terça-feira, 28 de julho de 2015

Álvaro Hauschild - O Homem Médio e o Nada

por Álvaro Hauschild

Pintura de Hieronymus Bosch.

Se existe um mal concentrado, no país e no mundo, que freia o progresso das faculdades humanas e escancara a porta aos infernos múltiplos, doenças que estiolam e abatem o homem contínua e ininterruptamente, no qual podemos descobrir até mesmo um bode expiatório necessário de ser sacrificado, este mal não é este ou aquele partido político, nem esta ou aquela posição social, mas a classe média em si. Compreende-se por classe média não só um grupo de pessoas em uma dada condição social, mas um ideal, uma maneira de pensar, um modo de vida; pois é justamente isto o que está por trás da classe média. Ela, diferentemente do que muitos pensam, não é um grupo de pessoas cuja renda está "acima do pobre e abaixo do rico" (modo economicista típico da classe média de classificar as pessoas) - não, ela é uma ideologia antropológica, um modo especial de pensar o homem e o mundo, e merece ser chamada de "média" tão somente porque não é uma coisa nem outra, assim como não é nem pobre nem rica também não é erudita, nem política, nem religiosa nem humanista. Ela é um termo médio, um nivelamento por baixo feito na humanidade; estamos de acordo com Dugin, a classe média é um zero, e é por isso culpada por refrear o espírito humano em todos os âmbitos e níveis, espirituais, sociológicos, antropológicos, e até mesmo científicos e morais.

O ideal da classe média é o bem-estar, mas não o bem-estar social, nacional, intelectual, é o bem-estar individual. Uma dada teoria concebe o indivíduo, o analisa, decide o que é bom e ruim para ele, e então, considerando (preconceitualmente) a sociedade como um coletivo de indivíduos desordenados, generaliza as conclusões tiradas da análise para toda a humanidade, impondo-as aos homens, comunidades, tradições, religiões, de todo o mundo, arbitrariamente. É por isso que a classe média é apátrida e globalista, e em sua miudez passa a julgar os povos do mundo todo a partir do seu ponto de vista.

Mas o que é o "bem-estar" da classe média? A conservação física do indivíduo e o prazer, a satisfação dos sentidos. Nisso se resume toda a "existência" da classe média: negando a metafísica, ela se torna escrava dessa necessidade ilimitada de satisfação individual, que ela jamais vai ser capaz de compreender e de curar. Por trás desse ideal há o nada metafísico, a renúncia dos caminhos que ultrapassam o sensitivo e o humanamente lógico - aqui, a negação de Deus e a supervalorização do "eu", do ego; até mesmo quando os "conservadores" se dizem protetores da religião, o fazem em vista tão somente de uma ferramenta de controle e manipulação social, um "ideal para as massas", e não em busca de um dogma a ser estudado, especulado e alcançado. Este espírito do homem médio se contrapõe não aos ideais e movimentos (sociais e ideológicos), mas à radicalidade deles: é a raiz, o centro, o ponto supremo, que o homem médio teme acima de tudo, pois é neste centro que seu ego se dissolve e se funde num todo superior e metafísico.

Assim, o homem médio apoia, por exemplo, o culto "religioso" - mas não a ortodoxia, porque aí é exagero. O homem médio apoia a pesquisa científica - mas não a especulação metafísica nem os extravasamentos das ciências naturais. Ele apoia o "exercício físico para a saúde" - mas não os desafios dos esportes mais radicais. Ele apoia as lutinhas de boxe, repletas de regras e intromissões - mas não o duelo. Apoia as forças armadas para "proteger o cidadão" - mas não um Estado guerreiro. Apoia os monumentos "bonitos" - mas não os grandes e sacros, que exigem e despertam um espírito ativo no homem, e assim por diante. Ou seja: o homem só apoia o que lhe traz vantagens certas e sem esforços; mais do que isso: ele oprime brutalmente todo espírito ativo, virtuoso, sedento de verdade e vitória metafísicas, que percorre caminhos suprahumanos e luta batalhas entre deuses e demônios. Assim, esta ausência de apoio para a metafísica, para o duelo, para a guerra, entre outras coisas, não é uma simples indiferença, é uma opressão, uma oposição, ódio virulento,, pois teme acima de tudo o radicalismo das realidades suprafísicas, suprasensitivas e supralógicas. Ou seja: o homem médio quer arrancar prazer em ver dois homens sangrando no "round", mas ataca e demoniza a inocência de um soldado "fanático" que se sacrifica pela pátria; ele quer que a ideia de Deus conforte sua vazia e abismal existência, quer usar este próprio Deus que o criou, e não quer fazer parte d'Ele, não quer se dissolver no seu Bem nem buscam sua Verdade.

O homem médio vai cortando assim todos os "extremos" absolutos - vai cortando as profundas raízes ontológicas da existência humana, e vai se adonando do mundo, moldando a obra de Deus a seu bem prazer, tal qual o Príncipe do Mundo, Lúcifer.

A Religião do Homem Médio

Para começar, o homem médio é irreligioso, ele não participa de religião nenhuma. Ele não tem um espírito especulativo, a sede ontológica que leva ao aperfeiçoamento de si e ao aproximamento a Deus; ele precisa, carente como é com seu ego vazio, de uma fantasia, um ideal, e é por isso que lhe é o bastante o protestantismo, que não passa de uma justificação dos pecados. Pois é disso que o homem médio precisa: de algo que mascare, que crie pomposidades e formas "agradáveis", sentidos falsos para os seus pecados, ele quer acima de tudo que um "Deus" justifique cada um dos seus crimes existenciais. É por isso que os homossexuais e pedófilos se legitimam pelo "amor", por exemplo, o que não passa de pura blasfêmia, não contra Deus inatingível, mas contra a própria existência humana em si, que destrói seus próprios conceitos, pontes do auto-conhecimento e da cura universal.

O mesmo acontece com o catolicismo: passou a amar demasiado a vida, desprezou a morte, e assim isolou o homem da força dos anjos e da origem divina do homem, que está para além da vida, num futuro que é morte. O homem passou a temer a morte, a se isolar dela cada vez mais, a criar artefatos de segurança e preservação da vida - um árduo trabalho completamente inútil, totalmente verborrágico, jogado fora. Paradoxalmente, isso o tornou ainda mais frágil, inseguro, infeliz e, acima de tudo, vazio. Cansado do catolicismo, o homem, desesperado, busca um conforto no Oriente, mas incapaz de compreendê-lo, o distorce e, roubando e se apoderando dos símbolos orientais, cria um novo paraíso terrestre: os movimentos new-age, o psiquismo, que invade o meio intelectual e político. Podemos notar aqui claramente como o homem médio, ocidental e moderno, não está interessado em conhecer, humildemente, um modo diferente de ver o mundo, mas acima de tudo busca fantasiar, distrair-se e legitimar seu próprio modo de ver o mundo - em tudo, em todas as religiões, culturas e tradições, busca um meio de espelhar e refletir seu próprio modo de pensar, que julga ser, evidentemente, universal.

Mas, a despeito do seu instinto de destruição, distorção, camuflagem, perversão das religiões, podemos notar no homem médio um caráter que, tomando uma direção oposta às religiões, ainda assim a elas se assemelha. O homem religioso tem sede ontológica, ele não descansa em vida, é consciente da sua limitação existencial e busca um preenchimento próprio; assim, orienta sua vida a fim de enxergar na natureza, no mundo, símbolos, sinais do caminho metafísico a ser percorrido por sua alma. Ele sacrifica o mundo contingente por um outro, superior e eterno; é todo um modo de pensar que se reorienta, mas que acima de tudo é orientado: o caminho é descoberto, desvelado pelo homem, mas quem fornece o caminho e a força é Deus. Aqui, o homem religioso é um meio para que a força divina percorra seu próprio destino, o homem é a própria consciência divina conhecendo a si mesma, o próprio anseio divino amando, quer dizer, preenchendo, religando-se a si mesmo. Ele é vazio, mas tem sua morada, seu "cheio", seu telos, e é Deus. Já o homem médio, que não é outra coisa que o homem profano, também é existencialmente limitado, e talvez até saiba disso, mas não tem a consciência necessária para o vislumbre intuitivo e real desse vazio, capaz de lhe despertar a sede ontológica e religiosa. Ele se segura num ponto fixo o mais cômodo possível e se nega a olhar mais longe, e este ponto fixo é o mesmo do de Descartes: o "eu", o "ergo sum". Assim, ele se orienta em torno desse "eu", e toda a natureza (a relação homem-mundo ou, o que dá no mesmo, homem-homem) é simbolicamente e fisicamente esquartejada em vista disso; é toda uma existência que se orienta a partir de um dogma cômodo (o "eu"), sobre cuja existência ou modo existencial não se discute. Este, o homem médio, sacrifica a Criação tanto quanto possível por este "eu"; aqui podemos perceber que há um modo de pensar todo sistematizado e fechado, que interpreta a natureza e a existência não humildemente, como quem desvenda verdades, mas a partir de um dogma artificial. E, não obstante, ele continua não sendo o sujeito dos próprios atos, ele se entrega a um impulso que vem desse "eu", mas que não conhece nem deseja conhecer; metafisicamente, a existência antecede o "indivíduo", a pessoa no mundo; a substância e o espírito são dados na constituição do homem como o conhecemos onticamente. Quer dizer que todos os princípios pelos quais o homem age não pertencem a ele; até mesmo o ser, e acima de tudo o ser, não pertence a ele. Ele continua sendo guiado, orientado no mundo, mas por um descaminho: ele se nega a vislumbrar o caminho e ter de percorrê-lo, então é arrastado pelo tempo e subjugado à trágica circularidade que não encontra destino. Quer dizer: ele é guiado por um repuxo para longe de Deus, e sua "liberdade" e "livre-arbítrio" não significa outra coisa que a subjugação a uma lei fechada do sistema ôntico, à lei dos entes que sozinhos são como privações de um todo transcendente. O homem médio é um errante no mundo: embora tenha posses, bens materiais, não consegue jamais se sentir "em casa", e sempre anseia por mais.

É aqui que aparecem as cidades de Deus e do Diabo, as pátrias do homem religioso e do homem médio e profano. São os dois modos polares de existir do homem, um que busca a união e a ligação amorosa, harmonia do mundo, e o outro que divide e mutila, interpreta o "mundo" como um coletivo de "egos" independentes e fechados em si mesmos.

Enquanto o homem religioso é meio para uma força que vê o destino e para ele se dirige, o homem profano (médio) é meio para uma força cega, ou no mínimo míope, que age, atua, mas sem direção - por isso o homem médio é barulhento, volúvel, e tão distraído pela multiplicidade do mundo que não percebe e não conhece seu próprio caráter, suas próprias faltas e, acima de tudo, o quê do qual sofre carência e ausência. O religioso é orientado pelo e para o ser, o profano e médio pelo e para o nada (a confusão ôntica que tem o mais ínfimo de realidade ontológica); não há problema em dizer que o primeiro age por Deus e o segundo pelo Diabo, já que o Diabo, se opondo a Deus, se joga para o nada, sem perceber que ele próprio e este "nada" são ambos uma realidade ínfima pertencente e dependente de Deus. O sujeito do homem religioso é Deus, e o do médio é o Diabo, a mentira, a divisão e a confusão.

A Vida do Homem Médio

A pequeno-burguesia é hoje o tipo mais genuíno de classe média, tendo dinheiro ou não, desde que é sedentária e vive da malandragem de agradar o freguês, alimenta-se rotineiramente com o que há de mais superficial da informação televisionada e dos jornais; julga-se grande ao falar de economia, mas desconhece o básico, e tudo o que fala é puro falatório e algazarra. Embora seja pobre algumas vezes, almeja uma posição destacada (mas sem esforço), vontade que lhe faz copiar os ricos no que eles têm ou aparentam ter de orgulho e amor-próprio; por isso que, embora muitas vezes pobre, a pequeno-burguesia é mais cruel que as outras classes sociais - seu espírito é covarde e sua ambição, enorme, o que lhe dá um instinto de vingança e um impulso para o mais terrível individualismo. Enquanto o rico ainda tem alguma intuição do belo e do sublime, o pequeno-burguês não tem nada disso, para este tudo se reduz à "utilidade", à realidade doméstica, e o valor de uma coisa está em sua "eficiência" e capacidade produtiva, o famigerado "custo/benefício". A pessoa, para o pequeno-burguês, não tem valor algum, a não ser que dê lucro para alguém - se der despesa, então, é um peso do qual deve-se livrar, pois o pequeno-burguês precisa dar um jeito de viajar para a Europa, embriagar-se no final de semana, e andar de carro de luxo, para imitar o rico e manter a "posição social".

A pequeno-burguesia não estuda, a não ser o mínimo para obter algum dinheiro ou destaque social (aí, então, ela se agarra aos estudos com a fome e ambição de ostentar um "destaque", um diploma ou certificado qualquer), porque o negócio dela é o falatório, o entretenimento e a ostentação: gasta todo seu tempo falando dos outros, passeando em shoppings, embriagando-se e fuçando a vida dos outros em vista de "encontrar algum podre" e um alvo; brigas e discussões completamente sem-sentido, inúteis, paradoxalmente, fazem parte da sua vida, como um meio inconsciente de se distrair do tédio existencial que a imbecilidade e o distanciamento com relação a Deus provocaram.

Aquilo que os pobres chamam de "ricos", na verdade, são os pequeno-burgueses, donos de pequenas empresas, que ostentam e por isso aparecem mais que os realmente ricos, estes que estão em geral trancafiados em escritórios ou em viagens a negócios, e muitas vezes se locomovem mais de táxi e choferes em horários de pouca movimentação nas ruas; os ricos dificilmente frequentam shoppings e outros locais públicos, o que não quer dizer que não ambicionam, não ostentam e não sejam crueis também. A diferença é o objeto de ambição e o meio social; o rico necessariamente se envolve mais com a política, financia projetos "públicos" e age unicamente em vista do sucesso dos seus negócios, manipulando os pequeno-burgueses como ratos em gaiola - aqui não deixa de estar também a "alma" da classe média, cujos anseios são meramente econômicos e individualistas. Acontece, no entanto, de o rico frequentar ambientes mais silenciosos e solitários (viagens, salas de espera, escritório, etc.), nos quais é possível surgir interesses mais profundos por leituras, artes e até filosofia e religião, mas que muito raramente surtem algum efeito em alguém completamente preso a uma máquina financeira internacional com a qual ele próprio colabora.

No fundo, todo interesse "clássico" do homem médio, seja rico ou pobre, pertencendo à pequeno burguesia ou não, na verdade não passa de afetação sentimental e imagem falsa, máscara. O homem médio quer ser visto como erudito, como um "distinto", por isso estuda alguma coisa básica de francês e lê Voltaire e Kant, na melhor das hipóteses; tudo não passa de um eruditismo típico do individualismo, que não tem interesse algum em avançar nos estudos e na meditação, mas tão somente ostentar e "matar o tempo" com "coisas superiores" - até enjoar de tédio e resolver gastar algum dinheiro em putarias, traições e depravações do tipo.

Essa mentalidade freia a especulação científica do meio acadêmico, desvia o foco político do avanço científico para o "social", desvia o interesse religioso para o entretenimento, e acaba cristalizando um país inteiro, estagnando e fatigando até mesmo os homens mais capazes e talentosos, impedindo-os de avançar nas suas artes e ciências, ou então filosofia e religião. É uma massa inteira engessada que prende e obriga os mais talentosos a abandonarem as disciplinas para se transformarem em escravos em indústrias e comércios da burguesia, profana e individualista.

Embora os ricos parece que estão "à parte", são parte da causa de tudo isto: a pequeno-burguesia é filha dos especuladores financeiros internacionais, do modo de pensar moderno-iluminista-contratualista; a pequeno-burguesia é o que essa gente chamaria de "projeto final" e acabado: uma genuína classe média, urbana, pacífica (covarde), completamente desumanizada e atomizada, como sonharam os ingleses do século XVI e XVII, e o próprio Kant com sua "paz universal". Esses caras só não imaginavam que seria esse mesmo tipo de "homem" que transformaria o próprio homem em mercadoria - o homem deixou de ser o lobo do homem para ser o torturador, o carrasco, num mútuo sado-masoquismo social.

Os partidos neoliberais, muitas vezes auto-proclamados "conservadores", para enganar os bobos, defendem a classe média como um modelo universal de sociedade, em que cada indivíduo tem o "seu espaço", os "seus direitos" e os "seus deveres jurídicos", em um Estado secular e laico (embora possa se auto-proclamar até cristão), desumanizado, mecanizado e altamente burocrático - o Estado, aqui, é uma máquina, e não há pessoa, autoridade alguma, para resolver pessoalmente os problemas populares. As relações humanas são gradualmente cortadas em uma cada vez mais monstruosa formalização da sociedade e da própria vida humana. "Vida humana" passa a significar tão somente o indivíduo, sua "integridade física", como se fosse possível uma existência individual, completamente independente de um todo maior, tanto no contexto social como no religioso e metafísico. As crueldades e os problemas sociais só aumentam e se multiplicam com a classe média: as ambições mesquinhas colocam os indivíduos uns contra os outros, e na maioria dos casos é o melhor dos homens quem se dá mal, pois não gasta tempo o suficiente estudando meios para "enrabar" o outro, sejam estes meios brechas no sistema estatal, alguma astúcia cotidiana ou até mesmo meios legítimos sustentados pelo sistema jurídico, "de direito", que coloca nas mãos de alguns o poder de devastar e controlar terras e matérias-primas, alimentos, enquanto outros ficam sem nada, não tendo o básico e necessário sequer para a existência humana.

O homem médio, sua visão de mundo lhe faz ter na cabeça que um documento feito por mãos humanas lhe dá direito para controlar a natureza e se apoderar dela (ou de parte dela, que seja!) - este é o princípio de todo o mal, e primeiro coloca o homem contra a natureza, depois põe os homens uns contra os outros; e não há ciência maior para revelar um conhecimento metafísico e real disso tudo do que a Bíblia (católica e ortodoxa, não protestante). Apoderando-se de um bem necessário, o burguês pensa ser um absurdo reparti-lo com os outros, pois é "dele", está dentro da lei que outorga a cada um "o que é seu", seja por meio do "trabalho", do uso, da especulação financeira, da herança ou outro meio igualmente ilusório, falso e arbitrário de propriedade. Comunistas, capitalistas, nacionalistas, anarquistas etc., são todos aspectos deste mesmo mal que se acha no direito de conceitualizar, delimitar, esquartejar e repartir a natureza e o próprio homem, caráter típico de tudo o que é moderno e pós-moderno. Contra isto, deve se opor um distributismo que leva em consideração a harmonia do homem com a natureza, o respeito à natureza e ao homem, à vida e alma do mundo, que torna homem e natureza dois polos que colaboram e participam de um bem maior e orgânico - extrair o mínimo necessário e retornar o máximo possível, abandonar a tecnologia e a extração para o entretenimento (o que é uma escravidão inútil da natureza), e devolver a todos os homens o direito de alimento e hospedagem, seja onde for e de quem for, em prol de uma sociedade voltada não para a constante e interminável alimentação dos incuráveis desejos egocêntricos, mas para a realização ontológica do próprio homem. Reproduzindo um belo pensamento do papa Francisco expresso recentemente na Bolívia, temos que dizer que a riqueza de um povo está na sabedoria que os velhos transmitem aos jovens, tradicionalmente de geração em geração - através da arte, dos rituais comunitários e religiosos, mas também através da filosofia popular e da metafísica.

A Formalização e a Destruição dos Ideais Sagrados (Pátria e Família)

Todo conceituar e formular é um delimitar, um determinar arbitrário, que inventa limites falsos para "melhor entender"; por isso os racionalistas (e empiristas também) se desesperam em predicar ou significar de "Deus", de "homem", etc., sem nunca, no entanto, encontrar uma fórmula, um conceito, justo com a realidade. Assim, recorreram à lógica, que segundo eles é imparcial, para definir homem, mundo, vida, etc.; é por isso que, na concepção deles, o homem foi reduzido a uma fórmula universal: o indivíduo. Mas o que é o indivíduo? O equivalente humano (pode-se perceber um moralismo sem sentido aqui, ao beneficiar o homem com um conceito distinto) para o átomo das coisas. Mas com a pós-modernidade, em que tudo o que resta por destruir será destruído, não seria de se admirar se "indivíduo" deixasse de existir, e o homem se igualasse definitivamente a um conjunto qualquer de partículas subatômicas inertes no universo.

As noções de família e pátria datam de milênios atrás, mas, como tudo na vida e no cotidiano do homem, sempre instauradas e legitimadas por alguma religião ou, enfim, por princípios religiosos. Foi na Idade Média, porém, que essas noções ganharam a forma herdada a nós, ocidentais. Ideais cristãos, família e pátria são núcleos, comunidades cujo princípio e fim são o Deus cristão e a religiosidade: a pátria, uma mãe metafísica (o monarca, um pai), a família, um seio, um lar onde o Pai reina dos Céus, mas se mantém presente na vida íntima dos homens. O lar, assim, é uma instituição religiosa, tem um motivo, um fim, que é o aperfeiçoamento religioso, tal como a pátria, que por isso deve ser governada por uma família abençoada (a realeza) e acima de tudo por um monarca, um rei cuja fé e profissão deve ser a Igreja cristã, católica e ortodoxa. O lar, assim, deve acima de tudo orientar os homens à oração, à fé e, portanto, ao retorno luminoso do homem perdido e desorientado pelo pecado rumo ao Deus, que é, na verdade, a pátria e o lar originais de toda a humanidade.

Não foi necessário aos medievais uma exaustiva conceituação da pátria e da família, o princípio religioso era uma meta e a multiplicidade de formas era irrelevante e se compreendia facilmente, intuitivamente, no mais íntimo espírito humano. Mas foi com a dissecação dos pássaros, ou seja, com a vontade profana de alguns intelectuais e políticos (no caso, nobres) de começar a enciclopedizar o mundo e dar "significados fechados e imortais" a tudo, repartindo e separando arbitrariamente o mundo, a natureza e a sociedade (que na religião são um só), que no fim da Idade Média já se separava a religião de toda a vida cotidiana do homem, e com isso arrancava-se todos os princípios que davam a legitimação da própria vida humana como um todo - era a vida humana que deixava de existir e, de acordo com Nietzsche, Deus morria. A partir de então o Ocidente caiu num abismo e continuou a decair cada vez mais ao fundo, e mais rápido, mais estressado e desesperado: as cidades, com a modernidade, se encheram, as atividades econômicas ganharam prioridade e se impuseram no mundo a todo vapor, a velocidade da vida cotidiana aumentou e continua aumentando até hoje; e com tudo isso, todos os ideais cristãos e os princípios da vida humana foram ruindo e desaparecendo. Por sua vez, a atividade intelectual também aumentou (mas se tornou inferior, superficial e doméstica), e passou a refletir o desespero do homem de encontrar um ponto fixo, uma verdade, uma luz no fim do túnel; pois a metafísica foi negada e até proibida, perseguida, filósofos foram mortos e torturados; logo mais se degeneravam os corpos hierárquicos das monarquias, as nobrezas abandonaram seus deveres religiosos, ocupando-se com tão somente a economia, até que isso tudo provocou sua própria queda e desaparecimento do mundo. A pátria foi substituída pela república e pelas liberal democracias, cujas leis desumanizam o homem continuamente.

Hoje, tendo a família sobrevivido por motivos de conveniência política até aqui, no entanto, ela sofre seus últimos golpes e já dá seu último suspiro, cuja alma já desapareceu há décadas. Antes da família sofrer estes ataques derradeiros, porém, ela sofria na boca dos intelectuais a dificuldade e impossibilidade existencial: sem base religiosa, sendo o indivíduo a célula da sociedade, a família perdeu seu sentido; não havia mais uma tradição familiar, e o composto da família se tornou conveniência jurídica para a herança financeira, e só. Mas como algo concreto, a família há muito deixou de existir. Ela foi então objeto de um interminável diálogo, puro falatório confuso, principalmente na política: pretenderam, alguns, entender a família, então começaram a "dissecá-la", ver no que consistia, delimitar, e dar significado a ela; outros fizeram o mesmo ao tentar defendê-la, e outros para destruí-la, arrancando dela o direito de existência num mundo que já não tinha mais espaço para ela, uma convenção tão frágil. De conveniência jurídica, passou a ser um fardo aos indivíduos que se viam presos a um determinado grupo de pessoas; estamos vivendo a época em que estes indivíduos buscam expurgá-la e expulsá-la da realidade humana através do poder do Estado secular e, principalmente, através das mídias, da educação e dos meios produtivos financiados e controlados por especuladores financeiros. Então alardeiam (não sem uma certa razão, pois a família sem a legitimidade e o fim religioso é uma arbitrariedade) "o que é família?", provocam discórdias, expõem o rosto de uma instituição sem sentido. Por que "família" não pode ser assim e assado (ver argumentos homossexuais, bissexuais, trans, etc.)?

Da família só restou o conceito, toda a realidade dela foi esvaziada, e é por isso que só resta agora o conceito desaparecer, e não há mais sequer o que delimitar - seria preciso reinventá-la, oferecer um valor positivo, ou seja, um conceito novo, todo outro, pois este já se desfez totalmente, nadificou-se, e do nada não se pode sequer delimitar ou, então, significar.

Paralelo a isto, os núcleos humanos, as famílias, os lares, no que ainda são formalmente, juridicamente, só funcionam sob as leis da economia: pai e mãe têm a função de sustentar a criança e prepará-la para o mercado de trabalho; esta criança, por sua vez, na melhor das hipóteses, será ou pai ou mãe, reiniciando o ciclo. Ou seja: a religião está expulsa do cotidiano e da realidade humana mais íntima. O homem tem uma função: ser escravo do mercado de trabalho, e é "homem" somente enquanto indivíduo. E não há escapatória: fora deste ciclo o homem só encontrará a fome, o abandono, a prisão e a morte, pois fora deste sistema ele não tem direito algum, em suma, ele é um ninguém, um nada. Já falamos anteriormente sobre o sistema jurídico legitimar o direito de cada um, que dá "a cada um o que é seu" - pois, fora deste sistema, ele não encontrará nada livre, tendo o mundo sido repartido em propriedades individuais. Aqui, o sistema transforma a família em uma tirania do pai e da mãe, que não possuem legitimidade religiosa para se impor, e são tão somente resquícios formais de uma instituição estiolada e ressecada, degenerada e perversa. Acabando por se tornar um fardo para o homem, será destruída completamente e apagada da memória das classes populares e médias.

Mas não devemos chorar a queda destes ideais apodrecidos. A família, como a pátria, há muito morreram, no início do século XX. Hoje é só o fardo jurídico que está sendo apagado, a sombra. E essa sombra de fato deve ruir, é bom que caia. A família como uma instituição jurídica não deve existir - a única família legítima é a instituída pela religião, cujo lar é a intimidade com Deus, com o belo e sagrado.

Aqui podemos notar a tirania do Estado secular e da "família" jurídica que freiam os homens talentosos e inteligentes, capazes de se elevar a um fim maior, como uma pesquisa científica, metafísica, belas artes, etc. A função econômica imbeciliza o homem, funda o "homem médio", e este, não sendo capaz de enxergar além das sombras, se esforça em impedir e coibir, com seu poder, uma vontade que escapa dos seus limites medíocres, curtos. Então o talentoso é visto como um extremista, um fanático, um "irracional", e é cruel e implacavelmente punido por isso, por conta de um sistema embrutecido e suíno, letárgico, burro, lento, intelectualmente fraco, como todo homem médio, preocupado tão somente com seu dinheiro e seu entretenimento individual, sempre pervertido. A economia, pois, serve melhor ao homem perverso, egoísta, preocupado somente com seus ganhos e vantagens, sua "satisfação pessoal", e é cruel com todo aquele que se sobressai por natureza e por espírito; os maus se juntam para aniquilar os talentosos, caso não puderem dominá-los e dar um jeito de lucrar com eles, pois temem acima de tudo serem superados em suas vantagens; temem perdê-las para outros, que na verdade nem as desejam para si e até mesmo as desprezam.

Não há, portanto, apenas um acidente social, um mero problema social, há sobretudo um problema religioso, metafísico, cujas consequências interferem nas maiores profundezas do caráter e do espírito humano; é isto, por sua vez, que em uma escala social leva aos problemas que conhecemos muito bem, e que se multiplicam quanto mais tentamos resolvê-los apenas superficialmente (pois ao resolvermos assim, conceituamos e delimitamos apenas juridicamente, e a delimitação é paralela ao dualismo, à pluralização). O que há é uma diversificada, porém interligada como uma rede, tendência ao niilismo absoluto, ao nada, em praticamente todo o Ocidente, moderno, irreligioso, laico, racional e sentimental (não espiritual) - é uma tendência que tem o princípio da falsidade (o ψευδής grego) absoluta (pois o nada niilista é falso, e a evidência é a própria existência, o pensamento humano e o mundo), um princípio que orienta uma rede global e universal, como uma aranha perversa que sozinha controla e remenda continuamente sua teia.

Este princípio não é um só partido político, nem um só tirano, não podemos alcançá-lo com a mão - mas podemos presenciá-lo metafisicamente, encontrar certos centros de atuação, e notar que as pessoas obedecem, tal como outras obedecem a Deus e inevitavelmente seguem tendências semelhantes sem jamais terem dialogado e entrado em consenso comportamental. Não está errado, e não é loucura dizer que o sujeito da ação niilista é o Satã, enquanto as pessoas tendenciosas ao niilismo são suas escravas (são meios) sem o saber, inconscientemente. Pois, no fundo, o nada não é, não tem realidade, e só pode "existir" e "atuar" como uma ilusão, uma imagem (emprestada do ser, inevitavelmente) que não representa coisa alguma. E que exemplo para ilustrar esse fenômeno podemos tomar de melhor além da noção de indivíduo? Pois ele não existe, não tem realidade ontológica, no entanto, os auto-proclamados "racionais" nela se apegam com uma força descomunal e totalmente sem sentido. Crente de se livrar da metafísica, ao negá-la, o homem médio, niilista, só faz com que se afunde ainda mais inconsciente em leis metafísicas que não compreende - "liberta-se" de Deus, e se entrega ao Satanás que, por sua vez, também é criação d'Ele e às suas leis obedece, queira ele ou não.

Pátria e família, instaurados no ser rumo à transcendência, através da religião, são derrubadas em um ataque do nada, e o homem médio é o "projeto final" dessa massa corporal nadificada a qual ainda chamam de "homem" - o homem médio é um nada, um zero, assim é toda a classe média, apolítica, apátrida, laica e sobretudo desumanizada.

Publicado originalmente aqui

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Maurizio Lattanzio - O Comunismo Aristocrático

por Maurizio Lattanzio



Uma organização social, econômica e financeira deve, em primeiro lugar, se conformar a um princípio essencial: o elemento econômico (vinculado à ordem dos meios, caracterizado, pois, por sua instrumentalidade) deve estar subordinado ao princípio político (vinculado à ordem dos fins).

Assentada esta premissa, resulta necessário em seguida delinear as linhas essenciais e as articulações estruturais próprias da organização econômica e social do Estado.

Pudera parecer estranho que, no mesmo momento em que nos enfrentamos à exigência primordial de garantir a sobrevivência de nossa espécie, se desça à delineação de modelos organizativos econômico-sociais.

Perante isso, consideramos necessário fortalecer e difundir em sua totalidade o espectro teórico que reúne e expressa nossa alteridade racial, com o objetivo, pelo menos, de transmitir instrumentos político-culturais corrosivos e devastadores àqueles Camaradas que nos sigam e continuem nossa luta, perpetuando a ontologia da comunidade do povo na qual nos reconhecemos. Porém, algo talvez mais importante hoje, resulta igualmente necessário assinalar aqueles horizontes que, prescindindo da mais ou menos imediata atualidade prática, contribuam a romper, a separar as raízes enfermas através das quais flui o reflexo condicionado que, consciente ou inconscientemente, pode todavia nos induzir a dar ouvidos aos ecos de expressões que foram e são da direita.

O modelo organizativo que determinaremos e que tentaremos acima de tudo argumentar em suas possibilidades tradicionais, possui assim uma considerável eficácia "provocadora" político-psicologicamente, ainda que sem diminuir minimamente sua rigorosa conformidade com a cultura da tradição.

A organização estatal se configura como Estado popular, forma de comunismo aristocrático de tipo espartano e de inspiração platônica, caracterizado pela abolição da propriedade em qualquer de suas formas de manifestação.

Em nenhum caso se deve confundir a organização comunista da esfera econômica com o socialismo marxista, cujas proposições podem, por sua vez, se desenvolver inclusive no marco de uma sociedade que não seja integralmente ou estruturalmente comunista.

Habitualmente, o termo "comunismo" faz referência a ideologias que afirmam concepções fundadas sobre a estatização do ciclo produção-consumo; a terra, os meios de produção são propriedades do Estado e posse do povo que os utiliza segundo objetivos fixados pelas autoridades centrais, mediante o uso instrumental da planificação das necessidades e dos benefícios.

Hoje, o termo comunismo está associado automaticamente à ideologia marxista como sua consequência necessária sob o aspecto sócio-econômico. Há uma espécie de reflexo condicionado que induz a considerar o regime comunista da propriedade e do direito como monopólio exclusivo do marxismo. Semelhante reflexo resulta sem dúvida alguma estimulado pela incontestável relevância assumida pela ideologia marxista, que, ademais, aplicou de fato este esquema social e econômico no transcurso de seu desenvolvimento histórico-político durante o século XX. Mas isto não deve nos levar a erro: é bom saber que elaborações teóricas e aplicações práticas de caráter comunista remontam a épocas muito anteriores ao nascimento do socialismo marxista. (1)

À margem do regime comunista vigente na Esparta dórica, há que recordar especialmente o "comunismo platônico" teorizado precisamente por Platão na "República".

Na "República" de Platão, o regime comunista é ademais um privilégio que corresponde - em harmonia com sua função suprema - aos guardiões (fylakes), quer dizer, aos dois primeiros estamentos formados pelos sábios e pelos guerreiros, com estrita exclusão dos artesãos e dos camponeses. O regime comunista correspondente aos guardiões não se refere somente à propriedade, senão se estende também às famílias, com o fim de cimentar a absoluta coerência ética e por outra parte o absorvente serviço ao bem comum dos membros do corpo aristocrático. As relações entre jovens e velhos - cada um dos quais podia ser respectivamente o filho ou o pai do outro - ficarão estabelecidas sob um sólido tecido de solidariedade, alimentado pela desindividualização dos laços de sangue, e estendido ao conjunto da comunidade aristocrática. As uniões serão submetidas à disciplina do Estado segundo as regras da eugenia, enquanto as mulheres (as feministas chegaram atrasadas...), uma vez confiados seus filhos desde tenra idade aos modelos educativos implementados pelas instituições do Estado, poderão reempreender sua participação ativa na vida pública. Trata-se de uma ascese vertical, um volo imperiale, uma superação radical da sufocante amálgama feita de posse e desconfiança, hipocrisias e convenções, que caracterizam as relações interpessoais na podre e infame família burguesa.

"Um dia os trabalhadores viverão como os burgueses, mas por cima deles, mais pobre e mais simples, estará a casta superior. Esta será dona do poder". (2)

É um comunismo aristocrático e ascético, antidemocrático e anti-igualitário, que, por outra parte, não deixará de encontrar uma total ressonância nas prefigurações das sociedades comunistas não-marxistas ou cidades ideais surgidas no período renascentista ou ao redor do cristianismo das origens.

No livro segundo de sua obra principal, "Utopia", Thomas Morus descreve os contornos ideais da república perfeita. É a República de Utopia, na qual está abolida a propriedade privada e o uso dos bens está permitido a cada um segundo suas necessidades. Está suprimido também o uso do dinheiro, porque os bens se estimam por seu valor intrínseco e não como mercadoria de troca; e isso, a fim de evitar processos de acumulação e fenômenos especulativos. O trabalho é um dever social para todos, enquanto que as leis são poucas, simples e de fácil interpretação para todos. Em Utopia cada qual professa livremente a religião que deseja, mas todos admitem a existência de um ser supremo, a imortalidade da alma, o prêmio da virtude e o castigo do vício.

Na Cidade do Sol - notavelmente influenciada pelos modelos políticos de Platão e Thomas Morus - Tommaso de Campanella expressa suas aspirações relativas à política de "renovação dos séculos".

Os solares vivem em uma república - a "Cidade do Sol" - regida por um rei-sacerdote, o "Metafísico", e por três magistrados (Pan, Sir, Mor), isto é, "poder", "sabedoria" e "amor", que simbolizam os três atributos fundamentais do Ser desenvolvidos na "Metaphysica". Os solares praticam uma religião natural e possuem em comum a propriedade e as mulheres, enquanto que a procriação dos filhos está submetida a normas eugênicas. Segundo Campanella, a educação deve basear-se na experiência e em provas seletivas de aptidão, não em livros, do mesmo modo sua concepção política se funda em uma visão ético-religiosa e cósmico-mágica do universo.

No século XVIII, Morelly considera que a propriedade privada havia rompido a harmonia do estado de natureza, de cuja existência histórica Morelly, ao contrário de Rousseau, estava convicto. No estado de natureza reina a mais completa igualdade (com Morelly nos encontramos frente uma teorização comunista que, ainda não sendo marxista, resulta de qualquer modo já igualitária) e a comunidade de bens; a introdução da propriedade privada corrompe os costumes humanos e destrói suas inclinações naturais. O novo estado de natureza - cuja configuração comunista está descrita na Basiliade e no Códice - se caracterizará pela valorização da agricultura e do artesanato, enquanto que leis (anti)suntuárias impedirão a excessiva concentração de riquezas e os efeitos corruptores do luxo.

A influência de Morelly será notável com relação à ala mais radical da revolução francesa e no posterior socialismo utópico.

Charles Fourier acusa filósofos e políticos de adorarem duas perversas instituições da sociedade: o comércio privado e a família. Fundadas ambas na incoerência, quer dizer, sobre a fragmentação da sociedade em pequenos núcleos adversários e concorrentes, assim como sobre a mentira.

O comércio é o câncer da economia na medida em que representa uma atividade parasitária e fraudulenta dirigida a fomentar as condições favoráveis a qualquer atividade e manobra especulativa, do mesmo modo que a anarquia da produção e da circulação, o denominado "livre-comércio", é causa das crises econômicas mundiais.

No que concerne a família burguesa, baseada no egoísmo de casal e no matriarcado, esta pressupõe o crisol da hipocrisia e do convencionalismo, da esterilização das paixões e da miséria dos sentimentos (lógico e vergonhoso epílogo a um humorístico propósito de eternidade [sic] fundado sobre um "sim" dito perante um padre ou prefeito). Permita-nos sublinhar que hoje a família é isto, em um tempo no qual, por causa da "ausência de progenitores", extinguiu-se já qualquer função educativa da família em relação aos filhos, aos quais se transmite unicamente egoísmo, vileza e oportunismo. Não podendo ser outra coisa que uns fracos. A família burguesa? Uma carcaça em putrefação...

Para Fourier, o "trabalho sugestivo" deve se desenvolver dentro de comunidades denominadas "falanstérios", que estarão formados por um número de pessoas não superior a 1.600. Estas deverão desempenhar atividades genericamente relacionadas com o território circundante, ao extremo de se dotar também de uma pequena parte de indústria e de trabalho artesanal. Hostil a toda forma de socialismo igualitário e moralista, Fourier pensava que não era necessário suprimir a propriedade privada e a desigualdade social (a renda de cada associado é proporcional a seu trabalho, a seu talento e ao capital eventualmente investido), mas isto não deveria comportar o retorno de formas de competição e exploração ligadas à propriedade privada burguesa.

O Estado popular deverá constituir o tecido organizativo-institucional que acompanhe à obra de formação do "novo homem", preciosa substância celular do nunca extinto filão áureo da raça ário-europeia. Será necessário laminar e pulverizar os sustentáculos políticos, sociais e econômicos que mantém - qual sólidas plataformas - os processos de reposição das oligarquias burguesas e plutocráticas que dominam os regimes democrático-parlamentares.

Laços de clientelismo - entretecidos de forma implacável e enérgica dentro de uma sociedade na qual o homem brilha por sua ausência e predomina o vaga-lume - atados ao redor das burocracias do Estado, do partido e do sindicato; consolidados status sociais burgueses (porque se bem é certo que a burguesia é antes de tudo uma mentalidade - nisso estamos de acordo - não é apenas isso, dado que ela se expressa simultaneamente também na ostentação do poder e do privilégio particular mediante estratificações sociais muito definidas, concretas e socioeconomicamente caracterizadas); poderosas e determinantes concentrações de riqueza econômico-financeira obtidas de qualquer modo; são as bacterias nas quais e ao redor das quais se educam e nas quais, posteriormente, se espremem para sua engorda dentro das estruturas do Estado democrático os defensores, ou melhor ainda os servos que asseguram a hegemonia social do partido único da burguesia.

Trata-se de massa gregária à qual se faz passar fraudulentamente por classe dirigente, cujo único e muito difuso traço de identidade resulta artificiosamente conferido pela adesão às convenções sociais, aos ditados das modas culturais e a esse domínio da aparência no qual se funda e encontra respaldo e reconhecimento a micromoral utilitarista e os critérios de valoração quantitativos e materialistas do "último homem". E nos referimos aqui ao inseto travestido com máscaras grotescas que, na sociedade burguesa, em meio a esforços inumeráveis, parecem dotá-lo de um semblante mais ou menos humano.

No Estado popular a formação da aristocracia política aflui à margem de qualquer condicionamento econômico ou social proveniente da sociedade civil. A qualidade do homem se valorará pela capacidade de adesão a uma visão do mundo centrada sobre valores éticos e, ali onde se deem as condições espirituais.

A relação burguesia-sociedade, quer dizer a relação existente entre ocupante e espaço de ocupação, será substituída pela relação Estado-Comunidade do Povo, onde o primeiro resulta ser o evocador e a segunda o âmbito ao qual se dirige a chamada do Estado, a qual só uma minoria de eleitos responderá, melhor ainda, poderá responder, a fim de assegurar a reposição necessária, fisiológica, orgânica da aristocracia política do povo.

Integrados nas organizações políticas do Estado, os membros da comunidade, desde a mais tenra infância, estão situados em uma posição de paridade de condições nas quais não falham, em uma palavra não pesam, pré-concebidos status econômico-sociais mais ou menos favoráveis ou posições de privilégio adquiridas por qualquer meio. A impossibilidade técnica - garantida pela regulação comunista, que, não obstante, deverá conjugar-se com o nascimento de um novo tipo humano - de acumular individualmente bens econômicos instrumentais e de consumo, impedem que os membros do Estado popular façam depender sua hierarquia dentro das estruturas estatais da posse de riquezas materiais. Assim, se desenvolverá um processo de diferenciação hierárquica, enraizada na natureza física, intelectual, ética e espiritual (melhor ainda: racial) diferente de cada qual. E não ofensivas desigualdades baseadas na riqueza e na origem social, senão autênticas hierarquias qualitativas fundadas em uma diferente morfologia ontológica.

A organização comunista do Estado popular deverá criar espaços absolutamente livres em relação aos mecanismos e às dinâmicas contratuais e mercantis que caracterizam a sociedade burguesa, ou o que é o mesmo, deverá suscitar os pressupostos técnico-estruturais idôneos a fim de coroar a obra de desintoxicação com a qual o homem será libertado do veneno inoculado pela ética mercantil judaico-burguesa. Resulta imprescindível derrubar os pilares sobre os quais a "era econômica" se consolidou e prosperou, assinalando e destruindo as instituições econômicas e sociais que, objetivamente, constituíram o humus no qual o partido único da burguesia articulou sua ditadura hegemônica.

Um Estado que pretenda realizar sua essência aristocrática e hierárquica com o objetivo de permitir a seus membros o viver uma existência orgânica, não pode prescindir de acometer a soluções radicais que, situando-se mais além do niilismo, derroguem as fórmulas econômicas mercantis: "... deve ficar esterilizado o ambiente do qual o burguês extrai vida: tal é a razão de uma regulação econômica comunista!" (3)

O regime de comunismo de bens terá a missão de eliminar o diafragma econômico e contratual que, com a afirmação burguesa, constitui o único nexo vinculante entre um homem e outro. A supressão das articulações estruturais do capitalismo, uma vez confinada a economia a uma área marginal e inessencial (ergo: instrumental), criará um espaço livre capaz de permitir ao homem assumir e expressar sua real expressão e dimensão ético-espiritual. A inexistência de finalidades individualistas alheias ao Estado, tornará natural e lógica a abolição do regime de titularidade privada dos meios de produção, da riqueza imobiliária e da concentração financeira, elementos e interesses objetivamente estranhos com relação aos fins de Estado.

Não obstante, deve admitir-se que a função desempenhada pela propriedade privada na civilização clássica ou na romano-germânica medieval (4) não foi aquela atribuída nas sociedades burguesas: ou seja, uma entidade econômica e quantitativa objetivo de exploração produtiva, propiciadora de bem-estar material e dinheiro, passaporte que permite trepar na escala dos chamados (sic) "níveis sociais". Por outra parte, não se pode negar que o quadro econômico, caracterizado por uma relação equilibrada entre produção e consumo, não era em absoluto o do atual "demonismo produtivo", senão, ao contrário, apresentava singulares analogias e pontos comuns com que, hoje, poderiam ser atualizados no contexto de uma economia de tipo comunista.

A propriedade privada, salvo para o pensamento liberal-democrático (veja-se Locke), não representou nunca um valor por si mesmo: não teve jamais um crisma de "sacralidade" e de inviolabilidade; não possuiu nunca uma autônoma e intrínseca essência capaz de lhe conferir um valor que a eleve por cima de sua função meramente instrumental. Que fique bem claro: nós niilistas-revolucionários não temos fetiches a adorar, e a propriedade privada não é outra coisa que um dos ídolos do mundo burguês. A propriedade privada é hoje a projeção organizativa e estrutural do fracionalismo individualista-burguês. Para nós, o regime jurídico ao qual se submetem os bens materiais desempenha uma função dependente - por conseguinte: relativa e instrumental - frente à categoria do Político, a qual não admite nem consente a existência de magnitudes absolutas e intocáveis sobre o plano contingente da esfera sócio-econômica.

"Ao princípio se possuía riquezas porque se era poderoso. Agora se é poderoso porque se tem dinheiro. Só o dinheiro eleva o espírito sobre um trono. Democracia significa identidade perfeita entre dinheiro e poder".

Antes propriedade e riqueza expressavam posições de poder qualificadas sob o aspecto de grandeza interior; agora as posições de privilégio são consequência da solidez do patrimônio econômico e financeiro, adquirível mediante os típicos dotes da mentalidade mercantil judaico-burguesa.

Por conseguinte, existia um vínculo orgânico e imaterial entre personalidade e propriedade, entre função desempenhada e riqueza, entre dignidade pessoal e posse de bens. Deste modo, dotando à economia de um sentido que a transcendera, ela era impedida de tornar-se autônoma e se constituir em razão de si mesma, objetivo que esmaga, afoga e extingue toda forma de dignidade, de aspirações e de sensibilidade.

Estas observações deveriam ser suficientes para demonstrar o infundado de possíveis refutações esgrimidas por quem quisera ver na utopia comunista-aristocrática do Estado popular uma torpe imitação dos regimes socialistas, mais ou menos reais, de inspiração marxista.

Mas, por rigor expositivo, resulta interessante deter-se no conceito de comunismo.

Comunismo, na acepção marxista, não é copropriedade, porque esta é um modo de ser da propriedade, assimilável ao conceito de "communio" elaborado pelo direito romano. Só uma pessoa ou uma comunidade de pessoas ou uma entidade que possua um conteúdo ontológico (6) podem ser titulares de uma propriedade.

O Estado socialista que, segundo Lênin, está destinado a terminar "na lixeira da história", não pode ser titular dos bens da nação, posto que não é mais que mera superestrutura, carente de uma essência que pudesse dotá-lo de uma realidade ideal de tipo platônico. Para os marxistas, o Estado é um aparato burocrático-repressivo, um instrumento útil durante uma fase de transição no curso da qual deveria acontecer a passagem do socialismo ao comunismo. Assim pois, na sociedade marxista, a abolição da propriedade privada é em realidade expropriação da propriedade do povo em benefício da oligarquia técnico-burocrática, em cujas mãos se realiza a coincidência entre poder político e poder patrimonial. De fato, a propriedade sem proprietário não existe: a propriedade é do povo ou da oligarquia; a propriedade atribuída a instrumentos ou a fantasmas jurídicos isentos de conteúdo humano ou ontológico (o Estado marxista) é somente uma tela que oculta a exploração do povo por parte do poder oligárquico, que concentra em suas mãos o monopólio discreto dos bens de uma nação.

Nas concepções tradicionais, ao contrário, o Estado é o espaço das formas ideais, dos arquétipos ontológicos pré-existentes e superiores à realidade concreta que foi modelada neles e por eles. O Estado, portanto, "é", não constitui um instrumento senão um centro real de poder que pode, em consequência, ser titular dos bens da nação, dos quais concede a posse aos membros da comunidade do povo, que devem empregá-los de acordo com o bem comum.

A unicidade da Tradição informal (7) se expressa sobre o plano histórico mediante formas tradicionais distintas e múltiplas, que podem apresentar umas frente a outras características aparentemente divergentes. De onde, não se pode excluir a priori que a organização econômica de um ordenamento político inspirado nos valores da Tradição pode se configurar com perfis de tipo comunista.

Uma vez estabelecida a distinção entre o plano do político e o plano do econômico, este último poderá assumir as conotações organizativas mais variadas. A essência espiritual da Tradição não acarreta necessariamente sua manifestação concreta em um marco econômico institucional e organizativamente determinado a priori. Também um marco econômico estruturalmente comunista poderá ser sustentado e alimentado, impregnado e inspirado por valores tradicionais. A vida econômica será caracterizada por relações hierárquicas e solidaristas, pela coincidência entre vocação e profissão, e pela serena consciência de viver uma existência organicamente enlaçada com o Todo e conforme à própria natureza, a qual, por sua vez, permite uma consciente e responsável aportação à consecução dos fins do Estado.

O Estado não é capitalista nem comunista, porque, voltado a vincular-se a um plano de valores transcendentes o espaço econômico, não se identifica nem pode ser reconduzido, condicionado ou definido por uma determinada forma econômica organizada. A diferença qualitativa, ao contrário, deve ser buscada na influência que o princípio econômico exerce em uma sociedade, na autonomia decisiva e operativa e na capacidade de controle que o Estado possui em relação à economia. Não há que buscá-la certamente em diferenças de caráter técnico-organizativos.

"A verdadeira antítese não é pois aquela entre capitalismo e marxismo, senão a existente entre um sistema no qual a economia é soberana, mais além da forma que esta revista, e um sistema no qual fica subordinada a fatores extraeconômicos dentro de uma ordem muito mais vasta e completa, capaz de conferir à vida humana um sentido profundo e de permitir o desenvolvimento de possibilidades mais elevadas que ela".

Não existe conflito entre sistemas econômicos tecnicamente considerados, senão entre as diferenças posições que a economia ocupa em uma sociedade e entre as diversas estruturas internas dos tipos humanos que se situam frente a ela. Resulta pois fictícia a distinção entre diferentes sistemas de produção e distribuição de bens e da riqueza - reduzindo-se esta ao mero domínio organizativo-instrumental - quando o bem-estar das massas resulta o objetivo último em torno ao qual estes sistemas fazem convergir seus esforços.

Rechaçar conscientemente e não epidermicamente o dogma do determinismo marxista, com o qual se pretende modelar o homem e suas plenitudes espirituais, culturais e políticas sobre a base de relações de produção, significa atribuir importância fundamental não à esfera econômica considerada em si mesma, senão à posição ocupada por ela, à influência por ela exercida e à atitude com a qual o indivíduo se coloca frente ao fato econômico.

Em conclusão, consideramos o projeto comunista-aristocrático do Estado popular como um elemento já adquirido dentro do patrimônio cultural tradicional; assim, consideramos positivamente uma elaboração cultural que dote de um ulterior volume teórico a esta solução organizativa.

Não há necessidade de contrapor nenhum tipo de preconceito com relação às formas econômicas que assumirá a futura Restauração tradicional; em seu interior, inclusive o esquema organizativo do Estado popular poderá propor-se como solução funcional.

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(1) - O pensamento marxiano se orienta para a construção de um sistema sócio-econômico baseado na atribuição indiferenciada e igualitária do bem-estar material (bem-estar do qual, na época das especulações de Marx, gozavam só dentro da sociedade burguesa algumas classes sociais) ao conjunto da sociedade civil, na perspectiva da abolição do Estado, da total homogeneização social e da igualdade econômica. Na Suécia, Noruega, Dinamarca, por exemplo, se realizou - em um contexto estruturalmente distinto ao imaginado por Marx - o sonho messiânico da "sociedade sem classes" aspirado pelo intelectual judeu. Nessa sociedade desapareceram praticamente as diferenças sociais ou de classe, enquanto que o desfrute generalizado dos bens materiais ultrapassou amplamente o limite do supérfluo, no âmbito de um sistema social caracterizado pela presença de uma corrupta, obesa e satisfeita (inclusive ainda que o alcoolismo e os suicídios tenham uma incidência destacada) burguesia de massas, ofuscada e embrutecida por um estupefaciente materialismo prático muito mais absorvente socialmente que o chamado "socialismo real". Não existe questão social, enquanto que a religião protestante, longe de ser o "ópio do povo", é o fermento que permite às massas burguesas sublimar no Evangelho a visão mercantil, utilitarista e materialista da vida...poderia Marx desejar algo melhor?

(2) - Friedrich Nietzsche, Vontade de Poder

(3) - F.G. Freda, "A Desintegração do Sistema". O ambiente é o conjunto das condições físicas, químicas, biológicas nas quais se desenvolve a vida de uma comunidade de organismos. Na sociedade democrática, o ambiente é o conjunto das condições ou circunstâncias institucionais e estruturais, dos mecanismos econômicos e sociais que permitem ao burguês atuar em coerência com a própria mentalidade mercantil. Bancos e indústrias privadas, contratos e usura, livre iniciativa econômica e propriedade privada, representam os veículos jurídico-institucionais estrutural e funcionalmente adequados para a expansão infecciosa e a realização operativa da mentalidade burguês-capitalista. A supressão destas instituições econômicas e destas fórmulas jurídicas determinará o desarme material do burguês, privando-o do suporte instrumental idôneo para ativar suas potencialidades mercantis. Trata-se, definitivamente, da esterilização do ambiente, ao qual, não obstante, se deverá acrescentar organicamente uma eficaz terapia destinada a apagar a mentalidade burguesa, favorecendo, ao mesmo tempo, o nascimento e a afirmação do "homem novo".

(4) - Entre os antigos germânicos, assim como na civilização clássica e na romano-germânica medieval, a propriedade - empapada por valores espirituais, religioso e éticos e organicamente integrada no tecido social - concorre funcionalmente à conservação do equilíbrio econômico da comunidade do povo. A Sippe (correspondente à gens romana) dos antigos germânicos, conhecidos e descritos por Tácito em seu De Origine, situ, moribus et populis Germaniae, reúne em um contexto de relações sociais de tipo solidarista a um grupo orgânico de famílias descendentes de antepassados comuns de estirpe divina. No interior da Sippe o indivíduo não existe como subjetividade particularista de direito, senão que a própria identidade individual está radicada no grupo do qual forma parte orgânica integrante. Os membros do grupo gentílico cultivam as parcelas de terra circundantes, que não constituem uma propriedade individual senão pertencem solidariamente, como por outra parte os bosques e pastos, à Sippe. Fustel de Coulanges (A Cidade Antiga) escreve: "Conhecemos o direito romano da época das XII Tábuas; está claro que nessa época a alienação da propriedade estava permitida. Mas existem razões que nos levam a pensar que, no que concerne à época originária da Romanidade, a terra estivera submetida a um regime jurídico de inalienabilidade". O proprietário de um bem imóvel não é nunca um particular, mas uma família ou uma estirpe: "O indivíduo - escreve De Coulanges - recebe a terra somente em posse: pois de fato pertence também àqueles que morreram e aos que nascerão". No medievo romano-germânico o regime da propriedade está fundado sobre o benefício, que é a concessão de um determinado território por parte do senhor feudal ou do soberano a um vassalo a ele subordinado, no marco de uma ordem hierárquica piramidal de conteúdo ético e espiritual. Esta concessão não comporta direitos de propriedade senão somente o usufruto do bem (terra e castelos). Por sua vez, o vassalo - à margem de prover determinadas contribuições de caráter econômico (produtos da terra, etc.) - jura fidelidade pessoal a seu senhor pelo qual se compromete a combater em caso de guerra.

(5) - Oswald Spengler, "A Decadência do Ocidente"

(6) - "Ontologia" é um conceito introduzido no vocabulário filosófico a partir do século XVIII para assinalar a "ciência do ser", obrigação que Aristóteles atribui à filosofia primeira ou metafísica. A expressão "conteúdo ontológico" pode ser referida a uma entidade que "é" enquanto objeto de estudo por parte da "ontologia". A essência - por conseguinte: a realidade - pode constituir o fundamento da titularidade de um bem econômico. A propriedade de um bem não é, portanto, prerrogativa exclusiva de uma pessoa física ou de uma comunidade de pessoas, senão que pode ser atribuída a qualquer entidade que - mais além - da fictio iuris da pessoa jurídica (sic!) - tenha uma essência e, por isso, "conteúdo ontológico".

(7) - A Tradição informal, cujo plano se situa em uma dimensão cósmica transcendente, está constituída por uma única essência; esta se manifesta, desenvolve e atualiza sobre o plano histórico no marco de formas tradicionais organicamente diferenciadas, e, em consequência, adequadas à mentalidade e às disposições espirituais da comunidade na qual se desenvolve. A Tradição informal é o Princípio metafísico imanifesto ou totalidade da Possibilidade Universal. A manifestação do princípio metafísico implica em um processo de determinação no contexto de uma forma espacial, temporal e historicamente delimitada. A Tradição informal se diferencia e formaliza em seu modo de expressão, mas é única em sua essência transcendente.

(8) - Julius Evola, "Os Homens e as Ruínas"



sexta-feira, 17 de julho de 2015

John Romaniello - Da Mitologia à Masculinidade: Como a Jornada do Herói Pode Te Ajudar a Se Tornar um Homem Melhor

por John Romaniello



Eu quero lhes contar sobre um livro que mudará suas vidas. O livro não é novo. Na verdade, ele foi publicado em 1949 sem muito estardalhar. E ainda assim, desde sua publicação, ele causou um impacto que pode ser visto nos filmes que vemos, nos livros que lemos, e até na vida que vivemos.

Esse livro influenciou milhares de escritores e cineastas em sua obra - mas ele não é sobre filmes ou escrita. Esse livro em particular também influenciou incontáveis indivíduos em suas próprias vidas, ajudando a moldá-los em pessoas melhores, mas ele não é um livro de auto-ajuda. É um livro sobre histórias, e sobre narração de histórias - as histórias que impulsionam nossas sociedades, e a maneia pela qual as contamos. E por causa das comunalidades dessas histórias, ele é fundamentalmente um livro sobre nós, e a maneira pela qual vemos o mundo.

Mais importante ainda, é sobre como podemos nos tornar homens melhores. O livro é sobre auto-atualização em sua essência e possui uma abordagem replicável que se aplica a todo homem.

O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, é ostensivamente sobre mitos e mitologia. Mas as lições nesse livro podem nos ajudar a identificar e navegar os caminhos que tomamos para melhorar a nós mesmos e mudar nossas vidas, para nos tornarmos mais capazes de mudar, e melhores pessoas em geral.

Campbell, um professor na Universidade Sara Lawrence, estudou a sabedoria de cada cultura imaginável; ele olhou para tudo de religiões antigas à mitologia de religiões mais modernas como o Cristianismo, Judaísmo e Islã.

A pesquisa de Campbell o levou a focar em mitologia comparada; especificamente, ele olhou para o que os mitos de diferentes culturas tinham em comum, ao invés do que eles não tinham. Por todo lugar em que Campbell procurou, ele a encontrou: um único arco narrativo, a história ubíqua que cada cultura da Mesopotâmia à nossa sociedade ocidental moderna usa para transmitir informação, tradição e percepção terrena. Coletivamente, Campbell coloca essa informação em sua obra mais influente e seminal, O Herói de Mil Faces.

Pegando um termo de James Joyce, Campbell chamou esse padrão universal de monomito. Você pode conhecê-lo como a Jornada do Herói.

É um único mito, contado de mil maneiras diferentes; um único herói, com mil faces distintas. O monomito está em cada história que você já ouviu, na maioria dos filmes que você já viu - e está presente na sua vida, todo dia. E compreendê-lo pode fazer de você um homem melhor.

A Jornada do Herói e Por Que ela é Importante

O monomito começa com o personagem principal, ou Herói, em um lugar, e termina com ele em outro - tanto fisicamente como emocionalmente. Campbell afirma que este Herói é o mesmo, independentemente da história, e que ele aparece de diferentes formas. Isso é importante porque o herói pode ser a estrela do futebol ou o contado no cubículo nove. Os caminhos são diferentes, mas a jornada é a mesma.

Dentro de cada jornada, o Herói encontrará outros personagens que desempenham um papel essencial no crescimento. Campbell nomeou estes como arquétipos (o Arauto, o Mentor, a Deusa, o Trapaceiro, etc.), e eles aparecem na vasta maioria das histórias. É fácil encontrar um arquétipo uma vez que você saiba o que está procurando. Então, seja o herói Harry Potter ou Rei Artur ou Frodo, seu caminho é sempre bastante similar. Seja o mentor Dumbledore ou Merlin ou Gandalf, seu papel é sempre o de guiar o herói.

Essa estrutura aparece em todo lugar, mas é mais facilmente reconhecida em filmes e livros. Luke Skywalker começa sua jornada deixando seu lar em Tatooine, tendo grandes aventuras, e realizando seu potencial como Jedi. Os eventos podem ser diferentes, mas a jornada é a mesma assumida pelo Rei Artur. E é o mesmo exato curso que figuras proeminentes em histórias religiosas seguem. Campbell nos mostra quão preciso este conceito é, e como ele se repete de novo e de novo. E ele está acontecendo bem agora em sua vida, também.

Ainda não está convencido? Certo, vamos dar alguns exemplos e vamos olhar para os passos da Jornada do Herói. Enquanto o modelo de Campbell tem 17 fases, em prol da brevidade, eu prefiro a versão mais abreviada usada por Christopher Vogler em seu livro A Jornada do Escritor.



Agora, olhando para a figura, bem como para o esquema abaixo, você provavelmente pode ter uma boa ideia do que cada fase significa com base no nome; os exemplos servirão para convencer que tudo isso é aplicável a toda história que você já ouviu.

Fase da Jornada
Descrição
Exemplo
O Mundo OrdinárioO ponto de partida do HeróiDorothy Gale vivendo em sua fazendo (O Mágico de Oz)
O Chamado à AventuraO Herói percebe que há um mundo maior do qual ele pode fazer parteHarry Potter recebe uma carta de Hogwarts (Harry Potter e a Pedra Filosofal)
Recusa do ChamadoEm um momento de dúvida, o Herói decide não realizar a empreitadaLuke Skywalker diz a Obi-Wan Kenobi que ele não pode ir a Alderaan (Star Wars)
Encontro com o MentorOu o primeiro encontro com a figura do Mentor, ou o momento em que o Mentor encoraja o Herói a assumir a empreitadaDaniel LaRusso conhece o Sr. Miyagi (Karate Kid)
Cruzando o Primeiro LimiarO Herói passa do Mundo Ordinário ao Mundo Especial, e vê a diferença entre os doisO Narrador entra na casa de Tyler Durden pela primeira vez (Clube da Luta)
Testes, Aliados e InimigosO Herói começa a realizar tarefas que o ajudarão a se preparar para a jornada; ele também encontra amigos que o ajudarão e inimigos que tentarão detê-loFrodo deixa Valfenda com a Sociedade do Anel, e tem que aprender a como seguir na estrada conforme avança (O Senhor dos Anéis)
AproximaçãoPreparação interna e externa; usualmente inclui uma destinação imponenteNeo e Trinity reúnem um arsenal antes de partirem para resgatar Morpheus (Matrix)
O OrdálioO conflito central na história, o grande combate com o chefe, onde a possibilidade de morte é iminenteDorothy e seus amigos enfrentam a Bruxa Má em seu castelo (O Mágico de Oz)
Tomando a Espada/RecompensaTendo matado o inimigo, o Herói está livre para tomar o tesouro; às vezes é um item de grande valor, como o Santo Graal, ou uma pessoa, mas geralmente é algo mais abstrato, como o fim de uma guerraApós a morte do dragão Smaug, Bilbo e os anões estão livres para se apossarem de seu tesouro (O Hobbit)
Apotheosis e RessurreiçãoMuitas vezes, o Herói precisa apesar de todo seu crescimento, atingir um ponto de crise e se manifestar de uma só vez em um momento de iluminação chamado apotheosis; essa realização é o golpe mortal contra o velho "eu" e suas crenças, e o abraçar do novo; isso é pontuado por uma morte e ressurreição simbólicas (às vezes literais)O Narrador percebe que para que ele possa deter Tyler Durden, ele deve se matar - fazendo as pazes com sua própria morte ele aceita a mortalidade, e fica, por um momento, verdadeiramente em paz; ele atira contra si mesmo e vive, mas Tyler está morto (Fight Club)
A Estrada de VoltaO Mundo Especial, com todas as suas lições e aventuras, pode ter se tornar mais confortável que o Mundo Ordinário, e para alguns Heróis, retornar pode ser mais difícil que a partida inicialApós o Um Anel ser destruído, Frodo tem dificuldades para se adaptar a uma vida normal de hobbit no Condado (O Retorno do Rei)
Retorno com o Elixir e o Mestre de Dois MundosO Herói retorna ao lar mudado, e usa os dons recebidos e lições aprendidas na jornada para ajudar a melhorar outros; ao mesmo tempo, o Herói deve fazer as pazes com todas as mudanças pessoais pelas quais ele passou; ele deve reconciliar quem ele era com quem ele se tornouLuke, agora um Jedi, restaura o equilíbrio da Força, ajudando a trazer paz para a galáxia; concorrentemente, ele é capaz de resolver seu relacionamento com seu pai e seguir em frente (O Retorno de Jedi)
Mas a tese de Campbell não é simplesmente a de que quase toda cultura histórica encontrou uma maneira idêntica e eficaz de contar histórias; é a de que as comunalidades na narração existem porque elas são parte fundamental da experiência humana. O monomito não é apenas a estrutura de como contamos as empreitadas de heróis e personagens nas, histórias, é também como relacionamos essas histórias a nós mesmos, e, de uma maneira muito real, como compreendemos as coisas que estão acontecendo conosco.

Eu levaria isso ainda mais longe.

Eu acredito que apesar do monomito ser excepcional para narrar histórias, e portanto excepcional para explorar ideias culturais, ele pode ter um impacto tão grande quando aplicado a um indivíduo - quando aplicado a você. Colocando de forma mais direta, a Jornada do Herói é a lente perfeita pela qual ver qualquer mudança em sua vida - qualquer seja a nova jornada em que você esteja engajado, você passará por todas as fases do monomito conforme você cresce, se adapta, e finalmente cumpre seu objetivo.

Obviamente, eu não sou o único que sugere isso. Por anos, o modelo campbelliano tem sido usado por pessoas de várias áreas para ajudar o próximo a progredir; por exemplo, alguns terapeutas o usam com seus pacientes para ajudar a estruturar a psicanálise. Similarmente, ele é usado para ajudar pessoas a lidarem com o processo de pesar - afinal, as 5 fases do pesar tem seu espelho no monomito. Ainda outros o usam como esquema mental ou educação para o sucesso - ajudar pessoas a compreenderem onde elas estão na jornada não só ajuda a fornecer um senso de conforto e controle, mas também um caminho claro, tornando mais fácil, conceitualmente, ir para a próxima fase.

Como todas as mudanças em sua vida podem se encaixar nessa estrutura, quer você perceba ou não, a qualquer dado momento você estará passando por pelo menos uma dessas jornadas - e dominar a ideologia do monomito o tornará mais bem-sucedido. Porque a Jornada do Herói não é apenas uma lente para enxergar mudanças, mas também uma excelente tese operacional para impulsionar mudanças.

Aplicação Prática - A Jornada de um Marombeiro

Minha exposição a Joseph Campbell e à academia veio mais ou menos no mesmo período da minha vida. Eu era calouro na universidade e precisava de mudanças enormes na minha mente e no meu corpo. Eu estava 12 quilos acima do peso, clinicamente deprimido, e de modo geral simplesmente infeliz. Um início pouco auspicioso para minha história, mas é a verdade. Naquele ano, eu fui encarregado de ler O Herói de Mil Faces para uma aula sobre literatura utópica/distópica. Com as primeiras 30 páginas, já estava fascinado.

Naquele ponto, eu certamente não achava que encontraria uma metodologia de resolução de problemas, mas sendo um cara que era extremamente interessado em fantasia medieval e mitologia, Campbell me tocava enquanto contador de histórias. Ler o Herói foi imediatamente benéfico: ele tornou todos os outros livros que eu já estava lendo ainda mais acessíveis, e mais proveitosos. (E creia-me, aos 19, era difícil imaginar qualquer coisa que pudesse tornar reler O Senhor dos Anéis pela oitava vez ainda mais proveitoso - o Herói conseguiu isso).

Por volta dessa época, eu me matriculei em uma academia, passei por uma enorme transformação física, e mudei minha vida de várias maneiras. Não apenas construí um físico impressionante que abriu um número de portas profissionais desde modelo fitness e personal training à escrita, mas também aprendi uma variedade de lições que influenciaram cada aspecto de minha vida, e se tornaram bem-sucedidas de maneiras que eu não poderia imaginar.

Pode parecer um pouco bobo pensar que ficar em boa forma me ajudou a me sair melhor na escola e ter relacionamentos melhores, e ainda mais bobo que isso possa me ter ajudado a começar meu próprio negócio, viver a vida nos meus termos, e até escrever um livro. Mas é tudo verdade.

Talvez mais importantemente, minha transformação, e a estrada até ela, foi retraçado passo-a-passo da Jornada do Herói. Como eu disse, todas as mudanças podem se encaixar nesse modelo. Vamos dar uma olhada na minha.

O Mundo Ordinário - Eu era gordo e deprimido, mas não sabia muito mais. Como Harry Potter sob as escadas ou Frodo no Condado, meu Mundo Ordinário era minha vida quotidiana.

O Chamado à Aventura - No meu caso, foi realmente uma chamada telefônica. Naquele ponto na minha vida, eu estava trabalhando em uma loja varejista (na Gap, entre todos os lugares), e uma mulher me ligou encomendando 30 camisas pólo brancas para quando ela chegasse na loja. Resumindo, o marido dela estava abrindo uma academia a 5 minutos de distância da minha casa. Naquele momento, eu quis realizar uma mudança. Agora, "Eu preciso de 30 camisas pólo", não é tão dramático quanto "Ajude-me Obi-Wan Kenobi; você é minha única esperança", mas serviu.

Recusa do Chamado - Mudar é difícil. Às vezes o Herói tem mais medo de mudar do que de continuar a ser infeliz na sua situação, ou corpo. A maioria das pessoas que quer embarcar na jornada fitness (ou em qualquer jornada) jamais passa desse ponto; eles pensam que será difícil demais, ou que eles não podem mudar. Ou começam e simplesmente desistem. No meu caso, apesar de estar interessado em mudar, eu estava nervoso, e precisei de alguns dias antes de reunir coragem para ir dar uma olhada na academia.

Encontro com o Mentor - Heróis não conseguem fazer tudo sozinhos; todos precisamos de mentores. Quando eu finalmente entrei na academia, eu conheci o dono, Alvin. Ele tinha uma atitude encorajadora e um físico inspirador. Eu gostei dele imediatamente, e o deixei me guiar. No que concerne mudar seu corpo, este mentor não precisa ser necessariamente uma pessoa com a qual você tem contato direto; o papel de mentor também pode ser preenchido por um livro ou mesmo um site. O autor o ajudará sem mesmo conhecê-lo.

Cruzando o Primeiro Limiar - Atravessar limiares é algo que acontece ao longo de jornadas, e o primeiro é sempre o mais impactante. É o que separa o Mundo Ordinário do Mundo Especial. Quando eu me matriculei na academia e comecei a ler sobre musculação, foi como Dorothy chegando em Oz; havia tanta coisa para absorver que era intimidador.

Testes, Aliados, Inimigos - Conforme comecei minha jornada de transformação, eu rapidamente percebi que havia pessoas que queriam ajudar, e pessoas que não queriam. Algumas pessoas apoiarão seus objetivos físicos e evitarão tentá-lo; outros chamarão seus objetivos de tolos e vazios. Toda vez em que eu ia a uma festa ou jantar, eu tinha que lidar com o invariável, "Dá só uma mordida" ou "É só um gole". Essas coisas são tentadoras, mas para tornar minha transformação uma realidade, eu tinha que passar nesses testes.

Aproximação - Conforme eu me preparava para a batalha final - o verdadeiro grosso da transformação - eu tinha que me armar. Houve vários pequenos eventos durante essa época - limpar a geladeira e jogar todo o lixo fora, estocar com alimentos saudáveis, dominar a forma correta de exercícios e aprender sobre nutrição.

Ordálio Central - O Ordálio é sobre o ato da mudança, e a necessidade dela. Em relação a mudar meu corpo, este foi o programa de transformação de fato - aquele período de 16 semanas nas quais eu foquei ardentemente e fiz de meu objetivo dobrar meu corpo à minha vontade. Metaforicamente, o Ordálio é sobre a guerra entre a metade luminosa e a metade escura de nossa psique, e sua tentativa de equilibrá-las.

Apotheosis/Ressurreição - Qualquer um que tenha passado por uma grande transformação compreende que os resultados do Ordálio são bem intensos. Em quase todos os casos, você alcança uma sensação de percepção ampliada - não necessariamente iluminação suprema, mas, no mínimo, um desvelar de um mundo ou experiência previamente escondido de seus olhos. Em meu caso, essa foi a realização de que ter um bom físico era possível para mim, e que todos os benefícios de fazer parte desse "clube" eram meus. Enquanto instrumento narrativo, a apotheosis é sobre tornar-se similar a um deus, pelo menos por um momento; na maioria dos casos, isso só ocorre quando o personagem põe de lado toda resistência e se entrega plenamente à experiência. Naquele momento, você não será um deus, mas será uma fênix - seu novo e superior "eu" se erguendo das cinzas do antigo que você deixou para trás.

Tomando a Espada/Recompensa - Isso é o que você conquista após a batalha - algo para você. É quando os heróis se reúnem para dizer, "Nossa, olha o que fizemos". Pode ser uma celebração, uma cena de amor. Para mim, foi uma elevação da auto-estima e da saúde que acompanhavam meu novo corpo. Muito mais do que isso foi a crença em mim de que eu podia manifestar mudanças; eu havia conquistado isso que anteriormente eu achava impossível, o que instilou em mim uma crença inabalável de que eu poderia fazer o que quisesse.

A Estrada de Volta - Após a batalha em si terminar, o Herói deve retornar ao lar. Isso é às vezes mais difícil do que deixá-lo em primeiro lugar. A Estrada de Volta é emocionalmente atribulada, porque você teme perder tudo que ganhou durante a jornada. No meu caso, eu tive alguma trepidação de que uma vez que eu não estivesse na avidez do foco em uma transformação, eu reverteria ao meu antigo "eu".

Retorno com o Elixir - Na melhor das hipóteses, as recompensas não são apenas para o Herói, mas também para todos que o cercam. Frodo destruir o Um Anel trouxe paz à Terra-Média; Harry Potter destruir Voldemort fez o mesmo pelo mundo da magia. Bem, minha transformação infelizmente não acabou com guerras ou salvou o mundo, mas de fato ajudou várias pessoas. O ato de mudar me ajudou a me tornar uma versão melhor de mim mesmo; muitas de minhas melhores qualidades foram amplificadas. Eu me tornei mais feliz, e tornei outras pessoas mais felizes; eu também me tornei mais prestativo, mais dedicado, e (estranhamento) mais pontual. Minha transformação também inspirou outros a iniciarem suas próprias jornadas. Mais do que qualquer outra coisa, o conhecimento que eu adquiri ao longo dos anos - começando com quando eu fiz minha própria transformação - me permitiu tornar-me instrutor e autor, ajudando primeiro centenas, e eventualmente milhares de pessoas a mudarem suas vidas.

Mestre de Dois Mundos - A última fase da jornada é quando o Herói se torna o Mestre de Dois Mundos - ele é capaz de unir a luz e as trevas dentro de si. Metaforicamente, essa fase é sobre equilíbrio - sobre reconciliar quem você foi com quem você se tornou, e se permitir aceitar ambos. Para mim, foi sobre dominar a vida em meu novo corpo - compreendendo todos os benefícios que ele fornecia sem transbordar em qualquer direção. Essa foi uma continuação da Estrada de Volta, e foi sobre se mover lentamente para longe das coisas mais extremas e encontrar uma maneira de viver a vida e fazer as coisas que pessoas normais fazem, como ir a jantares e beber ocasionalmente uma cerveja. 

Eu deveria mencionar que à época em que eu realizei mina transformação física, eu não percebi que eu havia estado no que se poderia chamar de Jornada do Herói - minha familiaridade com Campbell era muito recente, e eu não fui capaz de ver os paralelos tão claramente. Não foi até eu começar minha jornada empresarial que eu compreendi que Campbell podia ser aplicado a tudo. Daquele ponto em diante, eu comecei a incorporar alguns aspectos da estrutura monomítica nos programas dos meus clientes e em minhas lições com eles; eu descobri que ensinar Campbell ajuda a transmitir informações sobre educação física, ou pelo menos a se fazer entender. E foi a partir dessa compreensão geral que eu escrevi meu livro, Homem 2.0: Engendrando o Alfa. E eu usei essa plataforma - um livro que se tornou bestseller do New York Times - para mostrar como usar a Jornada do Herói para conquistar a melhor forma de sua vida.

Fora da Academia: Outros Exemplos, e Como Campbell Te Afeta

É claro, uma jornada fitness é apenas um exemplo singular de como o monomito pode ser aplicado em sua vida. Uma vez que se conheça a estrutura geral, não é difícil planejar jornadas em todos os aspectos da vida - tudo de sua decisão a ingressar em uma universidade a seus relacionamentos amorosos.

Ele possui uma validade excepcional em relação ao amor, na verdade - simplesmente olhe para o enredo padrão de uma comédia romântica: rapaz conhece garota, rapaz perde garota, rapaz reconquista garota, poderia facilmente ser rapaz ouve o chamado da aventura, rapaz recusa o chamado da aventura, rapaz se aventura mesmo assim. Em todo caso, pela assistência de um mentor (poderia ser um amigo descolado ou uma figura parental), o Herói partirá em uma jornada de introspecção e sairá do outro lado digno da garota.

E um exemplo mais detalhado pode ser o de que você se casa, e se acomoda em uma vida conjugal (Mundo Ordinário). Sua esposa fica grávida (Chamado à Aventura). Você pira inicialmente (Recusa), mas está obviamente entusiasmado. Ao longo da gravidez, consultas com seus médicos (Encontro com o Mentor) o ajudam e a sua esposa (Aliados) a se preparar (Aproximação) para o nascimento da criança (Cruzamento do Limiar). Ser um pai é agora sua responsabilidade principal (Ordálio) e ao fim da jornada ali está seu filho - seu legado - que seguirá no mundo após você partir (Retorno com o Elixir).

Quer um exemplo profissional? Que tal isso: você perde seu emprego (Chamado à Aventura), e apesar de sentir sua perda e querê-lo de volta (Recusa do Chamado), você eventualmente decide que deseja seguir em uma nova carreira. Isso pode se dar de várias maneiras, vamos assumir que você busque a ajuda de um orientador empresarial (Encontro com o Mentor). Eventualmente, você decide começar seu próprio negócio, ou começar um blog - algo que você nunca fez antes (Atravessar o Primeiro Limiar). Há vários desafios ao longo do caminho, bem como sucessos e derrotas (Testes, Aliados, Inimigos). Siga esse passo até sua conclusão e você acaba criando algo - renda, um livro, um produto - (Recompensa) que te melhora (Apotheosis) e te permite melhorar o mundo (Retorno com o Elixir).

Fechando o Círculo

Enquanto a memória do monomito se deve certamente a sua aplicabilidade universal, talvez o maior benefício venha após ele ser aplicado. Como eu aludi acima, o próprio ato de mudança te modifica.

Esse princípio foi o que me permitiu dar o próximo passo em minha própria jornada e escrever Engendrando o Alfa como uma maneira de tornar a jornada relevante para todo homem e ajudá-los a ver o caminho que pode guiá-los a seus maiores objetivos - sejam físicos, emocionais ou sociais. O resultado tem sido um laboratório de testes no qual milhares de homens tem sido capazes de transformar suas vidas de maneiras jamais pensadas antes.

E é tudo por causa de Campbell. Compreender a Jornada do Herói é comparável ao momento no qual Neo compreende a Matrix. Isso te permite compreender o que está acontecendo e o motivo, e exatamente como você deve responder e reagir para tomar as melhores decisões possíveis. A vida desacelera, e quando isso acontece você pode acelerar e fazer escolhas melhores que finalmente levam à mudança.

Ao passar por uma enorme mudança, você irá se deparar com uma maior compreensão de si mesmo, e do que você é capaz. O sucesso é um hábito passível de ser aprendido, e o sucesso gera sucesso - quanto mais mudanças positivas pelas quais você passar, menos resistente à mudança e ao crescimento você se tornará.

Tudo que resta é uma simples pergunta: Você está pronto para se tornar o herói? Se sim, está na hora de reconhecer seu mundo ordinário, começar a jornada, e finalmente se tornar um homem melhor e a melhor versão de você.