sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

José Alsina Calvés - Contribuições para o Debate sobre a Crise Ucraniana

por José Alsina Calvés



Desde uns dias há um intenso debate nas redes sociais e nos fóruns de Tribuna da Europa sobre os acontecimentos na Ucrânia. Com este artigo pretendo fazer alguma contribuição ao mesmo desde o ângulo da geopolítica.

É evidente que os militantes de grupos nacionalistas tiveram uma participação notável nos acontecimentos, e foram sem dúvida a "força de choque" do movimento opositor. Estes setores nacionalistas pertencem à parte ocidental do país, que sempre foi pró-ocidental e anti-russa. Desconheço as propostas ideológicas desses grupos, mas suspeito que confundem ser anti-russo com ser anticomunista, esquecendo que na atualidade a Rússia já não é a URSS. Sua consigna é construir uma Ucrânia independente tanto da UE como da Rússia.

Porém não há que olvidar que junto a estes setores nacionalistas há forças políticas neoliberais e partidárias da integração na UE, com tudo que isso comporta. De momento são essas forças as que tomaram o poder.

Apresento duas perguntas:

1 - Há alguma possibilidade dessas forças nacionalistas se imporem aos liberais e tomar o poder?

2 - Em caso afirmativo, possui alguma possibilidade geopolítica essa Ucrânia não integrada em nenhum dos dois blocos?

Ignoro a resposta para a primeira pergunta. Não tenho elementos para valorar o equilíbrio de forças, porém vamos ser otimistas, e supor que os nacionalistas consigam se impôr. De início isso suporia a secessão, ou ao menos a tentativa, das regiões orientais, cultural e linguisticamente russófonas. Não esqueçamos que a Ucrânia é um país relativamente recente e bastante artificial. Aleksandr Dugin, em A Quarta Teoria Política já adverte sobre a instabilidade ucraniana e as muitas possibilidades de fratura.

As possibilidades de viabilidade dessa Ucrânia não integrada em nenhum dos dois blocos (UE ou aliança com a Rússia) são praticamente nulas. Isso torna muito improvável a tomada de poder por parte dos nacionalistas, e, em caso de consegui-lo, ainda mais improvável de manter sua consigna de uma Ucrânia independente.

No momento atual, a Rússia é a única potência capaz de se opor ao mundialismo e ao mundo unipolar dirigido pelos EUA. Há forças muito poderosas interessadas em que a Ucrânia entre na UE. Para a própria UE é uma extensão de sua influência mundialista (falsamente européia). Para os EUA significa debilitar o bloco formado pela Rússia de Putin e seus aliados. Não esqueçamos que sem o poder desse bloco, a Síria teria caído há tempo em mãos dos terroristas títeres da Arábia Saudita (por sua vez títere dos EUA).

Resulta muito curiosa a versão que os meios de informação do sistema (começando pela TV3) tem dado do processo ucraniano. Em nenhum momento utilizaram as expressões "extrema-direita", "neofascistas" ou "neonazistas" para se referirem aos militantes nacionalistas. Unicamente falam de opositores "radicais" e "moderados". Resulta surpreendente tendo em conta a facilidade com que colam essa etiqueta a qualquer um que se oponha ao sistema.

Minha conclusão é que os nacionalistas ucranianos atuaram como força de choque da oposição liberal, mas que vão participar pouco ou nada no poder. Dentro de pouco tempo veremos a Ucrânia integrada na UE, e, para piorar, estes nacionalistas fora da lei, se se opuserem ao processo. Ignoro qual será a atuação russa.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Margaret Kimberley - América vs. o Mundo - Invasão, Ocupação, Subversão: O Imperialismo Americano está vivo e vai bem

por Margaret Kimberley



O Presidente Obama colocou nações inteiras em na sua lista de extermínio. Síria e Venezuela estão para se unir a Líbia e Iraque como Estados que foram forçados a cair, enquanto a Ucrânia é cooptada para a órbita UE-OTAN. "O projeto neoconservador para um novo século americano alcançou fruição plena sob um presidente democrata, que agora possui muitos cortes em sua arma".

A palavra imperialismo caiu em desuso em décadas recentes. Se ela parece levemente retrô, é apenas porque não há americanos suficientes comprometidos com dizer a feia verdade sobre seu governo.

Durante a era da Guerra Fria nos disseram que o comunismo aumentou em influência por efeito dominó, derrubando nações uma por uma e forçando-as a orbitarem Moscou ou Pequim. No século XXI há uma nova teoria dominó que coloca cada parte do mundo na mira americana.

Barack Obama teve sucesso em expandir a influência americana de maneiras que George W. Bush e Dick Cheney só poderiam sonhar. O projeto neoconservador para um novo século americano alcançou fruição plena sob um presidente democrático, que agora possui muitas marcas em sua arma. Ele e o resto dos líderes da OTAN deram início à trilha de destruição com a Líbia, arrasando com esse país sob a desculpa de salvá-lo.

Usando mentiras e seus servos na mídia corporativa, eles construíram um conto de um tirano e um povo ansiando por proteção. Esse sucesso maligno os incitou e aos seus aliados nas monarquias do golfo, fazendo com que eles decidissem que a Síria seria o próximo dominó.

O plano não funcionou tão bem quando Obama e o resto da equipa de assassinos corporativos pensou que iria. Quando o Parlamento Britânico disse "não" às novas aventuras militares, Obama foi deixado gaguejando na televisão nacional. Ele foi forçado a recuar de uma posição firme que ele havia assumido apenas poucos dias antes.

A reviravolta semi-cômica foi apenas temporária porque o monstro deve ser alimentado a todo custo. O sistema não pode mais se sustentar e a força bruta é a única saída. Não há nada de antiquado no imperialismo. Essa força malévola ainda está viva e vai bem.

George W. Bush fez esforços para derrubar a democraticamente eleita revolução bolivariana na Venezuela quando ele conspirou com a oposição contra Hugo Chávez. Obama está claramente mais comprometido com a violência que seu predecessor e ajudou a incitar venezuelanos de direita que querem se livrar de Nicolás Maduro. Maduro tem sido enfraquecido pelo protestos repentino e afora é forçado a diálogos com uma oposição que não ficará satisfeita até que também ele esteja morto.

O povo venezuelano votou por sua revolução diversas vezes. Os EUA, um país que nunca deixa de se dizer uma democracia, tem impedido sua vontade claramente expressa de novo e de novo. Mas essa é a essência de seu império, afinal.

Enquanto a força armada contra a Síria foi temporariamente bloqueada, o Ocidente, as monarquias do golfo persa, Israel, e os jihadistas não desistiram de seus esforços de derrubar o governo de Bashar al-Assad na Síria. A guerra selvagem deixou milhares de sírios sem casa e como refugiados famintos, tudo porque o império precisa de seu próximo dominó.

Não apenas os Estados Unidos interferem em seu próprio quintal, eles também interferem constantemente do outro lado do mundo na distante Ucrânia. O descontentamento popular contra o presidente daquele país se tornou um esforço bem sucedido de trazer aquele país para a esfera ocidental de influência econômica mas amarrado com horríveis fios de austeridade. A Ucrânia tem a escolha de falir ou ser resgatada e morrer uma morte lenta como a Grécia.

Enquanto as maquinações estavam em andamento, o Presidente Obama tentou afastar Vladimir Putin com ameaças de sanções. As cenas de protestos de rua violentos na Ucrânia serviram como um quadro fortuito para os EUA que reivindicou a infame "responsabilidade de proteger" que jamais protege ninguém que efetivamente precise de ajuda e que trouxe tanto sofrimento para pessoas ao redor do mundo. Cada invasão, ocupação e subversão em anos recentes pode ser colocada na conta dos EUA e seus aliados. O Iraque foi destruído de forma bem literal, o Irã foi destruído economicamente. A Líbia foi arrasada e a Síria está a beira de sê-lo.

Os EUA deixam claro bem abertamente que querem ter carta-branca para fazerem o que desejarem ao redor do mundo. Se a Rússia tenta usar sua influência, então ela é vilificada e caricaturizada como uma ditadura cruel controlada por um tirano. Não importa quantas eleições tenham sido vencidas por Chávez e agora Maduro, eles são chamados ditadores pela mídia americana.

Uma superpotência pode fomentar conflito em qualquer lugar que queira, onde quer que queira. Os venezuelanos devem desistir ou encarar o prospecto de mais revolta e violência. A Ucrânia deve se sujeitar a políticas econômicas que já se provaram desastrosas. Os EUA deixam suas digitais nesses e muitos outros lugares e essa é a essência do imperialismo. É tudo sobre controle com a força bruta mais crua à disposição.

Os EUA não tornaram a Venezuela nem qualquer outro país oficialmente uma colônia, mas eles não precisam fazê-lo. Eles só precisam demonstrar quem manda e os dominós cairão onde quer que eles queiram. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Denes Martos - Ucrânia 2014

por Denes Martos



Não surpreende.

O manual escrito para as "revoltas espontâneas" dos últimos anos também funcionou na Ucrânia. Algo disso já se farejava quando nos referimos ao Holodomor em um artigo passado. Porque, no caso específico da Ucrânia, não estamos diante de algo novo. Já no passado - e se vamos ao caso não faz tantos anos - esse sofrido país já foi empurrado a uma "revolução" com a promessa de que, depois dela, tudo melhoraria.

Pois nada melhorou. Muito pelo contrário. Há décadas que o potencial material, humano, moral e intelectual da Ucrânia vem desabando, no essencial de um modo completamente independente dos personagens que lhe prometem um suposto futuro venturoso às pessoas que vivem ali. Poucos o dizem, mas a população da Ucrânia se encontra em um caminho com risco de extinção. As estatísticas demográficas demonstram que morrem duas vezes mais pessoas do que nascem. Por esse caminho, os ucranianos pareceriam estar decididos a se apagar da história.

Desde a queda do Muro de Berlim, as revoltas que se produziram nos países outrora ocupados pelo Império Soviético - às quais se teria que agregar, certamente e ainda que tenham se desenvolvido em outro contexto, as "primaveras árabes" - terminaram sendo razoavelmente exitosas. Do ponto de vista de seus promotores, óbvio. Os fogos artificiais com que foram saudades pelos meios massivos globalizados conseguiram, pelo menos, enquadrar a opinião majoritária dentro das jaulas conceituais de efetividade bem ensaiada e comprovada.

No caso da Ucrânia o procedimento não foi diferente. O objetivo habitual de determinar quem são os bons e quem são os maus foi cumprido novamente. À enorme maioria do público nem ocorre suspeitar que ambos os bandos enfrentados possam ser maus; e não necessariamente por uma maldade intrínseca - que tampouco é descartável no caso dos dirigentes corruptos - senão porque ambos os bandos contendentes estão fatalmente equivocados.

A maquinaria midiática da plutocracia global nos está impondo o consabido quadro binário. Nos está repetindo uma e outra vez que Putin, Rússia e seus aliados são maus enquanto que os norteamericanos, a União Européia e seus representantes são os bons. Com isso temos o consabido cenário politicamente correto montado e a interpretação garantida: o que sucede na Ucrânia seria assim uma luta entre bons e maus. Os manifestantes são sempre todos bons e aqueles contra os quais se manifestam são, contrariu sensu, sempre todos maus. Com isso, a realidade resulta adequadamente coberta pelo relato.

E a realidade é que nas futuras eleições agora adiantadas o mais provável que ocorra é que os colaboradores corruptos do suposto Império do Mal terminarão sendo substituídos pelos colaboradores igualmente corruptos do suposto Império do Bem. Com o que a miséria dos ucranianos não será minimamente aliviada.

Exatamente isso é o que resulta incorreto assinalar. Não deve ser assinalado porque essas revoltas, provocadas em um falso espaço e ao longo de falsas linhas divisórias, levam a uma guerra civil permanente em meio a qual se dão as melhores condições para que a exploração plutocrática possa continuar a longo prazo. O objetivo real das revoltas instigadas é justamente esse. Que em meio a uma anarquia e um caos quase permanentes as verdadeiras riquezas em um país passem, com preços irrisórios, às mãos de uma plutocracia global que até nega sua própria existência.

A Ucrânia, aparentemente, é um país pobre. Porém, em realidade, é pobre porque a mais extensa e mais fértil terra da Europa só pode ser explorada facilmente mediante a perpetuação da pobreza. O poder global não trabalha só sobre a conjuntura. Trabalha muito em especial com planos estratégicos para o futuro. Por isso sabe que, por sobre e mais além das maravilhas tecnológicas, a terra e a água seguem sendo o fundamento essencial da vida e que isso muito dificilmente mudará no futuro. Não é nenhuma casualidade que trate de pôr sob seu controle, através de testas-de-ferro políticos de confiança, as existências desses elementos vitais.

Sucede simplesmente que a União Européia é um testa-de-ferro mais confiável para o poder global que a Rússia de Putin. A Rússia de Yeltsin era outra coisa; nela a pilhagem podia ser ilimitada. Porém Putin é perigoso e há que lhe impôr limites, para que não lhe ocorra ter idéias próprias. Porque ele as tem. O demonstrou muito bem no caso da Síria. Avançar com os mísseis da OTAN até a própria fronteira da Rússia de Putin pode chegar a ser uma séria forma de lhe sugerir que as abandone.

O entusiasmo da multidão congregada na praça Maidan responde ao fato de que boa parte da população ucraniana espera um milagre. Espera que venha por fim alguém e que, de uma vez por todas, faça algo que melhore as coisas. Os ucranianos não estão sozinhos nessa espera. São vários sobre o planeta que, de forma consciente ou inconsciente, esperam por algo parecido.

Mas vamos entender. Há, por exemplo, uma organização que se chama Center for Social and Economic Research (Centro para Investigação Social e Econômica) - CASE por suas siglas em inglês. Essa instituição, estabelecida em 1991, afirma ser privada, independente e sem fins lucrativos. Seu objetivo declarado é: "Fornecer análises econômicas objetivas e promover soluções construtivas perante o desafio das transições, reformas, integrações e desenvolvimentos a fim de promover o bem estar das sociedades". Bonito, não é? Não obstante, se investigamos um pouco mais, descobriremos que essa instituição "independente" e "sem fins lucrativos" é financiada pela Comissão Européia, pelo Banco Mundial, várias agências da ONU, pelo USAID, pela rede OSI, pela Fundação Ford, e autoridades públicas e corporações de vários países.

Independente? Sem fins lucrativos?

No caso da Ucrânia, o CASE ucraniano é continuador do Macroeconomic Reform Proyect (Projeto de Reforma Macroeconômica) lançado pelo Harvard Institute of International Development (Instituto de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard). Percebem? É a mesma instituição que inspirou as travessuras da Fundação Mediterrânea e de Don Domingo Cavallo aqui na Argentina! 

Casualidade? Não, amigos. Nisso não há casualidades. Ponham isso na cabeça.

A questão é que o CASE ucraniano já deu seu veredito. Segundo sua visão, a Ucrânia tem que passar pela inevitável quebra de suas instituições financeiras estatais. Depois podem vir as reformas que serão necessariamente dolorosas e o acordo com o Fundo Monetário Internacional. Logo depois disso se poderá falar do acordo de integração à União Européia. Segundo o que o veredito mesmo confessa, "lamentavelmente" ainda não apareceu na Ucrânia um político disposto a fazer-se cargo dessas reformas.

Conhecendo aos políticos do mundo em que vivemos não creio arriscar muito se digo que já vai aparecer.

Porém há um problema. A aventura custa ao redor de 35 bilhões de euros. De onde sairá esse montante? Dificilmente dos EUA e dos "grandes" da Europa. O cidadão norteamericano, o alemão, ou o francês, está disposto a sacrificar algo de dinheiro para aumentar a qualidade de imagem de seu televisor; dificilmente estaria de acordo em destiná-lo a uns "cossacos ensebados". O mais provável é que esse dinheiro - ou ao menos grande parte dele - resulte sugado de países quase tão pobres quando a Ucrânia. É assim que funciona. Para isso estão as dívidas externas dos países de terceira e quarta categoria.

Lhes parece que estou defendendo Yanukovich? Não se confundam. Nem mesmo tentaria. Dificilmente se possa encontrar na história ucraniana um Chefe de Estado mais corrupto que esse sujeito. Yanukovich fez crer aos ucranianos que poderiam se integrar à União Européia. Em Bruxelas lhe comunicaram que estava sonhando. Que a Ucrânia primeiro tinha que abrir suas fronteiras, eliminar todos os encargos aduaneiros e aí veriam o que se poderia fazer depois. Yanukovich aceitou o trato e disse aos ucranianos: "já vem a UE e o bem estar para todos". Alguns acreditaram. Pelo mote: "rouba mas faz".

Depois os russos também fizeram sua oferta e também a eles disse que estava de acordo. E o jogo duplo lhe saiu mal. Ao final, tanto Bruxelas como Moscou lhe retiraram o apoio. Como retiraram até vários de seus próprios partidários ao ver que perdia respaldo e poder. Yanukovich é um cadáver político nesses momentos. Tão cadáver como a quase centena de mortos que ficaram na praça. Dificilmente consiga ressuscitar.

Mas após a saída muito pouco honrosa do corrupto Yanukovich voltou o clã de Yulia Timoshenko. Um clã de corruptos até a medula. Não há por que comprar a imagem midiática temperada com uma muito conveniente cadeira de rodas. A loira algo envelhecida no hospital da prisão não tem méritos para se adjudicar o título de mártir. Em sua época não foi parar atrás das grades por defender os direitos humanos. Simplesmente perdeu na guerra que os cleptocratas travavam entre si.

Vitali Klitschko construiu seu partido com dinheiro proveniente da Fundação Konrad Adenauer e tem, ademais, numerosos outros interesses que o relacionam com a Alemanha. Este ex-boxeador que trocou o ringue pela arena política vendeu aos entusiastas da praça Maidan um bilhete de ida à União Européia. Porém sua verdadeira base de sustentação é a máfia ucraniana. Daí surgiram as patotas organizadas que enfrentaram a policia na praça. São elas que estão convocadas a "restabelecer a ordem" na Ucrânia. O que não anuncia nada bom para quase 10 milhões de russos, polacos, romenos e húngaros que vivem no território da atual Ucrânia.

A Ucrânia não enfrenta um futuro promissor. Na ordem interna tirou um ladrão e deixou chegar em seu lugar uma quadrilha de ladrões. Na ordem externa só conseguiu obter o veredito do CASE.

Nas próximas semanas, quando se hajam despejado os eflúvios da vodca caseira e o entusiasmo multitudinário, quando a única coisa que reste for a ressaca de uns dias de paroxismo, quiçá os ucranianos descubram que tudo terá que começar de novo. Quiçá com outra praça e contra quem ontem aplaudiram.

O triste é que poderiam ter evitado tudo isso.

Porque se entendessem realmente o que lhes está acontecendo, quiçá não se massacrariam entre si.

Descobririam que seu verdadeiro inimigo está nesse poder financeiro mundial que insiste em afirmar que não existe, mas perante o qual se inclinam os corruptos de todos os países do mundo.

Entrevista com Alain de Benoist sobre a Crise Ucraniana

Entrevista dada à Rede Estatal Iraniana



Como avalia os acontecimentos na Ucrânia?

É-nos difícil de avaliar devido a estarmos de certa maneira ainda no meio do caos, há dias levaram-se a cabo confrontos armados em Kiev entre os manifestantes e as forças da polícia, hoje anunciaram-se eleições antecipadas, etc.  Não dispomos do distanciamento necessário para ver se caminhamos para uma crise e, principalmente, quem serão os beneficiários. Surpreende-me que a este respeito as potências ocidentais, e em particular a União Europeia, tenham deitado muita lenha para o fogo apoiando manifestantes da oposição que só tinham, de fato, como ponto de união a hostilidade para com o presidente Yanukovych, pois tudo o mais os divide.

Que opina acerca da reação imediata da Rússia, aludindo à intenção de um golpe de Estado?

Compreendo muito bem a posição de Lavrov ao dar-se conta que estes eventos foram controlados à distância, do estrangeiro, produzindo-se uma ingerência dos Estados Unidos e da Europa, cujos alguns representantes de topo se deslocaram à Ucrânia para animar os manifestantes a levarem a cabo ações que não teriam admitido no seu próprio país. Penso também que a oposição é extremamente variada, tal como na Síria há uns meses onde os opositores correspondiam a facções com opiniões completamente diferentes umas das outras. Na Ucrânia o padrão é o mesmo, sendo que uns são favoráveis à União Europeia, a favor da OTAN e dos Estados Unidos e outros são nacionalistas ucranianos anti-russos, portanto apresentar a oposição como se fosse um movimento unido parece-me extremamente questionável.

Podemos falar em risco de desmembramento do país?

É uma hipótese a ter em conta, a Ucrânia encontra-se dividida há anos, uma parte solidariza-se com a Eurásia Oriental, a Rússia e o Leste enquanto que a outra parte se sente politicamente, religiosamente e culturalmente mais próxima da Europa Ocidental. Esta velha separação combinada com os atuais acontecimentos podem levar-nos a pensar que há um risco, se não de uma guerra civil pelo menos de uma separação.

Não se deslocaram à Ucrânia somente líderes europeus, mas também alguns representantes oficiais dos Estados Unidos, como explicar a atitude dos Estados Unidos?

Há muito que os Estados Unidos tentam cercar a Rússia e impedir a sua liberdade de acção, lembram-se das revoluções coloridas na Geórgia? O objetivo é sempre o mesmo: estender a OTAN até à fronteira da Rússia, algo que a Rússia entende como uma provocação ou até mesmo como uma agressão. A situação geográfica e geopolítica da Ucrânia tornam-na numa posição crucial entre a Rússia e os países da Europa Ocidental e Central. Os Estados Unidos estão a tentar aumentar a sua influência, de todas as maneiras possíveis, nos países da anterior União Soviética com o intuito de cercar cada vez mais a Rússia. Não é por mero acaso que as visitas dos representantes dos Estados Unidos a Kiev tenham por base uma campanha de opinião contra a Rússia e Vladimir Putin, como nos melhores momentos da Guerra Fria. Os Estados Unidos estão a tentar maximizar os seus próprios interesses por intermédio de altercações nacionais que não são muito habituais nesses países.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Colin Liddell - Não desistir de Kiev sem lutar

por Colin Liddell



As coisas na Ucrânia estão se movendo rápido. A essa altura na semana que vem, quem sabe onde estaremos. Esse tremendo ritmo de eventos já é de se esperar de um país que não teve uma chance de ter sua própria história, e que, nas semanas recentes, parece estar passando por casa fase histórica que estava faltando, de cercos medievais e batalhas envolvendo a formação romana testudo, aos protestos hippies da década de 60.

Uma preocupação para aqueles entre nós que nos opomos ao Império do Mal da unipolaridade ocidental é que uma vitória para as forças pró-ocidentais na Ucrânia será um golpe sério na Rússia, um Estado que é cada vez mais a principal esperança para tradicionalistas e nacionalistas ao redor do mundo. Uma derrota para a Rússia pode até levar outras partes do império de Putin a tirar coragem para se separar. Se assim, há um medo de que a Rússia será fragmentada novamente. Como alguém disse, com a Ucrânia, a Rússia é um império, mas sem ela, ela é só um país.

Superficialmente, há muito a se dizer sobre esses medos, mas subjacentes a eles há um certo número de pressuposições. Vamos lidar com elas uma de cada vez.

(1) A situação é um jogo de soma zero. A Ucrânia se afastando da Rússia e se aproximando da União Européia fortalecerá esta às custas da primeira.

As coisas podem parecer assim para alguns, mas também é importante lembrar os muitos problemas que se acumulam dentro da União Européia. Ela está ligada a uma moeda defeituosa, possui grandes desigualdades econômicas, e encara divisões nacionais e culturais recentes. Os resultados prováveis das eleições parlamentares da União Européia em maio também exacerbarão bastante esses problemas - como o faria a Ucrânia se tornar mais dependente da União Européia.

A verdadeira fraqueza da União Européia é que ela é parte da unipolaridade do Ocidente sem ser o centro. Ela, portanto, não desfruta dos benefícios plenos da hegemonia global ocidental, como a América com a sua habilidade de criar suprimentos quase infinitos de dinheiro grátis.

Somada a essa perifericidade geral está a perifericidade da maioria da União Européia, especialmente estados como Grécia e Ucrânia, caso ela adentre o abraço do Anel de Estrelas.

Países fora do Eixo Franco-Germânico central da União Européia sempre serão cidadãos e segunda categoria do que é, na verdade, um sistema de segunda categoria na matriz global americana. Isso significa que tais nações estarão sujeitas a várias formas de exploração econômica e estarão no final da fila na hora de colher os benefícios.

Nesse momento o otimismo impele o entusiasmo pela União Européia, mas isso dificilmente deve sobreviver a um contato prolongado com a realidade efetiva.

(2) O sucesso econômico da União Européia fortalecerá a União européia e os Estados que a orbitam.

Há, é claro, a possibilidade de que a União Européia permanecerá unida e superará a maioria de seus problemas econômicos e contradições sérias, e que o impacto das eleições de maio será defletido de alguma maneira. Uma União Européia economicamente bem sucedida estaria, portanto, em uma posição de encontrar um caminho para escapar de problemas a Grécia ou as elevadas expectativas da Ucrânia aparecerem na sua porta, com o chapéu na mão. 

O problema com essa suposição é que ela equipara materialismo e consumismo a força real, quando na verdade o que se dá é o oposto. Isso é algo que os governantes da Rússia devem ter em mente, especialmente quando eles estão muitas vezes inclinados a competir com o Ocidente em seus próprios termos.

Uma União Européia economicamente bem sucedida, incluindo a Ucrânia, seria simplesmente uma com populações cada vez mais gordas e inchadas, assoladas por confusões de gênero, taxas de natalidade cada vez menores (exceto entre imigrantes), a necessidade de importar cada vez mais desses para fazer o trabalho sujo conforme as ondas iniciais acham seu caminho até o welfare, e um profundo senso de culpa e auto-desprezo.

Após alguns décadas de tais benefícios do ingresso na União Européia, os bravos combatentes do Maidan, que heroicamente se lançaram contra a polícia e fizeram o governo tremer, estaria tateando em busca do controle remoto e de batatas chips, para ouvir o quão maravilhosa é a "diversidade" enquanto os muçulmanos locais "preparam" suas filhas para sofrerem estupro grupal. 

(3) Estamos engajados em algo como o jogo de tabuleiro "Risk"

Não estamos. Espaço e território são importantes mas, como os russos demonstraram em 1812 e 1941-42, não é tudo. É um recurso que deve ser voluntariamente sacrificado para preservar recursos muito mais importantes da raça e do espírito nacional. O verdadeiro conflito que deve ocorrer não é um reconfortante de mapas bonitos e limpos, que, eu noto, estão começando a se proliferar em discussões sobre a Ucrânia, mas multidimensional e que transcende mapas, que são essencialmente inúteis nesse conflito.

Olhe para o mapa da Europa. Há alguma linha mostrando uma fronteira segura ou uma que uma companhia multinacional não possa simplesmente atravessar sem fazer esforço?

Esses mapas mostram informações realmente importantes?

Olhe para a França, tão grande quanto era após a Primeira Guerra Mundial. Mas o mapa mostra as centenas de "zonas urbanas sensíveis" que tem emergido nas décadas recentes? Não, isso daria ao cartógrafo uma dor de cabeça, especialmente porque as fronteiras desses enclaves certamente devem mudar a crescer.

Olhe para os mapas da Noruega e da Suécia. Eles apontam para os locais dos milhares de estupros por meio dos quais "refugiados" afirmam seu domínio sobre a passiva população local?

Seus mapas mostram a concentração de feministas, a inundação de pornografia, a construção de mesquitas, a colonização de maternidades, e as estatísticas de emprego de asilos, onde imigrantes são cada vez mais empregados para ajudarem os indígenas a se livrarem de sua carcaça mortal?

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A Rússia pode até perder a batalha pela Ucrânia, mas a batalha real é uma que deve ser travada no interior de cada país - a rejeição de todos os valores destrutivos afirmados pela unipolaridade ocidental.

Semanas recentes tem mostrado o quão duro o povo ucraniano é, como eles podem lutar. Os russos também, sabemos, são duros. Mas é a preservação dessa dureza que é fundamental para a sobrevivência.

Se a Rússia fosse mais rica e pudesse oferecer aos ucranianos um acordo melhor, ela bem poderia ter derrotado a marcha da União Européia sobre Kiev, mas se ela fosse rica o suficiente para fazê-lo ela provavelmente seria tão corrupta e fraca quanto o Ocidente é agora, e portanto fatidicamente arruinada.

A guerra a ser travada não é com tijolos e molotovs nas ruas de Kiev, sustentada por links de facebook com histórias revelando que informante de qual Departamento de Estado disse o que. A batalha a ser travada é a muito mais longa e profunda de reter energia espiritual e poder moral através de uma adesão às verdades eternas do tradicionalismo e do nacionalismo.


Golpe de Estado: Kiev cai nas mãos do Atlantismo

por Tribulaciones Metapoliticas



"Sou um nacionalista ucraniano! Fora com os ocupantes russos! Viva a RevoluSIÃO!"



Nesses momentos, Soros e Kolomoisky devem estar esfregando as mãos enquanto parafraseiam Einstein: "Há duas coisas infinitas: O universo e a estupidez dos goyim...e sobre o universo tenho minhas dúvidas"

Golpe de Estado: Kiev cai nas mãos do atlantismo/Terroristas ucranianos lutaram contra Rússia na Chechênia e Geórgoa

Os bandos terroristas criminosos financiados por Soros e Kolomoisky, sendo a denominada "Pravy Sektor" ("Setor Direita") a mais importante desses, tomaram ontem a Rada Suprema e fizeram cair o governo legítimo da Ucrânia. Esses denominados "nacionalistas", lacaios sujos e esbirros lambe-botas do imperialismo sionista criminosos, não tomaram o poder para si (como se supõe que fariam se fossem nacionalistas honestos), senão que se limitaram a servir a seus amos, em fazer o trabalho sujo, em servir de esquadrões paramilitares, em preparar o caminho aos que serão os autênticos "líderes", ou melhor dito, os delegados ou administradores coloniais do mundialismo plutocrático na Ucrânia: os palhaços de circo Arseni Yatsenyuk (Baktivshina), Oleg Tyagnibok (Svoboda) e Vitali Klitschko (Udar), todos eles atlantistas convictos, servos de Sião e partidários de enfiar a Ucrânia na "União Européia" e na OTAN o mais cedo possível. Na seguinte foto os vemos muito satisfeitos junto a sua assessora norte-americana Victoria "Nuland" (nome real: Nudelman).



No parlamento, os bandos terroristas irromperam com enorme violência e o portavoz da Rada Volodymir Rybak, de 67 anos, foi vítima de um espancamento, sendo obrigado a se demitir a golpes. Uma vez tomado o parlamento pelos criminosos, apareceram, entre outros títeres, Alexandr Turchinov e Klitschko para se apoderarem do hemiciclo:



Turchinov (à esquerda), sabidamente, é a mão direita da Timoshenko, e hoje foi nomeado "presidente interino". Com outras palavras: A oligarca Timoshenko voltou ao poder. Obrigado nacionalistas ucranianos, oh grandes patriotas!

A primeira coisa que fizeram estes "nacional-revolucionários" (apoiados desgraçadamente por vários supostos terceiro-posicionistas europeus, que cometem o mesmo erro que nos anos noventa, quando apoiaram os croatas de Tudjman, e que não percebem a dimensão geopolítica desse evento catastrófico, e o como estão sendo utilizados esses "camaradas") foi anular a Constituição e restituir a de 2004 (que permite muito facilmente as ingerências externas), destituir o presidente Yanukovich (que afirmou que não vai renunciar) e emitir uma ordem para liberar a oligarca criminosa e saqueadora sionista Yulia Timoshenko. Obrigado, nacionalistas ucranianos, sem vossa ajuda isso não teria acontecido!



Yanukovich e os membros do governo legítimo se viram obrigados a sair da capital em direção a Kharkov e outras cidades orientais, onde contam com um amplo respaldo popular (de fato, a quase totalidade dos eleitores de Yanukovich se concentram no leste e no sul).



Também os efetivos do Berkut se deslocaram às regiões orientais, onde foram recebidos como os heróis que são. Os cossacos de Sevastopol e outras milícias da região autônoma da Criméia estão se organizando contra o golpe ocidentalista. O Exército ucraniano não reconhece a mudança de autoridades em Kiev e segue manifestando que o Comandante-em-Chefe é o presidente democraticamente eleito, Viktor Yanukovich.

A grande diferença histórica entre a parte ocidental e a oriental do país, que se pode observar nesse mapa (os que votaram por Yanukovich e por Timoshenko em 2004 e em 2010) se está polarizando cada vez mais. Não exageramos se pressentimos que está por estalar uma guerra civil entre o oeste e o leste da Ucrânia, uma nação artificial, por certo, como também o era a Iugoslávia.



Provavelmente, o melhor para evitar o derramamento de sangue seria que a parte russófona da Ucrânia (o leste e o sul), denominada Malorossiya (Pequena Russia) declarasse sua independência das marionetes instaladas em Kiev entrando a formar parte da Federação Russa com um status de República Autônoma (como o tem, por exemplo, a Chechênia), e que os ucranianos ocidentais fiquem com sua Timoshenko, e entrem na "União Européia" se tanta ilusão lhes faz: Já verão como se desenganam, dentro de um par de anos. E o descalabro que lhes espera de entrar na "União Européia" o terão mais do que merecido.



Agora, partir para se endividar se disse! Os do FMI esfregam as mãos. Uma vez mais: Obrigado, nacionalistas ucranianos! - Kolomoisky e Soros estão satisfeitos com vossos serviços, oy vey!

Desgraçadamente, os títeres instalados em Kiev não vão permitir de bom grade que Malorossiya se separe, como já revelou o padrinho dos "nacionalistas", o ínclito McCain. Uma guerra civil como na Iugoslávia pode começar, arquitetada pelos mesmos de sempre. E se trata de uma guerra civil com potencial para se converter em guerra mundial.

O que ocorre na Ucrânia é uma síntese dos conflitos da Iugoslávia, Ossétia/Geórgia e Líbia (recordemos que também a Líbia estava dividida entre leste e oeste; e que a revolta começou quando os bandos terroristas se apoderaram de Benghazi).

Os que a essas alturas seguem dizendo "Queremos uma Ucrânia livre, nem UE nem Rússia", por muito bem intencionados que sejam, demonstram não entender nada de geopolítica, nem de realpolitik. Uma Ucrânia distanciada da órbita da Rússia, da telurocracia eurasiática, implica automática - e inevitavelmente uma Ucrânia caindo nas redes da "UE", ou o que é o mesmo, da internacional dourada. Uma Rússia forte representa o auge do multipolarismo, o equilíbrio de poderes continentais, uma garantia de proteção para os povos livres e as nações soberanas. A Rússia não é "imperialista", senão Imperial, algo muito diferente. Uma Rússia debilitada (como na era de Yeltsin) é carta branca para que o globalismo talassocrático se estenda por todo o orbe e aniquile paulatinamente a soberania e a idiossincrasia de todos os povos. Em geopolítica NÃO há uma "terceira posição": Só talassocracia (globalismo) e telurocracia (multipolarismo).



"Somos nancys ucranianos! Fora Rússia! Morte ao comunismo! Fora com a máfia judaica de Moscou!"

Porém tente explicar isso a um "nacionalista" ucraniano... Estes, esbirros (conscientes ou não) do atlantismo, são idiotas úteis, camisinhas humanas, aríetes, bucha de canhão, "freedom fighters" para usar e descartar, como os talibans afegãos. E se os "nacionalistas" ucranianos passarem dos limites e fizerem algo que incomode minimamente aos que movem os fios, acabarão em Guantánamo, como os mercenários da "Al Qaeda" que deixam de ser úteis e se convertem em estorvo.



O mercenário Alexander Muzychko: Lutou na Chechênia para USrael

A propósito da "Al Qaeda", saem à luz dados sumamente interessantes sobre o bando terrorista "Pravy Sektor" que chama a si mesmo "de direita" (algo que jamais faria um autêntico nacionalista, que é sempre de Terceira Via). Ontem teve uma aparição pública na cidade de Rovno o veterano militante dessa organização, Alexander Muzychko. Nessa nota da RT, o titular ("Lutarei contra judeus e russos até a morte") não é o mais importante. (De certo, esse imbecil fala em "lutar contra judeus", enquanto os seus acolheram em Kiev a Bernard-Henri Lévy e a Victoria Nudelman, e facilitaram o acesso à Rada Suprema a "Shalom" Klitschko, sempre sob a supervisão do senhor Kolomoisky (que tem dupla nacionalidade: ucraniana e a outra não precisamos dizer qual é) e com o financiamento do "húngaro-americano" Soros. O "antissemitismo" sensacionalista dos neonazistas ucranianos é uma fachada hipócrita como o "antiamericanismo" dos wahhabitas.

Voltando ao artigo do RT sobre este indigesto indivíduo, lemos que o tal Muzychko, militante histórico do "Pravy Sektor", combateu na Chechênia junto aos terroristas separatistas de Dzhokhar Dudayev:

"Em 1994 Muzychko, alias Sashko Bilyi, chegou à Chechênia para se unir aos separatistas. Tomou parte em várias batalhas contra as tropas federais, sobre tudo na capital Grozny, e pessoalmente destruiu três tanques (...) foi condecorado por seus méritos pelo general separatista Dudayev (...)" (Notícia completa: aqui)



Dudayev com a mesma retórica de Reagan: "Rússia é o império do mal"

O terrorista checheno e ex-general soviético Dudayev é o que, aproveitando o processo de desintegração da URSS, tentou converter a República da Chechênia em seu feudo pessoal separando-a da Federação Russa e dando assim início ao sangrento período das guerras chechenas (1994-1996 e 1999-2002). Para isso se serviu da ajuda da CIA e do wahhabismo (tendo viajado no verão de 1992 à Arábia Saudita e aos EAU para acordar a "importação" à Chechênia de jihadistas takfires e clérigos subversores do Islã tradicional caucásico. Dudayev foi para a Chechênia exatamente o mesmo que Izetbegovic foi para a Bósnia.



De sua parte, o eurasianista Ramzan Kadyrov, atual presidente da República da Chechênia, é bem consciente de que os terroristas ucranianos e os separatistas wahhabitas chechenos servem aos mesmos amos, e afirmou recentemente em sua conta do twitter que se seu OMON (forças especiais chechenas) estivessem em Kiev, a subversão de Maidan não teria sido tolerada.

Porém isso não é tudo. Essa nota do Kyiv Post nos revela que os terroristas do UNA-UNSO (Assembléia Nacional Ucraniana - Autodefesa Ucraniana), de que forma parte o "Pravy Sektor", não só colaboraram com os wahhabitas na Chechênia senão também com o regime sionista da Geórgia na agressão contra a Ossétia do Sul em 2008. Recordemos que o Ministro de Defesa do regime de Saakashvili tinha, como Kolomoisky, dupla nacionalidade: georgiana e vocês já imaginam a outra. UNA-UNSO é a organização dos nacionalistas ucranianos seguidores de Stepan Bandera, um colaboracionista...da CIA. Banderismo: Ultradireita de serviço/GLADIO.



Os "revolucionários do Maidan": Com bandeiras ianques e britânicas, iguais aos "revolucionários líbios" em Benghazi há três anos

"Pravy Sektor" equivale aos wahhabitas (com sua retórica agressiva postiça) e "Svoboda" à "Irmandade Muçulmana" (que são mais "moderados" e tiram fotos com a Clinton ou com McCain). De certo, não se perde a semelhança "casual" entre o logotipo dos partidários de Mursi e o símbolo do "Svoboda":



A Irmandade Muçulmana do Egito...



...e a da Ucrânia

Conclusão: os nacionalistas são um autêntico timo (fraude)...shenko.

Nada os diferencia do FN da Le Pen, do "Forza Nuova" ou de Geert Wilders.

Por sorte, nem todos os nacionalistas europeus caíram na armadilha, e os gregos do Aurora Dourada emitiram um comunicado contra a ingerência sionista na Ucrânia, assim como o líder nacionalista eslovaco Marian Kotleba, que condena o golpe. E Jobbik segue sendo uma interessante referência.

PS:




A Internacional dos Ratos

Ucrânia: Opositores radicais içam bandeiras de terroristas sírios e chechenos em Kiev. http://actualidad.rt.com/actualidad/view/120449-ucrania-extremistas-banderas-terroristas-sirios

Bandeiras de separatistas chechenos e terroristas sírios foram içadas o sábado passado pelos radicais ucranianos na Praça da Independência, epicentro da rebelião antigovernamental em Kiev, junto a da Ucrânia.

Ucrânia, Europa, "protestos pacíficos" contra o Governo...agora estão acompanhados por bandeiras de "cor islâmica" da Coalizão Nacional da Síria na praça Maidan, que se converteu no epicentro dos extremistas que supostamente pugnam para que seu país faça parte da União Européia. A bandeira foi vista ao lado da bandeira azul e amarelo ucraniana e também foi içada por sujeitos que se encontram postados na praça Maidan, segundo revela um vídeo da Ruptly TV. Precisamente sob essa bandeira os extremistas do chamado Exército Livre da Síria (ELS) e vários grupos terroristas islamistas tem estado aterrorizando e massacrando - inclusive degolando - o povo da Síria durante os três últimos anos. A bandeira da chamada "Ichkeria" dos separatistas chechenos, manchados até os cotovelos com o sangue de seus próprios compatriotas, inclusive de crianças - como os assassinados na escola da localidade ossétia de Beslan - e autores de numerosos atos terroristas na Rússia, também foi içada na praça onde estão reunidos os "pacíficos manifestantes" da cristã Ucrânia. "Me chamo Zulikhan. Sou uma chechena, ichkeriyka [partidária de separatistas], muçulmana, esposa, mãe do melhor bebê do mundo. Meu herói é Dudayev [o líder defunto dos separatistas chechenos]", escreve em seu blog uma mulher presente no Maidan. Certeza que essa união de movimentos luta para se unir à Europa? Sabe essa Europa o que realmente rasteja nas barricadas de Kiev?

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Mark Hackard - Ucrânia à Beira da Guerra Civil: Sangue no Maidan

por Mark Hackard



A Ucrânia cambaleia à beira de uma guerra civil, e como de costume a mídia ocidental não tem sido de ajuda em lançar luz sobre a situação conforme ela se desenrola. À parte de fotos evocativos de confrontos entre formações legionárias da polícia Berkut e seus duros oponentes nacionalistas na Maidan Nezalezhnosti (Praça da Independência), tudo que podemos esperar da mídia hegemônica é a seguinte narrativa fantasiosa:

* Quando o corrupto presidente ucraniano Viktor Yanukovych rasgou o Acordo de Associação à União Européia que ele deveria assinar em novembro de 2013, "protestos pacíficos" foram lançados por kievenses pró-ocidentais ávidos por um futuro europeu.

* A ira popular apenas se intensificou após Yanukovych concordou com um tratado de cooperação econômica com a Rússia de Vladimir Putin em 17 de dezembro. A oprimida e libertária Ucrânia estava sendo sugada para a órbita sombria de Moscou. Apenas os galantes manifestantes poderiam deter esse processo.

* A batalha por Kiev continua já que o instável regime promulgou leis draconianas limitando a liberdade de reunião em uma tentativa de se manter no poder. A Ucrânia é a nova linha de frente na luta pela democracia, Big Macs geneticamente modificados, e guerra psicológica via Disney e MTV.

Realidades estratégicas, porém, raramente se encaixam no roteiro de um conto moral feito para a TV. A história por trás das cenas concerne um impulso pelos EUA de cortar uma ressurgimento da Rússia onde realmente importa: na Ucrânia.

Comentaristas de política externa americana prefeririam desviar o foco dos fatos que desacreditam sua narrativa preferida; a primeira dessas é a ativação por Washington de um modelo atualizado para pôr em prática um golpe de estado em Kiev. Por mais de uma década agora, o público americano tem sido levado a acreditar que ondas sucessivas de "poder popular" tem emergido para derrubar governantes opressores por toda Eurásia e Oriente Médio, todos os quais apenas por acaso estavam em contradição com interesses americanos. Nada disso foi acidental; de Belgrado e Tblisi a Minsk e Kishinev, a CIA e o Departamento de Estado tem organizado operações de mudança de regime com graus de sucesso variáveis. A "Revolução Laranja" de 2004 do queridinho ocidental Viktor Yuschchenko murchou ignominiosamente, mas a valiosa posição geográfica da Ucrânia e suas fissuras étnicas e culturais a tornaram novamente o alvo de ações de sabotagem americana.

A questão da integração européia somente forneceu um pretexto necessário para iniciar esse último round do Grande Jogo. O que porta-vozes e colunistas de Nova Iorque também omitem em dizer a suas audiências é a natureza da potencial "associação" de Kiev com a União Européia - o país teria se tornado uma colônia econômica de interesses corporativos ocidentais, completa com o esquartejamento da capacidade industrial ucraniana e uma austeridade esmagadora, ordenada pelos bancos, já familiar aos atuais residentes da União Européia. O acordo em si foi originalmente promovido pela elite oligárquica da nação, o verdadeiro poder por trás de qualquer presidência em Kiev. Bruxelas buscava adquirir a Ucrânia barato, oferecendo menos de 1 bilhão de dólares para cobrir suas suas dívidas de mais de 17 bilhões mais os enormes danos que seriam causados à economia ucraniana com a assinatura. A Rússia, em contraste, aprofundou a parceria com seu vizinho designando 15 bilhões de dólares para a dívida ucraniana, formando empresas conjuntas em indústrias pesadas estratégicas e estabelecendo os preços do gás abaixo do valor de mercado.



Desde a declaração oficial de soberania da Ucrânia em 1991, a corrupção de qualquer administração presidencial nunca foi uma questão digna de se debater. Ainda assim Yanukovych e apoiadores fundamentais como Rinat Akhmetov finalmente começaram a compreender que o Acordo de Associação em si seria uma receita garantida de ruína econômica e catástrofe política, mesmo enquanto os oficiais europeus publicamente apresentaram o acordo como a Ucrânia "escolhendo a Europa" ao invés da Rússia. Vendo poucos benefícios tangíveis nesse arranjo obviamente desigual, o regime em Kiev encontrou parceiros de negociação mais amistosos no Kremlin de Putin do que entre tipos como a Chanceler Angela Merkel e a Baronesa Catherine Ashton.

Os principais instrumentos do Ocidente em abalar uma reação russo-ucraniana mais próxima são os grupos de oposição que tomaram Kiev e estão atualmente engajados em combate urbano com a polícia além de tomar capitais regionais. Mas muitos desses "manifestantes", causa célebre hoje entre os tomadores de decisão nos EUA, são na verdade nacionalistas extremos que vem primariamente da Galícia, composta das três províncias no extremo ocidente da Ucrânia. Muitas vezes católicos e previamente sob séculos de governo poloneses e austro-húngaro, os galicianos nutrem uma forte animosidade contra o leste ortodoxo e russófilo e a Criméia.

Os antepassados recentes dos atuais combatentes no Maidan outrora preenchiam as fileiras de toda uma Divisão Waffen-SS, e grupos majoritariamente galicianos como Batkivschyna, "Pátria", e Svoboda, "Liberdade", se veem como promovendo a causa de seus ancestrais por independência nacional do odiado jugo moscovita. É uma quase certeza que Washington está não apenas fornecendo à oposição ucraniana cobertura diplomática vocal (incluindo ameaçar com sanções) e coordenação extensiva e ajuda logística através de um conjunto de ONGs como Freedom House e o NED. Redes de inteligência americana, junto de aliados do MI6, BND e o serviço polonês, muito provavelmente tem estado ativamente apoiando os nacionalistas revoltosos, que são chamados de "manifestantes pacíficos" da mesma maneira que os mercenários jihadistas que destruíram a Líbia e a Síria são "combatentes da liberdade" e partidários do caos são celebrados como "ativistas de direitos". Quaisquer sejam suas aspirações, os ultras são efetivamente tropas de choque em um jogo geopolítico mais amplo.

As terras ao longo do Dnepr e do Don não são apenas o coração histórico da civilização eslava oriental; elas formam o pilar de uma postura de segurança viável da Rússia em relação a Europa. Para uma compreensão adequada dos objetivos da política externa americana na Ucrânia, é válido relembrar a análise de Zbigniew Brzezinski, estrategista emérito das elites financistas internacionais:

"Sem a Ucrânia, a Rússia deixa de ser um Império Eurasiano... Porém, se Moscou retomar controle sobre a Ucrânia, com seus 46 milhões de pessoas e grandes recursos bem como seu acesso ao Mar Negro, a Rússia automaticamente recupera os meios necessários para se tornar um poderoso Estado imperial, abarcando Europa e Ásia".

Brzezisnki também fala bastante de suas esperanças para a imposição da democracia liberal sobre a Rússia - indubitavelmente devido a seu afeto filantrópico tremendo pelo povo russo. As únicas coisas que ele consistentemente detesta sobre aquela nação são sua soberania, sua identidade e o Cristianismo Ortodoxo.

É uma Rússia soberana que impede a América governada por banqueiros de realizar plenamente o sonho inumano de um panopticon planetário; portanto Brzezinski e seus acólitos no aparato de segurança nacional dos EUA prepararam seu inimigo para subversão e desmembramento. Comparada ao financiamento extraoficial contínuo pelos EUA de movimentos islâmicos separatistas no Cáucaso, a coreografia de uma revolução na Ucrânia é um método um tanto quanto barato de desestabilizar a periferia sulista da Rússia. Não apenas isso lançaria sombra sobre as Olimpíadas de Sochi, como também causaria caos sobre grandes projetos energéticos como o South Stream. Como em Kosovo, lançar o caos acompanhado de retórica liberal-humanitária pode fornecer uma desculpa pronta para a introdução de forças da OTAN na região.

Após o sucesso de Putin em 2013 de impedir um ataque contra a Síria e fortalecer a posição do Kremlin no Mediterrâneo Oriental, Washington está agora canalizando seus esforços para solapar qualquer consolidação do poder russo na Eurásia. Sua grande oportunidade está em explorar os cismas que abalam a sociedade ucraniana para instalar outro governo pró-ocidental em Kiev e preparar o palco para uma presença militar americana apenas centenas de quilômetros de Moscou. Porém a Rússia parece apreciar as lições que aprendeu da Revolução Laranja da década passada e não está no humor para tolerar certas noções.

Com a esperança de evitar uma guerra civil, existe na Ucrânia a distinta possibilidade de uma partição futura que veria o leste industrial e o litoral do Mar Negro sob proteção russa enquanto os ocidentais preencheriam seu destino europeu. Então que os ultras galicianos sejam festejados por seus benfeitores com paradas em Paris, Londres e Berlim; diplomatas americanos e os eurocratas dificilmente saberão o que os atingiu.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Robert Steuckers - Nietzscheanos de Esquerda e de Direita

por Robert Steuckers



O impacto de Nietzsche nos meios políticos durante um século

A característica maior desse impacto ubíquo do nietzscheanismo é a de ser, precisamente, extremamente diversificado, muito plural. Metodologicamente, o impacto do pensamento de Nietzsche não é, portanto, simples de estudar, porque há que reconhecer a fundo a história cultural da Alemanha no século XX; há que deixar de falar de um impacto em singular, senão melhor de uma imensa variedade de impulsos nietzscheanos. De partida Nietzsche mesmo é um personagem que evoluiu, mudou, múltiplos estratos se sobrepõem em sua obra e em sua própria pessoa. O Dr. Christian Lannoy, filósofo holandês do pré-guerra, enumerou os diferentes estágios do pensamento nietzscheano:

- 1º estágio: o pessimismo estético, que compreende quatro fases que são outros tantos passos, a) do pietismo (familiar) ao modernismo de Emerson; b) do modernismo a Schopenhauer; c) de Schopenhauer ao pessimismo estético propriamente dito; d) do pessimismo estético ao humanismo ateu (tragédias gregas + Wagner).

- 2º estágio: o positivismo intelectual, que compreende duas fases: a) o rechaço do pessimismo estético e de Wagner; b) a adesão ao positivismo intelectual (fase de egocentrismo).

- 3º estágio: o positivismo anti-intelectual, que compreende três fases: a) a fase poética (Zaratustra); b) a fase que consiste em desmascarar o egocentrismo; c) a fase da Vontade de Poder (que consiste em subtrair-se aos limites das construções e das comprovações intelectuais).

- 4º estágio: o estágio do Anticristo, que é puramente existencial, segundo a terminologia católica de Lannoy; essa fase terminal consiste em lançar-se no rio da Vida, abandonando toda referência a pós-mundos, abandonando todos os discursos consoladores, deixando de lado todo código (moral, intelectual, etc.).

Mais recentemente, o filósofo alemão Kaulbach, exegeta de Nietzsche, vê se sucederem seis tipos de linguagens diferentes na obra de Nietzsche: 1) a linguagem da potência plástica; 2) a linguagem da crítica desmascaradora; 3) o estilo da linguagem experimental; 4) a autarquia da razão perspectivista; 5) a conjugação das quatro primeiras linguagens nietzscheanas, que contribui para forjar o instrumento para superar o niilismo (seja o fixismo, seja o psitacismo) a fim de afrontar as múltiplas facetas, surpresas, imprevistos e imponderáveis do devir; 6) a insistência sobre o papel do Mestre e da linguagem dionisíaca.

Essas classificações valem o que valerem. Outros filósofos poderão distinguir outras etapas ou outros estratos, porém as classificações de Lannoy e Kaulbach tem o mérito da clareza, de orientar o estudante que enfrenta a complexidade da obra de Nietzsche. O interesse didático dessas classificações é mostrar que cada um desses estratos pôde influenciar uma escola, um filósofo particular, etc. Pela multiplicidade de enfoques nietzscheanos, múltiplas categorias de indivíduos vão receber a influência dele ou de somente uma parte de Nietzsche (em detrimento de todas as outras possíveis). Hoje se verifica em efeito que a filosofia, a filologia, as ciências sociais, as ideologias políticas, recepcionaram pitadas ou fatias inteiras da obra nietzscheana, o que obriga os investigadores contemporâneos a traçar uma taxonomia das influências e a escrever uma história das recepções, como afirma, a justo título, Steven E. Aschheim, historiador israelense das idéias européias na Universidade Hebréia de Jerusalém.

Nietzsche: Apologia ou Demonização

Aschheim enumera os erros da historiografia das idéias até o presente:

* Ou bem essa historiografia é moralista e considera Nietzsche como o "gênio ruim" da Alemanha e da Europa: "gênio ruim" porque é ao mesmo tempo "ateu" para os católicos ou cristãos, "pré-fascista" ou "pré-nazi" para os marxistas, etc.

* Ou bem essa historiografia é estática, em suas variantes apologéticas (onde Nietzsche aparece como o "arauto" do nacional-socialismo, do fascismo ou do germanismo) como em suas variantes demonizantes (onde Nietzsche permanece constantemente como o gênio ruim, sem que se tenha conta das variações em sua obra ou da diversidade de suas recepções).

Agora bem, para julgar a disseminação de Nietzsche na cultura alemã e européia, é preciso: 1) Captar os processos, logo 2), ter uma aproximação dinâmica a sua obra.

O balanço dessa historiografia estereotipada, diz Aschheim, se resume perfeitamente nos trabalhos de Walter Kaufmann e de Arno J. Mayer. Walter Kaufmann demonstra que Nietzsche foi mal interpretado à direita por sua irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche, por Stefan George, por Ernst Bertram e Karl Jaspers. Porém também no campo marxista depois de 1945, especialmente por Georg Lukacs, comunista húngaro que traçou um quadro geral do que há que ab-rogar no pensamento europeu, o que equivale a redigir um manual de inquisição, no qual se inspiram certos partidários atuais do politicamente correto. Lukacs acusa Nietzsche de irracionalidade e afirma que toda forma de irracionalidade conduz inelutavelmente ao nazismo, de onde todo retorno a Nietzsche equivale a recomeçar um processo "perigoso". O erro dessa interpretação é dizer que Nietzsche não suscita mais que uma só trajetória e que ela é perigosa. Essa visão é estritamente linear e se recusa a desenhar uma cartografia das inúmeras influências de Nietzsche.

Arno J. Mayer recorda que Nietzsche foi considerado por certos exegetas marxistizantes como o arauto das classes aristocráticas dominantes na Alemanha a fins do século XIX. A insolência de Nietzsche teria seduzido aos mais turbulentos representantes dessa classe social. Aschheim estima que essa tese é um erro de ordem histórica. Em efeito, a aristocracia dominante nessa época na Alemanha é um meio mais bem hostil a Nietzsche. Por que? Porque o anticristianismo de Nietzsche corrói os fundamentos da sociedade que ela domina. A "ética aristocrática" de Nietzsche é fundamentalmente diferente da das classes dominantes e da nobreza alemã do tempo de Bismarck. Por conseguinte, Nietzsche é considerado "subversivo, patológico e perigoso". A "direita" (na espécie, a "revolução conservadora") não o utilizará senão depois de 1918.

Hugh Thomas, historiador inglês das idéias européias, comprova efetivamente que Nietzsche foi recepcionado essencialmente por dissidentes, radicais, partidários de todas as formas de emancipação, socialistas (ativos na social-democracia), anarquistas e libertários, por certas feministas. Thomas denomina a esses dissidentes "transvaloradores". A direita revolucionária alemã, pós-conservadora, se apresentará ela mesma como "transvaloradora" dos ideais burgueses presentes na Alemanha guilhermina e na República de Weimar. H. Thomas concentra o essencial de sua análise nas esquerdas nietzscheanas, não esquecendo completamente, não obstante, às direitas. Sua interpretação não é unilateral, no sentido em que explora os filões de direito nos quais Nietzsche não representou talvez senão um papel menor ou, pelo menos, um papel de extravagante: a Alldeutsche Verband (a Liga Pangermanista) e o universo social-darwinista, mais particularmente o grupo dos "eugenistas".

Enfim, Nietzsche foi lido majoritariamente pelos socialistas antes de 1914, pelos "conservadores revolucionários" (e eventualmente pelos fascistas e nacional-socialistas) depois de 1918. Hoje, volta a um nível não-político, particularmente no "nietzscheanismo francês" depois de 1945.

O Impacto de Nietzsche sobre o Discurso Socialista

Na Alemanha, mas também em outras partes, especialmente na Itália com Mussolini, então fogoso militante socialista, ou na França, com Charles Adler, Daniel Halévy e Georges Sorel, a filosofia de Nietzsche seduz especialmente os militantes de esquerda. Mas não àqueles que são estritamente ortodoxos, como Franz Mehring, a quem os nietzscheanos socialistas consideram como o teórico de um socialismo temeroso e advocatício, muito distanciado de suas tumultuosas origens revolucionárias. Mehring, guardão na época da ortodoxia fixa, evoca uma estrita filiação filosófica - fora da qual não há salvação - partindo de Hegel para desembocar em Marx e na prática rotineira, social e parlamentarista, da social-democracia guilhermina. A este marxismo convencional, os esquerdistas dissidentes opõem Nietzsche ou um ou outro lineamento de sua filosofia. Essas esquerdas dissidentes levam a um anarquismo (mais ou menos dionisíaco), ao anarco-sindicalismo (um dos filões do futuro fascismo) ou ao comunismo. Assim Isadora Duncan, bailarina inglesa que cobre para L'Humanité, com simpatia, os acontecimentos da Revolução Russa, escreve em 1921: "As profecias de Beethoven, de Nietzsche, de Walt Whitman estão a se realizar. Todos os homens serão irmãos, levados pela grande onda de liberação que acaba de nascer na Rússia" Se observará que a jornalista não cita nenhum grande nome do socialismo ou do marxismo!

Por que este capricho? Segundo Aschheim, os radicais maximalistas no campo socialista se referem de boa gana à crítica devastadora do burguesismo (mais exatamente, do filisteísmo) de Nietzsche, porque essa crítica permite desdobrar uma "contralinguagem" dissolvente para todas as convenções sociais e intelectuais estabelecidas que permitem às burguesias se manter no timão. Em seguida, a idéia de "devir" seduz aos revolucionários permanentes, para os quais nenhuma "superestrutura" pode permanecer muito tempo em lugar para dominar duradouramente às forças vivas que brotam sem cessar do "fundo do povo".

De fato, desde o fim da primeira década do século XX, a social-democracia alemã e européia sofre uma mutação profunda: os radicais abandonam as convenções que estão encrustadas na prática quotidiana do socialismo. Na Alemanha, durante a Primeira Guerra Mundial, os militantes mais decididos deixam a SPD para formar primeiro a USPD (partido social-democrata independente da Alemanha), logo a KPD (partido comunista da Alemanha), com Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknecht; na Itália, uma ala anarco-sindicalista se separa dos socialistas para se fundir ulteriormente com os futuristas de Marinetti e os ardito retornados das trincheiras, o que dá, sob o impulso da personalidade de Mussolini, o sincretismo fascista, etc.

Por outro lado, desde 1926 a Escola de Frankfurt começa a exercer sua influência. Ela não rechaça o aporte de Nietzsche; depois das vicissitudes da história alemã, do nazismo e do exílio norteamericano de seus principais protagonistas, essa escola está na origem da efervescência de maio de 68. Em todas essas óticas, o socialismo é antes de tudo uma revolta contra as superestruturas, julgadas superadas ou arcaicas, porém uma revolta cada vez mais diferente em suas modalidades e em sua linguagem segundo o país em que explora. A essa revolta socialista contra a superestruturas (compreendidas as novas estruturas racionais e demasiado fixadas, instaladas pela social-democracia), se agrega toda uma série de temáticas, como as da "energia" (segundo Schiller e acima de tudo segundo Bergson; este último influenciou consideravelmente Mussolini), da vontade (que se opõe entre os dissidentes radicais do socialismo à doutrina social-democrata e marxista do determinismo) e da vitalidade (temática saída da "filosofia da Vida", tanto em suas interpretações laicas como católicas).

Uma pergunta nos parece desde já legítima: essa evolução é a) marginal, reduzida a teóricos ou a cenáculos intelectuais, ou melhor, b) está verdadeiramente bem capilarizada no partido? Aschheim, ao concluir sua minuciosa investigação, responde: sim. Sustenta sua afirmação pelos resultados de uma pesquisa antiga, que analisou meticulosamente: a de Adolf Levenstein em 1914. Levenstein havia procedido em seu tempo a um estudo estatístico dos livros pegos nas bibliotecas operárias de Leipzig entre 1897 e 1914. Comprovou que os livros de Nietzsche eram muito mais lidos que os de Marx, Lassalle ou Bebel, figuras centrais da social-democracia oficial. Este estudo prova que o nietzscheanismo socialista era uma realidade no coração dos operários alemães.

Na Alemanha, a primeira organização socialista/nietzscheana foi Die Jungen (Os Jovens) de Bruno Wille. Este queria combater o "acomodacionismo" da social-democracia, seu aburguesamento (coincidindo por isso com Robert Michels, analista da oligarquização dos partidos), o culto do parlamentarismo (coincidindo com Sorel e antecipando aos dois mais célebres sorelianos alemães de depois de 1918: Ernst Jünger e Carl Schmitt), a ossificação do partido e sua burocratização (Michels). Mais precisamente, Wille deplora o desaparecimento de todos os reflexos criativos no partido; a imaginação não está já no poder na social-democracia alemã de começos do século, tal como hoje, com o acesso ao poder dos antigos sessenta-oitistas, a imaginação, ainda que ardentemente prometida, não tem já voz ou voto; o politicamente correto obriga. Em seguida, outro contestador fundamental nas fileiras socialistas alemães, Gustav Landauer (1870-1919), que cairá com armas nas mãos em Munique atacado pelos Freikorps de Von Epp, funda uma revista libertária, socialista e nietzscheana, que batiza Der Sozialist. Coisa notável, sua interpretação de Nietzsche ignora o culto nietzscheano do eu, a ausência de toda forma de solidariedade ou de comunidade no filósofo de Sils-Maria, para privilegiar muito fortemente sua fantasia criadora e sua crítica de todas as petrificações em marcha nas sociedades e civilizações modernas e burguesas.

Max Maurenbrecher (1874-1930) é um pastor protestante socialista que tem fé no movimento operário ainda que se referindo constantemente a Nietzsche e a sua crítica do cristianismo. A primeira intenção de Maurenbrecher foi justamente fundir socialismo, nietzscheanismo e anticristianismo. Seu primeiro compromisso teve lugar no Nationalsozialer Verein de Naumann em 1903. Seu segundo compromisso o leva às fileiras da social-democracia, em 1907, no momento em que deixa também a igreja protestante e se empenha no "movimento religioso livre". Seu terceiro compromisso é um retorno a sua igreja, o abandono de toda referência a Marx e à social-democracia, junto a uma adesão à mensagem dos Deutschnationalen. Maurenbrecher encarna assim um percurso que vai do socialismo ao nacionalismo.

Lily Braun no universo dos intelectuais socialistas de princípios do século, é uma militante feminista, socialista e nietzscheana. Se compromete nas fileiras social-democratas, onde defende a causa das mulheres, reclama sua emancipação e seu direito ao sufrágio universal. Este feminismo se completa com uma crítica sistemática a todos os dogmas e por uma estética nova. Seu aporte filosófico é a defesa do "espírito da negação" (Geist der Verneinung), enquanto ela entendia por "negação" a negação de toda superestrutura, das ossificações reconhecíveis nas superestruturas sociais. Nesse sentido, anuncia certas tendências da escola de Frankfurt. Lily Braun alegava em favor de uma juvenilização permanente da sociedade e do socialismo. Se opunha às formas desmobilizantes do moralismo kantiano. Durante a Primeira Guerra Mundial desenvolve um "socialismo patriótico", arguindo que a Alemanha é a pátria da social-democracia, e que, enquanto tal, luta contra a França burguesa, a Inglaterra capitalista e mercantil e a Rússia obscurantista. Seu neo-nacionalismo é uma social-democracia nietzscheanizada percebida como nova ideologia alemã.

Com Maurenbrecher e Braun temos pois duas figuras maximalistas do socialismo alemão que evoluem na direção do nacionalismo através de uma nietzscheanização. Os figurões do partido observam com grande desconfiança essa evolução. Percebem o perigo de uma mutação do socialismo em um nacionalismo popular e operário que rechace os advogados, os intelectuais e os novos sacerdotes do positivismo sociológico. Os figurões organizam por conseguinte sua resposta intelectual, que será uma reação anti-nietzscheana. É fácil traçar o paralelo com a França atual, onde Luc Ferry e Alain Renaut criticam a herança de maio de 68 e do nietzscheanismo francês de Deleuze, Guattari, Foucalt, etc. O mitterrandismo tardio, muito "ocidentalista" em suas orientações (geo)políticas, se alinha com a contrarrevolução moralista norteamericana e seus avatares de direita (Buchanan, Nozick) ou de esquerda, ao atacar os lineamentos filosóficos capazes de arruinar em profundidade - e definitivamente - os fundamentos de uma civilização moribunda, que se livra de sua superstição ideológica e de sua adesão incondicional aos ideais débeis e adoecidos da Aufklämng.

O exemplo histórico mais significativo desse tipo de reação encontramos em Kurt Eisner, presidente dessa república dos sovietes da Bavária (Räterepublik) que foi varrida pelos Freikorps em 1919. Antes de conhecer essa aventura política trágica e deixar aí a vida, Eisner havia escrito uma obra ortodoxa e anti-nietzscheana, chamada Psychopathia Spiritualis, que tem como mais notável característica o ser a obra de um antigo nietzscheano arrependido! Quais foram os argumentos de Eisner? O socialismo é racional e prático, dizia, enquanto que Nietzsche é sonhador, onírico. É então impossível construir uma ideologia socialista coerente sobre o egocentrismo de Nietzsche e sobre sua ausência de compaixão (esse tipo de argumento será mais tarde retomado por certos nacional-socialistas!). Em seguida, Eisner comprova que o "imperativo nietzscheano" conduz à degeneração dos costumes e da política (o mesmo argumento que o "conservador" Steding). À cominação "fazer-se duro!" de Nietzsche, Eisner opõe um "fazer-se terno!", praticando dessa maneira um exorcismo sobre si mesmo. Eisner em seu texto confessa ter sucumbido à "linguagem intoxicadora" e ao "estilo narcótico" de Nietzsche. Contrariamente a Lily Braun e polemizando sem dúvida com ela, Eisner se professa kantiano e explica que seu kantismo é paradoxalmente o que o havia levado a admirar Nietzsche; porque para Eisner, Kant como Nietzsche, põe a ênfase no desenvolvimento livre e máximo do indivíduo, porém - agrega-, o imperativo nietzscheano deve ser coletivizado, de forma a suscitar na sociedade e na classe operária um pan-aristocratismo (Heinrich Hartle, antigo secretário de Alfred Rosenberg, desenvolverá uma argumentação similar, descrevendo a ideologia nacional-socialista como um misto de imperativo ético kantiano e de ética da superação nietzscheana, tudo em uma perspectiva não-individualista!).

Se Eisner é o primeiro nietzscheano a voltar atrás, em esboçar no campo socialista uma crítica finalmente "reacionária" e "imobilizante" de Nietzsche e do socialismo nietzscheano, se Ferry e Reanut são seus herdeiros na triste França do mitterrandismo tardio, Georg Lukacs, com uma trilogia inquisitorial fulminante contra as múltiplas formas de "irracionalismo" que conduzem ao "fascismo", permanece como a referência mais clássica dessa maniva obsessiva e recorrente de apagar os inumeráveis estratos do nietzscheanismo. Não obstante, Likacs era vitalista em sua juventude e cultivava uma visão trágica do homem, da vida e da história inspirada em Nietzsche; depois de 1945, redige essa trilogia contra os irracionalismos que chegará a ser a Bíblia do politicamente correto de Stálin a Andropov e Chernenko nos países do COMECON, entre os marxistas que se queriam ortodoxos. Ainda assim, as pegadas do nietzscheanismo são patentes na esquerda nietzscheana, em Bloch na escola de Frankfurt.

A Esquerda Nietzscheana

Por esquerdismo nietzscheano Aschheim entende a herança de Ernst Bloch e de uma parte da Escola de Frankfurt. Ernst Bloch teve uma grande influência sobre o movimento estudantil alemão que precedeu a efervescência de maio de 68. Uma amizade fiel e sincera o ligava ao líder desses estudantes contestadores, Rudi Dutschke, apóstolo protestatário de um socialismo esquerdista e nacional. Bloch opera uma distinção fundamental entre "marxismo frio" e "marxismo quente". Este último postula um retorno à religião ou, mais exatamente, ao utopismo religioso dos anabatistas, movidos pelo "princípio esperança". Lukacs não poupará suas críticas e se oporá a Bloch, julgando sua obra como "uma mescla de ética de esquerda com uma epistemologia de direita". Bloch é não obstante muito crítico em relação da visão de Nietzsche que havia difundido Ludwig Klages. A qualificará de "dionisismo passadista", agregando que Nietzsche devia ser utilizado em uma perspectiva "futurista", a fim de "modelar o porvir". Bloch rechaça a noção de eterno retorno, porque toda idéia de "retorno" é profundamente estática. Fala de "arcaísmo castrador". O dionisismo que Bloch opõe ao de Klages é o dionisismo da "natureza inacabada", quer dizer, um dionisismo que deve trabalhar no acabamento da natureza.

Bloch não pertence à Escola de Frankfurt; está próximo dela; a influenciou, porém suas idéias religiosas e seu "princípio esperança" o distanciam dos dois dirigentes principais dessa escola, Horkheimer e Adorno. Os puristas da Escola de Frankfurt não creem na redenção pelo princípio esperança, porque, dizem , essas são afirmações pararreligiosas e acríticas. Em sua crítica das ideologias (compreendidas nelas as ideologias pós-marxistas), os principais protagonistas da Escola se referem acima de tudo ao "Nietzsche desmascarador", cujos recursos utilizam para desmascarar as formas de opressão na Modernidade tardia. Seu objetivo é salvar a teoria crítica, e inclusive toda crítica, exercendo uma ação dissolvente sobre todas as superestruturas ligadas pelo passado e julgadas obsoletas. Nesse sentido, Nietzsche é o que desafia melhor todas as ortodoxias, aquele cuja "linguagem desmascaradora" é o mais cáustico. Adorno justificava suas referências a Nietzsche dizendo: "ele nunca é cúmplice com o mundo". Para meditar se não se quer ser cúmplice da "Nova Ordem Mundial".

Quanto a Marcuse, comumente associado à Escola de Frankfurt, o que retem de Nietzsche? A historiografia das idéias retém comumente dois Marcuse: um Marcuse pessimista, o do O Homem Unidimensional, e um Marcuse otimista, o de Eros e Civilização. Para Steven Aschheim, é esse Marcuse otimista - ele põe muita esperança em seu discurso - que é talvez o mais "nietzscheano". Seu nietzscheanismo é desde logo um nietzscheanismo de liberação, repleto de freudismo, no sentido em que Marcuse desenvolve, a partir de sua leitura dupla de Nietzsche e de Freud, a idéia de um "poder liberador da memória". Antes, a memória servia para recordar deveres, outros tantos "tu deves", suscitando o espírito do pecado, a má consciência, o sentido de culpabilidade, sobre os quais o cristianismo se escorou e dos quais impregnou nossa civilização. Essa memória "transforma fatos em essências", fixa pedaços de história talvez ainda fecundos para fazer deles absolutos metafísicos petrificados e fechados, que não se pode pôr em discussão; para Nietzsche como para o Marcuse otimista de Eros e Civilização, há que eliminar as inexperiências e os ídolos impostos por essa memória, porque os instintos da vida (para Freud: a aspiração à felicidade total, entravada pela repressão e pelas inibições) devem sempre dominar finalmente, rechaçando sem vacilar todas as formas de "escapismo" e de negação. Para Marcuse, nisso aluno de Nietzsche, a civilização ocidental e sua contraparte socialista soviética (Nietzsche haveria falado melhor de cristianismo) são fundamentalmente falazes (porque sobre-repressivas), já que conservam demasiadas essências, proibições, e sufocam as criatividades, o Eros. Se reencontra aqui os mesmos mecanismos de pensamento que em um Landauer.

Voltemos porém a Aschheim, que busca pôr claramente em evidência os lineamentos do nietzscheanismo na Escola de Frankfurt, ainda que mostrando por que portas entreabertas a correção política, segundo o modelo dos Mehring, Eisner, Lukacs, Ferry, etc., pode simultaneamente se insinuar nesse discurso. Horkheimer, dirigente dessa Escola e filósofo quase oficial da primeira década da RFA, julga Nietzsche como segue: o filósofo de Sils-Maria é incapaz de reconhecer a importância da "sociedade concreta" em sua análise, porém, apesar dessa lacuna, inaceitável para os que foram seduzidos de um modo ou outro pelo materialismo histórico da tradição marxista, Nietzsche permanece sempre livre de toda ilusão e vê e sente perfeitamente quando um fato de vida se congela em "essência" (para retomar o vocabulário de Marcuse). Horkheimer agrega que Nietzsche "não vê as origens sociais da decadência". Posição evidentemente ambivalente, onde admiração e temor se mesclam indissoluvelmente.

Se Nietzsche esteve muito presente, e solidamente, no corpus da Escola de Frankfurt, foi expulso dela por uma segunda onda de "dialéticos negativos" e de apóstolos tardios da ideologia das Luzes. O chefe dessa segunda onda, a dos êmulos, foi sem discussão Jürgen Habermas. Aschheim resume os objetivos de Habermas em seu trabalho de "desnietzscheanização": a) trabalhar para expurgar o legado da Escola de Frankfurt de todo nietzscheanismo; b) restabelecer uma coerência racional; c) recodificar! (Deleuze e Foucault teriam dissolvido os códigos); d) reconstruir uma "correção política"; e) reexaminar a herança de maio de 68, na qual há, a nossos olhos, alguns elementos muito positivos e fecundos, acima de tudo ao nível do que Ferry e Renaut chamaram de "o pensamento 68". Nesse reexame, Habermas parte do princípio que a crítica da crítica da Aufklärung arrisca fortemente desembocar em um "neoconservadorismo"; por este fato, quer militar pelo restabelecimento da "dialética da Aufklärung em sua pureza" (ou no que precisamente quer designar com este termo). Para Habermas, o nietzscheanismo francês, o neo-heideggerianismo, o pós-estruturalismo de Foucault, o desconstrutivismo de Derrida, são outros tantos filões de 68 que soçobraram no "irracionalismo burguês tardio". Agora bem, essas tendências filosóficas não-políticas, ou muito pouco politizáveis, não se apresentam em nenhum caso como opções militantes a favor de um conservadorismo ou de uma restauração "burguesa", muito pelo contrário; se pode concluir, então, que Habermas desencadeia uma guerra civil ao interior mesmo da esquerda, buscando emasculá-la, repintá-la de cinza. Em seu combate, Habermas ataca explicitamente as noções de heterogeneidade (de pluralidade), de jogo (de trágico, de kairos, tal como o imaginava um Henri Lefebvre), de riso, de contradição (implícita e inevitável), de desejo, de diferença. Segundo Habermas, todas essas noções conduzem já ao "esquerdismo radical", já ao "anarquismo niilista", já ao "quietismo conservador". Tais atitudes, pretende Habermas, são incapazes de enfocar uma mudança carregada de sentido (e.d., um sentido progressista e moderado, evolutivo e calculador).

Os Nietzscheanos de Direita

É sob o impulso de Arthur Möller van den Bruck que Nietzsche faz sua entrada nas ideologias da direita alemã. Möller van den Bruck parte de um primeiro fato: o defeito maior do marxismo (e.d., o aparato social-democrata) é não se referir senão a um racionalismo abstrato, como o liberalismo. Por isso é incapaz de captar as verdadeiras "fontes da vida". Em 1918, a superestrutura oficial do império alemão se afunda, não tanto pela revolução, como na Rússia, senão pela derrota e pelas reparações impostas pelos Aliados ocidentais. O Exército está fora de jogo. É inútil, então, defender estruturas políticas que já não existem. A direita deve entrar na era das "redefinições", estima Möller van den Bruck, e a partir ele se falará de "neo-nacionalismo".

Se tudo deve ser redefinido, o socialismo deve sê-lo também, aos olhos de Möller.  Não poderia ser já uma "análise objetiva das relações entre a superestrutura e a base", como queria a ideologia positivista da social-democracia segundo o programa de Gotha, senão uma vontade de afirmar a vida. Ao dizer isso, Möller não se contenta com uma declaração grandiloquente sobre a "vida", proclamar um slogan vitalista, senão que desvela os aspectos muito concretos dessa vontade de vida: uma justa redistribuição permite um auge demográfico. A vida triunfa então sobre a recessão. Adiante, agrega Möller, as divisões sociais não deveriam passar entre os ricos que dominam e as massas dos pobres. Pelo contrário, o povo deve ser guiado por uma elite frugal, apta para dirigir as massas cujas necessidades elementais e vitais estejam bem satisfeitas.

Este processo deve se desenvolver em quadros nacionais bem visíveis, assegurando uma transparência e, bem entendido, claramente circunscrito no tempo e no espaço para que o princípio - ninguém pode ignorar a lei - esteja em vigor sem discussão nem coerção.

O mesmo raciocínio em Werner Sombart: o novo socialismo se opõe com veemência ao hedonismo ocidental, ao progressismo, ao utilitarismo. O novo socialismo aceita o trágico, é não-teleológico, não se inscreve em uma história linear, senão funda um novo "Organon", em que se fundem uma vox dei e uma vox populi, como na Idade Média, mas sem feudalismo nem hierarquia rígida.

Para Spengler, se deve avaliar positivamente o socialismo na medida em que é antes de tudo uma "energia" e, acessoriamente, o "estágio último do faustismo declinante". Spengler estima que Nietzsche não foi até o fim de suas idéias políticas no plano político. Será George Bernard Shaw, especialmente em Homem e Super-Homem e Major Bárbara, que enunciará os métodos práticos para assentar o socialismo nietzscheano nas sociedades européias: mescla de educação sem moralismo hipócrita, de darwinismo voltado para a solidariedade (onde as comunidades mais solidárias ganham a competição), de ironia e de distância em relação aos entusiasmos e propagandas. O socialismo deve ser forjado, pois, por espíritos claros, desprovidos de todo reflexo hipócrita, de todo lastro moralizante, de todos esses temores "humanos, demasiado humanos". Nesse caso, conclui Spengler logo de sua leitura de Shaw, "o socialismo não seria um sistema de compaixão, de humanidade, de paz, de pequenos cuidados, senão um sistema de vontade de poder". Toda outra leitura do socialismo seria ilusão. Há que dar ao homem enérgico (aquele que faz passar suas vontades da potência ao ato) a liberdade que lhe permitirá atuar, mais além de todos os obstáculos que poderiam constituir a riqueza, o nascimento ou a tradição. Nessa ótica, liberdade e vontade de poder são sinônimos.

Aschheim mostra em seu livro o laço direto que existiu entre a tradição socialista inglesa, na espécie da Fabian Society animada por Shaw, e a redefinição do socialismo pelos primeiros paladinos da "Revolução Conservadora" alemã. Denominador comum: o rechaço das convenções esterilizantes que bloqueiam o avanço dos homens "enérgicos".

Nietzsche e Nacional-Socialismo

Inicialmente, Nietzsche não tinha boa imprensa nos meios próximos ao NSDAP, que retomaram por sua conta as críticas antinietzscheanas dos pangermanistas, dos eugenistas e dos ideólogos racistas. Os intelectuais do NSDAP seguem de preferência as especulações raciais de Lehmann e se desinteressam de Nietzsche, mais em voga nas esquerdas, entre os literatos, as feministas e nos movimentos de juventude não-politizados. Assim, muito ao início de toda a aventura hitleriana, Dietrich Eckart, o filósofo völkisch de Schwabing, rechaça explícita e sistematicamente a Nietzsche, que é "um enfermo hereditário", que maldiz sem cessar o povo alemão; para Eckart, a lenda de um Nietzsche que vitupera contra a Alemanha porque no fundo a ama apaixonadamente, é uma fraude intelectual. Enfim, assinala, o individualismo egoísta de Nietzsche é totalmente incompatível com o ideal comunitário dos nacional-socialistas. Depois de ter editado exegeses de Nietzsche, não obstante muito mais refinadas, Arthur Drevs, teólogo völkisch enfeudado ao NSDAP, se levanta em 1934 em Nordische Stimme (nº 4/34) contra a tese de um Nietzsche que ama seu país apesar de seus vitupérios antigermâncos e afirma -o que pode ser paradoxal, visto o antissemitismo ambiente - que o jovem poeta judeu Heinrich Heine sim criticava a Alemanha porque a amava de verdade. Nietzsche será acusado em seguida de "filossemitismo": para Aschheim e, antes dele, para Kaufmann, o texto mais significativo da era nazi nesse sentido é o de Curt von Westernhagen, Nietzsche, Juden, Antijuden (Weimar. Duncker, 1936). Alfred von Martin, crítico protestante, revaloriza o humanista Burckhardt e rechaça o negativismo nietzscheano, mais por sua falta de compromisso nacionalista que por seu anticristianismo (Nietzsche und Burckhardt, Munique, 1941). Finalmente, os dois autores pró-nietzscheanos do Terceiro Reich, ademais de Bäumler, a quem analisaremos mais em detalhe, são Edgar Salín (Burckhardt und Nietzsche, Basilea, 1938), que toma a contraparte das teses de von Martin, e o nacionalista alemão, "liguista" (bündisch) e judeu, Hans-Joachim Schöps, (Gestalten an der Zeitwende: Burckhardt, Nietzsche, Kafka; Berlim, Vortrupp Verlag, 1936). Quanto ao crítico literário Kurt Hildebrand, favorável ao nacional-socialismo, critica a interpretação de Nietzsche de Karl Jaspers, como farão bom número de exilados políticos e Walter Kaufmann. Jaspers teria desenvolvido um existencialismo sobre a base dos aspectos menos existencialistas de Nietzsche. Enquanto Nietzsche se opunha a toda transcendência, Jaspers tentava voltar a uma "transcendência doce", descuidando o Zaratustra e a Genealogia da Moral. Enfim, mais importante, a apologia da criatividade em Nietzsche e sua vontade de transmutar todos os valores vigentes, de fazer aflorar uma nova tábua de valores, fazem dele um filósofo de combate que aponta a formar uma nova época emergente. Nesse sentido, Nietzsche não é um intelectual renegado (freischwebend) à medida de seus humores ou de seus caprichos, senão aquele que lança as bases de um sistema normativo e de uma comunidade positiva, cujo fundamento não é já um conjunto fixo de dogmas ou de mandamentos (de "tu deves"), senão um dinamismo efervescente que há que cavalgar e guiar de forma permanente (Kurt Hildebrandt, "Über Deutung und Einordnung von Nietzsche System", Kant-Studien, vol. 41, nr. 3/4, 1936, pp. 221-293). Esse cavalgar e essa orientação necessitam de uma nova educação, mais atenta às forças em potência, aptas a irromper na trama do mundo.

Mais explícito sobre as variações inumeráveis e contraditórias das interpretações de Nietzsche sob o Terceiro Reich é o livro do filósofo italiano Giorgio Penzo, para quem a época nacional-socialista procede mais geralmente a uma desmistificação de Nietzsche. Não se solicita já sua obra tanto para transtornar as convenções, para sacudir as bases de uma moral social paralisada, senão para reinseri-la na história do direito ou, mais parcialmente, para fazer do super-homem nietzscheano um simples equivalente do homem fáustico ou, em Krieck, o horizonte da educação. Se assiste igualmente a desmistificações mais totais, ou se assinala a infecundidade fundamental do anarquismo nietzscheano, no qual se descobre uma "patologia da cultura que conduz à despolitização". Essa crítica de "despolitização" encontra sua apoteose em Steding. Outros fazem do super-homem a expressão de uma simples nostalgia do divino. A época conhece, certamente, suas leituras fanáticas, diz Penzo, onde a encarnação do super-homem é muito simplesmente Hitler (Scheuffler, Öhler, Spethmann, Müller-Rathenow). Única notável exceção nesse magma, bastante confuso, é o filósofo Alfred Baeumler.

Alfred Baeumler

Para Baeumler, no demais muito modelado pelas teses de Bachofen, Nietzsche é um "pensador existencial", isso é um filósofo que nos convida a nos afundarmos na concretude social, política e histórica. Baeumler não retém portanto a crítica de "despolitizador" que alguns, entre eles Steding, haviam dirigido a Nietzsche. Define ele a "existencialidade" como um "realismo heróico" ou um "realismo heraclítico"; o homem e o mundo nessa perspectiva, o homem no mundo e o mundo no homem, estão em perpétuo devir, submetidos a um movimento contínuo, que não conhece nem repouso nem quietude. O super-homem é desse modo uma metáfora para designar tudo que é heróico, e.d., tudo o que luta na trama no devir da existência terrestre.

Se comprova que Baeumler dá prioridade ao "Nietzsche agonal" antes que ao "Nietzsche dionisíaco" que eriçava Steding, porque ele era o principal responsável das formas e das estruturas políticas. Baeumler estima que Nietzsche inaugura a era da Grande Razão dos Corpos, onde a Gebildetbeit, que não se dirige senão ao puro intelecto descuidando o corpo, é inautêntica, enquanto que a Bildung, repousando sobre a intuição, a inteligência intuitiva e uma valorização do corpo, é a chave de toda verdadeira autenticidade. Notemos de passagem que Heidegger, inimigo de Baeumler, também fala de "autenticidade" nessa época. A lógica do corpo, que é uma lógica estética, salva o pensamento, pensa Baeumler, porque toda a cultura ocidental se encerrou em um sistema conceitual frio que já não leva a nada, sistema cuja trajetória foi balizada pelo cristianismo, o humanismo (baseado sobre uma falsa interpretação, adocicada e falsificada, da civilização grecorromana), o racionalismo cientificista. A noção de Corpo (Leih), mais o recurso ao que Baeumler chama a "helenidade verdadeira", e.d. uma helenidade pré-socrática, assim como a uma germanidade verdadeira, e.d. uma germanidade pré-cristã, levam a um retorno ao autêntico, como o provam, na época, as inovações da filologia clássica depois de Bachofen (Walter Otto, etc.). Essa equação entre helenidade pré-socrática, germanidade pré-cristã e autenticidade, constitui o saltus periculosus de Baeumler: negar toda autenticidade ao que saía do campo dessa helenidade e dessa germanidade valeu a Baeumler ser ostracizado durante longo tempo, antes de ser timidamente reabilitado.

Em um segundo tempo, Baeumler politiza essa definição da autenticidade, afirmando que o nacional-socialismo representa "uma concepção do Estado greco-germânica". Baeumler não se entrega demasiado a críticas frustradas, nem a exigências exageradas. Por que afirma que o Estado nacional-socialista é greco-germânico no sentido em que Nietzsche definiu a corporeidade grega e aceitou a valorização grega do corpo? Para poder sustentar isso, Baeumler procedeu a uma interpretação da história cultural da "burguesia alemã", cujos modelos estão todos em quebra sob a República de Weimar. A Aufklärung, primeira grande ideologia burguesa alemã, é uma ideologia negativa porque é individualista, abstrata, e não permite forjar políticas coerentes. O romantismo, segunda grande ideologia da burguesia alemã, é uma tradição positiva. O pietismo, terceira grande ideologia burguesa na Alemanha, é rechaçado pelos mesmos motivos que a Aufklärung. O romantismo é positivo porque permite uma abertura ao Volk, ao mito e ao passado, portanto ultrapassar o individualismo, o positivismo mesquinho e a fascinação infecunda pelo progresso. Não obstante, em geral, a burguesia não tirou as lições práticas que teria sido preciso tirar de partida do romantismo. Baeumler critica a burguesia alemã o ter sido "preguiçosa" e ter escolhido um expediente: imitou e importou modelos estrangeiros (inglês ou francês) que calcou sobre a realidade alemã.

Entre as miscelâneas ideológicas burguesas, a mais importante foi o "classicismo alemão", espécie de misto artificial de Aufklärung e de romantismo, incapaz, segundo Baeumler, de gerar instituições, um direito e uma constituição autenticamente alemães. Ao rechaçar a Aufklärung e o pietismo, religando-se com o filão romântico, explica e espera Baeumler, o nacional-socialismo poderá "trabalhar para elaborar instituições e um direito alemães". Porém o novo regime jamais terá tempo de terminar essa tarefa.

Na interpretação baeumleriana de Nietzsche, a morte de Deus é sinônimo da morte do Deus medieval. Deus em si não pode morrer, porque não é outra coisa que uma personificação do Destino (Schicksal). Este suscita, por meio de fortes personalidades, formas políticas mais ou menos efêmeras. Essas personalidades não teorizam, atuam, o destino fala por elas. A Ação destrói o que existe e se embotou. A Decisão é a existência mesma, porque decidir é ser, é se transformar em uma porta que o Destino força para se precipitar na realidade. Ernst Jünger teria falado da "irrupção do elemental". Para Baeumler, o "sujeito" tem pouco de valor em si, não a adquire senão por sua Ação e por suas Decisões históricas. Essa negação do "valor em si" do sujeito funda o anti-humanismo de Baeumler, que se reencontra finalmente, sob outra forma em uma linguagem marxistizada, em Althusser, p. ex.; em quem a "função prática-social" da ideologia toma a dianteira sobre o conhecimento puro (como, na concepção de Baeumler, ao mergulhar na vida real se concedia maior importância que a cultura livresca da ideologia das Luzes ou do classicismo alemão). Para Althusser, cujo pensamento chegou a sua maturidade em um campo de prisioneiros na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, a ideologia (a Weltanschauung) era uma nova instância movente, levada por pensadores que agarraram a concretude, a que permitia pôr em manifesto as relações do homem com as condições de sua existência, ajudá-lo no combate contra as "autoridades fixas", que o obrigam a repetir sem cessar - "sisificamente", estaríamos tentados a dizer - os mesmos gestos apesar das mutações que se operam no real. Para Althusser, a ideologia não pode jamais, por conseguinte, se mudar em ciência rígida e fechada, não pode chegar a ser puro discurso de representação; e enquanto conceitualização permanente e dinâmica dos fatos concretos, discute sempre o primado da autoridade política ou político-econômica instalada e estabelecida; tal como o "anarquismo" esquerdista e nietzscheano de Landauer recusava as rigidizações convencionais, porque elas eram outras tantas barreiras para a irrupção das potencialidades em gérmen nas comunidades concretas. Enfim, não nos parece ilegítimo comparar as noções de "autenticidade" em Baeumler (e Heidegger) e de "concretude" em Althusser, e proceder a uma "fertilização cruzada" entre elas.

O anti-humanismo de Baeumler repousa, por sua parte, em três pilares, em três obras: as de Winckelmann, de Hölderlin e de Nietzsche. Winckelmann rasgou a imagem feita que as "humanidades" haviam dado da antiguidade a gerações e gerações de europeus. Winckelmann revalorizou Homero e Ésquilo antes que a Virgílio e Sênica. Hölderlin assinalou a relação entre a helenidade fundamental e a germanidade. Porém o anti-humanismo de Baeumler é uma "revolução tranquila", mais bem "metapolítica"; avança silenciosamente, a passos de pomba, a medida que rodam e se afundam dogmas, certezas e representações paralisadas, principalmente as do humanismo, inimigo comum de Baeumler e Althusser.