segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Aleksandr Dugin - Eurasianismo Ortodoxo

por Aleksandr Dugin

Traduzido por Victor Cavalcanti



1 - O termo "Eurasianismo Ortodoxo" é cada vez mais usado pela Junta de Kiev para descrever a visão de mundo da República da Novorossiya. Por mais que seja claro que esse elemento de linguagem tenha sido inventado em Washington, ele é, no entanto, do meu ponto de vista, precisamente correto.

2 - Quase todos os Eurasianistas históricos foram patriotas Russos Ortodoxos. Contudo, diferentemente de Eslavófilos e Leontiev, eles eram céticos sobre a possibilidade de unir todos os Eslavos porque eles sentiam que as diferenças culturais, religiosas e históricas entre eles eram mais importante que suas proximidades etno-linguísticas. Ao mesmo tempo, eles enfatizaram que a civilização russa integrou, em uma unidade do destino, um número de povos não-Eslavos (Turcos, Caucasianos, o povo da Sibéria) que estavam em contato geográfico conosco.

3 - Cedo, nos anos 90, sob nossa influência, o Eurasianismo integrou no seu corpo, a geopolítica (talassocracia contra telurocracia, Eurásia contra o mundo Atlântico, Eurasianos contra Atlanticistas) e tradicionalismo (Tradição contra o mundo moderno e pós-moderno).

4 - Tudo isso é, de fato, a fundação ideológica da República da Novorossiya. Primeiro, está no primeiro plano da identidade religiosa Ortodoxa em um sentido cultural (contra o nacionalismo ucraniano e a Igreja Unificada [NdT.: i.e., o Rito Oriental] e contra a teoria liberal de direitos humanos e proteção de minorias sexuais). Segundo, existe uma oposição na escolha geopolítica, com o Euromaidan sendo puramente Atlanticista. Terceiro, a República da Novorossiya está seguindo uma orientação anti-liberal e social, e a favor de valores tradicionais. Quarto, a presença simbólica de voluntários Ossetas ou Chechenos corresponde à unidade de destino citada acima.

5 - Mais interessante, no atual confronto agudo civilizacional causando dezenas de milhares de mortes, ataques aéreos e artilharia contra a população civil são ordenados pela Junta atlantista de Kiev no intuito de punir a Novorossiya, vista como um bastião da Ortodoxia e da Eurásia em oposição ao Atlanticismo, liberalismo e Nazismo, enquanto nas mentes dos líderes da República da Novorossiya e seus cidadãos, o mesmo pensamento prevalece: eles estão no front de uma batalha entre a Rússia e o Ocidente, Ortodoxia e a modernidade anti-religiosa, Eurásia e o mundo Atlântico.

Existe o mesmo entendimento da situação na Rússia? Sim, para os patriotas de base, mas não para a elite. Uma considerável parte dela é liberal, Atlanticista e pós-modernista. Seus membros não pensam em si mesmos como cidadãos de uma grande nação, mas como habitantes de um país pequeno, e eles não são uma quinta coluna que agiria em segredo, mas uma sexta, abertamente integrada na rede global de Atlanticismo, liberalismo, capitalismo e pós-modernidade. Eles não pensam mais como membros de um povo, mas apenas como membros dessa rede.

6 - Na Rússia, o Eurasianismo Ortodoxo continua em um estado passivo e implícito, não se torna consciente porque não enfrenta um inimigo diretamente existencial e claro. A Rússia é um país grande e as vidas diárias dos russos estão preenchidas com uma miríade de detalhes técnicos que não permitem a maioria ter uma visão geral da situação. Tentar sensibilizar, até mesmo aproximadamente, é tão difícil quanto explicar um koan. Mas quando, como na República da Novorossiya, cidadãos estão cara-a-cara com uma vontade de destruir sua cultura, religião e etnia, se torna urgente estabelecer a própria identidade. É por isso que o Eurasianismo ortodoxo têm crescido de um estado implícito para um estado explícito. Lá, não é mais uma questão de palavras, mas de guerra, é um problema vital.

7 - Então, foi nascida a dissonância entra a elite russa moderna e a República da Novorossiya. Existem mais e mais conflitos entre eles, daí os atrasos e falhas para prover assistência concreta da Rússia para a República da Novorossiya e a explicação dos precedentes como as ações falhas de propagandistas (desde que foram demitidos) do Kremlin, que começaram a marginalizar aqueles que eram conservadores, patriotas, Ortodoxos ou Eurasianos. Assim, a contradição entre a ideologia da elite do mundo russo e aquela da maioria dos habitantes da Novorossiya e da Rússia estão se tornando cada vez mais aparentes. A sexta coluna têm particularmente se revelado em sua hostilidade histérica contra o exército voluntário da República da Novorossiya, e pode ser claramente definida ideologicamente (ou seja, por suas posições religiosas e geopolíticas) como uma rejeição do Eurasianismo Ortodoxo.

8 - Agora, é inevitável que o Eurasianismo Ortodoxo se torne o paradigma ideológico da República da Novorossiya. A Ortodoxia é o núcleo espiritual de identidade, o Eurasianismo é seu indicador geopolítico, cultural e civilizacional. Desde o surgimento da Novorossiya, essa ideologia vai apenas crescer e alargar o âmbito da sua luta. Portanto, enfrentando a República da Novorossiya, Moscou terá que lidar com os eurasianos Ortodoxos do estado russo. Os voluntários da Federação Russa lutando pela milícia da República da Novorossiya, por confrontar seu verdadeiro inimigo espiritual e geopolítico, descobrem a sua identidade e voltam para casa com ela. Agora as palavras dos sacerdotes que exercem ofício nas igrejas russas ortodoxas, livros geopolíticos e históricos serão percebidos de forma diferentes: ambos como uma questão existencial que envolve vida, morte e sangue, e como uma espinha dorsal. Graças àqueles que estarão engajados na defesa da República da Novorossiya e quem experimenta essa identidade Eurasiana Ortodoxa em particular, o resto da população russa irá aprender mais sobre sua identidade ideológica. Ao mesmo tempo, as realizações da União Soviética não serão excluídas, mas incluídas em um contexto mais amplo livre do Marxismo ortodoxo, materialismo e ateísmo. Essa é a ideologia Eurasiana: ela inclui principalmente o legado da ortodoxia da monarquia Bizantina e o nacionalismo russo, sem mencionar a interpretação russa da história Soviética como brevemente expressada no National-Bolchevismo. O Eurasianismo Ortodoxo incorpora as teorias dos comentários de Ustrialov sobre "Mudança de direção" e integra-os em um paradigma geral se opondo ao Atlanticismo, ao Ocidente, ao liberalismo e ao pós-modernismo. Nós podemos descrevê-lo como a "ideologia natural orgânica" da grande nação Russa. Lutar todos os dias, mesmo na Rússia, pela República da Novorossiya, fortalece posições eurasianas ortodoxas.

9 - Essa análise explica porquê a sexta coluna na Rússia está tão alarmada e tenta desacreditar todas as iniciativas políticas patriotas a favor da República da Novorossiya. Se eles falharem a erradicar a nova corrente de Eurasianismo Ortodoxo, este terá um aumento de influência na sociedade Russa e se tornará uma séria ameaça para toda a rede liberal e Atlanticista da elite Russa. Isso explica tudo, incluindo minha recente exclusão da universidade. Nós estamos lidando com atos simbólicos que são de grande importância: atingir Eurasianos Ortodoxos é benéfico para os Atlanticistas Liberais.

10 - Qual é o lugar de Putin nessa questão ideológica? Ele sempre preferiu estar acima da briga de liberais e conservadores, Atlanticistas e Eurasianistas, agentes do inimigo e patriotas. Essa é sua tática misteriosa. Normalmente, o próprio Putin fala ambiguamente, então suas palavras podem ser interpretadas tanto como Eurasianas ou Atlanticistas. Similarmente, o apoio ou oposição de Putin não estão estruturadas ideologicamente: seus apoiadores e oponentes são indiscriminadamente Eurasianistas, Ortodoxos, liberais e Atlanticistas. Contudo, a vasta maioria dos Eurasianos Ortodoxos estão a favor de Putin e a vasta maioria de Atlanticistas liberais permanecem hostis a ele. Putin não é fundamentalmente oposto ao Eurasianismo Ortodoxo assim como, infelizmente, ele não tem objeção ao Atlanticismo liberal. Ele não revela sua própria ideologia. Ele faz afirmações evasivas que são imediatamente interpretadas de um jeito ou de outro. Putin não segue uma linha reta e não faz sentido perguntar quem ele apoia, Atlanticistas ou Eurasianos. Ele está acima da briga. Ele é, agora, familiar ao papel de governante misterioso e imprevisível, de quem os discursos são como koans contraditórios, mas quando chega a hora de agir, ele faz o que precisa ser feito e, em situações críticas, é sempre a coisa certa em termos de Eurasianismo Ortodoxo.

Até recentemente, na elite, os liberais Atlanticistas dominaram campos ideológicos e tecnológicos, e eles tinham o monopólio de mídia da interpretação do discurso presidencial. Agora, este monopólio está em perigo por causa dos eventos na Ucrânia e a hora da interpretação Eurasiana Ortodoxa chegou.

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