas próprias demandas que devem ser satisfeitas para ser eficientes: a máquina fornece energia abundante mas escraviza seus defensores. Ademais, a tecnologia possui consequências imprevistas na forma de repercussões potencialmente devastadoras. Em vistas dos medos atuais nessa direção, não há necessidade de insistir nesse tema. Finalmente, a tecnologia, como o último, é não mais que uma entre outras possíveis escolhas. Um entendimento desses fatores negativos leva a uma ideologia tecnológica que pode ser chamada Epimeteísmo, no sentido em que Epimeteu é a antítese de seu irmão Prometeu. O Epimeteísmo denuncia incansavelmente os perigos e limites da tecnologia. É o primeiro exemplo de uma ideologia reacionária no sentido autêntico da palavra, isto é uma ideologia não baseada apenas em seus próprios méritos mas tirando sua força da reação a uma ideologia que ela rejeita. O cientismo é também uma ideologia de poder acompanhada por sua própria reação específica que é o espiritualismo. Outras expressões da vontade de poder são traçadas de uma forma menos clara".

Um pouco depois, o autor novamente menciona o Prometeísmo em sua relação ao voluntarismo:

"O coletivismo é alcançado dolorosamente pela coexistência de populações radicalmente diferentes. O estatismo implica em sua própria lógica um crescimento contínuo até que a totalidade da humanidade seja absorvida. Finalmente, o voluntarismo tem seu próprio lado prometéico, que rejeita necessariamente todas as limitações à expansão tecnológica e econômica. O socialismo, por seus próprios princípios, não pode ser autárquico já que ele objetiva a abundância".

Em uma passagem anterior, Jean Baechler escreve, em conexão com o que ele chama de "ilusão tecnológica":

"A ilusão tecnológica que começou a se enraizar desde pelo menos a época da Renascença triunfou no Ocidente desde o século XVIII. Ela pode ser definida como uma convicção na natureza artificial de sociedades humanas e da existência humana. A matéria humana é portanto uma matéria primária com a qual podemos fazer o que acharmos melhor. Nós podemos melhorá-la e fazer emergir um estado de perfeição e felicidade. Essa convicção básica deriva de uma obsessão com o progresso e com a natureza instrumental de descobertas e possui duas facetas principais. Uma dessas implica que toda pesquisa e descoberta deve levar a consequências práticas que garantam a felicidade coletiva. A outra pressupõe que todos os problemas podem ser resolvidos racionalmente - e portanto perfeitamente - desde que sejam claramente formulados. Problemas sociais assim como problemas técnicos e científicos possuem apenas uma solução correta. Todas as outras estão erradas e resultam da ignorância, estupidez ou malícia. A ilusão tecnológica do Iluminismo não desapareceu, ao invés foi aplicada a campos ainda mais amplos. Quando a opinião pública se torna consciente das consequências negativas de certos atos criminosos, de drogas ou da poluição, especialistas invariavelmente aparecem para isolar o problema, enumerar as causas, propor soluções radicais e então regularmente falhar em resolver o problema. Estudiosos sérios estão convencidos de que a violência nas relações internacionais pode ser eliminada pela ciência e pela boa vontade"

É extremamente difícil, senão impossível, convencer os homens acostumados a conquistar a ignorância e o erro em suas atividades específicas de que o mal não é nem um resultado de ignorância ou erro, mas sim um fator constante da existência humana. A guerra não nasce da ignorância, da estupidez ou da malícia, ela é uma possibilidade inerente em relações entre entidades políticas soberanas. Não há solução racional para a partilha de poder, riqueza ou prestígio mais do que há uma solução racional para o problema de instituições e valores. Essas áreas estão à mercê de impulsos e paixões, e não estão sujeitas à racionalidade técnica e científica. Essa é uma verdade cruel que cientistas e tecnologistas sempre acharão difícil aceitar. É provável que a compreensão humana seja vítima de uma propensão natural a exceder sua própria capacidade e objetivar a totalidade. Psicologicamente falando, a compreensão racional possui o mesmo objetivo que a mitologia, a religião ou ética. Ela deseja dar ao homem uma interpretação de sua existência que lhe permita superar seu senso inato de insegurança. Nós temos visto que, por usa própria natureza, a razão não podia fornecer tais certezas. É apenas na ideologia que a ciência pode dar a ilusão do conhecimento absoluto.

Ainda que Baechler e eu pertençamos a diferentes escolas e diferentes temperamentos, as idéias de Baechler são ainda assim valiosas. Essa longa digressão de Epicteto Baechler era essencial para uma apreciação de minhas respostas. Conhecendo minhas escolhas você será mais capaz de me compreender pessoalmente.

A atual crise na sociedade americana está assumindo proporções alarmantes: drogas, delinquência, violência contínua. Sua sociedade é uma falha espetacular. Eu sei que vocês estão lutando valentemente contra essa sociedade patogênica. Eu aprecio bastante a posição que vocês estão assumindo contra as drogas, o alcoolismo, o fumo e contra a maneira pela qual a homossexualidade (uma doença) está sendo transformada em questão política.

Como vocês, Hitler se posicionou contra o fumo e o alcoolismo. No regime nacional-socialista viciados em drogas não recebiam tratamento, eles eram eliminados. Essa é a maneira correta de lidar com tal situação. Quanto aos homossexuais, se eles fossem descobertos na SS, eles eram fuzilados. Na Divisão SS-Valônia dois foram executados. Casos de homossexualidade eram muito raros. Sob Stálin, viciados em drogas também acabavam com uma bala na nuca.

Eu sei que ao mesmo tempo há uma América sadia. Eu visitei seu país várias vezes. Como você bem pode imaginar, eu transitei entre círculos universitários e de classe média - a América pacífica, por assim dizer. Mas mesmo ali há certas rachaduras começando a aparecer - por exemplo a ausência da autoridade paterna na maioria das famílias de bem. A sociedade popular americana com sua natureza patológica é a consequência normal e inevitável da busca frenética pelo sucesso definida em termos de ganho financeiro.

A pornografia é um imenso mercado comercial. Se você quer prova, visite um distrito da luz vermelha em Hamburgo. Havia muito dinheiro a se ganhar com a "liberação" da mulher e com a "liberação" do homossexual. Os valores da sociedade americana estão implícitos na mentalidade "ganhe mais". Ela começa com gado, trigo, aço, ferrovias, petróleo. Então, depois, veio a exploração de desvios sexuais, e o vício de jogo. Há um constante "festejar" e "buscar o prazer".

Por um lado é uma sociedade que se recusa a rejeitar qualquer tipo de "prazer" disponível; que deve provar todas as formas de "prazer", do adultério semanal à cocaína. Por outro lado é uma sociedade que em sua busca do ganho financeiro, a mentalidade "ganhe mais", explora comercialmente essa proclividade para a busca de prazer.

Contrastando a mentalidade "ganhe mais" está a abordagem "seja mais". Raramente se encontra no homem comum um desejo ardente por "ser mais". Na verdade, o que muitos homens praticam é a busca do "parecer ser mais" do que se é. Uma aparência pretensiosa de virtude é lugar-comum, porém o verdadeiro autodomínio é rarao de se encontrar.

O americano possui pelo menos uma virtude - o de ter homens capazes de analisar sua própria sociedade. Nessa situação, eu acho que pode ajudar citar Vance Packard. No início de seu livro A Sociedade Nua o autor escreve:

"Hoje, como veremos, a Carta de Direitos está sob ataque de muitas direções. O voto de Thomas Jefferson jurando hostilidade eterna a toda forma de tirania sobre a mente do homem soa de forma exótica para muitas pessoas em 1964. Aldous Huxley comentou que o grito clássico de Patrick Henry de que ele queria ou liberdade ou morte agora soa melodramático. Ao invés hoje, Huxley disse, estamos mais aptos a demandar, "me dê televisão e hambúrgueres mas não me incomode com as responsabilidades da liberdade".

É digno notar que o profético livro Admirável Mundo Novo do sr. Huxley, escrito na década de 30 sobre uma sociedade tecnológica vivendo em prazer dopado sob um tirano vigilante daqui a seis séculos, foi banido em várias escolas nos EUA. Também entre os banidos está o 1984 de George Orwell, retratando a vida sob o onipresente olho e ouvido de um tirânico Grande Irmão, daqui a somente duas décadas. Quando o Comissário de Educação dos EUA foi perguntado sobre a proibição desses dois clássicos em uma escola de Miami, ele se recusou a comentar porque ele disse que jamais ouviu falar em qualquer desses livros.

A sociedade patológica pode ser facilmente corrigida. Ela depende puramente do poder político e sua vontade. A Berlim de 1932 parecia um esgoto de viciados e homossexuais. Mas a Berlim de 1934 era limpa e sadia. Amanhã, a Europa, atualmente doente como resultado do "consumismo americano" e da "sociedade americana patogênica", usará a mesma receita - a de Berlim de 1933. Deve ser acrescentado que em sintonia com a repressão do vício, o jovem regime nacional-socialista também assumiu a responsabilidade pelo treinamento da juventude. Na Juventude Hitlerista não havia viciados, homossexuais, ladrões ou estupradores.

A infância e a adolescência devem ser supervisionadas. Seu sistema familiar de "deixar as crianças cuidarem de si mesmas" é um imenso erro psicopedagógico. O tempo para livre exame e livre escolha devem vir muito depois na vida do indivíduo. A sociedade precisa de novas regras de conduta. Não vai ser no passado que as encontrará. Obras científicas sobre o funcionamento do cérebro humano durante os últimos 30 anos são ricas com potencial para o estabelecimento de uma nova moralidade estóica. Eu imagino que você está familiarizado com as notáveis obras do americano P.D. MacLean sobre o funcionamento de nossos três cérebros sobrepostos. Um funcionamento que está longe de ser perfeito. Na verdade, psicologicamente há coordenação insuficiente entre o arquicórtex e o neocórtex, o primeiro produzindo (ou influenciado) o comportamento emocional e o segundo dirigindo o comportamento intelectual e racional.

Antes de ler MacLean, cuja obra é escrita para especialistas, leia o que Arthur Koestler diz sobre MacLean e os três cérebros em The Ghost in the Machine. É uma excelente obra de popularização científica. Ao se ler MacLean e Konrad Lorenz - e muitos outros - se pode construir uma moralidade para a sociedade por meio da educação para os jovens.

Entre as idades de 12 e 18, se deve mostrar à juventude todos os mecanismos do comportamento humano: impulsos alimentares, impulsos sexuais, impulsos de agressão, impulsos parentais (para usar a terminologia de Pavlov e Tchakotine). Dentro de nós há um animal a ser domado. Nosso neocórtex é capaz de compreender e admitir a necessidade disso. É ridículo querer negar o impulso sexual - ainda assim essa tem sito a atitude de religiões tradicionais por 3 mil anos. Esse impulso não deve ser negado, ao invés é importante descrevê-lo, e explicar a necessidade para que uma necessidade não transforme o superconsumo sexual em uma regra, uma necessidade básica ou, na verdade, em um "direito" (cf. aqueles que sofrem de homossexualismo). Nem deve o impulso agressivo ser negado, ele deve ser disciplinado, canalizado e sublimado.

Em minha futura obra (1988 ou 1989) - da qual já existe uma sinopse, eu descreverei a moralidade neocortical, dirigida ao homo novus, no contexto de um totalitarismo iluminado.

Em conclusão à pergunta 13, eu quero dizer que devemos todos buscar juntos valores culturais e morais que podem ser usados por todo o planeta. Permitamos que Epicteto tome aulas de MacLean e Marco Aurélio tome aulas de Konrad Lorenz (após ter raspado sua barba).

Uma palavra final sobre os problemas de delinquência e crime na sociedade americana. Permita-me mencionar uma boa e recente fonte: O Caminho Americano do Crime de Franck Browning e John Gerassi.

Pergunta 14: Uma pergunta pessoal para terminar. Você traça suas raízes familiares por 150 do Estado belga independente. O nome familiar "Thiriart" é um nome tipicamente valão? Ou ele era originalmente alemão já que um de seus avós era alemão? Eu acredito que você também mencionou que sua história familiar vai ainda mais atrás rumo a uma estirpe viking dinamarquesa. Estou correto nisso?

Resposta: Thiriart não é um nome "valão". Na minha opinião esse rótulo valão é ofensivo. Os valões e os flamengos falam duas línguas diferentes, mas são racialmente idênticos. Ademais, Thiriart possui raiz germânica, gótica. Nós nos chamamos Theurwald na Dinamarca, Thiriart na Alemanha e Bélgica e Thierry na França. Mas tudo isso não possui importância histórica. É uma conversa de mesa interessante, nada mais.

Meu pai tinha olhos azuis. Eu também, tal qual meu filho Phillipe. Todos nós três somos tipos bem nórdicos. Quando eu viajo em países árabes ou mediterrâneos, mesmo antes de abrir a boca e falar uma única sílaba, eu sou tomado por alemão ou americano. Por causa de minha constituição e tipo. E também meu cabelo curto. Ainda assim, a história dos "três primos vikings" é engraçada de contar. Há o primo americano, o viking que se mudou de Gotland no sul da Suécia pra Normandia, então de Hastings a Londres, e finalmente para a América. Então há o primo que não se mudou e ficou entre Estocolmo e Liege. Esses incluiriam o Thiriart por exemplo. Thiriart é viking continental ocidental. Uma divisão da SS tinha esse nome. A Divisão SS-Viking. Os loiros altos de olhos azuis, como os soldados russos no Afeganistão hoje. Um ramo menos conhecido, porém tão importante quanto, é o ramo oriental do continente europeu: os varanguianos.

Por volta de 840 d.C. eles simplesmente partiram e estabeleceram o Estado normando do leste. Sua migração foi como segue: Suécia, golfo da Finlândia, golfo de Riga, Diyya ocidental, Dniepr, e Mar Negro. Eles foram tão longe quanto Bizâncio. O Principado de Novgorod foi fundado pelo chefe varanguiano Rurik em 862. Eis o que o General von Lohausen escreveu sobre meus primos orientais (e os seus também). Você notará que von Lohausen, como eu, considerou o Pacto Molotov-Ribbentrop como algo muito positivo:

"Por volta de 400 d.C. os entrepostos da migração germânica no sudoeste ocuparam, na Inglaterra e Espanha, as saídas para o oceano. Mil anos depois seus descendentes abriram a América. Por volta de 900 d.C., os varanguianos formaram a mesma vanguarda no leste. No centro, os alemães ocuparam o grosso da península européia e consequentemente tinham uma plataforma em duas direções: o mar e a estepe. Essa posição central determinaria toda sua história. Eles procurariam apoio em ambas direções, mas apenas sua conexão com o leste é natural. Agora, como então, a relação decisiva seria entre os alemães e os russos. A Alemanha pode ou dar à Rússia controle da Europa ou negar a ela essa dominação. A Alemanha pode bloquear o caminho da Rússia como o fez antes e depois de 1914, mas ela também pode abrir o caminho para a Rússia ao preservar seus próprios interesses como em Tauroggen (1812), ou na Santa Aliança, ou depois em Rapallo (1922) ou na época do pacto de não-agressão de 1939. Ou a Alemanha pode também ajudar a Rússia desistindo desses mesmos interesses como em 1970 e 1972. Uma aliança sempre consiste em emprestar ao invés de transferir poder. Dificilmente se pode dizer que a Alemanha cedeu qualquer poder aos czares. Por contraste ela rendeu uma quantidade enorme de poder aos EUA. Tanto América como Rússia são adequadas para imigração. Seu poder consiste em atrair outros em suas próprias áreas por razões estratégicas e políticas. Esse poder residia mais em fornecer aspirações para oportunidades ilimitadas do que na pressão externa que exerciam. Se ela quisesse, a Rússia poderia ter permitido que os melhores e mais fortes europeus cruzassem seu território até os rios Yenisey e Amur. Na América, não foram eles até a Califórnia? Essa é a única maneira pela qual a Rússia poderia atingir o progresso do Ocidente e tomar a península européia - com a ajuda dos próprios filhos e netos da Europa! Tudo que ela tinha que fazer era abrir os portões - como a América havia feito do outro lado do oceano".

Em meu livro Império Eurossoviético (o livro que vai sair em junho de 1988) nós veremos a reunião dos vikings leste-europeus com os vikings oeste-europeus. Quanto a vocês, meus primos vikings da América, garantam sua reunião com sua família original. Deve haver muitos dos meus primos vikings de olhos azuis na Marinha americana. Uma palavra final, só por diversão: em Istambul eu sou confundido com alemão, em Damasco com americano. Se amanhã eu caminhasse pelas ruas de Cabul, eu certamente seria tomado por russo. Tudo isso é dito de maneira jocosa e nada mais. Não derive quaisquer teorias daí. Meus ancestrais genotípicos são acidentais. Eu não tive escolha em quem eles foram, ainda que eles me agradem esteticamente. Mas o que é importante são meus ancestrais fonotípicos, os que eu livremente escolhi ao fim de uma vida rica. Por um lado estão meus ancestrais biológicos; do outro estão meus ancestrais intelectuais, escolhidos com a ajuda de meu próprio neocórtex. Os segundos são materialistas e racionalistas jônicos. É apenas ao fim de minha vida que eu fiz essa escolha, ou mais exatamente a confirmei e fixei.

Minha posição na "busca por meus ancestrais" é em favor dos jônicos e resolutamente contra os eleatas. O que se deve dizer da baboseira da filosofia puramente verbal alemã: filosofia de confusão! Aristóteles também teve muita relação com desviar o desenvolvimento da inteligência. Platão e Aristóteles portam a responsabilidade por terem paralisado o desenvolvimento do pensamento científico por tanto tempo. Se a lógica estóica tivesse ganho o dia, o pensamento ocidental teria tomado um rumo completamente diferente. Essa lógica é a de premissas implicadas adaptadas ao estudo da maneira pela qual causas e efeitos são ligados para determinar o próprio destino; às condições pertinentes ao comportamento autoconsistente que para eles era o caminho do sábio. Os estóicos formalizaram essa lógica e estavam claramente conscientes de sua originalidade comparada a de Aristóteles.

Assim meus ancestrais intelectuais são os materialistas gregos da escola jônica. E eu adotei as palavras de Roger Bacon do século XIII: "Nullus sermo in his potest certificare, totum enim dependet ab experimentia". Que significa em inglês: "Aqui o raciocínio não prova nada, tudo depende da experiência". Assim meus ancestrais intelectuais derivam de Tales, Anaximandro e Anaxímenes. Uma linha inquebrável os conecta a nossos tempos: após os fisiologistas jônicos, a linhagem continua na antiguidade com os atomistas, sofistas e céticos, e na Idade Média é perpetuada pelos nominalistas. Então mais perto de nossos próprios tempos, empiristas, idealistas, positivistas, e finalmente, os lógicos de tempos modernos.

Hoje Anaximandro, Tales e Anaxímenes fazem uso dos dados da física básica e da biologia dirigida e controlada. Aquele que possui tem o conhecimento possui poder. Para que propósito esse poder servirá? Isso eu lhe direi em um momento posterior.

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