domingo, 21 de agosto de 2016

Paranoia Agent: Cultura Kawaii como Resíduo da Cortina Nuclear

por Otakismo


"A criança perdida é o magnifico cogumelo no céu", e assim começa a abertura do anime Paranoia Agent.

O falecimento de Satoshi Kon é um prejuízo irremediável para a animação japonesa tendo em vista a força de sua 'marca' como o principal nome da nova safra de diretores que está pegando o bastão da geração de Hayao Miyazaki. O mundo perdeu um trabalhador incansável, original, ácido, antenado e sensível antes mesmo dele alcançar seu ápice criativo. Felizmente a besta do câncer jamais nos tomará a excelência de seu pequeno legado. Muito celebrado por seus filmes na forma de animação, onde trabalha compulsivamente em cada detalhe de roteiro e estética, acaba eclipsando sua única aventura nos animes com formato padrão de episódios, Paranoia Agent. Com recursos e prazos mais apertados, Kon não pôde empregar seu característico esmero na produção dessa série, em compensação, abusou do experimentalismo para contar uma história criativa, atual e confrontadora. Sem dúvidas, minha obra favorita de sua autoria. Só leia se você assistiu ao anime, pois abusarei dos spoilers. Até porque você não vai entender muita coisa sem ter assistido, ao mesmo tempo em que perderá a surpresa caso resolva assistir. Se ainda não assistiu, tome esse post como um convite para o ato, pois o título é imperdível em seus 13 episódios. Depois volte e comente.

O anime começa nos mostrando Sagi Tsukiko, a character design responsável pelo grande sucesso kawaiido Japão, o fofinho e lânguido cachorrinho rosa chamado Maromi. Com seus olhos cansados, Maromi é uma febre que movimenta muito dinheiro na forma de absolutamente todas as espécies de produtos licenciados, tem série animada, CD, pelúcia e tudo mais. Uma versão fictícia dos reais Doraemon, Pikachu, Hello Kitty e todos os outros bichinhos kawaii que sufocam o mercado de massa japonês com seu onipresente aroma de tutti-fruti. Tsukiko, no entanto, é intimada por sua empresa para dar sequência no sucesso de Maromi através da criação de um novo personagem.

O problema é conseguir criar algo que supere ou ao menos iguale um fenômeno. Se você quer ter noção do que é isso, tente se colocar no papel dos Beatles compondo o disco imediatamente após o Sgt. Peppers, quando o mundo esperava uma nova mágica dos garotos de Liverpool para balançar as estruturas dos anos 60. Mágica é a força que Tsukiko precisava para conseguir dar conta de sua missão, cada vez mais pressionada por demandas insustentáveis e hostilidade das companheiras de trabalho, invejosas do dinheiro e prestígio conquistados por ela com Maromi. Quando estava prestes a jogar a toalha, Tsukiko é agredida com um bastão de beisebol por um garoto ginasial em patins dourados. Hospitalizada, Tsukiko vê seus prazos serem flexibilizados e um sabor de alívio paira em sua boca.

Kawaii, kawaii, kawaii...
O agressor passa a atacar pessoas Japão afora com seu taco e o anime ganha rumos detetivescos com as investigações dos agentes Ikari e Maniwa da polícia japonesa. A primeira metade do anime mostra diversas histórias paralelas, personagens distintos que se entrelaçam numa rede social complexa, todo conectados pela mesma liga: o agressor do taco de beisebol, o Shonen Bat. Todos foram atacados impiedosamente pelo delinquente juvenil enquanto a polícia buscava evidências para capturar o pequeno marginal.

Maniwa, ao perceber a incapacidade de capturar o sujeito por vias policiais clássicas, atenta para um fato importante. As vítimas foram todas atacadas em momento de desespero, em situações onde não viam mais saída para seus problemas. Possuídos pela paranoia, eram atacados e encontravam conforto na cama do hospital, que não cobrava nada deles. Todos ficavam aliviados. Tsukiko teve seus prazos flexibilizados, Icchi não poderia mais ser acusado de algo que ele próprio foi vítima, o guarda pedófilo se viu livre das extorsões que o obrigava a cometer crimes, a professora-prostituta acalantou momentaneamente seu transtorno dissociativo de identidade. 

Todos pareciam apreciar os resultados da agressão e as reflexões de Maniwa ganham novo sentido quando, ao entrevistar uma moradora de rua, descobre que Tsukiko não foi atacada porcaria nenhuma, ela forjou sua agressão batendo na própria cabeça com um cano metálico. A questão inicialmente levantada por Ikari começa a rondar a cabeça de Maniwa... Existe mesmo um criminoso?

Maromi e a sombra de Shonen Bat...eles são iguais? Maromi é um personagem de cura ou apenas um preguiçoso?
Sim, existe um criminoso, mas ele não calça patins nem sai por aí sentando o cacete na cabeça das pessoas que precisam de uma válvula de escape para seus problemas particulares (afinal, como alguém saberia quem está pressionado?). O criminoso existe, mas é intangível. O Agente da Paranoia não é uma pessoa física, é a semente de Baobá plantada em todos nós que pode ser mais ou menos regada pela imaginação, pelos rumores, pelos indeléveis temores humanos. Shonen Bat é uma metáfora brilhante de Kon para nossos tempos modernos, onde pedimos que um milagre ou um deus ex machina interfira em nossa vida para nos redimir da responsabilidade e da culpa. Essa construção simbólica ainda é universal, diz respeito à vida em qualquer metrópole do planeta. Kon é japonês e, preocupado com a realidade do seu país - de virtualização da vida - fez de Maromi outra peça de brilhantismo.

O cachorrinho kawaii não é um personagem citado por acaso apenas para mostrar o desespero da designer, mas sim a força motriz do anime ao lado do Shonen Bat. Maromi significa fuga, escapismo, justificativas. O "círculo de paz" criado por Maromi no Japão fictício de Paranoia Agent (segundo as palavras da Tsukiko) na verdade é um embrulho bonito para alienação. A presença de Maromi por todos os cantos, em todas as idades (como de fato existe no Japão real com personagens reais) através dos produtos licenciados é uma representação genial para a percepção de um Japão que ainda vive imerso em culpas, sem aceitar o peso de seus atos e responsabilidades.

Don't feed the trolls, eles se alimentam de imaginação
A posse dos artefatos da Maromi por parte dos personagens, segundo minha leitura, é evidência artística de fuga da realidade, virtualização da vida. Quando você reassiste sabendo o que cada coisa significa, o diferencial de Satoshi Kon estoura na tela, pois ele trabalha isso de modo muito eficiente. Quando um personagem está com um chaveiro ou pelúcia do Maromi, entendemos muito bem sua função alienatória, jogando alguma sujeira ou temor para baixo do tapete.

Kon foi muito crítico com a sociedade japonesa e com a subcultura otaku. Ben Hamamoto do Nichi Bei Times publicou um artigo em 2006 em duas partes chamado Entertainment Re-oriented: Atomic Pop. A primeira parte se chama It created a Monster, mas eu não achei na internet (se alguém souber onde tem, ou tiver, por favor me avise). Já a segunda atende pelo nome Hello Kitty and the Rape of Nanking. Pesado, não? Hamamoto joga no time dos que defendem as bombas atômicas como os pais da cultura kawaii japonesa, parida com o intuito de mascarar as atrocidades cometidas pelo Império Japonês na Segunda Guerra Mundial.

Maromi é tudo o que precisam para a ilusão do relaxamento
"Renderizar um país através de uma figura bidimensional fofinha também proporciona uma forma de mascarar o cadáver ensanguentado do cachorro que é o Japão Imperialista. Experiências com humanos (incluindo vivissecções sem anestesias), rapto de mulheres para servirem de escravas sexuais, e o infame Massacre de Nanquim; todas essas coisas escondidas debaixo do olhar tolo da Hello Kitty. O Japão foi também um participante extra-oficial na Guerra do Vietnã, Guerra da Coréia e nas Guerras do Iraque. Ainda sim o Japão é visto como inocente e pacífico." - Ben Hamamoto.

Até hoje o Japão enfrenta problemas diplomáticos com os países asiáticos, sobretudo com China e Coreias, por não assumir alguns crimes de guerra extensamente documentados nem tratar o assunto como deveria nas escolas públicas. O país tem uma dificuldade enorme de virar a página, assumindo culpas. O agressivo Japão foi silenciado pelo cogumelo nuclear e pela ocupação americana, enterrando nesse silêncio suas responsabilidades.

Suposto registro do Massacre de Nanquim. Existe uma onda revisionista forte que afirma a falsidade das provas (não do massacre em si, mas das provas pictóricas apresentadas pelo governo chinês bem como o número de mortos em tão pouco tempo)
Essa dificuldade de enfrentar a realidade que é estampada pelo alienador Maromi. O cão ajudava os personagens a fugir da realidade e buscar refúgio mental em um lugar onde simplesmente não precisasse enfrentar os problemas. Na linguagem freudiana, Maromi incentiva o recalque pura e simplesmente, não a solução dos problemas. Não sofra nem por um instante, fuja do perigo, tenha uma vida completamente ausente de tormentas. Não é esse o mentiroso e venenoso discurso publicitário-corporativo que afirma todos como capazes de viver uma vida plena de constante felicidade, contanto que se esforcem o bastante para ter o dinheiro que a sustente? (como se equilíbrio na estrutura psíquica se construísse consumindo pílulas ou cultura de massa). E o personagem Maromi (Hello Kitty, Pikachu) está a serviço de quem mesmo?

Numa construção brilhante, o detetive Ikari se refugia, com a ajuda do chaveiro Maromi, no relicário de sua infância, o Japão dos anos 60 ou 70, onde as fábricas abundavam, os homens usavam chapéu, os vendedores eram corteses, as mulheres cozinhavam na rua e as crianças nela urinavam. Notamos, no entanto, que esse Japão que só existia nas boas lembranças dele, apesar de colorido é bidimensional. É fake, claramente falso, intangível, inverossímil, um simulacro (parece feito de madeira). Ao perceber que ele estava fugindo da dura realidade (doença da esposa e perda do emprego de prestígio) rumo ao nostálgico baú das lembranças de tempos melhores, ele rebate o chaveiro de Maromi como uma bola de beisebol. Essa realidade bonita, porém falsa, se estilhaça como um espelho com o golpe do chaveiro (golpe da verdade, na verdade).

O mundo real emerge escuro e frio, porém tridimensional e verossímil. Não importa quão dura seja a realidade, o ser humano é forte o bastante para encará-la, pois é somente no agora que existe a existência e a deliberação sobre a existência! Ela às vezes é dura, mas quem disse que não deve ser? Uma vida ausente de dores também é ausente de referências e padece por falta de estrutura. Nunca deve ter existido uma juventude tão fraca psiquicamente como a atual. A mesma que desconhece o sentido da palavra privação e acredita no significado do termo fome como aquilo que sente momentos antes do jantar. O personagem Chiaki Asami do mangá Sanctuary lamenta: "Esse Japão é próspero demais..."

"O que estou tentando promover não é o bem-estar e a prosperidade de agora. É o Japão... O futuro do povo japonês!! Não existe futuro para um povo, ou melhor, para uma nação mimada como a nossa..." - Chiaki Asami (Sanctuary vol. 3)

Uma dúvida constante entre quem assiste Paranoia Agent é: Pô, mas o caso de Sagi Tsukiko sozinho foi o suficiente para envolver tanta gente e destruir a cidade? Não. Novamente recorro ao clássico Evangelion para elucidar esse ponto. Em Eva, nos dois episódios finais nós focamos no processo de instrumentabilidade humana de apenas uma das pessoas que se submeteram a ele, Shinji Ikari. Apenas no caso de Shinji vemos o processo do começo ao fim, mas isso não significa que ele foi o único, apenas nos foi mostrado um caso com exatidão para que pudéssemos conhecer o projeto e imaginar o que foi feito com todos os demais.

O mesmo para Paranoia Agent, aqui de forma bem mais clara. Focamos no caso de Tsukiko mas ela não é única. No nono episódio, onde vemos aquele monte de casos (do vestibulando suicida, do pugilista que se rende aos alimentos, do médico que errou a inseminação e outros), Satoshi Kon finaliza o episódio subindo a câmera e no formatos dos prédios se lê "ETC". Um claro recado, o Shonen Bat está solto por ai, desde tempos longínquos, afetando de prostitutas a estudantes. Como se dissesse: Te apresentei alguns casos, mas você sabe que os exemplos são infinitos. Etc, etc, etc...

- Maromi: "Você só está cansado. Tire uma folga"
O final da série (espero que você tenha assistido o encerramento do 13º episódio, pois tem conteúdo depois dele) mostra a história cíclica. Resolvido o caso Tsukiko, temos um gatinho kawaii fazendo o papel de Maromi, pessoas praguejando em seus celulares dentro do trem (virtualização da vida), uma nova garota com problemas e Maniwa, agora experiente, nos advertindo que a paranoia sempre existirá e cada caso terá seu momento de solução, contanto que encarada de frente. Maniwa faz, nesse momento, o que o ancião fez durante todo o anime, dando o caminho das pedras os quais parecem grego para o jovens, mostrando que temperança e sobriedade são resultados de tempo e experiência. Enfrentar seus demônios internos sozinho e sem preparo pode ser suicídio (situação simbolizada pelo primeiro confronto entre Maniwa e Shonen Bat, onde ele saiu muito ferido). O que ele fez? Foi atrás do velho, pois a ajuda de alguém mais experiente é sempre bem vinda. Shonen Bat só sumiu para Tsukiko quando ela assumiu e aceitou o doloroso passado e a culpa por ser responsável pelo atropelamento do cachorrinho Maromi quando ainda era uma criança.

Problema é que sumiu para ela, não para o mundo...o ciclo se repete infinitamente para os próximos humanos que se sucedem. Mas como nós vamos ajudar nossos pares nesse processo se a comunicação interpessoal está cada vez mais escassa e virtualizada? Como apostar na humanidade nessa nação envenenada pela cultura de massa e pelo discurso publicitário de ausência de dor e oferta de felicidade? São questões que Satoshi Kon levanta, ou ao menos eu levanto ao ter contato com a obra dele.

Fecharei o texto falando do experimentalismo que Satoshi Kon trouxe para os episódios. Ele encontrou diversos modos criativos para contar história de cada personagem. Alguns falam que foram muitas ideias boas subaproveitadas. Talvez se algumas delas fossem melhor tratadas em algum filme seria melhor, mas já que a natureza nos separou do mestre cedo demais, Paranoia Agent fica como uma amostra menos engessada da criatividade e bom senso estético do criador. Ele usou a animação para contar uma história legal, inteligente, sem perder o espírito do anime, sem fazer da animação o mero canal para fazer um filme comum mais barato, mas sim aproveitando todas as suas vantagens sem negar suas características. 

Ele usa a metalinguagem de um mangá seinen para ilustrar a solidão e o desencantamento do policial pedófilo (e/ou talvez para mostrar como a cultura de massa influencia as pessoas, já que o cara fica usando frases de efeito dos mangás para roubar as pessoas, claro que com a adaptação "Me chame de papai!!"). Quando a polícia prende o Shonen Bat falso, as pistas são indicadas pela linguagem dos RPG's virtuais num episódio muito divertido (novamente a cultura industrial usada para perverter as fronteiras entre real e virtual). Em um dos episódios ele mostra o stress dos membros da equipe de produção do anime feito em cima do personagem Maromi, explicando a função e as dificuldades de cada cargo do time, numa deliciosa viagem pelo processo de criação de animação (como Bakuman mostra, de modo muito mais lúdico, o processo do mangá). É criativo, é divertido, é embasado e é ácido ao mesmo tempo!

O problema do suicídio... (no entanto, Maromi os acompanha).
Destaco outro episódio genial. O de três pessoas (um velho, um homossexual adulto e uma menina) que combinam pela internet um suicídio coletivo, discutindo métodos e motivos. O episódio não é dirigido de forma trágica, pelo contrário, ele é muito cômico, pois todas as tentativas de suicídio aparentemente não dão certo. Eles lamentam o fato do Shonen Bat não buscá-los já que estão loucos para morrer, uma vez que ele está atacando geral os japoneses. Hamamoto diz no artigo já citado que "você não pode morrer se já está morto", no sentido morto apesar de vivo, alguém que não aproveita a vida, daí os fracassos nas tentativas de suicídio. Eu enxergo uma visão mais tóxica do Satoshi. Os três não estão desesperados coisa alguma, são só pessoas entediadas pagando de niilistas e gritando aos sete mares as 'dores de viver', são só pessoas mimadas. Desesperados estão os outros que foram perseguidos pelo Shonen Bat, alguns lutando, alguns fugindo. Esses três estão apenas cansados de não fazer nada, de ficar na internet debatendo métodos indolores de morrer. E o Japão está cheio dessas pessoas... O mais cômico é que eles começam a pegar gosto pela vida quando finalmente morrem (e não percebem). Vão viajar, pegam o trem, se divertem na hospedaria...gozam da vida buscando a morte.

Uma verdadeira pérola da animação japonesa, obrigatória para todos que acham o anime a expressão maior da apologia do vazio. Assista no mínimo 2x. Finalizo com a conclusão da coluna do Hamamoto:

"Um enigma. O que transformou o povo japonês em vítimas irrepreensíveis, limpou sua memória histórica e o deixou vazio, cordial e passivo? No anime Paranoia Agent foi o Shonen Bat. Na realidade foi a bomba atômica." - Ben Hamamoto)

Ao mestre, obrigado. Satoshi Kon

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