sábado, 26 de julho de 2014

Aleksandr Dugin - Batalha pelo Estado

por Aleksandr Dugin



No sentido político, a situação na Rússia está se tornando crítica. Essas são mudanças fundamentais mais do que flutuações na superfície. Tentemos criar um esquema conceitual dos eventos atuais.

Há um Povo (Narod em russo, similar ao Volk alemão), e há povo (população). Essas são duas coisas diferentes (conceitos diferentes). E todos eles são coletivamente conhecidos como "Rússia". Essa homonímia gera camadas de significado, e tudo se torna confuso. Vamos ortogonalizar a imagem situado tudo em seu próprio nível.


Narod é uma comunidade histórico-cultural. É um sujeito de destino e criador da história. Porém, nem todas as filosofias e ideologias reconhecem sua existência nesse sentido. Narod não existe para os liberais - há apenas um agregado de indivíduos. Nem ele existe para os comunistas - apenas classes existem; para os nazistas - apenas raça existe; e para os fascistas - apenas o Estado. E, ainda que soa paradoxal, Narod não existe para os nacionalistas também - para eles, há uma nação política baseada na pertença individual (a nação burguesa clássica é um produto da Europa durante o período da Modernidade). Narod não existe para todas essas ideologias - isto é, para a nomenclatura ideológica completa da Modernidade. Mas ele existe - é a única coisa que realmente existe. 

Heidegger costumava dizer, "Dasein existe através de um Povo" (Das Dasein existiert völkisch). Isto é dizer, que a presença do homem no mundo nos é dada através do Narod. Ele nos fornece linguagem, aparência, atributos psicológicos, um lugar no tempo (história) e no espaço (geopolítica).


Hoje, o Narod russo desperta irrompendo através das profundezas de seu sonhos - difíceis e simples, empobrecidos e enriquecidos - mas sonhos não obstante. Ele vê a Criméia e a Nova Rússia como territórios de seu despertar. Assim, o Narod se dirige a um lugar em que a Luz Russa o impele como um imã, brilhando através dos heróis da Nova Rússia. Essas não são emoções, chauvinismo ou ultrapatriotismo. Esse não é um "hurrah!" ou uma superfície, mas ao invés, é a voz da máxima profundidade russa. Nós existimos autenticamos apenas quando encaramos a morte. Apenas quando somos encarados pela morte se torna claro o que significa ser russo. As pessoas vão à Nova Rússia, a Donetsk e Lugansk, obedecendo a Vontade da História Russa, atraídos pela Morte Russa. É essa Morte Vermelha que faz dos russos o que eles são. Morte no mundo. Em nome do Narod. Morte pela Narod é vida. Assim, as pessoas vão à Nova Rússia para viverem à maneira russa.

Igor Strelkov é o símbolo do Narod russo. Strelkov é a corporificação de nosso espírito, nossa vontade, nossa resistência. E mesmo que não estejamos lá com ele, ele nos faz ter vergonha de nós mesmos e orgulho dele, mas mais importante, ele inspira Fé em nosso Narod. Strelkov existe autenticamente. Nele, nosso Narod encontra sua imagem. E todos os que estão com ele - Gubarev, Motorola, Mozgovoi, Babai, Purgin, e todos os heróis das Repúblicas Populares de Donetsk e de Lugansk, vivos ou mortos - eles são todos nosso Narod, suas faces. Enquanto tal. Na medida em que existe. Não se pode rasgá-lo, poluí-lo ou relativizá-lo.

Há também uma população, o povo. Se nosso Narod é unido dos dois lados da fronteira, então a população é diferente. Povo não é exatamente Narod, ou mais especificamente, não tanto Narod. Eles podem se tornar isso se as profundezas despertarem neles, se eles encararem a Morte, se eles acordarem. Mas eles também podem falhar. Nesse caso, eles são indivíduos preocupados com a sobrevivência, conforto, contentamento, sucesso, carreira, bem-estar material, etc.

O indivíduo é a antítese do Narod, um produto de sua decadência. Narod separa em indivíduos para que eles possam se unir nele novamente - como em uma Igreja, Catedral, Pátria. Mas às vezes esse retorno não ocorre. Então nos deparamos com o indivíduo puro. Por conta própria. Em grego, esse tipo de indivíduo puro sem quaisquer laços com a Totalidade ou com seu Narod era conhecido como idiotes, um cidadão privado, que é a origem do termo "idiota". A população é composta por idiotas no sentido etimológico do termo.

Narod é algo totalmente diferente - é aquilo que o homem se torna apenas quando ele confronta suas próprias profundezas, vive dentro da história, e ouve a voz do espaço sagrado da Pátria. É ao indivíduo que se dirigem todas as teorias políticas da Modernidade: eles unem os indivíduos de diferentes maneiras: marxismo - em classes, nacionalismo - em nações políticas, liberais - em uma sociedade civil, mas nenhum desses é um Povo - Narod. Assim, a Modernidade rejeita o Narod lidando apenas com pessoas diversas.

As pessoas da Rússia consideram aquelas no sudeste da Ucrânia como sendo diferentes. E elas estão corretas: desde o ponto de vista legal, este é formalmente o caso se a voz das profundezas permanecerem em silêncio. Nesse caso, é absurdo falar em Mundo Russo, Civilização Russa e Grande Rússia. Ao invés, há as populações respectivas de duas unidades administrativas, dois grupos de indivíduos que tem seus próprios interesses e objetivos.

Assim, a população da Rússia, o povo da Rússia pode permanecer surdo à dor da Nova Rússia. Segundo esse tipo de lógica, pessoas diferentes vivem ali. Elas são assassinadas, violadas, massacradas e bombardeadas, mas isso não é de nossa conta. Isso não é nem bom, nem agradável, mas, talvez, elas tenham feito algo de errado. Sim, pessoas sobrevivem. Mas o Narod vive. Aí está a diferença. Para viver, Narod manda seus melhores filhos e filhas para a Morte. A Morte em prol do Narod, em prol da Vida. Não sobrevivência, mas Vida.

Há também um Estado. Este é um mecanismo, uma superestrutura. Nele, um Povo - Narod vê sua criação e, talvez, a mais bem sucedida de suas criações. Narod cria o Estado como produto de sua vontade histórica, e tem orgulho dele. Mas o Estado pode se apartar do Narod, esquecendo suas fundações. E então ele pode se transformar em um mecanismo autossuficiente e morto, uma máquina. Estados podem ser vivos, mas eles também podem estar mortos. Um Estado vivente não rompe seus elos com seu Narod, que o criou, tirando seu poder dele. Ele vive e existe. Ele é. Mas quando o Estado degenera, ele se torna um aparato, máquina, mecanismo burocrático ao invés de totalidade orgânica viva. Nesse caso, o Estado começa a ver seu Narod como uma população, um povo diverso, uma soma mecânica de átomos. Qualquer unificação desses átomos - em uma classe, nação ou sociedade - é sempre arbitrária. O Estado europeu contemporâneo na era da Modernidade emergiu morto desde o princípio. Esse é um mecanismo de aglomeração da população. Esse tipo de Estado mata seu Narod e o transforma em uma população. Esse tipo de Estado vive parasitariamente de seu Narod, sua dor e sofrimento. Ele mata seu Narod.Encontra benefício nisso. Cria um Gesheft. Isto é, um Estado de gerentes e técnicos; mais especificamente - um Estado de comerciantes e empresários.

Hoje, essa questão é particularmente aguda: o que é o Estado Russo nesse momento? Ele pertence a seu Narod? Ou ele é mecânico? Este é o principal dilema para Putin, pessoalmente, como Chefe de Estado com uma vaga identidade dual. A ascensão do patriotismo na Rússia, a reunificação com a Criméia, e a confrontação com o Ocidente são todos sinais da presença de um Povo, do Narod. Tecnólogos políticos cínicos (cientistas políticos), os onipotentes e constantemente mentirosos gerentes de alto nível, a corrupção insana, o liberalismo dominante, a oligarquia anti-Narod, a ocidentalização da intelligentsia e das elites apontam para o Estado da morte, o Estado da sobrevivência.

Putin tem se equilibrado nessa faixa estreita entre o Estado de um Povo - Narod e o da elite liberal mecânica e alienada pelos últimos 14 anos. Ele se manteve dando passos em uma direção, e então em outra. É claro, sem um certo tipo de apoio à Nova Rússia, a imagem de hoje - ainda que criticamente difícil - não seria possível. Estivesse Putin apenas do lado de um Estado morto, Rússia Corp., ele teria traído tudo há muito tempo atrás. Mas este não é o caso. Ele compreende o drama doloroso do Estado Russo e sua natureza, crucificada entre Narod e a elite (sempre dependente da massa de idiotas sobreviventes - idiotas no sentido etimológico da palavra, isto é cidadãos privados, indivíduos).

Em outras palavras, a imagem é a seguinte: por um lado, Putin (=Estado) tem Strelkov como corporificação do Narod. Isto é a Nova Rússia como um todo. Estes são os russos e tudo que é russo. Por outro lado, há a elite (Yurgens em todas as suas expressões), a burocracia (governo, administração), e cidadãos médios. Este é um Estado ocidental e liberal, mecânico, contemporâneo - em todo caso, não o Narod, e em certo sentido anti-Narod. Putin está entre ambos. Não Putin pessoalmente, mas o Estado, seu sentido e natureza.

A Nova Rússia e seu dramático destino - especificamente expressado nas histórias de Strelkov, Gubarev, Mozgovoi e outros - que nosso Narod, os russos assistem com respiração suspensa - é um dos caminhos de Putin e da Rússia. O outro nos leva na direção dos comprometedores, dos traidores óbvios, dos provocadores, dos criadores de intrigas, dos liberais e ocidentalizadores, que usam a dualidade da Rússia a sua própria maneira. São eles que são a sexta coluna, que, em essência, não é diferente da quinta. a população sempre obedece à gerência superior. Afinal, ser despedido, contratado, receber bônus ou sofrer penalidades - em outras palavras, a sobrevivência - depende disso. Narod quer um Czar como corporificação de sua própria vontade superior através da história, como figura sagrada, como aquilo que une Terra e Céu, que ilumina e espiritualiza o próprio Narod. Ele não vê a gerência superior. Ele vê um Governante. Para o Narod, a Rússia é o Estado do Narod russo e daqueles que ligaram seu destino a ele.

Hoje, esses dois pólos - Narod e anti-Narod - entraram no mais duro confronto. Ninguém pode dizer como isso terminará. Cada cenário é possível. E Putin está sendo rasgado. Sua estratégia de equilíbrio não é mais útil. A história situa diante dele o dilema: ou seu Narod ou a elite (mais a população mecânica, atomizada e dividida). Ou a Civilização Rússia (que significa moralidade, Nova Rússia, Strelkov e Gubarev) ou a Corporação Rússia (que significa pragmatismo, realismo político, e, finalmente, Yurgens e suas variações).

Este é o momento mais difícil. Nosso Povo - Narod fez sua escolha. Ele despertou, ainda que não em sua totalidade e não plenamente, mas...olhe ao redor - russos aparecem por todos os lados desde as profundezas do sono da sobrevivência. E ousadamente partem para a Nova Rússia. Para morrer, isto é, para Viver. Para Viver autenticamente, como aquilo que É. Strelkov marca o horizonte de nossa auto-identificação, e é completamente irrelevante quem ele é como indivíduo. Ele é aquele por quem esperamos há muito tempo. Ele é o herói dos russos. E isso basta. Ele mesmo diz claramente que ele vê o raio de luz de Putin, sua encarnação solar. E ele está certo. Se Putin não tivesse esse lado particular, então não haveria Criméia ou a defesa heróica de Slovyansk. O fato de que que a Nova Rússia ainda é- é impensável sem essa parte da Rússia, a do Narod. Mas outra coisa também é evidente: o segundo lado (lunar) do Estado se rebelou. Traidores e "tecnólogos" declararam guerra à Nova Rússia, seus líderes e símbolos. Eles declararam uma guerra a Strelkov. E novamente, nós temos mentiras ao invés de batalhas. Traições ao invés de ajuda. Desunião ao invés de solidariedade. Traição ao invés de lealdade. Você reconhece esse modus operandi?

Este é o anti-Narod enquanto tal. E ele ofereceu ao Narod um desafio mortal. Em comparação, os nazistas ucranianos são simplesmente marionetes nas mãos do anti-Narod global que se espalha. Se não houvesse um poderoso grupo de traidores em Moscou no próprio topo, nós já estaríamos às portas de Kiev. É claro, nós ainda estaremos lá. O Narod estará lá. Os russos estarão lá. Mas há a seguinte questão: e quanto ao Estado? Que caminho escolherá? Será com o Narod ou sua antítese? Essa batalha é mais assustadora do que qualquer iniciativa militar. Ao mudar a razão levemente na superfície, na periferia, acabamos com resultados colossais. Tão logo os traidores mudem levemente os relatórios sobre o que ocorre na Nova Rússia, eles criam desinformação, aumentam as incertezas, e deixam a determinação para trás. Tudo funciona: falsos argumentos, uso seletivo de fatos, mentiras - aqui a burocracia anti-Narod é mestre.

Eu não antecipava que a guerra contra a sexta coluna no topo seria tão sangrenta e difícil, e que sua contra-ofensiva seria tão cruel. Afinal, perder milhares de cidadãos na Nova Rússia, assassinatos de mulheres e crianças - essas são simplesmente as consequências das ações realizadas pela sexta coluna na Rússia, que tem tentado empurrar o Estado para seu lado. Sua tese - retirar Strelkov, começar negociações, firmar compromissos com a junta - senão sua riqueza de bilhões roubados, suas propriedades no exterior, famílias levada para lá há muito tempo, onipotência na Rússia - sofrerão. Afinal, é no anti-Narod que a elite consiste quase plenamente. Há apenas um embaixador para o Narod. Mas ele é restringido pela máquina de morte do Estado.

Como em 1612 durante os Tempos das Atribulações, o Narod deve tomar sua própria iniciativa. Ele não pode depender apenas do Estado. Este é parcialmente paralisado pela sexta coluna. Mesmo Putin não pode portar toda a responsabilidade. O Ser histórico é nossa causa - a causa dos russos. Os russos hoje são a Nova Rússia, no mapa e no coração, na metralhadora e nas redes sociais. Que momento difícil...eu não me recordo de outro desse calibre em minha vida...mas ele é também alegre! Um russo desperto defendendo o Mundo Russo - isso é verdadeira alegria. Nós somos russos armados, que alegria!

sábado, 19 de julho de 2014

Guillaume Durocher - Vida e Obra de Alain Soral

por Guillaume Durocher


Alain Soral se tornou uma presença influente na cena política e cultural francesa. As seguintes tentativas lançam luz nessa figura completa e fascinante.

Quais são as posições políticas de Alain Soral?

As posições políticas de Soral são complexas, mas podem ser resumidas como uma "Terceira Posição Francesa". Políticas práticas incluem: soberania nacional, fim da imigração, economia livre de banqueiros, conservadorismo social, política externa não-alinhada, fim do Estado-babá e do feminismo, retorno à virilidade, aliança com a Rússia, idealmente a criação de um "protecionismo europeu" para organizar a economia em escala continental. Um slogan importante é "reconciliação". "Reconciliação" entre a "esquerda do trabalho" e a "direita dos valores", praticamente significando um certo socialismo econômico e conservadorismo social. "Reconciliação" entre franceses étnicos e cidadãos franceses afromuçulmanos ao redor de um nacionalismo cívico. "Reconciliação" entre o proletariado e a classe-média contra a finança especulativa.

Soral se opõe ao que ele chama "o Império" enquanto ideologia: a ordem burguesa que está criando um "Último Homem" universal, afeminado, miscigenado, aculturado, global, temeroso à morte e sem honra. A ideologia pode ser descrita como boêmio-burguesa, liberal-libertária ou, para usar a frase de Jonathan Bowden, "capitalismo de esquerda". Soral também se opõe ao que ele chama "o Império" na geopolítica, que é uma estranha constelação americano-financialista-sionista de nodos de poder interconectados que está tentando impôr sua hegemonia cultural, ideológica, econômica e militar ao redor do mundo, e destruir todos os Estados-Nação. Ele convoca a uma aliança de Nações livres contra "o Império". Soral é considerado uma figura satânica pelo sistema político-midiático francês principalmente por causa de sua crítica mordaz aos efeitos perniciosos do etnocentrismo judaico e do sionismo (tanto israelense quanto internacional) sobre não-judeus. Diferentes nacionalistas americanos sem dúvida encontrarão muito a criticar nessa ou naquela parte de sua agenda (de fato, muitos nacionalistas franceses também diferem de Soral), mas em qualquer caso é importante engajá-lo criticamente. Esse é um projeto ideológico e político sofisticado, independentemente de suas tensões internas e imprecisões.

Qual é a influência de Alain Soral?

Eu penso ser inquestionável que hoje Soral e o Igualdade e Reconciliação são o movimento dissidente, nacionalista e anti-sionista mais influente na França hoje e de fato (em termos de audiência) muito possivelmente do mundo ocidental. Na França certamente, a audiência do Igualdade e Reconciliação é maior do que a de nacionalistas como os Identitaires (ainda que estes possam ser mais fortes na ação direta) ou que os intelectuais de Nova Direita que são mais conhecidos por nacionalistas anglo-saxões. Ele é um grande portão para que jovens descubram o nacionalismo e parece ter certa influência, necessariamente encoberta, sobre as fileiras mais jovens da Frente Nacional.

Soral e o I&R promovem sua mensagem através de inúmeros meios.

Egaliteetreconciliation.fr é uma página cada vez mais popular que está geralmente entre as 250 mais visitadas na França (Alexa). É de longe a principal página de "notícias alternativas". No momento desse escrito (14/06/2014) a página é classificada como a 199ª, não muito atrás da slate.fr (subsidiária francesa da Slate americana) e um pouco na frente da página do jornal regional La Dépêche du Midi, da página do canal de TV estatal France3, e do gmail.com. Em suma, a audiência online direta do I&R está no nível das principais fontes de notícias online ou de um jornal mainstream de segundo escalão.

Os numerosos vídeos do Soral tipicamente recebem dezenas ou mesmo centenas de milhares de visitas. Esses vídeos são geralmente remixados independentemente e esses também recebem grande quantidade de visitas. Eles são em sua maioria palestras e "vídeos do mês", estes sendo entrevistas cobrindo notícias (não raro de forma hilária, com seções como "Le con du mois" ["Idiota do mês"]) e cultura. Os vídeos culturais promovem livros publicados por Soral e são geralmente bem longos, mas ainda assim conseguem muitas visitas, sugerindo seguidores intelectualmente comprometidos. Recomendo fortemente que assistam aos vídeo de Soral, uma experiência que para mim foi simplesmente assombrosa e permanentemente destruiu a prisão mental do politicamente correto na qual eu estava preso até então. Após seu abandono da política partidária, Soral foi capaz de avaliar suas experiências e escrever Comprendre l'Empire, publicado em 2011, uma síntese de 200 páginas de suas opiniões políticas. Esse meio-ensaio, meio-manifesto se tornou um bestseller underground com 80.000 vendas e está perenemente na lista de bestsellers políticos na Amazon.fr (às vezes em primeiro) apesar de um boicote total da mídia. Seu subtítulo revelador dá a essência do argumento: "Governo global do amanhã ou a revolta das Nações?"

Soral e seus associados montaram uma pletora de pequenos negócios, tipicamente com um ângulo nacionalista. Essas incluem Prenons le Maquis (camping, sobrevivencialismo), Sanguis Terrae (vinho), Au Bon Sens (comida orgânica) e, talvez mais significantemente, a editora Kontre Kulture, cujo nome e missão curiosamente lembram o Counter-Currents e que publica obras importantes e geralmente esgotadas e seus próprios autores. Soral, como o Counter-Currents e o Occidental Observer Quarterly, acredita que a cultura está na raiz de muitos dos problemas contemporâneos e em desafiar a supremacia do desafio atual.

Desde o verão de 2013, apenas há um ano, Soral cada vez mais apareceu na cobertura da mídia de massa. Isso começou com o então Ministro do Interior Manuel Valls publicamente o denunciando como "inimigo da República" em agosto de 2013. Soral também publicou recentemente um livro co-escrito com o jornalista de TV Éric Naulleau, supostamente contendo "debates" entre os dois, que achou seu caminho às principais livrarias (Dialogues désaccordés). Finalmente, a cruzada anti-Dieudonné de 2013 a 2014, que terminou com uma proibição governamental do show Le Mur do comediante, também trouxe atenção a Soral (incluindo uma rara entrevista dada à BBC). Cada um desses eventos levou a mídia a passar de ignorar sistematicamente o Soral a lhe dar cobertura significativa. Essa cobertura, naturalmente, era exclusivamente negativa, mas não obstante se correlaciona com uma aumento na audiência de Soral, representando um problema intratável para o regime, já que seus esforços de propaganda derrotam a si mesmos.

Mais geralmente, Soral e o I&R se beneficiam da popularidade de Dieudonné M'bala M'bala. Ainda que o comediante franco-camaronês tenha sido banido da televisão, demonizado pela mídia, e seja perseguido pelo Estado e ONGs etnicamente motivadas, ele é capaz de conseguir audiências massivas para seus shows. Como medida de sua popularidade, os vídeos de Dieudonné geralmente recebem muito mais visitas que os de Soral, com centenas de milhares ou milhões de visitas. A política de Dieudonné é ainda mais "meta" do que a de Soral. Ele é mais um comentarista social que político. Ele é anti-sionista, mas não realmente nacionalista. As operações de ambos os homens não se fundiram, ainda que haja claramente grande porosidade e sobreposição entre seus apoiadores.

Como Alain Soral teve tanto sucesso em construir uma audiência?

O trabalho de Soral desde que abandonou a Frente Nacional tem sido majoritariamente metapolítico, se esquivando da política eleitoral direta de qualquer tipo, mas apoiando qualquer movimento alinhado com os objetivos do I&R, acima de tudo a Frente Nacional. Ele tem seguido uma estratégia perigosa e de alto risco - supondo que foi algo consciente, mais do que apenas o reflexo de sua determinação intransigente de dizer tudo o que pensa - que finalmente rendeu frutos. Porém, vale a pena enfatizar o preço que ele pagou por sua notoriedade. Soral é um leproso. Toda a mídia oficial e os partidos políticos o consideram o Diabo e até a Frente Nacional é cautelosa com qualquer aparência de laços. Ainda que ele agora tenha uma audiência significativa totalmente sua, seu "antissemitismo" o torna intocável até mesmo para a extrema-direita (seus amigos de esquerda, se ele os teve, já o abandonaram há muito tempo). Esse tipo de estratégia não é para todos, e enquanto esse tipo de metapolítica provocadora pode complementar o trabalho de outros grupos, ela não é apropriada para a política eleitoral direta. Essa estratégia, envolvendo a total automarginalização e um sacrifício considerável, provavelmente só se provou funcional graças à internet. Isso estando dito, é incrível o quanto Soral foi capaz de expandir sua audiência desde 2009, quando ele se tornou completamente livre para dizer o que pensa - há apenas cinco anos. Um número de importantes fatores pode ser identificado. Soral projeta uma imagem de virilidade. Ele não se curva diante de nada e é o único disposto a discutir os principais tabus. Ele também é boxeador. Isso apela a uma parcela crescente da juventude européia e não-européia que anseia por exemplos masculinos em nossas sociedades cada vez mais afeminadas e transexuais. Soral possui um estilo de debate extremamente agressivo. Qualquer intelectual, jornalista, político ou ativista que ele considere estúpido ou que esteja demonstrando má fé será sujeito a críticas virulentas, às vezes hilárias. (Aqueles que falam francês podem descobrir isso nessa compilação de vídeos de seu Con du mois [Idiota do Mês]). Por exemplo, o comediante pseudo-subversivo Stéphane Guillon uma vez atacou Soral como "perigoso", ele respondeu dizendo o seguinte:

"Uma pequena quenelle já que Guillon falou sobre mim: eu imagino se não há algum ciúme porque, eu tenho que admitir isso hoje, eu comi sua esposa. Talvez ele esteja com raiva de mim porque eu comi sua esposa. Mas eu acho que seja bastante injusto estar com raiva de mim e não de outros porque na época basicamente todo mundo a comeu. Então eu não acho que ele esteja com raiva de mim em particular [...] Assim eu respondo: não só eu sou perigoso, como eu comi sua esposa, e você não vai comer a minha tão cedo".

A agressividade de Soral atrai pessoas por várias razões: o estilo é palatável para leigos, e os vídeos se espalham; todas as pessoas que já se sentiram ofendidas por quem quer que Soral esteja criticando se sentirão vingadas (geralmente Soral é o único disposto a criticar essas pessoas tão diretamente); e finalmente quem quer que conheça ou talvez apoie quem Soral esteja criticando descobrirá assim Soral. Toda publicidade é boa publicidade, e há poucas maneiras melhores de consegui-la do que provocando emoções, tanto positivas como talvez especialmente negativas. Soral teve que moderar um pouco esse tipo de vídeos porque eles o puseram enrolado em uma imensa quantidade de casos legais por difamação e injúria pública (a terra de Voltaire possui problemas notáveis com o conceito de liberdade de expressão). Ele também se engajou no que o regime considera a provocação mais extrema, tal como realizar uma quenelle na frente do memorial do holocausto de Berlim (Soral não nega o holocausto, mas ele tem reivindicado liberdade de expressão para os revisionistas; ele está sendo processado por grupos judaicos por esse gesto na soma de centenas de milhares de euros). Criticamente, tanto Soral como Dieudonné são economicamente independentes do sistema político-midiático. Dieudonné aparentemente ganha centenas de milhares de euros anualmente com seus shows de stand-up comedy. Soral parece viver bem apesar de seus custos legais através de palestras e a renda aparentemente modesta de suas várias empresas (supostamente algumas dezenas de milhares de euros anualmente). Como sempre, frugalidade é liberdade!

Soral e Dieudonné tem sido os únicos dispostos a falar sobre o elefante na sala: etnocentrismo judaico, sobrerrepresentação da elite judaica, e sionismo. Naturalmente se outros ignoram uma grande parte da realidade, devemos nos voltar para os únicos que a discutem de frente.

Também significativamente, a postura ostensiva de Soral é uma de respeito pelos valores oficiais da República francesa: não-reconhecimento de grupos étnicos, igualdade perante a lei, soberania popular. Ele ressalta as contradições entre os valores oficiais do regime e sua prática real. O regime é assim desacreditado entre as pessoas que descobrem Soral, e elas então são psicologicamente preparada para adentrarem em suas idéias mais radicais.

Significativamente, as análises de Soral tem tendido a ser vingadas com o tempo. A crise financeira, a crise do euro, a atual crise da democracia, a visão patética do impotente presidente François Hollande, e especialmente a continuada e cada vez mais flagrante tendenciosidade étnica na cobertura e política externa francesa e de outros países ocidentais - tudo confirmou sua relevância. (Na França esse ativismo étnico se tornou simplesmente grotesco: incluindo Bernard-Henri Lévy lançando extraoficialmente a destruição da Líbia, Alain Finkelkraut sendo promovido à Academia Francesa, a perseguição absurda e legalmente duvidosa de Dieudonné incluindo o uso de censura preventiva, e o agente sionista Manuel Valls sendo recentemente apontado como Primeiro-Ministro).

Acima de tudo, Soral tem sido estável e não-apologético desde 2004. Ele explicou:

"O Sistema está começando a manufaturar Manuel Valls - assim como manufaturou Bayrou à época, Mélenchon em outra - é por isso que ele não deve sonhar. Ele tem a impressão de que está avançando muito rápido porque ele tem um impulso. O dia que eles removerem o impulso ele avançará muito menos rápido. Eu, eu avanço com os ventos soprando contra, então eu pedalo com panturrilhas grossas".

É possível ser dependente do regime, talvez até influenciá-lo internamente mas ainda ser vulnerável a seus desejos. Ou se pode ser independente. (Nenhuma dúvida de que esses papéis podem ser complementares, com críticos externos e criptonacionalistas circunspetos empregados pelo regime).

De onde vem Alain Soral? Ou, da "Sedução" ao Conservadorismo Social

Nascido em 2 de outubro de 1958, Alain Soral teve segundo todos os relatos uma vida familiar miserável, espancado pelo seu pai, um déclassé que foi condenado por fraude e perdeu suas propriedades. Ele foi para Paris em 1976 fazendo "bicos". Apesar de não ter diploma do segundo grau, ele conseguiu emprego no mundo cultural-midiático-publicitário através de sua irmã Agnès Soral, que como aspirando a atriz tinha uma crescente rede de contatos no mundo do show business e na cultura comercial (e.g. marketing) parisiense.

Alain aparentemente odiava esse trabalho como sendo moralmente falido e não gratificante, considerando-o terrivelmente tedioso. Ele parece ter sido motivado por um senso agudo de humilhação como um burguês-tornado-proletário (dizendo que ele tinha uma "consciência dupla" como proletário e burguês), um intelecto agudo, uma sensibilidade aguda às nuances da vida social ao seu redor, e uma fome por provar a si mesmo e ser amado. Aqueles que tem seguido as carreiras de Roissy/Heartiste e RooshV (PUAS famosos na manosfera) podem considerar interessante que o jovem Soral era um dragueur de rue (um PUA de rua, em suma, um sedutor), aparentemente levando para a cama mais de 800 mulheres, especialmente desfrutando de mulheres jovens, burguesas e narcisistas, como uma forma de "luta de classes".

Jonathan Bowden, que enfatizava o elo entre a arte e a política dissidente radical, não ficaria surpreso em descobrir que o primeiro interesse de Soral foi pelas artes, tendo ido estudar na Beaux-Arts de Paris. Ele leu uma enorme quantidade de literatura política, principalmente marxista, incluindo Michel Clouscard, Lucien Goldmann, György Lukács e outros. Ele posteriormente escreveria na terceira pessoa: "Alain Soral, ex-dragueur de rue que amava livros tanto quanto garotas, tanto que ele não escolheu entre ambos". Aqui eis claramente um "rufião culto"...

Deprimido e supostamente contemplando o suicídio, ele co-escreveu um livro sobre moda (Les Mouvements de mode expliqués aux parentes, 1984), aparentemente como desafio para si mesmo, que se tornou um bestseller surpresa. Logo se tornou a ambição de Soral se libertar da escravidão salarial vivendo modestamente de livros. Ao longo das próximas décadas ele publicaria as seguintes obras:

  • La création de mode: Comment comprendre, maîtriser et créer la mode (1987);
  • Le Jour et la Nuit, ou la vie d'un vaurien (1991): Um romance autobiográfico que ele escreveu enquanto trabalhava como cuidador de um castelo; não vendeu bem;
  • Sociologie du dragueur (1996): Seu guia de sedução, realmente um tipo de ensaio autobiográfico com poderosas meditações sobre epistemologia (teoria vs. prática, intelectual vs. praticante), papéis masculinos/femininos e existência humana;
  • Vers la feminization? Démontage d'un complot antidémocratique (1999): Um ataque ao feminismo oficial e burguês narcisista;
  • Jusqu'où va-t-on descendre? Abécédaire de la bêtise ambiante (2002): Análises politicamente incorretas de vários aspectos da política e da sociedade contemporânea;
  • Socrate à Saint-Tropez: texticules (2003): O mesmo que o de cima, com criticas legalmente arriscadas do communautarisme (e.g., a ascensão do lobismo por elites judaicas/gays/feministas), o subtítulo sendo um trocadilho entre "textos pequenos" e "testículos";
  • Misères du désir (2004): Um romance;
  • CHUTe! Éloge de la disgrâce (2006): Um romance sobre o declínio e queda de um "jornalista honesto" (ou sobre a inevitabilidade do jornalismo oficial enquanto propaganda).

Soral também dirigiu um filme, Confession d'un dragueur, baseado em seus livros sobre sedução.

Eu não tentarei psicanalisar Soral para tentar determinar o que o fez escolher o caminho notável e difícil que ele escolheu. Mas é importante conhecer a biografia do homem dado a natureza da epistemologia soraliana.

É possível dizer que os escritos de Soral são genuinamente não-positivistas, o que os torna algo notavelmente raro hoje em dia. Ele é distintamente desinteressado em relação a estatísticas ou escritos acadêmicos chatos. Soral atinge suas conclusões pela interação e contraste de três fontes: sua experiência vivida visceral, sua leitura de "grandes obras" filosóficas e sociológicas, e sua própria dialética de alto nível. (Esta em particular é notável - e bem intimidadora - raciocinando por vai-e-volta lógicos que são tão extremos que se é tentado a chamar isso de "dialética histérica". Mas eu entendo que isso já foi a norma no raciocínio filosófico).

Enquanto tal, a experiência vivida de Soral é crítica para sua cosmovisão - em particular, suas experiências conquistando mulheres, seu desprezo pelas elites, seu tempo no Partido Comunista Francês e depois na Frente Nacional, e finalmente sua perseguição pelo sistema político-midiático por levantar a questão do etnocentrismo judaico.

Em paralelo, eu não acredito ser coincidência que Soral, Heartiste e RooshV todos passaram do PUA ao conservadorismo social e uma certa "dissidência". Por duas razões: primeiro, essa experiência direta e vivida das mulheres como elas são obviamente contradiz a propaganda crua do regime sobre a equivalência e intercambiabilidade homem-mulher, assim desacreditando a propaganda do regime em geral. Um cientista espacial não pode ignorar o heliocentrismo (não importa o que diga o regime) se ele planeja enviar alguém ao espaço, e o prestígio da Igreja Católica nunca se recuperou após Galileu e Darwin. Em segundo lugar, homens que estão dispostos a conquistar mulheres possuem uma dureza pouco burguesa já que eles tem a vontade de conseguir o que desejam apesar de medos de rejeição ou dos sentimentos alheios, qualidades essas que armam um homem com a coragem necessária para dizer a verdade como ele a vê, ainda que isso machuque os sentimentos alheios ou faça com que ele sofra como dissidente. Talvez Schopenhauer não ficaria surpreso em aprender que, dessa maneira estranha, a rebeldia do homem europeu contra o regime, sua luta pela verdade e liberdade, derivam de sua indomável vontade de vida.

Qual é a experiência política de Alain Soral? Ou, do Comunismo ao Nacionalismo.

Em algum momento no final da década de 80 ou início da de 90, Soral se uniu ao Partido Comunista Francês (PCF). Pouco se sabe sobre esse período. Parece que ele se filiou graças a seu ódio pelas pessoas e trabalho burgueses, e seu sentimento comum para com os proletários. Soral fez campanha contra o Tratado de Maastricht de 1992 criando a União Européia e, de fato, os comunistas estiveram entre os poucos partidos a se opor a ele junto à Frente Nacional. Ademais, o PCF na década de 70 havia se oposto à imigração como uma caça a trabalhadores. Soral notou que os trabalhadores de colarinho azul tendiam a ser nacionalistas e esses cada vez mais se filiavam à Frente Nacional aproximadamente na mesma época em que Soral. Estranho como possa parecer, os comunistas são geralmente nacionalistas ainda que os partidos comunistas tenham geralmente sido comandados por indivíduos de mentalidade mais globalista.

Soral era principalmente conhecido, porém, por sua crítica social, particularmente do feminismo e do ativismo de minorias (étnico, homossexual, feminista). Ele se tornou uma personalidade televisiva menor, aparecendo em talk shows como um conservador social simbólico no final da década de 90 e início do novo milênio. Soral posteriormente diria que havia um lugar preparado para ele ser o crítico conservador social "do Sistema", mas na verdade ele era sensível demais para isso, sendo completamente intolerante do que ele via como mentiras ou críticas injustas, e transbordando em cada aparição televisiva com coisas para dizer, aparentemente tentando corrigir cada equívoco que ele ouvia. Soral não apenas critica, ele geralmente diz o que ele vê como a verdade da maneira mais dura e cruel possível.

A virada aberta de Soral para o nacionalismo data de seu desgosto em relação a cobertura midiática injusta do líder do FN Jean-Marie Le Pen (particularmente em 2002 quando ele foi ao segundo turno das eleições presidenciais) e do comediante franco-camaronês Dieudonné M'bala M'bala, e sua própria perseguição pelo sistema sionista.

Em dezembro de 2003, Dieudonné realizou um sketch interpretando um colono israelense fundamentalista, convidando sua audiência a se "unir ao eixo americano-sionista" e concluindo com um "Isra-heil!". Ele sofreu uma massiva campanha de difamação e ostracismo como resultado, com a espiral usual: o defensor cansado ataca seus ofensores em frustração, o defensor tem dificuldade em explicar a razão pela qual ofensas à comunidade judaica levam um preço tão alto, em oposição às comunidades negra, muçulmana ou branca sem cair no que o regime definiu como "antissemitismo". (A resposta, obviamente, é a combinação da sobrerrepresentação judaica em posições politicamente, culturalmente e economicamente influentes, e o etnocentrismo judaico, i.e. racismo).

Soral foi um dos poucos a defender Dieudonné. Isso lhe rendeu poucos amigos, mas ele não foi tornado uma não-pessoa até a exibição fatídica de um documentário em 20 de setembro de 2004. Falando com jornalistas, Soral disse:

"Quando com um francês, um judeu sionista, você começa a dizer: 'talvez haja alguns problemas que vieram de vocês. Talvez vocês tenham cometido alguns erros. Não é sistematicamente a culpa do outro, não completamente, se todos os odeiam onde quer que vocês ponham os pés'. Porque essa é basicamente a sua história, você vê. Já se passaram 2.500 anos que a cada vez em que eles põem os pés em algum lugar, depois de 50 anos eles são expulsos. Alguém tem que dizer, que estranho! É que todos estão errados, exceto eles. O cara, ele começa a latir, a gritar, a ficar louco, você vê. Não dá para manter um diálogo. Quer dizer, eu acho, que há uma psicopatologia, você vê, do judaísmo-sionismo que se assemelha a uma doença mental".

Soral se opôs à veiculação da entrevista. De qualquer maneira, ele foi eventualmente condenado pelas cortes por "incitação ao ódio racial" e multado em 6 mil euros. Mais significativamente, ele foi tornado persona non grata.

Dieudonné e Le Pen - perseguidos pelo mesmo sistema político-midiático etnicamente discriminatório - se aproximaram. Soral se uniu ao FN no outono de 2005 e foi encarregado das questões sociais e das minorias étnicas. Le Pen evidentemente gostava de Soral e logo o alavancou para o Comitê Central, o corpo executivo do partido. O FN estava então em ma posição frágil já que uma grande porção dos seus políticos eleitos localmente e quadros profissionais, como Bruno Mégret, haviam abandonado o partido na década de 90. Ademais, o avanço de Le Pen rumo ao segundo turno das eleições presidenciais de 2002 levou a uma reação massiva e total da mídia popular (sugerindo uma situação desesperadora), e o próprio Le Pen estava ficando idoso, com a futura sucessão do partido e até sua existência incertas.

Soral posteriormente se gabaria de ter redigido discursos tanto para Dieudonné como para Le Pen ao mesmo tempo. Como ex-comunista, ele tinha orgulho de que o FN havia se tornado o principal partido entre os trabalhadores, mas também era simpático aos imigrantes de segunda geração, dizendo que "se a Frente Nacional puder se tornar também o principal partido entre imigrantes, eu adoraria completamente".

O FN já havia avançado muito desde a década de 80 - quando era um partido de direita banal, apelando ao nicho eleitoral de todo mundo à direita do partido governista de centro-direita, adotando uma retórica populista e políticas basicamente reaganitas (anti-imigração, repressão ao crime, conservadorismo social, antigoverno, anti-welfare, pró-OTAN, anticomunismo). Com a queda do comunismo e a ascensão das guerras americanas e da integração européia, a FN se tornou eurocética e antiguerra (se opondo notavelmente às guerras nos Bálcãs e no Iraque).

A FN já havia portanto começado sua virada antiglobalista na década de 90. Soral trouxe uma nova dimensão ao tentar criar um tipo de nacionalismo de esquerda: políticas econômicas progressistas (apelando aos trabalhadores) e apelos a franceses de origem imigrante (ao mesmo tempo mantendo a postura anti-imigração). Ele coescreveu o famoso discurso de Le Pen em setembro de 2006 em Valmy, no local da primeira vitória militar do regime revolucionário francês, na qual o líder nacionalista declarou: "Da Gergóvia à Resistência e da monarquia capetina à aventura napoleônica, eu tomo tudo! Sim, tudo!"

As eleições presidenciais de 2007 foram um pequeno desastre para a FN. Seu voto foi cortado pela metade. Isso provavelmente se deveu mais à campanha de sucesso de Nicolas Sarkozy copiando temas nacionalistas sobre imigração e crime do que a influência de Soral sobre o programa da FN. O partido manteve os temas econômicos progressistas e o apelo a "todos os franceses", ainda que sua posição sobre o Islã tenha sido ignorada.

Após as eleições, Soral fundou o Igualdade e Reconciliação (I&R), aparentemente em um espírito conciliatório, o vendo como um tipo de think-tank nacionalista de esquerda. Uma disputa obscura anterior às eleições parlamentares de 2009 o levaram a deixar a FN, dando um discurso acusando Marine Le Pen de querer voltar "ao Sistema", ao abandonar o nacionalismo autêntico. Ele depois se arrependeu disso, demonstrando a tendência de Soral de generalizar a partir de eventos possivelmente anedóticos, e ver tudo nos termos de seu próprio "sistema" intelectual.

Soral e Dieudonné seguiram liderando uma lista "anti-sionista" nessas eleições européias, conseguindo 1.3% do voto na região da Île-de-France, mostrando assim os limites da metapolítica, mesmo popular, em eleições diretas. (Houve uma derrota similar na Bélgica, como Debout les Belges de Laurent Louis, um partido semi-nacionalista estranho, que tentava lucrar com a fama de Dieudonné e Soral. Ambos deram apoio a Louis mas seu partido não conseguiu eleger um representante para as eleições européias de 2014).

Quais são as relações de Alain Soral com outros nacionalistas franceses?

Soral e o I&R promovem alegremente todos os intelectuais e movimentos (notavelmente dando visibilidade em seu sítio virtual ou vendendo seus livros na Kontre Kulture) que afirmem coisas válidas confirme seu entendimento, ainda que eles não concordem com tudo. Assim, ainda que Soral seja anti-sionista, ele promoveu o jornalista judeu Éric Zemmour (sem dúvidas o mais popular especialista nacional-conservador na França), o intelectual parcialmente judeu Emmanuel Todd (por sua apologia do Estado-Nação francês, ainda que ele seja pró-imigração, um pouco germanofóbico e estranhamento tolerante do financialismo inglês), e o escritor racialista branco Hervé Ryssen.

Essa atitude (re)conciliatória de "grande tenda" entra às vezes em conflito com as críticas brilhantes de Soral a qualquer um que ele veja como sendo hipócrita, mentiroso ou secretamente etnicamente motivado. Isso, junto às próprias idéias controversas de Soral, tem significado que ele tem muitas vezes tido relações tensas com outros nacionalistas.

Desde seu abandono do FN e não obstante a desavença inicial, Soral consistentemente vem apoiando a Frente Nacional. Marine Le Pen, e especialmente seu portavoz Florian Philippot, são claramente mais próximos a sua linha econômica progressista e sua linha nacionalista cívica do que o antigo FN (ainda que ele concordasse com as políticas antiguerra, soberanista e anti-imigração do velho FN). Segundo todos os indícios, porém, Soral possui melhores relações pessoais com os líderes da velha guarda incluindo Jean-Marie Le Pen e o católico conservador Bruno Gollnisch.

Soral tem tido conflitos com o FN de Marine em algumas questões, especialmente com as provocações islamofóbicas e seu secularismo agressivo. Ele não gosta de alguns notáveis do novo FN como Gilbert Collard, um maçom. Ademais, Soral está em um litígio legal com o namorado de Marine e vice-presidente da Frente Nacional Louis Aliot. Soral fez de Aliot seu "con du mois" ("idiota do mês") e disse que ele era um "chupa-rolas de sionista" por ter ido à Cisjordânia e elogiado assentamentos israelenses. Aliot está processando Soral por "difamação e injúria pública". Além da disputa pessoal há uma questão substantiva: Deve o FN se curvar perante o "politicamente correto" político-midiático do regime em geral e ao sionismo em particular em sua luta para conseguir ser eleito? A questão é ainda mais significativa dado a recente querela entre Marine e Jean-Marie na última controvérsia manufaturada pela mídia.

Dado o tipo de nacionalismo multirracialista de Soral, não é surpreendente que ele tenha relações ruins em geral com os Identitaires. Ele também tem diferenças irreconciliáveis com o equivalente entre africanos e muçulmanos, os Indigènes de la République (correspondendo aproximadamente a movimentos Black Power nos EUA, um tipo de anticolonialismo multirracial fanoniano... na metrópole francesa). Parece que um número significativo de ex-simpatizantes dos Identitaires e Indigènes acabam se filiando ao I&R.

Em termos de intelectuais da Nova Direita francesa, Soral tem boas relações com Alain de Benoist. Por outro lado ele tem péssimas relações com Guillaume Faye, que disse sobre ele:

"Alain Soral é um ex-marxista vagabundo que contribuiu para o colapso da Frente Nacional com suas idéias delirantes. Ele não é nem um pouco sério. Ele admira os árabes por sua virilidade e tudo mais. Eu não saio procurando por minhas soluções nos outros. Eu procuro por minhas soluções em meu próprio povo. De que lado está Alain Soral? Nós não sabemos realmente quem ele é. Besteira. Ele não produziu nenhuma obra concreta. Não há nada sério. Ele é um sociólogo bufão que é furioso porque não é aceito pelos círculos superiores".

Isso sem dúvida reflete as prioridades completamente opostas de ambos. Para Faye: ignorar a Questão Judaica, focar na islamofobia. Para Soral: primeiro derrubar o Sionismo internacional, e então será mais fácil lidar com a islamização.

Quais são as relações de Alain Soral com nacionalistas estrangeiros?

Soral pode ser dito como apoiando todos os nacionalistas ao redor do mundo que sejam oponentes do "Império". Ele anteriormente já chamou a si mesmo de "alternacionalista", baseado na alcunha "alterglobalista" da esquerda internacionalista. Posto de outra forma: "Nacionalistas de todo o mundo, uni-vos!"

Em particular, Soral disse que o tipo de nacionalismo socialista, cristão, antirracista e anti-imperialista de Hugo Chávez é o mais próximo do seu. No mundo muçulmano, Soral tem apoiado o Irã (especialmente a luta de Mahmoud Ahmadinejad contra o colonialismo israelense e contra a censura à pesquisa histórica), a Síria, e o Líbano (principalmente a reconciliação nacional entre cristãos e muçulmanos no Líbano alcançada pelo General Michel Aoun e o Hezbollah). Ele também apóia a Rússia de Vladimir Putin como a principal rival do "Império".

Soral se opõe aos vários nacionalistas sionistas de extrema-direita, incluindo o Partido da Liberdade holandês e a Liga de Defesa Inglesa.

Em termos de intelectuais, Comprendre l'Empire foi traduzido ao russo e publicado por Aleksandr Dugin, que evidentemente vê Soral como uma figura significativa. Soral também promoveu a obra de Dugin na França. Ele tem tido boas relações com a CasaPound da Itália, que de certa maneira parece ideologicamente o movimento estrangeiro mais similar ao I&R. A influência de Soral é não-surpreendentemente maior porém no mundo francófono, incluindo Bélgica, Quebec, o Magreb e a África Negra francófona.

Interessantemente, parece que Soral chegou de forma razoavelmente independente a conclusões similares às de nacionalistas e populistas anglos. Kontre Kulture publica traduções de obras de Ezra Pound (Trabalho e Usura), Anthony Sutton (Wall Street e a Ascensão de Hitler, Wall Street e a Revolução Bolchevique), Eustace Mullins (Os Segredos da Reserva Federal) e Douglas Reed (A Controvérsia de Sião). Impressionantemente, Soral foi recentemente banido de publicar essa última obra histórica por uma corte inferior. Ainda que se tenha recorrido da decisão, esse ato de clara censura pode perdurar. A França não tem Primeira Emenda.

Soral também é o editor em língua francesa de anti-sionistas estrangeiros, incluindo The Wandering Who? do judeu Gilad Atzmon e Jerusalém no Alcorão do clérigo muçulmano Imran Hosein.

Qual é a perspectiva de Alain Soral sobre raça?

Não há indicação de que Soral estudou a copiosa literatura norte-americana sobre raça. Porém, ele claramente não é ingênuo: ele já apontou para o morfotipo do esportista negro, para o número elevado de Nobels judaicos e para "o mito da assimilação", em contradição com a linha assimilacionista oficial do FN. Isso sugere que ele não acredita que a massa de não-europeus (particularmente muçulmanos) possa ser transformada em franceses genéricos como os franceses étnicos a qualquer momento. (Isso parece algo tão auto-evidente que ninguém nem precisaria afirmar isso, e ainda assim esse é o dogma oficial imposto do regime político-midiático).

O objetivo de Soral de derrubar o sionismo e reconciliar os grupos étnicos da França significa que o I&R não posta muitos vídeos ou notícias sobre a islamização e deseuropeização da França e suas consequências. (O blog Fdesouche [significando "francês étnico"] o faz porém, e esse é um dos cinco blogs mais visitados na França).

Praticamente, Soral teme duas coisas para a França: uma guerra civil étnica e importar o "choque de civilizações" para a França. Enquanto tal ele é anti-imigração mas vê aqueles que atacam muçulmanos e não-europeus já na França como contribuindo para o poder sionista e um conflito civil que poderia destruir permanentemente a Nação. Exemplos disso em ação inclui a destruição do Líbano por Israel e a destruição da Sérvia pelo "Império". Ele tem palavras duras para aqueles que fantasiam com guerra racial e limpeza étnica a partir da segurança de seus teclados:

"É coisa para alcoólatras. [...] Os caras que dizem isso [que devemos lançar árabes e negros no mar] seria incapaz de fazê-lo. Eles estariam chorando após duas horas se eles começassem a fazê-lo. [...] Entre 'precisamos deter isso tudo' e o que seria necessário fazer em termos de violência e feiúra moral para fazê-lo, não é a mesma coisa".

Admitidamente, transferências de população não tem sido algo incomum na história européia (a transferência greco-turca após a Primeira Guerra Mundial, a limpeza étnica dos alemães dos Sudetos e da Prússia após a Segunda Guerra Mundial, a fuga dos europeus étnicos da Argélia em 1962), mas tal fúria só se seguiu a terríveis e devastadoras guerras que ninguém pode desejar.

Soral também afirmou que:

"se todos os muçulmanos da França e todos os judeus da França votassem pela Frente Nacional, eu ficaria extremamente feliz. Porque isso significaria que essas duas comunidades teriam se reconciliado com a idéia de Nação, e teríamos evitado o choque de civilizações e a guerra civil e mesmo a guerra mundial que tem sido programada. [...]

A alternativa política é não saber se nós vamos matar ou expulsar todos os judeus ou matar ou expulsar todos os árabes. Mas não é essa a questão. A questão é que todas as comunidades da França, que tem sido tribalizadas por uma sucessão de erros e covardia política, se reconciliarem com o projeto francês. Desde esse ponto de vista eu posso ser fraternal com Zemmour em certos tópicos. 'Nós somos todos franceses', essa é a idéia. A associação que eu presido é chamada 'Igualdade & Reconciliação'."

Soral pode bem concordar com a interpretação de Greg Johnson de Oswald Spengler: que quando se é parte de um povo dinâmico, expansivo e crescente, não se precisa preocupar com a assimilação de outros. Soral disse que a França precisa de um "rebalanceamento comunitário" em que judeus seriam menos influentes e africanos/muçulmanos mais. Ter minorias, afinal, não é problemático necessariamente desde que elas respeitem a maioria e não inundem o país. Talvez Soral acredite, caso a maré seja detida, que o núcleo francês será eventualmente capaz de absorver os recém-chegados. Em todo caso, o próprio Soral jamais chamou a si mesmo de nacionalista branco, raramente demonstrou interesse na Europa enquanto tal, e sempre se referiu a si mesmo como nacionalista francês.

Soral diz que ele apoia ativamente o nacionalismo de não-europeus, mas apenas se eles abandonarem a França (notavelmente o caso do pan-africanista Kemi Seba, com o qual ele possui bons laços). Ele já disse que os filhos de estrangeiros na França deveriam perder sua cidadania se eles se engajarem no islamismo ou na criminalidade.

Quaisquer sejam suas posições sobre raça, deve-se, ao menos por razões táticas, tentar responder a questão: o que querem os não-europeus que estão em seu solo? Em alguns casos os conflitos de interesses podem ser irreconciliáveis. Mas se está se combatendo um inimigo comum, então alianças com não-europeus podem ser possíveis. Pelo menos, Dieudonné e Soral privaram a Esquerda Oficial da adesão de um crescente número de não-europeus.

Qual é a posição de Alain Soral sobre a Questão Judaica?

Se alguém assiste a um vídeo de Soral, se pode ser perdoado por pensar que sua cosmovisão pode ser resumida como "judeus, judeus, judeus!". Na verdade, se alguém lê suas obras e artigos, ele é acima de tudo um inimigo do mundo burguês, mais do que da judiaria enquanto tal. Se ele fala tanto sobre judeus, é porque ele é uma das poucas almas no mundo dispostas a discutir o impacto da superrepresentação e etnocentrismo judaicos na elite, e os "dois pesos duas medidas" que sistematicamente emergem a partir disso na política e na mídia.

Os judeus até recebem pouca atenção em Comprendre l'Empire, ainda que haja referências sombrias aos duros e tribais valores do Velho Testamento que permeiam o judaísmo e o protestantismo. Soral disse uma vez que o burguês era um "Judeu de imitação", alguém para quem a ação cultural, política e econômico com a sociedade como um tudo é instrumental, puramente egoísta, em oposição a solidariedade étnica ou preocupação pelo bem nacional.

A crítica de Soral à comunidade judaica organizada é inteiramente uma crítica ideológica do judaísmo-sionismo enquanto projeto para o supremacismo global através do racismo e da dissimulação como exposto no Tanakh e no Talmud. Suspeite ou não de quaisquer predisposições genéticas entre os judeus para o etnocentrismo (ele já falou do "ódio" dos ashkenazi de origem polaca), sua linha é a a cristã de que qualquer um pode ser redimido: um indivíduo pode estar predisposto a isso ou àquilo por suas origens e criação, mas no final das contas ele sempre pode escolher a salvação ao sinceramente se unir à comunidade nacional.

Soral vê claramente o poder absurdamente desproporcional que as elites judaicas tem sobre políticos e intelectuais gentios - moral, econômico, cultural - como fundamentalmente uma inversão. Em uma entrevista recente ele reagiu ao fato de que um jornalista francês ficou incrivelmente impressionado pelo presidente russo Vladimir Putin durante uma entrevista pessoal sem perguntas pré-planejadas:

"Nós vimos o pequeno [Jean-Pierre] Elkabbach - é minha análise mais étnico-racial - o pequeno semita sefardita, se submetendo como uma mulher a alguém que ainda representa virilidade ariana, mesmo que ele seja eslavo. Essa é tão somente a hierarquia tradicional. Quando Putin abre sua boca, Elkabbach se cala. É assim que se deve pensar um mundo que funciona corretamente. Porque um encarna autoridade legítima e virilidade e o outro encarna o papel que ele sempre deveria ter mantido, o papel de um intermediário, de um cortesão, ou no máximo de um diplomata, como nos dias em que a França ainda era França. [...] Isso corresponde à hierarquia justa de culturas, eu não diria de raças, mas de culturas".

Isso, creio eu, é o mais explícito que ele já foi sobre o fim que ele deseja.

Para Soral, o mundo judaico-burguês está se tornando profundamente anti-humano, feminizante, baseado na miscigenação e destruição de todas as nações e culturas, transformando todos os seres humanos em agentes econômicos intercambiáveis, simultaneamente destruindo coesão nacional (por causa de balcanização interna) e diversidade internacional autêntica (todos se submetendo à mesma globocultura), com qualquer dissenso substantivo punido com severidade.

Em oposição a essa visão, Soral quer a multipolaridade, o pluralismo político-ideológico, a liberdade humana e diversidade genuína, preservada em um conflito perpétuo por uma aliança de nações livres contra o Império do dia (América hoje, talvez China amanhã).

Alain Soral é de direita?

O próprio caminho político sinuoso de Soral, sua combinação de temas de esquerda e direita, e sua necessária cripsis (ou ofuscação) em face da perseguição do regime pode tornar uma avaliação ideológica frustrante. Há algo como um "soralismo" e ele é coerente?

É suficiente dizer que o I&R é um movimento da Terceira Via francesa. Sua orientação é sugerida pela recente publicação pela Kontre Kulture do raro Cahiers du Cercle Proudhon, um periódico do século XX apresentando tanto autores monarquistas de direita como sindicalistas de esquerda. O I&R considera isso prova de ter havido uma "revolução conservadora francesa" para além da mais famosa alemã. O nome desse movimento que pouco durou foi inspirado pelo anarquista, judeófobo e antifeminista francês Pierre-Joseph Proudhon, enquanto seus autores mais proeminentes foram discípulos do teórico revolucionário Georges Sorel e do nacionalista monarquista Charles Maurras.

Poder-se-ia assim situar Soral e o I&R de forma justa como parte da Nova Direita francesa, ainda que eles rejeitem o termo "extrema-direita" por suas conotações pejorativas e/ou intenções injuriosas. Na França, a esquerda ainda é sinônimo de superioridade moral, e o I&R pode reivindicar defender melhor os objetivos mais nobres da esquerda (soberania, paz racial, antibanqueirismo, equidade social) do que a esquerda hegemônica.

O próprio Soral já disse muitas vezes que, curiosamente para um marxista, ele se opõe a pensadores iluministas como Voltaire, que ele considera racionalizadores para o poder burguês. Ademais, ele já disse várias vezes que "ele não é um democrata" e se opõe ao que ele chama de "democracia de mercado e opinião", que inevitavelmente cai sob controle plutocrático por causa da influência do Capital sobre a mídia e partidos políticos. Ele se opõe claramente ao individualismo como essencialmente autodestrutivo e nivelador; ele é um anti-igualitário que vê elites como sendo necessárias para elevar as massas.

Soral parece querer algum tipo de monarquia (talvez sob os Le Pen?!) como a única forma política que pode resistir à plutocracia. Ele já disse que "o Rei Católico da França tinha duas vantagens: ele era católico e era francês". E em Comprendre l'Empire, citando a "Tradição" de René Guénon e Julius Evola, ele escreve sobre:

"a necessidade de subordinação desse materialismo comercial pelo poder transcendental de uma casta hereditária, tanto religiosa como militar. [...] Assim, à luz disso, encontramos entre todos os inimigos sérios da democracia moderna: do nacionalismo integral de Charles Maurras à República Islâmica do Irã, e através da Ordem Negra da SS cara a Heinrich Himmler, essa mesma tentativa de tentar pôr em cheque o poder do dinheiro pelo retorno ao poder absoluto de uma ordem tanto religiosa quanto militar".

Ao mesmo tempo, Soral já disse que ele tem um enorme respeito por Rousseau, que ele não considera um pensador iluminista, e já expressou apoio a Étienne Chouard. Este último é um ativista ultrademocracia que quer estabelecer uma Constituição para a França por meio de uma convenção constitucional escolhida por sorteio, um sintoma da aparentemente infinita e não raro autodestrutiva busca francesa por absoluta legitimidade e igualdade democráticas. Soral chamou tais debates constitucionais "fascinantes".

Suficiente dizer que, para além de um crítico impiedoso do Sistema e um defensor inflexível do Estado-Nação, Soral não apresenta uma ideológica pré-fabricada para a nova ordem, mas está em verdade inaugurando o debate.

domingo, 6 de julho de 2014

Joseph Pearce - O que é o Distributismo? Compreendendo uma Alternativa Controversa ao Socialismo e à Plutocracia

por Joseph Pearce


O distributismo é o nome dado a um credo político e sócio-econômico originalmente associado com G.K. Chesterton e Hilaire Belloc. Chesterton se curvou perante a preeminência de Belloc como disseminador das idéias do distributismo, declarando Belloc o mestre em relação a quem ele era meramente um discípulo. "Você foi o fundador e pai dessa missão", escreveu Chesterton. "Nós fomos os conversos, mas você foi o missionário... Você relevou primeiro a verdade tanto ao seu maior como a seus menores servos... Grande será sua glória se a Inglaterra respirar de novo". Na verdade, apesar de Chesterton, Belloc foi meramente o propagador e popularizador da doutrina social da subsidiariedade da Igreja como exposta pelo Papa Leão XIII no Rerum Novarum (1891), uma doutrina que seria reafirmada, reconfirmada e reforçada pelo Papa Pio XI no Quadragesimo anno (1931) e pelo Papa João Paulo II no Centesimus annus (1991). Enquanto tal, é importante, primeiro e mais importantemente ver o distributismo como uma derivação do princípio da subsidiariedade.

Como há muitos que não terão conhecido termos como "subsidiariedade" ou "distributismo", pode ser de ajuda fornecer uma breve revisão dos elementos centrais de cada um. No Catecismo da Igreja Católica a subsidiariedade é discutida no contexto dos perigos inerentes ao poder ser excessivamente centralizado nas mãos do Estado: "A intervenção excessiva do Estado pode ameaçar a liberdade pessoal e a iniciativa. O ensinamento da Igreja elaborou o princípio da subsidiariedade, segundo a qual uma comunidade de uma ordem superior não deveria interferir na vida interna de uma comunidade de uma ordem inferior, privando esta de suas funções, mas ao invés deve apoiá-la em caso de necessidade e ajuda a coordenar sua atividade com as atividades do resto da sociedade, sempre com vistas ao bem comum. Posto de forma simples, o princípio da subsidiariedade se apóia na pressuposição de que os direitos de pequenas comunidades - e.g., famílias ou vizinhanças - não devem ser violados pela intervenção de comunidades maiores - e.g., o Estado ou burocracias centralizadas. Assim, por exemplo, em termos práticos, os direitos dos pais de educar os filhos sem a imposição pelo Estado de um currículo escolar "politicamente correto" estaria cristalizado pelo princípio da subsidiariedade. A influência parental nas escolas é subsidiarista; a influência estatal é anti-subsidiarista.

"Subsidiariedade" é uma palavra estranha mas ao menos serve como definição adequada do princípio para o qual ela é o rótulo. Distributismo, pelo outro lado, é uma palavra estranha e um rótulo estranho. O que exatamente se defende distribuir? Não seriam comunistas e socialistas "distributistas" no sentido de que eles buscam uma distribuição mais equitativa da riqueza? Porém Belloc afirma veementemente que o distributismo é radicalmente diferente das idéias subjacentes do comunismo e do socialismo. É por razões de clareza, portanto, que leitores modernos considerariam útil traduzir "distributista" como "subsidiarista" ao ler a crítica da política e da economia de Belloc.

As obras fundamentais de Belloc nessa área são O Estado Servil (1912) e Um Ensaio sobre a Restauração da Propriedade (1936), enquanto as de Chesterton são O Contorno da Sanidade (1925) e seu ensaio tardio, "Reflexões sobre uma Maçã Podre", publicada em A Fonte e os Baixios (1935), representam contribuições sapientes à causa distributista ou subsidiarista. Deveria ser também notado que o romance de Chesterton, O Napoleão de Notting Hill, é essencialmente uma parábola distributista.

Posto sucintamente, o distributismo é o nome que Belloc e Chesterton deram à versão de subsidiariedade que eles estavam defendendo em seus escritos. Graças principalmente a seus esforços, e a de outros como o Padre Vincent McNabb, o distributismo se tornou muito influente no período entre as duas guerras mundiais. No ápice de sua influência, a Liga Distributista tinha filiais por todo o Reino Unido. Sua influência cruzou o Atlântico sob o apadrinhamento de Peter Maurin e Dorothy Day e chegou à proeminência nas políticas do Movimento Trabalhista Católico em seus anos formativos. Há também paralelos significativos entre as idéias dos distributistas e as dos agrarianistas sulistas, ainda que as similaridades não devam ser exageradas. Similarmente, há paralelos com a visão de "economia como se as pessoas importassem" delineada pelo economista E.F. Schumacher em seu bestseller, O Pequeno é Belo.

Diferentemente dos socialistas, os distributistas não estavam defendendo a redistribuição de "riqueza" per se, ainda que eles acreditassem que este seria um dos resultados do distributismo. Ao invés, e a diferença é crucial, eles estavam defendendo a redistribuição dos meios de produção para tantas pessoas quanto possível. Belloc e os distributistas traçaram a conexão vital entre a liberdade do trabalho e sua relação com os outros fatores de produção - i.e., terra, capital, e espírito empreendedor. Quanto mais o trabalho é divorciado dos outros fatores de produção mais ele é escravizado à vontade de poderes fora de seu controle. Em um mundo ideal cada homem seria dono da terra em que, e das ferramentas com que, ele trabalhasse. Em um mundo ideal ele controlaria seu próprio destino tendo controle sobre os meios de sua sobrevivência. Para Belloc, essa era a mais importante liberdade econômico, a liberdade ao lado das quais todas as outras liberdades econômicas são relativamente triviais. Se um homem possui essa liberdade ele não sucumbirá tão facilmente a invasões sobre suas outras liberdades.

Belloc era, porém, um realista. De fato, se ele errou em algo foi no pessimismo. Ele teria concordado com a máxima axiomática de T.S. Eliot em "Os Homens Vazios" que "entre a potência e a existência está a sombra". Nós não vivemos em um mundo ideal e o ideal, no sentido absoluto, é inatingível. Ainda assim, como cristão, Belloc acreditava que somos chamados a buscar a perfeição. Somos chamados a imitar a Cristo, ainda que não possamos ser perfeitos como Cristo é perfeito. E o que é verdadeiro para o homem em sua relação com Deus é verdadeiro para ele em sua relação com seu vizinho, i.e., somos chamados a buscar uma sociedade melhor e mais justa, ainda que ela nunca venha a ser perfeita. Portanto, em termos práticos, cada política ou cada prática que leva a uma reunião do homem com a terra e o capital do qual ele depende para sua sustentação é um passo na direção certa. Cada política ou prática que o coloca à mercê daqueles que controlam a terra e o capital dos quais ele depende, e portanto que controlam também seu trabalho, é um passo na direção errada. A política prática é sobre se mover na direção certa, não importa o quão lentamente.

Em termos práticos, as seguintes seriam as soluções distributistas para problemas atuais: políticas que estabeleçam um clima favorável para o estabelecimento e prosperidade de pequenas empresas; políticas que desencorajem fusões, aquisições e monopólios; políticas que permitam a desintegração de monopólios ou grandes empresas em pequenas empresas; políticas que encorajem cooperativas de produtores; políticas que privatizem indústrias nacionalizadas; políticas que tragam poder político real para mais perto da família pela descentralização do poder do governo central para governos locais, do grande governo ao pequeno governo. Todos estes são exemplos práticos de distributismo aplicado.

Como os exemplos práticos supracitados sugeririam, o distributismo/subsidiariedade não é um ideal esotérico sem qualquer aplicabilidade prática na vida política e econômica quotidiana. Pelo contrário, está no coração da política e da economia. Em toda política e economia há a tendência para que o poder se torne centralizado nas mãos de cada vez menos pessoas. A subsidiariedade pode ser vista como o antídoto para essa centralização, i.e., é o princípio no coração das forças de descentralização, o princípio que demanda os direitos e a proteção de unidades políticas e econômicas menores contra as intrusões do governo central e das grandes empresas. Outros exemplos práticos podem ser dados.

A constituição da União Européia é fundamentalmente centralista em sua própria natureza, tanto que toda referência a "subsidiariedade" em documentos da UE não passa de um emprego escandaloso de um duplipensar orwelliano. Enquanto tal, o que se tornou conhecido como "euroceticismo", a opinião de que a União Européia é um grosseiro monolito que precisa ser desmontado, é fundamentalmente subsidiarista. Similarmente os direitos de culturas reais a desfrutarem de seus modos tradicionais de vida são essencialmente subsidiaristas, enquanto a legislação urbanista banindo iniciativas rurais tradicionais é uma violação da subsidiariedade. Nos EUA o direito ao porte de armas e no Reino Unido o direito de caçar raposas se encaixaria nessa categoria. (Não é uma questão de "controle de armas" ou "direitos animais", mas do direito de culturas rurais de escolherem seu modo de vida sem a imposição de juízos de valor urbanos). A contínua erosão dos direitos dos estados dentro dos EUA e a consequente ampliação de poder do governo federal e da Suprema Corte é uma violação da subsidiariedade. Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas estes são suficientes para nossos propósitos atuais. Em resumo, e em suma, o distributismo como uma variação do princípio da subsidiariedade oferece a única alternativa real à macrofilia e a macromania do mundo moderno.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Claudia Mende & Katrin Gänsler - De seita local a movimento global: O Wahhabismo da Arábia Saudita

por Claudia Mende & Katrin Gänsler



No século XVIII, o Império Otomano controlou grande parte da Península Arábica, acima de tudo as peregrinações na cidade sagrada de Meca e Medina. Foi um tempo de insegurança e conflito.

Com uma espécie de um "Islão liberal", os otomanos afrontaram várias tribos beduínas tradicionais. Neste ambiente de discórdia, o líder Muhammad Ibn Abd al-Wahhab, que viveu de 1703 a 1792, foi quem deu voz aos descontentes.

Wahhab acusou os otomanos de mudarem o Islão original e o distorcerem com o uso de elementos nacionais como o culto popular de santos. Conforme os seguidores de Wahhab, os muçulmanos precisariam retornar ao que chamavam de "estado puro".

Esta espécie de "Islão sem adulterações", do século VII e VIII, era propagado por Abd al-Wahhab. Apenas o corão e as palavras tradicionais do profeta deveriam ser válidas.

A luta de Abd al-Wahhab e seus seguidores pelo alegado retorno do Islão às suas origens marca o início do que hoje é conhecido por Wahhabismo.

Razões controversas

No entanto, muitos especialistas acreditam que o é defendido como "Islão original" é na verdade algo construído, que não corresponde ao início da história do Islão.

Na Arábia Saudita, as ideias de Abd al-Wahhab penetraram no poderoso clã de Al-Saud e criou um vínculo muito forte. Sob o governo militar de Mohammed Ibn Saud e com a ideologia religiosa de Abd Al-Wahhab, seus seguidores conquistaram grande parte do Najd, a região central da península arábica, invadindo portanto o Kuwait e o Iraque.

Após quase um século e meio, em 1932, Abd al Aziz Al-Saud finalmente proclamou, após anos de campanhas, o Reino Saudita e o Wahhabismo se tornou uma espécie de "Religião de Estado".

No entanto, isto não significa que todas as pessoas foram convertidas ao wahhabismo na Arábia Saudita. Conforme Ulrike Freitag, diretora do Centro para Estudos Orientais Modernos, em Berlim, a aliança entre os wahhabis e a família real saudita não foi sempre estável. O reforço da chamada "doutrina pura" já causou inclusive uma espécie de conflito de interesses sobre as razões do Estado saudita.

Estímulo à repressão

Em 1979, quando os ultra-conservadores islamistas ocuparam a grande mesquita de Meca numa revolta contra a monarquia saudita, Freitag diz que não somente tropas sauditas reprimiram a revolta, mas também tropas estrangeiras o fizeram.

Um outro exemplo foi a invasão americana do Iraque em 1990 para reconquistar a independência do Kuwait que tinha sido ocupado pelas tropas iraquianas de Saddam Hussein. "As tropas norte-americanas chegaram em larga escala a Arábia Saudita. Houve mulheres americanas que combateram no exército dos EUA. As mulheres sauditas certamente se viram estimuladas a lutar por mais direitos. Tal comportamento levou também a uma séria crise", diz Freitag.

Mesmo assim, o Wahhabismo não é um movimento homogêneo e acaba se tornando motivo de vários debates entre seus teóricos. Uma das discussões mais fortes, por exemplo, é sobre as circunstâncias que eles permitem o uso da violência ou a aplicação de castigos físicos.

Sob o ponto de vista legal, o tema é discutido em blogs e em pareceres jurídicos – as fatwas (pronunciamentos legais do Islão). No entanto, todas as correntes do Wahhabismo são convergentes, o que acaba acentuando a diferença entre os crentes e não-crentes.

A este último grupo pertencem não somente as pessoas de outras religiões, mas também todos os muçulmanos que têm um outro entendimento sobre o Islão. A esta categoria estão integrados todos os sunitas tradicionais, muçulmanos liberais, sufis e, acima de tudo, xiitas.

A luta xiita

O resultado disto é que muitos xiitas acabam sendo privados de seus direitos civis. Eles são considerados cidadãos de segunda classe religiosamente, culturamente e politicamente. Conforme o especialista em islamismo, Michael Kiefer, por isso o relacionamento entre xiitas e wahhabis é muito tenso.

"Isto também é uma expessão a violência. Quando xiitas protestaram pelas sua liberdade de religião houve uma série de ações brutais da polícia."

Mais tarde, a tentativa do rei Abdullah de garantir mais direitos aos xiitas parcialmente também levou a reações contrárias bastante fortes dos wahhabis. Surge novamente aqui a convergência da razão de Estado com a ideologia Wahhabi.

Apesar de todos os conflitos, como uma ideologia da família real saudita e enorme investimento financeiro, o Wahhabismo é espalhado por todo o mundo árabe, África subsaariana, Índia, Paquistão, Indonésia e antigas repúblicas soviéticas.

Conforme Kiefer, a ideologia é também um ponto de referência espiritual para os movimentos salafistas que começam a se tornar mais populares na Europa.

"Os sauditas também fazem muito para a difusão do Salafismo, por um lado com dinheiro, mas também pelo fato de eles formarem especialistas que seguem atividades nas universidades sauditas e também no fato que estes pesquisadores acabarem viajando o mundo inteiro e pregando a ideologia".

Pela África

Uma vez iniciada como uma pequena seita que se distanciou do entendimento otomano sobre o Islão, tornou-se um movimento espalhado pelo mundo. Na época da globalização o Wahhabismo está no limite das fronteiras entre as culturas.

Na Nigéria sempre houve grupos islâmicos que advogaram uma interpretação particularmente conservadora da religião. Muitos nigerianos peregrinos viajam para Meca e entram em contato com o Wahhabismo.

Grupos que tomam medidas radicais que frequentemente são apoiados por jovens que, muitas vezes, nem sequer o fazem por motivos religiosos. A DW falou com o imã Muh'd Tukur Adam Abdullahi, da mesquita Al-manar Juma'at, em Kaduna, no noroeste da Nigéria. O imã estudou na Arábia Saudita e vai lá frequentemente, à maior mesquita do mundo, a mesquita al-Haram em Mecca.

Tal como Abdullahi, muitos jovens nigerianos continuam a tirar um curso no país, com a ajuda de uma bolsa. Trata-se do único apoio da Arábia Saudita para a Nigéria, conforme Abdullahi. "Desde o 11 de Setembro que a Arábia Saudita e organizações internacionais islâmicas deixaram de enviar dinheiro para a Nigéria. Parou tudo. Tudo o que há no país vem da população. Dão dinheiro e apoiam os projectos."

Origens da radicalização

O imã não acredita que os movimentos radicais tenham sido introduzidos na Nigéria a partir de fora. Muh'd Tukur Adam Abdullahi diz que há grupos conservadores na Nigéria, mas esses seriam de "fabrico nacional".

Exemplo disso é o movimento Boko Haram. Os seus membros dizem que pretendem implementar a lei islâmica, a Sharia, e abolir as reformas democráticas ocidentais. Pensa-se que o grupo tenha ligações com a rede terrorista Al-Qaida e tenha campos de treino no estrangeiro.

Sani Isah, imã da mesquita Waff Road, também em Kaduna, procura noutro lugar as causas da radicalização de grupos como o Boko Haram. "Permitimos que os jovens se aproveitem dos verdadeiros ensinamentos para enganar as pessoas. É esse o nosso problema. É melhor não começar nada novo. Quanto mais inventarmos coisas novas, mais os jovens vão dizer: apoiamos isso!", diz Isah.

Frequentemente, há confrontos nas ruas – alegadamente em nome da religião. São sobretudo jovens quem se envolvem nos confrontos. Segundo o imã Sani Isah, eles são influenciados por nomes novos e sonantes. "Eles precisam do nome. Se falamos em salafismo, então os jovens dizem: esse é um bom nome. O 'salafismo' soa atraente."

Muitas vezes, os jovens nem teriam ideia do que está por trás. Nem estariam interessados nisso. Sunday – que não quer revelar o seu apelido – tem cerca de 20 anos. E sabe quão fácil é para os jovens deixarem-se influenciar pelas ideias religiosas. Para isso, nem chegam a precisar de um nome.

"Assim que tomam drogas, lutam alegadamente em nome da religião. Não vão nem à igreja nem à mesquita. Mas assim que começam os confrontos, cada um luta pela sua religião, apesar de nem sequer serem religiosos", diz Sunday.

No passado, ele também participou. Vendeu e consumiu drogas. Hoje pertence ao grupo dos desistentes. Sunday já não quer ter nada a ver com drogas, homens influentes e ideias religiosas.