terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Alain de Benoist - Confrontando a Globalização

por Alain de Benoist(1)



Tudo mundo está falando sobre globalização, um fenômeno ainda mais significativo por ser geralmente considerado inevitável e além do controle de qualquer um. O que isso significa? Ainda que haja muitas obras sobre este tema(2), o conceito permanece confuso. Para alguns, globalização é um desenvolvimento para além do Estado-Nação. Para outros, ela define um novo tipo de oposição entre capital e trabalho trazido pela ascensão do capital financeiro, ou uma nova separação entre trabalho especializado e trabalho não-especializado. Alguns a veem como a expansão do comércio mundial com a inclusão de novos jogadores do Sul (acompanhada pela estratégia de globalização de corporações multinacionais), enquanto outros enfatizam a ampliação de trocas causada pela revolução informacional. O que ela é realmente?

Em primeiro lugar, a globalização cultural deve ser distinguida da globalização econômica. Estes dois fenômenos se sobrepõem, mas não são a mesma coisa. Um dos traços mais óbvios da globalização econômica é a explosão das trocas financeiras. Hoje, o comércio internacional cresce mais rápido do que vários PNBs. Em 1990, as trocas internacionais eram já 15% dos negócios mundiais. Em apenas 5 anos, de 1985 a 1990, as exportações aumentaram em 13.9%. Entre 1960 e 1989, a troca de produtos manufaturados dobrou enquanto o fluxo de capital quadruplicou. Durante este tempo a natureza do fluxo financeiro mudou: o desenvolvimento contínuo do investimento estrangeiro direto foi acompanhado pela disponibilidade de capital de curto prazo. Esses investimentos diretos também estão crescendo mais rápido do que a riqueza mundial. A taxa anual de crescimento passou de 15% entre 1970 e 1985 para 28% de 1985 a 1990, enquanto durante este período os investimentos diretos quadruplicaram em volume, passando de 43 bilhões de dólares em 1985 para 167 bilhões em 1990. Uma economia global emergiu com uma fatia cada vez maior do PNB diretamente dependente das trocas estrangeiras e do fluxo de capital internacional.

O outro fator importante é obviamente o papel crescente dos computadores e eletrônicos. Ao reduzir os custos de transações de longa distância e permitindo a comunicação em "tempo real" em qualquer lugar do mundo, assim fornecendo instantaneamente informação crucial para a estruturação de preços, informação que costumava levar semanas para alcançar uns poucos centros financeiros, as novas tecnologias de comunicação tornaram possível um fluxo financeiro sem precedentes. O sol não mais se põe sobre os mercados de ações interligados. A moeda vai de uma ponta do globo à outra, procurando pelos melhores retornos na velocidade da luz. Essa globalização, porém, é exclusivamente financeira: o mercado monetário é o único no qual a arbitragem instantânea faz sentido.

Graças a essa mobilidade ampliada, tornada possível por computadores, transações em mercados monetários tem experimentado um crescimento fantástico. Eles agoram excedem um trilhão de dólares por dia. Estes fundos vem de holdings bancárias comerciais, corporações multinacionais, reservas de moeda flutuantes mantidas por bancos centrais criados especialmente para esse tipo de transação. A base do sistema é a troca de moeda que, dia após dia, ou mesmo hora após hora, pode resultar em ganhos consideráveis, muito acima dos derivados da atividade industrial ou comercial tradicional. Em antecipação às taxas de troca flutuantes, a computadorização permite o deslocamento virtual imediato de enormes quantias de moeda, quase completamente independente dos bancos centrais. É por isso que este novo fenômeno é chamado de "economia de cassino".

Alguns comentaristas situam as origens da globalização no início da década de 70, à época do choque duplo dos preços estratosféricos do petróleo e da crise do sistema monetário internacional. À época, a lentidão da produtividade e da taxa de crescimento, a saturação progressiva da demanda por bens de consumo duráveis, o fardo cada vez maior das limitações financeiras estrangeiros, junto ao abandono de taxas de câmbio fixas e a explosão do déficit comercial americano, levaram a um aumento em produtos financeiros puramente especulativos. Esse processo continuou até a década de 80, com a dívida pública crescente favorecendo o desenvolvimento de um vasto mercado de moeda, especialmente com a onda de desregulamentação que, começando com a Administração Reagan, rapidamente se espalhou para todas as nações desenvolvidas. À época, os Estados começaram a recuar face a integração financeira adotando os 3 Ds, descompartimentalização, descartando o intermediário e desregulamentação. Ao liberalizar o mercado de capitais, essa estratégia permitiu arbitragem a nível global e abriu mercados de consumidores e grandes corporações para negociadores estrangeiros. Então, no início dos anos 90, o súbito colapso da União Soviética e a transição brutal nos países outrora comunistas ao capitalismo irrestrito se traduziu no ingresso de mais 2.5 bilhões de pessoas no mercado global, enquanto ao mesmo tempo difundindo a ilusão de um planeta unificado dentro de um único bloco.

A Monopolização do Capital

Essa série de eventos deve ser situada dentro de uma cronologia mais ampla. Longe de ser uma aberração ou uma inovação radical, ou mesmo resultado de alguma conspiração, a globalização é simplesmente parte de uma dinâmica de longo prazo do capitalismo. Como Karl Marx já observou durante o século retrasado, "a tendência de criar um mercado global é parte do próprio conceito de capital"(3). Para Philippe Englehard, "a globalização é indubitavelmente apenas o encerramento da explosão da modernidade ocidental"(4). Ela justifica toda uma série de metamorfoses através da longa história da economia mercantil, uma economia baseada desde o início na troca aberta dentro de um clima de individualismo e universalismo, predicado em uma metafísica da subjetividade e do sucesso material. Ela começou com o desenvolvimento de negócios de longo prazo à época das cidades-Estado italianas no século XIV, continuou com as "grandes descobertas" e a revolução industrial, então com o colonialismo. Entre 1860 e 1873, a Inglaterra já havia tido sucesso em criar o início de um sistema comercial global. Em julho de 1885, Jules Ferry declarou à Câmara de Deputados que "fundar uma colônia significa criar um mercado". Ao contribuir para a desintegração de culturas e sociedades tradicionais na África e Ásia, o colonialismo permitiu a penetração de produtos ocidentais e abriu novos centros comerciais, uma prática que não seria abandonada até que perdesse sua lucratividade, i.e., quando as colônias começaram a custar mais do que arrecadavam(5).

O mercado enquanto instituição é em si mesmo indissociavelmente ligado com a internacionalização das trocas. Na teoria econômica clássica do século XVIII, a livre circulação de bens e serviços já é pressuposta como levando à equalização de sistemas de produção e padrões de vida. Enquanto tal, o capitalismo aparece como um nômado desde os primórdios. Assim, como Adda nota, a globalização "apenas traz o capitalismo de volta a sua vocação original, mais transnacional que internacional, que é jogar com fronteiras como com Estados, com tradições como com nações, para melhor subsumir todas as coisas sobe a lei singular do valor"(6). Porém a globalização também exibe um número de novos traços. Ademais do fato de que, na troca internacional, são agora produtos manufaturados que assumem precedência sobre matéria-prima, a esfera financeira adquiriu um grau extraordinário de autonomia em relação à produção econômica real. A grande desregulamentação dos mercados da década de 80 efetivamente anunciou a chegada de um capitalismo não mais primariamente industrial, mas especulativo. A massa monetária circulando no mundo hoje é estimado como sendo mais de 15 vezes o valor da produção. Essa "bolha" financeira agrega fundos dos setores privado, bem como do público, seja a administração da dívida pública por nações individuais ou fundos de pensão nacionais. Ela naturalmente encoraja lógicas especulativas e ilegais: drogas e corrupção se tornam partes integrais da nova ordem econômica.

Outra novidade é a universalização do mercado. Transações agora envolvem setores previamente independentes. Cultura, serviços, recursos naturais, propriedade intelectual são agora parte do mecanismo de livre-comércio. Todas as coisas são agora transformadas em moeda. O que entra no sistema como uma coisa viva sai como commodity, um produto morto. Ademais, os jogadores não são mais os mesmos. Ontem, esses jogadores eram primariamente nações. Hoje, eles são corporações multinacionais que dominam investimento e comércio, enquanto mercados financeiros ditam as regras e os bancos controlam um setor financeiro cada vez mais desconectado da economia real. Um mundo organizado ao redor de Estados-Nações está dando lugar para uma "economia mundial" estruturada por jogadores globais. Essa é uma transformação fundamental. Algumas décadas atrás, Estados-Nações eram ainda os esquemas políticos e sociais naturais para gerenciar os sistemas nacionais de produção. A competição capitalista se desenrolava basicamente entre nações. O traço dominante do sistema capitalista era, assim, a territorialização, i.e., sua ligação a uma nação industrializada particular. Apesar de em expansão, o mercado era primariamente nacional. Mesmo para companhias com subsidiárias estrangeiras, era crucial ter uma companhia-mãe localizada em uma nação poderosa. Economia e política basicamente coincidiam, tornando as decisões de política econômica nacional ainda mais importantes. Finalmente, o Terceiro Mundo ainda não havia se tornado parte do sistema industrial e havia um contraste marcado entre centros industriais e periferias.

Hoje, a integração global do capital rompeu muitos sistemas nacionais de produção e os reestruturou como tantos segmentos de um sistema de produção global. Os vários componentes de produção estão agora espalhados longe da localização geográfica da corporação e às vezes até independente de seu controle financeiro. Produtos incorporam componentes tecnológicos de tão variadas origens que não se pode reconhecer nem a contribuição específica de cada nação, nem a nacionalidade da força de trabalho que produz a mercadoria. Robert Reich nota que quando um americano compra um carro da General Motors por 20 mil dólares, menos de 800 dólares retornam a produtores americanos. A globalização está criando uma reorganização caracterizada primariamente por uma desterritorialização generalizada do capital. O "espaço de lugares" está sendo deslocado por um "espaço de fluxos". Em outras palavras, o território está sendo substituído pela rede(7), que não mais corresponde a um território particular, mas está inscrito em um mercado global, independente de quaisquer limitações políticas nacionais. Pela primeira vez na história, o espaço político e o espaço econômico não estão mais ligados. Este é o significado mais profundo da globalização.

O aparecimento de empresas industriais capazes de planejar seu desenvolvimento em uma escala global e implementar estratégias globais integradas é um dos traços mais característicos da globalização. Companhias multinacionais são aquelas que fazem mais da metade de seus negócios no exterior. Em 1970, havia 7 mil delas. Hoje há 40 mil e elas controlam 206 mil subsidiárias ao mesmo tempo que empregam apenas 3% da população mundial (por volta de 73 milhões de pessoas). O orçamento dessas corporações em 1991 era maior do que todas as exportações mundiais de bens e serviços (4.8 trilhões de dólares); elas controlam diretamente ou indiretamente 1/3 da renda mundial e o top 200 dessas companhias monopoliza 1/4 da atividade econômica mundial. Quase 33% do comércio mundial agora se dá entre subsidiárias das mesmas corporações, não entre diferentes corporações. Essas corporações em rede tem imensos recursos a sua disposição. O orçamento da General Motors (132 bilhões de dólares) é maior do que o PNB da Indonésia; o da Ford (100.3 bilhões de dólares) é maior que o PNB da Turquia; o da Toyota maior que o PNB de Portugal; o da Unilever maior que o PNB do Paquistão; o da Nestlé maior que o PNB do Egito, etc.

Essas corporações, cujas origem nacional é agora meramente uma referência formal, há muito tem aprendido a substituir objetivos de lucratividade mínima com objetivos que maximizam o ganho financeiro, quaisquer sejam as consequências sociais. Menos preocupados com a produção do que com controle de mercados e patentes, eles são acima de tudo grupos financeiros que colocam a maior parte de seus lucros em moeda ou em subprodutos, ao invés de distribuírem os lucros entre acionistas ou investi-los em atividades produtivas. Ademais, como elas são mais ricas que muitas nações, não é difícil para elas comprar políticos e corromper funcionários de governo. Para se tornarem mais competitivas, corporações multinacionais também desenvolveram uma nova estratégia. Para evitar desvalorizações massivas e brutais, como na década de 30, elas tem sido forçadas a buscar outras saídas para os excedentes de capital flutuante, já que os lucros de produção de investimentos clássicos não são mais suficientemente altos. A luta pela fatia de mercado os levou a incluir trabalhadores pouco qualificados e mal pagos na força laboral mundial para melhor maximizarem seus lucros(8).

Enquanto nações ocidentais anteriormente estiveram contentes em explorar os mercados internos de países meridionais, as companhias multinacionais estão agora ocupadas reexportando para mercados ocidentais produtos montados ou produzidos a baixo custo no sul. A globalização está ocorrendo pela repatriação de uma porção da atividade econômica em países meridionais, através de uma reorganização global dos ciclo de produção e da transformação de uma força de trabalho local em trabalhadores assalariados. Este fenômeno, chamado deslocamento, se tornou generalizado desde a década de 80 e é meramente a reorganização-extensão em escala global das relações de trabalho, outro passo na direção da criação de um mercado laboral global. Não é necessário dizer que, desde essa perspectiva, o livre movimento de moeda é essencial para desviar lucros para centros de tomada de decisão, um processo que tem o efeito duplo de reduzir a acumulação local e restringir o poder de compra(9).

Simultaneamente, da Ásia e, em menor medida, da América Latina e do antigo império soviético, novos jogadores estão começando a emergir no comércio global. No passado, abismos entre salários no norte e no sul refletiam diferenças similares em produtividade e qualidade. A emergência de novas nações industrializadas e o aparecimento súbito de multinacionais em algumas das nações meridionais alteraram radicalmente essa situação. Em 1995, a renda per capita em Cingapura já havia ultrapassado a da França. Essa tendência obviamente só continuará a crescer. O sucesso dessas nações recém-industrializadas de modo algum dá sustento às teses do liberalismo. O "milagre asiático" é primariamente um resultado de características culturais específicas, seja no Japão, na China, na Coreia ou Cingapura(10). Ele pode ser explicado em termos da engenhosidade das políticas industriais desses países. Longe de aceitar acriticamente a teoria das vantagens comparativas da especialização em produção de baixo custo imposta a eles, sem se preocupar com demanda real, eles focaram na produção de bens para os quais há alta demanda ao redor do mundo. É claro, a globalização modifica a competição entre nações. Tão logo as empresas e fundos possam se mover livremente no mundo, a competitividade de empresas nacionais não está mais automaticamente ligada ao de nações. O espaço transnacional nos quais essas grandes corporações operam não mais coincide com a organização ótima do espaço nacional. A posição de um país no mundo só é definida pelo nível de competitividade que seus produtos tem no mercado global, seus empresários estão obrigados a se posicionarem nesse mercado segundo a melhor razão custo/benefício. Pode-se até mesmo dizer que as nações não são nada mais que pontos no espaço de produção de grandes corporações. A própria noção de vantagem comparativa está se tornando obsoleta.

As nações não tem mais qualquer escolha senão retornar a políticas de competição pura, em detrimento da coesão social. Isso é precisamente o que aconteceu na Europa a partir da década de 80, primeiro sob a influência das teorias liberais de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, então como resultado do Tratado de Maastricht. Essa aceitação das demandas da globalização se traduziu em uma desregulamentação e liberalização generalizadas, com prioridade dada a mercados estrangeiros acima dos domésticos, a privatização de corporações estatais, a abertura para investimentos internacionais, o ajuste de salários e preços pelo mercado global, a eliminação progressiva de auxílios e subsídios, e, finalmente, a redução de gastos projetados para desacelerar a competição, como educação, previdência e proteção ao meio-ambiente. Uma após a outra, as nações europeias adotaram políticas estritamente monetaristas (chamadas de deflação competitiva) que se resumem em combater a inflação por meio de altas taxas de juros, cujo resultado mais claro tem sido um crescimento lento e a ampliação do desemprego. Taxado em um nível inferior aos salários, o capital financeiro, enquanto isso, contribui menos e menos para o bem-estar geral.

Ao mesmo tempo, a crise da dívida forçou países do Terceiro Mundo a fazer ajustes similares: os realinhamentos estruturais que o FMI e o Banco Mundial tem exigido levaram a maioria desses países a usar as mesmas receitas que as nações industrializadas, com resultados ainda mais catastróficos. As próprias organizações internacionais se tornaram instrumentos de globalização. O papel do FMI e do Banco Mundial é impôr a desregulamentação, gerenciar a flutuação de dinheiro e forçar as economias do Terceiro Mundo a se submeterem ao imperativo absoluto de manutenção da dívida. O G7 está tentando coordenar as políticas de gerenciamento de crise das grandes nações industrializadas, sem atacar os problemas fundacionais. Mas um papel bastante particular está reservado para as organizações que supervisionam o comércio mundial.

No passado, negociações comerciais entre nações lidavam com um pequeno número de práticas nacionais, como cotas de importação, tarifas alfandegárias, controle sobre transferência de fundos, etc. Hoje, o que está em jogo na diplomacia comercial vai muito além de questões de fronteiras. Negociações agora incluem instituições dentro de países: a estrutura de seu sistema bancário, os termos de seu direito à propriedade privada, sua legislação social, seus regulamentos sobre competição, concentração ou propriedade industrial. O princípio subjacente dessas negociações é que o comércio internacional vai unir nações com mais ou menos as mesmas instituições. Na tentativa de reduzir a incerteza e o risco de investimentos estrangeiros diretos ele encoraja sistemas de propriedade e regulações mais uniformes, geralmente consistentes com a legislação americana. O poder de negociação de corporações multinacionais é assim reforçado por um novo poder lobista que lhes permite demandar arranjos especiais em questões de regulação, salários ou impostos para aumentar a lucratividade e competitividade. Em última análise, "através de um número crescente de negociações locais e internacionais, as sociedades são confrontadas com a demanda por transformar suas regras e instituições domésticas para se conformar a um modelo imposto desde fora"(11).

As cláusulas do GATT ou da OMC vão muito além dos objetivos tradicionais de acordos de comércio justo. Seu objetivo primário é promover a mobilidade de capital. Os acordos que eles alcançam não realmente acordos de comércio justo tanto quanto acordos para a livre circulação de fundos, com a intenção de estabelecer novos direitos de propriedade internacional para investimentos estrangeiros e para criar novos limites às regulações nacionais e governamentais. Como Ian Robinson escreveu, "os acordos sobre livre circulação de fundos podem ser entendidos como instrumentos que, em nome da redução de obstáculos ao comércio, alteram ou permitem a renegociação de leis, políticas e práticas que bloqueiam o caminho rumo a uma economia global de mercado"(12).

Finalmente há outra novidade que facilita a compreensão da natureza da globalização cultural: o capitalismo não mais vende apenas commodities e bens. Ele também vendo sinais, sons, imagens, software, conexões e links. Ele não só enche casas: ele coloniza a imaginação e domina a comunicação. Nos anos 60, a sociedade de consumo prosperou em cima de bens materiais identificáveis como carros, eletrodomésticos, etc. O sistema que Benjamin R. Barber chama "McMundo", como em MacIntosh ou McDonald, é um mundo virtual resultante da intensificação de todos os tipos de transações transnacionais que convertem para homogeneizar estilos de vida. "Os adereços do sistema McMundo", diz Barber, "não são mais carros, mas o parque de diversões Eurodisney, a MTV, filmes de Hollywood, pacotes de software. Em resumo, conceitos e imagens, tanto quanto objetos"(13).

Essa commodificação generalizada torna o consumo de espetáculo-propaganda a única forma de integração social, enquanto ao mesmo tempo intensificando sentimentos de exclusão e tendências agressivas naqueles deixados de fora. Através de uma enxurrada de imagens e sons universais, ela contribui para a padronização de estilos de vida, para a redução de diferenças e particularidades, para a conformidade de atitudes e comportamentos, para a erradicação de identidades coletivas e culturas tradicionais. Mas mais do que isso, chega ao ponto de modificar nossa percepção do espaço e do tempo. Sob a rede de satélites estacionários, sob a influência de impérios econômicos que multiplicam alianças e fusões, sob o efeito de estradas de informação que levam a mesma subcultura global aos rincões mais longínquos da terra, o planeta está encolhendo. Dominados por um número cada vez menor de monopólios, que são mais e mais poderosos, o espaço em que commodities, investimentos e moeda circulam está sendo cada vez mais unificado. Ademais, enquanto até agora todas as sociedades viveram o tempo tanto como uma sucessão de momentos como duração subjetiva, essa distinção está se apagando. A revolução tecnológica do "tempo real" acelera a circulação de fluxos materiais e imateriais, sem qualquer possibilidade de um ponto de referência ou contextualização.

A revolução tecnológica do “tempo real” acelera a circulação de fluxo material e imaterial, sem possibilidade de um ponto de referência ou contextualização. Essa compressão do tempo torna o imediato o único horizonte restante de significado. Como René Char coloca, “abolir a distância mata”. A proximidade que novas tecnologias de comunicação cria acaba esmagando coisas e confundindo formas. Nós estamos realmente testemunhando uma redefinição da realidade. A internet é um bom exemplo. Enquanto a mídia clássica está limitada a mostrar o que acontece em outro lugar, a internet permite a seus usuários se transportarem virtualmente para este outro lugar. O ocupante do sistema McMundo assim vê ao mesmo tempo todo lugar e lugar nenhum. A internet inaugura um novo estilo de vida que se poderia chamar de nomadismo eletrônico, mas que é também um colonialismo eletrônico. Como Nelson Thall, sucessor de Marshall McLuhan na Universidade de Toronto, aponta, “no fim, o poder da internet é que ela permite ao mundo inteiro pensar e escrever como os norte-americanos”.

Assim a globalização não deve ser confundida com uma simples internacionalização, que foi o sistema criado e organizado pelas nações para definir as relações internacionais(14). Ela é melhor definida como a transição de uma economia internacional concebida como um agregado de economias nacionais e locais que diferem nas maneiras em que operam e são reguladas, para uma verdadeira economia planetária de mercado governada por um sistema de regras uniformes, no sentido de Karl Polanyi(15). Ela descreve “a crescente interdependência unindo todos os componentes do espaço para leva-los a uma uniformidade e integração cada vez mais restritivas” (16). Aqueles nos controles são os novos jogadores extra-estatais e extra-nacionais, cuja única ambição é maximizar seus lucros pelo planejamento da organização planetária de suas atividades, e pela eliminação de tudo que possa ser um obstáculo para sua liberdade de ação. Esses novos jogadores fortalecem sua autonomia a cada dia, e são portanto cada vez mais interdependentes, ao ponto de constituírem um único e imenso organismo de mercado.

Imiseração das Massas

Uma vez que a natureza exata da globalização seja compreendida, é fácil entender as consequências. A primeira é um aumento trágico da disparidade econômica. Hegel já havia dito que as sociedades ricas não são ricas o suficiente para reduzir a miséria excessiva que elas geram. Hoje, a pobreza não resulta mais da escassez mas da má distribuição de riqueza e de uma mentalidade psicológica e cultural que não pode conceber a riqueza senão em termos de trabalho e produção.

Entre 1975 e 1985, o produto mundial bruto aumentou em 40%; desde 1950, o comércio mundial aumentou em onze vezes; o crescimento econômico, quintuplicou. Porém, durante o mesmo período, tem havido um crescimento sem precedentes da pobreza, do desemprego, da desintegração social e da destruição ambiental. O verdadeiro PNB per capital no hemisfério sul hoje é apenas 17% do de sua contraparte no norte. O mundo industrial, que representa apenas ¼ da humanidade, possui 85% da riqueza mundial. As nações do G7 constituem 11% da população mundial, mas 2/3 do PNB do planeta. Apenas a cidade de Nova Iorque usa mais eletricidade do que toda a África Subsaariana. Entre 1975 e 1995, a riqueza americana aumentou apenas 60%, mas esse aumento foi monopolizado por 1% da população. Um último dado revelador: as posses dos 358 bilionários no planeta hoje são maiores do que a renda anual cumulativa dos 2.3 bilhões de indivíduos mais pobres, ou o equivalente de quase metade da humanidade. Isso significa uma coisa: quanto mais riqueza, mais pobreza, o que refuta a teoria liberal segundo a qual toda a sociedade acabaria se beneficiando dos lucros dos mais ricos. Na verdade, como ela dá um quase-monopólio às forças do mercado, a globalização contribui para o desenvolvimento de desigualdades e da exclusão social, assim ameaçando a coesão social.

Similarmente, o colonialismo continua por outros meios. A ajuda humanitária ao Terceiro Mundo aperfeiçoou a técnica da usura como meio de controle. A OMC está agora demandando que países do sul tratem investidores estrangeiros como se eles fossem locais, eliminando quaisquer obstáculos legislativos para o trabalho, meio-ambiente ou saúde. Onde quer que ajustes estruturais liberais tenham sido feitos, os resultados tem sido uma piora das condições de vida das massas e um aumento na instabilidade social. Uma consequência lógica de tudo isso é a fuga de capital, que permite a mensuração do caráter fundamentalmente parasitário da globalização. Quanto a países que se recusam a satisfazer essas demandas, eles são simplesmente marginalizados, ignorados e finalmente expulsos dos circuitos internacionais. Obviamente, essas consequências não são sentidas apenas em países do sul. No norte, a globalização se traduz em uma competição transnacional exacerbada que, por meio de exportações e investimentos diretos, está causando um nivelamento de salários e empregos. Todos os bens ou serviços produzidos localmente que possam ser produzidos em outro lugar estão vulneráveis às pressões exercidas pelo capital pela redução de salários e benefícios.

Do outro lado da alavanca, o capital humano decrescente e o envelhecimento progressivo da força de trabalho aumentaram os custos, dessa forma encorajando os empreendedores a relocarem suas operações para países cuja força de trabalho é menos cara e mais flexível. Como a produção competitiva de países em desenvolvimento é encontrada especialmente em áreas que demandam um trabalho não-especializado considerável, essa força de trabalho é encorajada e explorada no sul, e cada vez mais excluída do trabalho no norte, contribuindo para o aumento no desemprego estrutural. Na ausência de um número crescente de escoedouros comerciais, as companhias só podem alcançar o tamanho crítico de que precisam para sobreviver em mercados globais tomando fatias de mercado de seus competidores e pela melhora constante em seu nível de competição, o que se traduz em um movimento contínuo de reestruturação industrial e downsizing, com consequências sociais devastadoras.

Esses deslocamentos são só o começo. Em 1990, produtos manufaturados exportados pelos países recém-industrializados do sudeste asiático para os países desenvolvidos ainda representavam apenas 1.61% do PNB desses. Na França, as trocas comerciais com países recém-industrializados respondem por aproximadamente apenas 1% da taxa atual de desemprego. Mas essa tendência provavelmente é aumentar. Entre 1970 e 1990, a fatia que países emergentes tinham em mercados de ações de países avançados foi de .7% para 6.44%. Nessa taxa, ela poderia atingir 55% em vinte anos.

Enquanto a revolução industrial permitiu a integração do trabalho não-especializado, a globalização tende a excluir sistematicamente aqueles que não tem o tipo certo de know-how. Desde a perspectiva das tendências anteriores do capitalismo, isso representa uma ruptura fundamental que põe em questão todos os compromissos sociais adotados pelo Estado de Bem-Estar keynesiano. A globalização de salários e a globalização financeira se combinam para reverter o curso de políticas econômicas e sociais dominantes durante as décadas de crescimento pós-guerra. Durante os trinta anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, que correspondem ao apogeu do sistema fordista, o capitalismo havia entrado em acordo com as demandas sociais formuladas em sociedades industriais, bem como com a determinação de nações para criar as bases de uma ordem econômica internacional. O Estado de Bem-Estar foi o resultado desse compromisso histórico entre capital e trabalho. Foi um ajuste estratégico do capital para atender um número de demandas sociais. A globalização rompeu com esse contrato social. A partir da década de 70, a lógica econômica do capitalismo começou a se desconectar das preocupações sociais, o que levou ao questionamento da hierarquia de salários e dos mecanismos de coesão social.

Essa desconexão do econômico e do social caminham juntas do enfraquecimento da conexão entre o Estado de Bem-Estar e a classe média ao redor da qual o crescimento das décadas precedentes foi construído. A globalização está levando ao surgimento de um modelo ampulheta de sociedade, na qual a grande maioria dos ocupantes tendem a cair na direção do fundo, sucumbindo a uma existência precária, enquanto o dinheiro está polarizado nas esferas mais elevadas, assinalando a desestruturação das classes médias, ou seja, daquelas classes “que os capitalismos do início do século XX não só geraram, mas em cima das quais fundaram seu crescimento”(17). Durante os trinta anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, essas classes médias se consolidaram, levando à integração de porções cada vez maiores da população e assim à redução relativa de desigualdades.

Hoje, este modelo de uma classe média irreversivelmente em expansão é obsoleto. O resultado é uma profunda transformação das relações e interesses de classe dentro dos países capitalistas. Na verdade, a desestruturação das classes médias corresponde a uma desestruturação das classes baixas, que estão vendo seus mecanismos tradicionais de defesa obliterados. Os sindicatos são obviamente incapazes de pressionar empresas multinacionais, acostumadas a jogar com diferenças salariais no mercado mundial, como elas faziam com seus adversários tradicionais de negociação.

Essa mudança assinala uma regressão assombrosa, um retorno a situações de superexploração comparáveis àquelas que o movimento dos trabalhadores sofreu na aurora do capitalismo industrial. Apesar de sua filosofia da história falha, Marx pelo menos viu que a lógica da monopolização do capital leva à reificação das relações humanas. Pode-se apreciar a ironia da história. Precisamente quando o sistema comunista entra em colapso, as teses de Marx são parcialmente confirmadas não apenas na impiedosa lógica do lucro, mas no fato de que o desemprego e a pobreza estão novamente, como no século XIX, se tornando características estruturais da sociedade, que incerteza e exclusão social crescem a cada dia, que as rendas do capital se elevam conforme as rendas do trabalho decrescem, e que as garantias conquistadas pelos trabalhadores após décadas de luta estão agora sendo questionadas.

O Declínio do Estado

A última consequência da globalização é a crescente perda de poder dos Estados-Nações. Em vistas da mobilidade crescente do capital internacional, da globalização dos mercados, e da integração das economias, os governos nacionais estão vendo suas possibilidades de ação macroeconômica diminuírem em um piscar de olhos. Em questões monetárias, seu impacto já é quase nulo porque as taxas de juros e câmbio são agora controladas por bancos centrais independentes que tomam suas decisões segundos os mercados. Um país decidindo em uma redução unilateral em suas taxas de juros testemunharia imediatamente uma fuga de moeda para países oferecendo a possibilidade de ganhos maiores. Ao mesmo tempo, a amplitude de mobilização monetária dos bancos centrais tem se tornado inferior ao volume de transações: em julho de 1993, em um único dia de ataques especulativos contra o franco, o Banco da França perdeu todas as suas reservas cambiais. Em questões orçamentárias, os Estados veem sua margem de liberdade similarmente reduzida, graças a uma dívida pública ampliada que impede qualquer estímulo não-legislado. Finalmente, em relação a política industrial, os governos não tem solução para resistir à competição além de tentar atrair empresas estrangeiras por meio de subsídios e privilégios fiscais especiais, o que os deixa à mercê das multinacionais.

Porém, essas firmas não estão satisfeitas meramente com romper barreiras: elas também dobram o aparato legislativo criado para regular suas operações. Salários e impostos altos ou condições laborais custosas as fazem ir embora. O resultado é que “qualquer forma de regulação pode ser vítima das pressões do mercado simplesmente porque companhias multinacionais veem um custo”(18). O poder fiscal dos Estados, então, não é mais soberano, mas contratual, porque ele deve ser negociado com um capital cada vez mais errático sempre em uma posição melhor para ditar suas condições. “Nenhum governo, mesmo no norte”, explica Edward Goldsmith, “tem mais controle sobre corporações multinacionais. Se uma lei perturba sua expansão, elas ameaçam ir embora e elas podem fazê-lo imediatamente. Elas são livres para percorrer todo o planeta para escolher a mão-de-obra mais barata, o meio ambiente menos protegido por lei, os impostos mais baixos, e os subsídios mais generosos. Não há mais qualquer necessidade de elas se identificarem com uma nação ou permitirem que uma afiliação sentimental atrapalhe seus projetos. Elas estão totalmente fora de controle”(19). No fim, conclui Adda, “a globalização financeira pode ser analisada como um processo de contornar as regras instituídas pelos Estados mais desenvolvidos através de um sistema multilateral de regulações econômicas globais”(20).

A economia globalizada assim pesa tanto nos Estados-Nações que eles veem seus meios tradicionais de ação gradualmente relegados a modalidades de adesão. Confrontados por uma crescente dificuldade de controlar os ricos, eles se encontram privados de uma alavanca política essencial: o desenvolvimento coerente de seu território. Como todos os esforços orçamentários no âmbito social significam menos habilidade para competir economicamente, eles não podem mais preencher seu papel histórico de gerenciar compromissos sociais. Os políticos se tornam, assim, impotentes e o Estado muda de papel. De mediador social, ele agora apenas gerencia questões territoriais que estão fora de seu controle. Reduzido ao papel de espectador, ele é como “um funcionário que anota decisões tomadas em outro lugar”(21).

Tal mudança é revolucionária na medida em que solapa uma das fundações da política moderna: a soberania nacional. Segundo Badie: “a globalização destrói soberanias, corta através de territórios, abusa de comunidades estabelecidas, desafia contratos sociais e torna obsoletas conceitos anteriores de segurança internacional... Assim, a soberania não é mais o valor fundamental indisputável que era, enquanto a ideia de interferência externa lentamente, mas de forma garantida, muda de conotação”(22). Assim que o conceito de soberania é desafiado, porém, a questão da identidade vem em foco com toda a anonimidade social que ela traz consigo. Princípios democráticos também são ameaçados. Há uma ligação direta entre a perda de soberania nacional e o enfraquecimento da democracia. Por um lado, a globalização tende a generalizar múltiplas lealdades em detrimento da adesão cívica. Pelo outro, a legitimidade democrática da classe dominante é posta em questão assim que ela não possui mais os meios de intervir entre as demandas da capital e as necessidades sociais. Finalmente, a livre circulação de moeda também limita o controle democrático sobre a política econômica e social porque tal política também está sujeita a pressões externas que o governo não pode mais ignorar e porque há uma transferência de poder de tomada de decisões para jogadores econômicos globais irresponsáveis. A cidadania se torna assim irrelevante ao ponto de que passamos a imaginar o que “tomar o poder” significa hoje em dia.

A Dissolução do Modernismo

A globalização não é o que Ernst Jünger chamou de “Estado universal”(23), constituído pela fusão progressiva da “estrela vermelha” e da “estrela branca”, ou seja, Oriente e Ocidente. A globalização é o resultado de uma modernização que assume a forma de um ajuste estrutural buscando integrar cada sociedade no mercado mundial. Ela é um processo que se apresenta como uma resposta à crise da modernidade que nasce a partir do Iluminismo(24). Mas essa resposta consiste apenas em hipostatizar a economia de mercado, em transformar todo capital em capital financeiro, e em ampliar o poder da tecnociência. A ideia geral é que a ciência permitirá uma compreensão de tudo; a especialização técnica, a resolução de tudo; e o mercado, a compra de tudo. Mas não é assim que acontece. Polanyi previu que o mercado destruiria a sociedade. A hora chegou. O “comércio suave” que, segundo Adam Smith, supostamente pacificaria as relações humanas, transplanta a guerra para o coração das trocas. A ditadura do econômico, a primazia do setor privado na conduta das questões públicas, leva à dissolução de todos os laços sociais. O universo da desregulamentação generalizada leva a culturas do menor denominador comum: o mesmo modelo consumista. “O olho sem preconceitos”, notou Jünger há mais de 30 anos, “fica surpreso pelo vasto conformismo crescente, que pouco a pouco se estende por todos os países, não apenas como um monopólio por uma das potências competitivas, mas como um estilo de vida global”(25). “O choque contemporâneo da globalização é a consequência de um liberalismo universalista que, apesar das aparências, abomina diferenças. Seu programa implícito é a homogeneização do mundo através do mercado e, consequentemente, a erradicação dos Estados-Nações e das culturas... A chegada da sociedade liberal não pode suportar cultural slag ou a pertença comunitária. O programa liberal maximalista busca a erradicação das diferenças, seja quais forem sua natureza, porque elas criam um obstáculo para o grande mercado e para a paz social. Na verdade, não é apenas o resíduo cultural que é excessivo, mas o próprio fato social... Basicamente, a lógica da modernidade ocidental se situal no caráter universal acultural de todos os mercados”(26).

Mas globalização também não é universalidade. Em certos sentidos, ela é até mesmo o oposto, porque a única coisa que ela universaliza é o mercado, ou seja, um modo de troca econômica que corresponde a um momento histórico de uma cultura particular. Nesse sentido, a globalização é apenas o imperialismo do mercado ocidental se expandindo para cobrir todo o planeta, um imperialismo internalizado pelas mesmas pessoas que são suas vítimas. A globalização é a imitação em massa do comportamento econômico ocidental. Ela se resume em converter o planeta inteiro a essa religião do mercado, cujos teólogos e sumo-sacerdotes operam como se os únicos objetivos fossem a lucratividade(27). Esse não é um universalismo do ser, mas do ter. É um universalismo abstrato de um mundo fragmentado, onde indivíduos são definidos apenas por sua habilidade de produzir e consumir. O capitalismo propõe vencer onde o comunismo falhou: criar um planeta sem fronteiras, habitado por um “novo homem”. Mas esse novo homem não é mais o trabalhador ou o cidadão, mas o consumidor “conectado” que partilha do destino comum de uma humanidade indiferenciada conectada apenas pela internet ou pelo supermercado.

“O escritor portuquês Miguel Rorgar”, escreveu Zaki Laïdi, “uma vez definiu o universal como ‘um lugar sem muros’. Por isso, ele queria se referir a que os valores da universalidade não poderiam ser promovidos e defendidos a não ser que as pessoas já se sentissem conectadas em um lugar sólido, real. A globalização, porém, desenvolve uma dinâmica inversa. Os indivíduos se sentem desenraizados pela globalização. Se sentindo impotentes, eles erguem muros, mesmo que frágeis e risíveis”(28). A nível psicológico, os indivíduos se sentem agora despossuídos por mecanismos sobrepujantes, um ritmo cada vez mais veloz e limitações ainda mais pesadas, variáveis tão numerosas que eles não são mais capazes de entender onde se situam. Que isso acontece em uma época em que os indivíduos são mais solitários do que nunca, abandonados a sua própria sorte, quando todas as grandes cosmovisões desabaram, só intensifica esse sentimento de um vazio. “A globalização”, diz Laïdi, “estranhamento reproduz o mecanismo freudiano da massa nas garras da infecção e do pânico: infecção, na medida em que a globalização engendra conformismo e uniformidade; pânico porque todo mundo se sente sozinho, encarado por mecanismos além de sua compreensão”. Dessa forma, a globalização se assemelha a um quebra-cabeças de imagens fragmentadas. Ela não fornece qualquer visão do mundo e exclui qualquer representação, enquanto os poderes públicos, que a declaram irreversível, são incapazes até de alguma resistência simbólica a ela. “As profundidades do problema da globalização resultam da interação entre um mundo sem fronteiras e um sem marcadores... É essa dialética entre um mundo sem fronteiras e um mundo sem marcadores que explica a crise de significado e que reforça nossa percepção de um mundo desordenado”(29). Isso é reminiscente do que Peguy escreveu em 1914, logo antes de morrer: “todos são infelizes no mundo moderno”.

Quanto mais cresce a globalização, mais as sociedades tentam reconstruir sua particularidade. Mas elas tem grandes dificuldades em fazê-lo. Algumas inventam identidades a partir do ar. Outras tentam recriar uma dimensão interna artificial em um mundo em que tudo está se tornando puramente externo. Alimentados por todos os tipos de frustrações, muitos dão início a projetos marginais que levam irreparavelmente ao irredentismo e à xenofobia. O resultado é o que Benjamin R. Barber chamou de “Jihad versus McMundo”(30). Por um lado, um planeta na estrada da uniformidade, progressivamente homogeneizado pelo mercado e pela comunicação global; pelo outro, reagrupados sob o título conveniente de “Jihad”, um conjunto de espasmos identitários, de afirmações étnicas ou religiosas agressivas, que geram guerras civis e conflitos tribais por toda parte(31). Tal erupção de identitarismo convulsivo é compreensível, porque ele é apenas a consequência lógica da transformação de todo o planeta em uma “sociedade aberta”: abertura em excesso inevitavelmente leva a fechamento em excesso. A reinvenção do tribalismo, do clanismo ou do etnocentrismo pode ser assim interpretada como uma reação desesperada contra uma ameaça de despossessão.

Já que através de suas desculpas ambas reações desacreditam uma à outra, elas não podem ser sustentadas. Seria mais justo considera-las, com Barber, como epifenômenos da globalização que reforça e justificam mutuamente uma à outra. Ao fazê-lo, elas voltam seus excessos para fora e os redirecionam, da mesma maneira que a desigualdade crescente resultando das limitações de uma economia generalizada empurram os mais pobres para o extremismo. Uma vez que as guerras etnorreligiosas estejam terminadas, porém, a bandeira do McMundo retorna até com mais força. Ademais, de muitas maneiras, essas duas forças antagônicas são duas formas diferentes, a suave e a dura, da mesma tendência totalitária. Ambas conspiram para extinguir todas as formas de democracia e qualquer participação ativa na vida pública. Finalmente, só se pode ficar assombrado com o jeito com que certos movimentos fundamentalistas, sejam os Talibãs do Afeganistão ou aqueles envolvidos em conflitos étnicos africanos, rejeitam ideias ocidentais modernas em nome de seus valores tradicionais e ao mesmo tempo se abrem para todo tipo de produtos culturais e tecnológicos ocidentais: ouvir a CNN, vestir jeans, beber Coca-Cola.

Assim os extremos se encontram. Tão cedo quanto 1920, o linguista russo Nicolas S. Trubetzkoi apontou a relação paradoxal entre cosmopolitismo e chauvinismo. “Só se precisa considerar o chauvinismo e o cosmopolitismo”, ele escreveu, “para se perceber que não há diferença radical entre ambos, que eles são apenas dois aspectos do mesmo fenômeno”(32). O cosmopolitismo, ele acrescentou, só nega diferenças nacionais com base em uma ideia de humanidade derivada de um modelo específico. Ele só convida a humanidade civilizada a formar uma única entidade universalizando o modelo de uma civilização particular, nesse caso a civilização ocidental, implicitamente considerada o mais completo “estádio” de civilização. “Assim há um paralelismo entre o chauvinista e o cosmopolita... A diferença é simplesmente que o chauvinista leva em consideração um grupo étnico menor do que o cosmopolita”(33). Mas ambos sabem apenas uma coisa: “O que se assemelha conosco é melhor e superior ao que é diferente de nós”(34).

Uma Resposta Política: Europa Soberana

É claro que o crescimento ilimitado do capitalismo financeiro não é o único resultado da crise atual e que regulações são necessárias em todos os níveis para se responder aos desafios da globalização. Em primeiro lugar, os mercados financeiros podem ser regulados no nível internacional. Originalmente proposto por Tobin, a taxação dos movimentos financeiros de moeda já está ocorrendo. Um imposto de .05% sobre operações cambiais mundiais desencorajaria um número de operações especulativas de curto prazo e produziriam 150 bilhões de dólares por ano, o dobro da quantia atual de ajuda internacional. Assim, tal soma permitiria criar um fundo para proteção social ou para defesa ambiental. Também é possível visualizar organizações internacionais que gerenciaram a economia global diferentemente das existentes, cuja tarefa seria a de impor redistribuição substancial dos lucros da globalização para benefício daqueles mais vitimizados por ela. Engelhard propõe a criação de uma moeda global. O estabelecimento de uma moeda planetária flutuante, o retorno a um padrão valorativo internacional estável obviamente impediria a especulação que se alimenta primariamente das diferenças cambiais.

De qualquer maneira, se “o fenômeno da globalização é visto como a vingança da economia contra o social e o político”(35), é igualmente óbvio que uma resposta econômica à globalização não é o bastante. Então a questão é como preencher a fenda entre a incrível expansão da economia mundial e o fato de que não há organizações capazes de lidar com esse fenômeno. Se a política deve controlar e regular a economia, se segue que uma economia planetária deve ser confrontada politicamente a nível mundial. Em outras palavras, assim que a economia se expande globalmente, não deveria a política fazer o mesmo? Infelizmente, um Estado mundial é um delírio e criaria mais problemas do que resolveria(36).

Similarmente, opôr o Estado-Nação à globalização seria um duplo erro. Primeiro, porque a globalização espalha um processo de homogeneização a todo o planeta, que no passado as burocracias estatais já atingiram a nível nacional. Segundo, e mais importante, porque o Estado-Nação hoje opera a um nível de intervenção e decisão que está completamente paralisada pelo mero fato da globalização. Sujeito a limitações externas que excedem suas capacidades, o Estado-Nação simplesmente não é mais capaz de confrontar problemas globais sozinho. Acreditar que o Estado-Nação ainda pode decidir sobre a abertura ou fechamento de suas fronteiras para fluxos financeiros, acreditar que é possível reconstruir uma sociedade coesa protegida por muros que isolariam seus habitantes do mundo externo, é ou um sonho utópico ou uma mentira(37). 

A Europa política e, mais amplamente, a regionalização de um número de grandes conglomerados continentais, poderia efetivamente confrontar a globalização. Sem ser uma panaceia (porque há sempre o risco de que, pelo investimento direto, os países em questão possam estar em competição dentro de suas fronteiras com corporações estrangeiras multinacionais), a integração europeia permitiria a resposta a uma gama suficientemente grande de necessidades de mercado, ao mesmo tempo constituindo um polo de tamanho suficiente para confrontar os fluxos financeiros globais. O espaço econômico europeu é potencialmente o maior mercado do mundo em termos de população e poder global de compra. Uma autoridade política europeia, controlando e coordenando políticas orçamentárias e monetárias, tornaria mais fácil abandonar a política de crescimento externo, em oposição ao interno, sem abandonar a proteção social. Similarmente, uma única moeda usada com razoabilidade reduziria a prerrogativa do dólar e similarmente se tornaria um elemento de poder e de uma refundação da soberania.

Mas ainda é necessário lutar por uma Europa verdadeiramente soberana, onde cada estágio de integração de mercados nacionais seria acompanhado por uma maior habilidade de tomar decisões e não simplesmente constituir um espaço de câmbio livre? Hoje esse dificilmente seria o caso. As instituições europeias podem tão facilmente resistir à globalização quanto promove-la. Neste momento, os atos da Comunidade Europeia, que os Estados-membros impõem sobre si mesmos, não estão predicados em uma soberania europeia verdadeira(38). Finalmente, a vida diária permanece local, que é o único lugar em que políticos ainda podem ver os efeitos de suas políticas. Confrontados pela globalização da troca e pela universalização de signos, esse tsunami que apaga todas as diferenças e valores, o que perdura é a singularidade de formas: línguas, culturas e outros elos sociais pacientemente recriados dia após dia. Engelhard escreve sobre “a reabilitação da política passa, de um momento para o próximo, por uma reconstrução do social e do cultural, e vice-versa. Mas isso só é possível enquanto a cultura não seja vista como estática, mas como uma tensão criativa, portadora de significado e ao mesmo tempo um processo para aprofundar a arte de viver junto”(39). Jean Baudrillard recentemente comentou que “todas as culturas dignas desse nome se perdem no universal. Todas as culturas que universalizam a si mesmas perdem sua singularidade e morrem. Foi assim com aquelas que destruímos ao assimilá-las pela força, mas acontece o mesmo para a nossa com sua pretensão de universalidade”. Ele acrescentou: “tudo o que importa hoje o faz contra o universal, contra essa universalidade abstrata”(40). 

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1 - Face a la Mondialisation
2 - Ver Robert Reich, L’Économie Mondalisée (Paris: Dunod, 1993); Francois Chesnais, La Mondialisation du Capital (Paris: Syros, 1994); Jacques Adda, La Mondalisation de l’Économie, 2 Vol. (Paris: Decouverte, 1996); Samir Amin, Les Défis de la Mondialisation (Paris: L’Harmattan, 1996); Anton Brender,L’Impératif de Solidarité. La France Face à la Mondialisation (Paris: Decouverte, 1996); Jean-Yves Carfantan,L’Épreuve de la Mondialisation. Pour une Ambition Européene (Paris: Seuil, 1996;François Chesnais, ed., La Mondialisation Financière. Genèse, Coût et Enjeux (Paris:Syros, 1996); Elie Cohen, La Tentation Hexagonale. La Souverainaité à l’Épreuve de la Mondalisation (Paris: Fayard, 1996); Philippe Engelhard,L’Homme Mondial. Les Sociétés Humaines Peuvent-elles Survivre? (Paris: Arlea, 1996).
3 - Philippe P. Engelhard, Principes d’une Critique de l’Économie Politique (Paris:Arléa, 1993).
4 - Ibid., p. 543.
5 - "O resto dos eventos", disse Marcel Mauss em 1920, "vai no sentido de uma crescente multiplicação de empréstimos, trocas, identificações tudo até os detalhes da vida moral e material". Ver sua "La Nation", em Oeuvres, Vol. 3: "Cohésion Social et Divisions de la Sociologie," (Paris: Minuit, 1969), p.625.
6 - Adda, op. cit., Vol. 1.
7 - Bertrand Badie, La Fin des Territories (Paris: Fayard, 1996).
8 - Charles-Albert Michalet, Le Capitalisme Mondial (Paris: PUF, 1985).
9 - "A liberalização das transferências internacionais de capital", escreve Samir Amin, "a adoção de câmbios flutuantes, a alta taxa de juros, o déficit na balança americana de pagamento, a dívida externa do Terceiro Mundo, e a privatização, constituem uma política perfeitamente racional que oferece ao capital flutuante a válvula de escape para a especulação, assim mascarando até mesmo o perigo maior de uma desvalorização massiva do capital excedente". Ver “Les Vrais Enjeux de la Mondialisation,” in Politis-La Revue (October-December 1996), p. 70
10 - Como Engelhard nota, "os sistemas culturais daqueles povos foram os menos brutalizados pela modernidade ocidental ou, pelo menos, eles se abriram para ela e o fizeram com cuidado, e com um olho nas melhores performances econômicas. Tal é o caso com o Japão, mas também com certos povos do sudeste asiático e da China". Ver Principes d’une Critique, op. cit., p. 23.
11 - Suzanne Berte, “Le Rôle des Etats dans la Globalisation,” in Sciences Humaines(September- October 1996), p. 55.
12 - “Mondalisation et Démocratie: un Point de Vue Nord-Américain,” inM(March-April 1996), p. 16.
13 - “Internet et Tchador, Même Combat,” in La Vie (November 14, 1996), p. 58 .See also Benjamin R. Barber, Jihad versus McWorld (Paris: Desclée de Brouwer, 1996).
14 - Marcel Mauss já havia notado que, "o internacionalismo digno desse nome é o oposto do cosmopolitismo. Ele não nega a nação. Ele a situa. Inter-nação, isso é o oposto de a-nação". Ver ‘La Nation et l’Iinternationalism’ (1920), in Oeuvres, Vol.3, op. cit., p. 630.
15 - The Great Transformation (New York: Octagon Books, 1975 [1944]).
16 - Bertrand Badie, “Mondialisation et Société Overte,” in Après-demain (April-May, 1996), p. 9.
17 - Pierre-Noel Giraud, L’Inégalité du Monde. Économie du Monde Contemporain(Paris: Galimard-Folio, 1996).
18 - Robinson, op. cit., p. 19.
19 - “Seconde Jeunesse pour les Comptoirs Coloniaux,” in Le Monde Diplomatique(April 1996).
20 - Ibid., Vol. 1, p. 94.
21 - Ricardo Petrella, in Le Monde Diplomatique (May 1995). Sobre a maneira pela qual a globalização reduz o poder dos Estados-Nações, ver também Kenishi Ohmae, The Borderless World (New York: Harper Collins, 1990); Vincent Cable, “The Diminishing Nation-State,” in Daedalus (Spring 1995); Kenishi Ohmae, ed., The Evolving Global Economy:Making Sense of the New World Order (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1995).
22 - “Mondialisation et Sociétée Overte,” op. cit., p. 9.
23 - Jünger sugeriu que "a diferença entre a estrela vermelha e a branca é apenas a tremulação que acompanha a ascensão de uma estrela no horizonte. Que ela ascenda aos céus, e que a unidade seja desvelada". Ver L’Etat Universal (Paris: Gallimard, 1962), p. 35.
24 - Gustave Massiah, “Quelles Reponses a la Mondialisation?” in Après-demain(April-May 1996), p. 6.
25 - Ibid., p.34.
26 - Engelhard, Principes d’une Critique, op. cit., pp. 199, 250 and 256. "Da mesma maneira que diferenças em riqueza, talento ou o que seja, são inelimináveis, é necessário que os indivíduos se tornem absolutamente os mesmos... Essa falta de diferença ocasionalmente insuportável é latente no paradigma neoclássico, que postula a separabilidade absoluta de preferências individuais. Em outras palavras, minhas coisas tem que ser independentes e incomparáveis em relação às do vizinho... Essa falta de diferença, que culmina na absoluta separabilidade de escolhas pessoais, está fortemente ligada à negação da cultura. Em efeito, toda pertença cultural ou comunitária se resume a reduzir preferências pessoais a ser parte de um grupo". Ibid., pp. 251 and 256.
27 - Sobre isso, ver Philippe Lancon, “L’Économie, comme Theologie de la Contri-tion,” in Liberation (June 3, 1996), p. 5.
28 - “Qu’est-ce que la Mondialisation?” in Liberation (July 1, 1996), p. 6. See alsoZaki Laïdi, Un Monde Prive de Sens (Paris: Fayard, 1996); “Pour une Pedagogie de laMondialisation,” in Après-demain (April-May 1996).
29 - “Pour une Pedagogie de la Mondialisation,” op. cit. p. 4.
30 - Jihad versus McWorld, op. cit.
31 - Essas são as reações convulsivas que levaram às teses de Samuel Huntington, segundo as quais o mundo está rumando para uma guerra cultural ou civilizacional. Ver "The Clash of Civilizations?" em Foreign Affairs (verão 1993); e The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order (New York: Simon & Schuster, 1996). Essa tese deve ser considerada com reticências, já que a cultura determina a especificidade de conflitos menos do que "a especificidade de conflitos condiciona o papel da cultura e a percepção que os atores tem dela". Ver Panajotis Kondylis, in Frankfurter Allgemeine Zeitung, citado em CourrierInternational (October 10, 1996), p. 42.
32 - L’Europe et l’Humanité (Mardaga: Liege-Siprimont 1996), p. 47.
33 - Ibid., p. 49.
34 - Ibid., p. 65.
35 - Adda, op. cit., Oeuvres, Vol. 1, p. 62
36 - Danilo Zolo, Cosmopolis. La Prospettiva del Governo Mondiale (Milan:Feltrinelli, 1995).
37 - Resistir à globalização não implica necessariamente em uma reasserção da territorialidade típica do Estado-Nação. Um grande número de dinâmicas sociais particularistas se opõem à territorialidade. Só se precisa considerar o exemplo do fundamentalismo islâmico, que desafia todo fundamento em nações particulares. Similarmente, solidariedades identitárias, religiosas, étnicas, linguísticas ou culturais são transnacionais. Desde essa perspectiva, ameaçado ao mesmo tempo pela globalização e pelas novas formas de particularismo, o Estado-Nação aparece mais ou menos como um horizonte identitário obsoleto. See Bertrand Badie, “Entre Mon-dalisation et Particularismes,” in Sciences Humaines (May 1996), pp. 22-25.
38 - Ver Arlette-Doat, “Les Institutions Européennes: Pôle de Résistance ou Facteurd’Accélération?” in Après-domain (April-May, 1996), pp. 44-45.
39 - Engelhard, Principes d’une Critique, op. cit., p. 365.
40 - “Le Mondial et l’Universel,” in Libération (March 18, 1996), p. 7.

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