sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

JJ Charlesworth - O Mundo Egocêntrico da Arte está matando a Arte

por JJ Charlesworth



O ano de 2014 oferece muitos candidatos para a questão/tema/fenômeno mais significativo do mundo da arte. Leilões recordistas? Certo. Artistas sendo pegos em controvérsias bastante complicadas sobre liberdade de expressão? Essa é boa. Ativismo político tomando conta da memesfera visual? Não estou reclamando. As tentativas cada vez mais desesperadas de galerias famosas de tentar manter a credibilidade de suas jovens estrelas superestimadas da pintura? Eu gosto de rir.

Mas às vezes, são os desenvolvimentos mais marginais que começam a te incomodar. E uma das tendências menos agradáveis, e para mim, ainda assim, uma das mais importantes de 2014 foi a ascensão da celebração vazia e barulhenta do artista-enquanto-ego. Ou talvez deva ser do ego-enquanto-artista. Eu não tenho certeza. É claro, o mundo da arte sempre esteve repleto de egos bastante imensos, então o que há de novo, certo? Porém 2014 parece ter sido o ano em que a obsessão com a expressão mais narcisista do indivíduo começou a tomar o palco central. Ela aponta para a fusão aparentemente inevitável da arte com uma nova forma de cultura da celebridade, uma em que a auto-expressão individual se tornou uma obsessão acima de todas as outras considerações.

Eu não estou falando aqui da imensidão de shows de ego de artistas em fim de carreira que povoaram o ano. Ainda que estes tenham continuado agressivos: o entronamento de Jeff Koons como "o artista mais importante, influente, popular e controverso da era pós-guerra" (segundo a publicidade histérica do Museu Whitney), a gravitas interminavelmente pomposa da retrospectiva de Anselm Kiefer na Royal Academy de Londres, as imensas ereções em aço do deus minimalista Richard Serra no deserto do Qatar, entre elas. No que concerne a unção de carreiras, os grandes museus ficaram felizes em ceder, desesperados como estão esses dias para atrair grandes multidões.

Porém se estivermos falando sobre o aspecto verdadeiramente contemporâneo da egomania do mundo da arte, o que realmente se destacou esse ano foi a figura do artista como canal para uma experiência supostamente profunda, pessoal, até terapêutica. Isso foi talvez melhor representado pela ascensão impossível de ser detida de Marina Abramovic, agora chamada de a "rainha da arte performática". Com seu show "512 Horas" na Galeria Serpentine de Londres seguido depois no ano por "Generator" na Galeria Sean Kelly de Nova Iorque, Abramovic escalou novas alturas na absurdidade participatória. Não é todo dia que pessoas ficam em filas de virar quarteirão para um show de arte sem reclamar. Mas tal é a reverência dada à versão estetizada de auto-ajuda New Age de Abramovic que não apenas elas fizeram fila, como fizeram fila pelo privilégio de ficarem em pé por horas, sem fazer nada, sob as ordens da guru Abramovic, com a Galeria Serpentine transformada em algum tipo de ashram hipster minimalista.

Talvez eu esteja ofendendo aqueles para quem meditação, conscientização e encontrar a própria quietude interior seja grande coisa. Bem, que pena. Eu nunca convido vocês para minhas festas, de qualquer maneira. A questão é que, abrigada na linguagem da autorrealização meditativa, de "esquecer o passado" e "viver o agora", a recente obra de Abramovic na verdade só cristaliza e reflete a tendência geral da cultura contemporânea: seu ideal narcisista de autorrealização pessoal, de experimentar o agora, de encontrar a si mesmo, e (uma vez tendo encontrando a si mesmo) de ser você mesmo. Em resumo, é a expressão cultural da Geração Y, da Geração Eu, como o acadêmico americano Jean Twenge batizou em seu livro epônimo de 2006.

A cultura da Geração Y é uma que privilegia a auto-expressão acima de qualquer outra coisa. Em 2014, isso parece ter levado muitas celebridades (admitidamente, geralmente celebridades americanas) a se expressarem pelo meio da arte - ou pelo menos pelo meio do mundo da arte. James Franco "retrabalhou" as primeiras obras de Cindy Sherman consigo mesmo no papel principal. Shia LaBoeuf deu seguimento a suas bizarrices performáticas no seu show #IAMSORRY (completo com sua afirmação bizarra de ter sido estuprado por uma visitante).

E quem poderia esquecer a reinvenção artística da ninfetinha pop Miley Cyrus, cuja decisão de fazer esculturas foi despertada pelos presentes que fãs lhe atiram nos concertos. Como Cyrus diz com precisão e sinceridade características, "Eu tinha um monte de lixo e porcarias, e assim ao invés de deixar que fosse lixo e porcaria, e transformei tudo em algo que me deixasse feliz". Cyrus declarou, "Eu sinto como se minha arte tivesse se tornado algum tipo de metáfora - um exemplo da minha vida". Ao que alguém poderia responder, "Certo, mas quem se importa?"O problema é que, ainda que seja fácil descartar as várias demonstrações inanas de autorrealização criativa do artista-celebridade, eles estão apenas cavalgando o movimento cultural do "eu", conforme ele atropela a vida quotidiana em uma onda irreversível de selfies e tweets.

É exagero ligar o transcendentalismo pseudo-espiritualista austero de Abramoci ao carnaval imbecil de arte de celebridade? Na verdade não. Eles podem parecer estar pólos à parte, mas estão baseados na mesma veneração da autorrealização individual pela auto-expressão no qual é o processo, não o produto, que importa. Todo mundo, apenas "sendo si mesmo" e afirmando que isso é arte. Também é por isso que shows de arte estão se tornando experiências. O único show que qualquer pessoa queria ver, quando eu fiz minha viagem anual à Art Basel nesse verão, foi a arte performática de Klaus Biesenbach e Hans Ulrich Obrist, "14 Salas". (Ela inclui, é claro, uma peça de Marina Abramovic). Sentir uma experiência, estar no agora, é a nova estética da Geração Y.

É por isso que, apesar daqueles artistas macho-alfa possam continuar se exibindo (Jeff Koons pelado apenas com luvas de couro na academia! Socorro!), eles estão ultrapassados, presos no passado. Isso é porque eles são de uma geração que ainda pensa que a arte deveria ser sobre algo que não seja eu, aqui, agora. Que a arte deveria ser sobre, digamos, apenas consumismo, ou sobre a história da Alemanha, ou mesmo apenas sobre imensos pedaços de aço enfiados em um deserto. Em outras palavras, sobre coisas sobre as quais você tenha que pensar, talvez discutir, discutir com os outros, discordar sobre - algo, que não seja inteiramente sobre você mesmo. Mas, por agora, entre Miley e Marina, 2014 começou a revelar o futuro da arte: o artista e a audiência, dando as mãos entre espelhos infinitos, uma mão livre para tirar um selfie. 

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