sábado, 29 de agosto de 2015

John Law - A Invenção do Nacionalismo Cívico Contra Europeus

por John Law



Separação entre Etnicidade e Identidade Cívica

Estados-nações devem ser baseados apenas em valores cívicos, direitos individuais, propriedade privada e igualdade perante a lei, sem qualquer referência a etnia. Esta é uma das crenças contemporâneas mais poderosas. Os europeus foram forçados a acreditar que um Estado que identifica seus cidadãos em termos étnicos não pode ser livre. Tal como um Estado liberal diz-se ser aquele em que afiliações religiosas são decididas por indivíduos privados, e que o Estado não deve "impôr" quaisquer crenças religiosas a seus cidadãos, marxistas culturais tem efetivamente impresso sobre as mentes de europeus a noção de que um Estado-nação pode ter de fato valores liberais apenas quando a identidade de seus cidadãos é concebida sem qualquer referência coletiva a sua identidade étnica. A etnicidade deveria ser uma questão de escolha individual e não seria da conta do Estado se identificar com qualquer etnia.

A única identidade política/coletiva que um Estado liberal pode encorajar entre seus cidadãos é a cívica, isto é, a identidade de ser membros de um Estado-nação no qual todo mundo independentemente de raça, sexo e orientação religiosa recebe os mesmos direitos perante a lei. É verdade que, desde o século XIX, os liberais tem reconhecido direitos cívicos para minorias já estabelecidas nas nações da Europa. O que se passou nas últimas décadas vai muito além disso. Nós é dito agora que o liberalismo demanda que nações cívicas sejam radicalmente diversificadas para que se realizem os ideais de uma nação que seja verdadeiramente cívica. Em outras palavras, há um mandato aceito por todos os partidos políticos importantes e todos os teóricos políticos de que as nações ocidentais devem deixar de ser povoadas por cidadãos que pertencem a uma única raça ou a uma raça majoritária, com uma cultura que reflete a história e tradições dessa raça. A diversificação dos cidadãos ao longo de linhas raciais e culturais é agora saudada como a coisa progressiva a ser feito. Aqueles que se opõem à imigração em massa em nome da preservação de seu caráter etnocultural ancestral são automaticamente classificados como iliberais. Você pode criticar a imigração por motivos econômicos, mas nunca em prol de preservar o caráter étnico de sua nação.

Como alcançamos essa posição, do reconhecimento dos direitos individuais de minorias ao consenso dominante entre as elites atuais de que o liberalismo demanda a diversificação de nações ocidentais por meio da imigração em massa?

Os Proponentes Intelectuais do Nacionalismo Cívico

Seja notado que os Estados nacionais da Europa ocidental, como será brevemente demonstrado abaixo, efetivamente emergiram como nações cívicas em celebração consciente de sua herança étnica milenar. Então por que teóricos liberais passaram a aceitar o argumento de que as nações ocidentais, para que sejam verdadeiramente cívicas, não podem estar fundadas na etnia? Parece-me que esta identificação de nações ocidentais com identidades cívicas não pode ser compreendida fora dos esforços teóricos de Hans Kohn, Karl Deutsch, Ernest Gellner e Eric Hobsbawm contra qualquer noção de que nações ocidentais estivessem enraizadas em identidades étnicas primordiais. Segundo Azar Gat, um israelense cujo livro Nações: A Longa História e as Raízes Profundas da Etnicidade Política e do Naiconalismo eu estarei examinando abaixo, estes autores eram "todos imigrantes refugiados judeus da Europa central...todos eles experimentaram identidades mutantes e questões excruciantes de auto-identificação à época das erupções mais extremas, violentas e desconcertantes. Era apenas natural que reagissem contra isso tudo".

Em outras palavras, sentindo-se excluídos dos Estados nacionais com fortes identidades étnicas na Europa central, eles reagiram formulando o argumento de que os Estados nacionais da Europa ocidental foram inerentemente intencionados como exclusivamente cívicos.



Nenhum destes escritores negava que as pessoas da era pré-moderna tinham um senso de afinidades familiares comunais dentro de suas respectivas tribos ou localidades. Seu foco era nos Estados nacionais modernos da Europa, e seu argumento era o de que estes Estados nacionais, e a ideologia correspondente de nacionalismo, eram "construtos históricos artificiais", "tradições inventadas", criados por elites políticas interessadas em forjar Estados territoriais poderosos entre comunidades rurais previamente espalhadas e frouxamente relacionadas carecendo de um senso de identidade étnico-nacional. A afirmação de que nações europeias contém um forte núcleo étnico não seria factual, mas uma arma ideológica empregada por elites políticas buscando criar Estados com apelo de massa, uma infraestrutura nacional, idiomas oficiais, taxação centralizada, moeda e leis nacionais, ao longo da era moderna, culminando no século XIX. As exortações de nacionalistas nos séculos XIX e XX sobre raízes étnico-familiares de suas nações seriam meros artifícios retóricos para induzir nas massas apoio para os esforços das elites em estender seu poder nacionalmente sobre uma população disparatada e jamais consciente etnicamente consistindo de múltiplos dialetos, ancestralidades e lealdades locais.

Com a experiência da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, tanto dentro do liberalismo como do nacionalismo, esta crítica do nacionalismo transformou-se em uma crítica concentrada do nacionalismo étnico, que passou a ser associado com o militarismo alemão na Primeira Guerra Mundial e ao fascismo a partir de então. Enquanto marxistas, tal como Hobsbawm, passaram a defender o internacionalismo proletário, teóricos liberais como Kohn, Deutsch e Gellner começaram a formular uma forma estritamente cívica de nacionalismo, ao mesmo tempo desacreditando o nacionalismo ético como um construto artificial e como a fonte, nas palavras de Hobsbawm, da "xenofobia demótica e do chauvinismo" sem base na realidade.



Obviamente, houve outras correntes intelectuais percorrendo o Ocidente, ideias da Escola de Frankfurt, direitos civis nos EUA, feminismo, pós-modernismo, e, algo que não deve ser subestimado, a pressão de corporações por trabalho imigrante e demanda de consumo baratos, coincidindo e reforçando uns aos outros em um grande esforço para produzir uma forma totalmente nova de identidade ocidental contra a suposta dominação de patriarcas europeus. Muito tem sido escrito sobre estes desenvolvimentos, mas os escritos dos progenitores do nacionalismo liberal ou cívico foram negligenciados. Este tema merce muito mais do que eu estou oferecendo aqui. É suficiente dizer que em países ocidentais o nacionalismo cívico se tornou a única forma aceita de identidade nacional. O significado de nacionalismo cívico é muito bem capturado na primeira frase do verbete da wikipedia:

"Nacionalismo cívico é um tipo de nacionalismo identificado por filósofos políticos que creem em uma forma não-xenofóbica de nacionalismo compatível com valores de liberdade, tolerância, igualdade e direitos individuais".

Segundo Hans Kohn, os Estados-Nações ocidentais eram cívicos desde seus primórdios no final do século XVIII. O "nacionalismo étnico iliberal" era um fenômeno da Europa Oriental, da Rússia e do fascismo, lugares que exaltavam o caráter étnico do povo enquanto suprimiam direitos individuais.



O nacionalismo cívico veio a partir de países do noroeste europeu nos quais uma sólida classe média havia se desenvolvido; os membros dessa classe estavam inclinados a uma concepção do Estado como uma associação voluntária de vontades individuais. Esta era uma classe progressista, ou como disse Kohn, desejosa de uma forma de cidadania baseada em leis originando da razão livre individual; esta classe não gostava de Estados que impunham uma identidade etnocultural sobre seus membros. O nacionalismo étnico, por contraste, veio de culturas carentes de uma classe média, impulsionadas por classes regressivas desconfiadas em relação a indivíduos voluntariosos, e preferindo Estados que impõem sobre seu povo um senso irracional de identidade coletiva étnica inspirada por emoções, ao invés de realidades históricas factuais.

Celebrando a etnia de outros ao mesmo tempo que se acusa europeus de etnocentrismo

Essas ideias ressoaram fortemente no pós-guerra. O próprio termo "etnia" passou a ser definido em termos estritamente culturais, sem qualquer referência a raça ou distinções biológicas entre grupos diferentes. Todo manual de ciências sociais da década de 50 em diante passou a endossar esta definição culturalista. Em combinação com esta definição, acadêmicos acrescentaram uma definição instrumental e/ou funcionalista, segundo a qual a identificação étnica era um fenômeno superestrutural por trás do qual estavam os interesses reais de classes dominantes consolidando seu poder, ou as demandas funcionais de um sistema nacional de educação, administração, guerra e modernização em geral. Eis o que Jonathan Hall diz sobre o uso da etnia:

"No encalço da Segunda Guerra Mundial - e mais particularmente do Holocausto - os motivos para tratar a identidade étnica como uma área válida de pesquisa foram desacreditados... a resposta antropológica à crise acadêmica ocasionada pela Segunda Guerra Mundial foi a abordagem 'instrumentalista' à etnia, que proclamava que a identidade étnica era um disfarce adotado por grupos de interesse para ocultar objetivos que eram mais apropriadamente políticos ou econômicos".

Mas Jonathan Hall então nota que esta abordagem cultural-instrumental também passou a ser vista, dos anos 70 em diante, como inadequada ao não ser capaz de dar conta de inúmeros movimentos de liberação nacional pós-guerra por todo o mundo que conscientemente se identificavam como baseados no sangue e combatiam cruentamente por seus "territórios ancestrais". O que Hall deixa de fora, e deveria ser tido em mente enquanto lemos a próxima passagem, é que os cientistas sociais estavam começando a ver as identidades étnico-tribais no mundo não-ocidental como progressistas, não como identidades fixadas, mas como identidades "negociáveis", em referência a "minorias oprimidas" e sem referência a traços genéticos.

"Ainda assim as ressurgências étnicas dos anos 70 e 80 apresentavam um desafio claro à validade da abordagem instrumentalista; isto despertou um interesse antropológico renovado pelo tema da identidade étnica... a pesquisa atual tende a conceder pelo menos uma realidade intersubjetiva à identidade étnica, ainda que ela difira do academicismo do pré-guerra em um número de pontos importantes. Primeiramente, ela enfatiza que o grupo étnico não é um grupo biológico, mas social, distinto de outras coletividades por sua adesão a um mito putativo de ascendência e familiaridade compartilhada e por sua associação com um território 'primordial'. Secundariamente, ela rejeita a visão oitocentista de grupos étnicos como categorias estáticas e monolíticas com fronteiras impermeáveis por um modelo menos restritivo que reconhece a natureza dinâmica, negociável e situacionalmente construída da etnia. Finalmente, ela questiona a noção de que a identidade étnica é constituída primariamente por traços genéticos, língua, religião ou mesmo formas culturais comuns. Enquanto todos estes atributos possam agir como símbolos importantes de identidade étnica, eles realmente só servem para impulsionar uma identidade que é essencialmente construída pelo discurso escrito e falado".

Claramente, esta passagem admite que "um mito putativo de ascendência e familiaridade compartilhada" e "território primordial" possam desempenhar um papel na auto-identificação de grupos, mas então propõe que a etnia nunca é estática, mas dinâmica e "construída situacionalmente", e, no fim, decide que ela é "essencialmente construída" por discursos. Este é efetivamente o estado da pesquisa sobre etnia hoje - uma confusão pós-moderna aparentemente jogando com múltiplos lados, mas "essencialmente" definindo a etnia em termos discursivos muito similares à definição cívica de Kohn, ao mesmo tempo evitando quaisquer referências biológicas substantivas. Hall não revela as considerações políticas subjacentes a esta ênfase renovada em afinidade étnica. Ele assume que foi uma questão puramente escolástica conduzida por professores universitários buscando a verdade. Ele ignora as vozes crescentes defendendo simultaneamente a autenticidade étnica de minorias não-europeias e pelo caráter inautêntico das nações cívicas europeias. Tal como as identidades étnicas de não-europeus estavam sendo propagandeadas como liberadoras e progressistas, a noção de que as nações ocidentais eram cívicas desde o século XVIII, ou até antes, era cada vez mais tema de críticas devido a seu tratamento "discriminatório" de minorias dentro de suas fronteiras, seus desígnios imperiais, e suas políticas imigratórias exclusivistas, que apontavam para a presença de discriminação étnica e, assim, para a realidade da etnia.



É claro, isto não é bem como o ressurgimento do interesse em etnia foi interpretado por seus defensores. Não há como negar também que a ideia de que nações ocidentais eram simplesmente cívicas parecia distante da realidade, independente de quais fossem as suas intenções políticas. O principal crítico do conceito de nacionalismo cívico foi Anthony Smith, partindo de seu livro, A Origem Étnica das Nações, e múltiplas publicações desde então. Seu principal argumento era o de que as nações modernas não foram criadas ex nihilo com base em valores cívicos apenas ou por causa do desejo de elites dominantes de aumentar sua autoridade por meio de infraestruturas modernas; ao invés, os Estados-nações foram criados com base em laços ancestrais pré-existentes e em um senso de continuidade histórica. Um senso de nacionalidade predatava a era moderna e podia ser traçado tão longe quanto tempos antigos e ao redor de todo o mundo. As nações da Europa não eram meras "invenções" ou demandas funcionais da modernidade, mas factualmente enraizadas no passado, em mitos comuns de ascendência. Ainda que a ascensão da indústria moderna e das burocracias modernas permitisse a materialização de Estados-nações na Europa, estas nações eram primordialmente baseadas em uma população com um senso coletivo de afinidade.

A obra de Smith foi indubitavelmente frutífera em desafiar a noção de que as nações ocidentais eram inerentemente cívicas. Ainda assim, apesar de tudo, o conceito de etnia de Smith era mais sobre a importância de comunidades passadas, um território mais ou menos determinado, uma língua, estilos artísticos, mitos e símbolos, estados mentais, do que sobre enfatizar qualquer forma de identidade ligada ao sangue - linhagem comum e consanguinidade efetivas. Certamente, um grupo étnico não pode ser categorizado como uma raça, mas seu conceito de etnia seguia a proibição ordenada às ciências sociais contra a inclusão de referências biológicas, características físicas, cor de pele, forma corporal, e outros traços que possuem dimensão racial. Etnia foi definido por Smith em termos de traços culturais, linguística, traços históricos e territoriais, mitologia comum e costumes.

Ao mesmo tempo, enquanto Smith estava ocupada escrevendo obras históricas, e sem sua plena consciência, uma avalanche de programas etnicamente orientados, centenas de conferências e acadêmicos estavam avidamente afirmando o valor da etnia, mas apenas em relação a grupos "oprimidos". Escrever sobre isso demandaria um artigo separado. Talvez a melhor maneira de resumir nossa obsessão atual com discurso étnico é olhar para as declarações de intenção de programas de Estudos Étnicos ou departamentos. Estes são bastante vocais em afirmar que raça é uma realidade do Ocidente que não pode ser ignorada porque o racismo tem sido e continuar ser "uma das forças culturais e sociais mais poderosas na sociedade americana na modernidade".

A Perspectiva Sociobiológica Politicamente Correta de Azar Gat

Há um autor atual citado anteriormente, Azar Gat, professor de Ciências Políticas da Universidade de Tel Aviv, que parece oferecer uma forte concepção biológica de etnia, em seu livro Nações: A Longa História e as Raízes Profundas da Etnicidade Política e do Nacionalismo.



Este livro é apresentado como tendo sido escrito desde uma "perspectiva sociobiológica". Os capítulos iniciais e a conclusão definitivamente afirmam que nações "estão enraizadas em sentimentos humanos primordiais de afinidade cultural-familiar, solidariedade e cooperação mútua, evolutivamente impressos na natureza humana". Concordando com "muito" do que diz Smith, ele ainda considera que deixou a desejar a sua falta de ênfase na natureza humana, em teoria evolucionista, e sua ausência de disposição para romper com uma perspectiva culturalista. Ele escreve que a "etnicidade é de longe o fator mais importante" na identidade nacional e que ao longo da história as nações "preponderantemente se correlacionam e relacionam com traços cultural-familiares compartilhados". Saudando a aplicação da teoria evolucionista para explicar comportamento humano, ele diz:

"Sua relevância a nosso tema pode ser resumido como segue: as pessoas tendem a preferir os seus semelhantes, que partilham mais genes com elas, aos mais dessemelhantes ou 'estranhos'. Como uma propensão, isto não é necessariamente consciente". 

Mas logo se torna aparente que Gat (apesar de seu reconhecimento correto de que os humanos possuem fortes disposições genéticas e que a preferência pelo próprio semelhante é um comportamento evolutivamente selecionado, ao invés de um epifenômeno "irracional") não está disposto a reconhecer, ou mesmo dizer qualquer coisa sobre as disposições étnicas racionais de europeus, mas efetivamente toma como dado que os europeus habitam nações dedicadas à criação de novas identidades étnicas imigrantes sob o guarda-chuva de uma cultura comum que não pode deixar de ser definida em termos cívicos. Gat é bastante efetivo em documentar a importância de afiliações étnicas e cultura comum para Estados pré-modernos, incluindo impérios, origens dos Estados europeus modernos e dos Estados não-europeus.



Porém, no que concerne as nações ocidentais atuais experimentando a imigração em massa, nunca ocorre a Gat considerar as afiliações ancestrais e afinidades de semelhança dos povos que tem habitado estas terras por mais tempo e as transformaram em nações modernas. Ele simplesmente aceita sem questionar a experiência da imigração em massa como se ela fosse uma ocorrência natural consistente com as histórias étnicas de nações ocidentais. Ele propõe uma nova definição de etnia para lidar com a realidade da imigração em massa, o que é inconsistente com sua perspectiva sociobiológica. Ele propõe, de fato, uma definição imigrante da etnia, indicando que, conquanto sua definição de etnia não esteja restrita a cultura, ela vê a etnia como "um processo" não exclusivo a uma etnia, mas capaz de explicar a formação de "Estados imigrantes" e como tais Estados "habitualmente integram novos recém-chegados em uma comunidade cultural ampla".

Não há espaço aqui para atentar para algumas das coisas que ele diz sobre Espanha, França, Grã-Bretanha e Canadá. Ressaltar o que ele diz sobre os EUA e a Europa em geral deve bastar para ilustrar sua abordagem um tanto quanto cívica e efetivamente multiculturalista no que concerne a identidade étnica europeia atual. Ainda que Gat insista que a nacionalidade americana não esteja fundada apenas em proposições liberais, e que "existe uma cultura americana bastante singular, amplamente partilhada pela maioria...um idioma inglês-americano comum e costumes amplamente difundidos...indústria do entretenimento, Hollywood e televisão", com uma forte linhagem anglo-protestante, ele se rende a uma definição cultural da América vendo a etnicidade americana como uma realidade mutante, não apenas em relação a diversos imigrantes europeus, mas em relação a políticas imigratórias pós-1965, que ele vê como uma continuação natural de tendências anteriores.

Meu ponto não é negar que a etnicidade americana está mudando, mas perguntar por que ele se recusa a dizer uma palavra sobre "as profundas preferências humanas pelos seus semelhantes" que os europeus americanos podem sentir face a imigração maciça desde 1965 de nações não-europeias. Ou, se ele pensa que europeus americanos estão satisfeitos com a imigração maciça de mexicanos, por que este é o caso, e se isso significa, portanto, que a nacionalidade americana é, de fato, estritamente cultural? Ou, poderia ser que Gat não está consciente das realidades políticas mais amplas que moldam a maneira pela qual pensamos sobre etnicidade, e que povos europeus, e apenas povos europeus, estão proibidos de afirmar sua etnia em face de um sistema de imigração maciça imposto por todo o mundo ocidental, e que cientistas sociais como Gat tem sido incentivados a seguir com o programa, a não ser que queiram arriscar suas carreiras?



O esforço de Gat para afirmar que a América é uma nação com identidade imigrante tem peso quando se considera que o período imigratório pré-1965, que, após difíceis tensões raciais resultando dos altos níveis de imigração de diversas nações europeias nos séculos XIX e XX, se tornou uma nação bem unificada nos anos 50, exceto por seus habitantes não-europeus, africanos e nativos. Mas ele não considera se esta identidade imigrante foi alimentada com sucesso graças às heranças etno-europeias compatíveis da maioria dos imigrantes. Ao invés, ele toma como dado que os padrões imigratórios à América pós-65 são os mesmos de antes, escrevendo que "a imigração latina não é fundamentalmente diferente das ondas anteriores de imigração em sua aculturação gradual". Ainda que ele tenha consciência desse argumento, ele pensa poder enfatizar a identidade étnica imigrante da América simplesmente apelando ao uso comum da língua inglesa, ignorando quão comum o espanhol está se tornando em muitas localidades por todo os EUA e como brancos exibem padrões implícitos de separação racial em sua escolha de áreas residenciais para criar suas famílias e educar seus filhos, não obstante suas afirmações explícitas sobre os benefícios da diversidade.

Tendo pintado os EUA como uma nação com uma etnicidade singularmente imigrante, ele parece perdido tentando explicar a importância de identidades étnicas em nações europeias atuais e no Canadá. "O fenômeno da imigração em massa transformou o mapa das identidades em países ocidentais nas décadas recentes". Como e por que europeus atuais estão permitindo que identidades étnicas milenares fundando a formação de seus Estados-Nações sejam radicalmente diluídas se o nacionalismo étnico é verdadeiramente, nas palavras de Gat, "uma das forças mais fortes na história"? Como eles sobrepujaram sua predisposição genética a ter uma preferência pelos seus semelhantes, e por que Gat está tomando a imigração em massa como se fosse um processo natural ou de alguma forma parte e parcela da identidade nacional europeia sem mesmo fazer uma pergunta? Uma abordagem sociobiológica honesta demandaria tais perguntas, mas Gat só formula questões culturalistas ao efeito de que "não poucos imigrantes e seus descendentes estão de fato se integrando, culturalmente e socialmente, bem o suficiente para que sejam descritos como 'unindo-se à nação'." Mas como que as nacionalidades étnicas originais da Europa estão se integrando com os novos imigrantes? Se a identidade étnica é tão importante, por que espera-se que os europeus aceitem, em suas palavras, uma "conexão fraquejante" entre seus Estados-Nações e sua herança etnocultural? No fim, Gat não tem escolha além de mudar sua abordagem sobre identidade étnica na direção dos valores liberais que Hans Kohn equiparou com o nacionalismo ocidental; mais do que isso, ele não tem escolha senão endossar uma definição multicultural liberal da identidade ocidental.



Ele pensa que uma boa indicação na Europa de uma cultura nacional comum é o "recuo" recente do multiculturalismo "que levou a reenfatizar em muitos países a conexão entre cultura (majoritária) e política", mas ele nunca apresenta quaisquer objetivos compartilhados entre imigrantes, uma cultura majoritária e o Estado. O único fator que ele consegue apresentar em nome de uma cultura imigrante comum, para repetir, é o fato de que os imigrantes estão aprendendo o idioma das nações imigrantes. Mas e quanto a afiliações patrióticas a símbolos europeus passados, e quanto a canções folclóricas, e quanto a figuras históricas lendárias, comida, isto é, traços compartilhados que podem ser categorizados em termos étnico-familiares? Nem uma palavra. Ao invés, nós recebemos a atitude usual de que as coisas devem estar dando certo já que não há guerra civil, os imigrantes estão tentando vencer economicamente e educar seus filhos. A única cultura comum que parece estar ligando a imigração ocidental é o marxismo cultural, uma ideologia imposto desde cima, sem consenso democrático, por elites burocráticas convictas de que a diversidade é uma melhora e que os europeus são racistas a não ser que eles procriem com milhões de não-brancos. Ele regularmente cita Will Kymlicka, chamando-o de "principal teórico do multiculturalismo liberal" de maneira simpática, sem jamais chamar atenção para o chamado aberto de Kymlicka para que se ponha um fim a quaisquer elos intrínsecos entre os Estados-Nações da Europa e qualquer forma de etnia que possa ser chamada "europeia". Não é bastante revelador que o mesmo autor que escreve um livro dedicado a uma abordagem sociobiológica das raízes étnicas das nações acabe simpatizando com o principal defensor do multiculturalismo no Ocidente?

Conclusão

A resposta sensível que se deve alcançar ao examinar o debate entre nacionalismo cívico e nacionalismo étnico é que a pesquisa histórica valida a ideia de que os Estados-Nações europeus foram fundados ao redor de um forte núcleo étnico, ainda que houvessem minorias coexistindo com maiorias. Os Estados da Europa ocidental desenvolveram instituições cívicas liberais dentro do esquema desse núcleo étnico. A pesquisa sociobiológica ainda valida a inclinação natural de humanos a preferirem os seus semelhantes. Esta pesquisa biologicamente fundada demonstra que os homens não podem ser abstraídos de um coletivo étnico. A afirmação de que tal preferência é uma disposição irracional imposta de cima por elites reacionárias é falsa. O etnocentrismo é uma disposição racionalmente impulsionada consistente com liberdades cívicas. Liberdades cívicas são consistentes com um senso coletivo de cultura compartilhada por semelhantes. O que não é consistente com pesquisa racionalmente fundada são as afirmações de que as nações ocidentais eram cívicas em suas origens e a imposição atual de imigração maciça sem abertura para debate racional aberto. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Leonid Savin - Os Cinco Grandes, Segurança Eurasiática e Outros Projetos

por Leonid Savin



Nos idos de 2001, um importante analista da companhia bancária americana Goldman Sachs Group Inc., Jim O'Neill, usou o acrônimo BRIC para descrever as economias em desenvolvimento. Ainda que ele a tenha utilizado no contexto de um paradigma neoliberal global, a Rússia "cooptou" o termo, propondo ao Brasil, à Índia e à China construir uma cooperação multilateral. Em relativamente pouco tempo, muito foi feito para desenvolver mecanismos de interação. Posteriormente, a África do Sul se uniu aos quatro países (e o acrônimo BRICS nasceu).

Agora, os cinco países, que ocupam 26% da área territorial do planeta, representam 42% da população mundial e geram 27% do PIB mundial, são considerados como o novo ator coletivo do mundo multipolar, baseado no princípio da descentralização e na habilidade de responder aos desafios do século XXI. Como o vice-Ministro de Relações Exteriores russo Sergei Ryabkov, na sua coletiva de imprensa durante a Cúpula dos BRICS e da SCO em Ufa em 9 de julho de 2015, disse, "a prática dos BRICS não tem precedentes na política internacional", e o grupo de Estados tornou-se "um fator importante nas relações internacionais". Os BRICS estão se tornando gradativamente os novos "Oito Grandes", mas apenas na base da igualdade, da transparência e do consenso entre todos os membros.

A última cúpula em Ufa mostrou que o tom informal no qual a cooperação estava baseada não impediu a criação de uma associação internacional completa, mais democrática do que outras alianças do último século. Em Ufa, um plano para ações futuras foi aprovado - um tipo de sumário da matriz operacional dos BRICS para o futuro próximo. Ele inclui uma declaração de finalidades, a estratégia da parceria econômica e anuncia a abertura de um departamento virtual - o site oficial dos BRICS, que publicará documentos oficiais e materiais relevantes. O Banco dos BRICS foi inaugurado e uma reserva de ativos estrangeiros foi formada. Seu capital combinado é de 200 bilhões de dólares. Os primeiros projetos financiados ocorrerão na primavera de 2016, não limitados aos cinco países, mas possuindo caráter global. Essencialmente, é uma alternativa financeira ao FMI dos Rothschilds, fazendo investimentos em setores necessitados da economia real dos países, e não conduzindo transações especulativas ou fornecendo empréstimos onerosos, como o fazem bancos estrangeiros, mercados de capitais e fundos.

Também, entre os países dos BRICS a cooperação será reforçada em questões financeiras e econômicas. Particularmente, o diretor de Questões Europeias e Centro-Asiáticas Gui Congyou notou que a Rússia é uma prioridade para investimentos chineses, o que será feito não apenas em infraestrutura, mas na construção de casas baratas e em alta tecnologia também.

O ano da presidência russa dos BRICS tem sido muito dinâmico. Como o Presidente da Rússia Vladimir Putin disse em 9 de julho, "no ano da presidência russa nós conduzimos os primeiros encontros para fóruns civis, parlamentares e da juventude dos BRICS. A criação da Universidade de Rede dos Brics está em processo tanto quanto o estabelecimento do Conselho de Regiões de nossa organização".

Deve ser acrescentado que a cooperação está acontecendo agora não apenas nos campos financeiro e econômico do bloco: encontros ministeriais tem sido realizados para questões de saúde, educação, agricultura, impostos, ciência e tecnologia, seguridade social, comunicações, trabalho e emprego e cultura. A coordenação crescente entre os países afetou virtualmente todas as questões internacionais agudas, de conflitos regionais e ameaça do narcotráfico ao setor espacial e pirataria marítima. Para isso, todas as técnicas que podem tornar relações multilaterais burocráticas foram deliberadamente evitadas. Os líderes de todos os países dos BRICS concordaram com a opinião de que o atual formato antiburocrático deve ser mantido.

Isto indica o lado civil dos BRICS similarmente. A questão, abordada na Cúpula em Ufa, foi também discutida na véspera do fórum em Moscou com a participação de especialistas. Em particular, através do Conselho Empresarial dos BRICS muitos acordos foram feitos, enquanto líderes sindicais davam suas recomendações aos Chefes de Estado dos BRICS. O Presidente da Federação de Sindicatos Independentes da Rússia, Mikhail Shmakov, em uma reunião com Vladimir Putin, também assinalou a necessidade de evitar quaisquer métodos do neoliberalismo, que é o culpado por todas as crises globais atuais. Esta é uma observação importante mostrando que os BRICS estão em consenso a nível de ideologia política, um que guiará os países participantes.

Os BRICS também podem ser considerados como um clube em que os membros seguem o princípio da reciprocidade. o Primeiro-Ministro indiano Narendra Modi durante um encontro em formato maior de líderes dos BRICS indicou a importância de completar uma reforma na ONU e seu Conselho de Segurança. Segundo ele, isso ajudará a responder mais efetivamente a quaisquer chamados. Muito reveladora foi a afirmação do líder indiano sobre sanções - que apenas sanções da ONU tem qualquer poder, enquanto todo o resto é tentativa de alguns países de ditar seus termos, o que é inaceitável. Dilma Rousseff, Presidente do Brasil, também levantou a questão da reforma da ONU e da disponibilidade de participar em vários projetos da harmonização de fluxos migratórios ao controle de mudanças climáticas.

É significativo que outros países estão mostrando um interesse crescente nos BRICS. Por exemplo, no fórum financeiro dos BRICS/SCO, que ocorreu em 8 de junho, o vice-presidente do Banco de Desenvolvimento Industrial da Turquia Çigdem Içel também estava presente; ademais, a participação formal dos Chefes de Estado da SCO na Cúpula dos BRICS como convidados elevou grandemente o status do evento. Porém, excetuando a agenda oficial, os líderes puderam se comunicar em um cenário informal, discutindo um número de questões que são igualmente importantes para construir uma parceria confiável.

O Ocidente se comportou de sua maneira característica de duplicidade e guerra informacional. Por exemplo, a publicação da Bloomberg foi totalmente manipulada, como se a economia agregada dos BRICS quase tivesse alcançado a economia americana. Isto não é verdade, já que segundo o FMI só a China já ultrapassou os EUA em 2014; o Conselho de Relações Exteriores, falando de forma mais realista, apontou que os BRICS reduzirão a influência do Ocidente. Stratfor acrescentou que os BRICS e a SCO evoluíram a um tipo de plataforma para mobilizar resistência contra os EUA. Ostensivamente, analistas americanos não ouviram ou não quiseram ouvir as afirmações repetidas das primeiras pessoas e ministros de que os BRICS não estão dirigidos contra qualquer Estado ou potência, possuindo uma agenda aberta. Similarmente, a SCO foi estabelecida para resolver questões de segurança regional na Eurásia, bem como para participar na produção de energia e na criação de corredores de transporte.

Mas é claro, as duas estruturas responderão adequadamente às tentativas de solapar a soberania ou interferência em questões internas. Na cúpula, os lados chinês e russo afirmaram e reafirmaram a importância de se preservar a justiça histórica e a necessidade de resposta imediata para quaisquer esforços de se justificar fenômenos como o nazismo.

A cúpula da SCO, ocorrendo imediatamente após os eventos dos BRICS no mesmo lugar, também esteve marcada por decisões importantes. Pela primeira vez na existência da organização a recepção de novos membros, Índia e Paquistão, ocorreu. Ademais, houve um acordo para a elevação no status de participação da República da Bielorrússia ao de Estado observador da SCO. Na qualidade de parceiros de diálogo da organização, uniram-se Azerbaijão, Armênia, Camboja e Nepal. Em uma das coletivas de imprensa em Ufa, um jornalista ocidental levantou a questão dos vários problemas entre Índia e Paquistão e como eles poderiam cooperar, se permanecerem as diferenças e o potencial para conflito. O ponto é que a SCO está trabalhando em um paradigma completamente diferente ao do Ocidente, que adere à escola do realismo político, com práticas de elementos como dissuasão, confrontação, conflito de interesses e daí em diante. A SCO está desenvolvendo toda uma nova abordagem de segurança coletiva, ao mesmo tempo que respeita os interesses e soberania de todos os membros da organização. É provável que, com este formato, ela seja até mesmo capaz de ajudar a normalizar as relações entre Armênia e Azerbaijão.

Muito importante é o fato de que a adesão da Índia e do Paquistão à SCO torna esta uma aliança de quatro potências nucleares. O Presidente uzbeque Islam Karimov acrescentou que isto poderia mudar o equilíbrio de forças no mundo. Não menos relevante é a questão da participação futura da República Islâmica do Irã. Enquanto Teerã estiver sob sanções da ONU, isto não é possível. Mas, como dito pelo Ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov, o Irã fez importantes progressos com diálogos entre os seis países e podemos esperar que no futuro este problema seja resolvido - a não ser que o Ocidente tente rever a estrutura dos acordos alcançados antes, como já aconteceu em outras situações.

Na cúpula da SCO um programa de cooperação na luta contra o terrorismo e o separatismo nos anos de 2016-2018 foi também aprovado (é digno notar que, nesta época, a direção do Comitê Executivo da SCO estará nas mãos da Rússia) e o desenvolvimento da Convenção da SCO para Combate ao Extremismo foi iniciado, bem como o estabelecimento do Centro de Resposta a Ameaças e Desafios à Segurança dos Estados-membros da SCO com base na Estrutura Regional Antiterrorista (RATS). A organização terrorista "Estado Islâmico" foi reputada como uma séria ameaça e todos os membros da SCO reiteraram sua intenção de combatê-la e outros extremistas internacionais.

O desenvolvimento da estratégia da SCO até 2025 foi aceita e a Declaração de Ufa foi adotada. A estratégia diz que a SCO trabalhará "em favor da construção de um sistema democrático policêntrico de relações internacionais", referindo-se também à fundação de um espaço de segurança indivisível. Também importantes são os princípios e valores designados de Estados e povos, nos quais as características históricas e a identidade de todos os Estados-membros são levados em consideração.

Em seu discurso dedicado aos resultados das duas cúpulas, o Presidente russo Vladimir Putin mostrou que está sendo feito um trabalho para "criar o Banco de Desenvolvimento da SCO e o Fundo de Desenvolvimento da SCO. A ideia de ter instituições com base na Associação Interbancária do Centro Internacional de Financiamento de Projetos da SCO é muito promissora". Ademais, o líder russo pediu um uso mais ativo das possibilidades da SCO inerentes aos BRICS.

Mas tirando o par BRICS-SCO, há muitos projetos regionais que naturalmente se unirão a ambos formatos. Assim, os líderes da Rússia e da China declararão que estão dispostos a trabalhar proximamente na implementação de dois projetos de integração - a União Econômica Eurasiana e o Cinturão Econômico da Estrada da Seda. Ademais, há relações trilaterais, tal como entre Rússia-Mongólia-China. Em paralelo à cúpula dos BRICS, os líderes dos três países concordaram em intensificar os trabalhos em uma série de frentes - da criação de projetos de infraestrutura a atividades culturais e de informação. Como o Chefe de Governo da China Xi Jinping pontuou, "é necessário formar uma comunidade de destino mútuo e promover a multipolaridade".

Os BRICS também coordenarão a defesa de sua posição dentro do Grupo dos Vinte (G20). Ademais, esta plataforma será usada para diferentes projetos dentro dos BRICS e da cúpula do G20 em novembro deste ano, a ser realizada na Turquia, continuando a discutir a preparação do banco e de outras tarefas identificadas na Declaração de Ufa.

Tudo isto automaticamente significa que qualquer tentativa de manipulação externa, mesmo sob pretextos plausíveis (por exemplo, os EUA estão ativamente promovendo o projeto de uma Nova Estrada da Seda), está destinada ao fracasso. E o mundo com a assistência dos BRICS e da SCO será mais seguro e harmonioso.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

H. P. Lovecraft, Reflexões Contra o Mundo Moderno

(Artigo para o número 65 da Revista Rébellion)

Traduzido por Victor Cavalcanti



"A coisa mais misericordiosa no mundo, eu acho, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todos os seus conteúdos. Nós vivemos em uma plácida ilha de ignorância no meio de um oceano negro infinito, e não era para que pudéssemos navegar para longe. As ciências, cada uma esticando a corda em sua própria direção, têm nos causado pouco mal até agora; mas algum dia esse mosaico de conhecimento dissociado nos legará um terrível panorama da realidade e de nossa amedrontadora posição neste lugar, tão terrível, que ou bem nós ficaremos loucos diante da revelação ou fugiremos covardemente da luz mortal para a paz e a segurança de uma nova Idade das Trevas".

Esta citação quase profética de "O Chamado de Cthulhu" é um aviso. Um aviso atual para um momento histórico em que a humanidade enfrenta uma corrida tecnológica precipitada que tende a empurrar seus próprios limites: a investigação sobre o genoma humano, a clonagem, organismos geneticamente modificados ou doutrinas transumantes (teoria da confusão de gênero) são ameaças que, ao contrário do "panteão oculto" criado pelo autor, são bem reais.

O panteão oculto

Este panteão oculto é um dos principais pilares, senão o principal pilar, da obra de Lovecraft. Refletindo uma civilização arcaica que permanece além do tempo, é uma caixa de Pandora que, quando aberta, irá gerar consequências fatais. Nyarlathotep, Yog-Sothoth, Azathoth, Cthulhu e Dagon, como muitas entidades, deuses adorados pelos cultos que remontam a tempos imemoriais, têm conseguido permanecer em segredo. Uma constante nas obras do autor é a quebra deste segredo; o protagonista da história será testemunha e vislumbrará acontecimentos bizarros, à beira do sobrenatural que irão, naturalmente, despertar sua curiosidade. E é fato que esse poder causará a ruína do herói principal, e até mesmo de toda a humanidade. "Existem horrores além das fronteiras da vida de que não suspeitamos e, de vez em quando, a malignidade humana os coloca dentro de nosso alcance". A curiosidade será um dos fatores determinantes da história, porque esta vai mudar o destino do horror, como aconteceu com Francis Weyland Thurton, herói de "O Chamado de Cthulhu" e antropólogo, que retomará a investigação iniciada por seu falecido tio-avô, depois de encontrar um baixo-relevo representando uma criatura hedionda acompanhada por hieróglifos desconhecidos.

Lovecraft é famoso por ter criado um mundo próprio: as criaturas e os deuses acima mencionados são os exemplos mais representativos. Mas também incluem lugares importantes, como a repugnante Innsmouth, uma cidade que esconde um terrível segredo, ou mesmo Arkham e a Universidade de Miskatonic. Há, também, no trabalho geral do autor, um corpo de livros amaldiçoados. "Cultos dos Ghouls", "Pnakotiques", "L’Unaussprechtlichen Kulten" ou o famoso "Necronomicon", com histórias únicas para cada um deles, e às vezes detalhes fornecidos sobre seus autores. De modo que realizaram-se debates sobre a existência destes livros! Este é o caso particular do "Necronomicon", um livro emblemático, parte do que alguns chamam de o "mito de Cthulhu", e é frequentemente mencionado na obra de Lovecraft, mas também além dela (por exemplo, no filme "Evil Dead"). As histórias de Lovecraft, assim, seguem um padrão específico que permanece praticamente inalterado, todos têm suas raízes em um verdadeiro paradigma que submerge o leitor no universo que tornou seu autor famoso. Tanto o conteúdo quanto a forma são inseparáveis, unidos em um horror, graças, em parte, ao mundo desenvolvido ao longo da história, uma verdadeira descida aos infernos que quase sempre resulta em morte ou loucura...

Uma humanidade ultrapassada

A imagem de Lovecraft é geralmente a de um homem que entrou em colapso sobre si mesmo. Certamente, ele é um escritor atormentado mas, no entanto, quando se olha um pouco mais de perto, percebe-se que o homem em questão é mais aberto ao mundo do que parece. Sabemos, hoje, que Lovecraft era interessado em ciências, especialmente Astronomia. Este aspecto de sua personalidade está presente ao longo de todo o seu trabalho, mas existe mais além disso. De fato, a sua obra reflete a realidade de uma época, ou seja, um dualismo entre a Ciência, que estava ficando mais forte através de muitos avanços (descoberta do Quantum de energia por Max Planck em 1900, a Teoria da Relatividade de Albert Einstein em 1905, ou a galáxia descoberta além da nossa própria, por Edwin Hubble, em 1924) e o outro pólo conservador, com forte influência religiosa.

Em suas histórias, não é incomum que os protagonistas adotem uma abordagem científica para elucidar os mistérios que enfrentam, mesmo que nem sempre eles entendam o como ou o porquê (como em "A Cor que Caiu do Céu"). Além das considerações sociais desse dualismo, a Ciência tem outro impacto na obra de H. P. Lovecraft, não como um aspecto direto, mas sim como um ponto de partida da ideia principal na mente do autor: o homem - e seus avanços técnicos e científicos, em particular no campo da astronomia e do universo -, não é nada. Assim, H. P. Lovecraft rejeita o etnocentrismo absolutista herdado, em grande parte, da filosofia Iluminista, ao impor não um deus conhecido dos homens (com exceção de alguns iniciados) ou um deus benfeitor, mas este "panteão oculto", que parece ser uma ameaça para a humanidade.

Que somos nós, seres humanos, ao sermos confrontados com estas criaturas, deuses que existem além do abismo do tempo? Apesar do progresso técnico e científico, ao que parece, de acordo com Lovecraft, a resposta é "nada". Este pessimismo quanto ao nosso futuro, o autor deve, talvez, à influência da Revolução Conservadora Alemã, ao conhecer Oswald Spengler.

Como evidenciado pela correspondência com Clark Ashton Smith, em 1927: "É minha convicção, e já o era muito antes de Spengler afixar com selo de evidência acadêmica, que a nossa era mecânica e industrial é uma era de completa decadência". Decadência, segundo Lovecraft, também se aplica ao indivíduo através do prisma da degeneração étnica e racial. O autor é realmente conhecido por seu racismo e antissemitismo, e é inegável que este aspecto literalmente escorre através da sua obra: "[...] os prisioneiros todos provaram-se homens modestos, miscigenados, e de mentalidade aberrante. A maioria era de marinheiros, mas havia alguns gatos pingados que eram negros e mulatos, um grande número de índios ou portugueses criolos das Ilhas Cabo Verde, que davam um colorido de voduísmo ao culto. Mas antes que muitas perguntas fossem feitas, ficou claro que algo mais profundo e arcaico que fetichismo negro estava envolvido. Degradados e ignorantes como eram, as criaturas mantiveram com surpreendente consistência a idéia central de sua abominável fé" (retirado de O Chamado de Cthulhu). Hoje em dia, mesmo essa descrição sendo parte de um contexto completamente ficcional, o autor teria uma visita da 17ª Seção do Tribunal da Suprema Corte de Paris! Este desgosto pela miscigenação vai cada vez mais longe, indo em direção a um atavismo sobrenatural e assustador, como em "A Sombra de Innsmouth" ou "O Medo à Espreita".

Por fim, um dos aspectos mais interessantes de Lovecraft encontra-se em um confronto global entre os adeptos do mundo civilizado e moderno dos métodos científicos e racionalistas, e um inimigo falsamente arcaico. Desenvolvimento de armas avançadas, tais como armas a laser para aniquilar a espécie humana (o que não imediatamente põe a obra do autor no domínio da ficção científica), a própria existência destas criaturas, o quão desconhecidas elas são para o homem e seu poder perturbador (mágico? científico?) são suficientes para dominar a humanidade ultrapassada...

O horror que está além

Em vista das várias características fundamentais da obra de Lovecraft, ela deixa em aberto a questão sobre o autor ser ou não, em última análise, um reacionário típico de seu tempo. A rejeição dos princípios do Iluminismo, seu desagrado com a miscigenação e sua postura ambígua em relação à modernidade nos deixa pensar que sim. No entanto, é preciso levar em conta o pessimismo, misantropia e a vida do autor, de classe baixa em uma América em plena mudança. Sua relação com a Ciência continua a ser uma das chaves para a compreensão de sua obra, uma verdadeira relação de amor e ódio, uma tensão que age como um ponto-chave. O que ele pensaria da América hoje, o quartel-general das finanças no mundo, uma sociedade dividida entre os piores dos libertários liberais (veja Miley Cyrus) e o fanatismo fanático de alguns? Assim como Deus foi morto pelo homem, de acordo com o célebre filósofo do martelo, H. P. Lovecraft podia querer que o horror que se situa além do tempo, no fundo de R'lyeh, permanecesse afundado; deste modo, seu estado de dormência chega ao fim ao começo desta era das trevas demasiada humana...

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Álvaro Hauschild - Dicotomia “Direita” e “Esquerda”: Indeterminação do Liberalismo

por Álvaro Hauschild

Ernesto Scheffel, Tríptico: O Culto da Natureza, Criação, O Conhecimento da Natureza.

O que hoje se divide em direita e esquerda, no século XVIII, representava um único grupo: o dos liberais, iluministas. É uma ilusão, portanto, acreditar que a política se reduz a este dualismo; primeiro porque exclui, de antemão, qualquer pensamento não-moderno e não-iluminista e, em segundo lugar, porque a completa indefinição desses conceitos relativiza todo debate político, criando confusões profundas e absurdas que não podem existir em um meio que busca uma resolução para os problemas políticos.

Não vamos expor aqui o que se entende por direita e esquerda, porque os absurdamente diversificados aspectos de cada um acabam por confundir ambos em uma coisa só. As múltiplas noções de liberdade podem ser encontradas tanto em um lado como em outro, o que dificulta uma análise genuína de ambos os lados. As noções de Estado mínimo e máximo, de igualdade e dignidade humana, que derivam do princípio de liberdade, são completamente relativizadas neste debate, de modo que encontramos de um mesmo lado opiniões completamente antagônicas e, de lados opostos, idênticas, fazendo com que seu enquadramento na “direita” ou na “esquerda” seja apenas uma questão de interpretação arbitrária dos conceitos debatidos. A própria identificação da direita com o capitalismo e da esquerda com o comunismo é absurda, pois temos, por exemplo, auto-intitulados direitistas que louvam um Estado protetor, criticando um desaparecimento do Estado na esquerda, e outros direitistas que louvam um Estado mínimo e meramente regulador, criticando o “Estado máximo” da esquerda, e assim por diante.

Na própria dicotomia capitalismo-comunismo, fugindo dos conceitos de direita-esquerda, encontramos o mesmo problema. Afinal, o capitalismo é um monstro padronizador e opressor ou é uma anarquia social-econômica? E o comunismo, um monstro padronizador e opressor ou é uma anarquia social-econômica? Ora, por que não aceitar ambas as hipóteses, tanto para o capitalismo como para o comunismo? Ambos anulam o valor, o caráter, a personalidade humana, atomizam o homem (ou seja, individualizam) ao mesmo tempo em que universalizam a sociedade, rumo a um coletivismo absoluto – em ambos, o homem é reduzido a um número, em ambos é “só mais um”, em ambos a igualdade, o que quer dizer indiferenciação e desvalorização dos talentos e caráteres. Ambos nivelam os homens e dão valor à soma de indivíduos, destruindo o direito de talentosos e os oprimindo com a algazarra da “maioria”. É o poder da maioria, a lei da selva, e não da inteligência e da dignidade humana. Para ambos, podemos fazer esta projeção, serve a democracia, que nada mais é que o poder das massas e “livres associações financeiras”; todos são massa e, se quiserem, também podem escalar a sociedade e fazer parte dessas “livres associações financeiras”, que não são outra coisa que oligopólios “possíveis para todos”. No fundo, a democracia não passa de ser a mais terrível hipocrisia, e capitalismo e comunismo apenas formatações incompletas dessa hipocrisia, que se complementam e colaboram mutuamente. O capitalismo é um liberalismo que carece da necessária comunhão com o comunismo, e o comunismo é um liberalismo que carece da necessária comunhão com o capitalismo. A democracia, a social-democracia, é o modelo ideal de sociedade liberal, moderna, que, depois da breve e instável cisão no início do século XX, se encontra de novo no final do mesmo século para a finalização do seu projeto no século XXI. E a finalização desse projeto abre um novo estágio no Ocidente: o globalismo, a pós-modernidade, a pós-história, o desumano mundo pós-humano.

Alguns dirão, porém, que sequer o capitalismo nem/ou o comunismo são padronizadores, que são pluralizadores, diversificadores. Ora, a padronização é o modo em que se dão estas desordenadas diversidades e vice-versa: a atomização da sociedade causa os dois, ao mesmo tempo: todos se tornam, de repente, “iguais” e, por outro lado, cada um tem a “sua particularidade”, o “seu espaço”, a “sua forma individual”, desde que essa igualdade não é uma identidade metafísica, mas tão somente uma arbitrariedade, uma valoração que dá o mesmo valor artificial para objetos (entes) distintos no mundo (metafisicamente diverso). Toda essa confusão conceitual, já dissemos e reafirmamos, deve-se à falsa seriedade que se dá para a linguagem, metafisicamente limitada, esta uma “seriedade” de caráter plenamente moderna e iluminista, analítica, longe das verdades ontológicas do mundo grego e medieval (patrístico e neoplatônico). Podemos dizer o mesmo dos caráteres ilusoriamente duplos opressor-libertário e totalitário-anárquico de ambos os regimes: “liberam” o indivíduo ao passo que o aprisionam em um sistema de múltiplas e infinitas delimitações e obrigações; controlam tudo através do Estado ao passo que liberam cada qual em um meio onde um indivíduo intervém inevitavelmente na vida do outro. Cioran disse que os sistemas filosóficos geram sistemas totalitários e ditaduras opressoras, e é exatamente isto que vemos no resultado de todas as sistematizações da vida humana (na ética, na ciência, no direito), desencadeadas pela filosofia desde os princípios da modernidade. Jovem admirador de Hitler, entusiasta da Guarda de Ferro de Codreanu, ele percebeu que até mesmo os nacionalismos eram incapazes de escapar do destino sistemático, certamente porque a própria noção de “nação”, bem exposta por Alain de Benoist em seu Nação e Império, também é um conceito falso e padronizador, arbitrário, dado a um conjunto de tradições que pouco ou nada têm em comum. Todo o erro parte da tentativa satânica de sistematizar o insistematizável, que é a alma humana, e seu aspecto social: a comunidade humana. É inevitável que a crueldade, como todos os males que decorrem de um mal maior, apareça e domine como um câncer, tanto a sociedade como o homem particular. O homem quis ser livre das tradições, do substrato ontológico, e acabou preso por um desentendimento de origem meramente conceitual através da própria ferramenta com a qual traiu as tradições, a linguagem delimitadora, pela confusão das línguas – incapaz de transpor sua própria individualidade para um entendimento [1] social, essencialmente humano (simbólico e intuitivo), aqui o homem se perde no abismo de sua solidão plena; e quanto mais coletivo for o meio, mais solitário ele se sente, pois mais evidente se torna a distância que se causou entre o “eu” e o “tu”.

Voltando às dicotomias direita-esquerda, capitalismo-comunismo, etc., podemos perceber como estes dualismos insolúveis liberam uma energia interminável que põe toda a humanidade em cinética a resolver o insolúvel (a remediar no infinito), através de intermináveis remendos e pequenas reformas nos sistemas, que só agravam e aprofundam ainda mais a confusão geral, e alimentam cruelmente a solidão humana, cuja alma foi sequestrada de sua intuição do divino e, portanto, da sua íntima relação com Deus. Toda a emergência com que aumentam o consumismo, a multiplicidade de prazeres e produtos, as viagens, a tecnologia, as leis, se deve ao erro primordial – trata-se do desespero do homem, que em lugar algum se encontra a si mesmo, “sua morada”. E por quê? Porque nega voltar o olhar para outra direção, se nega a valorizar o belo, o sagrado, como se se tratasse de acessórios e não da própria essência humana, da razão do homem para ser (viver e morrer).

Assim, tanto os auto-declarados direita quanto os auto-declarados esquerda (mesmo os que se declaram de outras vias e opiniões, mas debatem a partir da Weltanschauung iluminista de modo geral) insistem em discutir a economia ou as leis como coisas em si, como se tivessem em si qualquer relevância para o ser-aí do homem. Por isso negam o que segundo eles são utopias: negam o orgulho patriótico, ridicularizam o país, cospem na bandeira, superestimam o exterior (“lá na França isso, enquanto no Brasil aquilo...”), e acabam com isso feificando ainda mais sua própria existência, por causa de orgulho mesquinho individualista. Mas não destroem só sua própria existência, também corroem e destroem a dos outros, são catalisadores de um processo de contínuo distanciamento com relação a Deus que é generalizado – sem efetivamente estuprar uma criança fisicamente, corrompem (o que equivale a estuprar) milhares, milhões delas, o que é coisa obviamente muito pior (mas é permitido por lei, não é? então está bem); a secularização, esta supervalorização da lei, desumaniza o homem, o arranca do centro de sua própria existência, e o permite agir contra si mesmo e contra todos os demais só porque um papel diz que pode. Falamos em termos tão miúdos e cotidianos porque hoje nem os adultos são capazes de ler Monteiro Lobato e entender, imaginamos então o que acontece quando precisam lidar com filosofia nua a crua (não nos referimos aqui apenas ao enciplopédico conhecimento dos autores, mas da filosofia pura, do pensar natural do homem), mesmo que seja sobre o que há de mais simples e fundamental.

Continuando: o oposto da esquerda não é a direita, nem o do capitalismo é o comunismo – ambos se complementam, são filhos de uma só visão originária, a qual pode-se nomear liberalismo. Aliás, era este o nome utilizado por Dostoievsky, por exemplo, para se referir a todos os tipos modernos, racionalistas/empiristas, cientificistas, socialistas, capitalistas, que iam para a Rússia divulgar ideias modernas em geral da França, da Alemanha, da Inglaterra e dos EUA; isto pode-se notar não apenas em artigos e cartas do autor, mas também em seus livros, cujos temas sempre aludem a estes elementos bem explicitamente. Só para citar alguns: Luzhin, em Crime e Castigo, a sociedade secreta de Os Demônios, O Crocodilo, Notas de Inverno, etc. Mas o que são os “liberais”? São aqueles que pretendem se “libertar”, ou seja, derrubar impérios, queimar igrejas, apagar tradições e desfazer todos os vestígios que evidenciam a dignidade ontológica do homem; e com que objetivo? Podemos chamar o próprio Dostoievsky para responder esta pergunta: para permitir tudo [2], para que não haja motivo para se envergonhar de nada ou impedir nada e os prazeres humanos serem explorados, buscados e realizados como manda do famoso laissez faire hedonista. Em suma, o homem quer se libertar de suas obrigações religiosas perante Deus. Mas isso significa, mais do que isso, fazer-se Deus, como Prometeu, que roubou a luz [3] de Zeus, ou como Lúcifer, que tomou um trono para si e declarou-se o Rei do Mundo. Acontece que o homem é uma criatura, ele precisa de Deus, e não para a satisfação d'Ele, mas da Criação, o que inclui o homem acidentalmente, sendo ele, porém, o centro dela, o ser-para-o-mundo, o ser-aí-no-mundo [4]. Se o homem negá-lo, e isto significa não só dizer blasfêmias, mas agir, pensar, se orientar no mundo a partir de e para si mesmo, onticamente, negando ou negligenciando a realidade ontológica, imediatamente ele se auto-esvazia, porque não há nada nele que seja ultimamente substancial, quando, em verdade, todo seu ser subjaz num ser que o ultrapassa absolutamente, mas que lhe é eternamente presente, inerente, nunca no sentido de completa incognoscibilidade. Vazio, o homem é como o mundo pós-apocalíptico, esquecido num universo do qual não pode sair nem morrer; pois, se a existência humana não tem um motivo, se ela não é um caminho a se percorrer, rumo a uma meta, que diabos seria ela? Aliás, sem razão de ser, como pode algo existir? Por isso que, negando a realidade, a verdade (ἀλήθεια), o homem nega o óbvio, e se perde sozinho - uma confusão desnecessária e plenamente ilusória, como a da menina que se tortura supondo que uma certa pessoa não gosta dela, mesmo sabendo que é pura ilusão e coisa da sua cabecinha dramática.

Este é o ponto do liberalismo, do iluminismo, do gesto de Napoleão de coroar a si mesmo, da maçonaria e de muitos outros grupos derivados ou inclusos. Como Kant que negou Deus e instaurou seu princípio supremo da moralidade; como Hobbes que negou o mesmo instaurando o contrato social; como Copérnico que, negando o mesmo, pôs a verdade nos instrumentos, objetos, e sentidos fisiológicos; mas, também, como São Tomás, que O negou reduzindo-O a um ente, um conceito da sua razão. Não precisaríamos citar Descartes, um dos mais importantes elementos satânicos da filosofia, que negou a realidade pura, a intuição de Deus, substituindo-O por uma conclusão racional, pela conclusão de um cálculo que, segundo ele, é metafísico. Daí em diante a filosofia surtou, gerando explosões rebeldes e desordenadas, como Leibniz, Nietzsche, Schopenhauer, Kierkegaard, que nunca mais conseguiriam alcançar a harmonia da patrística em um Ocidente conturbado, capaz de confundir e separar até os melhores homens uns dos outros [5]

Dugin não erra: percebe claramente onde está o liberalismo geopoliticamente; o que se poderia dizer, porém, é que ele identifica liberalismo com capitalismo, deixando elementos do socialismo e do nacionalismo de fora. Assim, o liberalismo deixaria de ser a ideologia moderna originária par excellence, sendo apenas uma das ideologias modernas. É aqui que pode surgir a confusão com a introdução das Escolas de Frankfurt e de Viena: onde estão eles, afinal? Possuem elementos tanto socialistas como capitalistas ou nacionalistas, e influenciam a pós-modernidade nos países do Ocidente através de todo um universo aberto pelos EUA no plano internacional. Assim, os EUA não podem ser meramente capitalistas, e não seria por isso que eles representam o núcleo da modernidade e da pós-modernidade que pretende tomar o mundo. Os EUA, pois, representam o liberalismo, sim, mas não só o capitalismo: para lá rumam também os socialistas e nacionalistas, muitos dos quais se intitulam de "direita". Os EUA são o polo, o centro da modernidade que tende a engolir e aceitar todas as ideologias modernas. Socialistas, nazistas, neopagãos, todos se opõem ao multipolarismo e à Rússia, na atual polarização do mundo; todos se entregam ao abraço do Leviatã que distribui direitos e democracia com bombardeiros. Todos os modernos, que se identificam passivamente com algum aspecto da modernidade, possam ser os aspectos os mais distintos e variados, imediatamente se colocam ao lado dos EUA.

Outra verdade: não há mais comunismo, não há mais União Soviética, assim como não há mais um Estado capitalista puro. O que aconteceu foi uma reunificação de todas as frentes dispersas da modernidade e um fortalecimento no núcleo da OTAN, principalmente nos EUA. É fato que os tentáculos desse Leviatã atingem o mundo inteiro, mas como alguém que luta contra o outro e busca engoli-lo - o resto do mundo é o diferente, aquele que não seria moderno ou liberal se não fossem os tentáculos. Em suma, são as social-democracias, repletas de ONGs internacionais, privatizações, preenchidas por uma volumosa e dominante classe média, o sujeito geopolítico do liberalismo pós-modernizante. Países como o Brasil, por motivos históricos e políticos, lenta e dolorosamente cedem ao poderio internacional unipolarista, com a moral popular cada vez mais baixa devido à ação interna de sociedades secretas e agentes financiados por empresas multinacionais, que incutem no povo o ódio à pátria, incitam a rebeldia sem-causa, os clamores por privatizações (que não são outra coisa que roubos, assaltos, ao poder popular) e assim por diante, ao mesmo tempo em que ordenam à classe média sair a passeatas com a camisa do Brasil, em um horrendo ato de gozação e blasfêmia contra os símbolos mais caros da pátria. As forças armadas, por sua vez, incapazes de perceber esta sutil gozação feita contra elas mesmas, que se entrega a poderes cuja lealdade está nos EUA, sucumbem à admiração dos símbolos estrategicamente manipulados, tal como acontece com o "patriotismo" ianque, que primeiro oferece a cerimônia ao soldado e ao povo e depois abandona o soldado no Oriente Médio e o próprio povo na pobreza extrema, nos pátios da Casa Branca.

Diferente do Brasil, a Rússia proíbe ONGs, passeatas gays e outras agendas liberais, alimentos transgênicos; fortalece o patriotismo, aproxima o governo do povo e a pátria da natureza, lidera à Igreja, e os sucessos na geopolítica só crescem e aumentam, assim como na economia,  por consequência. O povo brasileiro tem muita força, vitalidade, muita tradição e história, o potencial para a economia é gigante, para a exploração de fontes energéticas é a maior potência mundial; também, todos sabemos, é hospitaleiro, amoroso. Só restaria agir contra os sanguessugas internacionais em todas as frentes para se ver livre; mas aqui é fundamental dirigir o amor e a hospitalidade, acima de tudo, para si mesmo, em despeito aos estrangeiros e em favor dos brasileiros, amor de patriota como de um cristão que ama o outro, que vê a dificuldade do outro, e o ajuda. As belezas naturais pelo país todo são diversas e variadas, as nacionalidades são variadas, cada qual com suas tradições - todas, porém, cristãs e tradicionalmente medievais, descendentes de castelões, cavaleiros, agricultores, peregrinos e sacerdotes, a não ser as indígenas, que até hoje conservam e lutam por conservar suas tradições contra a moderna urbanização e nacionalização (padronização) do governo liberal e das iniciativas privadas - temos uma tradição viril de colonizadores e camponeses religiosos, temos belas mulheres, belos folclores (indígena, ibérico, africano, germânico), bela literatura (Lobato, Suassuna, Alencar), belas músicas (Villa Lobos, MPB). Isto tudo basta para que um grupo de políticos dê ao povo o que ele quer; a luta contra os internacionalistas evidentemente é difícil, mas um povo preenchido por sua beleza não se deita uma segunda vez, é desperto no ser, e passa a agir espontaneamente, participa na luta ativamente.

Mas beleza não é algazarra, não é festividade, não é a confusão massificada de múltiplas e desencontradas opiniões sem-sentido; beleza é um aspecto divino e, consequentemente, do próprio ser do homem - o silenciosamente sutil e sublime, aquilo que é grande, maior que os céus, no entanto tão íntimo, tão próximo! Beleza é a harmonia da multiplicidade em um todo uno, as múltiplas tradições, preservadas, cada qual em um espacinho do nosso Brasil, cada qual próxima de suas florestas, vales e montanhas, cada qual com sua etnia própria, sua família, suas cores, sabores, seus próprios cânticos e lendas populares. Isto é o belo. Isto é o homem, isto somos nós, e é disto que precisamos, aqui está contido o mistério da nossa verdadeira liberdade e felicidade, nossa criatividade que surge da auto-compreensão através do orgânico e natural, em oposição ao artificial, econômico, cosmopolita, mecânico...

Comumente, os conceitos fragmentários, como de "direita", "esquerda", "socialismo", "nacionalismo", vistos a priori de um ponto de vista burguês, urbano, tecnicista, secular, individualista, essencialmente moderno, são fomentados conscientemente nas disputas populares, com fim unicamente de dividir o povo e obrigá-lo a gastar energias a disputar por aspectos de uma mesma realidade, de lados de um mesmo polígono, tomado como pressuposto pelas elites modernas - é um modo de fazer o povo atingir unicamente a si mesmo na violência, e esquecer que a oposição real está além destes conceitos, assim como a salvação também está além deles. Toda luta que se fecha no social e no econômico é uma luta míope, que não vê para além das sombras e fantasias do mundo moderno.

E sem sermos necessariamente integralistas, deixemos que Plínio Salgado conclua este artigo:

Em vos falando da verdade, pergunto-vos: existe uma verdade da "direita" e outra da "esquerda"? Onde está a verdade? Como atingirmos a verdade?

Respondo-vos, dizendo que não existe uma verdade da "direita" ou da "esquerda, porque no sistema do mundo, na essência do cosmos, não existe nem "esquerda" e nem "direita", e sim condições de movimentos e processos de expressão de forças eternas, de um modo imutável.

A verdade está no Absoluto das coisas. [6]

NOTAS

[1] Entender: intendere, tender em/para, tensionar para, jogar-se em, ligar-se com, conectar-se; também no sentido de saber ou conhecer a razão de algo, compreender o outro. Entender: estar com o outro (e só por isso entender, saber, conhecer, este outro). Do mesmo modo, conhecer: o homem conhece a mulher, ou seja, o homem se conecta com a essência dela, ou seja, sabe sua beleza, ou seja, vê a si mesmo nesta beleza. Na Bíblia, conhecer significa: união, unidade, casamento: Noé conheceu sua mulher, e ela gerou filhos tais e tais. Logo, não pode haver conhecimento nem entendimento em um modo objetivante de ver as coisas (através da Weltanschauung iluminista), que separa sujeito (cognoscente) e objeto (conhecido). ἐντελέχεια ([ἐν] τέλος ἔχειν): no fim, para o fim, uno no Absoluto.

[2] Tema presente em várias obras do autor e filósofo russo: se Deus não existe, tudo é permitido. Atenção especial para Братья Карамазовы (Os Irmãos Karamázov) e Бобок (Bobok).

[3] Daí o iluminismo, a "luz" do homem, contra Deus.

[4] Ler Sein und Zeit, Heidegger, M.

[5] É com a fenomenologia, especialmente em Heidegger, que muitas das ideias e conceitos vazios e confusos da tradição voltam a se encontrar em um debate todo novo, orientado e dirigido a Platão. Se esse projeto dará frutos significativos, ainda não se pode dizer.

[6] aquartahumanidade.blogspot.com.br "Verdades da "direita" e da "esquerda" (1933)"

Publicado originalmente aqui

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Mark Hackard - O Bombardeiro da Paz

por Mark Hackard



Nos últimos meses de 2010, os EUA haviam intensificado sua campanha aérea sobre terras tribais pashtun que se situam ao longo de uma montanhosa e parcamente definida fronteira paqui-afegã. No curso de 102 dias, 58 ataques contra operativos da Al-Qaeda e do Talibã (bem como contra um número alto, porém desconhecido, de inocentes) foram realizados pela Força Aérea e pela frota de veículos aéreos não-tripulados da CIA.

Tanto jihadistas como civis são incinerados por mísseis hellfire sem muita atenção da mídia, e soldados e fuzileiros americanos que caem em combate não tem como esperar coisa muito melhor. Porém, uma morte conectada à guerra no Hindu Kush certamente atraiu atenção em Washington: a de Richard Holbrooke, o Representante Especial do Departamento de Estado para o Afeganistão e o Paquistão.

Holbrooke, responsável pela coordenação diplomática do conflito, morreu de uma aorta rompida em 13 de dezembro. Desde então, a imprensa e a administração Obama derramaram torrentes de elogios sobre esse "gigante da diplomacia americana". Mas talvez o tributo mais adequado ao homem tenha sido o papel cada vez maior de drones assassinos na execução de políticas, como relatado desde o noroeste do Paquistão. Apesar de suas experiências anteriores no Vietnã, Richard Holbrooke passou a crer firmemente em redenção por poder aéreo coercitivo. No bombardeio há progresso; no bombardeio deveremos encontrar a paz.

À luz de seu zelo missionário, as realizações e histórico de Holbrooke merecem exame. Ele foi, como o estudioso dos Bálcãs Srdja Trifkovic notou, um arquiteto central e de certas maneiras a personificação do intervencionismo americano. À parte seu status elevado em Foggy Bottom, Holbrooke representava um nexo de governo, interesses de Wall Street e influência de ONGs. Nessa capacidade, ele foi por décadas um impositor efetivo e enérgico da Pax Americana. Onde projetos geopolíticos americanos cruzavam com pontos de crise na Eurásia, Holbrooke era enviado para explorar a situação. Seus métodos de negociação consistiam principalmente na apresentação de ultimatos e punições correspondentes por desobediência.

A década de 90 seria a década em que Holbrooke ganharia sua fama. Conforme a antiga Iugoslávia se despedaçava em conflitos étnicos e religiosos, os EUA buscavam impôr sua dominação sobre a região. As guerras balcânicas daquela década foram algo brutal e complexo, mas para Holbrooke e a administração Clinton era tudo muito simples: os sérvios precisam ser diminuídos. Aqui, também, estava a perfeita oportunidade para se exercer poder americano em prol do progresso humano. Nos vales montanhosos do sudeste da Europa, os fantasmas da história só poderiam ser exorcizados com uma barulhenta demonstração de força. Como um profeta de Washington, Holbrooke iluminaria o caminho para uma Sociedade Aberta com munições guiadas por laser.

Os papeis nessa peça teatral moralista já estavam distribuídos: muçulmanos bósnios virtuosos e vitimizados, croatas mais ou menos toleráveis, e sérvios malignos, até mesmo selvagens. O fato de que o presidente bósnio Alija Izetbegovic e seu par croata Franjo Tudjman eram gangsters do mesmo molde que o sérvio Slobodan Milosevic não era registrado pelas elites da política externa americana - o roteiro já estava escrito, e tinha que ser seguido. A direção desse cenário por Holbrooke lhe garantiria seguidores no Ocidente, com os Acordos de Dayton de 1995 sendo projeto seu.

A fórmula favorita de Holbrooke de intimidação e bombardeio aéreo foi aplicada repetidamente para forçar Belgrado a se submeter às demandas americanas, primeiro de criar o Estado bósnio e então de separar o Kosovo da Sérvia em 1999. O seguinte pedido a seu colega Strobe Talbott esclarece Holbrooke, amante e libertador da humanidade, em toda sua retidão beligerante:

"Este é um momento crítico para nós pessoalmente, nossa responsabilidade para com a nação e a coisa certa a fazer. Dê-nos bombas para diplomacia. Dê-nos bombas para a paz. Precisamos bombardear para tornar nossa diplomacia efetiva. E não nos segurarmos".

Seria um erro ver tal apelo como meramente outro exemplo do dito de Clausewitz sobre a guerra como instrumento da política, pois ela está enraizada em uma visão muito mais ampla e de longo alcance. O homem criado quaker por pais judeus ateístas desenvolveu uma fé inabalável na violência redentora, a destruição revolucionária necessária para moldar um novo mundo. Nisso ele era uma alma irmã dos radicais oitocentistas e neoconservadores contemporâneos como Paul Wolfowitz. O desejo apaixonado de Holbrooke por bombas foi concedido, a influência americana na Europa justificada, e novos micro-estados muçulmanos estabelecidos nos Bálcãs.

Holbrooke usualmente explicaria suas ambições políticas no contexto de sua história familiar e etnia. Sua mãe havia fugido da Alemanha na década de 30, seu pai de Varsóvia. Um secularista convicto, como muitos outros homens assim Holbrooke ainda assim se orgulhava de sua herança judaica e evidentemente mantinha um forte laço emocional com Israel e o sionismo. E apesar de ele ter nascido em Nova Iorque, em seu coração ele se identificava com o refugiado alienado.

Por insistência da mídia, pressupõe-se que devamos associar o falecido Holbrooke fundamentalmente com compaixão e saudá-lo pro lançar seu nome por trás de inúmeras iniciativas humanitárias. Ainda assim, demonstrações públicas de virtude não retratam plenamente o espírito da carreira de Holbrooke e sua missão maior. Por trás da retórica moralista e de projetos de ajuda dignos de celebridades estava uma clara veia de animosidade em relação à cultura tradicional e os povos da Europa.

O que impulsionava Holbrooke tanto quanto simpatia por certas classes de vítimas era uma profunda hostilidade ao cristianismo, principalmente pela civilização ortodoxa, que tem permanecido significativamente fora da órbita americana. Assim, ele não foi apenas ativo mas entusiástico em garantir que a Sérvia seria pulverizada por uma campanha aérea da OTAN e roubada da província do Kosovo. Hoje o Kosovo é o maior conduíte europeu para a heroína afegã e um centro de tráfico ilegal de órgãos, além de abrigar uma das maiores bases americanas no continente. Holbrooke também nunca cansou de recomendar a entrada da Turquia na UE e era um promotor ativo de proxies jihadistas na Europa ocupada.

Se uma política provavelmente antagonizaria a Rússia, Holbrooke provavelmente a apoiaria. Da expansão da OTAN, a revoluções coloridas e programas de "sociedade civil" a tensões na Ossétia do Sul, ele consistentemente buscava interferir na periferia de Moscou. Sérvios desafiadores e os nacionalistas retrógrados no Kremlin tinham que conhecer seu lugar no Admirável Mundo Novo, e precisavam assim ser punidos e humilhados até que abraçassem sua subjugação. Se a Rússia em algum momento tivesse carecido dos meios de se defender, Holbrooke indubitavelmente teria estado pronto para implementar o modelo Kosovo no Cáucaso.

Todo o estilo e substância da obra de Holbrooke pode ser destilada em uma qualidade: não compaixão, mas agressão. A antiga prática imperial de dividir para conquistar só foi ampliada pelo discurso da ideologia dos "direitos humanos", e clipes de refugiados veiculados pela CNN serviam como desculpa conveniente para lançar mísseis contra infraestrutura civil. Onde estava, então, a lendária compaixão de Holbrooke por sérvios "expurgados" em Krajina e no Kosovo, ou por aqueles sequestrados, executados e explorados como doadores de órgãos no mercado negro? E as vítimas da Operação Força Aliada da OTAN? Elas não merecem a menor lembrança; nem, aliás, cristãos do Levente ao Timor Leste. Holbrooke tinha pouco tempo para se importar com os massacres dos timorenses na década de 70, enquanto ele estava obtendo caças contra-insurgentes para os assassinos indonésios. Isso não é pacificação, mas predação.

O teórico russo da renovação cultural Ivan Ilyn descreveu os bolcheviques que tomaram o poder em sua terra natal como aventureiros internacionalistas. Entre os supostos estadistas de nossa era, Richard Holbrooke exibia a marca do messianismo impiedoso característico de um Lênin ou Trótski. Ele, também, era um aventureiro internacionalista e o herdeiro espiritual de uma geração anterior de homens que promoveram a causa da revolução global. A morte de Holbrooke na aventura afegã é um prenúncio pouco sutil do que vem por aí: tal como o marxismo soviético, a ordem liberal marcha de seu momento de exaltação à aniquilação em meio a um terreno familiar.

Comentaristas tem lamentado o vácuo na política externa americana causado pela saída de um diplomata insubstituível. Em realidade há muito tem havido um nada sobrepujante no globalismo americano; o próprio Holbrooke, a grande máquina de demolição, incorporava este fenômeno melhor do que ninguém. Ele prestou serviços inestimáveis ao Império, tornando o mundo seguro tanto para a MTV como para os mujahedin, para a Ikea e o ELK. O que permanece é uma trilha de morte, as baixas infligidas para aproximar o homem a uma fraternidade de consumo, o composto para um futuro perfeito de liberdade e igualdade.

Richard Holbrooke proferiu estas palavras em uma entrevista em 2010 para descrever o programa político jihadista, mas ele não captou a ironia. Sua frase expõe tão bem quanto a longa guerra por democracia universal:

"É puro niilismo. Eles não representam absolutamente nada além de destruição, e eles destroem as vidas das pessoas deu ma maneira aleatória e insana".


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Gustavo Aguiar - O Übermensch como Personificação Hipostática do Princípio Urânico-Solar

por Gustavo Aguiar



“Uma única coisa deve importar ao homem: permanecer de pé entre as ruínas” – Julius Evola

Muito se fala do super-homem nietzschiano como arquétipo de auto-superação transcendente, de rito de passagem de uma condição estritamente corpórea, passional e imperfeita para uma instância supra-corpórea, extramundana e ascética. Entretanto, essa interpretação filosófica prescinde dos componentes mítico-esotéricos dos quais Julius Evola se vale para arquitetar o princípio régio da urânica solaridade, que, vinculado à configuração hierárquico-aristocrática do Sacro Império Romano Germânico, irradia centralidade, virilidade, organicidade e indecomponibilidade como pressupostos fundamentais para a consolidação de um terceiro poder entre o céu e a terra, e da perpetuação do imperium como um agregado holístico-unitário. Segundo Evola, o princípio urânico-solar, manifestado sob diferentes formas nas diferentes tradições etno-culturais da pré-história, indica sempre uma posição mais elevada no bojo de uma hierarquia de castas e de valores. No contexto da Roma Antiga, os patrícios e os dinastas gozavam de maior proximidade com o deus-sol do que os plebeus, não em função de atributos materialistas ou economocentristas - que se tornaram a medida de todas as coisas com o advento da modernidade -, mas devido a predicados congênitos de índole espiritual e metafísica. É o que se verifica na seguinte passagem: “<<Solar>>  foi a última profissão romana de fé, na medida em que o último expoente da antiga tradição romana, o imperador Juliano, reconduziu precisamente à solaridade como força espiritual irradiante do <<supramundo>> a sua dinastia, o seu nascimento e dignidade real. Conserva-se um seu reflexo até aos imperadores gibelinos – pôde-se ainda falar em uma deitas solis em referência a Frederico II Hohenstaufen”. (EVOLA, Revolta Contra o Mundo Moderno, pgs. 29 e 30) 

Nesse sentido, Francis Yockey pontifica: “Dynasty is the affirmation of political continuity from Past to Future. The political history of the West from its origins is the history of dynasties”. (YOCKEY, The Philosophy of History and Polititics, p. 148)    

Os aryos e os çûdras pertencentes às estirpes indo-arianas, outrossim, se verticalizavam com base no mesmo critério de castas. Mas o que isso tem a ver com o übermensch de Nietzsche? 

O resgate da espiritualidade paleopagã como instrumento de superação da modernidade judaico-cristianizada e do caráter ginecocrático da civilização ocidental traria, como consectário gnoseológico, a ideia aristocrática de que apenas uma Elite guardiã estaria autorizada a transcender a si mesma, a participar ativa e diretamente da comunhão com o sagrado em seu divino ócio contemplativo, em sua excelsa magnanimidade cósmico-solar. As castas hierarquicamente inferiores, regidas pelo princípio lunar de resignada passividade, a outro giro, se imiscuiriam nessa experiência de maneira indireta, mediata e residual, enxergando em seus suseranos a vívida e resplandecente personificação numênica do ídolo solar. Em termos práticos, impera a constatação de que apenas à dinastia dos imperadores, investida de uma potestade nobiliárquica, seria lícito tocar a essência do sagrado, e essa transmigração semântico-hipostática da figura do divino para a figura do Líder carismático traduziria o thelos último do übermensch, consoante descrito por Nietzsche em seu “Assim Falava Zaratustra”. Todavia, isto não implica em absoluto que as castas inferiores não superariam sua condição naturalística originária. Elas o fariam dentro dos limites de suas respectivas potencialidades. 

O simbolismo do Sol e da Lua como designação genérica dos princípios masculino e feminino também encontra respaldo na tradição alquímico-hermética: “A Mulher que desempenhou o papel de <<mãe>>, que forneceu ao ser dividido a <<Água da Vida>> e da ressurreição (o <<segundo nascimento>> próprio dos Mistérios Menores) é possuída por aquele que, de certo modo gerou e que é seu filho. Este simbolismo apresenta-se no hermetismo alquimista sob uma forma rigorosa, embora relacionado com as operações da Arte Real (que se considera, contudo, reproduzir nas suas fases a obra da criação). Aí se menciona uma primeira fase a que se chama regime da Mulher, das Águas ou da Lua, ou albedo em que a Mulher tem supremacia e reduz o homem à sua natureza (Mistérios Menores). Quando o homem se dissolveu no princípio oposto, sucede-se então o regime dito do Fogo, ou do Sol, ou rubedo, no qual o Homem volta a ter a supremacia para dominar a Mulher e a reduzir então à sua natureza”. (EVOLA, Metafísica do Sexo, p. 165)           

A releitura de Nietzsche empreendida pelo Barão Julius Evola absorve elementos escatológicos sob a perspectiva da solaridade nórdico-romana. Não por outro motivo, o mestre italiano considera Nietzsche como um filósofo incompreendido, e enfatiza sua contribuição para o campo do pensamento esotérico. Destarte, “liberando a doutrina de Nietzsche de sua parte naturalista, reconhecendo que o ‘super-homem’ e a ‘vontade de poder’ só são verdadeiros enquanto são compreendidas como valores suprabiológicos, e, queríamos dizer, sobrenaturais; então, esta doutrina para muitos pode ser uma via através da qual se pode elevar-se ao grande oceano, ao mundo da universalidade solar das grandes tradições nórdico-árias, desde cujo nome se impõe o sentido de toda a miséria, de toda a irrelevância e de toda a insignificância deste mundo de encadeados e de possuídos”. (EVOLA, Imperialismo Pagão, p. 92)  

A modernidade trouxe a absurda convicção antropocêntrica de que indivíduos isolados, atomizados, volatilizados e horizontalizados em um espaço-tempo secular destituído de uma matriz axiológico-tradicionalista e de um centro de poder ecumênico carregam em sua constituição órgano-psíquica o gérmen deste procedimento de auto-superação, como se tudo transcorresse na mais indisciplinada liberalidade e na mais ignóbil ausência de pré-requisitos objetivos e ritualísticos; como se a plebe profana e desnorteada pudesse se dar ao luxo de prescindir da existência de uma autoridade régia e dos símbolos que remetem à onipotência desta autoridade. A influência materialista do positivismo, do cientificismo e da historiografia contemporânea privam o ser nos entes do substrato animístico que propulsiona a identificação do “si-mesmo” com as externalidades supra-empíricas do devir. A incomunicabilidade do além-mundo com o mundo radicada em uma antítese diacrônica entre ambas as esferas, caracteriza o que de mais pérfido e anti-tradicional poderia haver na supressão do übermensch pelo ego, da sabedoria legítima pela erística sofística. Este contraponto entre as concepções antiga e moderna do super-homem pode ser visualizado nos diferentes significados que a guerra assume em cada contexto sociopolítico.  Para Evola, “one of the origins of the imperial apotheosis, that is to say, of the feeling  that an immortal numen was concealed in the Emperor, is undoubtedly the experience of the warrior: the imperator was originally the military leader, acclaimed on the battlefield in the moment of victory: in this moment, he seemed transfigured by a force from above, fearful and wonderful, wich imposed precisely the feeling of the numen. This view, we may add, is not peculiar to Rome, but is found throughout the whole of Classical Mediterranean antiquity, and it was not restricted to victors in war, but sometimes applied also the winners of the Olympic Games and of the bloody fights of the circus”. (EVOLA, Metaphysics of War, p. 31)

Enquanto na Roma Antiga e no Mediterrâneo Clássico os aspectos mais basilares da estrutura ontológica do imperium gravitavam em torno da apoteose mítico-guerreira evocada pela aura numênica do imperador, a modernidade, influenciada pelas correntes humanistas e iluministas dessacralizou e exauriu a carga metafísica da guerra como veículo de libertação do espírito por vias transcendentais. Aqui, a guerra denota barbaridade e selvageria, uma espécie de energia desagregadora e anti-civilizacional. Percebe-se, claramente, a extensão do impacto do esgotamento semântico de dois dos caracteres fundamentais do princípio nórdico-solar, quais sejam: virilidade e militaridade. Evola busca as raízes desta degeneração espiritual e tradicional da Europa na “judaicização do mundo greco-romano, e logo nórdico, o qual deve-se em grande medida creditar-se ao cristianismo”.  (EVOLA, Imperialismo Pagão, p. 11)

Eis o motivo pelo qual a conjuração de valores pré-cristãos serviria ao intento de combater imperativos seculares tais como o humanismo, o niilismo e o racionalismo, cujos influxos draconianos pressagiam mefistofelicamente o desmantelamento de uma herança cultural milenar. Não se trata tanto de eleger o cristianismo como arqui-inimigo do super-homem quanto de detectar retrospectivamente a causa de um problema que foi – e continua - se disseminando pelo organismo biopolítico como um tumor em processo de metástase. O cristianismo não é intrinsecamente nocivo ao ponto de merecer ser extirpado da realidade ocidental, mas não podemos nos olvidar que seus aspectos negativos são precisamente as consignas do pathos secular e do plebeísmo anti-aristocrático de cariz iluminista. 

É nesse sentido que Evola aduz que “inorganicidade e exterioridade são os caracteres dominantes nas ‘organizações’ contemporâneas. Que o Alto tenha que ser determinado pelo baixo, que a lei e a ordem, em vez de justificarem-se numa Aristocracia, numa diferença de qualidade e numa hierarquia espiritual, tenham que se fundar sobre o contingente ponto de equilíbrio de interesses e desejos de uma multidão anônima, que se encontra já despojada de qualquer sensibilidade superior; tal é o erro fundamental que se acha na base destas organizações. A raiz desta degeneração remonta a tempos longínquos, justamente naquelas épocas nas quais se desenvolveram os primeiros processos de decadência da Tradição Nórdico-Solar. Encontra-se vinculada à separação dos dois poderes, ao rompimento do princípio régio com o sacral, ao dualismo através do qual por um lado delineia-se uma virilidade material – o estado laico, o soberano, como valores puramente temporais e, queríamos quase dizer, luciféricos – e, por outro lado, uma espiritualidade lunar, antinórdica e antiaristocrática, uma espiritualidade de tipo ‘sacerdotal’ e ‘religiosa’ que sem embargo se arroga  direito à soberania”. (EVOLA, Imperialismo Pagão, p. 17) 

Se na Era de Ouro da humanidade o deus-sol e os césares irradiavam o mesmo significado e o Império Romano possuía conotações e denotações sacrais, na Idade Moderna a desmistificação deste ordenamento simbólico cedeu espaço ao patógeno da vacuidade espiritual e da desnaturação do übermensch em um construto faustiano eivado de um romantismo iconoclástico e heterodoxo. O que antes constituía a expressão máxima do heliocentrismo apoteótico-imperial transubstanciou-se em desvarios quiméricos da matéria bruta. Nos dizeres de Oswald Spengler acerca da repercussão estética da degeneração espiritual, “com o começo da Civilização, extingue-se, finalmente, o autêntico ornamento, e com ele, a arte sublime em geral. Essa tradição patenteia-se pelo “Classicismo” e pelo “Romantismo”, que, de uma ou outra forma, surgem em todas as culturas. O Classicismo significa o entusiasmo por determinado gênero de ornamento – regras, leis, tipos – que, há muito tempo, tornou-se antiquado e inânime. O Romantismo, por sua vez, é a imitação fervorosa, não da vida, de outra imitação anterior. O estilo arquitetônico é substituído por uma preferência arquitetônica. Por fim, cria-se um patrimônio de formas plásticas e literárias que são manejadas com gosto apurado, mas sem nenhuma significação profunda”.  (SPENGLER, A Decadência do Ocidente, p. 130) 

Em corroboração a este teor, Julius Evola acrescenta que “a uma organização material, a qual eventualmente uma hierarquia religiosa se agregasse, esta, na verdade, não aportaria nada, apenas um vazio contorno de formas vazias, uma fantasia de fé e de sentimento, um embrutecimento por dogmas contraditórios e símbolos que não são seus, e dos quais já se perdeu o sentido; em suma, uma hierarquia religiosa não daria uma realidade superior, solar e testemunhada em potência, que nós pagãos compreendemos como espírito, daria em vez uma absoluta irrealidade, uma retórica antiariana e antirromana que se expressa no mesmo âmbito ético, favorecendo tudo aquilo que de feminino, de ‘romântico’ e de fuga do mundo se tem acrescentado à alma ocidental”. (EVOLA, Imperialismo Pagão, p. 76)

Todas essas elucubrações apontam para uma única e mesma direção: a de que a espiritualidade e o significado cósmico-solar do super-homem, tanto em ato como em potência, devem ser resgatados de um passado pré-histórico, antes do sepultamento da Águia Romana pelo judaico-cristianismo, e, subsequentemente, pelo protestantismo. O super-homem, radicado na indefectibilidade apolínea do imperador, seja em tempos de guerra, seja em tempos de paz, reveste-se de importância fulcral pela razão mesma de conferir estabilidade e durabilidade espacio-temporal ao imperium. Não compete à multitude inflamada por entusiasmos pueris e ânimos passionais criar as normas das quais será destinatária, como sugerem os liberais e os social-democratas, haja vista que a fonte de legitimidade stricto sensu de um ordenamento social pautado em uma escatologia coesa deve ser a tradição solar. Qualquer coisa que escape às latitudes do princípio urânico e, por conseguinte, do arquétipo do übermensch, deve ser impugnada de plano como utopia pós-moderna ou simulacro de governabilidade anti-régia. René Guénon já nos alertava que “(...) cada coisa permanece na sua ordem, no lugar que lhe compete na hierarquia universal. Mas, no Mundo Moderno, onde se pode encontrar ainda a noção de uma verdadeira hierarquia? Já nada nem ninguém se encontra no lugar onde devia normalmente estar; os homens já não reconhecem nenhuma autoridade efetiva na ordem espiritual, nenhum poder legítimo na ordem temporal. Os ‘profanos’ permitem-se discutir as coisas sagradas, contestar-lhe esse caráter e até a própria existência; é o inferior que julga o superior, a ignorância que impõe limites à sabedoria, o erro que ultrapassa a verdade, o humano que toma o lugar do divino, a Terra que toma a dianteira do Céu, o indivíduo que se faz medida de todas as coisas e pretende ditar ao Universo leis tiradas inteiramente da sua própria razão relativa e falível”. (GUÉNON, A Crise do Mundo Moderno, p.64)      

No tocante aos aspectos negativos do judaico-cristianismo, Evola sentencia que “a fuga deste mundo e o perene desenvolvimento do outro – esta angústia a respeito do mundo, que é o segredo da vida moderna e que desesperadamente grita poder ser um valor para escapar da consciência de si – é, por sua vez, o segredo mais profundo do cristianismo logo do fracasso de sua escatologia; é a maldição imanente que leva consigo e que se estendeu aos povos que se converteram, traindo o ideal olímpico, clássico, ariano (...) O mundo judaico-cristão não só privou a “criatura” do divino, mas também acabou rebaixando Deus a uma figura humana. Voltando a dar luz a um demonismo de um substrato pelásgico, substituiu as puras regiões olímpicas, vertiginosas em sua radiante perfeição, com as perspectivas terrificantes de seus apocalipses, de seus gêneses, da predestinação e da perdição.Deus não foi mais o Deus aristocrático dos romanos, o Deus dos patrícios em que se reza em pé, ante o esplendor do fogo, com a frente alta e que se leva a frente das legiões vitoriosas; não foi mais Donnar-Thor, o aniquilador de Thym e Hymir, o ‘mais forte dentre os fortes’, o ‘irresistível’, o senhor da ‘ajuda contra o terror’, cuja arma terrível, o martelo Mjolnir, é uma representação correspondente ao vajra de Çiva, da mesma força fulminante que consagrava os reis divinos dos Arianos; não foi mais Odin-Wothan, aquele que leva a vitória, a Águia, o hóspede dos heróis que na morte sobre o campo de batalha celebram o mais alto culto de sacrifício e se transformam na falange dos imortais; mas sim, converteu-se, para dizer como León Rougier, no patrono dos miseráveis e dos desesperados, o holocausto, o consolador dos aflitos que imploram com as lágrimas do estase ante os pés do crucificado e na capitulação do próprio ser” (EVOLA, Imperialismo Pagão, p. 81 e 85)   

Nesse diapasão, Alain de Benoist assevera: “Em efecto, lo, que és ‘mágico’ para Spengler, em el judeocristianismo, es precisamente o dualismo. Esto ultimo no és una dualidad inmanente al mundo, al modo del mazdeismo iranio que opone um Dios bueno a um Dios malvado, um Dios de luz a um Dios de las tinieblas. Resulta al contrario, nace de uma separación, de uma distinción radical entre este mundo y Dios. Toda a teología judeocristiana descansa, podríamos decir, sobre la separación del ser creado (el mundo) y del ser íncreado (Dios). Lo absoluto no es el mundo. La fuente originaria es completamente distinta de la Naturaleza. El mundo no és divino, no es el cuerpo de Dios. No es eterno, ni increado, ni ontológicamente suficiente. No és una emanación directa, ni una modalidad de la substancia divina, no hay naturaleza ni esencia divina (...) Entre Dios y el mundo no hay más que la nada – abismo que Dios es el único que puede colmar -. Completamente estraño al mundo, Dios es la antíteses de toda realidade sensible”. (DE BENOIST, Como se Puede ser Pagano, p. 12).  

Se nos sistemas nórdico-pagãos inexistia dualidade entre as esferas terrena e supra-terrena – sendo que ambas encetavam um perpétuo diálogo e se interpenetravam reciprocamente por intermédio do rito de celebração - , as ramificações cristãs, d’outro modo, não só incorporaram como também “encaixaram” essa dicotomia no cerne de seus ensinamentos. A noção primitiva de ‘ação purificadora’ dentro de uma hierarquia patriarcal foi dissolvida pelo ideal protestante da ecclesia, que “surgiu a partir da rebelião cristã-plebeia contra o ideal romano”, e no qual se manifesta “essencialmente o espírito da Reforma, o mesmo espírito do qual deriva a organização moderna anti-imperial, antiaristocrática, antirreligiosa (pois reduz a religião à sociabilidade), antiqualitativa, elementos próprios das sociedades dos anglo-saxões e dos ianques”. (EVOLA, Julius, Imperialismo Pagão, pgs. 46 e 47)                        

Compreender Nietzsche, e, mais especificamente, o super-homem, sob uma abordagem esotérica e tradicional, significa acatar o rechancelamento de vetores axiológicos há muito esquecidos nos recônditos da pós-modernidade. Esse reencontro com o logos metafísico do übermensch não sinaliza nenhuma espécie de anacronismo, como alegam sub-repticiamente os luminares do senso comum pós-moderno. A contrario sensu, preconiza uma ruptura com paradigmas afeitos à estrutura do capitalismo industrial e com a topografia de uma (i)realidade fetichizada, pautada quase que exclusivamente em dinamismos tecnocráticos e na multiplicação de transações financeiras no âmbito do mercado global. O super-homem na pós-modernidade equivaleria a nada mais do que um simulacro de super-homem, a um autômato procurando, sem êxito, imitar o comportamento humano. E é aqui, onde o acessório se apresenta como essencial e o contingente como absolutamente necessário, onde quaisquer vestígios de discernimento são substituídos por uma resignação complacente desviante em que se localiza a raiz patogênica do mundo moderno. Nos dizeres de Julius Evola em artigo intitulado “Nietzsche para Hoje”, “as palavras do Zaratustra de Nietzsche são atuais e pertinentes, nesse sentido, quando ele pergunta que busca se livrar de todo grilhão: "Você chama a si mesmo de livre, mas isso não me interessa - Eu te pergunto: livre para quê?", lembrando que há casos em que o único valor que se possui são lançados longe junto com o grilhão. Esse é o claro alerta para aqueles hoje que só sabem falar de "repressões" e que se alimentam de uma intolerância histérica por todo tipo de autoridade - e eles alimentam tal intolerância - só por essa razão: porque eles não possuem em si mesmos um princípio superior que comanda. Agora o tipo nietzscheano, que colocou o "niilismo atrás de si", que, de fato, "sabe como obter um remédio saudável para tal veneno", é o único que possui este princípio, e que portanto também sabe como dar uma lei a si mesmo. Reininger, nesse sentido, está correto ao ver em Nietzsche o afirmador de uma moralidade "absoluta" como a de Kant, e certas conexões poderiam até mesmo ser estabelecidas com a ética estoica antiga, que similarmente defendia uma soberania interior”. (EVOLA, Nietzsche para Hoje)

Esse “princípio superior que comanda” é, indubitavelmente, o princípio tradicional da urânica solaridade, responsável por guiar uma pluralidade de povos e impérios da pré-história ao apogeu de seu esplendor eônico, transformando os ensinamentos do Zaratustra nietzschiano em diretrizes acroamáticas redivivas. Daí a importância da reconfiguração ôntico-ontológica da estrutura da realidade sob uma perspectiva eminentemente metafísica e esotérica, tendo em vista a desmistificação da imposição monoteísta em detrimento de uma espiritualidade paleopagã de natureza aristocrático-feudal em conformidade com modulações mítico-telúricas. As vantagens da implementação sociopolítica de uma hierarquia disciplinar alicerçada por uma religiosidade politeísta remonta a uma época em que a memória construída pelo historicismo não alcança, da mesma forma que o humano em sua imperfeição não acessa mais que vislumbres do além-mundo que, segundo a anamnese platônica, ele divisara antes de “descer” à Terra.  Assim como o Sumo-Bem em Platão, o super-homem de Nietzsche não pode ser alcançado em sua plenitude, uma vez que a mundanidade, com todas as suas imperfeições e limitações cognoscitivas, não comporta o eterno como substractum apriorístico. Contudo, nada impede ao esoterismo de buscar, mediante um processo de auto-aperfeiçoamento, se aproximar cada vez mais deste ideário metafísico.  

Impende, por oportuno, examinar a superioridade do aspecto sacrificial dos ritos solares em relação aos dogmas das religiões “modernas”. Para Evola, “nas formas mais elevadas da luminosa espiritualidade ariana, na Grécia, na Roma antiga e também no Extremo Oriente a doutrina era inexistente ou quase inexistente: só os ritos eram obrigatórios e imprescindíveis. Era com eles que se definia a ortodoxia, e não com dogmas; mais por práticas que por ideias. Não era o não <<crer>>, mas sim o descurar os ritos que era sacrilegium e impiedade. Tudo isto não se trata de um <<formalismo>> - como pretendia a incompreensão dos historiadores modernos mais ou menos influenciados pela mentalidade protestante – mas pelo contrário da nua lei da acção espiritual”. (EVOLA, Revolta Contra o Mundo Moderno, p. 80)     

Impossível deixar de notar o que talvez seja a característica mais marcante dos sistemas indo-ariano e greco-romano em contraste com o sistema judaico-cristão: a noção do rito como praxeologia. A essência do sagrado é abstraída mediante a prática dos ritos sacrificiais. As divindades cósmico-solares que legitimam a aristocracia orgânica se revelam no desdobramento da performance ritualística, e não através de conceitos especulares ou ideias abstratas e dogmáticas, como ocorre em seitas dualistas, segundo as quais o divino e o humano constituem dimensões separadas por um abismo intransponível. Para os pré-cristãos, a sacralidade do rito subjaz na atividade ordenada, e tanto mais perfeita será a manifestação terrena do deus-sol quanto mais sincrônica for a práxis cerimonial.  A persecução do ideal de perfeição é o que separa o super-homem do homem médio, e é impossível compreender a auto-transcendentalidade no contexto do esoterismo evoliano sem a práxis ritualística, que, a seu turno, se erige em verdadeiro ponto de conexão do humano ao sagrado e vice-versa. Mas em que, exatamente, consistiria essa atividade de acordo com o princípio solar? 

Julius Evola busca a resposta para essa indagação em um postulado da metafísica aristotélica, resposta esta que merece ser transcrita de modo a captar o máximo do seu lirismo e de sua grandiloquência. Nos dizeres de Evola, o conceito de atividade para a tradição hindu “é rigorosamente idêntico ao que Aristóteles expressou para falar do ‘motor imóvel’, que é causa e senhor efetivo do movimento, sem se mover a si mesmo. Ele desperta, manda e dirige o movimento, faz atuar, mas não atua, quer dizer, não é transportado, não é pego pela ação, não é a ação, é uma superioridade impassível, calmíssima, da qual procede e depende a ação. Este é o motivo pelo qual seu mando, poderoso e invisível, pode ser definido, junto a Lao-tze, como um ‘atuar sem atuar’ (wei-wu-wei). Frente a isso, o que atua é já um atuado, o que é preso pela ação, o que se encontra ébrio de ação, de ‘vontade’, de ‘força’ no impulso, na paixão, no entusiasmo, e já um instrumento, não atua, mas padece de ação; e, portando, aparece - para tais doutrinas – como um princípio feminino e de negação com respeito ao modo superior, transcendente, imóvel e olímpico dos Senhores do Movimento (...). A ação é algo elemental. É algo simples, terrível, irresistível. Não há lugar nela para a paixão, para a antítese, nem para o ‘esforço’, e muito menos ainda para a ‘humanidade’ e o ‘sentimento’. Ela parte de centros absolutos, sem ódio, sem berros e sem piedade, de uma calma que aterroriza e imobiliza, de um nível de ‘indiferença criadora’ superior a qualquer oposição. É o mando. É a potência temível dos Césares. É a ação silenciosa e oculta dos Imperadores do Extremo Oriente, fatal como as forças da natureza, de cuja pureza participam. É aquilo que se sente libertar-se da imobilidade mágica de algumas figuras egípcias, da lentidão alucinante de alguns gestos rituais. É o maquiavelismo desnudo, verde, em toda sua aspereza e inumanidade. É aquilo que se desencadeia quando – tal como sucedia na alta Idade Média feudal – o homem retorna só, homem próximo de homem ou homem contra homem, vestido apenas de sua força e sua debilidade, sem evasão e sem lei. É aquilo que resplandece quando - no heroísmo, no sacrifício ou no grande sacrilégio – surge de pé no homem uma força mais forte que o bem e o mal, que a piedade, que o medo e a felicidade, uma força ante a qual o olho não pode fixar-se e na qual se desperta a potência primordial das coisas e dos elementos”. (EVOLA, Imperialismo Pagão, pgs. 83 e 84)     

O motor-imóvel aristotélico seria o correspondente filosófico da gnoseologia urânico-solar com seus consectários régios – virilidade, centralidade, imobilidade, etc -, que se amoldam perfeitamente à composição anatômica do übermensch. Esse móbil primordial não deriva de um encadeamento causal-naturalístico em acepção darwiniana, e sim da potência metafísica que formou a espinha dorsal da religiosidade pré-histórica. A ressemantização do super-homem ocidental só poderá efetivar-se verdadeira e genuinamente em um ambiente que torne possível a reaproximação do homem médio com suas raízes primitivas e, por conseguinte, com a tradição purificada, livre de todas e quaisquer conspurcações modernas da pseudo-religiosidade ocidental. Diante de todas as considerações anteriormente expendidas, pode-se afirmar, inequivocamente, que a transcendência da condição humana, encarada como uma tarefa hercúlea de auto-superação, em realidade não passa de um reencontro do homem consigo mesmo, da recuperação de sua própria identidade, que, por sua vez, só poderá ser detectada retrospectivamente na estrutura de uma hierarquia aristocrática similar à da “(...) Águia sobre a Cruz, os símbolo solar do direito dos pais (Império) sobre o lunar do direito das mães (Mãe Igreja). Somente assim se poderia falar num tradicionalismo integral e voltar a uma ordem de justiça e normalidade”. (EVOLA, Julius, Imperialismo Pagão, p. 115)  

Referências 
EVOLA, Julius. Revolta Contra o Mundo Moderno. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989.
EVOLA, Julius. Metaphysics of War: Battle, Victory & Death in the World of Tradition. United Kingdom: Arktos Media Ltd., 2011.
EVOLA, Julius. Metafísica do Sexo. Lisboa: Edições Afrodite, 1976.
EVOLA, Julius. Imperialismo Pagão. 
YOCKEY, Francis. Imperium: The Philosophy of History and Politics. 
DE BENOIST, Alain. Como se Puede ser Pagano. La Biblioteca de Los Tiempos Dificiles.
GUÉNON, René. A Crise do Mundo Moderno. São Paulo: Clube do Tarô, 2007.
SPENGLER, Oswald. A Decadência do Ocidente. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.
http://legio-victrix.blogspot.com.br/2013/01/nietzsche-para-hoje.html