terça-feira, 8 de novembro de 2016

Aleksandr Dugin - A Revolução de Outubro

por Aleksandr Dugin



Hoje, 7 de novembro, é o dia da Revolução Bolchevique de Outubro, uma data terrível e importante.

Há muito que deve ser dito sobre a Revolução de Outubro. Essa é, indubitavelmente, uma parte de nossa história e somos responsáveis por ela. Portanto, estamos simplesmente obrigados a compreender o sentido desse evento.

Primeiramente, nos tempos soviéticos, a Revolução de Outubro era reverenciada como algo praticamente sagrado, como um evento seminal marcando o início do ciclo soviético.

Na URSS, essa data era considerada como o início do tempo infinito eventualmente levando ao comunismo. Mas como acabou sendo, essa foi apenas uma época que se iniciou em outubro de 1917 e terminou em 1991. Isso significa que o entendimento soviético da Revolução de Outubro estava profundamente incorreto. Nós tomamos uma coisa por outra e tolamente nos apegamos a uma velha interpretação. Precisamos encontrar uma nova explicação para este evento, já que a soviética acabou se mostrando falsa.

Em segundo lugar, essa avaliação positiva, idealizada de outubro de 1917 dominou em nossa sociedade como a única possível por 70 anos.

Ela era falsa, o que significa que precisamos encontrar outra. E é importante levar em consideração a posição da outra metade do povo russo, que não era a favor dos Vermelhos, mas dos Brancos. Para os Brancos, a revolução foi resultado de uma monstruosa conspiração de uma seita puramente infernal e satânica que lançou mão de mentiras e violência para tomar o poder e radicalmente abandonou qualquer legitimidade após a dissolução da Assembleia Constituinte. Ademais, os Brancos especialmente enfatizavam que os bolcheviques consistiam em boa parte de minorias nacionais e dependiam de brigadas estrangeiras, como rifleiros letões ou até soldados chineses. Em outras palavras, Outubro era visto como uma tomada violenta do poder por uma organização terrorista russofóbica. Essa avaliação puramente negativa está provavelmente tão longe da verdade quanto a soviética. De fato, ela está. A teoria conspiratória dos Guardas Brancos é tão inaceitável quanto a idolatria soviética da Revolução de Outubro.

A verdade, aqui, é um pouco assimétrica. Todos estão familiarizados com a interpretação comunista equivocada, enquanto bem poucos de nossos cidadãos estão familiarizados com a versão dúbia e simplista da Guarda Branca. É necessário, no mínimo, consertar esse erro e equiparar duas teorias igualmente questionáveis, tanto o sem-sentido Vermelho da natureza socialista da revolução (em um país agrário com capitalismo subdesenvolvido e quase sem proletariado!) e o sem-sentido Branco de uma conspiração judaica. Mas já que o sem-sentido Vermelho está representado em milhares de filmes e peças, então que haja tantos monumentos ao sem-sentido Branco também. Nós já temos uma explicação tola de Outubro na forma da versão comunista, que é uma mentira tão difundida que qualquer tentativa de publicar as teorias da Guarda Branca no espírito de Ataman Krasnov imediatamente provoca uma onda de protestos. Desde a perspectiva da justiça histórica, hoje os Brancos precisam de espaço absolutamente livre. Eles devem até ser auxiliados nisso até que o equilíbrio seja restaurado, especialmente já que a percepção de Outubro como uma tragédia é inteiramente justificada, na medida em que nosso povo pagou por isso com milhões de vidas de seus melhores filhos e filhas.

Em terceiro lugar, devemos procurar explicar o significado histórico genuinamente profundo da Revolução de Outubro, ou golpe de Outubro, para além das interpretações simplistas e incorretas de Vermelhos e Brancos.

Porém, aqui nos deparamos com um importantíssimo problema metodológico. A história é a ciência da interpretação de fatos, e não só os fatos em si mesmos. Fatos sem interpretações não existem. Portanto, é impossível avaliar um evento ideológico como a Revolução (ou golpe) sem nos basearmos em algum tipo de ideologia. Os Vermelhos e Brancos tem suas plataformas ideológicas. Mesmo suas explicações falsas e contraditórias são mais confiáveis que as teorias inúteis daqueles que reivindicam objetividade. Não há objetividade na história, ela é só uma figura retórica de linguagem. Assim, até que determinemos a cosmovisão de plataforma da nossa sociedade contemporânea, e até que nos reconheçamos hoje, o significado dos eventos de outubro de 1917 permanecerá inacessível e fechado para nós.

Em quarto e último lugar, 1917 foi um fenômeno interrusso. Este foi um monstruoso drama para alguns e um grande feito para outros.

Só nós mesmos, russos, podemos decidir o que 1917 foi na verdade e como isso se relaciona com a lógica geral da história russa. Este é nosso problema e nossa revolução. Portanto, apenas nós temos a tarefa de completar esse quebra-cabeça. Mais ninguém.

Outubro tentou muitos grandes pensadores e poetas russos que viram na revolução um evento escatológico e até o advento da Hora Russa. Quase todos eles se arrependeram depois. Mas isso não significa que eles esperavam a Hora Russa em vão. Dito simplesmente, a verdadeira Revolução Russa ainda está no futuro.

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