quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Joaquin Flores - A Desintegração dos Estados Unidos e a Quarta Teoria Política: Um Breve Panorama

por Joaquin Flores



O debate emergente sobre o potencial e aplicação para uma Quarta Teoria Política nos EUA é um de preocupação e importância crescentes na crise global atual. Para que seu potencial e aplicação sejam compreendidos, deve-se começar abordando as seguintes áreas que contém questões na forma de problemas e possibilidades.

Nesse escrito exploraremos os seguintes cinco elementos. Primeiro, uma introdução a um modo de analisar problemas e possibilidades. Segundo, olharemos para alguns dos fatores materiais que indicam uma crise de legitimidade no regime estadunidense atual. Terceiro, passaremos a uma descrição dos elementos de um processo orgânico de desenvolver um movimento intelectual da Quarta Teoria Política que venha de dentro dos EUA. Quarto, olharemos para alguns dos elementos básicos que enquadram o discurso atual nos EUA. Finalmente, forneceremos um entendimento das opiniões políticas populares nos EUA como sendo primariamente socialistas e libertárias

Um Enigma Interessante

De imediato encontramos o que parece ser um enigma bastante interessante. Por um lado, os EUA são o núcleo do Império Atlantista, e enquanto tal desfruta de um rígido controle da mídia, da academia e - por meio de seus mecanismos coercitivos - da vida política da entidade como um todo. Por outro lado, um forte componente da mentalidade "americana" é uma rejeição da rigidez e de conceitos congelados, uma flexibilidade e uma disponibilidade para experimentar com coisas novas, e mesmo de assumir novas identidades. Esse tipo de flexibilidade e rejeição de conceitos congelados cria um extraordinário campo de jogos, e vão figurar tanto em promessas como dilemas que confrontarão a desconstrução do Império norte-americano. Compreender isso então é abordar questões relativas ao escopo de tais possibilidades.

Uma maneira de abordar essas questões é fazer várias distinções. A primeira é que os EUA já tem suas próprias tradições políticas que em nenhum momento aceitaram formalmente qualquer coisa posterior ao liberalismo. Dentro desse liberalismo, porém, após um exame mais minucioso, se revelam fortes influências tanto da Segunda Teoria Política como da Terceira Teoria Política, com uma tendência mais próxima ao modelo corporatista da terceira. No final do século XIX, houve algo como uma combinação das duas encontrada nas idéias de Edward Bellamy, os Cavaleiros Americanos do Trabalho, os Fabianos, e o movimento Socialista Corporativo. Muitos destes eram metabolizados e combinados com o corporativismo primitivo pensado na aurora da Terceira Teoria Política, e nos EUA eram pintados com a bandeira estrelada e chamados de "progressivismo". Não obstante, estes não são justificados tipicamente no esquema, formalmente, daqueles outros modelos e teorias. O sistema estadunidense tem sido apresentado plenamente dentro da linguagem do liberalismo, mesmo onde ele possa ter sintetizado e fundido elementos do socialismo e do fascismo.

Breve Explicação da Teoria Eurasiana em 4 Mapas

O Mundo Unipolar Americanocêntrico ao Mundo Multipolar (Tetrapolar)



O Modelo de Mundo Unipolar. O Núcleo e Camadas (2-3). Rússia-Eurásia Concebida como "Buraco Negro"



A Contra-Estratégia. A Atividade Geopolítica Eurasiana de Construção do Mundo Multipolar



A Estrutura do Mundo Multipolar. A Visão Eurasiana do Futuro



Assim, já está visível para nós que há pelo menos dois possíveis métodos de aplicação de uma Quarta Teoria Política para os EUA. O primeiro envolveria um processo um tanto quanto inorgânico de situar a experiência européia e eurasiana no molde dos EUA. O segundo, porém, envolveria tomar o esquema metodológico central de uma Quarta Teoria Política, mas criando-a organicamente de dentro da própria cultura política e histórica político-filosófica dos EUA. Primeiro, isso teria que ocorrer a nível acadêmico, onde essas idéias ganhariam tração, e se tornaram o esquema através do qual especialistas de mídia e ativistas tomariam inspiração. Os EUA precisam de suas próprias figuras para comunicar idéias sobre sua própria transformação radical.

Essa segunda proposta parece a mais prudente, porque isso não está baseado apenas em uma abordagem mais popular frente a cultura política estadunidense, mas também uma que promove o "isolacionismo" e o "não-intervencionismo". Esse não-intervencionismo não só é característico do sentimento popular essencial estadunidense, e mais próximo a suas próprias origens filosóficas formalmente descritas, mas também estabelece o esquema adequado para desconstruir o Império Atlantista em termos práticos também. Simultaneamente, ele significaria um EUA menor com fronteiras diferentes.

Fora dessas duas propostas ou métodos possíveis de aplicação de uma Quarta Teoria Política para os EUA, o que será explorado depois nesse artigo, está o problema presente e existencial dos EUA como entidade viável. A necessidade nos EUA para uma nova teoria política e uma nova concepção de si mesmo será impulsionada não em abstrato, mas por questões bastante reais, muito tangíveis que confrontam o projeto estadunidense.

Resumindo então, há possibilidades a nível teórico para o desenvolvimento de uma Quarta Teoria Política nos EUA, e há uma demanda econômica e etnodemográfica para isso também. Mesmo nos confinando aos problemas econômicos e etnodemográficos nos EUA, podemos ver que os EUA sofrem de uma crise de legitimidade. Compreender isso, e o potencial para maiores investigações nessa área, nos permitirá entender melhor como o Império Estadunidense pode ser desconstruído e com que base uma Quarta Teoria Política pode ser introduzida.

Uma Crise de Legitimidade

Em termos práticos, os EUA sofrem com uma crise interna de legitimidade, e são incapazes de criar uma política econômica coerente ou sustentável. Em nosso trabalho anterior sobre esse tema (citado como "[2]" abaixo), nós demos estatísticas sobre o crescente custo dos alimentos e de habitação, o que são indicadores analíticos objetivos críticos do potencial para insurreição e perturbações políticas e sociais maiores.

Desde aquela época, a Reuters conduziu uma pesquisa científica que descobriu que por volta de 25% ou um em quatro americanos querem que seu estado deixe os EUA. Esse número é ampliado por um número de fatos que pelas projeções só devem piorar nas próximas décadas. Em um certo ponto, especialmente se essa idéia for vigorosamente promovida, é possível ultrapassar os 50%. Seguindo um esquema legal similar que serviu para justificar a secessão do Kosovo e da Criméia, (ainda que o primeiro seja bastante questionável), nós podemos proceder a invocar o mesmo precedente nos EUA. Ademais, contido dentro dos documentos fundamentais dos EUA, incluindo a Constituição Americana e os Papéis Federalistas (bem como os Anti-Federalistas), um esquema legal internamente coerente também pode ser derivado.

A pesquisa científica conduzida em setembro desse ano (2014) utilizou um espaço amostral de mais de 9000, o que é 900% do espaço amostral necessário para uma pesquisa desse tipo, resultando em uma margem de erro de apenas +/- 1.2%, e perguntou o seguinte: [1]

"Você apoia ou se opõe à idéia de seu estado pacificamente se retirar dos Estados Unidos da América e seu governo federal?"

Os resultados foram, para analistas e legisladores americanos, assombrosos. Abaixo estão eles.



Há razões que podem ajudar a explicar esse tipo de resultado, que exploraremos em breve. De modo geral, elas se relacionam à natureza do "povo americano". Oswald Spengler adequadamente descreveu um traço crítico da economia política anglo-saxã, sendo que a Grã-Bretanha é primariamente uma sociedade multi-étnica (anglos, normandos, saxões, pictos, galeses, escotos, jutos, etc.) internamente organizada e auto-definida por classe socioeconômica. Essa observação foi feita em relação a sua crítica da análise marxiana de classe, que ele viu como sendo excessivamente baseada em suas observações da sociedade na Grã-Bretanha e nas ilhas britânicas. Não obstante, na medida em que isso fosse supostamente verdadeiro para a Grã-Bretanha e as ilhas britânicas, é indubitavelmente assim no caso dos EUA que é composto de pessoas extraordinariamente menos relacionadas e menos conectadas por geografia e tempo; tais como latinos, afro-americanos, árabes, anglo-saxões, europeus ocidentais, eslavos, nativo-americanos, leste-asiáticos, e sudeste-asiáticos. Ademais, dentro desses grupos maiores estão contidos grupos nacionais que efetivamente possuem maior animosidade uns em relação aos outros do que em relação aos que estão fora desses grupos mais amplos; por exemplo, salvadorenhos e mexicanos, ou chineses e japoneses.

Os Estados Unidos não possuem, portanto, um "povo" (ethnos ou "narod"), não são uma "nação" ligada por longos e firmes laços históricos, linguísticos, culturais, familiares ou experienciais. Pode estar em um processo de etnogênese, mas o sucesso desse projeto dependerá de fenômenos que ocorrerão ao longo de um período de tempo mais longo do que as estruturas políticas de curto prazo atuais podem acomodar. Essa última questão é uma que deve ser considerada ao se explorar a primeira. A natureza frágil do "Estado" estadunidense, e sua hegemonia dentro de sua esfera continental estão predicadas em um número de aparatos tecnológicos, que promovem um tipo de conformidade cultural ou sociológica, cuja vida se aproxima do fim. Especificamente, a eventual obsolescência da "velha mídia" e sua substituição contínua pela "nova mídia" é uma das forças de impulsão de mudanças, que vê um fim ao sucesso do mito hegemônico de uma monocultura, dentro das fronteiras atuais dos EUA.

Assim, ao olharmos para a etnia e para a natureza de "não-povo" da população estadunidense (ela é uma população, só não é um povo), também devemos olhar para a classe. Os EUA não são uma sociedade "nacional", mas uma sociedade "de classes" que usa quantidades extraordinárias de jingoísmo para se mascarar como uma sociedade "nacional". O tipo de luta travada contra a oligarquia nos EUA tem sido primariamente bem sucedida (em um sentido limitado) quando tem sido uma luta de classes. Isso ocorreu quando proletários, camponeses, pequenos proprietários de terras, e pequenos empresários, encontraram causa comum em uma luta de classes popular - através de linhas "étnicas e nacionais", contra a oligarquia. Assim, o racismo tem sido historicamente utilizado pela oligarquia estadunidense como um meio de frustrar um tipo de luta de classes contra ela.

Para ajudar a ver que a antipatia pelos EUA e pelo governo federal está ligada a uma potencial luta de classes, podemos olhar para o segundo gráfico do estudo da Reuters. Nele vemos uma correlação direta entre classe e apoio pela desintegração dos EUA e oposição ao governo federal.



Também é indiscutível que as tendências econômicas nos EUA estão apontando para uma redistribuição concentradora das riquezas, para longe da classe-média cada vez menor, levando a maiores polarização e instabilidade. Isso é bastante perigoso quando combinado com outros fatores, tais como alta dos preços de alimentos e legitimidade política decrescente. Isso deve ser compreendido em relação a modelos comprovados de avaliação bem sucedida de instabilidade, usando os mesmos métodos de análises que os EUA utilizaram, mais ou menos com sucesso, para desestabilizar países do norte da África e do Oriente Médio durante a tal Primavera Árabe.

Em nosso trabalho chamado "Rumo a uma Nova Revolução Americana", nós explicamos: "Mas a história prova que há um limite para o que as pessoas podem suportar, antes deles se revoltarem. Em termos objetivos, um padrão observado indica que levantes são praticamente inevitáveis quando os preços dos alimentos excedem o index nominal FAO-UN de 210 quando combinado com um governo de legitimidade reduzida aos olhos públicos [2]. Esse número limítrofe foi atravessado pela primeira vez em fevereiro de 2008, o que levou diretamente às "revoltas" da Primavera Árabe em 2010. Esse número elevado foi construído: após o colapso da bolha imobiliária em 2007, os massivos e intermináveis resgates financeiros começando pelo QE-1 foram usados para gerar uma bolha no mercado de ações". [2]

"Além de criar uma importante ficção ideológica de um 'mercado de ações em recuperação', os mercados futuros de commodities perecíveis foram especificamente marcadas para açambarcamento. Isso resultou em um aumento planejado nos preços dos grãos. Governos foram forçados a reequilibrar suas economias internas para subsidiar e corrigir essa mudança súbita. Essa também é uma parte da crise das 'dívidas soberanas' nos países periféricos da União Européia, as nações PIIGS - Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, Espanha - que continuam a experimentar uma condição sustentada de insurreição social que tem sido rotulada de diferentes maneiras por vários participantes e analistas (Indignados, Occupy, etc.) [3]"

De fato, face a um crescente index FAO (index do preço de alimentos), e uma redistribuição oligárquica de riquezas, temos visto um aumento considerável no número daqueles na população estadunidense que recebem assistência governamental direta para comprar alimentos básicos. Podemos ver que esse número está em 50 milhões de pessoas. Isso apesar de várias décadas de legislação de austeridade que torna mais difícil se qualificar para esse tipo de assistência.



O gráfico seguinte mostrará que após o resgate QE1 de 2008, o PIB cresceu, ainda assim a renda familiar desabou significativamente, demonstrando uma redistribuição oligárquica. Não apenas há uma transição radical, como ela é rápida. O número de famílias sem casa e desempregadas nos EUA está no seu ápice, não apenas em números, mas per capita também.



Para melhor ilustrar esse ponto, devemos olhar para um mapa demográfico étnico/racial dos EUA. Enquanto as três ou quatro maiores cidades dos EUA são relativamente "bastiões integrados de multiculturalismo", os números demográficos reais por estados de residência são claramente visíveis através de linhas étnicas e/ou raciais. Tomado em contexto com a pesquisa sobre secessão, podemos começar a ver o esquema de uma representação mais frouxa das várias regiões que abrigam os estados dos atuais EUA. Esse mama mostra onde a maioria dos afro-americanos estão concentrados. A secessão aqui resultaria em uma confederação com uma essência cultural distintamente "afro-americana".

A onda recente de assassinatos policiais aparentemente racialmente motivados de suspeitos afro-americanos, ressaltou ainda mais os antagonismos raciais de longa data nos EUA. O governo federal em Washington continua a impor seu governo extremamente centralizado sob o espetáculo de uma república federal, e uma nova geração de jovens negros está se tornando politizada e tornada mais militante sob essas normas. Em um cenário secessionista, a área mostrada no mapa abaixo estaria em posição de "resetar" as relações raciais, e resolver um grande número de problemas relacionados. Ademais, uma concepção de um "Novo Sul" pode ser criada, uma que também leve em consideração algumas das idéias "confederadas" de uma nova geração de brancos sulistas que não são eles próprios racistas, i.e., se opõem ao supremacismo, mas que também veem simpaticamente a Confederação de Estados Americanos de 1860 antes e durante a Guerra Civil Americana. Economicamente, seria mais viável se ela fosse capaz de se integrar mais de perto com outros atores nacionais do Caribe que também são majoritariamente africanos, e com os quais as elites intelectuais e acadêmicas afro-americanas já fizeram conexões políticas significativas, datando pelo menos de meados do século passado. Como um Estado pós-estadunidense e anti-imperialista, ele também seria capaz de se integrar com Cuba, e formar elos com os afro-brasileiros.



Uma nota deve ser acrescentada aqui, porque no estado da Flórida esperaríamos encontrar um elevado número de pessoas se identificando tanto como negras como hispânicas (de origem caribenha), e portanto não estão incluídas nesse mapa demográfico.

O próximo mapa mostra o mesmo, com as mesmas consequências, para os ditos "hispânicos não-brancos" e "latinos". No discurso político mais recente, essa região é referida como "Aztlan".

Com a exceção de Idaho, Wyoming, Nebraska e Washington, os estados abaixo correspondem aos territórios do México antes da Guerra Mexicano-Americana de 1846. Alguma base legal para uma secessão desse território "Aztlan" pode ser tirada pela maneira pela qual o tratado que formalizou o processo de paz após a guerra - o Tratado de Guadalupe Hidalgo - foi abrogado. Essas tendências demográficas vão continuar. No futuro próximo, o sudoeste será majoritariamente latino/hispânico. Ainda que isso não esteja na agenda, mesmo um fechamento total da fronteira não pode mudar isso eventualmente por causa das taxas de natalidade.



Quando olhamos para esses dois mapas juntos, várias conclusões vem instantaneamente à mente. Se torna claro que o que sobrará dos "EUA" pode estar na área remanescente. O que não foi discutido é a questão da soberania nativo-americana. Reivindicações nativo-americanas em uma base legal provavelmente serão maiores do que a área indicada na Figura 7 abaixo. Porém, é importante compreender que essas reservas já existem como nações soberanas, que possuem acordos com o governo federal americano. As tribos que vivem nessas reservas são entidades políticas soberanas, com sua própria força policial e instituições para gerenciar recursos naturais e outras necessidades sociais. Ainda que eles sejam majoritariamente empobrecidos, isso é um resultado de condições fundamentalmente impostas sobre eles, de uma maneira similar ao modelo atlantista colonial ou neocolonial, e não são indicadores de suas habilidades inatas enquanto povo (ou "primeiros povos").

Quando olhamos para "nativos americanos" ou "primeiros povos", ali, na cultura estadunidense, há um senso geral de simpatia. É uma opinião comum que os nativos americanos não tiveram justiça, e que as coisas que aconteceram a eles, e continuam a acontecer, são erros que precisam ser consertados. Aqui será importante continuar a trabalhar com uma nova geração de líderes tribais que querem ampliar o direito de seus povos à auto-determinação em todas as esferas, soberania e autonomia.



Conclusivamente então, nós podemos ver onde estão as áreas de pesquisa e trabalho promissores. Os EUA se deparam com uma crise de legitimidade, e a maneira pela qual ela é paradigmaticamente incapaz de compreender as raízes desses problemas também cria certas oportunidades. Quando olhamos para o número de pessoas nos EUA que gostariam que seu estado abandonasse os EUA, e olhamos também para a realidade demográfica étnica ou racial, as contradições marcantes que caracterizam esse aspecto dos EUA são facilmente discerníveis.

O Processo Orgânico de uma Quarta Teoria Política nos Estados Unidos na Academia

Quando compreendemos uma "Quarta Teoria Política", nós compreendemos as três anteriores - liberalismo, socialismo e fascismo. Formalmente, os EUA, diferentemente da Europa e da Eurásia, só experimentou a primeira. Socialismo e fascismo são fenômenos (e idéias) formalmente alógenos e europeus ou eurasianos, pelos quais os EUA em termos formais nunca passou. Após um exame mais próximo, porém, podemos descobrir o seguinte: os EUA tem mantido um esquema formal dentro do liberalismo, mas há mais do que isso.

De fato ainda mantém os valores primários do liberalismo como individualismo/atomização, comercialismo/materialismo, e é claro a estranha combinação de universalismo e relativismo moral ou ético (ao mesmo tempo). Ao mesmo tempo, seus defensores e conselheiros oficiais a nível acadêmico, a cada geração, foram influenciados parcialmente pelos desenvolvimentos ocorridos na Europa e Eurásia durante o século XIX e XX. O bonapartismo teve influência sobre o neofederalismo e o impulso neofederalista; saltando um século, a ascensão do socialismo e do fascismo também influenciou (e de fato foi influenciada por) os conceitos por trás da organização social de massas e as formas técnicas de análise sociológica e mecânica (e.g. Weber, Marx, et al), úteis para a manutenção e expansão do projeto atlantista. Isso foi visto em projetos como o Ato de Administração de Obras Públicas de 1933, e o New Deal em geral.

A Terceira Teoria Política de certa maneira emergiu de um estudo da economia estadunidense no início do período taylorista ou fordista. Obras como "O Ideal Corporativo no Estado Liberal: 1900-1918" de Weinstein também fornecem uma referência coerente para compreender a incorporação ou interpretação do socialismo e do fascismo em um discurso lugar-comum sobre organização social e progresso social. Estes ocorreram após a ascensão do socialismo (STP) e antes da ascensão do fascismo (TTP).

Sob essa luz, o "progressivismo" do mesmo período como descrito pela obra de Weinstein, pode ser visto como a metabolização pragmática americana daqueles elementos deficientemente modernistas do socialismo e do fascismo. Simultaneamente, eles também foram uma continuação de figuras do "Sistema Americano" como Henry Clay e Jefferson Davis. "Progressivo" até hoje é o rótulo com o qual tanto liberais radicais (liberais de esquerda) e liberal-comunistas (socialistas, "marxianos", etc) descrevem a si mesmos dentro dos mandatos ofuscantes de polidez dentro do discurso político anglo-americano.

Nos EUA há formas vulgarizadas de uma "Quarta Teoria Política" nascente na academia, baseada no pós-modernismo, teoria crítica e pós-estruturalismo, já adquirindo proeminência por algumas décadas, chegando a dominar os departamentos de filosofia em um bom número das universidades mais prestigiosas. Essas em algumas áreas já ultrapassaram ou consumiram a escola "analítica".

Isso também age como um tipo de resposta semi-afirmativa a Heidegger, através de figuras como Marcuse e Camus (i.e. existencialismo liberal-"comunista"). Outros estudantes são introduzidos a Heidegger através de Arendt. Mas em qualquer medida, ainda que problemático, isso também demonstra a base para uma linguagem e universo de idéia e conceitos comuns que, com esforços e direção corretos, pode ser vista como chão fértil para uma "Quarta Teoria Política" em sentido pleno. As idéias de Heidegger, bem como de Husserl, Hölderlin (et al), são vigorosamente abordadas, mesmo quando em muitos setores elas são porcamente definidas ou compreendidas, e o pensamento de Adorno e Marcuse é valorizado acima do de Heidegger.

O que domina de fato, porém, muito da nascente porém vulgar "Quarta Teoria Política" estadunidense é uma "trasvaloração de todos os valores" nietzscheana liberal (i.e., relativista). Ainda que amarrada em concepções liberais, ainda permanece em sessões desse milieu chão muti fértil. É aqui que entre estudantes de graduação, jovens professores, professores assistentes e palestrantes - em oposição a catedráticos - encontraram Dugin e já começam a vê-lo como uma figura digna de atenção. Porque isso representa a culminação da filosofia continental européia a qual era vista como a maneira mais apropriada de se abordar uma crítica oficialmente sancionada do marxismo no período da Guerra Fria, nós temos agora no período atual uma consequência não-intencional, por meio da qual instituições de renome promoveram o estudo da escola continental às custas da escola analítica.

Simultaneamente, o marxismo ocidental foi também, e em algumas áreas ainda é, ensinado nos níveis mais altos da academia estadunidense. Ao longo das últimas décadas, muitos entre os marxianos e estruturalistas se tornaram pós-marxianos e pós-estruturalistas. Outros se tornaram "nietzscheanos de esquerda" à imagem de Foucault, enquanto ainda outros gravitaram na direção do marxismo soviético, e se tornaram ou permaneceram "marxistas ortodoxos". Essa próxima conexão pode ser um pouco difícil para aqueles ainda não familiarizados com o meio acadêmico e intelectual dos EUA. Houve algo como um florescimento acadêmico marxista e estruturalista que começou vigorosamente na década de 60. Ao mesmo tempo que esses pseudo-leninistas, anarquistas, etc., se dedicavam nominalmente a uma visão materialista da história, epistemologia e ontologia, também houve algo diferente acontecendo por baixo da superfície. Houve também um aumento significativo no interesse entre as mesmas pessoas por budismo, hinduísmo, "filosofia oriental", islamismo e Nova Era. Com base em seu antiliberalismo e anti-imperialismo, elas foram atraídas para idéias que buscavam redefinir as relações do homem com a modernidade e o consumismo, e impulsionaram um novo interesse por misticismo e esoterismo. Assim, de muitas maneiras, esse é e foi similar aos milieus e círculos que existiam na Alemanha de Weimar que deram origem ao nacional-socialismo popular; um interesse simultâneo em questões como os mistérios relativos à origem humana e a seu potencial espiritual com um olhar para o Oriente, junto de uma visão anticapitalista e pró-socialista da economia política.

Ademais, a influência do marxismo e da "teoria dos conflitos" no campo da sociologia não pode ser exagerada.

De muitas maneiras isso foi um produto da curva pró-mercado da iniciativa "Sociedade Aberta", que veio a ser dominada por pensadores e escritores da Escola de Chicago. Karl Popper alertou que seria necessário incluir pensadores políticos e econômicos liberal-socialistas nessa "Sociedade Aberta" como parte de um projeto liberal mais amplo, para incluir a esquerda estadunidense e aqueles associados à Segunda Internacional. Seu alerta não foi ouvido, e isso contribuiu em parte para a polarização esquerda/direita da academia, e ajudou a empurrar aqueles críticos da economia de mercado para a posição em que estão hoje. Isso, de certa maneira, pode ser visto favoravelmente hoje no sentido de que contribuirá para as condições que tornarão um pólo acadêmico da Quarta Teoria Política nos EUA possível.

Ainda que tomando suas idéias primariamente da filosofia continental, e enquanto tal estando profundamente imersos no hegelianismo e no existencialismo, estes são pensadores organicamente "americanos" que já possuem redes de publicações e periódicos acadêmicos, posições nas universidades, com alguma influência.

De forma inteiramente separada, e em uma direção diferente, estão as escolas filosóficas analíticas e liberais. Com algumas exceções, como o comunitarianismo e o marxismo analítico - ambos os quais desafiam o liberalismo de Rawls mesmo sendo modernos - elas são essencialmente liberais. Não obstante, nesse âmbito encontramos o epicureanismo primário que caracteriza muito do pensamento fundacional em uma filosofia verdadeiramente estadunidense. Há menos aqui que seja obviamente trabalhável ou compatível com o desenvolvimento de um pólo de atração da Quarta Teoria Política, mas isso não deve ser deixado de lado. Primariamente porque o núcleo do conservadorismo estadunidense reside aqui, e transcender o paradigma esquerda/direita significa olhar para onde essas idéias se encaixam - do liberalismo - e como essas idéias liberais dos arquitetos da constituição americana podem ser dirigidas contra o projeto atlantista. Afinal, há um certo número de idéias contidas ali que de fato não são compatíveis com o projeto atlantista. O liberalismo "universal" está conceitualmente contido, é claro, no discurso fundacional do projeto estadunidense.

Ao mesmo tempo, conceitos do início do século XIX, em J.S. Mill tal como "Experimentos em Vivência" podem ser vistos como conceitos político-filosóficos que promoviam o federalismo (hoje, o confederalismo) em oposição a um Estado unitário. Estes são anti-universais em sua natureza, ou melhor, o que é universal é "a cada um o seu". Por "experimentos" Mill se refere realmente a duas coisas - heterogeneidade ou diversidade, e independência ou soberania local. Mill via isso como valioso não simplesmente no sentido liberal individual; dando origem ao empreendedorismo, à iniciativa e engenhosidade individuais, mas entre várias cidades, comunidades e estados. Anátema para ele seria o universalismo liberal moderno, que realmente põe um fim à diversidade global. Posteriormente, Mill assumiria perspectivas mais socialistas em economia, vendo as limitações da economia de mercado quando sobrepostas a sociedades de maior escala.

As idéias de Mill, bem como de Bentham e Locke, bem como obviamente as de Jefferson, (et al), não são realmente apenas compatíveis com uma visão multipolar do mundo, mas também julgam e avaliam os EUA pelas próprias idéias e ideais que eles afirmam apreciar. Essas se aprofundam no pensamento liberal e seu derivado, o libertário, e podem formar uma resistência anti-imperial e multipolar ao projeto atlantista.

Essas idéias formam algumas das bases do pensamento liberal de esquerda, liberal de direita e libertário de hoje, que de muitas maneiras estão alienados da esquerda radical estadunidense. Ainda que ambos esquemas representem a modernidade - um beirando o pré-moderno, a outra beirando o pós-moderno - são todos eles próximos em termos de aderentes nos EUA, e possuem influência relevante na cultura política estadunidense fora do que está representado na mídia popular.

Tomado em conjunto, o que temos são as peças necessárias para se forjar um pólo significativo da Quarta Teoria Política dentro da academia estadunidense.

O problema político é que o sistema educacional estadunidense é controlado politicamente pelos poderes dominantes. Assim, pode ser necessário assumir um curso mais radical se for provado impossível penetrar com sucesso nas barreiras burocráticas e políticas. Nós temos, porém, alguns precedentes a partir dos quais trabalhar.

Contemporaneamente, podemos ver que Rússia e Irã foram frustrados em seus esforços de receber uma cobertura midiática justa nas redes de notícias dos EUA. Ao invés de insistirem, eles deram início a iniciativas - Russia Today e Press TV, respectivamente - de criação de canais de notícias em língua inglesa que são veiculados na televisão nos EUA. Similarmente, no passado, na academia, nós vimos como a Escola de Frankfurt foi realocada para fora da Alemanha, e trazida aos EUA para a Universidade de Columbia uma vez que as condições políticas haviam tornado seu trabalho difícil demais.

Similarmente, uma vez (ou, impedindo isso, antes) que uma ponta-de-lança possa ser estabelecida por um grupo central de acadêmicos apoiadores, uma "Escola de Nova Iorque" ou uma "Escola da California" pode ser estabelecida, por exemplo, em Belgrado, Teerã ou Moscou, com professores dissidentes. Eles publicariam e organizariam conferências em inglês e seriam ex-patriotas americanos formando um núcleo de resistência acadêmica. Suas perspectivas, palestras, livros e artigos seriam o foco da informação em língua inglesa distribuída e projetada por todos os meios da nova mídia.

Elementos Básicos que enquadram o Discurso Americano Atual

Na esfera política prática dentro dos EUA, não há um conflito entre liberalismo e outra coisa, mas entre duas ou três visões de liberalismo. Ao mesmo tempo, há núcleos de algo pós-liberal e antimoderno dentro de dois dessas. Atualmente há simplesmente um sistema unipartidário sem oposição, e sem qualquer mecanismo para que uma política de oposição influencie positivamente os resultados políticos. Este é o sistema político que corresponde agora a uma forma liberal de capitalismo que ignora ou finge ignorar as fórmulas sociológicas, e atribuir toda responsabilidade pelos resultados na vida de uma pessoa ao "indivíduo". Politicamente, esse partido único possui duas faces - uma democrata, a outra republicana. Nas fronteiras desses partidos porém, tanto na "esquerda" anticapitalista radical, e na "direita" constitucionalista, libertária e paleoconservadora, há potencial também. A área de concordância mútua entre essas duas margens tem, apesar de estarem aparentemente em contradição, tem crescido rapidamente e aumentado bastante ao longo dos últimos 15 anos. Se fôssemos datar isso, o fenômeno do 11 de Setembro pode ser visto como o ponto de partida desse crescimento da zona de concordância, caso fosse representada em um diagrama de Venn.

É algo a se considerar que "esquerda" e "direita" dentro da Anglosfera tem um significado um tanto quanto diferente do que possuem na Eurasia, ou do que tinham na Anglosfera em meados do século passado. Essas áreas de concordância entre "esquerda" e "direita" se relacionam com o poder das grandes corporações, as guerras sem fim (imperialismo militar e complexo militar-industrial), o declínio das condições de vida (colapso da classe média), e o desaparecimento dos direitos constitucionais nos âmbitos do discurso, da associação política, privacidade, além do crescimento nefasto de uma cultura consumista e centrada em celebridades.

Há outra esfera de problemas na qual ambos os lados concordam, mas usam uma terminologia completamente diferente pra explicar, e para os quais atribuem causas e soluções diferentes. Mas isso não deve ser fonte de frustração, mas sim algo que demandará maior trabalho. Essa está ligada ao papel do mercado e mesmo a qual é o propósito da sociedade. A esquerda radical nos EUA possui uma concepção de qual é o propósito da sociedade, que está mais perto de como os eurasianistas veem a questão, no sentido de que ela contém uma crítica do liberalismo e da modernidade.

Não há qualquer pólo da Terceira Teoria Política nos EUA, não para além de seitas exóticas confinadas a espaços virtuais, e sem qualquer influência no discurso político. Europeus e eurasianistas não raro cometem o erro de pensar que há um, por haver meia dúzia de grupos de tipo racista ou segregacionista, mas esses são puramente uma subcultura de identidade. Sua visão da sociedade e da economia em liberal em todos os sentidos. São só racistas liberais. Seu fascínio pelo Terceiro Reich, em tais casos, se baseia basicamente em documentários televisivos que apresentam perspectivas não só distorcidas em conteúdo, mas fixadas em simbolismo, hardware militar, e estética em geral. Seus números são extremamente pequenos, e a carência de acadêmicos, intelectuais, apoiadores, apoio popular, ou mesmo indivíduos capazes de organização é bastante conhecida e tem sido bem documentada há décadas. Qualquer um familiar, por exemplo, o Partido do Renascimento Nacional, tem bastante clareza sobre as possibilidades desse tipo de iniciativa.

Ademais, não cai bem a um apoiador europeu ou eurasiano da Quarta Teoria Política fazer aliança política com esse milieu irrelevante. Desde uma perspectiva de relações públicas, isso só pode resultar em marginalização extrema e na total inabilidade de algum dia se conquistar tração real ou significativa. Também torna problemática a aliança tácita com o "nacional-comunismo" latino-americano, como o bolivarianismo. As questões raciais nos EUA, ou mesmo a imigração, não são similares o bastante a sua versão européia para demandar uma abordagem similar. Afro-americanos não são imigrantes nos EUA, foram trazidos contra sua vontade, apenas para serem sujeitos a condições já bem documentadas. Os sustentadores históricos do domínio branco nos EUA não são indígenas aos EUA, e não estão "defendendo" a terra de "estrangeiros". Os nativos americanos e mexicanos, porém, são o povo indígena. Esse fato óbvio não escapa ninguém seriamente envolvido em qualquer nível nos EUA com a derrubada do Império Estadunidense. Isso não deve ser mal interpretado, porém. Considerada a mobilidade da classe média em termos de escolher onde viver, e considerando que na cultura estadunidense é a norma se estabelecer em um lugar diferente de onde se nasceu ou se possui família, há poucas razões para se viver em qualquer um lugar específico e não em outro.

O que vemos é que as pessoas escolhem viver em comunidades e partes das cidades nas quais as pessoas possuem uma semelhança fenotípica com elas mesmas. Considerando o fenômeno do "êxodo branco" na década de 60, em que brancos se mudaram das cidades para áreas suburbanas bem como novas cidades, combinado com a auto-segregação, nos são apresentadas razões pelas quais o "Nacionalismo Branco" (entendido separadamente em relação à Terceira Teoria Política) jamais se enraizou nos EUA: as pessoas selecionam automaticamente e inconscientemente seus vizinhos, e as pressões não estão realmente presentes.

Resistência Popular ao Projeto Atlantista - Americanos são Socialistas e Libertários

Os principais pólos de resistência popular nos EUA estão, na "esquerda radical" - não confundir com a intelligentsia liberal de esquerda; ao contrário olhamos para os comunistas linha-dura e em menor medida para socialistas e anarquistas; e na "direita" são os libertários e constitucionalistas, e em menor medida os paleoconservadores e o movimento das milícias (que está ligado aos dois primeiros). Ambas categorias representam dezenas de milhões de indivíduos.

Evidência quantificável para essas afirmações se apoia nisso: em 2011 uma pesquisa científica foi conduzida pela agência Rasmussen [3], que descobriu que 11% de todos os "americanos" acreditava nisso:

"11% dizem que o comunismo é melhor do que o sistema americano atual de política e economia".

Como 80% dos "americanos" são adultos em uma população de 320 milhões, o número de apoiadores do comunismo hoje está em 26.5 milhões. Outra agência de boa reputação, a Gallup, reportou em 2010 que 36% (de uma população adulta), ou 92 milhões, de todos os americanos tinham uma opinião positiva do socialismo, do que podemos inferir que poderiam se identificar como "socialistas" [4].

No lado libertário também somos capazes de identificar. Ron Paul disputou eleições em uma plataforma puramente libertária, mas como republicano, nas primárias de 2012, e ficou em quarto lugar, recebendo ao redor de 2.1 milhões de votos [5]. Esse processo foi visto como tendo sido manipulado contra Paul, e de modo não muito diferente de outras manipulações eleitorais nos EUA, pode ter sido de fato fraudado. O Instituto Cato porém revela mais sobre essa questão com um estudo. Eles descobriram que ao redor de pelo menos 14% dos "americanos" são libertários, chegando a no máximo 44% [6] dependendo dos critérios. Isso nos dá aproximadamente entre 30 milhões e 110 milhões, de um universo de adultos americanos de 256 milhões.

O que isso significa é que o sistema político formalizado, representado nominalmente por democratas na centro-esquerda e republicanos na centro-direita possuem um monopólio em um processo político que de fato não representa a natureza fundamentalmente socialista e libertária da população americana. Comunistas e socialistas ficam majoritariamente compelidos a votar pelos democratas, e libertários e constitucionalistas ficam majoritariamente compelidos a votar pelos republicanos. Separadamente, a cultura angla foca em uma forma passivo-agressiva de polidez, e em espaços públicos é raro que estadunidenses afirmem suas opiniões reais, por medo de julgamento passivo e ostracismo disfarçado. Privadamente eles se afirmarão comunistas/socialistas ou libertários/constitucionalistas, mas em público você ouvirá os termos, respectivamente, "progressista" e "conservador", ainda que eles estejam essencialmente ocultando sua opinião real.

Como podemos interpretar esses dados é uma outra questão que demandará mais investigações. Em todo caso, uma maioria de socialistas e libertários atualmente possuem uma perspectiva modernista e liberal. Não obstante, o que podemos compreender melhor é com o que estamos lidando e a partir do que estamos trabalhando. Uma abordagem da Quarta Teoria Política nos EUA pode começar com um diagrama de Venn das coisas que são comuns à QTP e ao socialismo, e à QTP e ao libertarianismo. Ademais, o ângulo anti-imperialista e a desconstrução do Império Atlantista são valores partilhados entre libertários e socialistas.

De partida, nós já podemos começar a ver o rascunho do tipo de campanha que seria necessária para popularizar idéias da QTP nos EUA. Naturalmente, uma permutação da QTP dentro dos EUA teria que reconsiderar inteiramente o liberalismo, e no final das contas se livrar de muitas de suas características. Ao mesmo tempo, algumas das perspectivas e valores dos "americanos", e mesmo alguns conceitos fundamentais no liberalismo, são resgatáveis. Assim, nós podemos ver em um EUA pós-liberal e pós-atlantista algo mais ou menos análogo nos EUA a como a Rússia metabolizou hoje a experiência soviética.

Os EUA podem ter que se desconstruir, e se algum dia se restabelecer como potência, terá que ser como potência terrestre ou continental. Um novo pacto ou contrato com suas partes antigas precisa ser feito, com base em uma compreensão diferente sobre si mesmo, seu passado, e as várias "nações" vivendo em suas diferentes partes. O processo da etnogênese estadunidense provavelmente será longo, e muito provavelmente seu projeto político vai falhar, levando a uma contração, séculos antes que uma etnogênese possa ocorrer. Considerando-se o futuro incognoscível da tecnologia e de outros desenvolvimentos, é questionável se essa etnogênese de fato ocorrerá. O que parece mais certo na agenda, é um EUA desconstruído que verá uma conversão em zonas distintas algo mais adequado às populações majoritárias de cada parte. A forma que isso assume, naturalmente, ainda é incerto, se de fato isso se chamará nominalmente EUA ou não ainda não é possível saber, e isso também não é inteiramente fundamental.

Divisões de raça e classe nos EUA, combinadas com uma ideologia liberal que não pode mais fornecer sentido, associadas com um modelo econômico naufragante, significa que uma mudança significativa está no horizonte. Essas mudanças criam a possibilidade de uma Quarta Teoria Política de algum tipo tomando o lugar da teoria liberal tardia que está hoje em decadência.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Jean Carvalho - A Luta Popular de Canudos

por Jean Carvalho



Um esquecimento parece recair em nossas cabeças quanto às questões de nossa própria História. Nossas páginas são ou rasgadas, ou embotadas. Canudos é um destes fenômenos brasileiros pouco explorados ou insuficientemente lembrados. Entender o que houve em Canudos, quem foi Antônio Conselheiro e que motivações conduziam aqueles milhares de sertanejos, caboclos e ex-escravos é tarefa essencial para aquele que deseja ter uma compreensão minimamente satisfatória sobre os problemas nacionais e a crise social vigente.

País das oligarquias, das instituições políticas estranhas e de um modo de governo excludente, o Brasil guarda em seus meandros as tristezas de um povo sempre colocado em segundo plano. Embora uma grande carga de desânimo e conformismo acompanhe o psicológico de nosso povo, é incorreto tratar o povo brasileiro como “naturalmente omisso” ou incapaz de agir de modo insurgente. Diversos episódios de nosso passado atestam o contrário. A Revolução Farroupilha e a Revolta da Chibata, por exemplo, acompanham, lado a lado, o exemplo de Canudos.

A vida no sertão é a vida de misérias e privações. Parte por conta da própria geografia, clima e características naturais da região, elemento que foge ao controle humano; mas grande (e talvez maior) responsabilidade pelo quadro social de pobreza na região dá-se por conta do modo de governo e de negligências humanas. O governo ausente, os coronéis e os jagunços são catástrofes muito maiores para o nordestino do que a falta de chuvas ou a mortandade dos animais. Se a vida no sertão é miserável, o ecossistema sertanejo não o é: inúmeras espécies de fauna e flora compõem o cenário e, para o bom conhecedor do ambiente, as necessidades sempre são supridas ou, no mínimo, remediadas.

O Brasil, esta nação criada por lusitanos e guaranis, em seus primórdios foi a terra herdeira da cultura portuguesa, colônia da metrópole de além-mar. Tropeçando pelos caminhos, esta jovem terra decreta sua emancipação, protagonizada por Dom Pedro I, tendo por espectadores os membros de uma população que ainda não entendia os significados dessas mudanças e para os quais a independência não veio. O Império morre antes de atingir a puberdade, e em seu lugar, um monstro de lama e lodo surge no horizonte, a República transportada aos moldes do estrangeiro, completamente estranha à realidade brasileira.

Esta nova forma decadente de governo pouco levou em conta a camada popular que outrora havia utilizado como ferramenta de propaganda, fingindo ter por ela sentimentos superiores àqueles que os monarcas tiveram. Os escravos do Império continuaram sem pão, sem terra e sem trabalho. Mas agora aqueles negros recebiam algo subjetivo, uma palavra bonita sem significado prático para suas vidas: a “liberdade”. O Estado Republicano somente se fez presente na vida da população para coletar, de suas magras riquezas, os impostos.

Como praxe em situações de miséria, um homem surge com ideais mais místicos do que pragmáticos. Antônio Conselheiro, que havia sido um homem de posses e de boa profissão, e que em sua vida particular sofreu as decepções da traição, vagou sem rumo pelo sertão e atraiu, através de sua fala e de seus ideais de salvação, aquela população cuja maior esperança era ver, no céu, nuvens escuras de chuva. Aqueles que já quase haviam perdido os sonhos e viviam suas vidas em um inferno ouviam as palavras de um velho que falava sobre o Paraíso.

Antônio Conselheiro foi, talvez, mais restaurador do que revolucionário. Pregava o retorno do antigo regime monárquico e a retirada dessa coisa disforme chamada República. Para Antônio, a República era o governo do Anti Cristo, a negação da espiritualidade do povo e o sinal do Fim dos Tempos. Era natural, para ele, que os homens que desejassem sua salvação se retirassem deste “sistema”. Os que seguiram o exemplo de Antônio logo formaram, com ele, uma nova cidade, uma “nova Canaã”, um reduto de esperança dos inconformados.

Apesar de apregoar doutrinas contrárias ao novo regime, Canudos (a nova cidade chamada de Belo Monte) não era uma comunidade agressiva nem chegou, em momento, algum a oferecer risco real ao establishment. Dessa forma, quando o governo se lançou - como uma águia sobre o peixe – contra os camponeses de Canudos, o fez de forma covarde e assassina. Boatos sobre intenções de atacar outras cidades foram criados contra aqueles homens e mulheres, mas jamais houve provas concretas sobre estes falatórios.

Quatro expedições foram lançadas contra Conselheiro e seu povo, sendo que três delas foram repelidas pelos camponeses. A primeira expedição, lançada em Outubro de 1896, foi repelida no dia 24 de Novembro no pequeno povoado de Mauá, onde os soldados do Exército foram batidos por milícias populares de Belo Monte, comandadas por Pajeú e João Abade; e, apesar de sofrer as baixas de apenas dez homens (dois destes, oficiais) mortos e dezessete feridos, os soldados perderam o moral e recuaram.

A segunda expedição, lançada em Janeiro de 1897, comandada pelo major Febrônio de Brito, foi batida após passar pela serra do Cambaio, no dia 18 do mesmo mês, tendo sido repelida pelos seguidores de Conselheiro que, apesar da vitória, sofreram pesadas baixas. A terceira expedição, posta em marcha em Março de 1897, liderada por Antônio Moreira César, era composta duma força de 1.300 soldados, sofreu pesadas perdas, e o novo comandante, Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo, não teve melhor sorte do que o seu antecessor. Em Abril de 1897, a quarta e última expedição é orquestrada e este era o fim de Canudos, após uma luta heroica, a rendição de parte da população e o martírio de quatro homens que não cederam ante a tirania de um regime cruel.

Conselheiro teve a cabeça decepada do corpo. Grande parte daqueles que haviam se rendido após a mentirosa promessa de que o governo lhes resolveria os problemas, incluindo muitas crianças e mulheres, foram friamente executados pelos soldados. As casas foram arrasadas e Belo Monte, a heroica cidade de Canudos, foi arrasada. Mais de 25.000 pessoas morreram neste fatídico fim de uma brava resistência popular. Canudos foi um dos lampejos ocasionais que acontecem na mente de homens e mulheres acostumados à vida dura que têm. Foi a resposta a um governo que nasceu das oligarquias e para as oligarquias, jamais para o povo, e assim persiste.

Mais tarde, o Cangaço reviveria parte deste espírito, a revolta do homem e da mulher que, de uma terra seca, retiram aquilo que precisam para viver uma vida de sonhos e esperanças de um futuro melhor, futuro, entretanto, que nunca chega. O regime insuficiente e desinteressado despertou o desejo de autonomia e autodeterminação do povo sertanejo. Aqueles que dizem que o homem pobre se curva perante a dominação de um tirano certamente não entendem as implicações de Canudos ou de tantas outras revoltas. Nosso país, até o momento, não assistiu a uma verdadeira insurreição popular nacional, mas regionalmente os exemplos de sublevação não são raros.

Há os que consideram que Antônio Conselheiro como apenas um lunático que guiou miseráveis. Mas, muito mais surreal do que um místico idoso, é um governo que não enxerga a realidade ou, se a enxerga, não possui o menor interesse em resolver seus problemas estruturais que diariamente saltam aos nossos olhos; e muito mais miseráveis do que aqueles camponeses são os injustos que governam. Possuem a miséria da alma, e jamais entenderam os desígnios de um povo que é capaz de, em meio à fome e ao abandono, reunir forças no espírito e nos braços e mãos ressecados para construírem uma cidade de acolhimento. Acolhimento ao sertanejo, ao ex-escravo, ao pobre, ao indigente e ao mendigo.

O homem do campo parece sempre mais disposto à insurreição. É como se, nas cidades, especialmente nas grandes, a vida mais fácil destruísse com mais rapidez o espírito de luta dos homens e das mulheres. Está no campo a verdadeira luta popular e está no campo a verdadeira resistência. Se o fogo de Canudos, que ainda está vivo, se espalhasse por nossa pátria como uma fagulha que cresce e consome todo um monte de palha, lançaríamos fora os oligarcas que ainda reinam em nosso país, herdeiros do sangue de nosso povo.


Canudos foi um movimento autêntico, foi uma revolta legítima e uma alternativa concreta a um regime disforme e incapaz. Durou pouco em nosso mundo, mas durará eternamente nas páginas da História. Foi a união do espiritual com o material e a visão crítica de uma população iletrada contra uma nova realidade que não lhes libertava das velhas prisões. Se nós desejamos um futuro melhor, não devemos nos esquecer das lições do passado, e Canudos nos deu uma lição: somos capazes de ajudar nossos iguais. 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Lucian Tudor - O Verdadeiro Dugin

por Lucian Tudor



Aleksandr Dugin é atualmente bastante conhecido nos círculos "de direita" de todo tipo ao redor do mundo - estejamos falando de nacionalistas, fascistas, tradicionalistas, conservadores, ou identitários. Após a tradução de seu livro A Quarta Teoria Política em 2012, Dugin recebeu uma quantidade significativa de atenção internacional de todo mundo interessado em teoria conservadora ou de direita. Desde então, um número de outros ensaios de Dugin sobre os tópicos do eurasianismo (também chamado "eurasismo") e também da teoria do mundo multipolar (ambos os quais estão interconectados bem como com o que ele chama de Quarta Teoria Política) foram traduzidos ao inglês, entre outras línguas, nos permitindo uma melhor visão sobre seu pensamento.

Não há necessidade de discutir as teorias do Dugin profundamente aqui, já que seus próprios ensaios já o fazem suficientemente. Porém, apareceu um problema entre direitistas no ocidente em relação ao Dugin: ainda que muitos tenham apreciado suas obras, um grande número simplesmente o descartaram ou atacaram e a suas teorias fundamentalmente com base em incompreensões ou propaganda dos inimigos políticos de Dugin. A situação certamente não é auxiliada pelo fato de que escritores identitários conhecidos como Greg Johnson, Michael O'Meara, Domitius Corbulo, e alguns outros denunciaram Dugin com raciocínios baseados nessas incompreensões. Pessoalmente, eu já considerei essas críticas como sendo essencialmente válidas, mas após uma investigação mais profunda dos escritos e pensamento do Dugin, eu concluí que essas críticas estavam baseadas em premissas e hipóteses equivocadas. Minha intenção aqui é apontar que as razões mais comuns para se denunciar Dugin tem sido baseadas em erros e propaganda ao invés de realidade.

Posição sobre Raça

Primeiramente, uma das questões mais difíceis é a afirmação de que Aleksandr Dugin acredita que a raça não possui realidade substancial, que ela é um "construto social" e deve ser completamente abandonada como um produto danoso da sociedade ocidental moderna. Certamente, ele critica a teoria racialista, mas isso não é o mesmo que rejeitar a raça como um todo (já que se pode afirmar a importância da raça sem recorrer ao "racismo". Ver meu ensaio "Relações Étnicas e Raciais"). Deve ser admitido que Dugin não expressou uma posição absoluta na questão racial, e ocasionalmente ele faz afirmações que implicam uma desconsideração da raça (ainda que seja importante que de modo geral ele deixe a questão em aberto). Por outro lado, ele também já fez várias afirmações implicando apreciação pela identidade racial, tal como quando ele escreveu o seguinte:

"Sendo eu mesmo branco e indo-europeu, eu reconheço as diferenças de outros grupos étnicos como sendo algo natural, e não acredito em qualquer hierarquia entre povos, porque não há e não pode haver qualquer medida universal comum pela qual medir e comparar as várias formas de sociedades étnicas ou seus sistemas de valor. Eu tenho orgulho de ser russo exatamente como americanos, africanos, árabes ou chineses tem orgulho de ser o que são. É nosso direito e nossa dignidade afirmar nossa identidade, não em oposição a outras, mas enquanto tal: sem ressentimento ou sentimentos de auto-piedade". (citado de "Aleksandr Dugin sobre 'Nacionalismo Branco' & Outros Aliados Potenciais na Revolução Global").

Vamos assumir, porém, só para argumentar, que Dugin acredite de fato que a raça é um "construto social", como alguns dizem. Isso seria suficiente para declarar Dugin um intelectual subversivo infiltrado na Direita? Se este fosse o caso, então se seguiria pelo mesmo raciocínio que qualquer intelectual de direita do passado que não acreditasse na importância da raça (ou pelo menos na forma biológica da raça) também deve ser denunciado. Isso incluiria pensadores notáveis como Oswald Spengler, Francis Parker Yockey, Othmar Spann, José Antonio Primo de Rivera, Oswald Mosley, e vários outros intelectuais e líderes fascistas ou nacionalistas que não davam muita importância para a raça física. Ainda assim, paradoxalmente, muitos daqueles que vemos denunciando Dugin hoje não fariam o mesmo com esses pensadores. Isso não é para implicar que intelectuais fascistas ou nacionalistas prévios sejam inteiramente válidos para nós hoje (de fato, a Nova Direita rejeita o fascismo e o nacionalismo ultrapassado), é apenas para apontar a contradição que ainda não foi percebida.

Ademais, é importante lembrar que Dugin claramente acredita na importância da etnia e cultura e defende o separatismo étnico. Similarmente aos pensadores völkisch e conservadores revolucionários alemães, Dugin inequivocamente situa o Volk como um dos valores supremos de sua filosofia: "O sujeito dessa teoria [a Quarta Teoria Política], em sua versão simples, é o conceito 'Narod', aproximadamente, 'Volk' ou 'Povo', mas não no sentido de 'massa'" (citado de "O Quarto Estado: História e Significado da Classe Média"). Assim, é claro que mesmo que ele não valorize a raça, Dugin certamente valoriza a identidade etnocultural. Obviamente, isso não significa que rejeitar a realidade da raça não seja problemático, mas simplesmente não é suficiente para denunciar um filósofo. Porém, aqueles que gostam de dizer que Dugin desconsidera a raça como "construto social" são reminiscentes daqueles que dizem o mesmo sobre Alain de Benoist, enquanto é evidente que De Benoist defende a realidade da raça e defende o separatismo racial - especificamente desde uma perspectiva não-racista - em muitos de seus escritos, um dos mais notáveis sendo "O que é Racismo?"

Império vs. Imperialismo

A segunda noção problemática sobre Dugin é que ele defende algum tipo de imperialismo russo, usualmente sugerido como sendo de tipo stalinista ou soviético. Porém, essa afirmação não tem base na realidade, já que ele denunciou o imperialismo soviético e também distinguiu entre império autêntico e imperialismo (o que também foi feito por Julius Evola e muitos outros autores tradicionalistas e da Nova Direita). Em seu ensaio "Princípios Centrais da Política Eurasiana", Dugin afirmou que há três tipos básicos de política na Rússia moderna: soviética, pró-ocidental (liberal) e eurasiana. Ele critica os tipos soviético e liberal, e defende a política eurasiana: "O eurasianismo, nesse sentido, é um 'pragmatismo patriótico' original, livre de qualquer dogmática - seja ela soviética ou liberal... O padrão soviético opera com realidades políticas, econômicas e sociais obsoletas, ele explora a nostalgia e a inércia, carece de uma análise sóbria da nova situação internacional e do desenvolvimento real das tendências econômicas mundiais". Deve ser claro a partir da análise do Dugin das diferentes formas de abordagens políticas que a sua própria perspectiva não é baseada no modelo soviético, que ele explicitamente rejeita e critica.

Ademais, é quase sempre esquecido que quando Dugin defende um império ou união eurasiana, há uma distinção entre império autêntico - no sentido tradicionalista - e imperialismo, e assim um império não é necessariamente um Estado imperialista (para uma boa visão desse conceito, ver "A Idéia de Império" de Alain de Benoist). Diferentemente de Estados imperialistas, a União Eurasiana visualizada por Dugin garante um nível de auto-governo às regiões dentro de um sistema federalista:

"A unidade estratégica indubitável no federalismo eurasiano é acompanhada pelo pluralismo étnico, pela ênfase no elemento jurídico dos 'direitos dos povos'. O controle estratégico do espaço da União Eurasiana é garantida pela unidade de gerenciamento e pelos distritos estratégicos federais, em cuja composição várias formações podem ingressar - de etnoculturais a territoriais. A diferenciação imediata de territórios em vários níveis acrescentará flexibilidade, adaptabilidade e pluralidade ao sistema de gerenciamento administrativo em combinação com um rígido centralismo na esfera estratégica". (citado de "Princípios Centrais da Política Eurasiana").

É claro, deve ser lembrado também que a visão de Dugin precisa ser diferenciada das políticas do Estado russo atual, que, nesse momento, não representam adequadamente os objetivos eurasianos (apesar da influência do eurasianismo sobre alguns políticos). Ademais, deve ser mencionado que ainda que Dugin atualmente apoie o presidente Putin, é evidente que ele não aceita de forma acrítica todas as políticas do governo de Putin. Portanto, uma análise correta das políticas propostas de Dugin não vai equipará-las com as do governo russo, como alguns de seus críticos erroneamente tem feito.

O "Ocidente" como o Inimigo

Outro erro comum é o de que Dugin é hostil à civilização européia ocidental e até defende sua completa destruição. É importante reconhecer que a concepção de "Ocidente" do Dugin é similar à defendida pela Nova Direita Européia (nas obras de Pierre Krebs, Alain de Benoist, Guillaume Faye, Tomislav Sunic, etc.). O "Ocidente" não é uma referência a toda a civilização européia ocidental, mas sim à formulação específica da civilização européia ocidental fundada no liberalismo, igualitarismo e individualismo: "A crise da identidade [...] riscou todas as identidades prévias - civilizacional, histórica, nacional, política, étnica, religiosa, cultural, em favor de uma identidade planetária universal ocidental - com seu conceito de individualismo, secularismo, democracia representativa, liberalismo político e econômico, cosmopolitanismo e a ideologia dos direitos humanos". (citado da entrevista com Dugin, "Civilização enquanto Conceito Político").

Assim, Dugin, como a Nova Direita, afirma que o "Ocidente" é na verdade alógeno à cultura européia autêntica - que ele é na verdade o inimigo da Europa: "O atlantismo, o liberalismo e o individualismo são todas formas de mal absoluto para a identidade indo-européia, já que eles são incompatíveis com ela" (citado de "Aleksandr Dugin sobre 'Nacionalismo Branco' & Outros Aliados Potenciais na Revolução Global"). Similarmente, em sua citação aprovadora da filosofia cultural de Alain de Benoist, ele escreveu o seguinte:

"Alain de Benoist estava construindo sua filosofia política a partir da rejeição radical dos valores liberais e burgueses, negando o capitalismo, o individualismo, o modernismo, o atlantismo geopolítico e o eurocentrismo ocidental. Ademais, ele opunha 'Europa' e 'Ocidente' como conceitos antagônicos: a 'Europa' para ele é um campo de disposição de um Logos cultural especial, vindo dos gregos e interagindo ativamente com a riqueza das tradições celta, germânica, latina, eslava e outras da Europa, e o 'Ocidente' é o equivalente da civilização racionalista, mecanicista, materialista baseada na predominância da tecnologia acima de tudo. Seguindo Spengler, Alain de Benoist compreendia o 'Ocidente' como o 'declínio do Ocidente' e junto de Nietzsche e Heidegger estava convicto da necessidade de superar a modernidade enquanto niilismo e o 'abandono do mundo pelo Ser (Sein)" (Seinsverlassenheit). O Ocidente nesse entendimento era idêntico a liberalismo, capitalismo e sociedade burguesa - tudo que a 'Nova Direita' reivindicava superar. (citado de "Contra-Hegemonia na Teoria do Mundo Multipolar").

Enquanto Dugin ataca o "Ocidente" enquanto civilização liberal moderna, ele simultaneamente defende a ressurreição da Europa em sua visão do mundo multipolar: "Nós imaginamos essa Grande Europa como uma potência geopolítica soberana, com sua própria identidade cultural forte, com suas próprias opções políticas e sociais..." (citado de "O Projeto da Grande Europa"). Similarmente às afirmações anteriores que citamos, ele afirma aqui que a cultura européia possui múltiplos elementos ideológicos e caminhos possíveis em sua história que são diferentes do modelo liberal: "A democracia liberal e a teoria do livre-mercado respondem por apenas uma pequena parte da herança histórica européia e que tem havido outras opções propostas e questões trabalhadas por grandes pensadores, cientistas, políticos, ideólogos e artistas europeus".

Domitius Corbulo afirmou, com base em afirmações feitas por Dugin na Quarta Teoria Política que o liberalismo e o universalismo são elementos presentes ao longo de toda a civilização ocidental, que Dugin condena a cultura européia ocidental em sua totalidade. Porém, é importante reconhecer que esses argumentos são pegos em sua maioria de autores europeus ocidentais como Spengler, Heidegger e Evola. Esses autores também reconheceram que elementos anti-universalistas, anti-liberais e anti-materialistas também existem na cultura européia ocidental, e assim que sempre houve outros caminhos para o destino dessa cultura. É evidente que Dugin afirmaria o mesmo fato a partir de seus ensaios que citamos aqui (bem como de livros ainda não disponíveis em inglês como "O que é o Eurasianismo?" "Por uma Teoria do Mundo Multipolar", entre outros). É importante lembrar aqui que A Quarta Teoria Política não é uma afirmação completa e perfeita do pensamento de Dugin, e que o que ele diz ali deve ser comparado com o que ele diz em suas outras obras.

É normalmente assumido que, considerando sua hostilidade ao "Ocidente" liberal, Dugin também defende uma destruição completa dos EUA, que é visto como epítome do "Ocidente". Porém, a própria essência de sua teoria do mundo multipolar é a idéia de que cada civilização e nação deve ter o direito de viver e determinar seu próprio destino, forma política e modo de vida. Por essa razão, Dugin defende o combate global ao imperialismo econômico e cultural americano, que desnaturaliza culturas não-ocidentais. Porém, no esquema multipolar, os EUA também tem direito a existir e escolher seu próprio caminho, o que significa permitir que os americanos sigam vivendo no modelo liberal no futuro, caso eles desejem fazê-lo. É claro, o modelo liberal seria naturalmente desencorajado em outros lugares e sua influência sofreria limitações. Essa posição pode ser deduzida dos principais ensaios de Dugin explicando a Teoria do Mundo Multipolar: "O Mundo Multipolar e a Pós-Modernidade" e "Multipolarismo como Projeto Aberto".

A Quarta Teoria Política vs. Tradicionalismo Reacionário

Alguns autores, como Kenneth Anderson ("Especulando sobre futuras alianças políticas e religiosas"), tem interpretado o pensamento de Dugin como uma forma de Tradicionalismo Radical (seguindo Evola e Guénon) que é completamente reacionária em sua natureza, rejeitando tudo no mundo moderno - inclusive todo desenvolvimento tecnológico e científico - como algo negativo que precisa ser eventualmente desfeito. Essa interpretação pode ser facilmente refutada quando se examina as afirmações de Dugin sobre Tradicionalismo e modernidade mais de perto. É verdade que Dugin reconhece pensadores Tradicionalistas como Evola e Guénon entre suas influências, mas também é claro que ele não concorda plenamente com suas perspectivas e defende sua própria versão de conservadorismo, que é muito mais próxima do Conservadorismo Revolucionário alemão (ver A Quarta Teoria Política, pp. 86 ff.).

Diferentemente de alguns Tradicionalistas, Dugin não rejeita o progresso científico e social, e assim também se pode dizer que ele não rejeita o Iluminismo in totum. Quando Dugin critica a filosofia iluminista (a ideologia do progresso, do individualismo, etc.) não é exatamente na maneira dos Tradicionalistas Radicais, mas da Revolução Conservadora e da Nova Direita, como foi feito por Alain de Benoist, Armin Mohler, etc. Nesse sentido, pode ser mencionado que criticar a ideologia do progresso é, certamente, muito diferente de rejeitar o progresso em si. De modo geral, ele não defende a superação do "mundo moderno" no sentido Tradicionalista, mas no sentido da Nova Direita, o que significa eliminar o que é ruim no mundo moderno para criar uma nova ordem cultural que reconcilie o que é positivo na sociedade moderna com a sociedade Tradicional. Assim Dugin afirma que uma das idéias mais essenciais da filosofia eurasiana é a criação de sociedades que restaurem valores espirituais e Tradicionais sem abandonar o progresso científico:

"A filosofia do eurasianismo procede da prioridade de valores da sociedade tradicional, reconhece o imperativo da modernização técnica e social (mas sem romper com raízes culturais) e busca adaptar seu programa ideal à situação da sociedade pós-industrial informacional dita 'pós-moderna'. A oposição forma entre tradição e modernidade é removida no pós-moderno. Porém, o pós-modernismo em seu aspecto atlantista as nivela desde a posição da indiferença e do exaurimento de conteúdos. A pós-modernidade eurasiana, pelo contrário, considera a possibilidade de uma aliança de tradição com modernidade como sendo um impulso criativo, enérgico que induz imaginação e desenvolvimento. (citado de "Missão Eurasiana"). 

Deve ser evidente dessas afirmações que Dugin não é um reacionário, apesar de sua simpatia pelo Tradicionalismo Radical. Nesse sentido, vale a pena mencionar que Dugin também apoiar uma forma de socialismo de "Terceira Posição" bem como uma forma não-liberal de democracia. Em relação ao socialismo, ele escreveu que a "confusão da humanidade em um único proletariado global não é um caminho para um futuro melhor, mas um aspecto absolutamente negativo e incidental do capitalismo global, que não abre quaisquer prospectos novos e só leva à degradação de culturas, sociedades e tradições. Se povos tem de fato uma chance de organizar resistência efetiva ao capitalismo global, é apenas onde idéias socialistas são combinadas com elementos de uma sociedade tradicional..." (de "Multipolarismo como Projeto Aberto"). Enquanto alguns tem acusado Dugin de ser anti-democrático, ele claramente defende a idéia de um "império democrático": "O sistema político da União Eurasiana da maneira mais lógica se baseia na 'democracia de participação' (a 'demotia' dos eurasianos clássicos), a ênfase sendo não no aspecto quantitativo, mas no qualitativo da representação" (citado de "Princípios Centrais da Política Eurasiana"; ver também comentários sobre democracia em "Marcos do Eurasianismo").

Referências a Esquerdistas e Marxistas Culturais

Finalmente, um dos ataques mais recentes a Dugin se baseia em sua referência a filósofos marxistas culturais e "esquerdistas", o que é visto por alguns como indicativo de que o próprio Dugin simpatiza com o marxismo cultural. Porém, Dugin claramente apontou que ainda que ele use idéias de teóricos marxistas e de "esquerda", ele rejeita suas ideologias como um todo: "A segunda e terceira teorias políticas [fascismo e marxismo] devem ser reconsideradas, selecionando nelas o que deve ser descartado e o que possui valor em si mesmo. Enquanto ideologias completas elas são inteiramente inúteis, seja no plano teórico, seja no plano prático". (citado de A Quarta Teoria Política, p.24).

Se é possível notar que Dugin ocasionalmente faça uso de teóricos marxistas, então não deve ser ignorado que ele põe ainda mais importância em pensadores de direita, que claramente formam a influência principal sobre ele; os intelectuais da Revolução Conservadora (Heidegger, Schmitt, Moeller van den Bruck, etc.), a Escola Tradicionalista (Evola, Guénon, Schuon, etc.), a Nova Direita (Benoist, Freund, Steuckers, etc.), e estudiosos religiosos conservadores (Eliade, Durand, etc.). Ademais, Corbulo levanta a objeção ao uso por Dugin da obra de Claude Levi-Strauss, mas pensadores respeitados da Nova Direita como Alain de Benoist e Dominique Venner também faziam uso das idéias de Levi-Strauss em questões de cultura e etnia, entre outros autores que Dugin usa, como Jean Baudrillard.

Em uma entrevista recente, Dugin claramente concordou com a posição da direita européia sobre a imigração (que defende a restrição da imigração não-européia), mencionando a ameaça que o cosmopolitismo liberal leva à cultura européia: "A imigração modifica a estrutura da sociedade européia. A população islâmica possui uma identidade cultural muito forte. A população européia enfraquece sua própria identidade mais e mais de maneira consciente. É o dogma ideológico dos direitos humanos e da sociedade civil individualista. Assim a Europa está em perigo e está prestes a perder sua identidade". (citado de "O Ocidente deve ser rejeitado"). Assim, quando tomamos uma visão menos viciada dos escritos e afirmações de Dugin, fica claro que sua posição geral está muito longe da de marxistas culturais e da Nova Esquerda.

A partir de nossa análise até agora, deve ser óbvio que há muitos equívocos sobre o pensamento de Aleksandr Dugin sendo circulados entre direitistas. Esses equívocos estão sendo usados para desconsiderar o valor de sua obra e enganar membros de grupos de direita fazendo-os acreditar que Dugin é um intelectual subversivo que deve ser rejeitado como inimigo. Muitos outros importantes intelectuais de direita tem sido similarmente desconsiderados entre certos círculos, graças às práticas de um certo tipo de gleichschaltung de grupo, fechando qualquer pensador que não seja visto como imediatamente concordável. É importante superar tais tendências e apoiar uma expansão intelectual da direita, que é a única maneira de superar a hegemonia liberal-igualitária atual. As pessoas precisam dar uma olhada mais cuidadosa e aberta nas obras e idéias de Dugin, bem como outros pensadores controversos. É claro, Dugin não deixa de ter suas falhas e imperfeições (como qualquer outro pensador), mas essas falhas podem ser superadas quando seu pensamento é balanceado com o de outros intelectuais, especialmente os da Revolução Conservadora e da Nova Direita.