sábado, 27 de setembro de 2014

Entrevista com Aleksandr Dugin no Encontro Nacional Evoliano - A Nova Rússia é a resistência contra a Nova Ordem Mundial

por Raphael Machado



Essa interessante entrevista foi realizada na sexta-feira do dia 12 de Setembro de 2014, durante um dos intervalos entre as palestras do Encontro Nacional Evoliano que se realizou em São Paulo. Até então não houve em português qualquer material que lidasse mais profundamente com todas as implicações ideológicas da crise ucraniana, com o papel dúplice e problemático da atuação do Kremlin e com as perspectivas e possibilidades futuras relacionadas a esse conflito. A distância e o controle total exercido pelas forças atlantistas sobre nossa mídia não ajudam. Pensamos ser este o diálogo mais claro e esclarecedor para brasileiros até agora sobre todas as questões relativas a Nova Rússia, um tema que tem gerado todo tipo de controvérsias, discussões, debates e rixas nos meios políticos e intelectuais, tanto do establishment como do meio dissidente. E acreditamos que não poderia ser diferente. Como o professor Aleksandr Dugin, que está absolutamente implicado e envolvido nessas questões, deixa claro a Nova Rússia é a linha divisória, o divisor de águas entre "nós" e "eles", entre inimigos da modernidade e lacaios, conscientes ou não, da modernidade. 

Agradecimentos aos camaradas D.Vinco, que fotografou a entrevista, J. Neto, que forneceu o gravador e A. Ortega, que formulou a última pergunta da entrevista, e principalmente ao professor Dugin que nos concedeu um pouco de seu tempo para responder a essas dúvidas. 

1 – Qual é o papel do Eurasianismo e do Movimento Eurasiano no processo de construção da Nova Rússia?

Teoricamente a idéia da separação de parte da Ucrânia já era afirmada nos anos 90, nos meus escritos chamados “Fundamentos da Geopolítica”, onde está a mesma idéia, que é: a Ucrânia deve ser dividida ou entrar no contexto eurasianista, que é pouco provável. 

A razão para isso é que há duas identidades dentro da Ucrânia, dois povos, duas sociedades, com opções totalmente divergentes. 

Uma parte das pessoas jovens da Ucrânia do leste era parte do Movimento Eurasianista desde antes, mas é interessante que algumas pessoas do Pravyi Sektor, entre os nacionalistas ucranianos, também estavam interessadas pela Quarta Teoria Política, por geopolítica, por Tradicionalismo, etc. 

Mas a idéia era: o que prevalece? A Geopolítica ou a Terceira Via, o Neonacionalismo? A questão da geopolítica era mais importante, porque do ponto de vista da geopolítica, a identidade oriental da Ucrânia deve se desenvolver somente no contexto eurasiático. 

E com isso teria sido possível preservar a Ucrânia íntegra, unida. Isso era possível no contexto eurasiático. Mas com o golpe de Estado, isso se tornou impossível, fundamentalmente porque os atlantistas apoiaram os ultranacionalistas, os pequeno-nacionalistas, os nacionalistas ressentidos em relação a Rússia, contra a outra parte da Ucrânia. Depois do golpe de Estado não era mais possível preservar a Ucrânia. 

Os eurasianistas do leste eram a vanguarda do movimento da Nova Rússia. É interessante que os tradicionalistas que estavam antes influenciados por minhas idéias, pelo eurasianismo, também eram a vanguarda do Pravyi Sektor. Duas partes que eram mais ou menos influenciados pela Nova Direita, pelo Tradicionalismo e também pelo Eurasianismo se dividiram. 

Mas os liberais, os pró-ocidentais, estavam em Kiev, os oligarcas, os judeus, os liberais, os atlantistas, e assim os tradicionalistas estavam sendo instrumentalizadas e usadas pelos liberais e não representam o movimento do Maidan. 

Já na Nova Rússia ocorria o oposto, as pessoas que representavam o movimento eurasianista são os líderes da Nova Rússia, do Donbass, desde o começo, desde a Criméia. Os eurasianistas do leste estavam no centro dos acontecimentos, com nosso apoio também, e muitos eurasianistas lutam na Nova Rússia. 

Por exemplo, Igor Strelkov é meu amigo, e é muito significativo que hoje ele é a pessoa depois de Putin mais importante politicamente na Rússia. Ele é o segundo em popularidade, Putin com 80%, Strelkov com 60%. Muito mais popular que Medvedev, é um fenômeno total. E ele é meu amigo, comparte totalmente de todas as minhas idéias. Muitos outros, muitos camaradas que foram mortos, que lutam, que participam politicamente, militarmente, ideologicamente, estão implicados na Nova Rússia. 

A Nova Rússia é minha guerra, é a nossa guerra, porque ela é não apenas uma luta por interesses nacionais russos, mas pelas idéias, pelos ideais, pelos princípios. É muito importante que uma grande quantidade dos russos considera essa guerra da Nova Rússia como a guerra patriótica pela Grande Rússia. E não como guerra étnica, porque entre as pessoas da Nova Rússia muitos são ucranianos. Não é uma guerra entre ucranianos e russos, mas entre o pequeno-nacionalismo de sangue e o grande-nacionalismo imperial do solo.  

2 – Qual é a importância potencial da Nova Rússia para o projeto contra-hegemônico multipolar e para as forças antiliberais ao redor do mundo?

É importante porque a identidade ideológica e política da Rússia atual depende diretamente da Nova Rússia. E a luta interior na Rússia hoje se dá entre a sexta-coluna e o campo patriótico ao redor de Putin. E é muito importante porque essa guerra é particularmente mortal. Se a sexta-coluna vencer isso será uma catástrofe não apenas para a Nova Rússia, porque Moscou não apenas estará abandonando a Nova Rússia, o Donbass, mas também a Criméia e a própria Rússia.

Porém se os patriotas vencerem, isso significaria que a Rússia voltaria à História. A sexta-coluna não permite que a Rússia se desenvolva no sentido necessário para tornar o mundo multipolar mais concreto. Nesse sentido, a luta para a Nova Rússia é a luta pela Rússia, mas a luta pela Rússia é a luta pelo mundo multipolar, e essa lógica demonstra que na verdade este é o ponto do mundo mais importante hoje. Nenhum outro lugar, nenhuma outra guerra é tão importante para o futuro do mundo quanto a luta pela Nova Rússia. 

3 - Quais forças político-ideológicas, além dos eurasianos, também estão representados na luta pela Nova Rússia?

Há muitas forças que também estão lá. Há os monarquistas; Strelkov, por exemplo, é um monarquista. O povo da Unidade Nacional Russa de Barkashov, são imperiais, e estão bastante envolvidos. Muitos movimentos nacional-ortodoxos, nacional-imperiais estão lá, alguns comunistas stalinistas também. O chefe de gabinete de Strelkov, que é monarquista, é stalinista, por exemplo. É muito importante que o chefe de gabinete do monarquista Strelkov seja um comunista. Isso é importante como exemplificação dessa síntese. Há também nacional-bolcheviques, porque Limonov mudou de posição outra vez. Voltou às posições nacional-bolcheviques originais. Não é popular, não é importante, mas é simbólico, há muita gente de esquerda e todos os tipos de nacionalistas também. 

Somente uma pequena parte dos nacionalistas estão com o Pravyi Sektor, contra Putin e são pró-liberais. Isso era muito importante como prova definitiva para separar quem é quem. Com todas as divergências entre as correntes ideológicas nacionais, a maioria total está com a Nova Rússia. 

4 – Quais são as relações entre o Kremlin e a liderança da Nova Rússia?

É difícil responder porque o Kremlin está representado no caso da Nova Rússia em suma por três instâncias: Putin, que é pragmático, que está no equilíbrio entre a facção patriótica e a sexta-coluna. No caso de Criméia ele foi totalmente a nosso favor. No caso da Nova Rússia muito menos. Seu apoio não é como deveria ser. É um apoio muito menor. Mas, finalmente, Putin está entre dois pólos. 

O pólo da sexta-coluna. A sexta-coluna se diferencia da quinta-coluna, porque a quinta-coluna na Rússia está totalmente contra Putin, ela é ultraliberal. A sexta-coluna está a favor de Putin, mas do Putin liberal. Essa diferença é muito importante para compreender as análises do Donbass.

A sexta-coluna apoiava ela mesma a retomada da Criméia, mas se voltou contra a Nova Rússia. Também é importante que a sexta-coluna era favorável à Criméia apenas pelo fato de Putin estar completamente decidido e ter sido rápido. Mas no caso da Nova Rússia a sexta-coluna é completamente contrária. Essa divergência foi imediatamente percebida no início do movimento pela Nova Rússia. As mesmas pessoas que eram favoráveis à Criméia se provaram contra a Nova Rússia. 

Os patriotas eram totalmente pró-Criméia e pró-Nova Rússia. Essa era uma separação muito peculiar ao redor de Putin. Porque a metade era favorável à Nova Rússia e a outra metade, muito importante e com representantes muito elevados no Kremlin, era contra. Passo a passo foi formada uma frente comum composta pelas pessoas que lutam pela Nova Rússia por Strelkov, intelectuais como nós eurasianos, todas as forças patrióticas e também os funcionários do Kremlin, de Putin, que são favoráveis à Nova Rússia. Isso não existia antes. Foi algo totalmente novo. 

A luta continua ao redor desse problema, porque a Nova Rússia hoje é a linha da demarcação entre dois grupos do establishment político russo. A maioria do povo está ao nosso lado. Mas a maioria da elite russa está ao lado da sexta-coluna. Putin está entre a maioria da elite, que é liberal, e a minoria da elite, que é patriótica. E ambos estavam anteriormente a favor da Criméia. Essa situação também foi a razão da minha expulsão da Universidade de Moscou, da revogação de Strelkov e muitos outros fenômenos pouco percebidos em um espaço de tempo extremamente curto se deram por essa luta interior na Rússia, porque Putin está por cima de tudo isso. A sexta-coluna é maioria na elite, em relação ao grupo de patriotas da elite, a elite que é a favor da Nova Rússia. A luta não terminou, ela continua, hoje estamos nesse contexto. É possível seguir essa luta através acontecimentos da Nova Rússia, como através de uma tela, ela é o aspecto externo, o aspecto evidente dessa luta política interna na Rússia. 

5 – Qual é o papel do sionismo internacional em Kiev e de que forma é possível traçar uma comparação entre as lutas da Nova Rússia e do povo palestino?

O caso é que há uma aliança paradoxal entre os chefes judeus sionistas, como o presidente da Ucrânia, Petr Poroshenko, que é um oligarca judeu, ou Kolomoysky, que é o judeu mais ativo na luta contra a Nova Rússia, além de muitos outros que são dirigentes da Ucrânia com as forças nazistas do Pravyi Sektor e outros ultranacionalistas ucranianos. 

Isso é paradoxal porque vemos ali uma aliança entre os liberais, os neonazistas e os judeus sionistas. É muito estranho porque normalmente essas três forças seriam totalmente inimigas e opostas. No caso da Ucrânia vemos uma união e integração total dessas três forças: os neonazistas racistas pró-Stepan Bandera, os judeus sionistas e os liberais ocidentalistas, e tudo isso por ódio à Rússia, ódio aos russos, ódio a Putin, ódio ao Império Russo, ódio ao mundo multipolar. Isso é o que é comum entre forças tão diferentes. 

É interessante que o fato de que Kolomoysky e os outros dirigentes, Poroshenko, Yatsenyuk, Turchynov, eram judeus era acentuado nos maiores meios de comunicação russos que também são dirigidos por judeus, é muito curioso, eles próprios acentuavam que os judeus estavam no governo antirrusso e neonazista da Ucrânia. 

Mas é preciso dizer que Putin não é necessariamente anti-sionista, não é anti-Israel. A linha direita da ideologia russa não tira consequências desse fato, mas as pessoas da massa tiram todas as consequências possíveis disso. É importante notar que a maioria dos judeus liberais também estão a favor da Ucrânia ao redor do mundo e na Rússia. A quinta-coluna é composta praticamente 100% por judeus. Já a sexta-coluna, a oposição indireta, também é composta por judeus, mas também por muitos oligarcas russos que estão aliados aos oligarcas liberais judeus. 

Mas a situação entre Israel e Ucrânia é inversa, porque os palestinos representam a minoria que quer fazer seu próprio país e na Ucrânia não. A situação é que os separatistas são russos que representam a Grande Rússia, os palestinos representam uma minoria, há essa diferença na situação. 

Não sei, particularmente, a posição oficial do sionismo frente a Nova Rússia. Teoricamente eles devem ser contra, mas é interessante que alguns representantes de Israel falaram a favor da Nova Rússia. É interessante, por exemplo, que o ex-chefe do “Nativ”, que é um serviço secreto israelense, Yaakov Kedmi se pronunciou a favor da Nova Rússia. Inclusive supostamente alguns grupos voluntários de Israel teriam sido enviados para combater o Pravyi Sektor. Isso não possui confirmação. Mas na internet há uma propaganda de que Israel está fora do conflito, e alguns judeus sionistas estariam a favor da Nova Rússia, como Avigdor Eskin. Mas é importante que não é unívoca essa atitude dos sionistas a favor dos sionistas ucranianos. 

Pode ser que não seja possível, estando no contexto da verdade, afirmar que essa é a guerra dos sionistas contra a Nova Rússia, isso não é exato. Mas a presença dos sionistas no governo ucraniano é um fato, não é propaganda.

6 – Atualmente como você acredita que Putin pode se defender da sexta-coluna e qual é a probabilidade de um Maidan ocorrer na Praça Vermelha?

O objetivo da sexta-coluna é acabar com Putin, porque Putin sendo pragmático e sendo equilibrado, já que não é um patriota como Strelkov e outros, mesmo assim é bastante patriota para defender os interesses nacionais russos. Ele é um realista político, não necessariamente implicado no eurasianismo, mas ele é um realista. Porém ser um realista hoje é incompatível com a sexta-coluna, não por razões ideológicas, mas por razões pragmáticas. 

Assim, a sexta-coluna deve matar Putin, deve destruí-lo de uma maneira ou de outra. Ou matando violentamente, ou organizando um Maidan em Moscou. A idéia era, acredito que este era o plano dos EUA, convidar os nacionalistas russos à Nova Rússia e depois dar a Nova Rússia à Ucrânia. Isso criaria imediatamente um grande movimento da posição patriótica contra Putin. 

Segundo, Igor Strelkov deveria ser o centro dessa manipulação. Mas muitos outros deveriam também estar no lado da oposição a Putin, já que a oposição liberal é totalmente impopular. Na Rússia muitos poucos apoiam os liberais e com eles não é possível fazer uma revolução. Para fazer uma revolução, como no caso da Ucrânia e seu Maidan, é necessário ter a coluna patriótica na oposição, como o Pravyi Sektor. Sem isso não há a energia necessária, já que os liberais são covardes e impopulares, além de serem minoritários étnicos. É impossível para eles fazerem uma revolução. Mas para acabar com Putin é preciso mobilizar massas. Os patriotas decepcionados, desiludidos, traídos, teoricamente deveriam ser o núcleo ativo da luta contra Putin. Sem mobilização do setor patriótico não é possível derrubar Putin. 

Mas para fazer isso, é preciso trair a Nova Rússia. Traindo a Nova Rússia é possível unir as forças necessárias para lutar contra Putin. Mas essa é a idéia da sexta-coluna, a situação não está acabada ainda. Pode ser que isso ocorra mesmo, mas com Strelkov hoje a situação é muito mais clara, porque hoje ele está na Rússia, hoje começa a criar um movimento patriótico a favor de Putin e da Nova Rússia.

Anteontem, Strelkov proclamou a criação de um movimento para lutar acima de tudo contra a sexta-coluna, dentro da Rússia, porque tudo hoje se decide na Rússia. É muito importante que o personagem mais popular depois de Putin organize um movimento patriótico a favor de Putin e contra o Maidan na Rússia. Essa é a destruição dos planos dos EUA. 

É difícil matar tecnicamente Putin, mas matar Strelkov é mais fácil. Essa é a explicação para ele não retornar à Nova Rússia. Na situação da guerra, seria fácil ele ser assassinado por agentes da sexta-coluna. Um eurasiano, Aleksandr Proselkov, foi assassinado com um tiro nas costas enquanto dirigia um carro em um comboio humanitário, por exemplo. 

Assim, o objetivo da sexta-coluna pode ser resumido como forçar Putin a abandonar a Nova Rússia para gerar um ressentimento contra o próprio Putin e usar esse ressentimento para derrubá-lo, e então abandonar a Criméia e tudo mais. Porém, é impossível governar a Rússia com liberais, assim o que acontecerá inevitavelmente é a desintegração da Rússia e uma guerra civil. Esse não é um projeto positivo, de construção, dos liberais futuramente no poder, é absolutamente um projeto para a destruição da Rússia e nada mais.

7 – Após a guerra com a vitória da Nova Rússia existe a possibilidade de que ela se torne o primeiro foco da construção prática da Quarta Teoria Política no mundo?

É uma boa questão. Isso é o que esperamos. Porque vejamos, o primeiro passo dos dirigentes da República do Donbass foi a aniquilação da grande propriedade privada, a nacionalização dos bens dos oligarcas, e há muitas outras idéias interessantes. A ortodoxia foi proposta como religião oficial, os matrimônios homossexuais seriam proibidos e não apenas isso como se propôs que as relações homossexuais fossem criminalizadas. Muitas idéias antiliberais, antiglobalistas podem se realizar na Nova Rússia. 

Por exemplo, também, a bandeira imperial, branca, negra e amarela, hoje é uma das bandeiras oficiais na Nova Rússia. Muitas idéias da Quarta Teoria Política podem ser esperadas, mas isso também pode ser um tipo de “gatilho” para a própria Rússia. Porque a Rússia atualmente, que ideologia possui? A Rússia rechaça o liberalismo, isso é totalmente evidente, ela não é mais comunista, ela não é da terceira via ou totalmente nacionalista. Esse vazio deve ser preenchido por uma ideologia. E apenas a Quarta Teoria Política pode ser essa ideologia antiliberal, nem comunista e nem fascista. Isso é logicamente inevitável. 

Mas isso é evidente somente para nós, não para os outros. Na lógica de Hegel se diz que há um truque da razão do mundo que age inconscientemente através das pessoas. A Quarta Teoria Política vai ser realizada independentemente das pessoas. As pessoas podem não saber ou não querer, mas ela é logicamente inevitável para preencher o vazio ideológico. Se a Rússia tiver que ter uma ideologia, essa ideologia inevitavelmente será a da Quarta Teoria Política. Pode ser que após certo tempo ainda não tenhamos nenhuma ideologia, como hoje, é possível, mas se teremos uma ideologia essa será a Quarta Teoria Política. 

Na Nova Rússia tudo isso se decide pela guerra e hoje os processos políticos na Nova Rússia estão mais avançados do que na Rússia. A Nova Rússia é a vanguarda. A vitória da Nova Rússia significará a vitória da Quarta Teoria Política, será a vitória da Grande Rússia e do mundo multipolar. Podemos ver vínculos entre os acontecimentos na Nova Rússia, os acontecimentos políticos e ideológicos na Rússia, os acontecimentos na Eurásia, que é o centro do mundo multipolar, e os acontecimentos no BRICS. 

Também essa idéia de que a luta da Nova Rússia é a luta de cada pessoa no mundo, a luta religiosa, a luta para escolher o bem ou o mal, essa luta escatológica propriamente dita.   A vontade de se unir às fileiras do exército da Nova Rússia é a vontade de servir a própria pátria, não é uma luta pelos interesses dos russos. A Nova Rússia é muito mais que a Rússia, ela é o mundo multipolar, é a resistência contra a Nova Ordem Mundial, a resistência contra a unipolaridade, a resistência contra a hegemonia americana, que vai não apenas contra ucranianos, russos, sírios, iraquianos e outros, mas também contra os latino-americanos, muçulmanos, asiáticos, africanos, etc. É interessante, por exemplo, que há até um nacional-bolchevique negro que está lá lutando pela Nova Rússia. 

8 - Algumas pessoas tendem a definir o senhor, o eurasianismo e a Quarta Teoria Política a partir das suas atividades dos anos 90, acusando o senhor de ecletismo, de tentar fundir bolchevismo e nacional-socialismo, o que o senhor tem a dizer sobre isso? 

O meu itinerário ideológico é fácil de compreender. Eu era anticomunista, tradicionalista, no sentido de Guénon e Evola. Era anticomunista e antiliberal. Pode-se dizer que eu era vizinho da terceira teoria política nos anos 80, no período do comunismo. 

Depois do fim do comunismo, quando o comunismo não estava mais presente concretamente na Rússia, havia uma equação a ser solucionada, aceitar o liberalismo, o que era impossível por eu ser antiliberal e anticomunista, continuar a lutar contra o comunismo, que naquele tempo não existia mais, seria uma luta contra um morto, uma luta absurda ou então lutar contra o liberalismo como forma da modernidade absoluta. 

Com que forças lutar contra o liberalismo? Nos anos 90 eu pensava que era preciso lutar contra o liberalismo com todas as forças antiliberais, todas sem exceção. Com a terceira teoria política, com a segunda teoria política, essa era a idéia do nacional-comunismo, unir todas as forças antiliberais para lutar efetivamente contra o liberalismo.

Na fase seguinte foi se tornando claro aos poucos que essa estratégia não é tão correta porque o comunismo e o nacional-socialismo eram ideologias da modernidade, e sendo ideologias da modernidade tem dentro de si mesmas raízes antitradicionais e anti-sagradas, o comunismo de forma mais evidente, o fascismo com o chauvinismo, o eurocentrismo e o universalismo branco anglo-saxão e colonialista. 

Para além da síntese de duas ideologias antiliberais descobri a Quarta Teoria Política que deve estar totalmente fora das três teorias políticas. Nem liberalismo evidentemente, nem comunismo, nem fascismo e nem comunismo e fascismo juntos. Porque entre comunismo e fascismo há uma zona antiliberal de contato muito interessante onde está o fascismo de esquerda, o nacional-bolchevismo de Niekisch, o socialismo identitário, o nacional-bolchevismo comunista soviético de Stálin, etc.

Essa minha passagem ideológica foi totalmente séria, não foi uma forma de dar outra vida ao nacional-bolchevismo, que em si mesmo não era nem bolchevismo nem fascismo, era algo novo, era uma síntese. Porque já nos anos 90 eu era contra o racismo nacionalista, contra o chauvinismo fascista e contra o multiculturalismo comunista, eu era um Tradicionalista como hoje e como antes. Um Tradicionalista que tentou encontrar os meios adequados para lutar contra o mundo do Anticristo, o mundo da Kali Yuga, o mundo da decadência política total que é a modernidade. 

A Quarta Teoria Política é o resultado de um desenvolvimento pessoal sincero. Cada passo que tomava explicava de forma aberta. Eu era contra o comunismo e o liberalismo e pela revolução conservadora nos anos 80, a favor do nacional-bolchevismo nos anos 90 e tudo isso explicitamente. E a partir do novo milênio sou eurasiano e adepto da Quarta Teoria Política, me distanciando de todas as formas da modernidade, comunismo e fascismo incluídos. 

E isso não é possível de ser aceito pelos liberais, porque os liberais pensam que todos que não são liberais são ou fascistas ou comunistas. Não podem imaginar a possibilidade de alguém ser antiliberal, nem fascista e nem comunista. Para eles, como para Olavo de Carvalho, se alguém não é liberal, ou é fascista ou comunista disfarçado. Os liberais são totalitários, chamo isso de terceiro totalitarismo. Esse modo totalitário se manifesta nessa atitude frente a Quarta Teoria Política. Os liberais dizem “não pode ser Quarta Teoria Política, só pode ser terceira ou segunda, stalinismo ou hitlerismo disfarçado”. 

Mas digo abertamente que sou antiliberal, anticomunista e antifascista ao mesmo tempo. Não é possível dizer que um homem é fascista se ele é antifascista, uma pessoa não pode ser comunista se ela é anticomunista. Explico porque sou antiliberal, porque sou anticomunista e porque sou antifascista abertamente nos muitos escritos, com muitas páginas, milhares de páginas que tenho escritas, qual é a lógica disso e que valores defendo. 

Somente a ausência de sinceridade da parte dos liberais ou ausência de conhecimento correto, ou o pagamento pelos EUA, pela CIA, os pode levar a lançar calúnias contra mim. 

Os comunistas conscientes devem ser antiliberais, hoje os fascistas também. Eles devem escolher uma posição muito importante. O que é mais importante para o comunismo na pós-modernidade? Estar contra o liberalismo, que não permite a possibilidade de existência de um comunismo antiliberal, ou estar contra o fascismo, que não representa ameaça, que é perseguido, marginalizado. É muito fácil lutar contra o fascismo. Essa é a aliança entre comunistas e liberais, representada no trotskismo atual e no neoconservadorismo americano, que são trotskistas tornados capitalistas ultraliberais. Para os comunistas a Quarta Teoria Política é uma forma de fascismo pelo fato de não ser nem comunista, nem liberal, e isso já é fascismo. Para os comunistas sinceros o mais importante na Quarta Teoria Política deveria ser a luta contra o liberalismo. Ela deve ser logicamente alguma coisa vizinha, no mínimo uma companheira de percurso para o comunismo. Porque o mais importante para o comunismo deve ser a luta contra o capitalismo liberal. E a Quarta Teoria Política é completamente antiliberal. 

O comunista sincero deve escolher entre Quarta Teoria Política e liberalismo. Ele pode não estar de acordo com ela, mas lutar contra a Quarta Teoria Política e não lutar contra o liberalismo não é nada além de liberal-comunismo, é ser um liberal de esquerda, é traição do comunismo antiliberal, que é não ver nem no fascismo nem na QTP este elemento antiliberal. 

Os fascistas também podem escolher, devem escolher, estar contra os comunistas com os liberais, com os comunistas e contra os liberais, que é o nacional-bolchevismo, ou superar essas posições, compreender a análise da Quarta Teoria Política e fazer a transição entre terceira teoria política e Quarta Teoria Política. Se pode ser um fascista consequente lutando contra o liberalismo com os comunistas sinceros ou com a Quarta Teoria Política que é teoricamente muito mais coerente. 

Para finalizar é muito importante que a mesma lógica descobri nos textos de Martin Heidegger. Ele era um representante da terceira teoria política que criticava o liberalismo, era um nacional-socialista antiliberal, que criticava o conceito de sujeito individual como antifilosófico. O sujeito não pode ser individual, o liberalismo parte do ponto de que o sujeito é individual, o que é um absurdo para Heidegger. A crítica do sujeito moderno é muito importante para a Quarta Teoria Política. Depois ele criticava o comunismo como forma de Machenschaft, palavra alemã que quer dizer “mecanicismo”, característica do comunismo, que acaba na metafísica alienada do Ocidente. 

A crítica de Heidegger é muito importante e também mais interessante é a crítica interior de Heidegger ao nacional-socialismo, nos textos dos anos de 30 e 40, por razões totalmente idênticas às da Quarta Teoria Política. Penso que Martin Heidegger politicamente pode ser concebido como o primeiro representante, como a medida da ortodoxia da Quarta Teoria Política. Acho que Heidegger contém de forma implícita todos os princípios da Quarta Teoria Política e pode ser considerado como pai fundador da Quarta Teoria Política.        

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Michael McGregor - Russofobia Bipolar

por Michael McGregor



Tradução por Conde de Olivares

Justo quando você acha que colunas comparando Putin a Hitler tinham atingido seu máximo, George Will, possivelmente, escreve o artigo que deve superar todas as outras:

"O Estado Islâmico é um problema terrível que pode ser remediado se seus vizinhos, apoiados pelos Estados Unidos, decidirem fazê-lo. O renascimento fascista de Vladimir Putin é uma crise que testa a capacidade decisória do Ocidente .

A essência de Putin é a raiva. É um amálgama ardente de ressentimento (da humilhação da Rússia em razão do colapso da União Soviético), ambições revanchistas (no que diz respeito a antigos territórios soviéticos e esferas de influência), desprezo cultural (pelo pluralismo de sociedades abertas) e chauvinismo étnico que pressagia a “limpeza étnica” das porções não-russas da Rússia em expansão de Putin. 

Isso não é meramente uma mente fascista; seu componente étnico-racial componente o faz hitlerista. Assim, Putin é imprevisível apenas àqueles que não são familiarizados com os anos 30. No que diz respeito ao ressentimento e à vingança, lembremos onde Hitler insistiu que a França capitulasse em 1940 – em um depósito ferroviário, próximo à cidade de Compiegne, onde a Alemanha assinou o armistício de 1918". [1]

Essa não foi o primeiro registro [2] de uma voz conservadora a afirmar que a Rússia está se tornando um império Fascista do mal  sob as dissimuladoras vistas de Vladimir Putin. A maioria dos conservadores parecem abraçar a idéia de que a Rússia está se tornando novamente o inimigo dos Estados Unidos, e eles voltam agora a propagandear contra um inimigo branco ao invés de um mais escuro. Não deveria nos surpreender que ele usa o Estado Islâmico para prefaciar seu argumento e deseja que a América se foque no Urso Russo ao invés de se voltar aos militantes islâmicos.

Na mente do conservador americano, o regime de Putin agora representa algum tipo sinistro de Estado autoritário, nacionalista racial, adequado para ser o inimigo perfeito de um jogo do Call of Duty [3]. Enquanto isso, nossos amigos do Counter-Currents produziram vários artigos que deveriam ser enviados a Will e seus amigos para tranquilizá-los de que Putin não é nenhum fascista malvado. Mas eles vão muito além disso e se aventuram na russofobia. Ao invés dos conservadores que dão chiliques quanto a uma Rússia que estaria se tornando em um Terceiro Reich, Counter-Currents pinta a Rússia como um regime liberal, controlado por judeus, anti-branco e falsamente Tradicionalista. Aliás, brancos russos aparentemente também não são brancos [4].

Aqui vai o mais recente artigo de Counter-Currents sobre o mal Russo:

"O nacionalismo conservador, cego quanto à questão racial, filo-semita e cívico de Putin é, na realidade, o pior cenário para os brancos, já que ele assenta um sistema essencialmente anti-branco em fundações econômicas e políticas mais firmes, as quais irão permitir que suas inclinações anti-brancas e etnocidas continuem a agir mais eficientemente até que a população branca da Rússia esteja biologicamente além da recuperação. Mas Putin não pensa assim, já que ele não é um 'fascista', isso é, um nacionalista racial - nem mesmo um do tipo implícito.

Dessa forma, quando Putin afirma que ele está lutando contra o fascismo e o anti-semitismo na Ucrânia, ele quer dizer isso mesmo. E, como um 'fascista' e um anti-semita', Strom precisa levar em conta suas palavras. Vladimir Putin não é o nosso 'amigo secreto'." [5] 

E o mesmo se aplica a Alexander Dugin. Você sabe aquele cara que, segundo os conservadores, é um místico neo-nazista que quer destruir de vez a liberdade [6]? É, então, ele também é agora um anti-branco, um falso anti-liberal e tradicionalista: 

"É de se notar que Dugin, também, evita qualquer crítica do igualitarismo. Na medida em que a oposição ao igualitarismo é a essência da verdadeira direita, isso significa rebaixar as verdadeiras diferenças entre esquerda e direita para se focar inteiramente no ataque ao 'liberalismo'. O conceito de 'liberalismo' - deixado intencionalmente ambíguo, se referindo por vezes ao individualismo econômico capitalista, por vezes ao individualismo moral de ativistas de direitos gays e secularistas - deve funcionar como um polo central de oposição que irá artificialmente unificar em uma frente única e coesa grupos que são, de outra forma, heterogêneos. 

É crucial entender que Dugin, que convoca uma 'cruzada contra o Ocidente', não se opõe ao liberalismo porque ele está levando à destruição da raça branca. Ao contrário, ele freqüentemente identifica o 'Ocidente' com a raça branca (já que ele não vê os russos como brancos, como será explicado adiante). Seu objetivo principal declarado é destruir o liberalismo, mesmo se isso significar destruir a raça branca ('humanidade européia') junto com ele." 

A última série [7] de artigos voltados a atacar Dugin é uma reviravolta deprimente já que há apenas um ano atrás Counter-Currents publicava tanto entrevistas com o homem quanto artigos louvando seu trabalho. Já que ele apóia o regime de Putin e a invasão da Ucrânia, agora nada do que ele escreve pode ter valor e nós temos de condenar seu trabalho.

O fantástico artigo de Lucian Tudor, "The Real Dugin" [8], deveria responder suas questões sobre os aspectos controversos (para os identitários, não os neocons) sobre o filósofo barbudo e como suas idéias são relevantes à nossa causa.

O que é mais problemático sobre Counter-Currents e muitos dentro da direita identitária nessa reviravolta sobre a Rússia é como eles estão quase ecoando as preocupações da direita americana e da esquerda. Nós somos incessantemente inundados com histórias lamentando sobre quão má é a Rússia e como nós precisamos tomar uma postura forte contra ela. Isso é perfeitamente alinhado com a política externa atual dos Estados Unidos que vê a Rússia como uma ameaça à sua hegemonia global.
Com isso em mente, eu acho que os identitários precisam ter um ponto de vista realista sobre a Rússia. Putin não é um dos nossos e a Rússia possui algumas políticas questionáveis. Eles não são o grande etno-Estado do Leste e nós não deveríamos cega e servilmente adorar o poder russo. Eu pessoalmente acredito que muitos dos artigos que Counter-Currents publicou no começo desse ano sobre a Rússia foram muito perspicazes e deram um necessário banho de água fria em algumas fantasias sobre a Rússia. Mas agora muitos do nosso meio estão passando do mero ceticismo quanto a Putin para a desbragada russofobia.

O que precisamos, ao invés da russofobia ou da russofilia, é uma visão equilibrada da Pátria Mãe. Nós todos precisamos concordar que Putin não é um etno-nacionalista que esconde suas posições. Nós também precisamos concordar que a Rússia, enquanto poder global, é de forma geral uma força positiva (eles preveniram sozinhos o bombardeamento do regime de Assad e teriam impedido uma intervenção na Líbia se Putin fosse presidente). Eles possuem algumas políticas boas e algumas políticas más, mas deduzir que eles são um Estado anti-branco é ir longe demais. Por outro lado, os Estados Unidos são concretamente um Estado anti-branco e seu poder global é uma força negativa.

Por fim, não deveríamos colocar todo o trabalho de Dugin na lista negra por  ele tomar uma posição forte em um conflito que envolve seu país. Se podemos discordar de Dugin, ele, diferentemente de Putin, é (filosoficamente) um de nós. Ele é um tradicionalista, ele escreve incríveis críticas à sociedade liberal e ele é simpático ao etno-nacionalismo. Se você quer limá-lo por ter posições atípicas quanto à raça, você pode pensar também em jogar fora Spengler, Yockey e toda uma hoste de outros conservadores revolucionários que tinham visões similares.

O conflito ucraniano criou divisões desnecessárias dentro de nossas fileiras – e ele não é nem mesmo um evento no qual podemos ter qualquer poder para influenciar ou que se liga de qualquer forma conosco. Não é a nossa luta para lutarmos. Ainda cabe dizer que a guerra entre a Ucrânia e a Rússia é uma deprimente recordação do quão difícil é unir povos brancos, sendo esse o motivo pelo qual nós deveríamos permanecer neutros no que lhe diz respeito já que nenhum dos lados representa nossos interesses. A guerra civil ucraniana não deveria ser travada entre identitários ocidentais que precisam se unir para preservar nossa própria existência.

No meio tempo, deveríamos aceitar uma visão realista da Rússia e não sucumbir ao canto de sereia da russofobia (uma cortesia do Departamento de Estado dos Estados Unidos).

[1]http://www.washingtonpost.com/opinions/george-will-the-putin-threat-to-the-baltic-states/2014/09/03/e4d0b3a0-32dd-11e4-a723-fa3895a25d02_story.html
[2] http://www.radixjournal.com/journal/2014/6/23/why-the-conservative-movement-needs-dugin
[3] http://www.cnet.com/news/call-of-duty-modern-warfare-2-banned-in-russia/
[4] http://www.counter-currents.com/2014/03/white-nationalist-delusions-about-russia/
[5] http://www.counter-currents.com/2014/09/kevin-strom-on-russia-and-ukraine/
[6] http://www.radixjournal.com/blog/2014/4/6/liberalisms-new-bogeyman
[7] http://www.counter-currents.com/2014/09/dugin-on-the-subject-of-politics/
[8] http://www.radixjournal.com/journal/2014/8/30/the-real-dugin

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aleksandr Dugin - Rumo à Laocracia

por Aleksandr Dugin

Tradução por Conde de Olivares



Sob o capitalismo, os capitalistas governam. Sob o socialismo, são os representantes da classe trabalhadora, o proletariado, que governam. Sob o nazismo e o fascismo, governa a elite nacional ou racial. Sob a Quarta Teoria Política, quem deve governar é o Povo (“Narod”, em Russo, semelhante ao “Volk” alemão: não a mesma coisa que “população”).

A Rússia moderna possui capitalismo. Portanto, ela é governada pelo capitalismo e, portanto, não pelo Narod. Para construir a Rússia na qual governará o “Narod”, é necessário concretizar uma revolução anticapitalista (ou, ao menos, anti-oligárquica). Magnatas financeiros deveriam ser excluídos do poder político. E isso é o central. Todos devem escolher – poder OU dinheiro. Escolha o dinheiro - esqueça o poder. Escolha o poder – esqueça o dinheiro.

A revolução deve se concretizar em três estágios:

1. Ultimato a todos os grandes oligarcas (uma centena tirada de uma lista da Forbes e mais outra centena que se esconde, mas que todos sabemos quem são) para que jurem lealdade aos ativos russos (todos ativos estrangeiros e nacionais estratégicos serão agora controlados por corpos especiais).

2. Nacionalização de todas as propriedades privadas de importância estratégica.

3. Transmutação dos representantes patrióticos do grande capital para a categoria de funcionários com a transferência voluntária da sua propriedade para o Estado. Eliminação dos direitos civis (incluindo aqui o fim do direito de voto, participação em campanhas eleitorais, etc.) para aqueles que preferirem preservar o capital em escala não estratégica, mas significante.

O Estado deveria se tornar o instrumento do Povo. Esse sistema deveria se chamar, dessa forma, Laocracia, literalmente, “poder do Povo (“Laos” é “povo” em grego).

Na sangrenta batalha pela Ucrânia, nós vemos a verdadeira face do capital – o grande negócio ucraniano (oligarcas como Poroshenko, Kolomoisky, Akhemetov, etc.) lidera o genocídio contra o Povo; oligarcas russos traem o povo ao se engajarem em um acordo criminoso com seus companheiros de classe ucranianos. E tudo isso seguindo os interesses da oligarquia global – o sistema capitalista mundial, centrado nos Estados Unidos.

Isso agora expõe toda a incompatibilidade da Russia e do capitalismo. É ou o capitalismo ou a Rússia.

Isso é perfeitamente compreendido pelos líderes da Nova Rússia. Eles, por estarem à vanguarda de todo o povo russo, começaram de fato essa Revolução do Povo Russo. Esse é o porquê de serem eles quem tão furiosamente atacam tanto os devotos mercenários da Junta nas fileiras de porcos fascistas ucranianos quanto os elementos capitalistas liberais nas quintas e sextas colunas da Rússia. E, mais importante, eles se tornaram inimigos existenciais do governo mundial e dos EUA. Strelkov, Gubarev, Purgin, Pushilin, Mozgovoy – todos eles desafiaram o capital global. E eles o fizeram em benefício do Povo. Nesse caso, em benefício do povo russo. Mas se os apoiadores do povo ucraniano fossem coerentes, eles seriam aliados dessa revolução, e não meros capatazes do capital global – como eles o são agora. Voltando-se ao lado da Nova Rússia, os ucranianos se voltam não tanto para a Rússia, e nem mesmo para o lado russo, mas ao lado do Povo, o Povo como letra maiúscula, que luta uma batalha mortal contra o mundo do capital, ao lado, enfim, da Laocracia.

Dessa forma, a campanha que está para vir contra Kiev não será apenas uma vingança ou uma campanha de liberação das antigas terras russas, ela será uma campanha em favor da Laocracia, do poder do Povo, para um Estado do Povo.

Eu não acho que a oligarquia russa apoiará isso, ela não pode deixar de entender que seus dias estão contados. Esse é o motivo pelo qual ela grita tão histericamente “não mandem tropas”, já que a vitória da Nova Rússia significará inevitavelmente a ressurreição da própria Rússia, o despertar do Povo. Essa é a razão para as tentativas desesperadas de trair a Nova Rússia - essa é agonia da oligarquia russa e seus capatazes públicos. Sua tarefa é destruir os heróis da Revolução da Nova Rússia – que é não apenas popular, mas também social – e destruí-la enquanto ainda é um botão de flor. 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Rafael Aires Ferreira - Oliveira Vianna e sua Relevância para as Linhas Gerais de uma Sociologia Dissidente no Brasil

por Rafael Aires Ferreira 



(Apresentado no Encontro Nacional Evoliano em 11 de Setembro de 2014)

Introdução

Uma sociologia contra a sociologia

A Sociologia surge, como diz Agnes Heller, como um mecanismo de desfetichização da modernidade, mas, ao mesmo tempo, imbuída da necessidade constante de reificação de seu objeto e admitindo o paradigma moderno como sub specie aeternitatis, que além de inexorável e irrevogável teria açambarcado a totalidade das relações sociais através da substituição da estratificação pela divisão funcional orgânica. Ainda segundo Heller, a pré modernidade não demandaria uma ciência social, nem mesmo poderia cogitá-la, por possuir uma outra estrutura de certificação ontológica.

Um dos grandes problemas em lidar com esta concepção de Ciência Social reside no fato da modernidade, por vezes impor-se muito mais como discurso que como fato social, e na dificuldade em reconhecer a profunda cisão que divide o universo social em enclaves modernos e pré modernos que se expressam em relações de tensão e acomodação cuja clivagem poucas vezes se mostra relevante aos estudiosos desta disciplina. 

É justamente no bojo desta clivagem que, no início do século XX, Oliveira Vianna vai estruturar seu pensamento na dicotomia entre o Brasil real, do direito costumeiro das gentes, de onde emanariam as forças vitais da nacionalidade; e o Brasil juridicamente normatizado por um direito intelectual, alheio às formas irracionais e arcaicas daquele primeiro Brasil.

A essência da tese de O. Vianna, sobre nosso devir civilizatório, poderia ser descrita, muito resumidamente, como a que afirma que a grande componente social da civilização Brasileira em forja, exceto por recortes específicos, não abraçou o projeto de modernidade do Liberalismo e acalenta ainda as estruturas epistemológicas e culturais pré modernas que, poderíamos dizer, a aproximam mais do “Oikos” grego que do cosmopolitismo global contemporâneo. Lendo-se aqui, esse Oikos, como a grande “fazenda” doméstica, autoritariamente dirigida, por um príncipe ou senhor territorial, patrício, cujo motivo não reside na aquisição capitalista de dinheiro, mas na cobertura natural e organizada das necessidades de tal senhor; tal como diz Weber.

Esta cisão assinalada por Vianna assenta-se sobre a polarização entre Estado e Sociedade, enquanto estruturas que apresentam naturezas e interesses antagônicos. Aliás, a natureza deste direito que emana do caráter sociológico, nacional das gentes e de sua relação com o aparato legal “científico” e profissional que se encarrega de asfixiar a vitalidade do direito natural “Folkish” destas gentes foi, ao longo da vida de Vianna, mote fundamental de uma carreira que conheceu pouca distinção entre suas duas vocações, acadêmica e pública. Para Vianna, a forja de uma civilização nacional Brasileira passa pela correta adequação desta relação Estado/Sociedade, através da racionalização das instituições políticas de uma forma não apartada entre a Lei Escrita e a Consuetudinária, mas em sua conciliação orgânica. À maneira de Mannheim, que em Ideologia e Utopia dirige sua crítica ao aparato burocrático racionalizador e unilateral, dizendo do “Funcionário” que: “ele não compreende que toda ordem racionalizada é somente uma das muitas formas em que as forças irracionais, socialmente concorrentes, são reconciliadas”; Vianna acrescentaria, dando como indiscutíveis as “preferências tenazes” fixadas na origem da formação de qualquer sociedade, que é preciso contar com esses “fatos de civilização” caso não queiramos ver irreconhecivelmente deformadas as instituições racionalizadoras que se lhe queiram impor.

Ao passarmos em revista a conjuntura desta relação entre estado e sociedade no que tange à formação das instituições políticas no Brasil, percebemos que num contexto onde a “Liberdade” veio antes da Organização, estas instituições têm sido desde sempre aparelhadas, e após o fim do Império, o Brasil sai de um Feudalismo prático para uma República teórica.

Organização x Liberdade

Eis um binômio fundamental na análise de Vianna sobre o subdesenvolvimento das instituições políticas no Brasil. Como bem coloca Paulo Edmur de Souza Queiroz, em “Sociologia Política de Oliveira Vianna”, “Para Oliveira Vianna o pensamento político que Mannheim define como o intelectualismo burguês liberal-democrático, a partir do século XIX, não fez mais, no Brasil, do que demonstrar a tese de que na aplicação intelectual, pura, de um pensamento político a uma realidade sociológica, esse pensamento é inevitavelmente deformado por essa realidade.” (1975, p. 36) Vianna percebia no Liberalismo um novo modelo político-ideológico importado pela intelligentsia pré-republicana que aprofundaria a dissociação entre Estado e Sociedade, e do encontro entre as estruturas semifeudais estabelecidas, com ideologia e uma norma jurídica burguesas consuma-se um panorama onde o aparelho estatal, redesenhado para o livre empreendimento individual torna-se a presa perfeita de um conjunto de facções autocráticas representadas pela junção das velhas oligarquias que sobrevivem, adaptando-se às novas instituições representativas, com os novos especuladores financistas.

Clãs eleitorais formavam partidos que se organizavam ao sabor de interesses pessoais, preterindo a ideia da unidade e da centralização como meios de organização nacionais. Com a República, se aprofundaria o trabalho de desarticulação e fragmentação desta unidade às escusas de um federalismo, como diria Vianna, “mal compreendido e mal praticado, sob o ilusório pretexto de realizarem, assim, a liberdade.”

A polarização entre organização e liberdade, cuja forja civilizacional Brasileira tem sido desde sempre refém, pode ser encarada por outro binômio, o da afirmação do indivíduo, contra a afirmação do grupo. A estruturação Liberal do Estado Brasileiro, além de ter cavado um abismo entre o Brasil das gentes e o Brasil legal, afastando o homem-massa das instituições políticas; aprofundou também seu insolidarismo e indiferença às coletividades. Dos núcleos sociais familiares e profissionais, até as coletividades culturais e de seu senso de nacionalidade, a afirmação do indivíduo tem preponderado sobre a afirmação do grupo.

Vianna nos fala como o espírito de comunidade tem sido mutilado desde a mais remota ocupação de nosso território, onde a dispersão e o isolamento darão lugar a um tipo humano que não vela ou se interessa pelo bem comum, senão pelos seus próprios bens particulares e que não está disposto à cousa pública.

Resta-nos assim questionar, como realizar a construção desta mentalidade solidarista, como desenvolver este espírito comunitário? 

Para Vianna, além das forças armadas e do escotismo juvenil, o grande foco metodológico desta transformação caberia às organizações Sindicais e Corporativas.

A Consciência Corporativa

Tendo patente que a Democracia Liberal é incompatível com o desenvolvimento nacional, por evasão direta de focos prioritários, que além dos já citados, incluem ainda soberania, infra estrutura, autonomia energética e industrial, ordem social e controle da “stasis”; Oliveira Vianna elabora ao longo de suas obras, uma complexa pesquisa do maquinário teórico Corporativista, entendendo as Corporações em um contexto onde seriam o único fundamento possível do poder público.

Como Durkheim, que via o Estado como órgão especial destinado a gerar representações de valor coletivo, para Vianna, num devir civilizatório como o Brasileiro, fundamentalmente isolacionista, insolidarista e anticomunitário, como descreve fartamente em suas obras, principalmente em “Instituições Políticas Brasileiras”; o aparelho Estatal deveria encarregar-se da politização da Sociedade através das Corporações, organizando o corpo social a partir da noção de grupo ao invés da noção de indivíduo, ensejando assim a ascensão do grupo como sujeito de direitos e faculdade de ação daí decorrente.

Vianna vai buscar no Realismo Jurídico de Brandeis, a concepção de individualismo grupalista, que afirma que é no grupo que o indivíduo se realiza em sua plenitude. Vai mais além, e de Marcelo Caetano extrai a definição de que “há regime corporativo sempre que uma atividade é representada e regulada por aqueles que a desempenham”; atando a Manoilesco, para quem o corporativismo puro seria o sistema político em que a fonte do poder legislativo supremo é constituído pelas Corporações.

No esteio destes princípios, o poder não emanaria do “povo massa”, anônimo e desqualificado, mas de forças coletivas economicamente, cultural e socialmente ativas, e institucionalmente encarregadas de seu próprio destino. O Estado Corporativo seria, neste contexto, a incorporação do “Volkgeist”, o instrumento que realiza a finalidade suprema da nação, agindo como interventor econômico, gestor de conflitos e modulador de preços no lugar do livre mercado, trabalhando sempre no sentido da supressão do antagonismo de classe através da conciliação entre capital e trabalho.

As Corporações, sendo estes corpos de natureza pública e colocando-se na posição intermediária entre os indivíduos e o estado, tornar iam-se eficientes substitutos da democracia parlamentar liberal, com a instituição da Câmara Corporativa, tendo a função legislativa.

De maneira objetiva e sintética, podemos afirmar que Vianna buscou construir uma concepção de Estado Corporativo com as seguintes características: 

• Sem caráter Totalitário, dada a influência de Pirou, baseadas na ideia da convenção coletiva e no caráter fiscalizador do Estado; mas rejeitando a concepção de Manoilesco, onde as Corporações estariam sujeitas ao controle do Partido Único.

• Colaboracionista, no sentido clássico da “terceira solução”, onde através da conciliação entre Capital e Trabalho o antagonismo de classe seria suprimido em função do interesse supremo do Estado.

• Antiliberal, do ponto de vista econômico, já que o Livre Mercado não seria o agente modulador de preços e que seu saneamento se daria no equilíbrio entre oferta e procura; e do ponto de vista ideológico, visto que a concepção de grupo teria mais força que a de indivíduo e o capitalista não seria alvo da superestimação dada pelo estado burguês, mas apenas o cumpridor de uma função social cujo fim último seria a promoção do interesse nacional.

• Apartidário e Unicameral, pois tendo as Corporações e convenções coletivas no papel de Legisladores cessaria a necessidade de qualquer organização partidária paralela.

Percebemos, no esboço que aqui se desenha um programa de reestruturação radical do modelo societário Brasileiro a partir das brechas deixadas por um liberalismo que se encastelou em um estado alienado das preferências tenazes do Brasil real.

Malgrado erros e acertos, concordâncias e discordâncias, o ponto de vista ideologicamente eclético e cirurgicamente realista de Oliveira Vianna sobre a adaptação do ideal corporativo à realidade Brasileira toca em feridas até hoje expostas. O Zeitgeist que nos dirige na Pós-Modernidade é refratário ao ideal corporativo, em grande parte por conta da atomização do indivíduo em uma socioesfera fortemente insolidarista e rompedora do tecido comunitário, em especial no Brasil. A concepção corporativa de Estado fornece, porém, um antídoto real ao esvaziamento político do Estado e sua predação por uma sociedade civil aparelhada pela via cultural. Aqui no Brasil, o Estado se tornou refém, neutralizado, despolitizado e burocratizado, de um poder que se exerce a partir de uma base metapolítica e pluri-ideológica, que se autodenomina como "sociedade civil organizada". Esta S.C.O. é justamente a polarização ideológica que busca fomentar uma opinião pública mobilizada contra os mais vitais interesses do país, estratificando o corpo social em bases antagônicas e totalmente desconexas da produção, da cultura e dos seus reais enclaves de poder. As Corporações são o antídoto do "onguismo" e expressão absoluta e radical de uma verdadeira sociedade civil, que no Brasil ainda está por ser organizada. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Alexander Jacob - O Fim da História Americana

por Alexander Jacob 



(Conferência apresentada no Encontro Nacional Evoliano 2014 em 10 de Setembro de 2014)

Francis Fukuyama, o portavoz intelectual nipo-americano para o movimento neoconservador judaico-americano, proclamou em seu livro de 1992 O Fim da História e o Último Homem que a democracia liberal era a forma sócio-política definitiva já que as alternativas anteriores, como o fascismo e o comunismo tinha provado ser ideologicamente falidas, e a liberdade e a igualdade agora tinham sido estabelecidas como normas universais. A visão de Fukuyama da história em movimento em fases políticas progressivas foi, naturalmente, popularizado no século XIX por pensadores alemães, como Hegel, Marx e seus seguidores, que procuraram discernir padrões historiográficos nos caprichos da fortuna militar e econômica e ou celebrar ou se revoltar contra o status político atual de sua própria nação, no caso deles, Alemanha. Certamente, Hegel foi um pouco mais elevado do que Marx em supor o curso da história como sendo as manifestações variáveis de um Weltgeist em desenvolvimento, ou espírito-do-mundo, ao passo que a historiografia de Marx era governada por meras alterações econômicas. No entanto, a falsidade até mesmo da filosofia da história de Hegel é tornada clara para qualquer um que considere a história do país que atualmente promove a democracia liberal como uma norma universal, a América. 

Na América, tem havido, desde o seu início como uma nação independente, dificilmente qualquer desvio dos objetivos democráticos liberais, e o comunismo e o fascismo não só estiveram ausentes lá em suas formas europeus, mas são, se alguma vez eles surgem, rapidamente absorvidos pelo contexto liberal democrático da nação. Na verdade o que a sociedade americana representa é uma espécie de utopia a-histórica, criptocomunista, onde os indivíduos privados se esforçam cada vez mais arduamente para possuírem os meios de produção e para resistirem à interferência do Estado nos assuntos públicos. Há pouco também para distinguir o ideal comunista de igualdade do liberal. Quando Fukuyama sugere que chegamos ao "fim da história", portanto, o que ele quer dizer é que o mundo que passou por verdadeiras mudanças históricas já foi conquistado por um país que começou e continua como uma utopia que é tão pouco capaz de mudança histórica como de progresso real, isto é, o progresso compreendido não no sentido tecnológico, mas no sentido tradicional do desenvolvimento das atitudes espirituais, intelectuais e sociais de um povo. 

O "fim da história" é de fato um fenômeno que é peculiar à América como uma colônia britânica que teve ligações tênues com a história natural de desenvolvimento do Velho Mundo. Enquanto a maioria dos países fundados por assentamento colonial conseguem manter e desenvolver a cultura de sua nação materna até certo ponto - como a Austrália, por exemplo, fez - América começou e se desenvolveu em um momento de revolta protestante e puritana contra as antigas tradições monárquicas católicos da Grã-Bretanha. 

É importante, portanto, considerar o fenômeno do puritanismo que provocou a Guerra Civil Inglesa durante a qual a América foi colonizada e perceber também a estreita ligação entre o puritanismo cristão e o judaísmo. Podemos lembrar, neste contexto, que os judeus, que tinham sido oficialmente expulsos da Inglaterra em 1290 por Edward I, foram autorizados pelo ditador puritano Cromwell em 1650 a retornar da Holanda, onde eles tinham vindo a realizar um negócio financeiro florescente, e por toda a Commonwealth os judeus eram tidos em alta estima pelos puritanos. A semelhança entre a ética capitalista desenvolvida pelos puritanos e a dos judeus foi já observada em 1911 pelo sociólogo alemão Werner Sombart em sua obra Die Juden und das Wirtschaftsleben/Os Judeus e a Vida Econômica. Sombart afirmou que a ética "protestante", em que Max Weber tinha focado em seu trabalho de 1905, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, era de fato a ser identificada especificamente como uma ética puritana que deve ser equiparada ao judaísmo. Pois, como Sombart explicou, 
         
           Em ambos serão encontrados ... a estreita relação entre religião e de negócios, 
           a concepção aritmética do pecado, e, acima de tudo, a racionalização da vida. 

Com a guerra civil americana de 1861-1865, as últimas ligações com a Inglaterra monárquica que persistiram no Sul Confederado pró-inglês foram cortadas pela vitória do Norte Federalista. Em seguida, no rescaldo da guerra civil, em fins do século XIX e início do século XX, o aspecto religioso cristão da ética de trabalho puritana dos norte-americanos originais foi seriamente danificada pelo grande influxo de judeus da Europa Central e Oriental que tiveram sucesso na modulação da personagem puritana filo-semita do capitalismo americano em um personagem totalmente judaico. Como Sombart apontou, os judeus haviam de fato sido ativos na vida econômica americana já a partir do século XVII, e tinham vindo gradualmente a monopolizar muitos ramos do comércio americano, como o comércio de trigo, tabaco e algodão. Mas é preciso notar que, com o aumento da imigração de judeus orientais no final do século XIX e a promoção do capitalismo judaico das finanças, o que restava da ética de trabalho puritana original e da frugalidade concomitante na economia norte-americana foi logo dissipado, enquanto o único vestígio da religiosidade puritana dissidente que sobreviveu foi o seu teimoso anti-clericalismo. 
Com a substituição da veneração puritana da indústria pelo reinado parasitário das finanças, a tendência judaica de utopismo econômico que se manifestou no século XX como o comunismo totalitário na Rússia, Europa Oriental e no Extremo Oriente foi transformado na nova "terra prometida" dos judeus no liberalismo totalitário do "Sonho Americano". O capitalismo promovido pelos judeus fortaleceu constantemente o compromisso da nação para com a liberdade individualista e o engrandecimento material, em vez de com os objetivos civilizacionais das antigas monarquias e impérios. Essa nação, naturalmente, não poderia evoluir ou mesmo adquirir uma história humana. Em vez de produzir exemplos de grandeza humana só podia gabar-se de um certo número de magnatas e artistas milionários e, em vez do desenvolvimento histórico só podia experimentar booms econômicos periódicos e recessões. 

O próprio Fukuyama tenta, em seu livro, a introdução de uma questão nietzschiana em sua glorificação da democracia liberal, levantando o espectro do "último homem", ou o homem americano médio cuja vida é materialmente saciada e espiritualmente sem sentido. Mas com otimismo ingênuo ele afirma que uma vida tão intoleravelmente vazia certamente seria domada em uma democracia liberal pela vivacidade do homem, uma característica humana que inevitavelmente se rebelará contra uma existência tão monótona. Esta vivacidade é o mesmo que Platão chamou de a parte do meio da alma tripartida, entre as partes racional e animal da mesma. Na visão de Fukuyama, no sistema democrático liberal, em vez de seu reaparecimento em conflitos violentos, como é o caso dos Estados nacionalistas ou imperialistas, haverá uma absorção desta energia apaixonada nos esportes, negócios e shows políticos como campanhas eleitorais. 

A crença de Fukuyama em uma engenharia social como a democracia liberal objetiva universalmente ignora a grande diferença entre os estados do Velho Mundo e o americano. Na verdade, a iniciativa neoconservadora propagada por Fukuyama serve como um lembrete oportuno da incompatibilidade do sistema americano com sistemas verdadeiramente europeus de pensamento político. Os valores sociais americanos que estão sendo impostos à Europa e ao resto do mundo através de meios econômicos e militares são, essencialmente, alienígenas e não são nem suscetíveis de criar raízes facilmente nem de perdurar. Pois, ao contrário da nação norte-americana, as europeias e outras nações mais velhas têm uma vitalidade histórica que não pode ser sufocada pela avareza americana. Para ilustrar este fato vou examinar aqui as tradições políticas características dos indo-europeus e os movimentos intelectuais contraditórias que distorceram estas tradições no curso da história moderna. 

Para entender o ethos social indo-europeu tradicional posso começar com a concepção ariana paradigmática de sociedade discernível na Índia antiga. O famoso "sistema de castas" dos indianos é, ao contrário do "sistema de classes" ocidental moderno, um sistema inteiramente espiritual e os homens são reconhecidos não por seu status econômico, mas por sua capacidade espiritual hereditária. As quatro ordens sociais indianas são representadas simbolicamente como a cabeça, braços, coxas e pés da forma antropomórfica cósmica primordial da alma divina. Este Homem Cósmico, ou Purusha, foi ele mesmo formado, em primeiro lugar idealmente e, em seguida, manifestamente, através do desejo espiritual, a alma, da divindade ou do Uno. 

A manifestação da alma na filosofia religiosa indiana é dita ser devido a suas três formas inerentes de energia, sattva, rajas e tamas, a primeira representando existência pura, a segunda, movimento e a terceira, inércia (Brahmanda Purana I, i, 3, 12). Uma vez que existe uma correspondência íntima e inevitável entre o macrocosmo e o microcosmo humano, estas três energias aparecem incorporadas em diferentes graus entre os seres humanos também, o elemento sattvico mais plenamente nos brâmanes, o rajásico nos guerreiros ou kshatriyas, e o tamásico no vaisyas e sudras, especialmente os últimos. Esta é a base espiritual e psicológica original de toda a hierarquia. O brahman deve a sua posição proeminente na sociedade a seu poder espiritual sobre-humano. O nome "Brahman" da divindade que representa a luz intelectual do cosmos, se deriva de uma palavra que denota o poder criativo e é privilégio e dever do brahman representar este poder criativo enquanto os kshatriyas, ou governantes políticos e guerreiros, só servem para manter esse poder criativo tanto no interior da terra e também no universo. O brahman e kshatriya constituem, assim, a política Indo-Européia paradigmática centrada nos dois órgãos do que na política europeia são chamados a Igreja e o Estado. 

Se nos voltarmos para os filósofos gregos, descobrimos que em Platão e Aristóteles o estado é novamente constantemente concebido em termos da constituição da alma universal e individual. Segundo Platão, a alma é "aquilo que se move" (Fedro 246a) e é, naturalmente, anterior ao corpo, uma vez que "é o que governa todas as alterações e modificações do corpo" (Leis 892a).   

Assim como na Índia antiga, a alma, ou psique, na República de Platão, Bk.IV, é dividida em três partes, uma parte racional ou espiritual mais elevada (chamado logistikon) correspondente ao sattva indiano, uma passional média (chamados thymoeides) correspondendo a rajas, e uma parte inferior sensual (chamada epithymetikon) correspondente a tamas. Como a sociedade é um fenômeno tão orgânico quanto os indivíduos de que se compõe, em um estado também quanto mais o aspecto racional predomina sobre o passional mais se aproxima à forma política ideal. Mas a disciplina dos desejos inferiores pelos ditames da razão pode ser encontrada apenas em alguns e estes são os homens "mais bem nascidos e melhor educados" (República, IV), ao passo que as paixões não treinadas e selvagens encontram-se em abundância entre as crianças, as mulheres e as classes mais baixas, que formam a mais numerosa parte da sociedade. Os "guardiões" aristocráticos da república ideal de Platão, portanto, devem ser verdadeiros filósofos e não serão retirados das classes inferiores. 

Aristóteles continua a teoria política de orientação espiritual de Platão em sua Ethica Nichomachea, onde ele declara que o principal objetivo da política é a consecução do bem da nação. As classes superiores de uma nação comportarão os cidadãos plenos que irão assumir os ofícios militares e administrativas, incluindo sacerdotais, da terra. Os legisladores devem governar com um conhecimento claro da constituição espiritual do homem, isto é, dos elementos racionais e passionais que Platão havia discernido na alma individual. E é dever dos legisladores garantir a predominância do aspecto mais elevado da alma sobre o inferior. 

Princípios platônicos reaparecem no Renascimento europeu nos escritos de pensadores aristocráticos como Francesco Guicciardini e Jean Bodin. De acordo com Guicciardini - que ofereceu uma crítica à Maquiavel em uma de suas obras, Considerações sobre os discursos de Maquiavel - a principal razão da superioridade de um príncipe e de uma aristocracia perante o povo é que eles não estão sujeitos às paixões perniciosas, como , nomeadamente, a inveja. O filósofo renascentista francês, Jean Bodin - que é notável por sua defesa do absolutismo monárquico - também baseou sua defesa deste último em uma base platônica similar. Pois a monarquia genuína é, segundo ele, derivada da Lei Divina e o monarca é a imagem terrena de Deus. Cuidados devem ser tomados para que a fundação religiosa do Estado nunca seja posta em dúvida e os líderes religiosos devem agir como censores do Estado, a fim de manter a disciplina moral nele. 

É neste momento na história do mundo que as idéias anti-monárquicas revolucionárias da Guerra Civil Inglesa, da Revolução Americana e da Revolução Francesa aparecem. Se estudarmos a Carta Americana de Direitos de 1789, percebemos que ela foi baseada em grande parte na Carta Inglesa de Direitos de 1689 promulgada pelo (originalmente puritano), Parlamento Inglês após a "Gloriosa" Revolução Protestante de 1688, a fim de reduzir os poderes tradicionalmente investidos nos monarcas anteriormente católicos da Inglaterra. 

Um dos pensadores ingleses mais influentes do século XVII e um geralmente considerado o pai da democracia liberal, John Locke, também era um puritano. Locke era um campeão da separação da Igreja e do Estado e teve uma profunda influência sobre os "Pais Fundadores" norte-americanos, como Thomas Jefferson. A Carta Americana de Direitos, baseada na parlamentar britânica, é especialmente notável por sua dissociação (na Primeira Emenda) do estado norte-americano de qualquer religião oficial. O que tinha começado na Inglaterra como uma rejeição do catolicismo foi, assim, transformado na América em uma rejeição de toda a religião oficial. Combinado com esse medo de teocracia estava a devoção puritana à liberdade individual e a indústria, que fez com que os norte-americanos vissem a cidadania como um status definido principalmente pela liberdade e os cidadãos como unidades econômicas de produção e não sem semelhança com aquelas da utopia comunista de Marx. 

Um pouco mais tarde, em meados do século XVIII, Jean-Jacques Rousseau propagou na França a concepção lockeana do governo como um "contrato" social, orientado pela "volonté générale" das pessoas que reduziria as desigualdades que brotam da subserviência ao estado. No entanto, uma resposta robusta a doutrina do "contrato social" de Rousseau foi oferecida imediatamente após a fatídica Revolução Francesa pelo filósofo político inglês Edmund Burke em suas Reflexões sobre a Revolução na França (1790), onde ele apontou que 

o estado não deveria ser considerado como nada melhor do que um acordo de parceria em um comércio de pimenta e café, chita ou tabaco, ou alguma questão pequena assim ... 

E uma vez que as pessoas não podem ser confiadas para seguir qualquer "vontade geral" para a realização do bem da nação, Burke propõe uma aristocracia natural como o único governo viável de uma nação. Uma nação forte também é necessariamente uma religiosa, pois, como disse Burke, todos os políticos de fato agem em nome de "um grande mestre, autor e fundador da sociedade", ou seja, Deus. 

Este papel vital da religião na condução dos Estados foi reiterado na França pós-revolucionária também pelo monarquista francês conde Joseph de Maistre que observou em seu "Ensaios sobre os princípios geradores das constituições políticas e outras instituições humanas" (1809)que "a duração dos impérios sempre foi proporcional ao grau de influência que o elemento religioso ganhou na constituição política." De fato, as leis verdadeiramente políticas de uma terra são sinônimas com os sentimentos religiosos do povo e o “instante em que [o homem] se separa de Deus para agir sozinho ... ele não perde o poder ... mas sua atividade é negativa e só leva à destruição". Seguir as doutrinas de pensadores iluministas como Rousseau e Voltaire seria, assim, resultar em um retorno a um estado de anarquia e degeneração: 

Na Alemanha, por volta da mesma época filósofos como Kant e Fichte começavam a apontar para a importância crucial do "Estado" como meio de impor um governo esclarecido. Kant tomou como ponto de partida a excelência da Lei Divina em relação à Lei Natural, de modo que a Razão, ou a Lei Moral, foi elevada muito acima dos trabalhos mecânicos da Natureza. Para estabelecer este domínio da Lei Moral na terra, Kant propôs um estado extremamente poderoso que controlaria todos os ofícios religiosos e comerciais na terra.
  
O líder do Estado nunca pode ser um representante democrático do povo já que a democracia inevitavelmente resulta em um despotismo. Enquanto Kant favoreceu uma república monárquica, Johann Fichte defendia um filósofo-político platônico que é ao mesmo tempo um líder político e religioso de sua nação. Como um "guardião" de Platão, tal estadista 

em sua estimativa da humanidade olha para além do que eles são no mundo real ao que eles são na idéia divina ... "(The Nature of the Scholar, Palestra VIII). 

O monarca vai portar a responsabilidade da realização da liberdade interior dos indivíduos dentro de sua nação. É importante notar, neste contexto, a ênfase de Fichte de que o objetivo de toda a sociedade é "cada vez maior enobrecimento da raça humana, isto é, para torna-la cada vez mais a livre da escravidão da Natureza", assim como o objetivo de toda a cultura é "sujeitar Natureza ... à Razão". Para contrariar a liberdade espúria que especialmente os jovens anseiam, Fichte insiste que um novo sistema de educação deve ser desenvolvido, que "essencialmente destrói a liberdade de vontade ... e produz sobre a estrita necessidade estrita nas decisões da vontade." (Dirige-se à Nação Alemã, endereço II). 

O Estado continua a ser glorificado na filosofia idealista de Hegel, para quem o Estado, e especialmente o Estado prussiano, é a "personificação da liberdade racional percebendo-se e reconhecendo-se de forma objetiva" (Lições sobre a Filosofia da História). E no nacionalismo prussiano de Heinrich von Treitschke, o estado é glorificado de tal forma que ele se torna uma espécie de substituto para Deus. Treitschke tem o cuidado de sublinhar que "a consciência de unidade nacional é dependente de um elo comum da religião, pois o sentimento religioso é uma das forças fundamentais do caráter humano." (Política, I) Infelizmente, a interferência de elementos judaicos na política alemã tinha perturbado a ordem espiritual tradicional da sociedade, incentivando "a coexistência de várias religiões dentro de uma nacionalidade, envolvendo uma diferença irreconciliável e, finalmente, intolerável de perspectivas sobre a vida". 

Diretamente oposta a estas várias doutrinas estatistas dos idealistas e nacionalistas alemães é a doutrina do comunismo, que foi proposta em meados do século XIX pelo economista político judeu Karl Marx. A diferença radical entre a visão marxista do mundo e a Indo-Europeia já é evidente no fato de que o sistema de Marx foi baseado em um materialismo que nega totalmente a existência de qualquer realidade espiritual que seja, e toda a metafísica em geral, em favor de uma dialética sócio-economica que tentava compreender as transformações da sociedade de acordo com seus diferentes modos de produção. Ao contrário de Hegel, que tinha justificado a história como a mudança das manifestações de um espírito-do-mundo quase divino, Marx queria "criar" a história, focando no que ele considerava como suas atividades econômicas essenciais. Como ele disse em A Ideologia Alemã (Ch.1): 

A moral, a religião, a metafísica, todo o resto da ideologia e suas formas correspondentes de consciência ... não tem história, não tem desenvolvimento; mas os homens, desenvolvendo sua produção material e seu intercâmbio material, alteram, juntamente com a sua existência real, o seu pensamento e os produtos do seu pensamento. 

No entanto, o sistema comunista, para todas as suas aspirações evolutivas aparentes, é uma construção anti-científica, utópica visando uma sociedade anti-humana sem classes e sem estado baseada na propriedade comum dos meios de produção. Neste experimento sociológico delirante Marx concentrou especialmente na luta de classes, ou o conflito entre capital e trabalho, como o principal instrumento de mudança histórica. Ao conceder a igualdade econômica, social e política para todos os cidadãos Marx acreditava que a consciência social e disciplina de cada indivíduo seria naturalmente aumentada. E, enquanto ele tolerou um sistema político parlamentar representativo como uma fase de transição, sua utopia comunista objetivava a dissolução final do aparelho de Estado (que é o que induz a hierarquia e a desigualdade) no estado mais avançado do comunismo, quando o povo se tornaria totalmente auto-governado. 
O marxismo é, assim, a mais completa expressão de uma visão de mundo que é diametralmente oposta à ordenação indo-européia tradicional da sociedade de acordo com o caráter espiritual que temos observado na antiga Índia, Grécia e no resto da Europa até o advento do puritanismo quasi-judaico em meados do século XVII. O marxismo é, naturalmente, também oposto à estrutura do Estado que suporta a aristocracia religiosa e guerreira que fundou, constituiu e preservou a nação. Pode-se notar aqui que, embora as democracias liberais modernas finjam que abominam a ideologia comunista, a usurpação da autoridade política no Ocidente pelo legislador e seu primeiro-ministro ou líder presidencial representa um grande passo em direção a mesma dissolução dos conceitos de Estado e soberania que o comunismo também se esforça para alcançar. 

As teorias econômicas e políticas de Marx foram fortemente criticadas na virada do século por muitos pensadores alemães notáveis, como Eugen Duehring e Oswald Spengler, mas gostaria de destacar aqui uma das respostas filosóficas políticas mais metafisicamente estruturadas ao marxismo - ou seja, o sistema do filósofo fascista italiano, Giovanni Gentile. De acordo com Gentile, a base do mal, exatamente como em Platão e Plotino, é a matéria, ou a Natureza, que se opõe ao Espírito e representa, por assim dizer 

nulidade não apenas moral e absoluta [mas] o caos impenetrável da natureza bruta, mecanismo, escuridão espiritual, a falsidade e o mal, todas as coisas que o homem está sempre lutando contra. (Gênese e estrutura da sociedade). 

Gentile lembra que a vida econômica centrada por Marx é marcada por um utilitarismo parecido com a vida instintiva dos animais e é uma vida de escravidão à matéria, ao passo que a política deve ser um meio para a liberdade espiritual. Enquanto o marxismo objetiva o pior tipo de organização social, "a concepção utilitarista, materialista e portanto egoísta, da vida entendida como um reino de direitos a ser vindicado, em vez de como uma arena de deveres a realizar sacrificando-se a um ideal", o ideal do fascismo de Gentile é baseado em uma compreensão metafísica da sociedade como emergindo de um ideal kantiano de uma "sociedade transcendente", que é produzida pela interação do ego e do seu objeto puro, o alter ego. É essa concepção de uma "sociedade transcendente", que faz do homem um 'animal político', como Aristóteles já havia sugerido. A auto-realização gradual de um indivíduo implica, necessariamente, a iluminação de suas contrapartes objetivas, os outros membros da sociedade, de modo que a nação como um todo começa a se aproximar da "sociedade transcendente" ideal. 
De fato, para Gentile, como para Fichte, a atividade intelectual adequada do indivíduo iluminado é a compreensão de toda a humanidade ou da Idéia dela. E o 'Estado' é a personificação objetiva da personalidade dos indivíduos que a constituem ou o "aspecto comum universal" de sua vontade. Liberdade política verdadeira é, portanto, possível apenas quando os indivíduos que constituem o Estado tornam-se livre através da realização do aspecto universal da sua personalidade. 

O Estado em seu aspecto universal é realmente uma imagem da Vontade Divina e as leis do Estado devem sempre estar em consonância com a Lei Divina. Religião, naturalmente, não é uma ajuda externa à vontade do Estado, mas o elemento constitutivo do mesmo. A tarefa principal do Estado é promover o duplo desenvolvimento dos indivíduos e da sociedade. O projeto de Gentile de Educação Pública é, portanto, regido por uma consciência aguda da natureza essencialmente moral de toda a educação. Aqueles preocupados com a cultura como o auto-desenvolvimento dos indivíduos constituindo um estado devem, segundo ele, ser "críticos de todo o conhecimento que o homem não precisa para a realização efetiva de sua natureza humana e para o crescimento e a saúde de seu caráter moral" (Gênese e estrutura da sociedade). Em suma, eles devem ser críticos de todo o conhecimento que não seja genuinamente humano. 

Gentile interessantemente também faz uma distinção entre dois tipos de tratamento de história política. A verdadeira história não é aquela que observa o "fato bruto", mas sim "o ato interior do espírito" sempre considerado do ponto de vista do "estado transcendente", o "mais alto ideal, que opera como um fim na vida real do Estado"(Ibidem). Este estado transcendente é de fato o modelo divino de uma condição terrena e, portanto, uma norma imutável constante à qual as mudanças temporais de um estado se aproximam em diferentes graus ao longo de sua história. 

Nesta visão fascista da história e do significado filosófico do Estado finalmente obtemos um corretivo para os erros historiográficos de hegelianos como Fukuyama que elevam o status quo político a um ideal após superficialmente analisarem as mudanças externas de um Estado, como também para os erros dos marxistas que evocam utopias destas mesmas mudanças. Todos esses pensadores ignoram o aspecto transcendente ou divino da arte de governar, que, como observamos em nossa revisão inicial da antiga filosofia indiana e grega, começa com a constituição da psique ou da própria alma e visa, através de uma realeza sagrada ou uma autocracia iluminada, à melhora psicológica dos indivíduos que compõem o estado. Sociedades materialistas regidas por doutrinas políticas orientadas economicamente, sejam puritanas ou marxistas, são incapazes de qualquer desenvolvimento histórico real, porque o elemento espiritual do homem, que por si só é capaz de movimento e desenvolvimento está a ser mal entendido ou totalmente descartado. 

A tese historiográfica de Fukuyama é, portanto, apenas uma descrição do estado abortivo da própria América, que tem através de sua história gradualmente substituído princípios materialistas e econômicos da arte de governar para os mais espirituais que originalmente governavam todas as monarquias europeias, incluindo a britânica. Ao considerar este problema americano, não podemos nos dar ao luxo de ignorar o papel decisivo que os judeus têm desempenhado na história do Ocidente, pois a re-entrada de judeus na Inglaterra durante a Revolução Puritana está ligada, psicologicamente, à carreira capitalista do novo estado norte-americano, assim como a utopia econômica judaica de Karl Marx se esconde por trás dos sonhos democráticos liberais de americanos contemporâneos. Na verdade, todas as teorias políticas modernas que visam a dissolução do Estado ou da principal instituição religiosa de uma nação - sejam essas teorias chamadas libertárias ou anarquistas - devem ser reconhecidos como derivados da mentalidade econômica judaica defeituosa.

Essa mentalidade pode, e deve, ser totalmente substituída por doutrinas políticas genuinamente indo-europeias que não começam com promessas contratuais para as massas de liberdade e igualdade e abundância, mas sim com as obrigações dos líderes de uma nação e do Estado para melhorar realmente a condição psicológica humana, ou a cultura, destas massas. Tanto o Estado como a sua instituição religiosa principal - no caso do Ocidente, a Igreja - devem ser fortalecidos no seu papel nacional e sua aliança deve ser consolidada. Isto, naturalmente, implica a exclusão de todos os elementos anti-estatistas e anti-clericais do governo nacional e da educação. As orientações filosóficas para a regeneração urgente das nações estão claramente disponíveis na longa tradição da filosofia conservadora europeia que tenho apontado e, particularmente, no exemplo mais recente de Gentile. Claro, estou ciente de que monarquismo, o fascismo e a Igreja são todos igualmente detestáveis para aqueles que hoje seguem judaizando a América em suas várias aventuras utópicas, mas é bom ter em mente que o preço da utopia é o fim da história.