quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Juan Pablo Vitali - Por que quase não há poetas ou guerreiros?

por Juan Pablo Vitali


Crianças de fogo e cinzas 
Cidades arrasadas no ar

A poesia e a guerra nasceram juntas. Quando o homem tateia a morte, inevitavelmente sente a necessidade de vincular-se a algo mais elevado que ele, superá-lo, transcendê-lo. Os povos indo-europeus nos deixaram extensos testemunhos desse intento. O Bagavadguitá, a Ilíade, as sagas escandinavas, as lendas arturianas, as canções de gestas, etc., tudo forma parte de uma tentativa de superação da morte mediante símbolos estéticos, que são também símbolos sagrados. 

No instante final do combate aquilo que é considerado essencial são poucas coisas. Os antepassados e os deuses, tornaram-se parte do guerreiro. Estavam vivendo no mesmo mundo, definitivamente, embora o guerreiro ainda permanecesse vivo. 

Por isso, tanto a poesia quanto a guerra andam juntas pois os valores do último momento são de algum modo absolutos, e porque a morte material deve ser superada por uma alma imortal que foi conquistada em batalha. 

Não há nada mais poético que a morte de um guerreiro. Essa morte implica uma mudança no próprio universo, na sucessão de sangue, na comunidade que o gerou e também nos mundos invisíveis onde vivem os guerreiros que o precederam. 

Não há guerra sem poesia. A morte converte o caído, ipso facto, em um superhomem. Não importa se essa morte em particular não for cantada por um poeta. Não existem mortes particulares quando o guerreiro foi ingressado como cidadão nessa república aristocrática da morte com honra. 

Há, sem dúvida, uma glória comum a todos os fiéis. Benditos são aqueles que além de lutar sinceramente o fazem por uma causa justa. Os que lutam sem propósito terão também seu lugar, mas os sinceros de justa causa se elevarão sem dúvida à categoria de semideuses.

Na entrega do sangue está, provavelmente, a estética absoluta de um espírito poético, porque a sensibilidade do poeta e do guerreiro são semelhantes. Somente é diferente sua forma de atravessar a realidade, em uma viagem para uma realidade mais elevada, dourada, pura, brilhante e fatal. Sobrehumana, no sentido nietzschiano. 

A medida que o tempo passa, é mais raro encontrar uma expressão poética ou uma ação guerreira (heroica). Quase não há poetas ou guerreiros. Eles se tornaram parte de uma realidade extemporânea. Os homens desta época morrem de forma intrascendente.

A degradação torna difícil a poesia, que desaparece à medida que a guerra está desaparecendo no sentido antigo. Poucos homens hodiernos compreendem o sentido primordial e sagrado da poesia e da guerra. 

Algum dia, passado milênios de milênios, esse sentido sacro das coisas retornará, para expressar-se novamente em sua real dimensão.  Entretanto, sempre há um pequeno espaço e um breve instante onde a estética e o pensamento atravessam a modernidade. É um ponto às vezes mínimo, mas através dele podemos atravessar a eternidade, como nossas avós enfiavam o fio no buraco de uma agulha de costurar. 

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