sexta-feira, 29 de maio de 2015

Kerry Bolton - Soberania Financeira como Pré-Requisito para Soberania Política e Regeneração Cultural

por Kerry Bolton

Tradução por Victor Cavalcanti



A menos que um Estado-Nação tenha controle sobre seu próprio sistema bancário e financeiro, falar de soberania nacional, tanto por algum movimento ou pelo governo, é vazio. Ainda que o setor bancário seja algo evitado, hoje, por muitos movimentos e pensadores como se fosse algo fora do domínio de preocupação tanto pela Esquerda ou pela Direita. De fato, a Esquerda raramente tocou no assunto, e continua a se recusar a fazê-lo, se contentando com os slogans banais sobre tributação e nacionalização de propriedade. Como o movimento socialista têm mostrado, nacionalização significa pouco e, frequentemente, nada no que diz respeito a garantir soberania financeira e, consequentemente, política. Frequentemente, um chamado “banco estatal”, como o Banco da Reserva da Nova Zelândia ou o Banco da Inglaterra, e muitos outros, dão a aparência de soberania financeira. Na realidade, não significam nada disso. Um banco estatal, como esses que são comuns, há muito tempo, nas sociais-democracias, meramente servem como meios pelos quais o Estado pede emprestado do setor privado e normalmente de setores financeiros internacionais.

Durante a Grande Depressão, bancos centrais eram promovidos como uma panaceia para os altos e baixos e para assegurar estabilidade econômica e financeira. Enquanto Paul Warburg, da dinastia bancária internacional Warburg, tinha previamente redigido a conta para o Banco da Reserva Federal dos EUA – e este era promovido como um “banco estatal” –, no começo da década de 1930, Otto Niemeyer do Banco da Inglaterra, percorria o Império Inglês promovendo a ideia de bancos estatais, como o Banco da Inglaterra. Estes seriam baseados em obrigacionistas privados. Na Nova Zelândia, o Banco da Reserva foi criado em 1933. Esse banco, como todos os bancos centrais do tipo, contudo, meramente serviu como um meio estatal de emprestar de fontes privadas. Historiador de Harvard e Georgetown, o Dr. Caroll Quigley, próximo de círculos governamentais, afirmou que o propósito desses bancos era “formar um sistema financeiro único em uma escala internacional, que manipulasse a quantidade e circulação de dinheiro, de tal forma que eles fossem capazes de influenciar, se não controlar, os governos de um lado e as indústrias de outro."(1)

O parlamentar Louis T. McFadden, que por dez anos serviu como Presidente do Comitê Parlamentar do Banco e da Moeda dos Estados Unidos, e foi também um banqueiro, expôs a natureza do Sistema de Reserva Federal e as operações do sistema internacional de débito e finanças em discursos no Congresso Americano. Em 1932, McFadden afirmou na Câmara, sobre Banco da Reserva Federal:

"Essa instituição maligna tem empobrecido e arruinado o povo dos Estados Unidos, têm levado a si mesma à falência, e praticamente levou à falência o nosso Governo. Ela fez isso através dos defeitos da lei sob a qual opera, através da má administração desta lei pela Reserva e através das práticas corruptas dos abutres endinheirados que a controlam. Algumas pessoas pensam que os Bancos da Reserva Federal são instituições governamentais dos Estados Unidos. Eles são monopólios privados, que predam o povo dos Estados Unidos para seus próprios benefícios e seus clientes estrangeiros; vigaristas e especuladores estrangeiros domésticos; e credores predatórios e ricos".(2)

Experiência da Nova Zelândia

Em 1936, O Governo Trabalhista da Nova Zelândia nacionalizou o Banco da Reserva, comprou os obrigacionistas privados e fez do banco um instrumento da política estatal. Como mencionado, a nacionalização, por si mesma, contudo, significa pouca coisa ou nada, se tal “banco estatal” meramente age como meio para emprestar crédito criado privadamente, e, portanto, meramente escora a dívida acumulada no sistema bancário internacional. O Primeiro Governo Trabalhista da Nova Zelândia foi eleito principalmente por causa da questão bancária. Ao contrário de hoje, as massas do povo entendiam as questões bancárias e financeiras muito mais profundamente do que nossos acadêmicos e economistas atuais. A Grande Depressão deu ímpeto para uma demanda mundial pela reforma bancária, antes da qual homens práticos como C. H. Douglas, na Inglaterra, que formulou a teoria do Crédito Social e ainda antes dele, o inventor Arthur Kitson; Gottfried Feder na Alemanha, que fez uma campanha pela “ruptura da escravidão dos juros”(3) e Silvio Gessell na Áustria, desenvolveram suas ideias sobre reforma bancária, as quais foram largamente aceitas.

O Governo Trabalhista da Nova Zelândia esteve entre os mais bem sucedidos em suas reformas bancárias, principalmente graças ao icônico político Trabalhista John A. Lee, um veterano de guerra de um braço só, que estava determinado a manter as promessas do Partido Trabalhista, apesar das tentativas de comprometê-las feitas por fabianos ortodoxos como o Ministro da Finança, Walter Nash. Desde 1933, após a Conferência do Partido Trabalhista, o partido adotou uma polícia pelo total e completo controle das “máquinas financeiras da nação”. Lee apontou que em outros países (Inglaterra e Austrália) onde o Trabalhismo tinha assumido o poder, eles recusaram-se a tomar tais medidas no que diz respeito às máquinas financeiras, e suas políticas ao lidar com a Depressão não deram em nada (4). Nos nove pontos sobre finança que saíram da Conferência do Partido em 1933, a primeira demandava “imediato controle pelo Estado de todo o sistema bancário. O Estado deve ter exclusiva autoridade na questão de crédito e circulação”. A questão de crédito seria baseada nas necessidades produtivas do país (5).

A função do Banco estabelecida na Seção 1 da Lei do Banco da Reserva era “regular e controlar o crédito e a moeda na Nova Zelândia” para o “bem estar econômico e social da Nova Zelândia”. O Banco assinaria embaixo de qualquer empréstimo que o Governo desejasse fazer, e o Tesouro tinha o poder de emprestar do Banco da Reserva o montante completo da renda estimada para o ano. O Banco também tinha o completo controle sobre a posse do câmbio da libra esterlina, o que Lee explicou como sendo de “vital importância” para controlar o “movimento internacional de capital financeiro gangster que pode ocorrer em tempos de emergência política” e pode “prejudicar o crédito externo de um país”. A subseção 3, cláusula 18 da Lei deu ao Governo autoridade sobre as operações dos bancos comerciais e eles respondiam ao Estado (6).

O sucesso da Nova Zelândia foi mais evidente e durou mais tempo na criação do crédito estatal do Banco da Reserva, emitido com 1% de juro, para o financiamento do programa estatal de habitação. Este programa não apenas proveu casas bem-construídas em seções de um quarto de acre com alugueis baixos, onde era habitual para as famílias plantarem suas próprias hortas e frequentemente criarem aves domésticas, como também a construção e o spin-off do programa proveu trabalho para 75% dos desempregados da Nova Zelândia. Uma injeção massiva de crédito estatal na economia significou que não havia dívida acumulada pelo Estado ou pelo povo, e que foi feito, além disso, sem causar inflação.

O Banco da Reserva também emitiu crédito estatal com baixos juros para a indústria de laticínios, e os lucros feitos pelo Estado nestes avanços foram relocados para um Fundo Consolidado voltado para a agricultura (7).

Em um documento do Governo, “Habitação Estatal na Nova Zelândia”, o projeto era explicado como se segue:

"Crédito do Banco da Reserva: para financiar suas propostas, o Governo adotou o método um pouco incomum de usar crédito do Banco da Reserva, reconhecendo, portanto, que o fator mais importante em custos de habitação é o preço do dinheiro – o juro é a porção mais pesada de um aluguel comum. O recém-criado Departamento (Ministério das Obras) foi, portanto, capaz de obter o uso dos fundos à menor taxa possível de juro, a taxa sendo de 1% para os primeiros 10 milhões de libras avançados, e um por cento e meio em próximos avanços. As somas avançadas pelo Banco da Reserva não foram registradas ou assinadas por outras instituições financeiras. Essa ação moldou a intenção do Governo de demonstrar que é possível para o Estado usar o crédito do país para beneficiar o próprio país. Essa medida pioneira pelo Governo Trabalhista, financiar um largo projeto estatal inteiramente com crédito estatal, foi bem sucedida sem ser acompanhada por inflação ou qualquer outro efeito colateral contrário nos quais os economistas ortodoxos insistiriam que aconteceria". (8)

A Nova Zelândia não foi a primeira nem a última nação a inaugurar um sistema bancário soberano, embora tenha durado pouco. Em Alberta, Canadá, ao mesmo tempo, um partido de Crédito Social foi eleito, e apesar de ter sido barrado em toda ocasião pelas Cortes, emitiu “Certificados de Prosperidade” (9). Antes disso, um esquema parecido foi tentado na pequena cidade de Woergle, na Áustria, e ao fazer isso, essa comunidade se livrou da miséria, mas então foi obrigado pelo Governo a descontinuar seus planos e foi jogada de volta à miséria(10). Durante a década de 1930, comunidades nos EUA arquitetaram seus próprios esquemas. Embora não seja politicamente ou academicamente conveniente dizer isso, mas a Alemanha, Itália e Japão, todos eles, conseguiram superar a Depressão ao trazer o sistema bancário sob o controle do Estado e emitindo crédito estatal para obras públicas. Eles fizeram em larga escala o que a Nova Zelândia fez em uma escala limitada (11).

O milagre que foi a Argentina de Perón foi atingido, em medida significante, pelo entendimento peronista de que a soberania nacional não pode ser atingida sem soberania econômica. Isso é, por sua vez, um pré-requisito primário para o objetivo peronista de justiça social como o fator unificante para qualquer nação genuína. Perón afirmou, “no sistema capitalista, a moeda é um fim e não um meio, e seu valor absoluto a tudo subordina, incluindo o homem”(12). O Dr. Arturo Sampay, projetista da constituição peronista de 1949, um acadêmico legal e internacionalmente aclamado, sucintamente explicou, após a destituição de Perón:

"A maneira moderna com a qual um país desenvolve a economia não é mais através anexação pura e simples de território, como era o método durante os séculos dezoito e dezenove, mas através do manejo do seu próprio crédito e moeda. De fato, o desenvolvimento de um país é através da política de investimento. Quem quer que dê as ordens sobre crédito e sobre expansão ou contração do fornecimento de dinheiro, controla o desenvolvimento do país (13)".

O assessor econômico de Perón, Arturo Jauretche, deu um relato detalhado sobre a importância do crédito estatal, incluindo sua relação com a soberania nacional, dizendo que a nacionalização bancária é “fundamental para implementação de uma política nacional”.

Quem administra o crédito controla mais do que apenas a emissão da moeda. Ao controlar o crédito, o comércio de exportação e importação também é controlado. O controle do crédito pode encorajar certas formas de produção e enfraquecer outras; determinar o que deve ser produzido e o que não deve, o que pode e o que não pode chegar aos mercados, e consequentemente as vendas e o consumo também é controlado (14).

Jauretche explicou com exatidão o caráter orgânico do crédito, como sendo nada mais do que um meio para a troca, um método conveniente de permutação de bens e serviços:

"O segredo da prosperidade ou do declínio, desenvolvimento ou atraso, está nos bancos. As leis e organizações empresariais são apenas a anatomia da sociedade econômica. Mas o dinheiro é a fisiologia do comércio de uma sociedade. O dinheiro é o sangue circulando por dentro, e o preço do dinheiro, sua abundância ou escassez, é determinada pelo sistema bancário (15)".

Contudo, crédito e moeda têm se tornado comodidades em si mesmas, compradas e vendidas com lucro (usura). Sem o entendimento desta premissa, todo o resto é loucura em termos de política, economia e até arte e moralidade. A questão é a subordinação do papel do dinheiro; quase literalmente como destronar o culto a Mammon.

Jauretche também explicou como bancos criam crédito quando afirmou, “Bancos criam dinheiro através de crédito, porque o crédito é convertido de depósitos múltiplas vezes, e a abundância ou escassez de dinheiro sólido em circulação é uma reflexão do número de vezes que um banco multiplica sua capacidade de empréstimo”. Isso é chamado de “banco da reserva fracional” e têm sido o método de criação de crédito por séculos, permitindo bancos privados criarem crédito que só é suportado por uma fração do montante das reservas reais que os bancos têm em mãos. Sempre que um depósito é feito por um cliente do banco, o banco é capaz de criar e emprestar crédito muito mais vezes do que o montante depositado. O banco, então, taxa juros (usura) naquele crédito. Portanto, o devedor deve pagar com riqueza real – criado pelo seu próprio trabalho –, não apenas o valor do empréstimo que foi criado, do nada, por um registro em um livro de contas (ou um computador), mas também o juro adicionado. É assim que o sistema internacional bancário funciona. Quando uma nação se torna tão endividada que não pode mais manter o pagamento de juros em empréstimos, ela deve ou cancelar os demais empréstimos para pagar empréstimos passados, ou deve começar a vender bens estatais e recursos, em um processo que é frequentemente chamado de “privatização”, e adotar “medidas de austeridade”, que causam desarticulação social, estagnação econômica e pode ser um meio pelo qual a finança internacional derruba governos inconvenientes através de “revoluções espontâneas” bem planejadas e financiadas. Nós vimos isso acontecer por muitas décadas por todo o mundo ocidental, e desde a implosão do bloco soviético, nos antigos estados soviéticos. O resultado é a “globalização” e a concentração crescente de riqueza por oligarcas e plutocratas. Esses estados que resistam ao processo são frequentemente bombardeados até a submissão, e seus chefes de estado são demonizados, presos ou linchados em nome da “democracia” e dos “direitos humanos”.

O professor Carroll Quigley explicou também o mecanismo de criação de crédito e seu desenvolvimento histórico:

"Cedo ficou claro que o ouro precisa estar em mãos apenas para uma fração dos certificados para poder ser apresentado como pagamento... Em efeito, a criação de crédito em papel maior do que a reserva disponível significa que os banqueiros estavam criando dinheiro do nada. A mesma coisa poderia ser feita de outra forma. Os banqueiros descobriram que remessas e cheques sacados sobre depósitos por depositantes e transferidos para uma terceira pessoa frequentemente não eram convertidos em dinheiro pelos últimos, mas eram depositados em suas próprias contas. De acordo com isso, foi necessário aos banqueiros ter em mãos em dinheiro real não mais do que uma fração dos depósitos que provavelmente seriam sacados e convertidos em dinheiro, o resto poderia ser usado para empréstimos, e se esses empréstimos eram feitos ao criar uma conta (para depositar) para o mutuário, que, por sua vez, sacaria cheques dela ao invés de retirar dinheiro, esses depósitos ou empréstimos criados também poderiam ser cobertos adequadamente ao manter a reserva a apenas uma fração do seu valor. Esses depósitos criados também eram uma criação de dinheiro a partir do nada...  William Patterson, contudo, ao obter a Carta Régia do Banco da Inglaterra em 1694, disse: 'o banco tem o lucro sobre o juro de todo o dinheiro que ele mesmo cria a partir do nada'". (16)

Perón conta que em 1946 uma delegação do Fundo Monetário Internacional estava pronta para visita-lo quando ele foi eleito. A sua rejeição à filiação da Argentina ao FMI também estava pronta. Ele afirmou, entre os motivos:

"Para nós, o valor da nossa moeda estava fixada no país, e nós estávamos estabelecendo taxas de acordo com nossas necessidades e conveniências. Para o câmbio internacional nós recorremos à troca e, assim, a nossa moeda real foram as nossas mercadorias. A realidade permanente das manobras monetárias internacionais de todos os tipos, nas quais o sistema insidioso foi criado, não nos deram qualquer outra saída caso não quiséssemos ser roubados com impunidade". (17)

Mammon versus Cultura

Ezra Pound, e o poeta neozelandês Rex Fairburn, ambos se tornaram interessados em Crédito Social mais ou menos ao mesmo tempo e pelas mesmas razões. Como Perón, Sampay e Jauretche em sua rebelião contra a plutocracia após a Segunda Guerra Mundial, os dois poetas perceberam que a questão do desenvolvimento maior do homem, que quer dizer, sua cultura, está impactada pelo materialismo, representado pelo papel do dinheiro. Oswald Spengler apontou, no resultado da Primeira Guerra, que a Civilização Ocidental estava em declínio há séculos, e que a guerra trouxe a questão ao ponto da crise. Ele viu a plutocracia reinando por trás da social-democracia. Olhando para os ciclos análogos de civilizações anteriores, Spengler afirmou que o dinheiro reina durante épocas de decadência, antes de uma reação que supere a plutocracia(18).

Esta destruição do dinheiro era chamada de “Socialismo” por Spengler, um conservador, enquanto todo pensamento que colocava o dinheiro no centro era tratado por ele como capitalista, incluindo o comunismo, que não visa transcender o pensamento monetário, mas expropria-lo. Desta maneira, nós devemos entender como os poetas Pound e Fairburn viram uma terceira via que poderia superar o reino do dinheiro e retornar a um estado-cultura. Pound se voltou para o “Fascismo” porque ele pensou que tal militância era precisa para derrubar a plutocracia. Fairburn considerou o Crédito Social como suficiente. Na Inglaterra, o Crédito Social surgiu de uma forma militante com os Camisas Verdes, dos quais as formações paramilitares, comícios, marchas e arremessos de tijolos pintados de verde em janelas de bancos, viram um lugar além do Partido Comunista e dos Camisas Negras de Mosley.

O papel do dinheiro na Decadência Cultural

Contudo, antes de Spengler, existiu a Lei da Civilização e da Decadência, de Brooks Adams, agora pouco conhecida, a qual Ezra Pound recomentou como essencial para entender as causas do declínio e da destruição da cultura. Adams pode ser lido proveitosamente junto com Spengler. Adams esboça a força enervante do dinheiro na estética e moralidade de uma Civilização. Adams defendia que “o comércio é antagonista à imaginação”. Onde um estado é comercialmente baseado, como são a maioria dos estados do mundo atualmente, a estética estagna. Consequentemente, a grande era Gótica que sintetiza o florescer da Civilização Ocidental (que Spengler chamou de época da “Primavera”) não se desenvolveu nas cidades-estados de Veneza, Genoa ou Florença, “nem qualquer escola pura de arquitetura prosperou na atmosfera mercantil”(19). Os efeitos enervantes, causados pela energia gasta em atividades mercantis são explicados em termos que se encaixam bem com as conclusões de Spengler sobre o papel do pensamento-monetário no ciclo-final de uma Civilização. Adams escreve:

"Sempre que uma raça é tão ricamente dotada com o material energético que não gasta toda a sua energia com a luta diária da vida, o excesso pode ser armazenado em forma de riqueza; e esse estoque de energia armazenada talvez seja transferida de comunidade para comunidade, talvez por conquista, ou por superioridade na competição econômica. Por maior que seja o estoque de energia acumulada por conquista, uma raça deve, cedo ou tarde, alcançar o limite de sua energia bélica, quando entra na fase de competição econômica".

Mas, como o organismo econômico difere radicalmente do emocional e bélico, o efeito da competição econômica têm sido, talvez invariavelmente, dissipar a energia acumulada pela guerra.

Quando a energia excedente foi acumulada em tal ponto de superar a energia produtiva, ela se torna a força social controladora. Daí em diante, o capital é autocrata, e a energia se concentra nos organismos melhor equipados para dar expressão ao poder do capital. Neste último estado de consolidação o intelecto econômico, e, talvez, científico, é propagado, enquanto a imaginação se esvai, e os tipos artísticos, emocionais e bélicos de humanidade decaem. Quando a celeridade social foi atingida em tal ponto que o desperdício de material energético é tão grande que os estoques imaginativos e bélicos falham em reproduzir-se, a competição intensa aparece para gerar dois tipos econômicos extremos – o usurário em seu aspecto mais formidável e o camponês, do qual o sistema nervoso é mais bem adaptado para prosperar em nutrição escassa. Por fim, um ponto deve ser atingido quando a pressão não pode ir mais além, e então, talvez, um dos dois resultados se segue: um período estacionário talvez sobrevenha, o que talvez dure até que seja acabado pela guerra, pela exaustão ou pelos dois combinados, o que parece ter sido o caso do Império Romano Oriental; ou, como aconteceu com o Ocidental, a desintegração pode se estabelecer, a população civilizado talvez pereça, e uma reversão pode tomar lugar em uma forma primitiva de organismo.

A evidência, contudo, parece apontar para a conclusão de que, quando uma sociedade muito centralizada se desintegra, sob a pressão da competição econômica, é porque a energia da raça foi esgotada. Consequentemente, os sobreviventes de tal comunidade faltam com o poder necessário para uma concentração renovada, e devem provavelmente permanecer inertes até que sejam supridos com material energético fresco pela infusão de sangue barbárico(20).

Onde um povo falha em ser revigorado com “sangue barbárico”, e continua estagnado, eles são o que Spengler chamou de Fellaheen, não mais dentro do escopo da história, inerte de século a século, a massa campesina e urbana habitando dentro das sombras da ruína do que foram, antes, grandes monumentos. Ezra Pound e Fairburn perceberam que, da perspectiva estética, existe mais a ser contribuído para a questão econômica do que da economia ou política por si mesmas. T. S. Elliot também defendeu a reforma econômica, como também o fez Hilaire Belloc e G. K. Chesterton, enquanto outros esteticistas, como W. B. Yeats e D. H. Lawrence, que se rebeleram contra a ignorância dos tempos, o fizeram sem perceber os fatores econômicos envolvidos. Fairburn e Pound sabiam exatamente quais processos estavam em jogo na corrosão do organismo cultural.

O “Com Usura” (Canto XLV) de Pound, reflete lucidamente a maneira pela qual a primazia do dinheiro, como mostrado por Spengler e Adams, intervém na cultura de uma sociedade, agindo como um contágio do organismo social, no trabalho, ofício, arte, religião e tudo o mais associado com a Alta Cultura: 

Com usura, nenhum quadro é feito para durar e viver conosco,
mas é feito para vender, e vender rápido...
Quem lavra a pedra é afastado da pedra
O tecelão é afastado do tear...
COM USURA
A lã não chega ao mercado
A ovelha não dá lucro com usura...
A usura enferrujou o cinzel
Enferrujou a arte e o artesão...(21)

Pound afirmou sucintamente em uma seção de três sentenças sobre Kulturmorphologie em um panfleto escrito em Roma em 1942: “Para repetir: um especialista, olhando para uma pintura (de Memmi Goya, ou qualquer outro) deveria ser capaz de determinar o nível de tolerância de usura na sociedade na qual ela foi pintada”(22).

Fairburn escreveu um poema sobre temas muito similares aos “Com Usura” de Pound, mas inteiramente independentemente, em seu “Dominion”:

"A casa dos governantes, guardada por eunucos, e sobre o arco do portão essas palavras gravadas: AQUELE QUE CONTESTA OS USURÁRIOS PÕE EM RISCO O ESTADO".

Dentro dos portões, o séquito do mal, os instrumentos dos governantes: crostas retiradas dos corpos dos capitães escravizados bem-pagos e cabos do exército do privilégio partindo o pão da tirania, vestindo a farda da extorsão; e aqueles que mantêm os registros do declínio, estaticistas e arquivistas, virando as páginas com mãos frias, computando a nossa ruína em algemas perfumadas. Para os escravizados, o trabalho árduo; o dever e adoração do deus-esmeril; a apoteose dos meios, a profanação dos fins; a degradação da hoste dos vivos; a celebração de uma missa negra que projeta a sombra de uma missa vermelha.

Essa é a nossa cidade de papel, construída no solo da dívida, mantida contra todos os ventos pelo peso-de-papel da dívida. As multidões passam lentamente, ou param e observam, e aqui e ali, com olhos lentos, o ócio está aglomerado nas bocas das lojas de gramofone em um retumbar de música que enche o ar amarrotado com flores de papel e aromas artificiais e paixões sem dores em um paraíso de amor imaginário(23).

O Desafio dos Tempos: destruir Mammon

Com os EUA, cuja fundação começa com Puritanismo, um edifício foi construído que combinava messianismo com o conceito de lucro como Divino. A cultura da América foi distorcida como consequência, e hoje está no fundo da depravação, como uma epidemia global proclamadas como tal por fanáticos neoconservadores, como o Tenente-Coronel Ralph Peter, e promovida pelo Departamento de Estado dos EUA em aliança com uma miríade de ONGs ao redor do mundo (24). Pretendem que o mundo inteiro seja recriado nesta imagem, no “solo da dívida e aromas artificiais”, como Fairburn coloca.

O Sr. E. Fyodorov, do grupo parlamentar russo “Nossa Soberania”, e o Movimento da Liberação Nacional, aludiram à necessidade de nacionalizar o Banco Central da Rússia, o qual, ele declara, não responde ao presidente ou ao Estado. Ele afirma que “a maioria dos problemas” da Rússia estão relacionados com o Banco Central, baseado em uma constituição que foi esboçada por conselheiro dos EUA, permitindo influência externa política e econômica (25). Fyodorov expressou um discernimento raro ao dizer que “a maioria dos problemas” se centraliza ao redor do sistema bancário. Isso se aplica não somente à Rússia, mas também para a maioria do mundo, desde que o mesmo sistema opera globalmente. O banco central estatal da Nova Zelândia foi pelo mesmo caminho de ser separado do parlamento. Portanto, mais do que “nacionalização” é preciso. O Banco da Reserva da Nova Zelândia permaneceu nacionalizado por oito anos. Foi apenas separado do parlamento sob a Lei do Banco da Reserva em 1989. Até aquele tempo, existia para implementar a política econômica estatal. Contudo, como John A. Lee lamentou desde o começo, este banco nacionalizado nunca libertou a Nova Zelândia da finança internacional, apesar da emissão de crédito estatal para alguns projetos públicos. As intenções foram comprometidas pelo partido que nacionalizou o banco.

Até que chegue o momento em que um estado tenha lideres de vigor que vão quebrar as amarras da finança internacional e seus tentáculos infiltradores, faz pouca ou nenhuma diferença se um banco é nacionalizado ou privatizado. Também até que chegue este momento, qualquer discussão sobre soberania nacional real é nada mais do que retórica. Uma vez que o banco central russo é nacionalizado, a próxima tarefa é assegurar que o Estado russo assuma a prerrogativa e a tarefa de criar e emitir o seu próprio crédito.

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(1) - C. Quigley, Tragedy and Hope, New York, Macmillan Co., 1996, p. 51.
(2) - Louis T. McFadden, United States Congressional Record, United States Government Printing Office, Washington, DC, 10 June 1932, p. 12595
(3) - G. Feder, “Manifesto for the Breaking of the Bondage of Interest”, Munich 1917. Mesmo ano em que Douglas formulou Crédito Social. Feder afirmou que “dinheiro não é e não deve ser nada além de um câmbio em troca de trabalho”.
(4) - John A. Lee, Money Power for the People: A Policy for the Future Suggested, Lee, Auckland, 1937), p.2.
(5) - Ibid., p.3
(6) - Ibid., pp. 6-7.
(7) - Lee, 1937, p.8.
(8) - C. Firth and G. Wilson, “State Housing in New Zealand”, Ministry of Works, Government Printing Office, Wellington, 1949.
(9) - K. R. Bolton, The Banking Swindle, London, 2014, p.10.
(10) - Bolton, ibid., pp. 84-86
(11) - Bolton, ibid., pp. 103-117.
(12) - Juan Peron, “Banking and Credit”, Buenos Aires, ca. 1951.
(13) - Sampay citado por Bolton, Peron and Peronism, London, 2014, p.
(14) - Arturo Jauretche, “On the Nationalisation of Banks”, 9 February 1960.
(15) - Jauretche, ibid.
(16) - Carroll Quigley, Tragedy and Hope, Macmillan Co., New York, 1966, p. 48.
(17) - Juan Peron, “Argentina and the International Monetary Fund”. Cited in Bolton, Peron and Peronism. A maneira pela qual os EUA minou a economia da Argentina e bloqueou as exportações da Argentina para a Europa é explicado neste livro do escritor, Peron and Peronism.
(18) - Oswald Spengler, The Decline of the West, George Allen & Unwin, London, 1971, Vol. II, Chapter XIII, “The Form-World of Economic Life”.
(19) - Brooks Adams, The Law of Civilization and Decay, Macmillan, London, 1896, vi. http://www.archive.org/details/lawcivilization00adamgoog
(20) - Brooks Adams, x.
(21) - E. Pound, Ezra Pound: Selected Poems 1908-1959 (London: Faber & Faber, 1975), “Canto XLV: With Usura”, pp. 147-148.
(22) - Ezra Pound (1942) A Visiting Card, Peter Russell, London, 1952, p.25.
(23) -  A. R. D. Fairburn, (1938) “Dominion” I and IX, http://www.nzepc.auckland.ac.nz/authors/fairburn/dominionfull.asp
(24) - K. R. Bolton, Revolution from Above, Arkots. 2011.
(25) - E. Fyodorov, “The National Liberation Movement in Russia Today”, Journal of Eurasian Affairs, Vol. 2, no. 1, 2014, p.18.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Aleksandr Dugin - Império de Nosso Amanhã

por Aleksandr Dugin



Em nosso Sacro Estado Grão-Continental, haverá três tipos (com variações e subtipos, bien sûr):

* filósofos-padres (clero)
* guerreiros heroicos reais (nobreza)
* trabalhadores-camponeses (povo)

Se você não se identifica em nenhum destes, não será incluído em nosso Estado.

Esta é a estrutura clássica da sociedade indo-europeia, que existiu a princípio e sempre (para sempre!) foi a verdadeira essência das ideias políticas das culturas europeias e indo-europeias da Eurásia. 

Emergiu em tempos antigos, na antiguidade, na civilização do Mediterrâneo na Idade Média e até na patologia dos tempos modernos (de formas distorcidas). Nós lidamos com paródias – precisamos de um Sacro Império.

Em sua cabeça, o sacro basileu, o Grande Monarca.

Veja bem, todos hoje apresentam projetos utópicos e não hesitam em executá-los. Como a parada gay mundial com seres pós-humanos possuídos pela moeda virtual e pela vida física eterna (liberais). Como o califado global (wahhabis). Como o centro do mundo messiânico em Israel alimentando a mão de ferro ger-toshav (sionistas). (NT: “ger-toshav”, do hebraico, “estrangeiro residente”, é o não judeu que habita Israel e segue a lei judaica) Os “realistas” e os partidários do status quo (isto é, nada acontecerá e tudo ficará assim como de costume, sem sentido – tudo sempre foi diferente e depende do que nós como seres humanos livres queremos no íntimo de nossos corações) grunhem em todo o absurdo – nada mais utópico que o desejo de preservar tudo que existe no momento. De qualquer forma, somos guiados por grandes projetos.

Por que deveríamos nós, tradicionalistas e conservadores essenciais, por trás da fachada de nossos planos e projetos de cálculos frios (ninguém acredita em nós de qualquer maneira)? Assim, é possível falar abertamente: nosso objetivo é o Império Indo-Europeu – de Vladivostok a Dublin. Sob a bandeira de Cristo e do Grande Monarca. O Império do Povo, liderado pelos sábios e pelos corajosos. Mercadores e estrategistas políticos, oligarcas e usurários não existirão aqui.

Todo aquele que não gostar pode fundir-se em outras asquerosas, em minha opinião, utopias.

A Grande Ucrânia é uma tolice, irrealizável, rancorosa, invejosa, baseada no ressentimento como ideia nacional. Mas a Grande Rússia não é uma tolice. Ela foi e ela será. Nossas terras encolhem, e – como a primavera – se expandem. Como sempre. Assim bate o coração da Rússia. Em 1991, mais uma vez encolhemos. Com a Ossétia, com a Abecásia, e, principalmente, com a Crimeia e com a contagem regressiva da Novorrússia, é hora do Império. Muitos de nós querem nos deter, mas não conseguirão. Estamos construindo uma nova sociedade em geral, um Estado diferente do que temos agora. Deste estado de transição não será deixada pedra sobre pedra, como não se deixou pedra do Império Russo e, depois, da União Soviética. E não vamos para trás, vamos para frente. A eternidade não está no passado, ela sempre está no presente, e, o mais importante – no futuro. Toda eternidade está adiante. Esta é a verdadeira vanguarda.

O Sacro Império Indo-Europeu do fim, eis nosso verdadeiro futuro. E a confusão de agora se dissipará como fumaça.

A Rússia retorna à história e construirá uma nova Rússia, imperial e absoluta. Novorrússia.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Karl Radek - Leo Schlageter: O Andarilho no Vazio

por Karl Radek

Tradução por Lucas Rodrigues



Esse é um discurso feito por Karl Radek para a plenária do Comitê Executivo da Internacional Comunista em Junho de 1923. O "Discurso sobre Schlageter", como ele ficou conhecido, foi publicado pelo Partido Comunista Alemão e amplamente divulgado.

Após a ocupação francesa do vale do Ruhr, nacionalistas alemães de direita tinham feito alguns avanços entre as classes médias e trabalhadores alemães. Leo Schlageter, que foi fuzilado pelas tropas francesas enquanto realizava sabotagem, ficou conhecido como um herói nacional por seu papel na resistência à ocupação estrangeira. Em seu discurso, que foi direcionado àqueles influenciados pelo nacionalismo alemão, Radek buscou tratar das razões que levaram um homem como Schlageter à direita nacionalista. Segue o discurso.

Eu não posso complementar nem completar o compreensivo e profundamente impressionante relatório de nosso venerável líder, Camarada Zetkin, sobre o Fascismo Internacional, esse martelo que visa atacar a cabeça do proletariado, mas que irá cair sobre a cabeça da pequena burguesia, justo aqueles que o estão manejando nos interesses do grande capital. Eu não pude nem acompanhá-lo direito, porque passava diante dos meus olhos o corpo do fascista alemão, nosso inimigo de classe, que foi sentenciado à morte e fuzilado pelos capangas do imperialismo francês, essa poderosa organização de outra seção de nosso inimigo de classe. Durante todo o discurso do Camarada Zetkin sobre as contradições internas ao Fascismo, o nome de Schlageter e seu destino trágico estava em minha cabeça. A história desse mártir do nacionalismo alemão não deve ser esquecida ou tratada com uma só frase. Ela tem muito a nos dizer, e muito a dizer ao povo alemão.

Nós não somos românticos sentimentalistas que esquecem amigos quando eles morrem, não somos diplomatas que afirmam que se deve dizer apenas coisas ao lado de túmulos, ou permanecer quieto. Schlageter, um corajoso soldado da contra-revolução, merece ser sinceramente honrada por nós, os soldados da revolução. Freska, que compartilhava de seus ideais, publicou em 1920 uma novela na qual ele descreve a vida de um oficial que caiu na luta contra a Liga Espartaquista. Freska nomeou seu romance de "O Andarilho no Vazio".

Se esses fascistas alemães, que honestamente pensam servir o povo alemão, falharem em compreender o significado do destino de Schlageter, então ele morreu em vão, e em sua lápide deverá estar escrito:  "O Andarilho no Vazio".

A Alemanha está destruída. Apenas tolos acreditavam que a Entente capitalista vitoriosa tratariam o povo alemão diferentemente do modo com que os capitalistas alemães trataram o povo russo ou romeno. Apenas tolos ou covardes, que temiam encarar a verdade, poderiam acreditar nas promessas de Wilson, nas declarações de que o Kaiser e não o povo alemão iria pagar o preço da derrota. No Leste, um povo guerreava. Esfomeado e enregelado, ele lutou contra a Entente em catorze frentes. Era a Rússia Soviética. Uma delas era composta por oficiais e soldados alemães. Schlageter lutou nas Freikorps de Medem, que atacaram Riga. Não sabemos se o jovem oficial entendeu o significado de seus atos. Mas o então Comissário Alemão, o Social-Democrata Winnig, e o General Von der Golz, o comandante das tropas bálticas, sabiam o que faziam. Eles buscaram ganhar a simpatia da Entente por fazer o papel de capangas contra o povo russo. Para que a burguesia alemã não pagasse aos vitoriosos as indenizações de guerra, eles contraram o sangue jovem alemão, o que tinha conseguido se safar das balas da Grande Guerra, para lutar contra o povo Russo. Não sabemos o que Schlageter pensava nesse período.  Seu líder, Medem, mais tarde admitiu que ele marchou pelo Báltico em direção ao vazio. Todos os nacionalistas alemães entenderam isso?

No funeral da Schlageter em Munique, o General Ludendorff fez um discurso, o MESMO Ludendorff que ainda hoje está se oferecendo à Inglaterra e à França como o líder de uma cruzada contra a Rússia. Schlageter foi lamentado nas páginas da imprensa de Stinnes. O Senhor Stinnes era o colega em Alpina Montana de Schneider-Creusot, o armeiro, o assassino de Schlageter. Contra quem o povo alemão quer lutar: contra os capitalistas da Entente ou contra o povo russo? Com quem eles querem se aliar: com os trabalhadores e camponeses russos para romper o jugo do capital da Entente que gera a escravidão dos povos alemão e russo?

Schlageter está morto. Ele não pode responder. Seus camaradas em armas juraram em seu túmulo continuar a luta. Eles devem responder: contra quem e de que lado?

Schlageter foi do Báltico ao Ruhr, não em 1923, mas em 1920. Vocês sabem o que isso signifca? Eles tomou parte no ataque do capital alemão sobre os trabalhadores de Ruhr; ele lutou nas colunas de tropas cuja tarefa era submeter os trabalhadores do Ruhr às botas dos barões do ferro e do aço. As tropas de Water, em cujas fileiras ele lutou, atiraram as mesmas balas de chumbo com as quais o general Degoutte reprimiu os trabalhadores do Ruhr. Nós não temos razão para acreditar que foi fruto de motivos egoístas a ajuda que Schlageter deu à repressão aos mineiros esfomeados.

A maneira com que ele arriscou sua vida fala em sua defesa, e prova que ele estava convencido de estar servindo o povo alemão. Mas Schlageter pensou que ele estava melhor servindo o povo ajudando a restaurar o domínio da classe que tinha até então liderado o povo alemão, e que tinha trazido tanta desgraça a ele. Schlageter via a classe trabalhadora como uma turba que precisa ser governada. E nisso ele compartilhava a visão do Conde Reventlow, que calmamente declarou que nenhuma guerra contra a Entente era possível até que o inimigo interno tivesse sido derrotado. O inimigo interno para Schlageter era a classe trabalhadora revolucionária.

Schlageter pode ver com seus próprios olhos os resultados dessa política quando ele voltou ao Ruhr em 1923 durante a ocupação. Ele podia ver que mesmo se os trabalhadores estivessem unidos contra o imperialismo francês, nenhum povo podia lutar sozinho. Ele podia ver a profunda desconfiança dos trabalhadores para com o governo e a burguesia alemã. Ele podia ver quão grandemente essa clivagem na nação quebrava seu poder de defesa. Ele podia ver mais. Aqueles que compartilham seus pontos de vista reclamavam da passividade do povo alemão. Como pode uma classe trabalhadora derrotada ser ativa? Como pode uma classe trabalhadora ser ativa se ela foi desarmada, e de quem foi exigido que se permitisse ser explorada por especuladores e burgueses? Ou podia a atividade das massas trabalhadoras alemãs ser substituída pela atividade da burguesia alemã?

Schlageter lia nos jornais como as mesmas pessoas que fingiam ser os patronos do movimento nacionalista alemão enviavam fundos para fora para que eles enriquecessem e a pátria se empobrecesse. Ele certamente não tinha esperança nesses parasitas. Ele foi poupado de ler na imprensa como o representante da burguesia alemã, Doutor Lutterbuck, pediu aos seus próprios executores que fosse permitido aos barões do ferro e do aço fuzilar os filhos da Alemanha, os mesmos homens que estavam liderando a resistência no Ruhr, com suas próprias metralhadoras.

Agora que a resistência alemã, através da abjeta manobra de Lutterbuck, e ainda mais através da política econômica das classes abastadas, se tornou uma farsa, nós perguntamos às massas honestas e patrióticas que estão ansiosas para lutar contra a invasão imperialista francesa: como vocês irão lutar, em quem irão se apoiar? A luta contra o imperialismo da Entente é uma guerra, ainda que armas estejam quietos. Não pode haver guerra no front quando há distúrbios na retaguarda. Uma minoria pode ser mantida sob controle na retaguarda, mas não uma maioria. A maioria do povo alemão são trabalhadores, que precisam lutar contra a pobreza e a necessidade que a burguesia alemã está impondo-lhes. Se os círculos patrióticos da Alemanha não se decidirem em fazer sua a causa da maioria da nação, e então criar um fronte contra o capital da Entente e o capital alemão, então o caminho de Schlageter foi o caminho do vazio, e a Alemanha, em face da invasão estrangeira e da perpétua ameaça dos vitoriosos, será transformada no campo de batalha de um sangrento conflito interno, e será fácil para o inimigo derrotá-la e destruí-la.

Quando, após Jena, Gneisenau e Scharnhorst se perguntaram-se como o povo alemão deveria ser levantado de sua derrota, eles concluíram: apenas se tornarmos os camponeses livres de sua prévia submissão e escravidão. Apenas o campesinato livre da Alemanha pode lançar as fundações para a emancipação alemã. O que o  campesinato alemão significou para o destino da nação alemã no começo do século XIX, a classe trabalhadora alemã significa no começo do século XX. Apenas COM ela a Alemanha pode ser liberada dos grilhões da escravidão - não contra ela.

Os camaradas de Schlageter falaram de guerra ao lado de seu túmulo. Eles juraram continuar a luta.  Ela devia ser conduzida contra um inimigo que estava armado até os dentes, ao passo que a Alemanha estava desarmada e alquebrada. Se o falatório de guerra não permanecer uma frase vazia, se ele não consistir em explodir colunas para destruir pontes, mas não o inimigo; isso é, se ele não quiser dizer descarrilhar trens, mas conter as linhas armadas do capital da Entente, então uma série de condições precisam ser cumpridas.

O povo alemão precisa romper com aqueles que não apenas os levaram à derrota, mas que estão perpetuando sua derrota e incapacidade de defesa do povo alemão ao considerar a maioria da população alemã seu inimigo. Isso exige a ruptura com as pessoas e partidos cujas faces agem sobre os outros como uma cabeça de Medusa, mobilizando-os contra o povo alemão. Apenas quando a causa alemã se tornar a causa do povo alemão, apenas quando a causa alemã se tornar a luta pelos direitos do povo alemão, irá o povo alemão ganhar aliados ativos. A nação poderosa não dura sem amigos, e muito mais uma nação que está derrotada e cercada por inimigos.

Se a Alemanha quer estar em posição para lutar, ela precisa criar um fronte unido de trabalhadores, e os trabalhadores mentais precisam se unir com os trabalhadores manuais e formar uma sólida falange. A condição dos trabalhadores mentais clama por essa união. Apenas antigos preconceitos a impedem. Unida em um povo trabalhador e vitorioso, a Alemanha será capaz de se utilizar de amplos recursos de resistência que serão capazes de remover todos os obstáculos. Se a causa do povo torna-se a causa da Nação, então a causa da Nação se tornará a causa do povo. Unida como uma nação de trabalhadores combatentes, ela receberá a ajuda de outros povos que também estão lutando por sua existência. Quem quer que não esteja preparado para lutar dessa forma é capaz de feitos de desesperado, mas não de uma luta séria.

É isso o que o Partido Comunista Alemão tem a dizer diante do túmulo de Schlageter. Ele nada tem a esconder, pois apenas a verdade completa pode penetrar na sofrida e internamente desintegradas massas da Alemanha. O Partido Comunista Alemão deve declarar abertamente às massas nacionalistas da pequena burguesia: quem quer que trabalhe em serviço de especuladores, aproveitadores e magnatas do carvão e do ferro  para escravizar o povo alemão e levá-los em aventuras desesperadas encontrará a resistência dos trabalhadores comunistas alemães, que irão opôr violência com violência. Quem quer que, por falta de compreensão, se alinhar com os capangas do capital,  será combatido por nós com todos os meios ao nosso alcance.

Mas nós acreditamos que a grande maioria das massas nacionalistas não pertencem ao campo dos capitalistas, mas ao campo dos trabalhadores. Nós queremos achar, e acharemos, a via a essas massas. Nós faremos tudo ao nosso alcance para fazer com que fascistas como Schlageter, que estão preparados a ir até a morte por uma causa comum, não andarilhos no vazio, mas andarilhos em direção a um futuro melhor para toda a humanidade; que eles não derramem seu sangue quente e sem qualquer traço de egoísmo em benefício do lucro de barões do carvão e do ferro, mas na causa do muito sôfrego povo alemão, que é membro de uma família de povos lutando pela sua emancipação.

Essa verdade o Partido Comunista irá declarar às grande massas do povo alemão, pois ele não é um partido lutando por uma migalha de pão para os operários industriais, mas um partido do proletariado combatente lutando por sua emancipação, uma emancipação que é idêntica com a emancipação de todo o povo, de todos que sofrem e labutam na Alemanha. Schlageter não pode ouvir essa declaração, mas estamos convencidos que existem centenas de Schlageters que a ouvirão e compreenderão.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Alfredo R.R. de Souza - O Périplo de um Profeta

por Alfredo R.R. de Souza



Dirigido por Paloma Rocha e Joel Pizzini, Anabazys (2007) não é apenas um filme; é, como seu próprio subtítulo aponta, o “Terceiro Testamento de Glauber Rocha”, o eloqüente testemunho do assombroso périplo de um Profeta em seus últimos passos sobre a Terra.

Anabazys a princípio se propõe como documentário sobre as circunstâncias que cercaram a produção, os bastidores e a recepção de A Idade da Terra (1980); não obstante, trata-se d’algo muito mais ambicioso e essencial, vale dizer, de um verdadeiro ‘Segundo Advento’ da última e mais abrangente profecia glauberiana.

Não poderia continuar a discorrer sobre o filme de forma objetiva, não sem antes pelo menos fazer um registo pessoal: Anabazys emocionou-me muitíssimo, não apenas por celebrar a magnitude d’um gênio de ciclópicas proporções, que perdemos tragicamente cedo, e que se calhar jamais será igualado, mas, sobretudo, (e por isto mesmo saliento a índole subjetiva desta observação) por fortalecer-me ainda mais a convicção de que o opus glauberiano (mormente a partir do manifesto Eztetyka do Sonho - 1971¬, mas já com certas alusões presentes em Terra em Transe - 1967) é a verdadeira transfiguração estético-alegórica do projeto de refundação mística e mítica do agir político que há tempos venho acalentando, vale dizer, a superação da falsa dicotomia entre 'esquerda' e 'direita' (que gerou as grandes tragédias políticas, militares e culturais da modernidade) através da intuição profunda de que a política não é apenas conflito ideológico ou administração pública, mas essencialmente MITO e MÍSTICA, mergulho abissal na imponderabilidade das paixões revolucionárias.

Transcender o falso 'dilema' acima mencionado é, sem dúvida, a grande tarefa a que se propõe a chamada Terza Posizione, termo cunhado em 1978, com a criação do movimento político homônimo em Itália, sob a liderança de Peppe Di Mitri, e tendo como principais ideólogos Roberto Fiore e Gabriele Adinolfi.

Com efeito, torna-se cada vez mais evidente a existência d'uma oposição irreal, posto que ditada por meras circunstâncias transitórias de índole 'política', 'econômica' e 'cultural', entre dois campos semânticos e simbólicos unidos por um profundo elo metafísico: a revolta sagrada do Espírito contra a ditadura ‘funcionalista’ da Razão ‘instrumental’; do impulso romântico-messiânico contra os falsos ídolos do pragmatismo burguês; da esfera necessária, permanente, imutável e infinita da ETERNIDADE contra a dimensão contingente, transitória, cambiável e finita do TEMPO (ou então, nos termos d'uma belíssima declaração do líder taliban mullah Omar: "não tememos a morte, pois já estamos mortos; assim sendo, vivemos no Tempo, mas combatemos na Eternidade."); enfim, do rutilante fulgor da TRADIÇÃO contra a pseudoconsciência errática e fragmentária da MODERNIDADE.

E malgrado Di Mitri, Fiore e Adinolfi tenham cunhado o termo e, de certa forma, delineado os aspectos gerais do pensamento Terza Posizione, penso que o filósofo russo Aleksandr Dugin (tido, aliás, como um dos principais conselheiros políticos de Vladimir Putin, ex-presidente e atual primeiro-ministro da Rússia)  é hoje o pensador mais ousado no âmbito de tal perspectiva ideológica, tanto assim que logra inclusive transcende-la com a proposta de uma Quarta Teoria Política. 

A grande 'estratégia' duginiana, por assim dizer, é justamente trabalhar, no âmbito da noção de 'geografia sagrada', categorias de análise tradicionalmente empregues na reflexão geopolítica. E em que consiste tal noção?  Enquanto a geopolítica opera na esfera do cálculo econômico, das relações comerciais, do paralelogramo das forças políticas em ação, a 'geografia sagrada' mergulha no universo dos Arquétipos Tradicionais e Mitos Fundadores, isto é, no escopo do substrato simbólico presente na origem de cada complexo civilizacional. E tal processo envolve, na esfera mais especificamente político-ideológica, a busca pela seiva vital das tradições culturais e civilizações de índole telurocrática e / ou eurasiana, isto é, dos complexos civilizacionais cujos alicerces mais profundos vão de encontro ao 'atlantismo talassocrático’, à 'Sociedade Aberta', ao iluminismo e ao liberalismo.

Muito embora jamais tenha sido associado, mesmo que remotamente, a qualquer corrente de pensamento Terza Posizione, não hesito em afirmar que Glauber Rocha enveredou, tanto no que se refere ao arcabouço estético de seus filmes quanto no que tange à suas idéias políticas, por sendas que inequivocamente tangenciam a GRANDE SÍNTESE. Foi, sobretudo, um homem de horizontes largos, delirantemente ambiciosos, artista e pensador de fôlego profético, cujas realizações sempre transcenderam a injunções limitadas de um dado contexto histórico para arrojar-se na transcendência fulgurante das visões ESSENCIAIS. Não seria, pois, inusitado afirmar que Glauber opera, ao longo de sua trajetória, uma espécie de 'transubstanciação alquímica' da 'Geografia Sagrada' em arte cinematográfica. É mister salientar a circunstância de Glauber ter vivido num contexto em que não havia nem clareza nem distanciamento ideológico suficientes para que ele pudesse não só tomar contato com idéias políticas heterodoxas de 'direita'  (tais como o ideário terza posizione, por exemplo), e também, num segundo momento, perceber a convergência entre suas idéias e tais perspectivas. Assim sendo, se era possível a Glauber defender o Estado Novo varguista, os cacoetes ideológicos de esquerda que fatalmente condicionaram sua formação jamais lhe permitiriam estabelecer afinidades com a Itália fascista, a Guarda de Ferro, a Falange, etc.  Por essa razão, e tendo em vista a importância crucial de Glauber para o pensamento revolucionário no Brasil, é que seria de vital importância levar a cabo um trabalho de minuciosa reconstituição do pensamento político glauberiano, estabelecendo e esclarecendo as conexões que me parecem evidentes entre as idéias do cineasta e as correntes ideológicas que hoje confluem no esforço de gestação da Quarta Teoria Política.

Pois bem: com efeito, a obra de Glauber flui numa linha ascendente, tanto no plano estético e artístico quanto no sentido da evolução progressiva de um projeto a um só tempo ideológico, espiritual e existencial. A cada filme e texto são agregados novos elementos, novas perspectivas a este work in progress, que vai expandindo suas coordenadas, revestindo-se de aspectos cada vez mais multifacetados e complexos, até o seu surpreendente coroamento final com A IDADE DA TERRA (1980).  E se a princípio é patente o influxo dos modelos europeus de cinematografia e dramaturgia,  Glauber se afasta paulatinamente de tais influências em direção a uma estética totalmente original, fusão de alegoria barroca, pajelança antropofágica e cristianismo libertário, num processo que acompanha o seu desligamento progressivo das categorias racionalistas da ortodoxia marxista em direção a um conceito de revolução messiânica, cujo veículo de transformação é precisamente o êxtase místico convertido em agir político.

É, pois, fascinante observar como esse work in progress glauberiano vai se processando ao longo de sua trajetória. Em BARRAVENTO (1962) e DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (1964), seus primeiros longas-metragens, podemos observar um cinema ainda determinado por parâmetros narrativos e estéticos tradicionais, caudatário, sobretudo, do 'cinema dialético' do soviético de Sergei Eisenstein (1898-1948) e do neo-realismo italiano, não podendo também deixar de ser mencionada, especialmente no que concerne ao trabalho de direção dos atores, uma substancial influência da dramaturgia de Bertolt Brecht. No decorrer de sua carreira, todavia, Glauber se afastaria cada vez mais dos modelos europeus, em direção a uma estética totalmente original, fusão de alegoria barroca, pajelança antropofágica e cristianismo libertário, num processo que acompanha o seu desligamento progressivo das categorias racionalistas da ortodoxia marxista em direção a um conceito de revolução messiânica, cujo 'veículo' de transformação é precisamente o êxtase místico. TERRA EM TRANSE (1967), por exemplo, pode ser visto como o marco inicial desse verdadeiro processo de transfiguração estético-alegórica do projeto de refundação mística e mítica da ação política. Em O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO (1969), por seu turno,  o intelectual, após enfim ter mergulhado no transe religioso do povo, compreende que política é Mito e Mística;  e Antônio das Mortes, o anjo exterminador, decide por termo à sua saga luciferina e, aliado ao professor e ao pároco local, se engaja na revolução messiânica. É a GRANDE SÍNTESE.

A partir da trinca de longas que dirigiu no exterior (CABEZAS CORTADAS - 1970; DER LEON HAS SEPT CABEZAS - 1970; CLARO - 1975) e, por fim, em A IDADE DA TERRA, obra que é muito mais uma experiência, um ensaio aberto, do que a estrutura fechada com ‘início-meio-fim’ que tradicionalmente entendemos como um 'filme', a dimensão ritualística da obra de Glauber, presente como embrião já nos primeiros curtas, atinge o seu ponto máximo de realização. A IDADE DA TERRA é  uma 'missa bárbara', que celebra a ascensão de uma nova divindade, o Cristo do Terceiro Mundo, que é o próprio povo em seu êxtase místico. Um Cristo que não é o do martírio na cruz, mas o Cristo da ressurreição, da libertação. Fazendo uso de linguagens tão diversas como a poesia, o teatro, a entrevista, a farsa, o documentário, Glauber registra o percurso desse Cristo plural, que emana dos anseios mais profundos do povo cristão, que é, ao fim e ao cabo, a materialização simbólica de seu inconsciente coletivo. 

 A ruptura do cineasta com as engessadas estruturas ideológicas da esquerda 'oficial', e também com a interpretação materialista da História, se torna, com este filme, irreversível. O Cristo do Terceiro Mundo é, pois, o surgimento de uma nova dimensão revolucionária, o advento da civilização fundada no amor. Como diz o próprio cineasta, em extraordinário texto publicado alguns anos antes (Eztetyka do Sonho - 1971), "a revolução é uma mágica porque é o imprevisto dentro da razão dominadora"; e outrossim acrescenta: “na medida em que a desrazão planeja a revolução, a razão planeja a repressão”. A dimensão do delírio, transformada em arma do povo, escapa ao entendimento do dominador, que apenas pode compreender o que atua dentro de sua própria lógica. Só o irracionalismo das massas iluminadas pelo êxtase místico pode romper o círculo vicioso da razão moderna. O racionalismo é, pois, um instrumento de legitimação do Sistema, é a linguagem do dominador. Só a lógica, melhor dizendo, a anti-lógica do sonho, o ‘desreinado’ delirante do sonho, pode inverter as polaridades e provocar um curto circuito nas estruturas de dominação da racionalidade materialista/capitalista. Trata-se, por conseguinte, da formulação última de seu messianismo revolucionário, onde o povo, sem mediações teóricas ou políticas, se converte em sujeito histórico de sua própria libertação na fé do Cristo, encarnação coletiva da liberdade.

 Glauber sintetiza de forma magistral a natureza messiânica e mítica da Revolução, a dimensão mística, irracional, imprevisível e emocional presente intrinsecamente em todo processo revolucionário. É a 'revolução' como categoria mítica, fenômeno que pode ser interpretado por uma analítica científica, não se enquadra em nenhum dos pressupostos epistemológicos e metodológicos da razão científica; ao contrário, afigura-se muito mais como fenômeno de cunho mítico-religioso, impermeável a análises racionalistas, o que fica patente em outras passagens memoráveis de Eztetyka do Sonho: "As revoluções se fazem na imprevisibilidade da prática histórica que é a cabala do encontro das forças irracionais das massas pobres (...) a revolução, como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma idéia, é o mais alto astral do misticismo". Revolução, portanto, não como processo meramente político-ideológico, mas sim como Arte, Delírio, Sonho, Mito e Mística, espiral estratosférica em direção à Grande Síntese. 
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Por fim, postarei aqui a íntegra de Eztetyka do Sonho, bem como do magnífico monólogo de Glauber em A IDADE DA TERRA, textos-chave para o entendimento de sua cosmovisão.
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Eztetyka do Sonho (1971)

(...) Este congresso em Columbia é uma oportunidade que tenho para desenvolver algumas idéias a respeito de arte e revolução. O tema da pobreza está ligado a isto.

As Ciências Sociais informam estatísticas e permitem interpretações sobre a pobreza.

As conclusões dos relatórios dos sistemas capitalistas encaram o homem pobre como um objeto que deve ser alimentado. E nos países socialistas, observamos a permanente polêmica entre os profetas da revolução total e os burocratas que tratam o homem como objeto a ser massificado. A maioria dos profetas da revolução total é composta por artistas (...).

Arte revolucionária foi a palavra de ordem no Terceiro Mundo nos anos 60 e continuará a ser nesta década. Acho, porém, que a mudança de muitas condições políticas e mentais exige um desenvolvimento contínuo dos conceitos de arte revolucionária.

O primarismo muitas vezes se confunde com os manifestos ideológicos. O pior inimigo da arte revolucionária é sua mediocridade. 

Diante da evolução sutil dos conceitos reformistas da ideologia imperialista, o artista deve oferecer respostas revolucionárias capazes de não aceitar, em nenhuma hipótese, as evasivas propostas. 

E, o que é mais difícil, exige uma precisa identificação do que é arte revolucionária útil ao ativismo político, do que é arte revolucionária lançada na abertura de novas discussões do que é arte revolucionária rejeitada pela esquerda e instrumentalizada pela direita (...).

(...) Uma obra de arte revolucionária deveria não só atuar de modo imediatamente político, como também promover a especulação filosófica, criando uma estética do eterno movimento humano rumo à sua integração cósmica.

A existência descontínua desta arte revolucionária no Terceiro Mundo se deve fundamentalmente às repressões do racionalismo.

Os sistemas culturais atuantes, de direita e de esquerda, estão presos a uma razão conservadora. O fracasso das esquerdas no Brasil é resultado deste vício colonizador.

A direita pensa segundo a razão da ordem e do desenvolvimento (...). As respostas da esquerda, exemplifico outra vez no Brasil, foram paternalistas em relação ao tema central dos conflitos políticos: as massas pobres.

O Povo é o mito da burguesia.

A razão do povo se converte na razão da burguesia sobre o povo.

(...) A razão de esquerda revela-se herdeira da razão revolucionária burguesa européia. A colonização, em tal nível, impossibilita uma ideologia revolucionária integral, que teria na arte sua expressão maior, porque somente a arte pode se aproximar do homem na profundidade que o sonho desta compreensão possa permitir.

A ruptura com os racionalismos colonizadores é a única saída.

(...) A revolução é a anti-razão que comunica as tensões e rebeliões do mais irracional de todos os fenômenos que é a pobreza.

Nenhuma estatística pode informar a dimensão da pobreza.

A pobreza é a carga autodestrutiva máxima de cada homem, e repercute psiquicamente de tal forma que este pobre se converte num animal de duas cabeças: uma é fatalista e submissa à razão que o explora como escravo. A outra, na medida em que o pobre não pode explicar o absurdo de sua própria pobreza, é naturalmente mística.

A razão dominadora classifica o misticismo de irracionalista, e o reprime à bala. Para ela, tudo que é irracional deve ser destruído, seja a mística religiosa, seja a mística política. A revolução, como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma idéia, é o mais alto astral do misticismo. As revoluções fracassam quando esta possessão não é total (...), quando, ainda acionados pela razão burguesa, método e ideologia se confundem a tal ponto que paralisam as transações da luta.

Na medida em que a desrazão planeja as revoluções a razão planeja a repressão. (...)

Há que tocar, pela comunhão, o ponto vital da pobreza que é seu misticismo. Este misticismo é a única linguagem que transcende o esquema racional da opressão. A revolução é uma mágica porque é o imprevisto dentro da razão dominadora. No máximo é vista como uma possibilidade compreensível (...).

O irracionalismo libertador é a mais forte arma do revolucionário. E a libertação, mesmo nos encontros da violência provocada pelo sistema, significa sempre negar a violência em nome de uma comunidade fundada pelo sentido do amor ilimitado entre os homens. Este amor nada tem a ver com o humanismo tradicional, símbolo da boa consciência dominadora.

As raízes índias e negras do povo latino-americano devem ser compreendidas como única força desenvolvida deste continente. Nossas classes médias e burguesias são caricaturas decadentes das sociedades colonizadoras.

A cultura popular não é o que se chama tecnicamente de folclore, mas a linguagem popular de permanente rebelião histórica.

O encontro dos revolucionários desligados da razão burguesa com as estruturas mais significativas desta cultura popular, será a primeira configuração de um novo significado revolucionário.

O sonho é o único direito que não se pode proibir.

(...)Hoje recuso falar em qualquer estética. A plena vivência não pode se sujeitar a conceitos filosóficos. Arte revolucionária deve ser uma mágica capaz de enfeitiçar o homem a tal ponto que ele não mais suporte viver nesta realidade absurda.

Borges, superando esta realidade, escreveu as mais libertadoras irrealidades de nosso tempo. Sua estética é a do sonho. Para mim é uma iluminação espiritual que contribuiu para dilatar minha sensibilidade afro-índia na direção dos mitos originais da minha raça. 

Esta raça, pobre e aparentemente sem destino, elabora na mística seu momento de liberdade. Os Deuses Afro-índios negarão a mística colonizadora do catolicismo, que é feitiçaria da repressão e da redenção moral dos ricos.

Não justifico nem explico meu sonho porque ele nasce de uma intimidade cada vez maior com o tema dos meus filmes, sentido natural de minha vida.


Glauber Rocha
Columbia University – New York
Janeiro de 1971

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Discurso final, em off, de A Idade da Terra

"No dia em que Pasolini, o grande poeta italiano, foi assassinado, eu pensei em filmar a vida de Cristo no Terceiro Mundo. Pasolini filmou a vida de Cristo na mesma época em que João XXIII quebrava o imobilismo ideológico da Igreja Católica em relação aos problemas dos povos subdesenvolvidos do Terceiro Mundo e também em relação à classe operária européia. Foi um renascimento. A ressurreição de um Cristo que não era adorado na cruz, mas um Cristo que era venerado, revivido, revolucionado num êxtase da ressurreição.

Sobre o cadáver de Pasolini, eu pensava que o Cristo era um fenômeno novo, primitivo numa civilização muito primitiva, muito nova. (...)

São quinhentos anos de civilização branca, portuguesa, européia, misturada com índios e negros e são milênios além da medida dos tempos aritméticos ou da loucura matemática que não se sabe de onde veio nem mesmo a nebulosa do caos, no nada. Ou seja, Deus ou nada, quem não acredita em Deus, acredita no nada. Se nada for Deus...

Então, é muito rápida a história. É uma história de uma velocidade fantástica, é um desespero lisérgico. (...)

Aqui, por exemplo, em Brasília, neste palco fantástico no coração do planalto Brasileiro, forte irradiação, luz do Terceiro Mundo, numa metáfora que não se realiza na história, mas preenche um sentimento de grandeza, a visão do paraíso, essa pirâmide, esta pirâmide que é a geometria dramática do estado social, no vértice o poder, embaixo, as bases e depois os labirintos intrincados das mediações...

Toda essa ideologia do amor se concentraria no cristianismo, que é uma religião linda dos povos africanos, asiáticos, latino-americanos, dos povos totais, um cristianismo que não se realiza somente na Igreja Católica, mas em todas as religiões que encontram seus símbolos mais profundos, mais recônditos, mais eternos , mais subterrâneos, mais perdidos, na figura do Cristo, um Cristo que não está morto, mas está vivo espalhando amor e criatividade.
 A busca da eternidade e a vitória sobre a morte, porque a morte é uma estruturação determinada por um código fatalista, talvez de origens sexuais ou genéticas, quien lo sabe... pero se pode vencer a morte.

Então, a civilização é muito pequena. Antes de Cristo e depois de Cristo. Um desenvolvimento tecnológico na Europa, econômico, o mercantilismo, capitalismo, neocapitalismo, socialismo, o transcapitalismo, o trans-socialismo, o anarco-construtivismo, todo um desespero de uma humanidade em busca de uma sociedade perfeita, as utopias, a marcha... Conflitos religiosos entre católicos e protestantes provocaram explosões, navegações, guerras, invasões mouras na Europa, invasões cristãs na África do Norte; Espanha, Portugal e Inglaterra ocupam a América no outro lado. Índios massacrados, negros importados, guerras de independência, latifúndios e indústrias, guerras de latifúndios e indústrias, guerras de indústrias e latifúndios, guerras civis, levantes, caudilhos, guerras, guerrilheiros, revoluções, golpes de estados, democracias, regressões, avanços, recuos, sacrifícios, martírios, América. América do Norte se desenvolve.

O desenvolvimento tecnológico americano leva a civilização ao mundo do século XX. A Revolução Soviética, a Revolução Soviética, a Re-volução Soviética de 1917 comandada por Lenine, Trotski e Stalin subverte completamente o discurso capitalista norte-americano. Enquanto isso, os povos subdesenvolvidos da América Latina, da África e da Ásia pagam o preço do desenvolvimento tecnológico da Europa, dos Estados Unidos, da Europa capitalista, da Europa socialista, da Europa católica, da Europa protestante, da Europa atéia, dos Estados Unidos.
 Os povos subdesenvolvidos estão na base da pirâmide. Não podem fazer nada. Todos buscam a paz. Todos devem buscar a paz. Existirá uma síntese dialética entre o capitalismo e o comunismo, estou certo disso. E do Terceiro Mundo. Seria o nascimento da nova, da verdadeira democracia. A democracia não é socialista, não é comunista, não é capitalista. A democracia não tem adjetivos.

A democracia é o reinado do povo. A de-mo-cra-cia, a democracia é o desreinado do povo. Sabemos todos que morremos de fome nos terceiros mundos, sabemos todos das crianças pobres, dos velhos abandonados, dos loucos famintos, tanta miséria, tanta feiúra, tanta desgraça, sabemos todos disso.

É necessária uma revolução econômica, social, tecnológica, cultural, espiritual, sexual, a fim de que as pessoas possam realmente viver o prazer. O Brasil é um país grande, a América Latina, África, não se pode pensar num só país. Temos que multinacionalizar, internacionalizar o mundo dentro de um regime interdemocrático, com a grande contribuição do cristianismo e de outras religiões, todas as religiões. O cristianismo e todas as religiões são as mesmas religiões. Entre o entendimento dos religiosos e dos políticos convertidos ao amor... "

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Kerry Bolton - Aleister Crowley como Teórico Político

por Kerry Bolton

Tradução por Caimmy de Sá



Aleister Crowley (1875-1947), que denominava a si mesmo a Grande Besta 666, é uma presença importante tanto na subcultura ocultista quanto na cultura popular contemporânea. Ele é aclamado por uns como filósofo, mago, e também como profeta. Ele é condenado por outros como egocêntrico depravado. Mas, para a maioria, ele é meramente visto como um produto de consumo (como Che Guevara para camisas de marca) pelo seu choque de valores e suas excentricidades.

Porém, ainda é muito pouco ou nada conhecido de Crowley como teórico político e social que criticou a problemática do industrialismo, democracia e a ascensão do homem massa além da sociedade atual. A teoria política e social de Crowley é fundamentada na crítica nietzcheana da modernidade que tem paralelos com o Tradicionalismo de René Guénon e Julius Évola.

A influência de Nietzche é evidente em seu desejo de criar uma nova religião que ocuparia o lugar da “moralidade de escravos” inerente ao “Aeon de Osiris”, representado no Ocidente pela Cristandade. Um novo Aeon de “força e fogo”, o Aeon de Horus, “a criança conquistadora Coroada”, seria a previsão de uma nova “Moral de Senhores” expressa na nova religião da “Thelema” de Crowley, significando a “Vontade”, a ser compreendida em termos nietzcheanos como “Vontade de Poder”: uma eterna ascese que transcende em formas maiores, individualmente e coletivamente.

Crowley e Tradicionalismo

Pode ser surpreendente colocar Crowley ao lado de Évola e Guénon como parte da reação aos altos níveis de crença no materialismo, racionalismo e liberalismo. Crowley, apesar de tudo, é geralmente conhecido por ter feito parte de sociedades iniciáticas como a Franco-Maçonaria, além dos Illuminati que promoviam humanismo liberal como uma nova religião “racionalista”, assim como o comunismo que chegou a ser uma religião com seus próprios santos, mártires, guerras santas, dogmas, rituais, liturgias, ignorando seus objetivos materialistas. Crowley, por exemplo, incluiu Adam Weishaupt, fundador dos Illuminati em sua lista de “santos” da Missa Gnóstica Thelemita. A vasta maioria de seguidores de Crowley é formada por humanistas liberais.

Guénon denominou às tentativas de promover liberalismo e materialismo que aparentam ser “tradições” de “contra-tradição”.Em outras palavras de Eliphas Lévi, grade autoridade em ocultismo do Século XIX, ex-maçom e propagandista socialista que se converteu ao Catolicismo posteriormente:

“A maçonaria não apenas tem sido profanada, como tem servido de disfarce e pretexto de conspirações anarquistas...Os anarquistas resumiram sua regra, esquadro e malhete impondo sobre estes as palavras Liberdade, Igualdade e Fraternidade – liberdade, diga-se, para a ganância, Igualdade para a degradação e Fraternidade no trabalho de destruição. Estes são os homens que a Igreja condenou e com justiça condenará sempre”.

Até hoje, o slogan da Revolução Francesa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” é o lema do Grande Oriente Francês. Estas sociedades secretas contra-iniciáticas estavam engajadas em guerra oculta, com suas manifestações no campo político, social, moral e econômico.

Mas esta não é a história inteira.

Mesmo dentro de tais movimentos iluministas e maçônicos, ocultistas genuínos defenderam um retorno ao mito e o restabelecimento da ligação entre o homem e o divino. Proeminente entres estes era a Ordem Hermética da Aurora Dourada na Grã-Bretanha, na qual Crowley iniciou seu aprendizado em feitiçaria. A Aurora Dourada era estreitamente associada à Franco-Maçonaria, mas o que deixa transparecer é que suas lideranças como Mathers e Westcott se identificavam forma de Maçonaria tradicionalista e não-profanada. O fato de W.B. Yeats ter feito parte da Aurora Dourada indica uma evidência desta corrente tradicionalista (mesmo que Yeats mantivesse pequenas discordâncias com Crowley).

Surpreendentemente, o próprio Evola diz que Crowley era, pelo menos em parte, um legítimo iniciado. Évola afirmava que a Aurora Dourada, da qual Crowley fazia parte, era “em algum aspecto” sucessora “daquelas formas iniciáticas legítimas”. Evola também reconhece que o Sistema Mágico era derivado de práticas iniciáticas tradicionais: “É certo que no “Crowleyismo a inoculação de aplicações mágico-iniciáticas é bem precisa, e suas referências e orientações de tradições antigas são evidentes”. (Dado que Évola escrevia sobre Crowley num momento em que o mundo estava em efervescência política, e o próprio Évola era extremamente envolvido com tal agitação como um apoiador crítico do Fascismo, é notável que mesmo Évola não explorou as implicações políticas e sociais do “Crowleyismo”, especialmente visto que as visões de expressas por Crowley estavam estreitamente de acordo com as de Évola.)

Crowley, apesar de algumas de suas associações, não deveria ser apontado como adepto da contra-tradição. “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” eram para ele demagogia asquerosa e repugnante, também era francamente absurdo para ele arrolar Weishaupt entre os “santos” thelemitas. A inclusão de Weishaupt por Crowley pode talvez ser explicada não pelo que ele defendia, mas por aquilo que ele combatia. Pois Weishaupt dirigia muito de sua energia conspiratória contra a Igreja Católica, instituição pela qual Crowley  pôde nutrir admiração a um nível muito superficial.

A Tradição iniciática defendida por Evola e Guénon é fundamentalmente e diretamente aristocrática e elitista. Na Sociedade Tradicional, o Sistema Mágico de Crowley era uma parte integral da vida, um meio de harmonizar  o homem com o cosmos. Assim não há qualquer motivo para se defender igualdade ou democracia, como escreve Lévi:

“A afirmação se encontra diante da negação; o forte só pode triunfar porque há o mais fraco; a aristocracia não pode se manifestar exceto em sua superioridade sobre o povo...Os fracos sempre serão fracos...o povo de certa maneira sempre continuará a ser o povo, a massa governada nunca será capaz de governar. Há duas classes: homens livres e escravos; o homem ao subjugar suas paixões, mas ele pode alcançar sua emancipação através da inteligência. Entre aqueles que ainda são livres e aqueles que não chegam a isso não há possibilidade de igualdade".

Crowley rejeitou a democracia pelas mesmas razões que assim fizeram Lévi, Evola e Guénon. Na “bíblia” Thelêmica O Livro da Lei, Crowley escreve sobre a democracia: “Vós sois contrários ao povo, ó meus eleitos”; sobre a qual Crowley também comentou: “A hipocrisia da democracia está condenada”.

Rejeitando a democracia e outros movimentos de massa como inerentemente alienígenas em relação à “Arte Real”, Crowley buscou desenvolver os aspectos políticos e sociais da Thelema, escrevendo de modo especialmente claro em sua “bíblia”, A Lei é para Todos: Regra Complementar ao Livro da Lei.

O Livro da Lei

Depois de ter previsivelmente perdido a liderança da Aurora Dourada, ele gastou a maioria do tempo viajando. Em 1904 Crowley e sua mulher Rose estavam no Egito, quando de acordo com Crowley, ocorreu um evento de importância “Aeônica”. Crowley afirma ter recebido uma mensagem escrita para o “Novo Aeon”, canalizada pelos “Deuses” através de uma entidade sobrenatural conhecida como Aiwas, de quem Crowley diz ter recebido o Liber Legis (Livro da Lei) por escrito. O que Crowley escreveu em um curso de três dias veio a ser conhecido como a bíblia de Thelema, uma palavra helênica que significa Vontade, a qual o Liber Legis proclama como o nome de sua doutrina.

Liber Legis se assemelha em parte a uma forma mística da filosofia de Nietzche, acompanhada de uma estridente rejeição das doutrinas de rebanho, incluindo-se aí o Cristianismo e a democracia. (Crowley arrola Nietzche como “santo” em sua Missa Gnóstica)

Sob a Thelema todas as doutrinas e sistemas que se restringem à satisfação da “Vontade” ou da “Verdadeira Vontade”, quer em seu aspecto social, econômico, político ou mesmo religioso, é realocada pela religião Crowleyita no novo aeon, o Aeon de Horus, “A Criança Conquistadora”. “Vontade” é a base da evolução Nietzcheana, e isso se torna claro à medida em que Crowley objetivava o estabelecimento de um Sistema Místico propriamente Ocidental de auto-superação na linha das antigas práticas yóguicas  de ascese com o fim de ativar os maiores estados do Ser.

“Fazei o que tu queres” é a fundamentação da Thelema.  Isso não foi dito num sentido niilista de “faça o que for conveniente ou o que você querer (em sentido amplo)”, mas sim “fazei o que for de vossa vontade”, id est, sua “verdadeira vontade”, que deve ser descoberta, aperfeiçoada, lapidada e purificada por rigorosos processos. Crowley constata que tal ditado “não deve ser interpretado como individualismo correndo à solta”.

Refletindo a “verdadeira vontade” individual, a doutrina Thelêmica descreve “todo homem e toda mulher [como] uma estrela”. Isto é, cada indivíduo como parte do cosmos mas com sua própria órbita; ou o que alguém poderia chamar de “curso da vida” a nível individual.

O Liber Legis estatui que “os escravos devem servir”. De novo, isto é Nietzcheano no sentido de que muitos indivíduos, provavelmente a vasta maioria, não têm a vontade de descobrir ou preencher sua própria “verdadeira vontade”. Enquanto todos são “estrelas”, alguns brilham mais que outras. Na Visão da Esponja de Estrelas, uma revelação astral, Crowley explicou a desigualdade como reflexo da “altamente organizada estrutura do universo” que inclui estrelas que são de “maiores magnitudes e brilho que todo o resto”. A grande massa cuja natureza é servil e incapaz daquilo que Nietzche considera como “auto-superação” permanecerá da mesma maneira como está, sendo sua verdadeira vontade nada mais que servir aos seus senhores que seguem – de novo em termos nietzcheanos – a “moral dos senhores”, aqueles que o Liber Legis descrevem como sendo os “Reis da Terra”, aqueles cujas vontades cintilantes são aquelas dos que governam. (Se alguma parte da prosa supostamente ditada a Crowley por Aiwas soa muito similar a Eliphas Lévi, provavelmente é porque o próprio Crowley dizia ser uma reencarnação daquele, isso entre muitos outros sábios das eras antigas até os tempos recentes, sendo o próprio Lévi um destes!)

Tal doutrina enquanto individualista, não é anárquica, niilista, ou mesmo liberal. Mas sim o reflorescimento e a restauração das castas. Isso implica em algo mais abrangente que simplesmente classes, que se restringem ao plano materialista e econômico; castas que refletem uma ordem metafísica na qual cada indivíduo cumpre sua função de acordo com sua própria vontade – ou dever, dharma – como manifestação da ordem cósmica. Para os seguidores da Tradição Perene, casta é a manifestação da ordem divina e não meramente uma divisão econômica de trabalho ou exploração.

Crowley (Ou Aiwas) explica que a doutrina anti-democrática e anti-igualitária da Thelema nestes termos, de novo se fundamenta em Nietzche:

"Nós não defenderemos os pobres ou aqueles tristes: os senhores da terra são a nossa raça e família. Nós somos beleza e força, risos e gargalhadas, langor prazeroso, força e fogo...Nós não temos nada nem nada devemos aos párias e rejeitados. Eles não devem ter tais sentimentos. Compaixão é o vício dos reis; Esmaguem os fracos e miseráveis: esta é a lei do mais forte; esta é a nossa lei e a alegria do mundo".

Esta ordem social hierárquica, de acordo com a tradição perene, estabelece uma nova aristocracia, sendo a velha nada mais que uma classe comercial e pertencente a esta classe. (O próprio Crowley era de origens burguesas, porém ele se auto-enobreceu com o título de “Sir Aleister Crowley”) Sob o “Aeon de Horus” a nova aristocracia consistiria em Nietzchianos que superariam a si mesmos. Crowley especificamente se refere à influência de Nietzche ao explicar o conceito Thelêmico: “Os maiores são aqueles que dominaram e transcenderam seu ambiente acidental...Há um bom aspecto do ponto de vista Nietzcheano nesta sentença”.

Entretanto, em contraste com Guénon e Évola, Crowley raciocina em termos darwinistas. Depois de se referir ao “ponto de vista nietzcheano” Crowley afirma em termos “darwinianescos”: 

“É a visão evolucionária e natural...O fim da natureza é extirpar e destruir os mais fracos. Tal ato é o mais misericordioso. No presente todos aqueles que são mais fortes estão perdendo e seu progresso sendo prejudicado pelo peso morto dos mais fracos, débeis e aleijados, os doentes e os atrofiados. Christianos ad leonem".

Crowley profetizou uma era de turbulência precedendo o Novo Aeon durante o qual as massas e a elite, ou a nova aristocracia, chegariam ao eminente conflito. Crowley também escreve sobre este prelúdio revolucionário ao Novo Aeon: “E quando os problemas acabarem, nós aristocratas da liberdade, dos castelos às casas de campo, das torres às terras de cultivo, teremos a multidão de escravos contra nós”.

Crowley descreve “o povo” como “aqueles hipócritas, abatidos, comida servil de cães açoitados os quais se recusam a admitir suas deidades...” A multidão indisciplinada ao capricho de suas próprias emoções, desprovidos de Vontade, é descrita como  a “natural inimiga do bom governo”. A nova aristocracia da elite governante serão aqueles que tendo descoberto e possuído sua “verdadeira vontade”, que têm dominado a si mesmos através da auto-superação, para usar um termo de Nietzche. A casta governante possuiria uma “política consistente” sem estar sujeita aos desejos emotivos das massas.

O Estado Thelêmico

A forma do governo Thelêmico é vagamente designada no Liber Legis, sugerindo uma espécie de Corporativismo: “Deixe que venha o estado da multiplicidade limitada e do tédio: não terás direito algum a não ser fazer o que desejas”. Contrário à interpretação anárquica e niilista dada acerca do “fazei o que tu queres” da Thelema, Crowley definiu o Estado Thelêmico como uma associação livre para o bem comum. A vontade individual e o dever social estariam harmonizados em acordo, e o indivíduo deveria estar “absolutamente disciplinado para servir a si mesmo, e ao propósito comum, sem atrito”.

Crowley explicou seu significado de modo que não o confundissem com anarquismo ou liberalismo. Enquanto que seu Liber Oz (“Direitos do Homem”) parece ser a fórmula para a total soberania individual isenta de qualquer limitação social, Crowley afirma: “Tal aforismo não deve ser confundido com individualismo correndo à solta”.

No que poderia se assemelhar  a um esboço próprio de uma “encíclica papal” acerca do bom governo, Crowley esclarece:

“Eu tenho estabelecido limites sobre a liberdade individual. Para cada homem em tal Estado o que proponho é o preenchimento de sua própria “Verdadeira Vontade” através de seu próprio consentimento em integrar a Ordem necessária ao Bem Comum, e assim de si mesmo, também”.

A rejeição da democracia por Crowley e de qualquer outra coisa relativa a “moral de escravos” necessitava de um novo viés acerca do Estado. Como outros de seu tempo, incluindo aí místicos como Evola e Yeats, Crowley se concentrava em tentar saber qual seria o futuro da cultura sob o reino do mercantilismo, materialismo e industrialismo. Ele temia a época de uniformidade atomizante das massas que estava emergindo. Ele via a igualdade como prenúncio da uniformidade, mais uma vez fundamentado na biologia:

“Não há criaturas na terra que sejam as mesmas. Todas elas, que sejam diferentes em suas qualidades, e que sejam iguais umas às outras. Aqui também se encontra a voz gritante da verdadeira ciência: 'Variedade é a chave da evolução'. Saibam então, ó meus filhos,  que todas as leis, todos os sistemas, todas as ideias e padrões que tentem criar uniformidade, estando em direta oposição em relação à vontade da natureza de mudar e desenvolver suas variedades, está fadada ao fracasso. Resistam todos vocês com toda virilidade contra estas forças, pois elas resistem àquilo que é a vida, pois elas são a morte".

Tais discursos mais biológicos que metafísicos são fundamentados sobre as diferenças entre a humanidade causadas por “raça, clima, e outras condições do tipo. E este padrão é baseado na interpretação de fatos da natureza biológica”.

Referindo-se à passagem no Liber Legis que afirma: “Vós sois contra o povo, ó meus escolhidos!” Crowley explica:

“A defesa da democracia está condenada. É inútil simular que todos os homens são iguais: os fatos demonstram o contrário. E não seremos como um rebanho, entediados e conduzidos, entre a multidão da humanidade”.

Thelema e Corporativismo

O Estado democrático como uma manifestação de igualdade e consequente uniformidade deve ser realocado pelo que em grande parte das vezes é denominado por “Estado Orgânico” ou “Estado Corporativista”. Esta concepção de Estado pode ser compreendida de forma biológica ao se analisar organismos, algo análogo a um corpo biológico (daí o termo “Corporativismo”) com diversos órgãos separados (indivíduos, famílias, ofícios e profissões, etc) funcionando de acordo com sua própria natureza enquanto contribui com a saúde e o estado de todo o organismo (sociedade), com o Estado cumprindo a função de “cérebro”, o órgão que coordena as outra partes. Na Inglaterra, o Corporativismo era chamado de “socialismo de guildas”, já entre a Esquerda Continental, de “sindicalismo”.

O Corporativismo também teve seu aspecto metafísico, sendo a base da organização social nas sociedades tradicionais, incluindo-se aí as guildas da Europa Medieval e as corporações de ofício da Roma Antiga. Nas sociedades tradicionais, guildas ou organizações sociais corporativas eram, como todo o resto da sociedade, vistas como uma manifestação terrena da ordem cósmica, o corpo divino, e as castas eram estabelecidas por critérios espirituais, éticos e culturais, de modo distinto das “classes” meramente econômicas das sociedades seculares atuais. Daí, o Corporativismo advogado por Evola como uma resposta tradicionalista à sociedade dividida por classes.

A concepção de Crowley de Estado orgânico é descrita em De Ordine Rerum:

“No corpo todas as células são subordinadas ao Controle fisiológico geral, e assim nós que efetivamos tal Controle não nos importamos com o fato de cada unidade individual desta estrutura (células, órgãos) não ser animada ou não ter controle fisiológico próprio.  Porém, nos importamos com que cada uma destas preencham sua função, com ânimo e harmonia, respeitando seu próprio papel como necessário e sagrado, sem que queira extrapolar o papel do outro. Apenas assim poderás construir um Estado Livre, cuja direção seja o Bem Comum”.

Daí que Crowley, longe de ser um misantropo, estava concentrado em livrar o indivíduo do destino de ser parte de uma massa nebulosa e prover a sustentação para o bem comum no seu aspecto material e além disso cultural, à medida em que sua natureza o leva a isso. O cultivo deliberado de sua imagem como o “mal” deve ser visto primariamente como um capricho perverso, um estilo, e em particular como o resultado do seu senso de humor pervertido, sua personalidade narcisista, além do resultado de sua educação na Fraternidade de Plymouth, também ao ter tido uma mãe que o chamava de Anticristo, o que parece ter exercido maior efeito em seus pensamentos e em todo o resto de sua vida.

Ócio, a Base da Cultura

Crowley tomou para si um grande problema para muitos teóricos heterodoxos  no campo social e econômico, que é o da redução das horas de trabalho em um novo sistema econômico que assegura abundância material a todos, além da libertação humana do jugo econômico.

Uma vez que as obrigações de ordem social forem atingidas, deveria haver “um excedente de ócio e energia” que deveria ser gasto com a “posse da satisfação individual”. Uma certa quantidade de tempo ocioso livre de qualquer forma de lazer ou possessões estritamente materiais é a base de toda cultura, e o florescimento desta durante a Era Medieval foi um exemplo disso, juntamente com a base espiritual da sociedade da época.

Crowley, como muitos defensores do Crédito Social e certos socialistas não marxistas ou reformadores sociais, desejavam mudar o sistema econômico reduzindo as horas de trabalho. Sues comentários sobre a função do dinheiro na sociedade são perspicazes. Assim como os defensores do Crédito Social, acreditava que uma mudança relativa à função da moeda é necessária para um modelo social e econômico alternativos. Ele certamente se informava nesse aspecto por meio da revista Nova Era de A. R. Orage (New Age magazine), onde o pensamento dos defensores do Crédito Social, dos Socialismo de Guildas, além de outros literatos era exposto. (Crowley se refere a tal jornal em outro contexto em sua autobiografia) Mas o mais importante é que antes de tudo ele conseguiu estabelecer sua política econômico-financeira:

O que é a moeda? Um meio de troca que objetiva facilitar o procedimento dos negócios. Como óleo em uma engrenagem. Muito bem, então: se ao invés de você deixar isso fluir o mais livremente o possível, ao mesmo tempo você obstaculiza sua verdadeira natureza; impede-se assim que se cheguem à Verdadeira Vontade. Assim, qualquer “restrição” sobre a troca de bens é uma violação direta à Lei de Thelema

Uma vez que o bem estar material do cidadão é assegurado, então a energia gasta em necessidades econômicas pode ser voltada à posse da cultura. Sob o Estado Thelêmico o cidadão é guiado pela casta governante a possuir os maiores estados do ser (da vida, da cultura), levado ao florescimento da cultura: “Encontrando-se o povo na maioria das vezes ignorante, incompreensível em relação ao prazer, que sejam instruídos na Arte da Vida”. Deste regime nasce uma alta cultura na qual cada cidadão terá a capacidade de participar e apreciar: “Estas coisas [bem estar econômico] sendo asseguradas, vós deveis antes de tudo guia-los aos Paraísos da Poesia e dos Contos, da Música, da Pintura e da Escultura, e a amar o pensamento em si mesmo, com a sua insaciável Alegria ao obter Conhecimento”.

Sob o Estado Thelêmico a cada indivíduo seria dada a oportunidade de preencher sua própria vontade. Crowley afirmou, todavia, que a maioria das verdadeiras vontades ou “estrelas” se resumiam  a uma satisfação material apenas, não tendo ambição alguma de ir além de “alegria fácil e bestial”, e que se contentariam com seu lugar na hierarquia. Àqueles cujas verdadeiras vontades é almejar maiores conquistas, seriam também a estes dada a oportunidade de assim, “estabelecer uma classe de homens e mulheres superiores intelectualmente e moralmente”. Neste Estado, enquanto as pessoas “não carecem de nada”, suas habilidades de acordo com suas naturezas seriam utilizadas pela casta reinante na busca por uma maior política e uma maior cultura.

Ofícios e Guildas

Crowley também se concentrou no problema da industrialização e no papel da máquina no processo de desumanização, ou o que é também denominado pelos Tradicionalistas como dessacralização:

“As máquinas ainda têm chegado perto de completar a destruição das corporações de ofício. Um homem não é mais um trabalhador, mas um operador de máquinas. O produto é padronizado; o resultado, mediocridade...Ao invés de cada homem e cada mulher ser uma estrela, nós temos uma amorfa massa de insetos".

De acordo com sua defesa do estado orgânico e com a ressacralização do trabalho como ofício, Crowley expôs a guilda como a base da organização social Thelêmica. A guilda é a unidade fundamental de sua própria ordem esotérica, a Ordo Templi Orientis (OTO):

“Em frente ao Areópago se encontra um independente Parlamento das Guildas. Na Ordem, independentemente da Graduação, os membros de qualquer ofício, tradição, ciência ou profissão moldam a si mesmos dentro da Guilda, legislando, exercendo sua própria função, em todos os aspectos pertencentes ao seu trabalho e ao significado do seu estilo de vida. Cada Guilda elege o homem mais notável para representa-la ante o Areópago do Oitavo Grau; e todas as disputas entre as várias guildas são levadas a cabo diante deste Corpo, o qual decidirá de acordo com os princípios maiores da Ordem. Suas decisões passam pela ratificação do Santuário da Gnose, e então são encaminhadas para o Trono”.

Esta organização da OTO em guilda nos representa a sociedade como um microcosmo da ordem social que Crowley estabeleceria sob um regime Thelêmico: “Assim, verdadeiramente, as coisas nada mais são que reflexos umas das outras; o homem nada mais é que um mapa do universo, e a Sociedade nada mais é que o mesmo em uma maior escala”.

Na visão de Estado Corporativo de Crowley, cada profissão autônoma é representada num “parlamento de guildas”. Este sistema corporativo foi muito defendido como uma alternativa entre capitalismo e Marxismo e foi defendido por Evola e D’ Annunzio, sindicalistas, e Católicos Tradicionalistas. De modo embrionário isso foi inaugurado por Mussolini. Ironicamente, foi a Áustria de Dollfuss e o Portugal de Salazar que aplicaram o corporativismo da Doutrina Social Católica de modo mais próximo da perspectiva Crowleyana.

A Hierarquia do Estado Thelêmico

Crowley denomina a massa popular sob seu sistema de governo como os “Homens da Terra” que não têm alcançado um estágio de desenvolvimento apto a uma participação no governo, e que seriam representados diante do Rei como aqueles destinados a servir. As castas governantes abrangeriam um Senado que seria um Colégio Eleitoral, os indivíduos que integrariam tal casa o fariam através da renúncia pessoal, incluindo-se aí a renúncia à propriedade e à riqueza, fazendo assim um “voto de pobreza”. Obviamente o sufrágio universal não encontra lugar algum na eleição do governo Thelêmico:

“O princípio de eleição popular é uma burrice é fatal; seus resultados são visíveis em todos os regimes denominados “democracia”. O homem eleito é sempre o medíocre; ele é o homem que quer apenas segurança; o homem uníssono, o homem que se ajoelha ante a maioria como nenhum outro; e nunca o gênio, o homem do progresso e do esplendor”

O Colégio Eleitoral é selecionado pelo Rei em meio aos voluntários que demonstram tanto dotes atléticos quanto intelectuais, além de um “profundo conhecimento geral” da história, da arte, do governo e da filosofia.

Este sistema corporativo e monárquico era designado com o fim de “unir todos os fios da paixão humana e das emoções, e tecê-los formando uma peça harmônica...” refletindo assim a ordem do cosmos.

Crowley e o Fascismo

O poeta italiano e veterano de guerra D’ Annunzio foi quem mais provavelmente chegou perto de realizar na prática o ideal Thelemita no Estado Livre de Fiume, um regime estabelecido com parâmetro nas artes e na estética que atraiu numerosos rebeldes, de anarquistas e sindicalistas a nacionalistas. Crowley não menciona D’ Annunzio em sua autobiografia, mesmo tendo ele passado um tempo na Itália em 1920, quando a experiência de D’ Annunzio termina em Dezembro daquele ano.

Em relação aos Fascistas Italianos, Crowley escreve: “Por algum tempo eu me interessei pelo Fascismo, movimento pelo qual nutri total simpatia mesmo excluindo sua ilegitimidade em um país no qual toda a autoridade constitucional se tornou nada mais que letra morta”. Ele enxergou os Fascisti  de modo poético, descrevendo as patrulhas dos camisas-negras como “charmosos”. “Eles tinham toda a pompa de soldados saídos de uma ópera”. Assim como na “Marcha de Roma”, Crowley elogiou o comportamento dos Fascisti como “admirável”.

Porém, rapidamente se desiludiu, e viu em Mussolini o típico político cujos princípios políticos se resumem ao apoio popular. A natureza de massa do Fascismo também causou suspeitas em muitos literatos que no início o apoiaram, como Wyndham Lewis e W. B. Yeats. Crowley observou todo o processo e o desenvolvimento do movimento em Roma por três dias, e ficou desapontado pela aliança de Mussolini com a Igreja Católica, quando considerou aquele como “O mais poderoso inimigo”. E com certeza o hábito de criticar é mais comum entre os simples observadores que os participantes e protagonistas das mudanças. Críticos se dão ao luxo de teorizar sem nem botar em prática suas teorias.

Crowley mudou-se então para Cefalu, onde estabeleceu a “Abadia de Thelema” em uma casa que se encontrava aos pedaços. A morte do seguidor Raoul Loveday resultou na expulsão de Crowley da Itália em 1923, em um tempo no qual ele se tornou um constrangimento para o regime Fascista.

Entretanto, um notável indivíduo que discerniu o elemento proto-fascista na Thelema, antes mesmo de chegar a ser o porta-voz do Fascismo Britânico de Sir Oswald Mosley foi J. F. C. Fuller, que também ficou conhecido por ser o arquiteto da aplicação de tanques na guerra moderna além de brilhante historiador militar. Fuller foi um discípulo de Crowley em 1905, e um de seus mais antigos seguidores. Ele foi, como Crowley, um nietzcheano com interesses em ocultismo que considerava o socialismo como um credo das manadas: “a escória do caldeirão democrático”. Sua oposição ao Cristianismo era similar à de Nietzche.

Fuller conheceu Crowley em Londres em 1906 quando escreveu a primeira biografia de Crowley, A Estrela no Oeste (The Star in the West), sendo também o vencedor (e único participante) de uma competição para promover a poesia deste. Apesar de o interesse de Fuller em misticismo e ocultismo serem de longa data, ele cortou relações com Crowley em 1911, envergonhado pelo comportamento deste que alimentava as manchetes da mídia. 

Em 1932 Fuller ainda falava e escrevia sobre o socialismo e a democracia em termos nietzcheanos como produtos do Cristianismo. Ao entrar na União Britânica de Fascistas e ao se tornar conselheiro militar de Mosley, Fuller continuou firme em tal movimento, mesmo depois da II Guerra Mundial, porém continuou se recusando a manter contato com Crowley.

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Enquanto que Fascistas (particularmente “fascistas-clericais” ou nacional-católicos), socialistas defensores das guildas, defensores do Crédito Social, Distributistas, sindicalistas et caterva atentaram-se em resolver os problemas da era das máquinas, além de Evola ter oferecido um esboço de um plano prático no Homens entre as Ruínas, As concepções sociais Thelêmicas de Crowley mantiveram-se ofuscadas pelo seu aspecto místico, e pouquíssimos de seus seguidores deram alguma atenção para a implicação política ou a implementação da Thelema.

Crowley, um poeta e um místico, não um agitador ou um político, teve sua própria concepção de ciclos históricos (mesmo que de alguma forma limitado), na qual o Aeon de Horus, uma nova era de “força e de fogo”, emergiria tendo ele como seu profeta. Assim como Marx afirma que a vitória do comunismo seria um inexorável fim do processo histórico, Crowley imaginou que a ordem mundial Thelêmica ascenderia como resultado das inevitáveis leis cósmicas. Não obstante, assim como Marx conclamou os socialistas a serem agentes de seu processo histórico, Crowley enxergou que as provações e sacrifícios  demandadas de sua Ordem Sagrada levariam os Cavaleiros de Thelema à ascensão, os quais promoveriam uma jihad contra todas as outras crenças velhas e anacrônicas:

“Nós devemos lutar por liberdade contra os opressores, sejam estes no aspecto religioso, social ou industrial, e nos manteremos radicalmente opostos a qualquer pacto, toda luta deve ser uma luta até o fim; cada um por si, para realizar sua intrínseca vontade, e todos por todos, com o fim de estabelecer a lei da Liberdade....Que todos os homens peguem em armas, que subitamente se revoltem contra toda opressão...generosos e ardentes para desembainhar suas espadas por qualquer causa para a qual a justiça e a liberdade os conclamem”