sexta-feira, 25 de abril de 2014

Mikhail Smolin - Ucrânia: Geopolítica & Identidade

por Mikhail Smolin



Em 1912, o excelente jurista, professor e doutor de direito internacional russo Pyotr Evgenievich Kazansky escreveu:

"Vivemos em um tempo desorientador, em que estados artificiais, povos artificiais e línguas artificiais são fundados".

Em nossa própria era, velhas ficções históricas estão voltando de novo do nada.Uma das mais perigosas é o "ucrainismo", que tenta dar uma base ideológica e histórico-política para o desmembramento do corpo russo, separando dele os pequenos russos, tendo autodefinido aos mesmos como "ucranianos" desconhecidos para a história. Tais "formações nacionais" não possuem raízes etno-históricas; elas são um produto da era moderna. Antes da Revolução a nação russa era una, e os termos Velikorus (Grande Russo), Malorus (Pequeno Russo) e Belorus (Russo Branco) eram percebidos como conceitos determinando o local geográfico de origem de um ou outro cidadão russo do Império Russo. Separatistas nacionais apropriam significados etnográficos a esses nomes, em contradição com a realidade histórica de sua origem.

O aparecimento de tais conceitos como Pequena Rússia, Grande Rússia, pequeno russo, grande russo, etc., deve ser relacionado ao tempo após a invasão tártara. Uma Rus unida foi desmembrada pelo inimigo em uma Rus do norte, Vladimir-Suzdal, posteriormente transformada em Moscou, e Rus do sul - Galícia-Volynia - que então ingressou no estado russo-lituano, e após a união com a Polônia, na Rzeczpospolita. Porém, sob essas condições, a vida política e a vida da Igreja entre as partes desmembradas da mesma Rus não cessou. A autoridade religiosa do Patriarcado de Constantinopla sobre a Igreja Ortodoxa Russa, que então existia como um bispado desse patriarcado, foi reconhecida tanto na Rus do norte como no sudoeste. As relações políticas entre ambas as partes do Rus com o imperador bizantino também continuaram a existir. A necessidade de comunicação com uma Rus fragmentada em dois forçou os clérigos e estadistas de Bizâncio a diferenciar uma Rusa da outra em seus documentos, tendo dado a cada qual uma certa designação. Os bizantinos aplicaram termos geográficos disponíveis da antiguidade clássica: o pequeno país e o grande país. Esses termos geográficos significam que a metrópole inicial de um dado povo é chamada de pequena terra, e as terras colonizadas pela metrópole desse povo são chamadas de grandes terras.

Na pronúncia grega, u foi substituído por o, e portanto os bizantinos chamaram o povo russo de Ρώσοι, e nosso país foi conhecido como Ρωσσία. Partindo daí, os bizantinos letrados chamaram a Galícia-Volynia e a Rus de Kiev Pequena, e a Rus do Norte, Vladimir-Suzdal e Moscóvia Grande. Através dos acadêmicos russos, essa terminologia penetrou na Rus e se tornou natural tanto na Pequena como na Grande Rus. Enquanto tal, as compreensões históricas da Pequena Rússia e Grande Rússia chegaram a nós como a propriedade cultural do Império Bizantino.

Agora passemos às raízes históricas do nacionalismo ucraniano. De onde apareceram "ucranianos" e "Ucrânia" no lugar de termos históricos como pequeno russo e Pequena Rússia?

Começaremos do fato de que a palavra "Ucrânia" e "ucraniano" nas crônicas russas são encontradas apenas no sentido de terras fronteiriças, não como uma terra povoada por um povo "ucraniano" desconhecido. A palavra ukraina é apenas outra forma da palavra okraina (terra fronteiriça).

Pesquisadores do nacionalismo ucraniano relatam o aparecimento da palavra ukraina, no sentido de um substantivo próprio ao invés de comum, ao fim do século XVII, quando após a Rada de Pereyaslavl de 1654 e a "paz eterna" concluída em 1686 entre o Estado russo e a Polônia (segundo a qual o lado esquerdo da Malorussia com Kiev passou à posse eterna do Estado russo), os poloneses compreenderam que perigo real a fé e etnia comuns entre os residentes das fronteiras polonesas e o Estado russo portavam. Objetivando suprimir o desejo do povo russo vivendo na Polônia de se reunir com o Estado russo, acadêmicos poloneses dirigiram todos os seus esforços para provar que não há russos na Polônia, apenas uma nacionalidade "ucraniana" especial. Na historiografia, há quase um consenso total no papel da influência polonesa no divórcio entre Pequena Rússia e Rússia e na formação de um movimento ucrainófilo.

Resumindo essas opiniões, podemos repetir junto a um dos pesquisadores dessa questão que os poloneses "assumiram para si o papel de uma parteira durante o nascimento do nacionalismo ucraniano e uma babá durante sua criação".

O Século XX

A "Rus anti-russa", fundada pelos poloneses no século XIX sob o disfarce de ucraínofilismo para o fim nacional de combater o Império Russo por sua soberania perdida, mudou de mestres um número de vezes no século XX. Entre eles estiveram os austríacos, os alemães e os americanos, mas o objetivo da existência do movimento sempre foi a mesma: o desmembramento da nação russa.

De sua parte, a Áustria-Hungria sonhava em criar um reino kievano aliado chefiado por um ou outro ramo dos Hohenzollerns ou Habsburgos. A Alemanha, como a potência mais forte, ultrapassou em seus desígnios uma Áustria-Hungria enfraquecida por disfunção interna, conforme esse império pensava mais em como preservar o que já estava em sua posse.

O desejo da Alemanha de arrancar todo o sul do Império Russo (o carvão de Donetsk, o petróleo de Baku, etc) se conformava a sonhos longínquos de uma penetração no leste - aqui se pode relembrar o projeto de uma ferrovia de Berlim a Constantinopla e Bagdá, e também a escolha de aliados para a Primeira Guerra Mundial - Áustria-Hungria, Bulgária e Turquia - novamente uma tentativa de criar uma linha de Berlim a Bagdá. Daí o desejo de enfraquecer a Rússia o máximo possível antes de batalhas decisivas em escala global, para as quais a Alemanha já se preparava há décadas. E assim, por exemplo, sob o Estado-Maior alemão muito antes da Primeira Guerra Mundial, havia já organizada uma seção engajada em questões ucranianas. Essa seção executava projetos e organizava desunião dentro da nação russa.

Como pesquisador do nacionalismo ucraniano o príncipe A. M. Volkonsky escreveu:

"A Alemanha precisava romper os laços linguísticos entre o pequeno russo e o grande russo, pois tendo afastado a classe cultua do sul da Rússia de sua língua literária e acadêmica, seria mais fácil impor a cultura alemã sobre o país. Os alemães começaram a apoiar a artificial 'mova' ucraniana. Eles agiram ao modo alemão, sistematicamente e sem perder tempo. Do primeiro ano da Grande Guerra, prisioneiros malorrussos foram separados em campos especiais e sujeitos a 'ucrainização'; para os mais suscetíveis, algo como uma 'Academia de Ucrainização' foi organizada em Königsberg. Centenas de milhares de prisioneiros de guerra propagandizados retornando para a Pequena Rússia em 1918 se tornaram o principal instrumento de difusão da idéia ucraniana no meio campesino". (Príncipe A. M. Volkonsky, Verdade Histórica e Propaganda Ucrainófila. Turim, 1920. pg 129).

A conspiração maçônica de fevereiro de 1917 não permitiu que o imperador Nicolau II realizasse a ofensiva geral de primavera junto à frente oriental e de uma vez por todas rompesse as linhas do inimigo exaurido. Após diversos meses, a Alemanha foi capaz de levar seus protegidos ao poder na Rússia - os bolcheviques leninistas - e os mazepitas de Grushevsky na "Ucrânia independente". Assim a Alemanha recebeu um adiamento da derrota inevitável na Primeira Guerra Mundial por todo um ano.

O sul da Rússia era vitalmente importante para a Alemanha. Matthias Erzberger, um ministro alemão, disse em uma reunião institucional:

"A questão russa é nada menos que parte de um grande debate que os alemães estão conduzindo com os ingleses sobre o objetivo da dominação global. Nós precisamos da Lituânia e da Ucrânia, que devem ser as posições avançadas da Alemanha. A Polônia deve ser enfraquecida. E se a Polônia estiver em nossas mãos, então deveremos fechar todas as rotas para a Rússia, e ela nos pertencerá. Não está claro que apenas nesse caminho se encontra o futuro da Alemanha?"

Os estadistas alemães agiram de forma completamente consciente e sistematicamente naquele caminho, como evidenciado pelo chanceler alemão Michaelis em junho de 1917:

"Nós devemos ter bastante cuidado com que a literatura pela qual esperamos fortalecer o processo do colapso da Rússia não alcance exatamente o fim oposto... Os ucranianos ainda não obstante rejeitam a idéia de separação total da Rússia. Interferência aberta de nosso lado em favor de um Estado ucraniano independente pode indubitavelmente ser usada pelo adversário para o objetivo de expôr correntes nacionalistas como criadas pela Alemanha. (Zeman, Z.A., Alemanha e a Revolução na Rússia 1915-1918. Nova Iorque, 1958, p. 65-67).

Mas todas as hesitações foram descartadas quando a questão do destino da Alemanha se tornou mais aguda. Daí a noção sugerida pelos alemães aos ideólogos do ucrainismo sobre uma "Ucrânia independente dos Cárpatos ao Cáucaso sem mestre ou servo". E os alemães consideravam que a partir do Cáucaso, eles mesmos poderiam alcançar o Oriente Médio.

Àquela época também apareceram idéias de uma união do Mar Negro ao Mar Báltico (a restauração da Rzrzcpospolita em uma nova fase da história?) - a alinha de Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia, Bielorrússia e Malorrússia. Essa possibilidade é agora prevista em planos futuros na luta contra a Rússia: a separação da "asiática" Moscou da Europa "civilizada" por um muro de europeus de "segunda classe"...

O separatismo ucraniano no século XX se torna cada vez mais desprovido de princípios - está disposto a se reconciliar com qualquer regime desde que apoie seu lado, i.e, de um ou outro modo apoiasse o movimento ucraniano. E tantos defensores da independência, chefiados por M. Grushevsky, finalmente acabou no campo dos bolcheviques, que reconheceram os termos "ucranianos", "Ucrânia" e a "língua ucraniana". Em 1923, após o Vigésimo Congresso, os comunistas declararam uma política de indigenização, o desenvolvimento de todas as nacionalidades não-russas (e aquelas consideradas não-russas), um programa expressado na Ucrânia através da ucrainização da população e a introdução da língua ucraniana começando com o Estado e oficiais do partido. Tendo chegado ao poder, os bolcheviques geralmente criaram todas as condições para o crescimento e amadurecimento do nacionalismo ucraniano, que após a morte de seu supervisor comunista rasgou a unidade do povo russo, ameaçando eventualmente se tornar um baluarte avançado de forças anti-russas no mundo.

O Estado moderno da Ucrânia adota em todas as manifestações de suas políticas uma posição consistentemente anti-russa. Como no início do século XX, o separatismo ucraniano é encarregado com a fundação de uma nação de "ucranianos" pela formação de uma elite ideológica ucraniana, que deve moldar uma única nação das distinções etnográficas da população malorrussa de várias províncias e do mito de uma tribo cossaca unificada. Uma etnogênese artificial voluntária é criada no caldeirão do Estado ucraniano. M. Grushevsky escreveria que o "ucranianismo na Rússia deve ir além das fronteiras da nacionalidade etnográfica para se tornar um fator político e econômico e atender à organização da sociedade ucraniana como nação agora se la não quiser ficar várias gerações atrasada".

A história russa demonstrou que os mais terríveis inimigos do povo russo tem sido de natureza interna. Os russos em sua placidez não conseguem acreditar plenamente que entre eles possa haver traidores. Por isso a questão ucraniana é tão importante, pois ela é uma questão de unidade interna da nação de uma nova reunião de terras que aguarda nosso despertar político-nacional. Assim escreveu o ideólogo da discórdia, Dmitry Dontsov:

"Como regra, a questão ucraniana aparece como um cometa sobre os céus da Europa toda vez que um momento crítico emerge para a Rússia"

Os objetivos nacionais de povos que amadureceram à atividade em uma escala global são sempre dirigidos para o domínio pleno de seu território natural e influência sobre terras vitais adjuntas à nação. Portanto, por um lado, a tarefa da nação consiste em definir as fronteiras naturais da difusão de seu domínio e no estabelecimento de influência necessária sobre regiões vizinhas vitais. Pelo outro lado, se segue disso o ter cautela em relação a noções como a de hegemonia global, já que elas inevitavelmente levam a um desperdício extremo das energias da nação e não trazem os resultados desejados.

Para a conquista dos objetivos definidos, a saúde espiritual e unidade interna da nação são necessárias. A primeira é alcançada pelo apoio à crença que é a verdade para a nação. Os russos confessam a ortodoxia, a única fé verdadeira e salvífica, e portanto a preservação da fé ortodoxa é a principal tarefa tanto para a Igreja e o Estado como para cada russo. A segunda é alcançada pela organização e apoio corretos da vida soberana, social e cultural da nação, que é necessária para proteger de influências externas danosas, especialmente se elas são apontadas, por exemplo, ao ucranianismo, o cisma da nação russa.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Kerry Bolton - A Política de Lovecraft

por Kerry Bolton


Para muitos de seus admiradores, as coisas mais assustadoras que H.P. Lovecraft escreveu não eram sobre Cthulhu, eram sobre política. Mas, como eu espero demonstrar, a política desse mestre do horror metafísico, irracional, iminente está solidamente fundada na realidade e na razão. Lovecraft, como muitos dos letrados que se voltaram para a política de esquerda ou de direita no início do século XX, estava preocupado com o impacto do capitalismo e da tecnologia na sociedade e na cultura. O reducionismo econômico do capitalismo era simplesmente espelhado no marxismo, ambos sendo emanações do mesmo Zeitgeist materialista moderno.

Começando ao fim do século XIX, um descontentamento penetrante com o materialismo levou a uma busca por uma forma alternativa de sociedade, incluindo fundações alternativas para o socialismo, que ocupou as mentes dos principais socialistas europeus como Georges Sorel. O que emergiu no início do século XX foi variadamente chamado "neo-socialismo" e "planismo", tendo como maiores expoentes Marcel Deat na França e Henri De Man na Bélgica. O neo-socialismo, por sua vez, influenciou a ascensão do fascismo.

Os neo-socialistas temiam primariamente que a abundância material e o ócio prometidos pelo socialismo levariam à decadência e banalidade a não ser que unidas a uma visão hierárquica da cultura e da educação.

Essa era, por exemplo, o foco de A Alma do Homem sob o Socialismo de Oscar Wilde, que visualizava um socialismo individualista que liberava a humanidade da necessidade econômica para buscar a auto-atualização e atividades culturais e espirituais superiores, ainda que essas não consistissem em mais do que contemplar silenciosamente o cosmo.

Tais preocupações não podem ser descartadas como dandismo afeminado. Elas eram partilhadas, por exemplo, pelo famoso político trabalhista neozelandês da era da Crise John A. Lee, um herói de um só braço da Primeira Guerra Mundial que mais do que qualquer outro indivíduo tentou pressionar o governo trabalhista de 1935 a manter suas promessas eleitorais em relação aos bancos e ao crédito público. Nas palavras de Lee:

"Joe Savage...vê o socialismo como pilhas de bens razoavelmente bem distribuídos e trabalho equitativamente dividido. Eu tenho certeza que ele nunca o vê como a oportunidade de jogar futebol, se bronzear na praia, dançar foxtrot, deixar sob a sombra de árvores, desfrutar da intoxicação do verso, o perfume de flores, as alegrias de um livro, a emoção da música".

Lee visualizava uma forma de socialismo que não estava primariamente dirigida a "pilhas de bens e trabalho equitativamente distribuídos" como um fim em si mesmo, mas como meio de alcançar níveis superiores de ser.

Essas preocupações neo-socialistas também eram partilhadas pelos fascistas e Nacional-Socialistas. Combatendo os efeitos enervadores e niveladores da riqueza e do ócio, e edificando os caráteres e gostos das massas eram os objetivos do Dopolavoro na Itália Fascista e do Kraft Durch Freude na Alemanha Nacional-Socialista, independentemente do quanto isso possa ser inquietante para os socialistas de esquerda.

Enquanto parece improvável que Lovecraft tivesse consciência desse tumulto ideológico no socialismo europeu, ele chegou a conclusões similares em algumas áreas centrais.

Lovecraft, como outros escritores que rejeitaram o marxismo, considerava tanto a democracia como o comunismo "falaciosos para a civilização ocidental". Ao invés, Lovecraft favorecia:

"...um tipo de fascismo que possa, enquanto ajuda as massas perigosas às custas dos desnecessariamente ricos, não obstante preservar o essencial da civilização tradicional e deixar o poder político nas mãos de uma classe governante pequena e cultivada (mas não excessivamente rica) majoritariamente hereditária, porém sujeita a uma ampliação gradual conforme outros indivíduos ascendam a seu nível cultural"

Lovecraft temia que o socialismo, como o capitalismo, pavimentaria o caminho para a proletarização universal e consequente nivelamento da cultura. Assim ele propunha ao invés o pleo emprego e o encurtamento do dia de trabalho pela mecanização sob a orientação cultural de um regime fascista-socialista aristocrático.

Isso novamente era provavelmente um intuição perceptiva a que Lovecraft chegou de forma independente, mas era de modo geral parte do novo pensamento econômico à época. Na Inglaterra, a revista socialista fabiana, The New Age, editada pelo socialista de guilda A. R. Orage, se tornou um fórum para discutir a teoria do "Crédito Social" do major C. H. Douglas, que era proposta como uma alternativa ao sistema financeiro de dívida, com a emissão de um "crédito social" para todos os cidadãos através de um "Dividendo Nacional" permitindo que o valor total da produção seja consumido. Eles também objetivavam promover a mecanização para reduzir as horas de trabalho e aumentar o tempo de ócio, que eles pensavam poder conduzir a um florescimento da cultura. (Essas idéias tem relevância renovada na medida em que o dia de trabalho de oito horas, a dura conquista dos primórdios do movimento trabalhista, está perdendo terreno).

Tanto Ezra Pound como o poeta neozelandês Rex Fairburn eram defensores do Crédito Social porque eles julgavam ser este o melhor sistema econômico para as artes e a cultura.

Lovecraft estava preocupado com a eliminação das causas da revolução social, e ele defendia a limitação da vasta acumulação de riqueza, ao mesmo tempo reconhecendo a necessidade de manter disparidades de renda baseadas no mérito. Sua preocupação era a eliminação dos "oligarcas comerciais", o que em termos práticos era o propósito do Crédito Social e dos neo-socialistas.

Ao mesmo tempo que considerava como o objetivo primário de uma nação o desenvolvimento de altos níveis estéticos e intelectuais, Lovecraft reconhecia que tal sociedade deve se basear na organização social tradicional de "ordem, coragem e resistência", sua definição de civilização sendo o de um organismo social devotado a um "objetivo qualitativo superior" mantido pelo ethos supramencionado.

Lovecraft pensava que a ordem social hierárquica mais adequada para as praticidades da nova era da máquina era uma "fascista". O "estímulo demanda-oferta" substituiria o estímulo de lucro em uma economia dirigida pelo Estado que reduziria as horas de trabalho e aumentaria as horas de ócio. O cidadão poderia então ser elevado culturalmente e intelectualmente tão longe quanto suas habilidades inatas permitissem, "de modo que esse ócio será o de uma pessoa civilizada ao invés do de um tolo frequentador de cinemas, salões de dança e mesas de sinuca".

Lovecraft não via sabedoria no sufrágio universal. Ele defendia um tipo de neo-aristocracia ou meritocracia, com direito a voto e ocupação de cargos públicos "extremamente restrito". Uma civilização tecnológica especializada havia tornado o sufrágio universal "uma zombaria e uma troça". Ele escreveu que, "as pessoas não possuem geralmente a perspicácia para dirigir uma civilização tecnológica efetivamente". Esse princípio antidemocrático Lovecraft mantinha como verdadeiro independentemente de posição social ou econômica, fosse como trabalhador braçal ou como acadêmico.

O voto desinformado sobre o qual a democracia se apoia, Lovecraft escreveu, "é motivo de gargalhadas cósmicas tumultuosas". A participação universal significava que o desqualificado, geralmente representando algum "interesse oculto", assumiria o cargo com base em ter "a língua mais escorregadia" e "os slogans mais chamativos".

Sua referência a "interesses ocultos" só pode se referir a sua compreensão da natureza oligárquica da democracia. Isso teria que ser substituído por "um governo fascista racional", onde o cargo demandaria um teste de conhecimento de economia, história, sociologia e administração, ainda que todos - com a exceção de estrangeiros não-assimiláveis - teriam a oportunidade de se qualificarem.

Um ano após Mussolini tomar o poder em 1922 Lovecraft escreveu que, "a democracia é um falso ídolo - um mero slogan e uma ilusão de classes inferiores, visionários e civilizações agonizantes". Ele viu na Itália Fascista "o tipo de controle social e político autoritário que é o único capaz de produzir coisas que tornam a vida digna de ser vivida".

É também por isso que Ezra Pound admirava a Itália fascista, escrevendo "Mussolini disse a seu povo que a poesia é uma necessidade para o Estado". E: "Eu não acredito que qualquer estimativa de Mussolini será válida a não ser que parta de sua paixão pela construção. Trate-o como artifex e todos os detalhes se encaixam. Tome-o como qualquer coisa além de um artista e você se perderá nas contradições".

Tais figuras como Pound, Marinetti e Lovecraft viam o fascismo como um movimento que poderia com sucesso subordinar a civilização moderna tecnológica à alta arte e cultura, liberando as massas de uma cultura popular commoditizada crua e brutalizante.

Lovecraft pensava que o cosmos era indiferente à humanidade e conclui que o único sentido da existência humana era atingir níveis cada vez mais altos de desenvolvimento mental e estético. O que Sir Oswald Mosley chamava atualização a Formas Superiores em seu pensamento no pós-guerra, e o que Nietzsche chamava de objetivo do Homem Superior e do Super-Homem, não poderia ser alcançado através dos "baixos padrões culturais de uma maioria subdesenvolvidas. Tal civilização de mero trabalhar, comer, beber, procriar e vagamente vagabundear ou brincar não é digna de ser mantida". É uma forma de morte que se arrasta e é particularmente dolorosa para a elite cultural.

Lovecraft era bastante influenciado por Nietzsche e Oswald Spengler. Ele reconhecia a natureza cíclica orgânica de nascimento, juventude, maturidade, senilidade e morte culturais como a base da história da ascensão e queda de civilizações. Assim a crise trazida à civilização ocidental pela era das máquinas não era única. Lovecraft cita O Declínio do Ocidente de Spengler como suporte para sua visão de que a civilização havia alcançado o ciclo de "senilidade".

Lovecraft via o declínio cultural como um lento processo que abarca 500 a 1000 anos. Ele buscava um sistema que poderia superar as leis cíclicas de decadência, o que era também a motivação do fascismo. Lovecraft acreditava ser possível restabelecer um novo "equilíbrio" ao longo do 50 a 100 anos, afirmando: "Não há necessidade de se preocupar com a civilização desde que a linguagem e a tradição artística geral sobrevivam". A tradição cultural deve ser mantida acima e além das mudanças econômicas.

Em 1915, Lovecraft estabeleceu sua própria revista política chamada O Conservador, que foi lançada por 13 edições até 1923. O foco da revista era defender altos padrões culturais, particularmente no campo das Letras, mas também se opunha ao pacifismo, ao anarquismo, e ao socialismo e apoiava um "militarismo moderado e sadio" e o "pan-saxonismo", significando que "a dominação do inglês e raças aparentadas sobre as divisões inferiores da humanidade".

Como os neo-socialistas na Europa, Lovecraft se opunha à concepção materialista da história como sendo igualmente burguesa e marxista. Ele via o comunismo como "destruindo o gosto pela vida" em prol de uma teoria. Rejeitando o determinismo econômico como o motivo primário da história, ele via "aristocratas naturais" emergindo de todos os setores de uma população independentemente de status econômico. O objetivo de uma sociedade era substituir "a excelência pessoal por aquela de uma posição econômica" que é, apesar da oposição declarada de Lovecraft ao "socialismo", não obstante essencialmente o mesmo que o "socialismo ético" proposto por Henri De Man, Marcel Deat, et al. Lovecraft via o fascismo como a tentativa de alcançar essa forma de aristocracia no contexto da sociedade industrial e tecnológica moderna.

Lovecraft via a busca da "igualdade" como uma razão destrutiva para uma "revolta atávica" contra a civilização por aqueles que se sentem desconfortáveis com cultura. O mesmo motivo era a raiz do bolchevismo, da Revolução Francesa, o culto de "volta à natureza" de Rousseau, e os racionalistas do século XVIII. Lovecraft via que a mesma revolta estava sendo assumida por "raças atrasadas" sob a liderança dos bolcheviques.

Essas visões são claramente nietzscheanas, mas elas ainda mais especificamente se assemelham as de A Revolta Contra a Civilização: A Ameaça do Sub-Humano, pelo então popular autor Lothrop Stoddard, cuja obra teria certamente atraído Lovecraft, com sua preocupação pela manutenção e renascimento da civilização e rejeição de credos niveladores.

Ainda que Lovecraft rejeitasse o igualitarismo, ele não defendia uma tirana que reprimisse as massas em benefício dos poucos. Ao invés, ele via o governo de uma elite como meio necessário para alcançar os objetivos superiores de atualização cultural. Lovecraft desejava ver a elevação do maior número possível. Lovecraft também rejeitava divisões de classe como "cruéis", seja emanando do proletariado ou da aristocracia. "Classes são algo de que devemos nos livrar ou minimizar - e não algo a ser oficialmente reconhecido". Lovecraft propunha substituir a luta de classes por um estado integral que refletisse a "corrente cultural geral". Entre o indivíduo e o Estado haveria uma lealdade de mão dupla.

Lovecraft considerava o pacifismo como uma "evasão e ar quente idealista". Ele declarou o internacionalismo "uma ilusão e mito". Ele via a Liga das Nações como uma "ópera cômica". As guerras são uma constante na história e para elas devem se preparar pela conscrição universal. Historicamente, a guerra havia fortalecido a "fibra nacional", mas a guerra mecanizada havia negado o processo; na verdade a destruição tecnológica em massa da Primeira Guerra Mundial era amplamente reconhecida como disgênica. Não obstante, o europeu, e especificamente o anglo-saxão, deve manter sua supremacia pelo poder de fogo, pois "a bala de um adversário é mais doce que o chicote de um mestre". Porém, como se deve esperar de um antimaterialista, Lovecraft repudiava a causa moderna típica da guerra, aquela de lutar por supremacia mercantil, "a defesa de sua própria terra e raça sendo o objetivo adequado do armamento".

Lovecraft via a representação judaica nas artes como responsável pelo que Francis Parker Yockey chamaria de "distorção cultural". A cidade de Nova Iorque havia sido "completamente semitizada" e perdida para o "tecido nacional". A influência semítica na literatura, teatro, finanças e propaganda criaram uma cultural e ideologia artificiais "radicalmente hostis à atitude viril americana". Como Yockey, Lovecraft via a Questão Judaica como uma questão de uma "tradição cultural antagonista" mais do que como uma diferença de raça. Assim os judeus poderiam teoricamente ser assimilados a uma tradição cultural americana. O problema do negro, porém, era um de biologia e deve ser reconhecido pela manutenção de uma "linha de cor absoluta".

Esse breve esboço é suficiente, eu penso, para demonstrar que Lovecraft pertence a uma ilustre lista de gênios criativos do século XX - incluindo W. B. Yeats, Ezra Pound, D. H. Lawrence, Knut Hamsun, Henry Williamson, Wyndham Lewis e Yukio Mishima - cuja rejeição do materialismo, igualitarismo e decadência cultural os fez buscar por uma alternativa hierárquica vital tanto ao capitalismo como ao comunismo, uma busca que os levou a considerar e abraçar idéias protofascistas, fascistas ou nacional-socialistas.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Robert Steuckers - Fundações do Nacionalismo Russo

por Robert Steuckers



Ao longo de sua história, a Rússia tem sido apartada da dinâmica européia. Seu nacionalismo e ideologia nacional são marcados por um jogo duplo de atração e repulsão em relação a Europa em particular e ao Ocidente em geral.

O famoso eslavista italiano Aldo Ferrari aponta que do século X ao XIII, a Rússia de Kiev estava bem integrada no sistema econômico medieval. A invasão tártara afastou a Rússia do Ocidente. Posteriormente, quando o Principado de Moscou se reorganizou e expulsou os resíduos do Império Tártaro, a Rússia passou a se ver como uma nova Bizâncio Ortodoxa, diferente do Ocidente católico e protestante. A vitória de Moscou deu início ao impulso russo em direção à vastidão siberiana.

A ascensão de Pedro o Grande, o reinado de Catarina a Grande, e o século XIX trouxeram uma tentativa de reaproximação com o Ocidente.

Para muitos observadores, a revolução comunista inaugurou uma nova fase de isolamento autárquico e desocidentalização, apesar da origem euro-ocidental de sua ideologia, o marxismo.

Mas a ocidentalização do século XIX não havia sido unanimemente aceita. No início do século, uma corrente fundamentalista, romântica e nacionalista apareceu com veemência por toda a Rússia: contra os "ocidentalistas" emergiram os "eslavófilos". A maior clivagem entre a esquerda e a direita nasceu na Rússia, no rastro do romantismo alemão. Ela está viva ainda em Moscou, onde o debate está cada vez mais vivo.

O líder dos ocidentalistas no século XIX era Piotr Chaadaev. As mais notáveis figuras do campo "eslavófilo" eram Ivan Kireevski, Aleksei Khomiakov, e Ivan Axakov. O ocidentalismo russo se desenvolveu em diversas direções: liberal, anarquista, socialista. Os eslavófilos desenvolveram uma corrente ideológica se apoiando em dois sistemas de valores: cristianismo ortodoxo e comunidade camponesa. Em termos não-propagandísticos, isso significava a autonomia das igrejas nacionais e um selvagem anti-individualismo que considerava o liberalismo ocidental, especialmente sua variedade anglo-saxã, como uma verdadeira abominação.

Ao longo das décadas, essa divisão se tornou cada vez mais complexa. Certos esquerdistas evoluíram em direção a um particularismo russo, um socialismo anti-capitalista anarco-campesino. A direita eslavófila se transmutou no "pan-eslavismo" manipulado para promover a expansão russa nos Balcãs (apoiando romenos, sérvios, búlgaros e gregos contra os otomanos).

Entre estes "pan-eslavistas" estava o filósofo Nikolay Danilevsky, autor de um audacioso panorama histórico retratando a Europa como uma comunidade de velhos drenados de suas energias históricas, e os eslavos como uma falange de povos jovens destinados a governar o mundo. Sob a direção da Rússia, os eslavos devem tomar Constantinopla, reassumir o papel de Bizâncio, e construir um império imperecível.

Contra o programa de Danilevsky, o filósofo Konstantin Leontiev queria uma aliança entre Islã e Ortodoxia contra o fermento liberal de dissolução do Ocidente. Ele se opunha a todo conflito entre russos e otomanos nos Balcãs. O inimigo era acima de tudo anglo-saxão. A visão de Leontiev ainda tem apelo para muitos russos hoje.

Finalmente, no Diário de Inverno, Dostoévski desenvolveu idéias similares (a juventude dos povos eslavos, a perversão do Ocidente liberal) às quais ele acrescentou um anti-catolicismo radical. Dostoévski veio a inspirar em particular os "nacional-bolcheviques" alemães da República de Weimar (Niekisch, Paetel, Moeller van den Bruck, que foi seu tradutor).

Após a construção da ferrovia trans-siberiana sob a direção enérgica do ministro Witte, uma ideologia pragmática e autárquica de "eurasianismo" emergiu que objetivava colocar a região sob controle russos, fosse dirigida por um Czar ou por um Vojd ("Chefe") soviético.

Os ideólogos "eurasianos" são Troubetzkoy, Savitski e Vernadsky. Para eles, a Rússia não é uma parte oriental da Europa mas um continente em si mesmo, que ocupa o centro da "Ilha Mundial" que o geopolítico britânico Halford John Mackinder chamava de "Heartland". Para Mackinder, a potência que conseguisse controlar "Heartland" era automaticamente mestre do planeta.

De fato, essa "Heartland", nomeadamente a área se estendendo de Moscou aos Urais e dos Urais ao Transbaikal, era inacessível para potências marítimas como Inglaterra e Estados Unidos. Isso poderia, portanto, mantê-los em cheque.

A política soviética, especialmente durante a Guerra Fria, sempre tentou realizar os piores temores de Mackinder, i.e., tornar o centro russo-siberiano da URSS impregnável. Mesmo na era do poder nuclear, da aviação e dos mísseis transcontinentais. Essa "santuarização" da "Heartland" soviética constituía a ideologia semi-oficial do Exército Vermelho de Stálin a Brezhnev.

Os neo-nacionalistas imperiais, os nacional-comunistas e os patriotas se opunham a Gorbachev e Iéltsin porque eles desmantelaram os glacis euro-orientais, ucraniano, bálticos e centro-asiáticos dessa "Heartland".

Essas são as premissas do nacionalismo russo, cujas múltiplas correntes hoje oscilam entre um pólo populista-eslavófilo ("narodniki", de "narod", povo), um pólo pan-eslavista, e um pólo eurasiano. Para Aldo Ferrari, o nacionalismo russo de hoje é subdividido entre quatro correntes: (a) neo-eslavófilos, (b) eurasianistas, (c) nacional-comunistas, e (d) nacionalistas étnicos.

Os neo-eslavófilos são primariamente aqueles que defendem as teses de Solzhenitsyn. Em Como Restaurar nossa Rússia?, o escritor exilado nos Estados Unidos pregava colocar a Rússia em uma dieta: Ela deve desistir de todas as inclinações imperiais e reconhecer plenamente o direito a autodeterminação dos povos em sua periferia. Solzhenitsyn então recomendava uma federação das três grandes nações eslavas da ex-URSS (Rússia, Bielorrússia e Ucrânia). Para maximizar o desenvolvimento da Sibéria, ele sugeria uma democracia baseada em pequenas comunidades, um pouco como o modelo suíço. Os outros neo-nacionalistas o reprovam por mutilar a pátria imperial e por propagar um utopismo ruralista, irrealizável no mundo hipermoderno em que vivemos.

Os eurasianistas estão por todo lugar na arena política russa atual. O filósofo a quem eles se referem é Lev Gumilev, um tipo de Spengler russo que analisa os eventos da história segundo o grau de paixão que anima um povo. Quando o povo é apaixonado, ele cria grandes coisas. Quando a paixão interior fenece, o povo declina e morre. Tal é o destino do Ocidente.

Para Gumilev, as fronteiras soviéticas são intangíveis, mas a nova Rússia deve aderir ao princípio do pluralismo étnico. Não é, assim, uma questão de russificar o povo da periferia, mas de torná-los aliados definitivos do "povo imperial".

Gumilev, que morreu em junho de 1991, interpretou as idéias de Leontiev em uma direção secular: os russos e os povos túrquicos da Ásia Central deveriam fazer causa comum, deixando suas diferenças religiosas de lado.

Hoje, a herança de Gumilev é encontrada nas colunas de Elementy, a revista da "Nova Direita" russa de Aleksandr Dugin, e Dyeinn (que se tornou Zavtra, após a proibição de outubro de 1993), o jornal de Aleksandr Prokhanov, os principais escritores e jornalistas nacional-patrióticos. Mas também é possível encontrá-la entre certos muçulmanos do "Partido do Renascimento Islâmico", em particular Djemal Haydar. Mais curiosamente, dois membros da equipe de Iéltsin, Rahr e Tolz, eram seguidores do eurasianismo. Seus conselhos não eram seguidos.

Segundo Aldo Ferrari, os nacional-comunistas afirmam a continuidade do Estado soviético como uma entidade histórica e espaço geopolítico autônomo. Mas eles compreendem que o marxismo não é mais válido. Hoje, eles defendem uma "terceira via" em que o conceito de solidariedade nacional é fundamental. Este é particularmente o caso do chefe do Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov.

Os nacionalistas étnicos são inspirados mais pela extrema-direita russa pré-1914 que desejavam preservar a "pureza étnica" do povo. Em um certo sentido, eles são xenófobos e populistas. Eles querem que o povo do Cáucaso retorne a suas terras e são às vezes antissemitas estridentes, na tradição russa.

De fato, o neo-nacionalismo russo está enraizado na tradição do nacionalismo do século XIX. Na década de 60, os neo-ruralistas (Valentine Rasputin, Vassili Belov, Soloukhine, Fiodor Abramov, etc.) passaram a rejeitar completamente o "liberalismo ocidental", com base em uma verdadeira "revolução conservadora" - tudo com as bençãos da estrutura do poder soviético!

A revista literária Nache Sovremenik foi tornada o veículo oficial dessa ideologia: neo-ortodoxa, ruralista, conservadora, preocupada com valores éticos, ecológica. O comunismo, eles diziam, extirpava a "consciência mítica" e criou uma "humanidade de monstros amorais" completamente "depravados", prontos para aceitar miragens ocidentais.

Finalmente, essa "revolução conservadora" foi silenciosamente imposta na Rússia enquanto no Ocidente a mascarada de 1968 causou a catástrofe cultural com a qual ainda sofremos.

Os conservadores russos também põem um fim ao fantasma comunista da "interpretação progressiva da história". Os comunistas, de fato, aceitavam do passado russo tudo que pressagiasse a revolução e rejeitavam o resto. Para a "interpretação progressista e seletiva", os conservadores opunham o "fluxo único": eles simultaneamente valorizavam todas as tradições históricas russas e relativizaram mortalmente a concepção linear do marxismo.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Mark Dyal - A Vida Tem Sempre Razão: Futurismo & o Homem em Revolta

por Mark Dyal



"Nós não somos apenas mais revolucionários que vocês, estamos além de sua revolução" - F. T. Marinetti

"Vocês tem que saber que o sangue não possui valor ou esplendor a não ser que tenha sido liberado da prisão das artérias pelo ferro ou fogo" - F. T. Marinetti

Nos primeiros idas de julho de 1923, uma tempestade heróica e blasfema soprou através da planície de Carso, descendo ao vale do rio Pó. Sua velocidade ousada e energia eletrificada criaram uma atmosfera que transfixou aqueles que se atropelavam em busca da segurança de pórticos, sentindo que essa tempestade poria à prova tudo que sobreviveu a tais tempestades no passado. De fato, ao tempo em que ela alcançou as construções repletas de bandeiras da Piazza San Sepolcro em Milão a conflagração parecia rir da memória das estruturas que desabavam em seu caminho. E naquela grande e auspiciosa piazza, Giuseppe Prezzolini se afastou da janela, intencionado terminar o trabalho que sobrepujava seus sentidos extenuados.

Prezzolini, o bom jornalista e crítico literário, estava profundamente afundado em ruminações sobre perspectiva. Como, ele imaginava, poderiam aqueles que buscavam revolucionar o mundo defender algo tão amorfo e mutável quanto a perspectiva? Como poderia a revolta, de todas as coisas, proceder sem a ordem e precisão da verdade e da objetividade? Como poderiam os gemidos patéticos de uma puta amadora ser confundidos com uma sinfonia extática de prazer; ou pior, como poderiam os gritos de batalha exaltados dos novos mestres do mundo ser apenas o balido cacofônico de um amedrontado rebanho de ovelhas? Com esse problema em mente, ele digitou sua obra, "Fascismo e Futurismo", e assim deu a seus leitores uma nova perspectiva sobre a tempestade que soprava através de sua orgulhosa e santificada morada.

Segundo a perspectiva de Prezzolini, a tempestade era violenta e incontrolável. Ela trovejava memória com os instrumentos de guerra: granadas, morteiros e bombas pareciam explodir em resposta aos impulsos perfurantes das baionetas, chicoteando com selvageria na ordeira e sensível piazza abaixo. Com cada golpe ele se encolhia mais profundamente no conforto de sua cadeira. Logo, porém, um pensamento horripilante lhe ocorreu, e ele correu para a janela. Aliviado e agradecido, ele sorriu quando viu que os símbolos esfarrapados da razão, verdade e moralidade ainda estavam de guarda contra as vis forças anárquicas que lhe fazem cerco.

Pela perspectiva de Prezzolini perspectiva, razão, verdade e moralidade eram sinônimos com a Revolução bem sucedida que havia atingido seu clímax nove meses antes, pondo a humanidade um passo mais perto da perfeição da liberdade - um direito místico e político dos homens adequadamente ligados por dever e responsabilidade ao Estado. É claro, muito havia acontecido no meio tempo e a tempestade fora de sua janela logo seria esquecida. Como ele lembrava, o fascismo e o futurismo haviam tido muito em comum um dia. Especialmente nos dias após a Grande Guerra, quando os homens de Marinetti lideraram os sindicalistas revolucionários, arditi e artistas críticos para o movimento fascista - naquela época eles até chamavam a si mesmos de "ardito-futuristi", cada um com seu amor pelo perigo, violência e instintos renovados do homem de guerra.

Lá vieram eles, ele lembrou, se amontoando no Salão Industrial e Comercial do outro lado de sua porta. Eles estavam embriagados de Sorel, proclamando o conflito como uma "necessidade permanente" na luta contra uma existência flácida e passiva. A derrota da revolução social, um deles disse, especialmente na aurora da industrialização e da criação do homem-massa urbanizado, se devia a covardia; os sindicalistas deixaram de agir - e foram finalmente traídos pelo Movimento e pelo Partido e seus socialistas malucos.

Isso, segundo Marinetti - o líder desse bando de desajustados, era uma razão pela qual os futuristas afirmavam ser "místicos da ação", vendo o Estado-Nação como um bastião de conservadorismo, repressão, burocracia e clericalismo: mesmo com governantes neoclássicos, pode-se dizer, o Estado é e sempre será o inimigo de homens livres - homens de fora, no além, nas regiões fronteiriças do que é permissível e "bom para o negócio".

Enquanto tal, eles se moveriam contra o Estado e nos bandos de squadristi que quase se tornaram a ruína da Revolução. Desdenhosos da polícia, eles eram ilegais, espontâneos, muitas vezes caóticos e arbitrários - dificilmente o tipo de coisa que contribui para o estabelecimento e defesa da lei e da ordem!

Assim, esse homem em revolta perpetuamente violento, liberado de limitações morais e históricas e de deveres e responsabilidades estatistas, devia se tornar o novo "homem futurista": um homem, como disse Marinetti, que não é humano (pois sem os elementos essenciais do humano - racionalidade, moralidade e memória - todos perfeitamente adequados para justificar a adesão de escravo ao ser-burguês - então não se é mais humano, mas outra coisa - algo monstruoso, algo rapaz, algo alegre). Marinetti disse que o Estado burguês corrói a energia vital, que ele se alimenta de animais de rebanho humanizados com vontades anestesiadas agrilhoados a pressuposições universalizadas de bondade e felicidade naturais. Mas Prezzolini lhe perguntaria hoje como ele fez então, que bem esse homem futurista poderia trazer à Revolta? Ele é descuidado demais, livre demais, e perigoso demais para ser de qualquer utilidade para homens tentando construir um Estado.

Squadrismo! Sim, ele lembrava, era isso: radicalismo manifesto, violência alegre, e a destruição das forças da ordem que tão perfeitamente conectavam mente, corpo e Estado. Pesarosamente, ele balançou a cabeça, ávido por esquecer as devastações de tal virilidade inútil, improvisada e descontrolada. A virilidade dos futuristas - o culto da velocidade, o desprezo pelas massas, a antipatia pela burocracia - haviam certamente infectado os primeiros dias da Revolução Fascista. Mas lutar para ser-outro, para ir além de deveres e responsabilidades abraçando o fluxo e o caosmos do homem em revolta, isso está muito longe de lutar pela honra e glória do Estado. Na primeira situação o homem morrerá sozinho, mas na outra - na luta que nós homens do Estado prometemos e exigimos - o homem heróico nunca morre. Ao invés, ele é tornado maior e mais significativo do que ele jamais poderia ser por conta própria.

Porém, estando aqui sob o fulgor da criação do Estado Fascista - o próprio símbolo da vitória! - Prezzolini começou a rir alto diante da memória do que um dia seria chamado a criação dos "dois fascismos".

Mas então, no verão de 1921, foi o momento de verdade para a Revolta de Prezzolini. Seguiria ela a violência revolucionária desdenhosa dos futuristas e arditi rumo a um futuro incognoscível? Ou ela se voltaria para os lojistas burgueses e proprietários de terras que buscavam um Estado próspero e estável construído sobre as fundações de um glorioso passado nacional? Seria varrida na ação irrestrita dos homens em revolta, ou se tornaria A Revolução? Manteria seu núcleo como um conjunto de combatentes ousados e de elite - aqueles que ousaram, na verdade, se livrar de todos os deveres e responsabilidades burguesas, "cortar todas as raízes e não entender nada a não ser o prazer do perigo e do heroísmo quotidiano?" Ou abraçaria sua responsabilidade histórica para criar algo duradouro, algo imortal, como um Partido e Estado?

De fato ela o faria, e fez - se livrando tanto dos futuristas como dos ardito-squadristi em diversos expurgos de racionalidade política - e se erigiu como a apoteose da "hierarquia, tradição e autoridade". Mas conforme a tempestade soprou, e os motores giratórios intoxicados com sua própria velocidade e som explodiram na segurança da calçada sob sua janela, Prezzolini se sentiu desconfortável, como se algo violento, cruel e fora das constrições da justiça estivesse se filtrando através das rachaduras em seu espaço santificado de trabalho.

Imediatamente ele sabia qual era a fonte: Marinetti. Blasfemador! Louco! O tolo que queria usar a violência para desestabilizar as forças subjetivas - e subjetivadoras - da forma burguesa de vida! E para que fim? Bem, Prezzolini sabia muito bem para que fim. Olhe para isso, ele gritou para sua alma enquanto agarrava a página:

"Assim, que venham os alegres incendiários com dedos queimados! Aqui estão eles! Aqui estão eles! Vão em frente! Incendeiem as prateleiras das bibliotecas! Invertam o curso dos canais para inundar os museus!... Peguem suas picaretas, machados e martelos, e derrubem, derrubem impiedosamente as cidades veneráveis!... vocês levantam objeções? Parem! Parem! Nós as conhecemos. Nós entendemos! A mente refinada nos diz que somos o ápice e continuação de nossos ancestrais - talvez! Vamos supor que sejamos! Que diferença isso faz? Nós não queremos ouvir!"

E assim Prezzolini escreveu uma marcha afortunada, um tomo reservado e penetrante em defesa da tradição e do esplendor passado que se encontrava sob ataque desses vadios irresponsáveis. Olhe novamente, seu cogito atormentado demandava; eles efetivamente chamavam a si mesmos "bárbaros - infratores recalcitrantes do Ideal!"

"O fascismo, se não estou errado", ele começou a escrever, "deseja hierarquia, tradição, e observância da autoridade. O fascismo está contente quando invoca Roma e o passado clássico. O fascismo quer ficar dentro das linhas de pensamento que foram traçadas pelos grandes italianos e as grandes instituições italianas, incluindo o catolicismo. O futurismo, ao invés, é bastante oposto a isso. O futurismo é uma guerra contra a tradição; ele é uma luta contra museus, o classicismo e as honras escolásticas. Como isso pode ser reconciliado com o fascismo, que ao invés está tentando restaurar todos os nossos valores morais?"

Graças a Deus, ele murmurou. Graças a Deus! Graças a Deus nós tivemos a decência, a sensibilidade, e o dever de distanciar nossos gloriosos Partido e Estado desses lunáticos. A perspectiva havia tornado Prezzolini sábio, pois ele sabia que a revolução não tinha futuro. O futuro, como a história havia demonstrado, está com o Estado. Dane-se se o fascismo tivesse que se tornar uma contra-reforma que traísse as energias revolucionárias e o vitalismo crítico de seus membros fundadores: o Estado e nada além do Estado, como disse Mussolini - um "fato moral e espiritual!" Nós gerenciaremos adequadamente o domínio social, ele pensou desafiadoramente. Nós traremos continuidade e regularidade a tudo que está em fluxo. Nós tornaremos sedentário a tudo que flui livremente. Nós tornaremos homogêneo tudo que é diferente. Nós traremos lei e ordem, racionalidade e paz! Se as pessoas não estão à altura da tarefa, se eles se exasperam à imposição da soberania de seus governantes e chefes, se eles nutrem qualquer fidelidade pelos deveres e responsabilidades perante o Estado, então...que eles saiam e vão brincar com Marinetti!

Ele não compreende? Nós somos o Estado, nós somos a lei, e nós somos a ordem, santificados por Deus e por tratados internacionais! O que seus futuristas desejam ser? Fora! Fora do Estado! Eles não sabem? Não há nada fora - nós somos "o Logos, o rei-filósofo, a transcendência da Idéia, a interioridade do conceito, a república de mentes, o tribunal da razão, os burocratas do pensamento, o homem como legislador e sujeito,...a imagem interiorizada de uma ordem mundial!" Quando você abandonar isso, caro Marinetti - querido "traidor recalcitrante da Idéia", para onde você vai?

À guerra, era a resposta de Marinetti. Apenas a guerra, ele dizia, pode criar as condições e ordenações condutíveis à revolução. E quando se é um homem sozinho - um homem em um bando, talvez - e você se encontra sem uma guerra, bem, então o que? Você pode criar as condições e ordenações de sua própria vida. Você "mata a luz do luar", você "destrói tempo e espaço", vivendo ao invés na "eterna e onipresente velocidade" - a velocidade da coragem e da agressão, de "palavras e pensamento-em-liberdade", destruindo toda e qualquer prudência estagnante, o "utilitarismo, a covardia oportunista" e o ressentimento reativo que você costumava acreditar que justificavam seu élan vital. Você cria desordem - você vive sem tradição, sem dogma, incessantemente inventando novas maneiras de assombrar seus instintos burgueses, nutridos ao invés pela "nova sensibilidade" que irá decompor tudo que você sabe sobre beleza, grandeza, religiosidade, solenidade e cultivo.

Vida sem tradição! Prezzolini estava perplexo. Vida sem memória! Novamente ele imaginava se Marinetti e esses futuristas compreendiam as implicações de suas idéias. A memória, ele os lembraria, serve a um grande propósito, pois somente ela cria uma pessoa capaz de pagar dívidas; e a dívida é a base da civilização - pois de fato, como pode a civilização prosseguir sem que todos os tributos sociais, corporais sejam necessariamente pagos? E exatamente o que os futuristas pensam estar esquecendo? Qual é o propósito, digamos, de esquecer? Que responsabilidades, deveres e dívidas, devem eles esquecer? Eles dirão que estão esquecendo a preguiça, a lentidão e a sensibilidade feminina de modo a afirmar a vida como aceleração. Como Bergson eles querem fazer do tempo uma duração subjetiva e um amontoado de intensidades - uma velocidade carregando outras velocidades -

"Nossa vida deve sempre ser uma velocidade carregando outras velocidades: velocidade mental + velocidade do corpo + velocidade do veículo que leva o corpo + velocidade do elemento que carrega o veículo. Nós devemos deslocar o pensamento de sua estrada mental e colocá-la em uma material. A velocidade destrói as leis da gravidade, torna os valores do tempo e do espaço subjetivos... Quilômetros e horas não são universalmente os mesmos; para o homem em aceleração eles variam em extensão e duração... Ampliando a leveza. Vós haveis triunfado sobre a lei que força os homens a rastejarem... A gasolina é divina... A velocidade em uma linha reta é massiva, crua, impensada. A velocidade com e após uma curva é velocidade que se tornou ágil, adquiriu consciência".

Pensamento e existência na produção de tempo como fluxos e afecções (+ e + e + e + ...até que a vida irrompa qualquer tentativa de negar e estrangular seu potencial), extricando o próprio tempo de seu milieu natural e adequado como contenção universal da matéria.

Mas todos sabem não apenas que isso é loucura, mas também que isso é apenas o começo. Vejam como Marinetti dança com as sirenes de nossa perdição - com as próprias forças que trarão a lógica do progresso histórico a um fim - quando ele nos aconselha a "exaltar a vontade agressiva do homem, sem lembrança, e enfatizar ainda de novo a vacuidade ridícula da memória nostálgica, da história míope, e do passado que está morto". E seu amigo Boccioni diz que o futurismo está aqui para destruir o passado de modo a criar um "vácuo povoado por primitivos e bárbaros" - tudo com uma sensibilidade anti-artística conectada e impelida apenas por movimentos rítmicos, planos, e linhas - sem a sublimidade de formas ideais e arquétipos.

Mas o que Boccioni pode estar querendo dizer com essa sugestão ridícula? Estaria ele tentando oferecer uma base de re-diferenciação para o homem indiferenciado? Mas já não avançamos e fomos além dessas noções pitorescas de um retorno ao primitivismo? Exatamente então Prezzolini se alarmou com um estrondo barulhento em meio ao estrépito da tempestade. Soava como o guincho de pneus de borracha girando fora de controle, lançando máquina e vida ao ar como uma flecha nomádica em fuga - au milieu, não fixada nem pelo arqueiro que a disparou, nem pelo alvo contra o qual foi disparada - dançando na direção do horizonte em um arco-íris flamejante de explosão e estilhaços de vidro e metal, as partículas de cada qual em conjunção com a outra, bem como qualquer corpo sobre o qual elas impactavam.

Para seu horror, a detonação foi seguida por um coro de vozes explicando a tempestade para um par de jovens vagabundos, "A vida tem sempre razão", dizia, "Os paraísos artificiais com os quais vocês esperam assassiná-la são inúteis". Ai de qualquer homem que sai de casa em tempos como esse, ele pensou; melhor morrer agora do que dar continuidade a esse risco. E com isso ele amaldiçoou seus ouvidos por ter partilhado da imprudência desses homens tolos, cada vez mais temeroso de que eles pudessem ligar sua querida e meiga alma ao que eles haviam ouvido. Ele se encolheu ainda mais, e decidiu que uma bebida poderia acalmar seus nervos.

E de qualquer maneira, ele percebeu conforme ele saboreava seu copo de leite quente, não era Boccioni um futurista? De todas as pessoas ele deveria saber melhor. E o que um "vácuo bárbaro" oferece que o Estado não oferece? Carlo Carrà nos deu um senso do que o vácuo bárbaro busca ao se distanciar do Estado: criação - compreender a vida em termos bastante removidos da forma puramente representacional do pensamento burocrático racional que ele chamava "ilustracionismo". O ilustracionismo envolve um traçado dos potenciais da vida, sempre governada por tradições, convenções, e o Ideal que a tudo vê.

O que o futurismo propõe ao invés é um criacionismo ilimitado, em que pintores pintam som, movimento, e descobrem todas as qualidades afetivas que aguardam uma revolta nas quantidades de instintos humanos:

"...Palavras desancoradas, idéias ilimitadas, livres da escravidão da energia instintiva e das técnicas de viver a formas e idéias que castram tanto quanto criam. Fora do trabalho encontramos invenção. Fora das escolas encontramos livre pensamento. Fora del giorno conceitos, teorias, estimações e potenciais - para além do caminho estreito e reto que eles delineiam: um eco do refrão dos mortos vivos! ...a normalidade funerária de pensar e ser no serviço de forças que demandam tão pouco de nós: a facilidade de crer e se submeter à banalidade e comunalidade - buscamos e demandamos de nós mesmos uma vida levada para fora dos limites"

Pintura fede, ele tinha que rir disso. Isso seria como legislar ou comandar revolução. Ele estava chocado consigo mesmo, já que por um momento horripilante ele se encontrou falando exatamente como eles! Mas sua incerteza trouxe sua mente de volta para seu trabalho. Como esses bárbaros futuristas planejavam criar alguma coisa, especialmente à luz da guerra de Marinetti contra a gramática e a convenção linguística, ele pensava. "Palavras-em-liberdade", Marinetti dizia, solaparão e perturbarão os princípios codificadores da linguagem - princípios que moldam a consciência e a interação funcional com a realidade. Ele nos pede que abandonemos o uso do "Eu", que antropomorfiza uma compreensão particularmente burguesa do sujeito, propondo ao invés um "retorno ao molecular" e uma compreensão das lascas e cacos de nossa subjetividade que portam as chaves para nossos potenciais revolucionários.

Ele nos pede "destruir a sintaxe e espalhar substantivos aleatoriamente, tal como eles nascem", "abolir adjetivos e advérbios", que forçam, e presumem, uma pausa no fluxo da experiência, e criam uma "tediosa unidade de tom", que só existe na linguagem. Mais, ele sugere que verbos só sejam usados em sua forma infinitiva, de modo a criar uma elasticidade de relações (em contraste a uma escravidão do verbo movente e agente ao "Eu" parasitário) e "dar um senso da continuidade da vida e da elasticidade da intuição".

Nessa luz, Prezzolini rapidamente percebeu que o que os futuristas estavam fazendo era perigoso e uma ameaça à vitória do Estado Fascista. O ser humano, é verdade, pode ser arrebanhado em vastos conglomerados e facilmente convencido de seus valores e propriedades universais. Mas apenas porque o homem pode tão prontamente viver em rebanho, seria esse seu potencial óptimo? Essa é a questão que Prezzolini agora descobria no coração dos manifestos futuristas. Com seus ataques à linguagem como uma máquina de automação comandando a interconexão e coordenação de seres para tarefas despóticas territorializantes que só servem aos mais servis entre o rebanho, os futuristas tentavam causar um curto-circuito nos laços do contrato social. Eles compreendiam que o organismo consciente deve ser compatível com o sistema social em que existe.

Mudanças nas modalidades de vida social - como vácuos bárbaros ou bandos - devem envolver uma mudança concomitante na consciência e na interação funcional com a existência. Atenção, processamento cognitivo, tomada de decisões, e expressão todas passam por constante mutação para manter sua associação com os aparatos interpretativos da modalidade coletiva particular. Compreendido ainda que nessa forma simplificada, vê-se muito claramente as implicações do Estado se apresentando como "a organização racional e razoável de uma comunidade", com o "espírito interior ou moral do povo" como o princípio organizador de um "espírito absoluto universal harmônico". O Estado justamente se torna o nexo do pensar correto, da razão pura, e do domínio pessoal. Se aqueles elos são rompidos, e não se pode mais perceber sentido, então deveres, dívidas e responsabilidades agrilhoando o homem a uma socialidade que faz de seus instintos uma zombaria não faz mais sentido. Desordem!

Nosso Pai no céu, gaguejou Prezzolini enquanto ele caminhava pela sala. Subitamente a tempestade pareceu trovejar com muito mais fúria. Nosso Pai, ele disse novamente, pelo menos se fossem coturnos em marcha o que eu ouço e não o zunido dissonante de aviões de guerra e geradores de energia falhando. Sua obra agora parecia ter a importância de uma Bula Papal. Esse arremessar o passado ao mar para ampliar nossa agilidade em se esquivar de barricadas - certamente essas barricadas, essas barreiras contra o caos são as chaves de nossa vitória! - só podem levar à ruína. Mas destruir as próprias bases da ordem e do pensar correto no presente é ainda mais egrégio. Homens desse tipo devem ser liderados - para seu próprio bem e para o bem da Revolta. Sim! Eles devem ser liderados ou eliminados.

Certamente isso é claro quando lemos em "Guerra, a Única Higiene do Mundo" de Marinetti, sobre seu desapontamento com o desarmamento da energia revolucionária quando ela é entregue aos líderes da Revola, que, como ele diz, estão "fatalmente interessados em preservar o status quo, em acalmar a violência, e opor cada desejo para aventura, risco e heroísmo". Mas novamente, devemos repreender Marinetti por falhar em compreender a importância da prudência, do oportunismo e da construção de uma organização de massas de grande potencial político e social.

E quando dizemos que essa organização com apelo universal e dedicação à sabedoria e ordem deve ser imortal, o que Marinetti diz? Ele diz que os futuristas "amantes e defensores de instintos heróicos" sentem "apenas repugnância à idéia de buscar a imortalidade, pois no fundo isso não é mais que o sonho de mentes viciadas pela usura".

Para ele e os outros, ele retornaria sua repugnância com juros! Ele sorriu diante dessa ironia, pois agora era ele quem tinha o ouvido do Duce. Talvez, ele pensou furiosamente, as circunstâncias inteiramente contingentes que alinhavam esses maníacos com a Revolta uma vez justificavam sua depredação cancerosa, mas eles não tinham papel a desempenhar no Estado. E assim ele retornou ao seu trabalho tantas vezes interrompido:

"O fascismo não pode aceitar o programa destrutivo do futurismo, e ao invés terá que restaurar os próprios valores que contrastam com o futurismo. A disciplina e hierarquia políticas são também disciplina e hierarquia literárias. As palavras são tornadas vazias quando hierarquias políticas são tornadas inúteis. O fascismo, se verdadeiramente deseja vencer essa batalha, tem que considerar o futurismo como já tendo sido absorvido pelo que poderia fornecer como estímulo, e tem que reprimi-lo no que ainda possa possuir de revolucionário, anticlássico e indomável"

E assim, enquanto Marinetti e seu bando alegre de revolucionários futuristas travavam uma guerra sem linhas de frente contra os partidos, valores, representações e poder do mundo burguês - trazendo uma tempestade de agressão e depredação incontroláveis a todos os salões consagrados que glorificavam o império do Último Homem, Giuseppe Prezzolini terminava sua obra, suas últimas frases entulhadas de defesas da hierarquia e da ordem, e "palavras em seu lugar adequado, obedecendo regras, e respeitando a natureza". Ele então a enviou para a comissão governamental apropriada indicada para reformar a educação para sua aprovação e conselho iluminado.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

André Chamy - O Eixo da Esperança: De Pequim a Beirute, via Moscou, Teerã e Damasco

por André Chamy



A estratégia dos EUA, idealizada por Zbigniew Brzezinski, usando o apoio ao obscurantismo islamista para lutar tanto contra políticas progressivas muçulmanas quanto contra a Rússia, deu origem a uma aliança para resistí-la. Agora, China, Rússia, Irã, Síria e Hezbollah são forçados a ficar juntos para sobreviver. Em última análise, como observou André Chamy, a armadilha apreendeu aqueles que a armaram.

Islã contra Islã...

Irã, Síria, e Líbano graças ao Hezbollah e seus aliados, considerados pelos ocidentais por anos como fonte do mal por causa de seu apoio ao que eles chamam de "terrorismo", não deixaram de ser objetos de falatórios. Depois de um tratamento individual para cada um de acordo com as divisões políticas na região, um eixo se formou que começa às portas da Rússia e da China para acabar nas de Tel Aviv.

Este eixo está enraizado em políticas ocidentais reservadas para essa região. Os Estados Unidos, seguidos pelos principais países ocidentais, declararam que seus interesses econômicos devem ser preservados a todo custo. Essa política tendenciosa gerou tensões ao longo dos anos, tem sido fonte de conflitos armados e lutas de rua que alimentam incessantemente os noticiários na televisão.

Esta política, consagrada por algum tempo, foi implementada com o apoio de atores locais. No entanto, uma aceleração ocorreu após a queda do muro de Berlim, vivida como um acontecimento histórico, o que obviamente foi, mas que marcou o advento de uma estratégia agressiva e desdenhosa em direção ao oriente.

Com o desaparecimento da URSS, os países da região não poderiam esperar por mais nada além de contar com o controle ocidental, nomeadamente o dos Estados Unidos. Em vez de aproveitar essa posição privilegiada como árbitro, o último e alguns outros países ocidentais favoreceram o confronto e a dominação do "Oriente Médio expandido" através de intervenções diretas no Iraque e no Afeganistão, mas também no Líbano, no Iêmen e no Magrebe, com a intenção declarada de intervir na Síria e no Irã.

Desde os anos setenta após o choque do petróleo, os Estados Unidos sabem que devem controlar as fontes de matérias-primas, especialmente o óleo, assim como as rotas para acessar esses recursos, porque eles tiveram a amarga experiência de descobrir essa necessidade vital para sua economia e para o conforto dos seus cidadãos.

As opiniões dos especialistas divergem sobre a avaliação das reservas de gás e hidrocarbonetos, mas uma idéia permanece constante: a da natureza finita destes tesouros que se encontram em mãos gananciosas de beduínos que não precisam de seu ouro desde que seu lazer e diversão sejam financiados.

No tempo em que o "Choque de Civilizações", de Samuel Huntington, substituiu a Guerra Fria, o Islã tornou-se para os Estados Unidos o novo inimigo útil, um "aliado" das sortes, contra a Europa. Pragmáticos e oportunistas, eles viram no movimento islâmico uma "onda" e escolheram jogar o cartão muçulmano para melhor controlar as artérias de ouro preto. Eles tinham percebido a utilidade desse perigoso aliado muito antes da implosão do comunismo.

Começando também na década de 1970, os Estados Unidos apoiaram extremistas islâmicos, da Irmandade Muçulmana Síria aos islamitas bósnios e albaneses, dos talibãs à egípcia Islamyah Jamaa. Havia até mesmo rumor de sua relação com a FIS (Frente Islâmica de Salvação), que se tornou a violenta "GIA" na Argélia. Eles mimaram os Wahhabis à frente da monarquia saudita pro-EUA que financia quase todos as redes islamitas no mundo. Eles brincaram de aprendiz de feiticeiro, e os movimentos fundamentalistas que acreditavam que poderiam controlar, às vezes se voltaram contra o "grande Satã" para atingir seus próprios objetivos.

Em contraste, os EUA têm abandonado ou querem neutralizar países muçulmanos prováveis a ganhar poder político e autonomia relativa. Considere o presidente Jimmy Carter abandonando o Xá, quando o Irã estava-se tornando mestre de seu óleo. A isso adiciona-se a vontade de esmagar qualquer vestígio de independência intelectual mesmo para países seculares árabes como a Síria, o Egito e o Iraque.

O jogo com o islamismo veio em detrimento dos movimentos seculares representando uma alternativa ao Islão político radical, o último representando um porto seguro depois de cada fracasso nessa área. No entanto, esse "islamismo" obviamente não deve ser confundido com a República "Islâmica" do Irã, que tem uma gênese incomum. Além disso, vários autores de distinção, estudando os movimentos islâmicos, às vezes cometem o erro de confundir a República Islâmica do Irã com os islâmistas, embora eles não têm nada em comum, exceto o fato de que eles fazem referência ao Islã e à Sharia. A diferença fundamental é a própria definição de Islã político, defendida por um e por outro.

Tudo os separa fundamentalmente e, se realmente os americanos não fizeram muito para salvar o Xá, essa atitude foi justificada por eles por razões estratégicas, porque o Irã para eles de maneira nenhuma poderia ser autorizado a se tornar uma grande potência regional. O que explica que, algum tempo após a queda do Xá, os EUA iniciaram a guerra travada por Saddam Hussein contra seu vizinho, o que levou à ruína dos únicos dois países que poderiam ter uma influência decisiva na região do Golfo.

No entanto, a evolução do Irã após a sua guerra com o Iraque permitiu ao primeiro tornar-se uma potência regional real, temida por certas monarquias do Golfo, que preferiram confiar sua segurança ao Ocidente, mais particularmente aos Estados Unidos. Em troca, eles confiarams seus "recursos" às economias ocidentais e financiaram atividades e movimentos designados pelos serviços secretos de Washington.

Essas mesmas monarquias estavam a fechar os olhos para eventos atuais em algumas regiões, incluindo a Palestina, ainda que eles alegassem apoiar as aspirações do povo palestiniano. Eles se tornaram os primeiros países árabes a ter contatos diretos ou secretos com o estado de Israel, que mais tarde levou à aproximação dos movimentos de resistência palestinos com os iranianos.

Os últimos aparecem hoje como os únicos dispostos a defender os lugares sagrados do Islã com os homens de Al-Quds, uma filial da guarda revolucionária, e através de seu apoio ao Hamas. O feitiço dos EUA virou-se contra o feiticeiro.

O mundo árabe-muçulmano deve permanecer para a América do Norte um mundo rico em petróleo, explorável à vontade, mas pobre em matéria cinzenta e mantido em um estado de total dependência tecnológica, um mercado de 1 bilhão de consumidores incapazes de independência política, militar e econômica. O jugo do Alcorão é, de acordo com essa visão, conducente à pobreza intelectual.

As regras do jogo

Um eixo Teerã-Beirute através de Bagdá e Damasco materializou-se progressivamente em detrimento da estratégia de Washington na região. Era essencial ao longo dos anos que esse eixo adotasse aliados e parceiros em particular por causa das sanções contra o Irã e a Síria.

Além disso, historicamente, a linha Damasco-Moscou nunca foi suspensa apesar do desaparecimento da União Soviética, apesar do período tumultuoso atravessado pela Federação Russa. Mas a chegada do Presidente Vladimir Putin, aspirante a restaurar o papel da Rússia na cena internacional e preservar seus interesses estratégicos, não foi do agrado dos Estados Unidos.

Por sua vez, o Irã iria desenvolver suas relações com a Rússia, tornar-se seu aliado objetivo nas negociações com o Ocidente sobre seu programa nuclear. A China também reforçou seus laços com Teerã, especialmente após o embargo sobre a economia iraniana.

Estas duas grandes potências tornaram-se por força das circunstâncias as bases de retaguarda estratégica do "Eixo da Esperança". É óbvio que todo mundo está se beneficiando, mas os russos e os chineses não estão infelizes por ter parceiros que abocanham com sua rainha os peões de seus adversários históricos, enquanto desfrutam do petróleo iraniano e do gás e das posições estratégicas oferecidas pela situação da Síria ante as posições de frente dos EEUU.

Em seu livro, The Grand Chessboard: América e o Resto do Mundo, publicado em 1997, Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional do ex presidente Carter e muito influente nos Estados Unidos de Clinton, revelou com cínica franqueza as razões na raiz da estratégia islâmica de seu país. Segundo ele, o principal desafio para os Estados Unidos é a Eurásia, uma vasta extensão variando da Europa Ocidental à China através da Ásia Central: "do ponto de vista americano, a Rússia parece destinada a se tornar o problema... "

Os Estados Unidos está, portanto, tornando-se cada vez mais interessado no desenvolvimento dos recursos da região e pretende impedir a Rússia de ter supremacia. "A política dos EUA visa também ambos: o enfraquecimento da Rússia e a ausência de autonomia militar da Europa. " Daí, portanto, a expansão da OTAN para a Europa Central e Oriental, a fim de manter a presença dos Estados Unidos, enquanto a fórmula para uma defesa europeia capaz de combater a hegemonia americana no velho continente implicaria em um "eixo anti-hegemônico Paris-Berlim-Moscou."

Na verdade, através de suas escolhas, os EUA parecem ter se enganado em todas as frentes que foram usadas como bases para conquistar as fontes de petróleo e gás, atraindo para si mesmo penosas falhas políticas. Com realação aos países ocidentais, eles praticamente abandonaram toda estratégia e confiaram sua política externa aos Estados Unidos. Mesmo se eles tentem salvar as aparências com alguma postura, eles sabem que não são eles os que comandam o show. O exemplo recente de François Hollande e Laurent Fabius jogando vamos-à-guerra é uma ilustração: eles tiveram que jogar rapidamente, compreendendo que as negociações entre Messieurs Lavrov e Kerry tinham precedência sobre seus anúncios preventivos.

A Resposta do Tigre

Constatando o fracasso de suas manobras, os americanos quiseram elevar a tensão contra as autoridades russas, determinadas a se opor a eles, enquanto a China permaneceu em uma emboscada para avaliar a situação, mas pouco inclinada a confiar em Washington...

Lembre-se de que a China está tão interessada quanto a Rússia no Oriente Médio: o primeiro sinal de interesse data de 1958, durante a crise do Líbano que levou ao desembarque dos EUA nas costas libanesas, ao que Beijing se opôs firmemente, muito antes da URSS.

Essas manobras dos EUA são particularmente bem estabelecidas, uma vez que o processo é relativamente simples. Primeiro, eles participam da criação de ONGs para defender os direitos humanos. Incentivam alguns "denunciantes", e fornecem um fórum para adversários, obscuros e sem grande escopo, criar, em um determinado momento, um conjunto de condições para a desestabilização de um país.

Este é um trabalho que é preparado por anos. Isso já foi tentado durante a Guerra Fria; o exemplo mais gritante é o do Chile, e continuou até os dias atuais com as famosas "revoluções coloridas" e mais recentemente a "primavera árabe". As mesmas ações estão sendo preparadas em outros países que vemos nas manchetes, especialmente no Azerbaijão.

É neste contexto que "eventos" eclodiram em junho de 2009 no Irã, sob o pretexto de condições desafiadoras para a eleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. A República Islâmica teve que enfrentá-lo por quase nove meses. Hezbollah também foi confrontado, após o ataque israelense que durou 33 dias, por um novo plano do governo para privá-lo de uma ferramenta diretamente relacionada à sua segurança, ou seja, sua rede de comunicação. Sua resposta foi rápida e eficaz em 7 de maio de 2008, a qual os atiçadores consideraram uma afronta mas que foi olho por olho!

Restava a Síria apenas no "Eixo da Esperança", que havia sido notificada pelos americanos que, se não cortasse sua relação com o Irã e o Hezbollah, iria ter o destino de outros países árabes, afetados por uma "primavera" que supostamente traria as andorinhas da democracia, mas que trouxe apenas os corvos do terror e da instabilidade.

É neste contexto que as famosas "revoluções coloridas" afetaram a Rússia até o exemplo ucraniano. Essas revoluções privaram a Rússia da maioria de seu campo estratégico. A Europa (UEE) foi usada para unificar os ucranianos com uma promessa de melhores condições econômicas e auxílio. Mas, na realidade, esses eventos permitiram aos Estados Unidos estabelecer bases militares na porta de Moscou. Na época, a Rússia, enfraquecida por um poder que não tinha nem ambição nem escala, não foi capaz de responder.

A Rússia, hoje, não pode aceitar que esse exemplo seja repetido na Ucrânia. Isso explica sua reação imediata. Sua reação é, apesar das aparências, em conformidade com os exemplos no Oriente Médio, desde que a idéia é dizer que a democracia não é exercida na rua, mas é vencida nas urnas. Se a oposição queria tomar o poder, ela devia passar pelas eleições.

Além disso, a Rússia, mal saída da agressão de milícias chechenas que trouxeram morte e terror ao seu território com o apoio financeiro de algumas monarquias do Golfo, é claro que defende seus interesses. Isso explica a ameaça velada feita pelos sauditas dizendo: "Nós poderiamos ajudar a evitar a ameaça do terrorismo, em Sochi, se voces se rendessem na questão da Síria." Eles foram obviamente rejeitados.

De qualquer forma, isso demonstra tanto o papel das monarquias do Golfo quanto o uso dos movimentos islâmicos para secretamente promover políticas dos EUA que, através da desestabilização de alguns Estados, acredita que eles criam condições mais favoráveis a eles na região.

O eixo Pequim-Beirute, via Moscou, Teerã e Damasco, só vai ficar mais forte. Isso é praticamente uma questão de sobrevivência para cada um. De acordo com um provérbio oriental: "não encurrale um gato em um canto, correndo o risco de vê-lo transformar-se em um tigre." Mas o que pode acontecer se tentarmos encurralar um tigre em um canto? É certo que ninguém quer saber a resposta.

sábado, 5 de abril de 2014

Boris Nad - A Rússia atravessa o Rubicão ou o Nascimento de um Novo Mundo

por Boris Nad



A América deve aceitar o fato de que após mais de vinte anos, a Rússia retornou como força histórica. Isso é uma questão de realismo político.

A crise na Ucrânia está longe de terminar, mas está claro que ela é o evento mais importante no início do século XXI até agora, muito mais importante do que a Líbia, que a invasão do Afeganistão, ou a questão do futuro do Iraque. Até mesmo a Síria pode ser medida com ela. A crise ainda não está resolvida, mas algumas respostas já são aparentes: a Criméia é russa novamente. O destino do sudeste da Ucrânia agora é quase certo: ele certamente não será parte de uma Ucrânia unitária futura, uma Ucrânia na União Européia e na OTAN. Houve durante a rebelião uma população pró-russa, que articulou suas demandas por muitas "primaveras russas" inesperadas. O sudeste - Novorossiya - pode se tornar parte de uma futura Ucrânia federal ou confederal, Estados independentes parceiros da Federação Russa - mas apenas como solução interna - e em um futuro uma parte integral da Rússia.

A questão da Ucrânia central - Malorossiya e Kiev - para os EUA ainda não foi resolvida. O futuro da junta de Kiev também é questionável. Ela é, afinal, apenas uma "solução" temporária. Para o Ocidente, os conspiradores podem ter algum valor prático se eles conseguirem provocar uma guerra na Ucrânia como resultado. A Ucrânia ocidental (Galícia), em qualquer variação de eventos futuros, indicando uma perspectiva bastante sombria. O mapa geopolítica da Europa e da Eurásia será portanto irreversivelmente modificado. Isso é para a Rússia algo que é alcançado de forma relativamente fácil. E ainda essa não é a coisa mais importante.

Defender Sevastopol

A primeira óbvia vitória russa foi o retorno da Criméia sob soberania russa. Sobre a importância geopolítica e militar da Criméia bem como do porto da Frota russa no Mar Negro, dificilmente precisaríamos falar, e devemos acrescentar que a península da Criméia hoje é de enorme importância simbólica e histórica para a Rússia. Primeiramente, para a fé ortodoxa russa, ela é importante como o berço do Cristianismo Russo, como o "Athos russo".

Relembrem que a Criméia foi anexada à Rússia pela primeira vez em 1783, durante o reinado de Catarina a Grande, poucos anos antes da adoção da Declaração Americana de Independência, e eles lutaram por ela sob líderes militares como Suvorov e Kutuzov, e venceram Napoleão. A Criméia tem sido relatada desde então como um capítulo muito importante na história russa. Então em 1853, e também em 1856, na cena da Guerra da Criméia, quando as potências ocidentais - Grã-Bretanha e França - além do Piemonte e o Império Otomano travaram guerra contra a Rússia foi testemunhada a cena da defesa heróica de Sevastopol.

Sevastopol foi de novo defendida heroicamente na Segunda Guerra Mundial contra as forças alemães, a Wehrmacht e a SS, assim como a chanceler alemã Angela Merkel hoje ameaça que a Rússia pagará um preço alto pela "anexação da Criméia". Que tipo de anexação pode ser discutida aqui, em vistas do fato de que a Criméia russa é indubitavelmente Rússia, e muito provavelmente permanecerá sendo?

Fascismo Liberal

A atual crise ucraniana teve uma longe gênese e vários aspectos, mas ela só pode ser compreendida através da lente fria da geopolítica. É o último, mais profundo e compreensivo nível que abarca todas as outras dimensões (política, cultural, ideológica, histórica, religiosa, étnica...) e as situa no contexto adequado. A crise na Ucrânia é um momento de virada e um teste para todos os seus apostadores, mas também para observadores aparentemente indiferentes ou desinteressados. Em primeiro lugar, é significativa para os EUA, porque o resultado da crise ucraniana, entre outras coisas, determina seu status como superpotência.

A atual crise na Ucrânia formou novas alianças e dita novas divisões. Isso se aplica não apenas para o mapa global e para a geopolítica de países individuais, mas também para uma gama de opções políticas e ideológicas muito diferentes. Algumas dessas alianças são, à primeira vista, inesperadas: por exemplo, aqueles que caem no mesmo campo de antissemitas e neonazistas, junto a liberais pró-americanos e islamistas, eurófilos com os seguidores de de Adolf Hitler, ou Bandera, os chauvinistas e russófobos mais radicais. E isso não parece acontecer apenas na Ucrânia, mas mais ou menos por toda a Europa. Nas ruas de Riga na Letônia (que é membro da União Européia) marcharam colunas nazistas vestidas com uniformes da SS. Nenhum dos funcionários da União Européia reagiu. Um termo bastante adequado para isso é "fascismo liberal".

Porém, em si mesmo este fenômeno não é novo, algo similar já aconteceu durante a guerra na ex-Iugoslávia, quando os EUA e uma série de intelectuais "liberais", "independentes", como Henri-Levy, abertamente apoiaram o nacionalismo étnico primitivo e o radicalismo islâmico da Croácia ao Kosovo, desde que estes fossem dirigidos contra a Sérvia. Liberais e fascistas (na Ucrânia, os seguidores de Bandera) sob certas condições podem ser aliados, tanto quanto liberais e wahhabis (o caso da Bósnia, do Kosovo, do Cáucaso e da Síria). O critério para isso é o das alianças geopolíticas. A América, novamente, não está em uma posição de escolher seus aliados, pois isso seria, especialmente nas circunstâncias atuais, um luxo. Afinal, os EUA já demonstraram que na verdade eles nunca foram muito seletivos.

O Século XXI não será um "século americano"

A divisão básica é agora, obviamente, uma que contraposiciona de forma irreconciliável a Rússia em relação a América e seus satélites ocidentais. Após a Síria e a Ucrânia, é óbvio que o mundo unipolar, um mundo em que a hegemonia americana era inquestionável, não existe mais. A segunda metade é agora a Rússia. Ela era seguida por China, Índia e Brasil (América Latina), e mesmo o mundo islâmico, ainda que ele esteja em profunda tormenta. Mas apenas a Rússia é forte o suficiente para competir com a América em termos militares, e sem ansiedade aguarda pelas sanções econômicas anunciadas pelo Ocidente.

O século XXI, contrariamente às projeções dos estrategistas americanos, não será um "século americano". A elite política americana é incapaz de compreender isso. A transição para uma ordem multipolar não é indolor. Ela se dá por uma série de crises artificialmente induzidas, guerras sempre nos mesmos lugares (por enquanto guerras localizadas, mas amplas em sua importância), ou mesmo com a ameaça de que armas serão utilizadas. Do ponto de vista dos interesses americanos, o golpe de Kiev de 22 de fevereiro - foi um erro. Até mesmo uma nova guerra fira com a Rússia e uma possível tentativa de exaurir economicamente a Rússia não é uma resposta adequada. O que quer que aconteça no futuro, as mudanças serão tectônicas, e o mundo então parecerá muito diferente.

Outros atores menos importantes são assim deixados para aprender lições e começar, inicialmente de forma suave, um realinhamento do cenário global. Ademais, deve ser notado que a aliança com a América não mais fornece segurança para seus aliados. Repúblicas da ex-URSS, e essa é a primeira lição da crise ucraniana, agora veem que apenas a Rússia (não a América, muito menos a fraca União Européia) pode garantir integridade territorial. Finalmente, os EUA não podem mais garantir a segurança nem mesmo de seus aliados europeus pois a ordem no mundo não é mais unipolar ou americanocêntrica. Os EUA, de agora em diante, não ditado por regras, nem são capazes de prescrever o que é permitido e o que não é. Aqueles que falam sobre os perigos do "imperialismo russo em ascensão" devem ser lembrados da história difícil das últimas duas décadas e meia, da primeira Guerra do Golfo, em seus capítulos sangrentos escritos na ex-Iugoslávia, na Bósnia, no Kosovo, no Afeganistão, e então de novo no Iraque. Milhares e milhares de mortos e mutilados, a destruição de países inteiros, uma longa lista de intervenções americanas ao redor do mundo, com napalm e urânio empobrecido, fomentando guerra civil e a incitação à limpezas étnicas ao redor do mundo, seria um balanço da hegemonia global americana, que hoje se aproxima de seu inevitável fim. Seria bom para os estrategistas de Washington compreender essa realidade nesse momento.

A União Européia, independentemente do resultado, será a maior perdedora na crise ucraniana, simplesmente porque os líderes europeus são incapazes de definir claramente sua posição nas novas circunstâncias. Eles continuam em sua inércia seguindo ordens de Washington. Isso empurra a Europa para uma crise mais profunda. O primeiro e talvez menor preço que a União Européia terá que pagar será muito provavelmente o econômico, causado pelas sanções contra a Rússia, que forçarão Bruxelas, ainda que relutantemente, a aceitar o ditador de Washington. Deve ser notado que aqueles países na Europa Oriental se encontrarão em posição ainda mais dificultosa para apenas passivamente seguirem Bruxelas sem sua própria política externa, esperando um dia se unir à União Européia.

Recentemente, por ocasião da Ucrânia no Washington Post foi anunciado "um caso clássico de política americana", por Henry Kissinger. Seu "texto programático da Ucrânia" não é nada além do que uma repetição de velhas teses russofóbicas da Guerra Fria, mas dessa vez impostas por uma linguagem esopiana, com grande cautela e contenção. Nós devemos lembrar aqui de muitas avaliações honestas de Kissinger, que são apresentadas com tato muito menos diplomático: "Ser inimigo da América é perigoso; ser seu amigo é fatal". Na sobra da crise ucraniana, esse reconhecimento soa muito mais fatídico.

Impasse Político

Em 2008, durante a curta guerra com a Geórgia, a Rússia escapou da caixa que lhe foi imposta em 1991. Graças à queda da União Soviética, ela era aproximadamente a fronteira da Federação Russa. De certa maneira, a reação da Rússia foi então deduzida. Um cenário simples da crise georgiana havia sido previamente testada na ex-Iugoslávia. A resposta de Moscou à versão georgiana da "Tempestade", porém, foi eficaz e o papel que a Rússia desempenhou, independentemente do fato de que a Geórgia é retratada pela mídia ocidental como vítima, foi construtivo: a intervenção militar russa impediu um genocídio na Abkhazia e na Ossétia do Sul, e a Geórgia não foi transformada no palco de conflitos étnicos que há muito tem desestabilizado a região.

Em paralelo, Moscou orquestrou diversos movimentos de longo alcance, a mais importante das quais indubitavelmente a decisão importante de estabelecer uma união alfandegária eurasiana (amanhã, uma união econômica eurasiana). Clinton então disse que isso era uma tentativa de reconstruir a União Soviética e que a América faria qualquer coisa para impedir isso, mas quanto a essa "qualquer coisa" como a vemos agora, não é o suficiente. Logo depois: Síria. Esse caso demanda um exame das forças russas mais sério do que o caso georgiano. Não há dúvida de que os EUA estavam então determinados a intervir com uma campanha aérea, já que as forças armadas americanas não são mais capazes de realizar uma invasão terrestre (ela não o pôde mesmo em 1999, na guerra de 78 dias contra a Iugoslávia). Houve uma posição consistente do Presidente Putin de intransigência em relação a ameaças e à retórica dura de Washington, e um apoio bastante concreto a Damasco (em oposição à reação morna de Medvedev durante a crise líbia), o que faz os estrategistas de Washington mudarem de opinião e buscarem um caminho para fora do impasse em que os EUA caíram novamente por causa de sua política míope.

Atravessando o Rubicão

Em 2008, a Rússia pela primeira vez desde o colapso da União Soviética saiu de suas fronteiras impostas, e em 2014 o fez novamente. O presidente russo Vladimir Putin, se dirigindo a tropas na Criméia, atravessou o Rubicão, após o que um recuo russo simplesmente não é uma opção. A OTAN, apesar da introdução ilegal e secreta de unidades individuais na Ucrânia, aparentemente carece da vontade ou do poder de intervir, o que significa que a junta está agora abandonada a si mesma. Seu apoio do Ocidente de qualquer maneira, pelo menos, se provou ambíguo. No sudeste da Ucrânia eles provavelmente darão início a um período de terror contra a população russa, que será implementado não pelo exército ucraniano (representando a estrutura do Estado ucraniano no sudeste, agora desintegrada), mas ao invés gangues militantes do "Setor Direito" e do "Svoboda", disfarçados em uniformes da Guarda Nacional da Ucrânia, possivelmente auxiliados por unidades da OTAN. Porém, a junta de Kiev não pode contar com a força total da OTAN.

Nessas condições, a tarefa agora é construir um novo Estado russo no sudeste, a Nova Rússia, que ligará a Rússia, incluindo a Criméia, com a Transnístria. O Ocidente não veria isso favoravelmente e provavelmente tentará agir de alguma forma, mas essa é tão somente a nova realidade geopolítica: a América tem que aceitar o fato de que após mais de vinte anos a Rússia retornou como força histórica. Essa é uma questão de realismo político.