domingo, 7 de agosto de 2016

Mogens Gallardo - Ecologia Profunda

por Mogens Gallardo



Os movimentos ambientais modernos incluem uma diversidade de filosofias fundamentais. Algumas tem, atualmente, influência maior, enquanto outras estão em suas infâncias:

* Os conservacionistas, uma das filosofias antigas dos movimentos ambientais. O ambiente e a natureza devem ser usados e protegidos ao mesmo tempo. Por isso, se baseia em uma visão antropocêntrica e a natureza não tem direitos para além de servir aos interesses dos seres humanos.

* Os preservacionistas, do século XIX. A natureza existe para ser desfrutada e deve, portanto, ser preservada e protegida para nosso agrado futuro. Novamente, se baseia em premissas antropocêntricas, sua utilidade é somente como benefício para o ser humano, ainda que com fins mais benignos.

* Ecologia social e ecofeminismo, ambos só recentemente definidos e até agora não resultaram em instituições sem fins de lucro. Ao contrário, passaram a formar parte de outros movimentos ambientais. Depositam grande valor no ser humano e sua existência, mas reconhecem a característica única da natureza. Solucionariam os conflitos ambientais conciliando os conflitos nas relações humanas.

* Ecologia superficial ou reformista, a luta a contaminação e a diminuição ou desaparecimento de recursos, pois se tem como objetivo central proteger a saúde e as condições de vida dos habitantes dos países desenvolvidos.

A Ecologia Profunda

Estabelecida por Arne Naess, como termo e sem intenções de que se transformasse em uma ideologia de alcance tão longo. Não propôs algo realmente novo, mas sim algo que gera uma visão integrada de vários conceitos. Se estabelecem fundamentações basais, segundo Naess:

1 - O rechaço de que o ser humano seja apenas um organismo no ambiente, ao contrário estabelecendo a imagem de relação total integrada.

2 - A igualdade biocêntrica, todas as coisas naturais, os ecossistemas, a vida, as paisagens, os solos, montanhas, etc., todos tem um direito intrínseco a existir. A presença desse valor é independente de qualquer consciência, interesse ou apreciação de um ser consciente.

3 - A autorrealização e a diversidade de formas, sejam organismos, comunidades, ecossistemas, paisagens, etc., ou no âmbito humano: os direitos humanos, formas de vida, culturas, igualdade dos sexos, luta contra invasão e dominações de tipo cultural, econômicas e militares, etc.

Segundo Bill Devall, existem duas grandes linhas de ambientalismo na atualidade:

* Os ambientalistas reformistas, que buscam controlar o pior da contaminação aérea, aquática e os usos ineficientes de solos nos países industrializados e salvar alguns pedaços que ficam de natureza como "áreas designadas como reservas naturais".

* Os "ecologistas profundos", apoiam algumas das mesmas metas que os reformistas, mas são revolucionários no sentido de que buscam uma nova cosmovisão.

Se denominam também ecopsicologia, ecologia fundacional, ecologia radical ou ecologia revolucionária, mas pelas associações que alguns termos trazem, se prefere "ecologia profunda".

Ambas são reações aos êxitos e fracassos do paradigma social dominante.

Um paradigma é uma breve descrição de uma cosmovisão, uma coleção de valores, crenças, hábitos e normas que formam o marco de referência da generalidade das pessoas que compartilham um país, uma religião ou uma classe social.

"Um paradigma social dominante é uma imagem mental da realidade social que guia as expectativas em uma sociedade".

Nos EUA e consequentemente no Chile o paradigma dominante inclui a crença no "crescimento econômico", medida pelo "Produto Nacional Bruto", como medidor de progresso. A crença de que a meta principal do governo das nações, depois da defesa, é criar as condições que aumentarão a produção de comodidades e que assim atenderá aos desejos materiais dos cidadãos, junto com a crença de que a "tecnologia solucionará os problemas". A Natureza neste paradigma é só um armazém de recursos que deveria ser "desenvolvido" para satisfazer as necessidades crescentes de um número crescente de habitantes. O novo tem precedência sobre o velho. A meta das pessoas é a satisfação pessoal de necessidades e um padrão de vida mais alto mensurado através da posse de comodidades (carros, casas, etc.)

Para alguns autores, este paradigma deriva de origens judaico-cristãs, do homem vs a natureza, do homem em guerra com a natureza. Para outros se deve à estrutura do capitalismo ou derivado de Locke, em cuja visão a propriedade deve ser "melhorada" para torná-la mais valiosa para o "dono" e a sociedade.

Para outros é o derivado do "cientificismo" do Ocidente moderno, fazendo referência à técnica de dominação.

A Ecologia Profunda tem como premissa uma integração total da pessoa-em-natureza. Não está nem por cima, nem fora da natureza. É uma parte íntegra da criação em movimento. Uma pessoa respeita, cuida e mostra reverência pela natureza, respeito pela natureza não-humana, deixa que a natureza não-humana siga destinos evolutivos separados. Por isso, a diferença dos reformistas, não é um movimento pragmático, mas questiona e apresenta alternativas às formas convencionais de pensamento ocidental moderno. Entende que algumas das "soluções" dos reformistas são contraproducentes e busca, por isso, a transformação de valores e organização social.

O maior influxo veio das culturas orientais, do espiritualismo oriental, através de Alan Watts, Daisetz Suzuki. Estas lhe transmitiram uma visão radicalmente distinta do homem/natureza. Influente foi, também, o ecofilósofo Gary Snyder.

Começou-se a realizar comparações e paralelos entre tradições filosóficas relacionadas com a ciência, tecnologia e relações homem/natureza:

* Tao da Física, Fritjof Capra, fazendo um paralelo entre as filosofias orientais e a ciência física moderna.

* Joseph Needham, Ciência e Tecnologia na China, que pôs em evidência o alto nível de ciência, tecnologia e civilização alcançada pelo Oriente por milênios, dando um enfoque alternativo à ciência e aos valores humanos.

* Trabalhos de Huston Smith e outros ressaltaram a crise ambiental e a relacionaram com os valores dominantes no paradigma ocidental, e por isso olharam para as filosofias orientais como guias religioso-espirituais.

Segundo influxo:

A reavaliação das culturas nativas, de índios americanos, não como "nobres selvagens", mas objetivamente sob uma lupa comparativa, analítica e crítica. Como eles agiam perante mudanças ambientais e inovações tecnológicas. As realidades "separadas" eram o que aos olhos dos nativos? Carlos Castañeda e sua experiência demonstram que intelectuais ocidentais estão quase completamente despreparados para compreender tradições esotéricas. A visão de nativos americanos contrasta de forma notável com o paradigma ocidental, como exemplo, uma citação de Luther Urso Parado, um sioux oglala: "Nós não pensávamos que as grandes planícies, nem que as amplas colinas, nem que os sinuosos esteiros emaranhados com crescimento eram "selvagens". Só para o homem branco a natureza era 'selvagem', só para ele a terra estava 'infestada' de animais e pessoas 'selvagens'. Para nós, ela era domesticada. A Terra era frutífera e estávamos rodeados pelas bênçãos do Grande Mistério. Não foi até que o homem peludo chegou do leste, que com sua loucura gerou injustiças sobre nós e nossas famílias, que ela se tornou 'selvagem'. Quando até os animais dos bosques começaram a fugir diante dele, foi aí que começou o 'Oeste Selvagem'."

Terceiro influxo:

A "Tradição Minorista" de setores religiosos e filosóficos ocidentais, como Spinoza, Leopold, Muir, Teofrasto, São Francisco de Assis, etc., que defendiam um entrelaçamento indissolúvel entre Deus-Natureza-Homem. Alguns autores influentes veem o filósofo Spinoza como o criador de uma ética de igualdade biosférica.

Quarto influxo:

A ecologia, mas mais como perspectiva, e não como ciência. Portanto, não tem funções de remediadores, postura que é muito próxima a de um engenheiro ambiental, função rechaçada pelos ecologistas profundos, mas como subversivos em suas perspectivas, líderes intelectuais como Aldo Leopold desafiam as maiores premissas do paradigma social dominante.

Último influxo:

Artistas que se contrapuseram à arte pop, ao minimalismo e às artes conceituais, como Ansel Adams, Morris Graves e Larry Gray. Mostram uma clareza e objetividade em suas visões da natureza.

Portanto, a Ecologia Profunda propugna por:

1 - Uma nova metafísica cósmica/ecológica que ponha ênfase na identidade dos humanos com a natureza não-humana como única maneira viável de estabelecer uma ecofilosofia. A igualdade biológica. Se demanda uma aproximação objetiva da natureza.

2 - Uma nova psicologia que possa integrar a metafísica na mente da sociedade pós-industrial.

3 - Que haja uma base objetiva para o ambientalismo, mas não baseada na estreita concepção analítica do método científico dominante na atualidade. Baseando-se na sabedoria antiga e na perspectiva antiga da ciência como contempladora do cosmo e ampliadora do conhecimento de si mesmo e da criação.

4 - Que há uma sabedoria intrínseca nos processos naturais não perturbados por ações humanas.

5 - Que nem a qualidade, nem o bem-estar humanos devem ser mensurados com base na quantidade de produtos. A tecnologia deveria passar a ser um meio adequado ao bem-estar humano, não como fim em si mesmo.

6 - Que se deve determinar o nível óptimo de carga do planeta, da biosfera, de setores específicos, etc. Uma redução drástica do crescimento demográfico deveria ser realizado através de métodos humanos de controle de natalidade.

7 - Que a economia deve estar subordinada a critérios ético-ecológicos. A economia deve passar a ser uma subárea da ecologia.

8 - Que a sociedade industrial não é algo que toda sociedade deva necessariamente tratar de alcançar e imitar.

9 - Que a diversidade é desejável culturalmente e como fundamento de saúde e estabilidade nos ecossistemas.

10 - Que é necessária uma tendência rápida rumo a métodos "suaves" de geração de energia e de utilização de tecnologias "adequadas". Portanto, uma redução drástica do consumo energético em países desenvolvidos e incrementar energia "adequada" em países subdesenvolvidos.

11 - Que a educação deve fomentar como objetivo principal o desenvolvimento espiritual e da personalidade dos membros de uma comunidade.

12 - Que deve haver mais ócio sob a forma de contemplação das artes plásticas, das danças, da música e das destrezas físicas como ponto de partida para o desenvolvimento pleno dos indivíduos e das realizações culturais.

13 - Que deve haver autonomia local e descentralização.

14 - Que setores da biosfera e do meio ambiente devem ser declarados fora de limites para a exploração industrial e para o assentamento humano em grande escala, até que se atinja uma economia estável e padrões sociais modificados.

Tabela de Resumo

PARADIGMA
DOMINANTE
ECOLOGIA
PROFUNDA
Dominação sobre a natureza
Em harmonia com a natureza
Ambiente natural como um recurso para os humanos
Toda a natureza tem valor intrínseco
Crescimiento material e econômico para uma população cresciente de humanos
Necessidades elegantemente simples
Crença em recursos e reservas amplas, ilimitadas
Reservas terrestres limitadas
Progresso e soluções de alta tecnologia
Tecnologia apropiada, ciência no-dominante
Consumismo
Viver con o que é suficiente/reciclagem/eficiência
Comunidade
centralizada/nações
Tradições minoritárias/biorregiões

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